LUCAR Cirilo. — I. Vida. II. Obras. III. Doutrina. IV. A reação anticiriliana.
I. Vida. — 1° Juventude. Cirilo Lucar, Κύριλλος ὁ Λούκαρις, nasceu em 13 de novembro de 1572, em Cândia, na ilha de Creta, então em poder dos venezianos. No século, levou o nome de Constantino. Depois de frequentar em sua pátria a escola de Melécio Vlastos, dirigiu-se, a exemplo de grande número de seus compatriotas, aos dois principais centros intelectuais da época, Veneza e Pádua. Tinha apenas doze anos quando chegou a Veneza para seus primeiros estudos. Um de seus compatriotas se ilustrava então na cidade das lagunas; era Máximo Margúnio, bispo de Cítera, com o qual manteve uma correspondência muito regular, na qual se veem os dons intelectuais do estudante afirmarem-se e brilharem com não menos esplendor que os do prelado. Os estudos superiores levaram Lucar a Pádua; ali seguiu os cursos de Cremonini e os de Piccolomini, cujo ceticismo elegante não deixou de exercer certa influência sobre seu espírito; ali encontrou também o jesuíta Possevino e, sem dúvida, o discípulo deste, o ilustre Francisco de Sales que, em 1591, conquistava o grau de doutor; não parece, contudo, que o futuro bispo de Genebra tenha travado relações com o futuro chefe da ortodoxia grega.
Lucar deixou Pádua para ir a Constantinopla, aonde o chamava seu protetor, Melécio Pegas, patriarca de Alexandria, tornado administrador do patriarcado ecumênico. Sua estada no Ocidente lhe permitira adquirir, além dos conhecimentos clássicos, as línguas latina e italiana, das quais o veremos servir-se, se não com elegância, ao menos com facilidade. Permaneceu um ano junto de Melécio; já era sacerdote em julho de 1594; galgou rapidamente os degraus da hierarquia; em 1595, é promovido à dignidade de síncelo patriarcal de Alexandria; em 1596, é encarregado de uma missão na Polônia e torna-se reitor da academia de Vilna. Certos autores pretenderam que passou nessa época pela Alemanha e pela Suíça, visitando Wittemberg e Genebra, estudando de perto a Reforma, que preocupava então todos os espíritos; seja como for, é certo que em outubro de 1596 se encontrava em território polonês.
A Polônia era então o teatro de acontecimentos gravíssimos: o rei Sigismundo III, que empregava os mais louváveis esforços para realizar a unidade religiosa no país, acabava de chegar a um resultado: em 1595, em Brzesc, cidade nos confins da Lituânia e da Polônia, um sínodo proclamara e assinara a união com Roma. Mas esse gesto nacional encontrara, infelizmente, logo em seguida, uma viva oposição. O príncipe Constantino de Ostrog, um dos grandes chefes da nobreza e descendente dos duques de Kiev, colocara-se à frente dos descontentes, por despeito; havia sonhado negociar ele próprio com o soberano pontífice, como outrora João Paleólogo em Florença, mas fora afastado. Escreveu às autoridades religiosas de Constantinopla pedindo o envio de um exarca à Rutênia; enviaram-lhe o prelado Nicéforo. Este e Cirilo Lucar foram seus associados na luta que ele travou ao mesmo tempo contra os latinos e contra os uniatas. Lucar ensinou algum tempo na própria cidade de Ostrog; cumpre assinalar, entre seus alunos, o filho do reitor da Academia, aquele Máximo Smotrycki, que viria a ser um dos chefes do cisma na Polônia, mas que o sangue do mártir são Josafá Kuncewicz haveria de converter e transformar em apóstolo da união.
Em 1599, em Vilna, numa reunião composta de nobres e de teólogos luteranos, o príncipe Ostrogski concluía uma aliança com os protestantes; tratava-se não de entender-se sobre a doutrina, mas de organizar uma campanha comum contra os latinos e contra os uniatas. Lucar, promovido havia um ano a grande arquimandrita e exarca, não deixou de favorecer essa aproximação entre ortodoxos e reformados. Mas seu zelo nesse negócio lhe atraiu singulares dissabores; suspeitaram-no de calvinismo e, em 24 de janeiro de 1601, viu-se obrigado a emitir a profissão de fé contrária, de que falaremos adiante, col. 1014. No mês de março do mesmo ano, depois de ter servido de intermediário entre Melécio e Sigismundo III para os projetos de união iniciados por este último junto ao patriarca egípcio, Cirilo deixava definitivamente a Polônia e retomava o caminho do Oriente. Em sua passagem pela Valáquia, travou conhecimento com um sábio, Marcus Fuxius da Transilvânia, cujas conversas causaram profunda impressão em seu espírito. Voltou ao Egito, mas pouco tempo depois partiu de novo para Creta. Foi no decurso dessa última viagem que encontrou pela primeira vez o amigo que haveria de lhe ser profundamente dedicado, o fidalgo holandês Cornélio Van Haga.
2° O patriarca de Alexandria (1602-1620). De volta ao Egito, Cirilo, cansado de suas inumeráveis peregrinações, podia pensar em repousar de sua vida de aventureiro. Um posto de primeira ordem veio a propósito satisfazer suas ambições. Em 1602, Melécio Pegas morreu; sua sucessão passou a seu protegido, como ele próprio havia disposto, e Lucar, mal tendo trinta anos, foi logo sagrado patriarca de Alexandria. Segundo o relato de seu amigo Melécio Pantagalos, metropolita de Éfeso, ocupou essa sé durante dezoito anos. Não que não tivesse querido trocá-la mais cedo pela sé ecumênica de Constantinopla. Os negócios constantinopolitanos o ocuparam, com certeza, tanto quanto, se não mais, que os de Alexandria. Tendo sido Neófito II deposto por causa de nepotismo e exilado em Rodes, em janeiro de 1612, foi Cirilo Lucar quem fez o interinato. Mas essa primeira instalação no trono ecumênico durou apenas um mês. «O patriarca de Alexandria, escreve um jesuíta, não se dizia patriarca absoluto, temendo o que lhe aconteceu nestes dias passados, um mês após sua assunção, tendo sido demitido pelo metropolita de Patras-la-Vieille, a quem o patriarca havia dado sua renúncia.» A. Carayon, Relations inédites des missions de la Compagnie de Jésus à Constantinople et dans le Levant au XVIIe siècle, Paris, 1864, p. 63. Esse metropolita de Patras-la-Vieille não era outro senão Timóteo II (1612-1620), que não cessou de perseguir Lucar. Este, afastado, retirou-se por algum tempo num mosteiro do Atos, mas um mandado de prisão lançado contra sua pessoa pelo governo turco o fez fugir o mais depressa possível e voltar para casa, no Egito.
Foi durante seu patriarcado que Cirilo travou a maior parte de suas relações e amizades com os reformados. Em 1616, entrava em relações com a Inglaterra, enviando à universidade de Oxford o jovem Metrófanes Critópulo, que confiou à vigilância do arcebispo de Cantuária, G. Abbot. Em 1618, encontra-se-o em correspondência com o apóstata Marco Antônio de Dominis, antigo arcebispo de Spalatro, passado ao protestantismo; em 1617-1619, com David Leleu de Wilhelm, conselheiro dos príncipes de Orange. Mantém as relações mais cordiais com Antônio Léger, que viria a ser capelão do embaixador holandês em Constantinopla, Cornélio Van Haga, cujo conhecimento Cirilo já havia feito antes de sua promoção à sé de Alexandria.
3° O patriarca de Constantinopla (1620-1638). Por ocasião da morte de Timóteo II, Cirilo Lucar trocou sua sé de Alexandria pela da Nova Roma (4 de novembro de 1620). Sua elevação causou grande comoção; conheciam-se suas tendências protestantes. Sustentado pelos embaixadores inglês e holandês, malvisto pelos representantes francês, austríaco e veneziano, uma verdadeira batalha diplomática vai travar-se em torno de sua pessoa. Em 30 de abril de 1623, o embaixador francês, conde de Césy, escreve a Sua Majestade cristianíssima, Luís XIII, que «procurou de tal modo a ruína do patriarca grego de Constantinopla que ele está agora fora da sé por ordem do primeiro vizir. Aquele que ocupa o seu lugar já veio agradecer-me. É um velho bonachão que era arcebispo de Amaseia, no país do Ponto.» O velho bonachão em questão chamava-se Gregório; tinha apenas um olho, seus inimigos o chamavam o Zarolho de Amaseia; seu patriarcado durou apenas de 30 de abril a 25 de junho de 1623; os metropolitas e os bispos, não podendo suportar no trono patriarcal um candidato elevado pelo grão-vizir fora das vias eletivas, designaram para substituí-lo o metropolita de Adrianópolis, que tomou o nome de Antimo II.
Nesse ínterim, Lucar fora embarcado, com os ferros nos pés, numa fragata com destino a Rodes, onde, declarava o embaixador de Césy, «terá todo o vagar para comentar as instituições de Calvino». Mal instalado, Antimo havia enviado dois metropolitas a Rodes para levar o prelado decaído a renunciar à dignidade patriarcal e a retirar-se ao monte Atos como simples caloiro. Esforço perdido: antes de sua partida, o astuto Lucar havia fabricado de todas as peças obrigações sobre o patriarcado, a fim de tornar sua posse impossível a outros que não ele próprio. Por instâncias do embaixador da Holanda, voltou à capital; tendo seu adversário, Antimo, abdicado por não poder fornecer as somas necessárias, subiu novamente ao trono em 2 de outubro de 1623. Começava seu terceiro patriarcado. Devia durar até maio de 1630. Foi ilustrado pela propaganda calvinista a que o próprio patriarca se entregou.
Em 1627, Cirilo tentou fazer publicar, por intermédio de um sacerdote de Cefalônia, Nicodemo Métaxas, a famosa Confissão, obra capital de sua vida, mas a destruição da tipografia de Métaxas fê-lo, por ora, abandonar esse projeto. Pôde retomá-lo dois anos mais tarde graças à dedicação e à amizade de Cornélio Van Haga; o representante holandês entregou, com efeito, o documento à publicidade, em março de 1629. A Confissão causou sensação. Uma profissão de fé calvinista, assinada por um patriarca ecumênico, não era coisa comum. Cirilo, relatando numa carta ao professor genebrino João Diodati sua primeira recepção na casa do conde de Marcheville, embaixador de Luís XIII em Constantinopla, sublinha a maneira premente com que o diplomata francês lhe perguntara se tal confissão era verdadeiramente obra sua; Marcheville tomara mesmo a precaução de ter uma testemunha dessa cena, o P. Arcanjo de Fosse, superior dos Capuchinhos e irmão do governador de Montpellier.
Assim, em 1629, a campanha em favor da Reforma estava em pleno vigor. Mas, nesse mesmo ano, chegava à capital otomana Rodolfo Schmid, agente do imperador junto à Porta. Era o homem de que se precisava para manter em xeque a diplomacia calvinista. Em maio de 1630, a intrusão de Isaac, metropolitano de Calcedônia, privou Cirilo Lucar da sé patriarcal por alguns dias apenas; um sínodo relegou Isaac a Cesareia em 18 de junho. Isso não passava de uma simples escaramuça. A luta séria só se trava no momento em que entra em liça o protegido de Schmid, Cirilo, metropolita de Berreia, inimigo pessoal de Lucar e antigo aluno dos jesuítas em seu colégio de Gálata. Enquanto se delibera, no Sínodo, sobre as medidas a tomar para extinguir a enorme dívida do patriarcado, Cirilo de Berreia negocia sob mão a compra do trono ecumênico. Obtém-no, mas por oito dias apenas, e seu primeiro reinado dura de 4 a 11 de outubro de 1633; é exilado em Tênedos.
Sua queda acarreta para a Grande Igreja novas dívidas, que sobem a 50 000 piastras; é a golpes de dinheiro que se vai agora disputar a dignidade suprema. Em 5 de março de 1634, Atanásio Patelaros, metropolita de Tessalônica, arrebata-a com 60 000 piastras, dizem uns, com 70 000, dizem outros, mas só dela goza um mês, tendo apenas o tempo de obter o exílio de Lucar; em 28 de março, este se encontrava em Tênedos. Dali voltou, logo que Atanásio foi deposto e, mediante um pagamento de 10 000 piastras nas mãos do grão-vizir, tentou pela sexta vez manter-se no posto; sua sexta restauração deu-se em abril de 1634. Mal durou um ano. Em março de 1635, o candidato de Rodolfo Schmid adiantava ainda 60 000 piastras e retomava a dignidade suprema; era seu segundo patriarcado. Cirilo de Berreia apressou-se em banir seu concorrente o mais longe possível de Constantinopla; com a ajuda de Schmid, fê-lo deportar para Rodes.
De maneiras altivas, desajeitado para com os partidários de Lucar, imprudente em suas diligências, o novo patriarca arranjou-se para alienar todos os espíritos; em junho de 1636, após uma luta de algumas semanas contra o Sínodo, teve de abandonar a partida e ceder o lugar a Neófito de Heracleia, «pupilo do venerável ancião Lucar», como escrevia Antônio Léger. Cirilo de Berreia foi exilado em Rodes pelo mesmo barco que devia trazer Lucar de volta.
Neófito III de Heracleia não era um homem perigoso segundo o relato de Schmid; governa «com a ajuda do embaixador da Holanda e do velho herege Cirilo, que não o deixa um instante». Sua inexperiência dos negócios e sua pouca aptidão para o governo patriarcal o determinam logo a demitir-se. Estando o lugar vago, é Lucar quem logo o ocupa e o mês de março de 1637 vê a inauguração de seu sétimo patriarcado. A alegria é grande nos meios calvinistas. Um acontecimento veio perturbá-la: o retorno de Cirilo de Berreia à capital. Em vão Cirilo se esconde no fundo de Stambul, perto das Sete Torres; vigiam-no de perto; temem-no sobretudo; tentam ganhar seu silêncio oferecendo-lhe uma nova metrópole de grandes rendas. A essas propostas interesseiras, responde que não desistirá de modo algum enquanto Lucar «não tiver retratado publicamente, do alto da cátedra patriarcal, suas opiniões calvinistas e seus tratados impressos, e não tiver voltado à verdadeira fé ortodoxa». Por conselho de Schmid, escreve ao papa e ao imperador para lhes pedir socorros; obtém 4 000 táleres.
Em seguida arma uma conspiração contra Lucar e o acusa junto ao Grão-Senhor de abusar de sua autoridade e de sua influência para excitar os gregos à revolta; pretende mesmo que os cossacos se apoderaram da cidade de Azov por instigação do traidor. Cirilo Lucar está perdido no espírito do sultão; vê-se deposto e preso em 20 de junho de 1638. Cirilo de Berreia sobe pela terceira vez ao trono patriarcal. Mas precisa desembaraçar-se de seu rival de maneira definitiva. O exílio de 1636 de nada serviu; impõe-se a morte. O atentado é combinado entre Cirilo, um paxá de nome Bayram e um pope grego chamado Lamerno. Uma barca vem buscar Lucar em 27 de junho; navega com destino a San Stéfano, onde um navio, declara-se ao prisioneiro, deve transportá-lo a uma ilha do Arquipélago. Mas, no caminho, os soldados turcos passam ao pescoço do condenado o cordão fatal; estrangulam-no e lançam seu cadáver ao mar; os restos são rejeitados pelas ondas; amigos os sepultam em segredo; três anos mais tarde, sob o patriarcado de Partênio II, são transportados à igreja patriarcal e depois depositados no santuário da Panagia em Halki, uma das ilhas dos Príncipes.
Tais são os fatos que marcam o fim de Lucar. Eles demolem uma lenda caluniosa lançada pelos gregos, divulgada pelos huguenotes de todos os países, e segundo a qual se deveria imputar aos jesuítas a morte trágica do patriarca. Em 1639, quando o Sínodo depôs Cirilo de Berreia, seus membros declaravam condenar um intruso «que tinha infligido uma morte penosa e ignominiosa, todos o sabiam, ao velho patriarca Cirilo, que, durante mais de quarenta anos, havia administrado as sés de Alexandria e de Constantinopla». Para esses signatários, o autor da morte de Lucar era, pois, bem Cirilo de Berreia. Assim, Lucar subira sete vezes ao trono patriarcal: 1. em janeiro-fevereiro de 1612; 2. de 4 de novembro de 1620 à segunda metade de abril de 1623; 3. de 2 de outubro de 1623 a maio de 1630; 4. de maio de 1630 a 4 de outubro de 1633; 5. de 11 de outubro de 1633 a março de 1634; 6. de abril de 1634 a março de 1635; 7. de março de 1637 a 20 de junho de 1638. O concílio de Jerusalém de 1672 estava, pois, mal informado quando, em seu quinto decreto, constatava que Cirilo subira três vezes à sé de Constantinopla. Estava muito melhor informado quando se recusava a fazer dele um santo e um mártir e o julgava «atacado da doença de Lúcifer, segundo a expressão de Basílio Magno, isto é, do desejo imoderado da prelazia».
II. Obras. — 1° A Confissão. De todas as obras de Cirilo, é a mais célebre. Apareceu pela primeira vez em latim, em 1629, sob o seguinte título: Confessio fidei Reverendissimi Domini Cyrilli nomine consensu Patriarchæ Constantinopolitani et Patriarcharum Alexandrini et Hierosolymitani, aliorumque Ecclesiarum Orientalium Antistitum scripta, Constantinopoli, Mense Martio Anni MDCXXIX, in-8° de 8 páginas (n° 23 998 da Mazarine). A palavra Constantinopoli indica o lugar onde a Confissão foi escrita, não aquele onde foi impressa; mas uma das edições latinas foi quase certamente impressa em Genebra. Na página 8 da edição que citamos aqui lê-se a seguinte importante declaração: Descripta hæc copia fuit ex autographo propria Reverendissimi Domini Cyrilli manu, quam optime cognosco, scriptum penes me manet, et per me facta collatione, eam cum hoc ipso de verbo ad verbum convenire attestor. Cornelius Haga, Confœderatarum Belgic. Provinciarum pro tempore apud Portam Ottomanici Imperatoris Orator. Ver as traduções francesa e inglesa em E. Legrand, Bibliographie hellénique du xviie s., t. i, p. 270 sq.
Para responder aos ataques de que sua obra era objeto, Lucar traduziu-a para o grego em janeiro de 1631, fazendo-a seguir de um apêndice de quatro perguntas e respostas. Fê-la imprimir em Genebra, em 1633, juntando-lhe o texto latino primitivo. O exemplar da Nacional (D 10) traz o seguinte título: Κυρίλλου Πατριάρχου Κωνσταντινουπόλεως ὁμολογία τῆς χριστιανικῆς πίστεως, Cyrilli Patriarchæ Constantinopolitani Confessio Christianæ fidei, Genevæ, Excudebat Iohannes de Tournes, Anno MDCXXXIII. A biblioteca pública de Genebra possui o original grego escrito da própria mão de Lucar. Assinalemos igualmente a edição greco-latina da Confissão acompanhada das censuras sinodais proferidas por Cirilo de Berreia e por Partênio; a que temos em mãos intitula-se: Cyrilli Lucaris Patriarchæ Constantinopolitani confessio christianæ fidei, cui adjuncta est gemina ejusdem confessionis censura synodalis una a Cyrillo Berrhœensi, altera a Parthenio Patriarchis itidem Constantinopolitanis promulgata. Omnia Græce et Latine, MDCXLV; sem indicação de lugar, mas, a julgar pelas particularidades externas, o livro deve ter aparecido na Holanda.
A maior parte dos gregos que escreveram e escrevem sobre Lucar, postos diante dessa Confissão gravíssima, como se verá adiante, só quiseram ver nela uma peça forjada pelos calvinistas. Negaram-lhe a autenticidade com a mais triste desenvoltura, e sem apresentar o menor argumento em apoio de sua tese.
2° Em 1909, na Νέα Σιών, janeiro-fevereiro, p. 17-35, o arquimandrita Crisóstomo Papadópulos de Jerusalém publicou uma Apologia de Cirilo, que havia descoberto em 1904 num documento até então inédito e pertencente à Biblioteca de Genebra. Esse documento seria uma cópia autêntica da Apologia dirigida por Lucar em 1634 à paróquia da Virgem, em Leontópolis (Pequena Rússia). O patriarca nela se proclama ortodoxo. Ver na Revue internationale de théologie, 1906, t. xiv, p. 327-330, a tradução francesa dessa peça.
3° Escrito contra os judeus, impresso em Constantinopla, em 1627, por obra de Nicodemo Métaxas. Ver E. Legrand, Biblioth. hellén. du XVIIe s., t. i, p. 234.
4° Diálogo contra os jesuítas de Gálata, publicado nos Ἀνάλεκτα Ἱεροσολ. σταχυολογίας de Papadopoulos-Kérameus, Petrogrado, 1891, t. i, p. 220-230.
5° As numerosas cartas de Lucar estão editadas em parte em J. Aymon, Monumens authentiques de la Religion des Grecs et de la fausseté de plusieurs Confessions de foi des Chrétiens orientaux, Haia, 1708; em J.-M. Neale, History of the Holy Eastern Church, Londres, 1847, t. ii; em E. Legrand, Bibliogr. hellén. du XVIIe s., t. iv, p. 161 e p. 175 sq.
6° Deve-se a Cirilo Lucar a primeira edição do Novo Testamento em grego moderno com o texto original; apareceu primeiro em Genebra em 1638; uma segunda edição foi publicada em Londres em 1703. Essa versão em grego vulgar havia sido empreendida em Constantinopla, por Máximo de Galípoli, com o assentimento do patriarca Cirilo e por instigação de Cornélio Haga e de Antônio Léger. O próprio Cirilo examinou várias partes da tradução. Melécio Sirigo, pregando na igreja patriarcal, não teve dificuldade em mostrar aos fiéis que o tradutor, os impressores e os leitores dessa obra, bem como os que a propagavam, estavam afastados da ortodoxia e permaneciam passíveis de censuras.
7° Cita-se ainda de Lucar uma História das perseguições do Egito contra os filhos da Igreja oriental, em grego antigo; quatro coletâneas de Homilias em grego vulgar, das quais o concílio de Jerusalém de 1672 tomou certas passagens; quatro Tratados teológicos sobre a penitência, a encarnação, os sacramentos, a virtude e o vício; uma πληροφορία dos comentários do patriarca Melécio sobre o menológio alexandrino; uma tradução italiana do decreto de expulsão dos jesuítas; uma História dos jesuítas na Turquia, em grego. Ver A. Pichler, Geschichte des Protestantismus in der orientalischen Kirche im 17 Jahrhundert oder der Patriarch Cyrillus Lucaris und seine Zeit, Munique, 1862, p. 208, nota.
8° Os catálogos de manuscritos mencionam vários opúsculos. Ver entre outros Lampros, Catalogue,... on mount Athos II, 6257, 2791, 1428 e Papadopoulos-Kérameus, Ἱεροσολυμ. Βιβλιοθ., t. ii, p. 166-167, 512-515, 618.
Cumpre lembrar, para a glória de Lucar, que a Europa lhe é devedora da comunicação do Codex Alexandrinus. Como atesta um grafite árabe ao pé da primeira página do Gênesis, o manuscrito pertencia, desde 1098, ao tesouro patriarcal de Alexandria. Cirilo o ofereceu ao rei da Inglaterra, Carlos I, por intermédio do embaixador inglês em Constantinopla, sir Thomas Rowe, em 1628. Uma nota da mão do patriarca está inscrita na guarda do manuscrito; recorda uma tradição alexandrina relativa ao manuscrito, segundo a qual este teria sido copiado por uma nobre egípcia de nome Teda, há mil e trezentos anos, isto é, pouco depois do concílio de Niceia; esse nome teria sido posto no fim do manuscrito, mas por ocasião da invasão do Egito pelos muçulmanos, tê-lo-iam lacerado e só a lembrança teria permanecido. Essa nota não poderia naturalmente garantir por si só os dados a que se refere.
III. Doutrina. A doutrina de Lucar acha-se resumida em sua Confissão. Ele próprio o declarou em termos formais em sua carta de 1632 ao professor genebrino Diodati, relativa à entrevista de que falamos acima com o conde de Marcheville. Ao embaixador que lhe mostra a Confissão perguntando-lhe se é o autor, responde, com os olhos fixos no documento, que é bem essa sua Confissão e profissão: «riconosciutola, risposi esser mia Confessione e professione.» O diplomata insiste, da parte do papa, para saber se Cirilo tem a intenção de perseverar nessa doutrina; o patriarca acentua então os termos de sua declaração de maneira intrépida: «Respondi-lhe que era minha Confissão e que eu mesmo a escrevera, porque tal é minha crença, tais são meus sentimentos, tal é a fé que professo, e que, se alguém nela encontrasse erros e quisesse mostrá-los, eu lhe responderia cristãmente e com boa consciência, io all'hora con intrepidità risposi esser mia e che l'ho scritta io perché così tengo, credo, confesso, et se qualcheduno in quella trova errore e che mostrare me lo volesse, gli risponderei christianamente e con buona conscientia.» Cf. E. Legrand, Bibl. hellén., t. iv, p. 403 sq.
Dá a mesma resposta a vários eclesiásticos regulares e seculares. Em Constantinopla grande número de exemplares de sua Confissão estão em circulação; seus amigos lhe pedem que garanta a autenticidade assinando, o que ele não deixa de fazer. E. Legrand, loco cit. A Confissão está dividida em dezoito capítulos, e cada capítulo é seguido de uma série de passagens escriturísticas em apoio da tese.
1° Processão do Espírito Santo. — Para Lucar, o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho, ἐκ τοῦ Πατρὸς δι' Υἱοῦ προερχόμενον, c. i. O concílio de Iassi de 1642 viu nessa fórmula de Cirilo o Filioque dos latinos, e a rejeitou como contrária à crença da Igreja oriental. Mas que entendia Cirilo por esse δι' Υἱοῦ?
É o que é difícil determinar, depois de ler a longa carta que dirigiu da Valáquia em 1613 ao pastor holandês João Wtenbogaert: «A Igreja grega, escreve ele, nega que o Espírito Santo proceda do Filho essencialmente, interiormente e segundo o seu ser, ipsa enim Spiritum Sanctum a Filio essentialiter et interne et quoad esse procedere negat, porque teme que, dizendo que procede igualmente do Pai e do Filho, isso sirva para provar que há dois princípios na Divindade que dão a existência ao Espírito Santo, e crê que seria uma impiedade exprimir-se desse modo, considerando aliás que a Igreja Romana, que ama as novidades, innovationum amatricem, é a primeira que inventou esse dogma e que seus controversistas se esforçam inutilmente por sustentar que é uma exposição que nada acrescenta de novo ao antigo símbolo da Fé cristã.» Logo, nada de processão interna, mas «uma coisa é proceder substancialmente, e outra é ser dado e enviado no tempo. Ora, essa missão, se alguém a chama processão externa, não é um erro o que comete, e não negamos que se refira ao Filho, sed aliud est procedere hypostatice, aliud dari et mitti temporaliter, quam missionem si processionem externam quis appellaverit non errabit, quamque et ad Filium referri non negamus. Cf. E. Legrand, op. cit., p. 296 sq.
2° A Escritura santa. — É inspirada por Deus, θεοδίδακτος. Sua autoridade é superior à da Igreja, τὴν τῆς ἱερᾶς γραφῆς μαρτυρίαν πολλῷ μᾶλλον ἀνωτέραν εἶναι τῆς ἣν κέκτηται ἡ ἐκκλησία. Por quê? Porque a palavra do Espírito Santo e a palavra da língua humana são duas coisas diferentes: esta pode errar por ignorância, enganar e ser enganada; aquela, que é a Escritura santa, não pode nem errar nem ser enganada, pois é infalível e certa. Vê-se que Lucar já está lançado no calvinismo.
3° A predestinação. O autor da Confissão professa que, antes do começo do mundo, o Deus muito bom predestinou, προορίσαι, seus eleitos à glória, e isso sem nenhuma consideração de suas obras; que não há para essa eleição nenhuma outra causa impulsiva senão o beneplácito e a misericórdia de Deus, e que, do mesmo modo, antes da constituição do século, reprovou aqueles que reprovou, e que a causa dessa reprovação reside na própria vontade de Deus, se se considera o direito absoluto divino, em sua justiça, se se considera o direito legal. «Deus é, com efeito, misericordioso e justo». C. iii.
4° Jesus Cristo Mediador, Chefe da Igreja. Culto dos santos. «Jesus Cristo intercede por nós junto ao Pai; exerce sozinho o ofício de verdadeiro e legítimo Pontífice e Mediador; por conseguinte, é o único a cuidar dos seus e a ser Chefe da Igreja, que ele orna e fecunda de bênçãos diversas.» C. viii. Quando professa que Jesus Cristo é o único Mediador, Lucar pretende excluir a intercessão dos santos? Parece que sim, no sentimento dos membros do Sínodo de 1638; estes o anatematizam mesmo por esse erro «obscura e pérfidamente» insinuado. Em todo caso, em 1618, numa carta dirigida a Marco Antônio de Dominis, rejeitava formalmente essa intercessão e confessava um estado de alma estranho: «Como as invocações dos santos ofuscam a glória de Cristo, é o que eu não compreendia antes; antes, pelo contrário, defendia-as obstinadamente contra o douto Marcus Fuxius da Transilvânia. Mas esse homem, em sua resposta, refutou de tal modo meus argumentos que não precisei, a partir desse momento, de nenhum outro estudo para reconhecer meu erro, e tomo Deus por testemunha de que, ao recitar os ofícios públicos, é com a maior dor que ouço invocar os santos em tantas ocasiões e que vejo Jesus Cristo posto de lado. Percebo bem que semelhante maneira de proceder exerce uma influência muito funesta sobre as almas.» Cf. Neale, op. cit., t. ii, p. 394.
Notar-se-á também que Lucar fez questão de pôr em evidência a soberania de Cristo sobre sua Igreja; a seus olhos, os chefes de Igrejas particulares nada são ao lado daquele que é a cabeça do corpo. Quanto à questão do primado romano, sua opinião nada tem de surpreendente: «Acabamos, escreve ele, com o pontífice romano, doravante Cristo será o chefe de sua Igreja.» Carta de 1618 a Marco Antônio de Dominis. Cf. Neale, loc. cit.
5° A noção de Igreja. A Igreja católica, para Cirilo Lucar, é a universalidade dos que são fiéis em Cristo, quer mortos, quer vivos. A organização dessa Igreja, mal aflorada anteriormente, precisa-se no cap. x. «Como de nenhum modo um homem mortal pode ser o chefe da Igreja, é Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa e somente ele que é esse chefe, e é ele quem tem na mão o poder de governá-la. Contudo, cá em baixo, há Igrejas particulares que são visíveis; cada uma tem alguém que é o primeiro em ordem; mas este não deve ser chamado, propriamente falando, o chefe dessa Igreja particular, só é assim chamado de modo impróprio, pois é nessa Igreja o membro principal.» A hierarquia não é, pois, senão nominal. A carta de 1613 dirigida a Wtenbogaert revela em Cirilo um partidário de uma administração aristocrática: «A aristocracia dos bispos, é o que preferimos. Temos provas certas de que essa era a ordem estabelecida por Deus na Igreja dos israelitas; Moisés era bem o chefe dessa Igreja, mas ela era, contudo, governada por uma aristocracia. Parece-me que é esse o governo que convém às Igrejas; se atualmente não o seguimos exatamente, a causa é a tirania dos infiéis.» Cf. E. Legrand, Bibl. hell., t. iv, p. 302.
A Igreja é ensinada e santificada pelo Espírito Santo; pode acontecer-lhe errar; desse erro só nos podem libertar a luz e a doutrina do Espírito Santo, não a luz e a doutrina de um homem mortal; contudo, isso é possível também por intermédio dos que cumprem fielmente seu ministério na Igreja, τῶν πιστῶς διακονούντων. C. xii. Assim, nenhuma infalibilidade papal é possível; nenhum mortal pode ser gratificado com semelhante privilégio. Além disso, se a infalibilidade é concedida ao conjunto dos ministros, ainda é preciso que estes sejam fiéis. Cirilo acrescentou a palavra πιστῶς na edição de 1633.
A indignidade dos ministros invalidaria, pois, seu ministério. Sob a pena patriarcal as heresias se acumulam à vontade.
6° A justificação. «O homem é justificado pela fé e não pelas obras; quando dizemos a fé, queremos entender o correlativo da fé, isto é, a justiça de Cristo, τὸ τῆς πίστεως νοοῦμεν ἀναφορικόν, ὅπερ ἐστὶν ἡ δικαιοσύνη τοῦ Χριστοῦ, c. xiii, que a fé apreende e nos aplica para a salvação. A aplicação da justiça de Cristo àqueles que se arrependem, tal é o único princípio que justifica e salva o fiel, ἡ δὲ τοῦ Χριστοῦ δικαιοσύνη τοῖς μετανοοῦσι προσαχθεῖσα καὶ προσοικειωθεῖσα μόνη δικαιοῖ καὶ σῴζει τὸν πιστόν. Ibid. Não é dizer que as boas obras sejam desprezíveis; são, ao contrário, meios necessários, μέσα ἀναγκαῖα, não, é verdade, para nos salvar, pois não podem ser apresentadas ao tribunal de Cristo como suficientes por si mesmas para nos valer a salvação ex condigno, mas para manifestar nossa fé e firmar nossa vocação.» Ibid. As teses calvinistas da justificação pela imputação da justiça de Cristo reencontram-se aqui em toda a sua gravidade.
7° O livre-arbítrio. Neste ponto, Lucar não se mostra menos audacioso. Professa «que o livre-arbítrio está morto nos não regenerados, sendo estes absolutamente incapazes de fazer o bem, e que tudo o que fazem é pecado. Nos regenerados, volta à vida por efeito da graça do Espírito Santo, e opera, mas não sem o socorro da graça. Assim, para que o homem faça o bem, é preciso que a graça preceda o livre-arbítrio, o qual sem a graça está ferido, como aquele homem caído nas mãos dos ladrões e que descia de Jerusalém, de sorte que por si mesmo o livre-arbítrio nada pode e nada faz.» C. xiv.
8° Os sacramentos. Há na Igreja sacramentos e são aqueles que o Senhor instituiu no Evangelho. Seu número é de dois; não há mais, pois Aquele que os instituiu não transmitiu outros, κἀκεῖνα δύο εἶναι, τοσαῦτα γὰρ ἡμῖν παρεδόθη, καὶ ὁ νομοθετήσας οὐ πλείω παρέδωκεν. C. xv. Esses dois sacramentos são o batismo e a eucaristia.
9° A eucaristia. Na eucaristia, escreve Cirilo, «cremos e confessamos a presença verdadeira e real de N. S. J. C., τὴν ἀληθῆ καὶ βεβαίαν παρουσίαν τοῦ κυρίου ἡμῶν Ἰ. Χ. ὁμολογοῦμεν καὶ πιστεύομεν. C. xvii. Mas trata-se da presença que nos proporciona a fé, e não daquela que foi imaginada sob o nome de transubstanciação, μετουσίωσις. Cremos, com efeito, que os fiéis comem o corpo de Cristo, não triturando-o materialmente com os dentes, mas recebendo-o com as faculdades de sua alma, pois o corpo de Cristo não é o que, no sacramento, é percebido por nossos olhos ou comido, mas aquilo que a Fé apreende espiritualmente e nos dá, τὸ γὰρ σῶμα τοῦ κυρίου οὐκ ἔστιν ὅπερ ἐν τῷ μυστηρίῳ τοῖς ὀφθαλμοῖς ὁρᾶταί τε καὶ λαμβάνεται, ἀλλ' ὅπερ πνευματικῶς ἡ πίστις λαβοῦσα ζωὴν παριστάνει τε καὶ χαρίζεται. Ibid. Resulta, na verdade, que, se cremos, participamos do corpo e do sangue de Cristo, ao passo que nenhum benefício tiramos se não cremos.» Ibid.
Já em 1619, Lucar havia formulado as mesmas heresias ao escrever estas linhas a seu amigo David Leleu de Wilhelm: «Nossa opinião é a que admite a figura nesse mistério e um modo de falar sacramental, assim como cremos numa manducação espiritual, de sorte que aquele que se aproxima com fé da mesa do Senhor não recebe apenas o sacramento visível do corpo e do sangue, mas participa espiritual e interiormente do verdadeiro corpo e sangue de N. S. J. C.» Cf. Legrand, Bibl. hellén., t. iv, p. 319 sq. Acrescentava que se dizia feliz, ele, um dos chefes da ortodoxia, de partilhar neste ponto os sentimentos do conselheiro dos príncipes de Orange.
10° Escatologia. Para Cirilo Lucar, «a alma, logo que deixou o corpo, é transportada ou para junto de Cristo, ou para o inferno, porque cada um é julgado tal como se encontra no momento de sua morte: não há mais lugar para arrependimento depois desta vida. Para os que são justificados desde cá em baixo, nenhuma condenação é de temer na vida futura; para aqueles, ao contrário, que morrem sem a justificação, estão reservadas as penas eternas.» Conclusão: é preciso rejeitar a fábula do purgatório, τὸν περὶ καθαρτηρίου μῦθον. C. xviii.
11° As imagens dos santos. Lucar distingue a arte que representa os santos e o culto prestado a estes; aprova a primeira e condena o segundo. «Não reprovamos, diz ele, as pinturas feitas por uma arte nobre e ilustre, pois permitimos àqueles que o querem conservar as imagens de Jesus Cristo e dos santos; mas detestamos, como condenados pelo Espírito Santo, a adoração e o culto que se lhes presta.» Confess., ive quest.
Essa Confissão é incompleta; deixa na sombra numerosos pontos dogmáticos, não tendo seu autor querido dar senão um resumo de doutrina; mas, tal como é, mostra à evidência que Lucar estava de acordo com os reformados. Como eles, dava o primeiro lugar à Escritura, como eles repelia a supremacia papal, a transubstanciação, o purgatório e muitas outras doutrinas romanas. Se aqui e ali ainda o vemos oscilar entre a doutrina tradicional de sua Igreja e a crença protestante, isso se dá muitas vezes apenas em pontos secundários.
Seu protegido e amigo, Metrófanes Critópulo, deixou também uma Confissão de fé da Igreja oriental católica e apostólica, Ὁμολογία τῆς ἀνατολικῆς ἐκκλησίας τῆς καθολικῆς καὶ ἀποστολικῆς (impressa em Helmstædt, em 1661, por obra de J. Hornéius), com o propósito de expor a fé da Igreja oriental, sem nada retirar ou acrescentar; essa obra permanece fiel, em geral, em seus dados essenciais, aos dogmas da ortodoxia grega.
Não se poderia dizer o mesmo da Confissão de Lucar; para que pudesse pretender a essa fidelidade, seria preciso refundi-la inteiramente, mas então já não seria obra de Lucar, obra do homem que escrevia em 1634, quatro anos antes de sua morte, a seu amigo Antônio Léger, estas linhas decisivas, verdadeiro testamento doutrinal: «Desejo que, se eu morrer, possais testemunhar que morro católico ortodoxo, na fé de Nosso Senhor Jesus Cristo, na doutrina evangélica tal como está contida na Confissão belga, minha Confissão, e todas as das Igrejas evangélicas, que são todas semelhantes. Tenho em abominação os erros dos papistas e as superstições dos gregos; aprovo e abraço a doutrina do excelentíssimo doutor João Calvino e de todos os que estão de acordo com ele.» Cf. J.-H. Hottinger, Analecta historica, Zurique, 1652, p. 560. Citamos segundo P. Trivier, Cyrille Lucar, sa vie et son influence, Paris, 1877, p. 78. A palavra de Antônio Arnauld merece ser lembrada aqui: Cirilo Lucar foi um «discípulo de Calvino travestido de patriarca». La Perpétuité de la Foi de l'Église catholique touchant l'eucharistie, Paris, 1669, t. iv, p. 618.
Não se poderia emitir um juízo perfeitamente esclarecido sobre a doutrina de Lucar se se passassem em silêncio certos outros textos de seus escritos. Para salvar sua ortodoxia claudicante, seus defensores invocaram a Apologia que ele dirigiu em 1634 à paróquia da Virgem em Leontópolis. «Sabei, escrevia Cirilo, que, tendo sido, desde o início, imbuído do leite da piedade e criado nos dogmas ortodoxos, guardamos sempre firmemente os dogmas ortodoxos da Igreja oriental, nossa mãe... Mas os inimigos que fecham os olhos à luz da verdade, em seu desejo de nos atingir com censura, acusam-nos de calvinismo e de heresia, dando assim prova de más disposições ao mesmo tempo que de maldade e de ignorância; pois, meditando vingar-se de nós por outras razões, procuram tornar-nos culpados em outra parte; por mais que se atormentem, chocam-se contra Deus e contra a verdade.» Cf. Νέα Σιών, 1905, t. ii, p. 33 sq.; Revue internationale de théologie, 1906, t. xiv, p. 327 sq. Comparando esse texto com o que citamos um instante antes, e que é do mesmo ano de 1634, convir-se-á que Cirilo Lucar é um embusteiro e um hipócrita.
Mas há dessa duplicidade doutrinal um testemunho ainda mais retumbante. Em 1601, logo depois das reuniões de Brzesc, Cirilo, gravemente comprometido perante a justiça polonesa, dirigiu ao arcebispo latino de Leópolis, Demétrio Sulikowski, uma humilde apologia de sua conduta; era acusado de cumplicidade com os protestantes no ataque aos católicos; para escapar ao perigo que o ameaça, eis o que ousa escrever: «Sei muito bem, e aqueles de quem recebo meus poderes como patriarcas sabem como eu, que não somente as ações e os dogmas desses heréticos causaram as desordens e a ruína da Igreja católica no Oriente como no Ocidente, mas que trouxeram uma deplorável corrupção de costumes entre os cristãos. Estão tão afastados de nós que uma reunião sempre foi impossível. Ao contrário, se divisões parecem existir entre a Igreja do Oriente e a do Ocidente, elas só devem ser atribuídas às ilusões de alguns ignorantes. Tanto na Grécia como em Roma, todos os que têm ciência professam doutrinas absolutamente semelhantes ou ao menos muito próximas. Longe de detestar a cátedra de são Pedro, nós a cercamos do respeito e da veneração que lhe são devidos, e lhe reconhecemos o primado e o título de mãe.» Carta publicada pelo jesuíta Pedro Skarga em seus Miscellanea de Synodo Brestensi, e em parte em Hurmuzaki, Documente privitore la istoria Românilor, suppl. i, t. i, p. 240.
Assim, Cirilo Lucar, em quem se quis ver, a todo custo, um ortodoxo fiel e fervoroso, soube também, quando necessário, fazer-se passar por papista. Suas variações de doutrina e de conduta são um fato que nenhum apologista saberia atenuar. Um escritor protestante não pôde deixar de constatar «que lhe falta a lealdade mais elementar». P. Trivier, Cyrille Lucar, sa vie et son influence, Paris, 1877, p. 90.
IV. A reação anticiriliana. As primeiras tentativas de união das igrejas protestantes com a Igreja oriental tinham tido lugar em 1554, sob o patriarca Joasafe II; outras haviam sido tentadas mais tarde junto ao patriarca Jeremias por Martinho Crusius e Tiago Andreae, professores na Universidade de Tubinga. Todas essas tentativas foram sem êxito. A propaganda calvinista conduzida por Cirilo Lucar não devia ter melhor resultado; representou apenas um movimento isolado; a Igreja oriental soube resistir e essa é uma de suas glórias, é preciso reconhecê-lo.
Ainda em vida dele, latinos cruzaram a pena contra sua Confissão: um certo Tilenus escreveu três cartas para refutar as ideias do patriarca. O título dessa refutação é assim concebido: Lettres à un amy touchant la nouvelle Confession de Cyrille soi-disant Patriarche de Constantinople, MDCXXIX; para a explicação do «soi-disant Patriarche» ver Legrand, Bibl. hell. du XVIIe s., t. i, p. 268. O bispo de Périgueux, Francisco de la Béraudière, redigiu a Confession de Foy de Cyrille Patriarche de Constantinople censurée par le R. P. en Dieu Messire François de la Béraudière, etc., Périgueux, 1629. Por fim, João Mateus Caryophyllis, arcebispo de Icônio, cretense de origem, mas tornado católico, publicou uma Censura Confessionis fidei seu potius perfidiæ calvinianæ, quæ nomine Cyrilli Patriarchæ Constantinopolitani edita circumfertur, Roma, 1631, com uma dedicatória ao papa Urbano VIII, cf. E. Legrand, Bibl. hell. du XVIIe s., t. i, p. 288, e para as edições em grego vulgar e em grego antigo, p. 304, 305.
Os sínodos das diversas Igrejas orientais não tardaram tampouco a exprimir sua reprovação. — 1° O sínodo de Constantinopla de 1638. Por ocasião da morte de Cirilo, seu concorrente, o antigo metropolita de Berreia, tornado enfim único senhor da hora, testemunhou a maior simpatia aos católicos. Assinou mesmo, na presença de Rodolfo Schmid e do P. Ângelo Petricca de Sonnino, vigário patriarcal latino, uma profissão de fé católica que a Propaganda havia redigido. O ato é de 15 de dezembro de 1638. Devia, pois, lutar contra as influências calvinistas.
Dois meses antes, em 24 de setembro, um sínodo presidido por ele e composto de três patriarcas, de vinte e um metropolitas e bispos e de vinte e três outros eclesiásticos havia condenado a memória e as doutrinas de Lucar. Eis como estava concebido o primeiro dos anátemas: «A Cirilo, cognominado Lucar, que, na subscrição de seus capítulos ímpios, afirmou caluniosamente que a Igreja oriental de Cristo em seu conjunto professa as mesmas doutrinas que Calvino, καλβινοφρονοῦσαν, anátema.» Em outra passagem, Lucar era chamado o novo e o pior iconômaco, τῷ κακίστῳ νέῳ εἰκονομάχῳ. Entre os patriarcas que assinaram a condenação, encontrava-se Metrófanes Critópulo, tornado titular da sé de Alexandria; assim o discípulo predileto era constrangido a anatematizar o mestre.
2° A obra de Pedro Mohila e o sínodo de Iassi de 1642. Entretanto, Cirilo de Berreia, às voltas com novos competidores, não tardou a descer de seu trono. Por instâncias do metropolita de Larissa, bem visto do sultão Murad, o metropolita de Adrianópolis, Partênio I, foi saudado patriarca, e o berreense, encarregado das excomunhões de costume, tomou o caminho do exílio; foi estrangulado no caminho; três cordas se romperam antes de lhe dar a morte. O novo eleito de 1º de julho de 1639, desejoso de dar mais brilho à sua tomada de posse, havia convidado para a circunstância um pregador de nome, Nicéforo Korydalleos; este era amigo e admirador de Lucar; a ocasião era, pois, boa para reabilitar o patriarca defunto; não a perdeu. Fez o elogio de seu herói e apresentou a Confissão de fé como a própria doutrina da Igreja ortodoxa. Foi um escândalo. Para atenuar-lhe o alcance, Partênio permitiu a outro orador de renome, Melécio Sirigo, repor as coisas em seu lugar, num sermão público proferido em 27 de outubro do mesmo ano. Sirigo havia tomado parte no sínodo de 1638 e assinado em primeiro lugar, depois dos bispos, com o título de «mestre da Grande Igreja». Cretense também ele, travara relações com Lucar quando este governava Alexandria; gozava de reputação de sábio e hábil controversista; desde novembro de 1638, sabia-se que se ocupava da preparação de uma obra em que devia mostrar toda a influência nefasta do antigo patriarca.
Essa influência, infelizmente, já se estendera; penetrara nos países limítrofes do patriarcado, na Moldávia sobretudo. Tornava-se urgente combatê-la. Desde 1630, o metropolitano de Kiev, Jó Boreckij, enviara uma deputação ao patriarca de Jerusalém, Teófanes, então de passagem por Iassi, para lhe perguntar se o julgava Lucar culpado de heresia. Teófanes, esquecendo a assinatura dada por ele aos anátemas de 1638, havia rejeitado a acusação. Não obstante, as dúvidas subsistiam e sempre se podia temer a propaganda calvinista. Em 1633, a metrópole de Kiev era governada por um prelado eminente, Pedro Mohila ou Movila. De ilustre nascimento, dotado das mais brilhantes qualidades, Pedro consagrara-se cedo a Deus na Lavra Pecerska de Kiev, de que fora eleito higúmeno em 1627; sob sua direção, a Lavra transformara-se numa florescente escola de teologia que já anunciava a futura Academia da metrópole; representava a fortaleza da ortodoxia nos países submetidos ao rei da Polônia; defendiam-se ali energicamente as crenças da Igreja do Oriente contra os protestantes e, ai!, também contra os uniatas. Entre aqueles que Mohila combatia, havia sobretudo Smotrycki, o antigo aluno de Lucar em Ostrog, que, levado à fé católica depois do martírio de são Josafá, dirigia então o movimento da união com Roma.
Pedro, posto em presença das manobras calvinistas, estava inteiramente preparado para combatê-las. Concebeu o pensamento de resumir a doutrina da Igreja ortodoxa numa Confissão de fé destinada a servir de regra única. Quis comunicar primeiro essa Confissão aos bispos de sua metrópole, e convocou-os para esse fim em sínodo para 8 de setembro de 1640. A reunião realizou-se no dia marcado na nave de Santa Sofia de Kiev. Dez sessões foram consagradas ao exame do catecismo preparado por Mohila, e em cuja redação empenhou-se com zelo muito particular o douto Isaías Trofimovitch Kozlovskij, higúmeno do mosteiro Nikolskij. A doutrina de Lucar, já condenada pelo sínodo constantinopolitano de 1638, não foi menos poupada pelos prelados reunidos em Kiev. Mas era preciso agora transformar essas declarações isoladas numa manifestação solene da Igreja do Oriente: é o que iriam realizar as assembleias de Iassi.
No mês de dezembro de 1641, reuniões conciliares abriam-se efetivamente na capital da Moldávia, entre os mandatários constantinopolitanos Porfírio de Niceia e Melécio Sirigo, de um lado, e os delegados ucranianos Isaías Trofimovitch, José Kanonovitch e José Oksénovitch, de outro. O sínodo durou até o mês de setembro ou outubro de 1642. Vinte sessões foram consagradas ao exame da Confissão de fé de Mohila. Nesse ínterim, em maio de 1642, o patriarca de Constantinopla, Partênio, fazia aparecer uma carta sinodal composta de dezoito artigos e refutando ponto por ponto as doutrinas de Lucar. O primeiro desses artigos é de interesse muito particular: declara que Cirilo admitiu «a processão eterna e substancial do Espírito Santo ἐκ πατρὸς καὶ υἱοῦ; o que, acrescenta, vai contra o pensamento da Igreja católica». Em 11 de março de 1643, Partênio dava sua aprovação definitiva à Confissão de fé ucraniana. Melécio Sirigo, o principal negociador da parte dos gregos, a traduzira para o grego vulgar. Essa foi doravante a Confissão de fé do conjunto da Igreja ortodoxa. Mohila inspirou-se nela para a publicação em polonês primeiro, depois em pequeno-russo, de um Zebranie nauki (corpo de doutrina) cujas edições não tardaram a multiplicar-se. Assim, os projetos reformistas de Cirilo Lucar tiveram por resultado obrigar a Igreja oriental a fixar sua própria doutrina e a dar-se um símbolo oficial.
3° O sínodo de Jerusalém de 1672. Entretanto, apesar das condenações proferidas pelo sínodo de 1638, apesar das conferências de Iassi, a memória do patriarca calvinizante permanecera em veneração; o culto do mártir não podia ir sem o do doutor.
Em 1668, trinta anos após a sua morte, realizou-se um concílio na ilha de Chipre, sob a presidência do arcebispo de Nicósia, Hilarião Zigalas, para condenar a heresia calvinista. Além disso, nessa época, Jean Claude, pastor de Charenton, havia publicado um livro para combater a presença real na eucaristia; fizera da Confissão de fé de Lucar uma arma. Sua obra forneceu aos teólogos católicos a ocasião de defender contra os calvinistas aquilo que se considerava a fé constante da Igreja cristã: Antoine Arnauld e Pierre Nicole propuseram-se reunir, para tal fim, um número imponente de testemunhos. Importava, a seu ver, demonstrar que a Confissão de fé atribuída a Cirilo Lucar não era dele, que de modo algum reproduzia a doutrina da Igreja grega, e que tinha por autor algum adepto do calvinismo. Os embaixadores franceses em Estocolmo e em Constantinopla foram postos a contribuir. Em Estocolmo, o Sr. Arnauld de Pomponne, filho de Arnauld d'Andilly e sobrinho do grande Arnauld, ocupou-se de encontrar as informações solicitadas; fez-se ajudar por Nicolas Spathar, aluno das escolas gregas de Constantinopla e tradutor da Bíblia. No Oriente, o marquês Olier de Nointel conseguiu persuadir Dositeu, patriarca de Jerusalém, de que era absolutamente necessário acabar com o pseudocalvinismo grego; um sínodo era necessário. Consultado de imediato, o patriarca de Constantinopla, Dionísio Mouslim, aprovou o projeto e redigiu sem demora uma carta encíclica datada de janeiro de 1672, que recebeu, além da sua assinatura, as de três ex-patriarcas de Constantinopla, de Paísio de Alexandria, bem como de outros quarenta e um prelados. A encíclica afirmava e mantinha a maior parte dos pontos negados ou contestados pelos calvinistas. Devia servir de base às discussões do sínodo. As reuniões abriram-se em Jerusalém no mês de março desse mesmo ano, sob a presidência de Dositeu; emitiram seis decretos, cuja publicação foi precedida do seguinte título: « Escudo da ortodoxia composto pelo sínodo local de Jerusalém, presidido por Dositeu, patriarca desta cidade, contra os hereges calvinistas que pretendem falsamente que a Igreja do Oriente professa os mesmos dogmas que eles sobre Deus e as coisas divinas. »
Como o concílio julgou Lucar? É isto o que importa pôr em relevo. Mais de trinta anos haviam transcorrido desde as reuniões presididas por Cirilo de Berreia; uma vez acalmadas as paixões, ia-se poder reservar à memória de Lucar um veredicto menos severo? Sem sair completamente branqueada das novas assembleias, essa memória foi lavada da acusação mais grave; procurou-se negar a autenticidade cirilina da Confissão. O primeiro decreto declara, com efeito, que o antigo patriarca não é o autor do Credo que traz o seu nome; o segundo, em termos um pouco mais prudentes, apela para a hipótese: no caso de Lucar ter realmente composto essa peça, é preciso confessar que o fez à revelia dos cristãos do Oriente; o terceiro mostra que esse corpo de doutrina não é o da Igreja ortodoxa; o quarto rejeita toda comunicação com os calvinistas; o quinto explica por que Cirilo foi anteriormente condenado pelos dois sínodos de Constantinopla e de Iassi: foi-o porque se recusou a declarar que a Confissão não era obra sua e que as doutrinas de que ela é a expressão não representavam as suas. Esse mesmo decreto põe em relevo que nem a carta sinodal de Partênio, nem as outras que anatematizaram Cirilo; os divinos personagens em questão (θεοφόροι) quiseram antes de tudo agradar a Deus, pouparam Lucar porque este nunca parecera abandonar a doutrina da Igreja oriental pela dos calvinistas; mas se realmente, e é sempre com a hipótese que é preciso contar, se realmente Lucar foi um herege calvinista e não voltou ao arrependimento, então, declaram os Padres de Jerusalém, « estamos todos de acordo em lançar contra ele e seus associados hereges uma sentença de anátema e de excomunhão perpétua ». O sexto decreto contém uma Confissão redigida pelo próprio Dositeu « para aqueles que desejam saber qual é a fé e a profissão da Igreja oriental, isto é, o que ela pensa a respeito da fé ortodoxa ». Ver acima, art. Jérusalem, t. viii, col. 1004-1006.
Assim, as decisões hierosolimitanas de 1672 puderam fornecer aos controversistas toda a documentação desejada, e o marquês Olier de Nointel teve a satisfação de as referendar e de as selar com suas armas. Aquele que as havia elaborado era Dositeu. Esse prelado nem sempre teve as mesmas condescendências para com Lucar. Em sua Histoire imprimée des patriarches de Jérusalem, vê-se ainda atento em atenuar o calvinismo cirilino. Mas, nos fragmentos que permaneceram inéditos dessa história, seu juízo é amargo e violento: Cirilo é um « indigno pontífice; é um corruptor dos bons costumes, um traidor da ortodoxia; pode-se compará-lo a Juliano, o Apóstata; sem dúvida, o sacerdote Eugênio, o Etólio, antigo discípulo de Korydalléos e conquistado também ele às ideias calvinistas, elevou-o aos altares e o cantou em seus tropários, mas é um gesto tão despropositado quanto audacioso, e que a comunidade reprovou unanimemente ». Cf. Papadopoulos-Kérameus, Ἀνάλεκτα Ἱεροσ. σταχυολογίας, Pétrograd, 1891, t. i, p. 178 sq. O ofício de Lucar composto por Eugênio, o Etólio, permaneceu inédito. Cf. K. Sathas, Bibl. græca medii ævi, t. iii, p. 443.
Fontes. Além das obras de Aymon, de Neale, de Legrand etc., citadas ao se assinalarem as obras de Lucar, ver Hottinger, Analecta historico-theologica, Zurich, 1652; Thomas Smith, Miscellanea, Londres, 1686; do mesmo, Collectanea de Cyrillo Lucario, Patr. Const., Londres, 1707 (p. 77-83, Fragmentum epist. Cyrilli Lucarii per Antonium Legerum); Renaudot, édition de la Perpétuité de la foi d'Ant. Arnauld avec les additions de Renaudot, Paris, 1782; Défense de « la Perpétuité de la foi », Paris, 1790; Kimmel, Monumenta fidei ecclesiæ orientalis, Iéna, 1830, t. i.
II. Trabalhos. A maior parte dos trabalhos consagrados a Lucar se deve a protestantes e a ortodoxos. Na Realencyclopädie (2e édit., 1854-1868, t. viii), artigo de Gass sobre Lucar; M. Rinieris, Κύριλλος Λούκαρις ὁ οἰκ. πατρ., Athènes, 1859; K. Sathas, Νεοελληνικὴ φιλολογία, Athènes, 1868, p. 238 sq.; Mr.
Zotos, articles dans l'Union chrétienne, 1868, mars, p. 186-194, avril, p. 183-192; Démétracopoulos, Ἐθνικὸν ἡμερολόγιον, 1870; do mesmo, Προσθῆκαι καὶ διορθώσεις, Leipzig, 1871 e Ἐπανορθώσεις, Trieste, 1872; M. Gédéon, Κύριλλος Λούκαρις, Constantinople, 1875; P. Trivier, Un patriarche de Constantinople au XVIIe siècle, Cyrille Lucar, sa vie et son influence, Paris, 1877; Ph. Meyer, Lukaris, artigo na Realencyclopädie, 3e édit., 1902, t. xi; Chrys. A. Papadopoulos, Ἀπολογία Κυρίλλου τοῦ Λουκάρεως, na revista Νέα Σιών, 1905, t. ii, p. 17-35; E. Michaud, Notes sur l'Union des Églises, na Revue internationale de théologie, 1906, t. xiv, p. 15 sq.; ibid., p. 327 sq.; D. S. Balanos, Ὁμολογία Κυρίλλου τοῦ Λουκάρεως, Athènes, 1906; do mesmo, Ἡ Λουκάρειος Ὁμολογία (resposta a Velanidiotis), Athènes, 1907; E. Velanidiotis, Ὁ πατρ. Κύριλλος ὁ Λούκαρις, Athènes, 1906, cf. Ph. Meyer, Byz. Zeitschr., 1907, p. 617.
Entre os autores católicos, cumpre assinalar Leão Allácio, De ecclesiæ occidentalis atque orientalis perpetua consensione, Cologne, 1648; A. Pichler, Geschichte des Protestantismus in der orientalischen Kirche im 17. Jahrhundert oder der Patriarch Cyrillus Lukaris und seine Zeit, Munich, 1862; dom Guépin, abade de Silos, Un apôtre de l'Union des Églises au XVIIe siècle, saint Josaphat, Paris, 1897-1898; V. Semnoz, Les dernières années du patriarche Cyrille Lucar, nos Échos d'Orient, 1903, t. vi, p. 97-107.
C. Emereau.
Autor original: C. Emereau
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