LOUP Servato, abade de Ferrières (8057-802?). I. Vida. — II. Obras.
I. Vida. — Servato Loup nasceu no início do século VIII, na mesma província eclesiástica e talvez na diocese de Sens, de uma família nobre que daria à Igreja vários monges e vários prelados. Cedo ingressou na abadia de Ferrières, no Gâtinais. Suas felizes disposições para o estudo foram logo notadas e, como Ferrières não dispunha de recursos intelectuais consideráveis, o jovem Loup foi enviado por volta de 828 à Germânia, à abadia de Fulda, que era então dirigida pelo célebre Rabano Mauro, mais tarde bispo de Mogúncia. O abade tomou-o em amizade e lhe dedicará seus comentários sobre as epístolas de São Paulo. É igualmente em Fulda que Loup encontra Gottschalk, com quem permanecerá sempre ligado. Do mesmo modo, estabelece boas relações com Eginhardo, então abade de Seligenstadt; trocarão mais tarde certo número de cartas.
Em 830, Loup está de volta a Ferrières, onde logo faz um nome. Apresentado à corte de Luís o Piedoso, ganha o favor da imperatriz Judite e, por meio dela, o de Carlos o Calvo. Este último, em 841 ou 842, nomeará Loup abade de Ferrières, em substituição a Odão, comprometido nas desordens civis que marcaram o começo do reinado. A substituição de Odão por Loup não se fez, aliás, sem alguma dificuldade e, mais tarde, o novo abade sofrerá por esse motivo alguns ataques. Acaba, no entanto, por impor-se, tanto por seu caráter quanto por sua cultura, à consideração do episcopado franco. Em diversas assembleias — concílio de Verneuil em 844, reunião de Marsne, perto de Maastricht, em 847, concílio de Paris em 849, concílio de Soissons em 853 —, ele é o porta-voz dos prelados e redige as atas conciliares.
Não menos que esses assuntos eclesiásticos, o serviço da corte o distraía dos cuidados de seu mosteiro. A abadia de Ferrières devia ao rei um contingente militar que Loup teve de conduzir em diversas ocasiões. Do ofício das armas o abade não guardará boa lembrança. Em 844, na batalha travada em Angoulême contra os bretões de Nominoé, esteve a ponto de perder a vida e foi feito prisioneiro. As missões pacíficas eram mais do seu gosto. Nesse mesmo ano de 844, é encarregado pelo rei de visitar os conventos da Borgonha. Em 849 é enviado sem dúvida a Roma, em missão junto ao papa Leão IV. Apesar de tudo, o abade não deixava de ocupar-se ativamente de seu mosteiro, onde fez florescer o gosto das boas letras e cuja biblioteca enriqueceu consideravelmente. Deve ter morrido por volta de 802; pelo menos não se encontra mais, depois dessa data, vestígio certo de sua atividade.
II. Obras. — A bagagem literária deixada pelo abade de Ferrières é bastante magra; mas uma de suas produções teológicas deve reter a atenção do historiador dos dogmas. Não que Loup seja um teólogo de profissão. Representante, e dos mais brilhantes, do renascimento carolíngio, é antes de tudo um humanista, e é sobretudo a esse título que foi estudado pelos recentes historiadores da literatura. Tal como Baluze finalmente a reuniu, a obra de Loup compreende:
1° Duas composições hagiográficas: a Vida de São Maximino, bispo de Tréveris no século IV, e a Vida de São Wigberto, abade de Fritzlar, na Hesse, no século VIII. De estilo bastante apurado e que quer lembrar a língua clássica, essas biografias não brilham pelo espírito crítico, embora o autor declare, no início da Vida de São Maximino, que se esforçará por libertar seu assunto dos elementos fabulosos que poderiam tirar-lhe o crédito. Cf. P. L., t. XCIX, col. 007-008, e ver os prodígios inverossímeis relatados nas col. 073, 075, etc.
2° A essa literatura vincular-se-ão duas homilias sobre São Wigberto (uma só na realidade, bastante inoportunamente cortada em duas pelo capricho de um escriba), e dois hinos em louvor do mesmo santo, que acrescentam pouca coisa à glória do abade de Ferrières.
3° De alcance bem diverso é a correspondência, reunida pouco tempo após a morte de Loup, sem grande preocupação, aliás, com a ordem cronológica, que nem sempre é fácil restaurar. Dirigida a ilustres personagens, a começar pelo rei Carlos o Calvo e pelo papa Bento III (Ep., CIII), até os mais famosos bispos da época, Hincmar de Reims, Rabano Mauro de Mogúncia, Jonas de Orléans, Pardulo de Laon, Wenilão de Sens, e abades não menos célebres, como Eginhardo de Seligenstadt, Marcward de Prüm, ela toca necessariamente em grande número de pormenores que interessam à história da Igreja e do Estado. Baluze, nas copiosas notas que pôs em sua edição, comprazeu-se em destacar todas essas informações modernas. Os eruditos foram mais sensíveis a outras preocupações que se manifestam nessa correspondência. Estudaram as alusões feitas por Servato Loup aos livros que leu, aos manuscritos que colacionou, às questões propriamente filológicas que levanta ou que resolve. E tudo isso revela no abade de Ferrières um gosto muito marcado pelos autores clássicos, pela cultura antiga, em suma um verdadeiro temperamento de humanista. Três peças interessarão especialmente ao teólogo: a carta 30 a Gottschalk, respondendo a uma pergunta deste sobre a visão beatífica, as cartas 128 e 129, dirigidas uma a Carlos o Calvo, outra a Hincmar de Reims, e relativas a problemas mais difíceis, imprudentemente suscitados por esse mesmo Gottschalk. Trataremos delas ao mesmo tempo que das duas obras seguintes, que se referem à mesma ordem de questões.
4° O Liber de tribus quæstionibus e o Collectaneum de tribus quæstionibus representam a importante contribuição trazida por Servato Loup à defesa do agostinianismo integral em meados do século IX. Sabe-se como, por volta dessa época, o monge Gottschalk escandalizara certas pessoas insistindo além da medida em diversas fórmulas agostinianas relativas à dupla predestinação. Ver art. Gottschalk, t. VI, col. 1500. O monge de Orbais viu levantarem-se contra si certo número de prelados da Igreja franca, especialmente Rabano Mauro de Mogúncia e Hincmar de Reims.
Duramente tratado pelos concílios de Mogúncia, 848, e de Kierzy-sur-Oise, 849, fora encerrado nas prisões do mosteiro de Hautvilliers e, no fim desse mesmo ano de 849, Hincmar, em seu livro Ad reclusos et simplices, abria perante a opinião pública o processo do monge condenado. Mas nem os procedimentos de Hincmar, nem suas ideias teológicas agradavam àqueles que haviam estudado, em suas fontes, as doutrinas das quais Gottschalk, um pouco imprudentemente talvez, se fizera o campeão. As personagens mais eruditas da Igreja franca, Prudêncio de Troyes, Ratramno, monge de Corbie, mais tarde Remígio, bispo de Lyon, e Floro, seu mestre, levantam-se para protestar contra as exclusivas demasiado absolutas formuladas por Hincmar contra doutrinas certamente agostinianas. A obra de Servato Loup situa-se entre as que emanaram desse grupo.
Loup, como dissemos, conhecera Gottschalk na abadia de Fulda; de volta à França, permanecera em correspondência com ele. A carta 30, em que responde a uma consulta de seu antigo companheiro, é certamente, apesar do que se tem pretendido, anterior à controvérsia predestinaciana; o P. Lapôtre mostrou muito bem que o pedido de Gottschalk é, o mais tardar, do ano de 842 e que a resposta de Loup deve situar-se no decurso do ano seguinte. Ela mostra, contudo, em que estima o abade de Ferrières tinha seu amigo. As desgraças deste não eram de molde a afastá-lo dele. Loup havia assistido ao concílio realizado em Paris por volta do fim de 849, o qual, depois de ter regulado o caso do duque da Bretanha, Nominoé, ouvira Prudêncio de Troyes em seu requisitório contra Hincmar e o aprovara. Muito pouco tempo depois, por ocasião da passagem de Carlos o Calvo por Bourges, Loup teve a oportunidade de conversar com o rei sobre as graves questões agitadas no concílio de Paris. As respostas que lhe deu não satisfizeram a todos; algum tempo depois, o monarca sentiu necessidade de justificar a posição que tomara, escrevendo ao abade, Epist., CXXVIII; do mesmo modo fez a respeito de Hincmar de Reims, Epist., CXXIX, e de Pardulo de Laon (esta última carta não se conservou). Mas, refletindo, pareceu-lhe que havia interesse em retomar o conjunto da questão com maior amplitude. Foi assim que nasceu o tratado De tribus quæstionibus, cujo Collectaneum contém, por assim dizer, as peças justificativas.
Consideramos, portanto, as cartas como anteriores ao Liber. Afastamo-nos aqui da opinião de Baluze; segundo ele, o tratado foi composto em primeiro lugar (e, portanto, antes do concílio de Paris); as cartas foram escritas posteriormente para precisar certas afirmações da obra. Do ponto de vista teológico, a coisa tem pouca importância, pois não há diferença apreciável entre as epístolas e o Liber. Neste, como naquelas, trata-se de responder às três questões suscitadas pela recente controvérsia: que vale, no estado presente da humanidade, o livre-arbítrio deixado às suas únicas forças? Pode-se falar de uma dupla predestinação, uma ao céu, para os eleitos, outra ao inferno, para os réprobos? O benefício da redenção se estende a todos os homens, assim como a vontade salvífica, ou é preciso restringi-los a certo número de homens? Sobre esses três pontos, em que se chocam desde o século V as diversas escolas teológicas, Servato Loup adere sem reservas às teses mais rígidas do agostinianismo integral, exprimindo-as ordinariamente nos próprios termos do doutor de Hipona.
O livre-arbítrio, no primeiro homem antes da queda, podia decidir-se igualmente entre o bem e o mal: liberum voluntatis arbitrium ad bonum et ad malum, æqua facilitas boni malique. Liber, P. L., col. 627. Mas a falta de Adão, que é ao mesmo tempo a de toda a humanidade (omnes in eo peccaverunt), fez Adão (e a humanidade) aderir ao mal que livremente escolhera: justissime in illo luisit quod sponte elegit; segue-se que em todos a natureza está viciada e que, deixado a si mesmo, o livre-arbítrio só pode ir ao mal: liberum arbitrium tantum ad malum. Ibid. Assim, todos os homens deveriam ter perecido, mas aprouve à misericórdia divina querer salvar certo número deles (Servato Loup diz plures, col. 628, plerosque, col. 629; mas seria preciso guardar-se de tomar esses pronomes no sentido clássico: o maior número, a maioria; o contexto indica que o sentido é bem: vários, certo número, sem precisão alguma). Aqueles que, por um julgamento oculto, mas infinitamente justo da bondade divina, são assim retirados da massa de condenação, são por isso mesmo predestinados à graça e à glória.
Quanto àqueles que, não menos justamente, são deixados por Deus na massa maldita, não se deve hesitar, quaisquer que sejam os escrúpulos de certos doutores, em dizer que são predestinados ao inferno. Não se deve dizer que são predestinados ao pecado, não podendo a vontade divina, de maneira alguma, inclinar-se nem inclinar os outros ao mal. O pecado que a justiça divina encontra nessas consciências foi por elas querido, seja pela vontade geral de Adão (in quo omnes peccaverunt), seja pelo livre-arbítrio, o qual ad malum tantum valet. A presciência divina, encontrando-os nesse estado, não pode fazer outra coisa senão predestinar esses infelizes ao suplício eterno. Ver col. 638, 639. É, portanto, impossível dizer que Deus quer salvar todos os homens. O famoso texto de I Tim., II, 4, Deus... qui vult omnes homines salvos fieri, é suscetível, como santo Agostinho mostrou, de uma interpretação muito restrita, col. 636.
E quanto a saber se Cristo morreu para a salvação de todos, convém, para responder a essa questão, lembrar que o próprio Jesus falou de seu sangue derramado pro vobis, pro multis, e não pro omnibus. São Jerônimo, em seu comentário sobre a passagem evangélica, diz em termos próprios: Non pro omnibus sed pro multis, id est pro his qui credere voluerint. Ver Loup, Epist., CXXVIII, col. 604 D. Sem dúvida são João Crisóstomo escreveu: non pro fidelibus tantum, sed pro mundo universo; mas não apoiou essa exegese em nenhum testemunho escriturístico. Ibid., col. 605 A. Alegar as explicações de Fausto de Riez é perda de tempo, tendo sido condenados pelo papa Gelásio os escritos desse prelado.
Acrescentemos que, no Liber, Servato Loup se mostra um pouco menos absoluto. Apoiado num texto do Enchiridion de santo Agostinho, c. LXI, cf. P. L., t. XL, col. 260, começa de fato por propor uma tradução muito restritiva da passagem paulina, Deus proprio Filio non pepercit sed pro omnibus tradidit illum, Rom., VIII, 32; mas acrescenta: «Os teólogos notarão, contudo, que se pode dizer com probabilidade que Cristo morreu por todos aqueles que recebem os mistérios da fé, quer devam conservá-los, quer devam abandoná-los... Mas isso mesmo alguns execram com veemência e condenam, pretendendo que se faz injúria ao Redentor se não se declara que ele resgatou, em geral, todos os homens. Quanto a nós, permanecendo salva a fé, a saber, que o Senhor resgatou com seu sangue todos aqueles que quis e que só são resgatados os que ele resgatou, deixamos a questão sem resposta definitiva. E se alguém conseguir demonstrar que o sangue do Redentor serviu mesmo aos réprobos, nada faremos contra isso, antes nos associaremos de bom grado a esse parecer... Mas, por favor, que não sejamos nem tornados objeto de zombaria, nem repreendidos por aqueles que pensam que todos, bons ou maus, foram indiferentemente resgatados por Cristo.» E depois de ter citado o mesmo texto misericordioso de João Crisóstomo que a carta declarava sem autoridade, Servato Loup conclui: «Que cada um, portanto, tudo bem considerado, escolha o que Deus, por uma secreta inspiração, lhe tiver sugerido como o melhor, ou o que a Escritura, nossa verdadeira mestra, lhe tiver mostrado por razão manifesta.» Liber, col. 646-648.
Haveria interesse em estudar o dossiê patrístico reunido por ocasião dessa controvérsia pelo abade de Ferrières. Veem-se figurar nele, ao lado de textos agostinianos bem conhecidos e que havia quatro séculos alimentavam a discussão, várias passagens de são Jerônimo, de são Gregório e de outros Padres ainda, menos frequentemente citados. O fato de os ter reunido faz honra aos conhecimentos positivos dos teólogos do renascimento carolíngio em geral e do abade de Ferrières em particular. A exposição desses difíceis problemas é feita, aliás, num tom de moderação que contrasta com os excessos de linguagem de Gottschalk e de seus adversários. Parece que, diante da gravidade do problema, as questões pessoais desaparecem completamente. O nome do monge de Orbais nem sequer é pronunciado, mas o abade de Ferrières reivindica o direito de sustentar as teses que se apoiam, em última análise, na autoridade de Agostinho. Mal precisamos acrescentar que os séculos seguintes serão ainda mais severos do que o foi Hincmar para com as teses demasiado absolutas dos agostinianos.
Textos. — As obras de Servato Loup só foram editadas bastante tarde e de maneira sucessiva. A correspondência apareceu primeiro, editada em Paris em 1588 pelo jesuíta Papire-Masson; depois a Vida de S. Maximino nas Vitæ Sanctorum de Surius, em 29 de maio; a Vida de S. Wigberto pelo jesuíta Jean Burée, com as duas homilias e os hinos, em 1602, em apêndice à edição das obras de Hincmar. O Liber de tribus quæstionibus apareceu pela primeira vez em 1648 por cuidado de um editor que se esconde sob o nome de Donatus Candidus; três edições apareceram em 1650; uma, que é anônima, reproduz a edição de 1648, mas quer distinguir, com base numa informação de Trithemius, Loup abade de Ferrières, autor da correspondência, e o presbítero Servato Loup, autor do Liber; o presidente Gilbert Mauguin, que dá nesse mesmo ano o Liber e as duas cartas inéditas a Carlos o Calvo e a Hincmar em suas Vindiciæ prædestinationis, admite também essa distinção e faz de Servato Loup um presbítero de Mogúncia; o P. Sirmond, S. J., dá uma edição mais correta e estabelece a identidade de Loup de Ferrières e de Servato Loup. Em 1664, Baluze empreende uma edição completa das obras de Loup; aos textos acima referidos acrescenta os cânones do concílio de Verneuil, já aparecidos em diversas coleções conciliares; 2ª edição em 1710; é esta última que passou para a P. L., t. CXIX, col. 427 sq. Desde então, não houve mais edição de conjunto. A Vita S. Wigberti foi publicada nos Monum. Germ. hist., Scriptores, t. XV a, p. 36 sq.; a Correspondência por G. Desdevises du Dezert, Lettres de Servat Loup, abbé de Ferrières, 77º fasc. da Bibliothèque de l'École des Hautes Études, sciences hist., tendo esse autor tentado uma classificação cronológica das cartas que foi julgada muito severamente, cf. A. Lapôtre, em Études, 1890, t. XLIX, p. 353-394; nova edição das cartas nos Monum. Germ. hist., Epist., t. VI a, p. 1-26.
Trabalhos. — Notícias literárias na Histoire littéraire de la France, t. V, 1740, p. 255-272; Dom Ceillier, Histoire des auteurs sacrés et ecclésiastiques, 2ª ed., t. XII, p. 500-514 (levantamento quase completo da correspondência); M. Manitius, Geschichte der lateinischen Literatur des Mittelalters, Munique, t. I, 1911, p. 483-490 (estuda especialmente a obra filológica de Loup). Para a questão especial da controvérsia predestinaciana, ver a bibliografia dos art. Gottschalk, Hincmar e acrescentar J. Turmel, La controverse prédestinatienne au IXe siècle, em Revue d'histoire et de littérature religieuses, 1905, t. X, p. 47 sq.; cf. 1900, t. V, p. 401 sq.
É. Amann.
Autor original: E. Amann
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor