LIKHOUDÈS (OS IRMÃOS)

LIKHOUDÈS (OS IRMÃOS)

LIKHOUDÈS (os IRMÃOS), teólogos greco-russos dos séculos XVII-XVIII: Joanício (1633-1717); Sofrônio (1652-junho de 1730). — I. Vida. — II. Obras.

I. Vida. — Joanício (João, no século) e Sofrônio (Spyridon, no século) Likhoudès descendiam de uma antiga família aristocrática de Constantinopla, assinalada pelos cronistas desde meados do século XV, e que se refugiou, após a tomada de Constantinopla pelos turcos, na ilha de Cefalônia. Foi ali que receberam sua primeira educação, antes de ir estudar teologia primeiro em Veneza, depois em Pádua, onde obtiveram o diploma de doutorado. De volta ao país natal em 1670, João, tornado viúvo pouco depois, abraçou a vida religiosa e tomara o nome de Joanício. Spyridon tomou o nome de Sofrônio. Não tardaram a ser ordenados sacerdotes e entregaram-se às funções de ensino e de pregação até essa data, em que se encontravam em Constantinopla, e Doroteu, patriarca de Jerusalém, a quem o patriarca de Moscou, Joaquim, havia pedido professores gregos para a nascente Academia de Moscou, propôs-lhes ir levar à Rússia o facho da ciência helênica. Aceitaram com alegria essa honrosa missão, sem suspeitar das tribulações que os esperavam.

A partir desse momento, com efeito, sua vida foi das mais agitadas. Levaram, antes de tudo, quase dois anos para chegar ao destino. Partidos de Constantinopla em 3 de julho de 1683, só estiveram em Moscou em 6 de março de 1685. Os historiadores russos contam que os jesuítas da Polônia fizeram todo o possível para impedi-los de penetrar na Rússia. Durante esses dois anos de viagem, sustentaram com os jesuítas e outros fortes discussões sobre os pontos controvertidos entre as duas Igrejas. A mais célebre dessas justas teve lugar em 5 de agosto de 1684, na presença de João Sobieski. Segundo os historiadores heterodoxos, foram naturalmente os nossos dois gregos que levaram a melhor. Os começos da Academia moscovita inaugurada pelos Likhoudès foram dos mais humildes. Ocupou-se, antes de tudo, de formar tipógrafos. As lições propriamente ditas só começaram no outono de 1687. Os manuais dados aos alunos haviam sido compostos ou traduzidos pelos dois professores gregos. Nessa época, a controvérsia entre teólogos de Kiev e teólogos moscovitas sobre o momento da transubstanciação estava em pleno auge. Cf. artigo Épiclèse, t. v, col. 261-263. Os irmãos Likhoudès tomaram parte muito ativa no debate e sustentaram a opinião de Nicolau Cabasilas e de Marcos de Éfeso contra Medviedev, que ensinava a doutrina católica. Falaremos mais adiante das obras que compuseram por essa ocasião.

Em 1688, Joanício foi enviado em missão diplomática junto ao governo de Veneza. Tratava-se de negociar uma aliança com a Sereníssima República contra os turcos. Chegado a Veneza em 22 de abril de 1689, Joanício ali permaneceu até 1691. Era acompanhado de um de seus alunos, o diácono Pedro Artemiev, que se converteu ao catolicismo e fez, mais tarde, um relatório pouco favorável sobre nossos dois gregos. Entrementes, Sofrônio continuava a ensinar em Moscou e se ocupava de polêmica antilatina. Se tiveram alguns protetores de peso no entorno do czar, os Likhoudès não tardaram a ver erguerem-se contra eles poderosos inimigos. O mais temível de todos foi aquele mesmo que os enviara à Moscóvia, a saber, Doroteu de Jerusalém, furioso por encontrar tão pouco reconhecimento em seus antigos protegidos. Suas denúncias, unidas às manobras de certos moscovitas, que achavam esses gregos insolentes e cúpidos, acabaram por tornar insustentável a posição dos dois professores na Academia. Em 1694, em seguida a um escândalo do filho de Joanício, Nicolau, fugiram sub-repticiamente de Moscou. Foram alcançados em Smolensk e reconduzidos à capital. Como sua ortodoxia fora posta sob suspeita, deixaram de ser professores, mas simples empregados na tipografia. Contudo, em 1697, um ucasse os nomeou professores de língua italiana. É durante esse período que compuseram vários discursos e panegíricos.

Em 1698, ficaram comprometidos no processo canônico intentado contra o diácono Pedro Artemiev. Não foram mais tolerados na tipografia e foram internados no mosteiro de Novospassky. Ali permaneceram até 1704, ocupando seus lazeres em escrever livros de polêmica contra os luteranos e os calvinistas e em ajudar seu amigo Polikarpov a redigir seu léxico trilíngue (eslavo-greco-latino). Em 1704, são acusados de manter relações por cartas com o sultão de Constantinopla e um ucasse os exila no mosteiro de Ipatiev, em Kostroma. Ali terminam uma gramática grega desenvolvida e compilam um arsenal polêmico contra os protestantes. Em 1706, um novo ucasse os relega a um mosteiro de Novgorod, sob a vigilância do metropolita Jó. Este tem o bom senso de utilizar a competência deles e lhes confia uma escola, que se torna próspera. O próprio czar lhes pede traduções de obras latinas sobre as ciências e a arte militar. Desde 1707, Sofrônio é chamado de volta a Moscou para ocupar-se da tipografia imperial. Joanício fica em Novgorod até 1716, época em que reencontra o irmão e o ajuda a corrigir a tradução eslavônica da Bíblia. Nesse mesmo ano, os dois irmãos unem seu protesto ao dos teólogos moscovitas contra a elevação ao episcopado de Teófanes Prokopovitch, imbuído de doutrinas protestantes. No ano seguinte, Joanício morreu e Sofrônio foi chamado de novo a lecionar na Academia eslavo-latina. Ocupou esse posto até 1722. Em 1723, foi nomeado arquimandrita do mosteiro Solotchina, na diocese de Riazan. Mas os monges receberam muito mal esse ancião impotente e fizeram tanto que lhe tornaram a vida impossível. Fugiu para Moscou em 1729 e foi enviado a morrer no mosteiro de Novospassky (1730).

II. Obras. — Os Likhoudès foram antes de tudo polemistas. Bateram-se ao mesmo tempo contra o catolicismo, contra o protestantismo e contra o Raskol russo. Contra o catolicismo, compuseram duas obras principais. A primeira tem a ver com a controvérsia sobre a epiclese e traz, em grego, o seguinte título: Ἄκος ἀντιτασσόμενον τοῖς ἰοβόλοις δήγμασι τοῦ ὄφεος πρὸς κοινὴν ὠφέλειαν καὶ θεραπείαν τῶν μὴ ὀρθοφρονούντων ἐν τῇ ἐκτελέσει τοῦ μυστηρίου τῆς Εὐχαριστίας.

É um diálogo entre o mestre e o discípulo. Das 21 perguntas e respostas que o constituem, as três primeiras dizem respeito aos sacramentos em geral e à sua eficácia, as cinco seguintes, à eucaristia, as IX-XI, às palavras do Senhor, as XII-XVII, ao estudo da tradição sobre a forma da eucaristia. As quatro últimas questões referem-se ao batismo. Escrita primeiro em grego entre os anos 1685-1687, a obra foi traduzida para o eslavo. Permaneceu inédita. O segundo escrito antilatino, devido especialmente à pena de Sofrônio, data de 1690. Intitula-se: Diálogos entre um professor grego e um jesuíta, ou ainda: Uma espada espiritual (eslavo). É uma série de vinte e um diálogos sobre as divergências entre a Igreja greco-russa e a Igreja católica. O todo foi impresso na Revista da Academia eclesiástica de Kazan, o Pravoslavny Sobesiednik (anos 1866-1867).

Contra os protestantes, luteranos e calvinistas, os Likhoudès deixaram: 1° uma obra intitulada A heresia luterana (entre 1698 e 1704), na qual se assinalam dezenove divergências dogmáticas ou rituais entre a ortodoxia russa e o luteranismo. D. Tsviétaev inseriu esse escrito em seus Monuments relatifs à l'histoire du protestantisme en Russie, Moscou, 1888. — 2° Um Discurso sobre a predestinação, pronunciado durante a quaresma de 1701. — 3° Uma longa compilação de 486 folhas, contra os luteranos e os calvinistas, visando especialmente o Catecismo de Joaquim Kameraria, as Memórias de Joaquim Perker e a Metafísica de João Makkobius. Composta durante a estada no mosteiro de Ipatiev, essa compilação não teve, e mal merecia, as honras da tipografia. — 4° Uma Carta a Pedro, o Grande, sobre as heresias de Lutero e de Calvino, publicada no Strannik, em 1861. Somente a Sofrônio pertence um escrito contra o Raskol russo, que traz o título bizarro de Colírio contra a terrível doença da oftalmia capitônica, 1717. Obra que permaneceu manuscrita. Assinalemos ainda, como tendo alguma relação com a teologia, o farrago literário de Joanício, composto em Novgorod, em 1708, sob o título: Discurso solene sobre a Sabedoria de Deus. Trata-se nele ao mesmo tempo do mistério da Encarnação e da igreja de Santa Sofia de Constantinopla. Não falaremos nem das obras oratórias nem das obras didáticas dos Likhoudès. Não apresentam nada de notável e, aliás, não interessam à teologia.

Nossos dois gregos prestaram aos russos mais de um serviço na correção dos livros litúrgicos, na tradução eslavônica da Bíblia, na edição eslava da Confissão ortodoxa de Pedro Moghila, publicada em Moscou, em 1696. Sua influência no domínio religioso foi incontestável, mas não foi feliz. Contribuiu para manter entre o clero russo o espírito polêmico bizantino. Enquanto os teólogos de Kiev chegavam a diminuir o número das divergências dogmáticas entre a Igreja católica e a Igreja oriental por seu ensino sobre a forma da eucaristia, sobre o purgatório e sobre a Imaculada Conceição, os Likhoudès sobrevieram muito inoportunamente para repor os moscovitas nas velhas trilhas da polêmica antilatina de Bizâncio.

A obra capital sobre a vida e a atividade teológica dos irmãos Likhoudès é a monografia do russo Miguel Smentsovsky: Les frères Likhoudès, São Petersburgo, 1899. O autor deu um bom resumo de seu trabalho no Dictionnaire biographique russe publicado pela Sociedade imperial de história, art. Likhoudès, São Petersburgo, 1914, t. xii, p. 499-510. Ver também os artigos do Dictionnaire encyclopédique de Brokhaus-Ephron, São Petersburgo, 1897, t. xvii, p. 857-858, e da Grande Encyclopédie, t. xii, p. 254-255. Encontrar-se-á na monografia de Smentsovsky um índice completo dos trabalhos russos e gregos sobre nossos dois teólogos até 1889. Entre as fontes gregas, cumpre assinalar o artigo de Lascaris no t. ii da revista Ἑλληνικὸς φιλολογικὸς Σύλλογος, 1864, p. 24-44; a notícia de C. Sathas em sua Νεοελληνικὴ φιλολογία, Atenas, 1868, p. 358-371; o trabalho de Chr. A. Papadopoulos, na revista Νέα Σιών, 1907, t. v, p. 4-16, sob o título: Οἱ πατριάρχαι Ἱεροσολύμων ὡς πνευματικοὶ χειραγωγοὶ τῆς Ῥωσσίας κατὰ τὸν ιζ' αἰῶνα. A parte que os irmãos Likhoudès tomaram na controvérsia sobre a epiclese entre teólogos de Kiev e teólogos moscovitas é relatada na obra de G. Mirkovitch: Sur le moment de la transsubstantiation des saints dons, Vilna, 1886. Sua polêmica contra os protestantes é estudada por Izviekow na Revista Pravoslavnoïe Obozrénie, 1872, t. i, p. 731-770. Sua influência doutrinal e literária na nascente Academia de Moscou foi examinada por Smielovsky e Obraztov na Revista do Ministério da Instrução pública de Petersburgo, 1845, t. xlv, p. 31-96; 1867, t. cxxxv, p. 735-753. Certos opúsculos dos Likhoudès e alguns documentos que lhes dizem respeito foram publicados por Smentzovsky num suplemento a seu estudo sob o título: Matériaux ecclésiastico-historiques: Compléments à la dissertation sur les frères Likhoudès, São Petersburgo, 1899.

M. Jugie.

Autor original: M. Jugie

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