LEAD OU LEADE (JOANA)

LEAD OU LEADE (JOANA)

LEAD ou LEADE Joana, visionária inglesa, membro influente, se não fundadora, da seita dos filadelfos (1623-1704). Joana Ward, nascida de boa família do condado de Norfolk, julgou ouvir desde cedo uma voz divina que a chamava a uma vida religiosa mais profunda. Casou-se, contudo, com William Lead, mas, tornada viúva e livre para seguir seus gostos pela mística, mergulhou na leitura dos livros de J. Bœhme, cuja tradução inglesa acabava de aparecer. Foi auxiliada nesse estudo por um clergyman, John Pordage (1607-1681), que a iniciou nas experiências místicas. Joana, a partir de 1670, não tardou a ter suas revelações e visões, cujo pormenor está consignado em seu diário íntimo publicado sob o título A fountain of gardens. As primeiras páginas narram, num estilo que faz pensar no Pastor de Hermas, a visão inaugural: sob os traços de uma mulher de grande beleza lhe aparece « a virgem eterna da sabedoria divina », vinda para iniciá-la no mais profundo mistério de Deus.

Em torno de Pordage agrupara-se um pequeno círculo de « filadelfos, para o adiantamento da piedade e da filosofia divina »; Joana tornou-se a alma dele. Em 1681 publicou sua primeira obra, The heavenly cloud now breaking (A nuvem celeste que se dissipa), seguida dois anos mais tarde pela Révélation des Révélations. Esses escritos, de início obscuros, acabaram por atrair ao grupo dos filadelfos um adepto entusiasta, na pessoa de um jovem erudito de Oxford, Francis Lee (1661-1719). Este ligou-se a Joana Lead, pôs-se inteiramente a seu serviço, casou com uma de suas filhas, tornada viúva, e fez-se secretário de Joana, que, entrementes, ficara cega. Foi Lee quem redigiu a volumosa produção da visionária, foi ele quem deu corpo à sociedade dos filadelfos e recrutou partidários na Inglaterra e até na Holanda. Contudo, essa pequena Igreja não ficou por muito tempo ao abrigo das dissensões internas. Tratava-se de saber que atitude se tomaria em relação à Igreja estabelecida; vários preconizavam a ideia da Ecclesiola in Ecclesia, que permanecerá cara ao pietismo; Joana Lead era, ao contrário, pela separação ostensiva; sofreu com essas dissensões e conheceu, por outro lado, uma situação muito apertada. Desde 1702 havia caído numa espécie de inconsciência, da qual só saiu pouco tempo antes de sua morte, a 19 de agosto de 1704.

Não se poderia falar de um sistema teológico de Joana Lead, tamanha é a incoerência de seus pensamentos e a inabilidade de sua expressão. Dois pontos merecem, contudo, reter a atenção. O primeiro é a importância que ela atribuía à necessidade de preparar-se desde cá embaixo para a ressurreição. O batismo não renova apenas a alma, põe no corpo um germe de ressurreição, faz dele, em potência, um corpo ressuscitado; cabe ao fiel desprender, por uma atividade moral contínua, esse corpo celeste sepultado na matéria. Embora expressa de maneira muito bizarra, a ideia não é nova. Sobre outro ponto Joana Lead quis, como todas as visionárias, dar precisões: é sobre a escatologia. Sua obra pode passar por um dos inúmeros comentários do Apocalipse; o milenarismo antigo revive nela com todas as suas fantasias. Antes do millenium, aliás, aparecerá uma Igreja inteiramente rejuvenescida, inteiramente purificada, onde se cumprirão prodígios como jamais se viram; os membros dessa comunidade atingirão o mais alto grau de perfeição possível à humanidade. Por várias vezes Joana pensou que a pequena sociedade animada por ela seria essa Igreja dos últimos tempos; teve de moderar-se; em seus últimos anos já não esperava ver com seus olhos de carne a realização de suas esperanças.

Por incoerente que seja, a mística de Joana Lead não deixou de ter influência, e os pietistas do século XVIII inspiraram-se nela; é justo notar que essa influência se deve especialmente à piedade simples e calorosa que se nota em muitos pontos de sua obra. Os curiosos de misticismo aí encontrariam o que colher. A obra de Joana Lead compreende um número bastante grande de pequenos tratados e várias obras consideráveis; serão encontrados enumerados na bibliografia.

Obras de Joana Lead. Publicadas em inglês, foram todas traduzidas para o alemão, a partir de 1694, em Amsterdam; daremos o título alemão ao lado do título inglês. 1. The heavenly cloud now breaking (Die himmlische Wolke), Londres, 1681. 2. The revelation of revelations (Offenbarung der Offenbarungen), 1683. 3. O grupo dos seis pequenos tratados místicos (Sechs mystische Tractätlein), compreendendo: a) The Enochian Walks with God (Der Henochianische Glaubens und Lebenswandel mit Gott), 1694. b) The laws of Paradise (Die paradiesische Gesetzte oder der mystische Sinn und Verstand der zehn Gebothen Gottes), 1695. c) The wonders of God's creation manifested in the variety of eight worlds (Die in acht unterschiedlichen Welten geoffenbahrte Wunder der Schöpfung Gottes), 1695; há oito mundos, sendo o universo visível o último; quatro são sem pecado: o Paraíso, Sião, a nova Jerusalém e a Eternidade. d) A message to the philadelphian society (Die erste Botschaft an die philadelphische Gemeinde), 1696, destinada a mostrar que todas as Igrejas, fora do grupo dos filadelfos, são rejeitadas por Cristo. e) The tree of faith (Der Baum des Glaubens oder des Lebens), 1696. f) The ark of faith (Die Arche des Glaubens), 1696.

4. A fountain of gardens watered by the rivers of divine pleasure and springing up in all the variety of spiritual plants... (Ein Garten-Brunn... oder ein rechtes Diarium und ausführlich Tag-Verzeichnis...) 4 vol., 1696-1701; é, como dissemos, uma espécie de diário das experiências místicas de Joana. 5. A revelation of the everlasting Gospel message (Offenbarung einer Botschaft des ewigen Evangelii), 1697. 6. The ascent to the mount of vision (Der Aufgang zum Berge des Schauens), 1698, onde se trata da primeira ressurreição; do estado das almas separadas; da grande idade dos patriarcas; do reino de Cristo. 7. The signs of the times (Die Zeichen der Zeiten die vor dem Reiche Christi hergehen), 1633. 8.

The wars of David and the peaceable reign of Salomon (Die Kriege Davids und das friedsame Reich Salomons), 1700; esta obra divide-se em duas partes: Alarme aux saints guerriers de l'agneau, destinada a fazê-los tomar as armas espirituais para combater os combates dele; e a glória de Saron ou a renovação da natureza que trará o reino de Jesus Cristo. 9. A second and a third message to the philadelphian Society (só encontrei em alemão a terceira mensagem: Der himmlische Botschafter eines allgemeinen Friedens oder eine dritte Botschaft an die philadelphische Gemeinde). 10. A living funeral testimony (Eine bei lebendigem Leibe gehaltene Leich-Predig), 1702, espécie de oração fúnebre que Joana pronunciou sobre si mesma dois anos antes de sua morte. 11. The first resurrection in Christ (Die Auferstehung des Lebens oder das Königliche Merck und Kennzeichnen so denen aufgetruckt ist die mit Christo auferstanden sind), Amsterdam, 1704.

Há uma breve biografia de J. Lead à frente das Offenbarungen der Jane Leade, Strasbourg, 1807; ver também os art. Lead (Jane), Lee (Francis), Pordage (John) do Dictionary of national biography; o art. Philadelphians da Encyclopœdia of Religion and Ethics de J. Hastings, t. ix. p. 836-837.

E. Amann.

Autor original: E. Amann

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