LAVAGEM DOS PÉS

LAVAGEM DOS PÉS

LAVAGEM DOS PÉS. I. Fatos bíblicos. II. Fatos litúrgicos. III. Questão teológica: a lavagem dos pés é um sacramento?

I. Fatos bíblicos. — 1° A lavagem dos pés, ato de hospitalidade. Sendo costume na Palestina andar descalço ou de sandálias sobre um solo muitas vezes poeirento, compreende-se que lavar os pés seja a primeira precaução a tomar ao voltar para casa. É por isso que, quando Davi quer aconselhar Urias a passar ao menos uma noite no domicílio conjugal, diz-lhe: « Desce à tua casa e lava os teus pés. » II Reg., xi, 18. Por outro lado, uma vez feita esta operação, hesita-se em sujar de novo os pés, e é por isso que a esposa se escusa assim de ir abrir ao amado que bate à sua porta: « Tirei a minha túnica: como tornar a vesti-la? Lavei os meus pés, como sujá-los? » Cant., v, 3.

Compreende-se que uma das primeiras regras da hospitalidade oriental exija que se ofereça ao hóspede com que lavar os pés. Assim faz Abraão para com os seus três visitantes, Gen., xviii, 4; assim Ló em Sodoma, Gen., xix, 2; assim Labão para com Eliezer, Gen., xxiv, 32; assim o intendente do Faraó para com os irmãos de José, Gen., xliii, 24; assim o ancião de Gabaá para com o levita de Efraim. Jud., xix, 21. Por isso Jesus Cristo pôde, sem espantar ninguém, queixar-se de que essa regra não tivesse sido observada para com ele. Luc, vii, 38, 44. Havia aliás uma nuance muito notável na cortesia, conforme se deixava ao hóspede o cuidado de lavar ele mesmo os pés ou se lhe fazia prestar esse serviço por seus escravos, se preciso por sua mulher. III Reg., xxv, 41. Mas o cúmulo da polidez era que o dono da casa desempenhasse ele próprio esse humilde cuidado. É precisamente por uma condescendência desse gênero que o Cristo quis, no último dia de sua vida, inculcar fortemente a seus discípulos uma lição de caridade, de humildade e de respeito mútuo. Joa., xiii, 15.

Essa lição estava tão presente no espírito dos primeiros cristãos que São Paulo colocava entre os deveres da viúva que aspira a ser consagrada a Deus o hábito já contraído de « lavar os pés dos santos ». I Tim., v, 10, isto é, segundo toda a aparência, desses irmãos na fé, viajando de cidade em cidade, cuja recepção, segundo a Didaqué, ix, era um dos deveres mais onerosos, mas também mais nitidamente sentidos das primeiras comunidades cristãs.

2° A lavagem dos pés, ato ritual. — A lavagem dos pés não é somente na Bíblia uma medida de limpeza. Era também um rito de purificação prescrito aos sacerdotes pela Lei antes de se aproximarem do tabernáculo ou do altar. Ex., xxx, 18-21; xl, 30-32. O mar « de bronze » era destinado a esse uso. Ex., ibid., III Reg., vii, 23-26; II Paral., iv, 6. Cf. Schurer, Geschichte des jüdischen Volkes im Zeitalter Jesu Christi, t. ii, p. 278; Jewish Encyclopœdia, t. v, col. 357. Observaram-se na antiguidade cristã alguns traços de imitação desses usos rituais. Cf. Tertuliano, De Orat., xiii, P. L., t. i, col. 1167. Assim, segundo Eusébio, Hist. eccl., X, iv, P. G., t. xx, col. 864, 865, cf. ed. Grapin, t. iii, p. 108, n. 40, o panegirista do bispo de Tiro o louva por não ter permitido que se entrasse no santuário « com pés sujos e não lavados », e por ter colocado para isso fontes à entrada. Paulino de Nola, Epist., xxxii, ad Severum, 15, P. L., t. lxi, col. 337, fala de um cantharus ou bacia colocada à entrada de uma basílica. É verdade que essa bacia parece destinada apenas à ablução das mãos. Mas em outros lugares as abluções devem ter sido mais abundantes, guardando cada país os seus usos a esse respeito. Sócrates, H. E., II, xxxviii fim, P. G., t. lxvii, col. 332, fala de um poço colocado no pátio de uma igreja. Esses usos conservaram-se com uma fidelidade particular no islamismo, cuja arte religiosa é oriunda de Bizâncio.

II. Fatos litúrgicos. — Nós os arrumaremos sob duas rubricas: 1° A lavagem dos pés como rito pós-batismal na liturgia do sábado santo. 2° A lavagem dos pés como cerimônia especial da quinta-feira santa. O primeiro desses fatos pertence à história das liturgias latinas anteriores a Carlos Magno; o segundo, salvo na Espanha e talvez na Gália, só é atestado depois dessa época.

1° A lavagem dos pés no ritual do batismo solene do sábado santo. — Mons. Duchesne, em sua obra clássica sobre as Origines du culte chrétien, c. ix, § 2, fim, 2e édit, 1898, p. 314; 5e édit., 1920, p. 315, resume assim o estado dos fatos para o período anterior a Carlos Magno: « O rito da lavagem dos pés observava-se na Gália e em Milão, mas não na Espanha, onde fora formalmente proscrito pelo concílio de Elvira (can. 48). Não se encontra vestígio dele no Oriente e é muito certo que não era admitido em Roma. É uma particularidade local, introduzida primeiramente nas Igrejas do sul da Gália ou da Alta Itália. » Cumpre-nos indicar aqui os principais textos em que se apoiam essas constatações sumárias, cuja exatidão um estudo bastante longo nos demonstrou, sem nos espantarmos aliás, visto o nome que as assinava. Percorreremos as diversas regiões do Ocidente — e terminaremos por Roma.

1. África. Santo Agostinho, em sua carta lv ad Januarium, c. xviii. n. 33, P. L., t. xxxiii, col. 216, enumera diversos usos litúrgicos a respeito dos quais se observaram divergências notáveis entre os usos dos diferentes países. Chegado à lavagem dos pés, exprime-se assim: « Quanto à lavagem dos pés, tendo-a o Senhor recomendado como modelo da humildade que viera ensinar, como declarou por extenso, perguntou-se em que momento de preferência convinha acrescentar, num ponto de tal importância, o exemplo ao preceito, quonam tempore potissimum res tanta etiam facto doceretur. A resposta óbvia é fazê-lo no momento em que a recomendação se impõe mais ao respeito, quo ipsa commendatio religiosius inhœreret. Mas, para que esse uso parecesse pertencer ao próprio rito do batismo, ad ipsum sacramentum baptismi, muitos não quiseram aceitá-lo. Alguns até não temeram aboli-lo.

Outros, querendo ao mesmo tempo recomendar essa prática pela santidade do tempo, ut hoc et sacratiore tempore commendarent, e distingui-la do rito mesmo do batismo, escolheram para esse efeito ou o terceiro dia da oitava, porque o número três se faz notar particularmente por seu lugar em muitos ritos simbólicos, quia et ternarius numerus in multis sacramentis maxime excellit, ou o próprio dia da oitava. » Observemos que nesse texto não se trata de modo algum da lavagem dos pés da quinta-feira santa, mas da do sábado, praticada em certas Igrejas, abolida em outras, e transferida em algumas para o terceiro ou o último dia da oitava da Páscoa.

Foi apenas por efeito de uma confusão grosseira que muitos autores (a maioria dos que nos precederam) acreditaram poder citar Santo Agostinho como testemunha da lavagem litúrgica dos pés da quinta-feira santa. Remetem a esse propósito a outro texto, bastando relê-lo para perceber que nele se trata, não de lavagem dos pés, mas de banho completo, não de um uso litúrgico, mas de uma simples prática de limpeza, também ela aliás ordenada em vista do batismo. Esse texto se encontra no fim da primeira carta ad Januarium, ou antes, da primeira parte da carta que acabamos de citar. Epist., liv, n. 9-10, P. L., t. xxxiii, col. 204. Santo Agostinho, depois de ter examinado longamente a questão de saber se se deve ou não jejuar na quinta-feira santa, dá a razão pela qual, segundo ele, é costume em certas Igrejas romper o jejum nesse dia e até oferecer o sacrifício somente depois da refeição. Hoc tamen non arbitror institutum nisi quia plures et prope omnes in plerisque locis eo die lavare consueverunt. Et quia nonnulli etiam jejunium custodiunt, mane offertur propter prandentes, quia jejunia simul et lavacra tolerare non possunt, ad vesperam vero propter jejunantes. O parágrafo seguinte dá a razão desse uso universal do banho da quinta-feira santa. É unicamente uma razão de limpeza, que aliás se estendeu dos catecúmenos aos fiéis. Cf. H. Leclercq, artigo Bains no Dictionnaire d'archéologie chrétienne et de liturgie. Quanto ao testemunho de Santo Agostinho, é tanto mais precioso que vale não somente para a África, mas indiretamente para Milão, onde Agostinho recebera ele próprio o batismo das mãos de Santo Ambrósio.

2. Alta Itália. Temos de Santo Ambrósio, sob o título De mysteriis liber unus, uma exposição dos ritos do batismo que nos permite dar-nos conta do uso milanês do século IV. Logo que os catecúmenos saem da fonte e são munidos da unção do crisma, lembra-se-lhes a cena evangélica da lavagem dos pés: Ascendisti de fonte, memento evangelicœ lectionis. De myst., c. VI, n. 31, P. L., t. xvi, col. 398. O diálogo entre Jesus e Pedro é relatado por inteiro e dele se dá um comentário ao qual teremos de voltar ao estudar o sentido e o alcance do rito que por ora só pensamos em descrever. Pedro, diz-se, estava puro dos pecados atuais, mas restava-lhe apagar a mancha original. Ideo planta eius abluitur, ut hereditaria illa tollantur : nostra enim propria per baptismum relaxantur. Ibid., n. 32. Segue-se uma recomendação moral sobre a imitação do exemplo de humildade dado pelo Salvador, depois se passa ao rito seguinte nestes termos: Accepit post hœc vestimenta candida...

Dessa descrição de Santo Ambrósio deve-se aproximar a passagem paralela do De sacramentis, obra que hoje se tem de reivindicar para o grande bispo de Milão, mas que reflete certamente os usos da Alta Itália e de uma época apenas posterior. Cf. Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Literatur, 1912, t. iii, p. 536. Escusava-se, e era humildade; agora, oferece-se, e é efeito de sua devoção e de sua fé. O Senhor lhe responde, porque ele falou das mãos e da cabeça: « Aquele que já se banhou não tem necessidade de lavar-se de novo, só tem necessidade de lavar os pés. » Por quê? Porque no batismo toda falta é apagada. A falta, pois, se vai, recedit ergo culpa. Mas, tendo sido Adão « suplantado » pelo diabo, o veneno foi derramado sobre os seus pés. E é por isso que lavas os teus pés, para que essa parte atacada pela serpente receba um maior socorro de santificação que torne em seguida impossível a « suplantação ». Lavas, pois, os teus pés para apagar o veneno da serpente. E a humildade também encontra proveito em que não nos envergonhemos de fazer simbolicamente, in mysterio, o que nos repugna como serviço. » Ibid., n. 5-7, col. 433.

Reconheceu-se nestas últimas frases a razão simbólica já dada por Santo Ambrósio e compreendeu-se sem dúvida melhor como ela se prendia, no espírito da época, a uma exegese alegórica do Evangelho. Deveremos adiante procurar fixar o alcance doutrinal exato dessas passagens. Por ora, o que nos interessa é a diversidade dos usos batismais do Ocidente no século V e a polêmica que ela suscitava entre os partidários do uso milanês e os do uso romano. Gostaríamos de estar mais bem informados sobre a delimitação exata dos dois usos. Mas não se deve esperar, para essa época relativamente recuada, possuir informações litúrgicas muito completas. Pense-se na obscuridade que pesa ainda hoje sobre questões tão importantes quanto a pré-história do cânon da missa. Em liturgia, não há senão pré-história até o aparecimento dos livros litúrgicos propriamente ditos. Ora, sabe-se quão raros eles são antes da época de Carlos Magno. Cf. L. Duchesne, Origines du culte chrétien, 5e édit., p. 124 « Não há nada a pedir desse gênero às províncias do Danúbio e do Ilírico latino... Elas têm sem dúvida sua história litúrgica, mas ela começa muito tarde, no século IX. A África tampouco tem algo a nos dar... A antiga liturgia espanhola só foi conhecida até estes últimos tempos pelo missal moçárabe (do século XVI). — » —

3. Gália. a) Textos litúrgicos. A lavagem dos pés dos recém-batizados tem seu lugar nos três mais antigos textos conservados da liturgia galicana.

Esses três textos são conhecidos sob os nomes muito inexatos de Missale gothicum, Missale gallicanum vetus e Sacramentarium gallicanum (este mais frequentemente designado hoje sob o nome mais exato de Missal de Bobbio). Os dois primeiros, com efeito, não são missais, mas sacramentários; o terceiro, ao contrário, não é um sacramentário, mas um missal. Os três foram publicados por Mabillon (os dois primeiros segundo Tommasi, seu primeiro editor) e reimpressos por Migne, P. L., t. lxxii, onde o terceiro texto é falsamente atribuído a Muratori. Sobre esses três textos, encontrar-se-á uma notícia sumária, mas suficiente, em L. Duchesne, Origines du culte chrétien, c. v (5e édit., p. 159, 160, 166), que data os dois primeiros, segundo L. Delisle, de cerca do ano 700 e o terceiro do século VII, sem outra precisão. Para o Missal de Bobbio, completar com o estudo de dom Wilmart, que o data do século VIII, no Dictionnaire d'archéologie chrétienne et de liturgie, t. ii, col. 939-962. Dom Wilmart modificou algumas de suas opiniões em 1912 na Revue Charlemagne, t. ii, p. 1-16. Cf. G. Morin, Revue bénédictine, 1914-1919, t. xxxi, p. 326-332; Th. Zahn, Geschichte des neutestamentlichen Kanons, t. ii, p. 285. Os manuscritos estão: para o Missale gothicum, no Vaticano, fundo da Rainha, n. 317; para o Missale gallicanum, no Vaticano, fundo palatino, n. 493; para o Missal de Bobbio, na Biblioteca nacional de Paris, lat. n. 13 246.

Eis os três textos fornecidos por nossos documentos. Pode-se recorrer, para lê-los de um só golpe de vista e ao mesmo tempo constatar a ausência do rito nos documentos paralelos das outras liturgias, ao quadro inserido pelo R. P. Galtier no artigo Imposition des mains deste Dicionário, t. vii, col. 1351-1354.

a. Missale gothicum, P. L., t. lxxii, col. 275. Imediatamente após o Baptizo te e a unção do crisma, segue-se a indicação: DVM PEDES EJVS Lavas, dicis : Ego tibi lavo pedes, sicut Dominus noster Jésus Christus fecit discipulis suis, tu facias hospitibus et peregrinis ut habeas vitam æternam. Segue-se a imposição das vestes brancas e, por fim, duas « collectio » para a perseverança dos neófitos.

b. Missale gallicanum vetus, P. L., t. lxxii, col. 370. No mesmo momento, mas depois de uma fórmula de unção totalmente diferente: AD PEDES Lavandos : Dominus et Salvator noster Jésus Christus apostolis suis pedes lavit : ego tibi pedes lavo, ut et tu facias hospitibus et peregrinis qui ad te venerint. Hoc si feceris, habebis vitam æternam in sæcula sæculorum. Amen. Segue-se, sem nenhuma lembrança da imposição das vestes, uma oração post baptismum.

c. Missale Bobbiense (Sacramentarium gallicanum, de Mabillon), P. L., t. lxxii, col. 502. Aqui, uma particularidade notável. Em vez de preceder a imposição das vestes como no Gothicum (e era já a ordem indicada por Santo Ambrósio), a lavagem dos pés vem depois desse rito, que segue imediatamente a unção, collectio ad pedes LAVAndos : Ego tibi lavo pedes, sicut Dominus noster Jésus Christus fecit discipulis suis, ita tu facias hospitibus et peregrinis. Dominus noster Jésus Christus de linteo quo erat præcinctus tersit pedes discipulorum suorum, et ego facio tibi : tu facies peregrinis, hospitibus et pauperibus. Seguem-se, sob os títulos Post baptismum e Item alia, duas orações ou, mais exatamente (pois o título item alia parece bem um contrassenso), uma monição e uma oração para a perseverança dos neófitos.

Terá sido notado que em nossos três textos a lavagem dos pés é posterior à unção. Nos dois primeiros, ela precede a imposição das vestes; no terceiro, faz-lhe seguimento.

b) Textos patrísticos. Além dos textos litúrgicos, possuímos, como atestação da lavagem batismal dos pés na Gália, textos de São Cesário de Arles (470-543), por muito tempo editados sob o nome de Santo Agostinho, e que a crítica do nosso tempo restituiu a seu verdadeiro autor. Cf. neste dicionário, o artigo Césaire, t. ii, col. 2170 sq. Não são mais que alusões, mas que, aproximadas dos textos litúrgicos, recuperam todo o seu valor. Serm., clxviii. In pascha, P. L., t. xxxix, col. 2071, n. 3 : « Que os padrinhos lembrem frequentemente a seus afilhados os compromissos assumidos no batismo. Admoneant ut caritatem custodiant..., peregrinos excipiant et secundum quod ipsis in baptismo dictum hospitum pedes est, lavent. » Serm., cclvii, ibid., col. 2220. É um exame de consciência sobre as inúmeras negligências que têm a censurar-se aqueles mesmos que não são culpados de faltas graves. Cogitemus ex quo sapere cœpimus... quid pro eo quod tarde aut difficile Christum in carcere visitavimus, quod peregrinos negligenter excepimus, quod secundum promissionem nostram in baptismo hospitibus pedes lavare negleximus.

Serm., cxlix, Cœna Domini, ibid., col. 2035. São censuras àqueles que julgam abaixo de si lavar os pés dos pobres e dos viajantes. O rito do batismo não é nele lembrado, mas reconhece-se facilmente o tema das passagens já citadas. Por outro lado, vemos aparecer a idéia que voltará em outros lugares, de que lavar os pés dos pobres é um meio de expiar os próprios pecados. Quam excusationem prætendere poterimus qui ... dedignamur impendere peregrinis quod ille dignatus est impendere servis suis ? Timeamus ergo, fratres, illud quod beatus apostolus Petrus timuit quando audiuit Dominum dicentem : Si non lavero te, non habebis partem mecum... Inclinemus nos potius ad sanctorum vel peregrinorum vestigia : quia cum hoc sancta humilitate complemus, illorum quidem pedes manibus nostris tangimus, sed animarum nostrarum sordes et maculas per fidem et humilitatem abluimus et non solum minuta, sed etiam capitalia peccata purgamus.

4. País céltico (Cornualha, País de Gales, Irlanda, Escócia, Bretanha ou Armórica). A existência da lavagem dos pés pós-batismal nesses países nos é atestada pelo documento conhecido sob o nome de Missal de Stowe. Tomamos emprestada a descrição a dom P. de Puniet, Dictionnaire d'archéologie chrétienne et de liturgie, art. Baptême, t. ii, col. 334. « Esse manuscrito, encontrado no século XVIII na Alemanha, permaneceu sucessivamente na biblioteca do duque de Buckingham em Stowe, depois na de lord Ashburnham, de onde passou recentemente (sob a cota D, II, 3) à Academia real de Dublin.

Ele esteve primitivamente em uso numa igreja, sem dúvida monástica, de Munster, no sul da Irlanda. Por sua escrita cursiva e pela ornamentação de suas letras, parecia pertencer à arte irlandesa do século VI. Dom Bäumer o julgava do século VII. Mas hoje o consideram como datando do século VIII ou do IX, com adições do X (E. Bishop. Journal of theological studies, 1903, t. iv, p. 574, nota 1). » Cf. a descrição de dom Gougaud no mesmo Dicionário, art. Celtiques (liturgies), t. iib, col. 2973. O Missal de Stowe foi editado por F. E. Warren, The Liturgy and Ritual of the Celtic Church, Oxford, 1881. Nosso rito é descrito à página 217 dessa edição.

Depois da ablução batismal, da unção do crisma, da imposição das vestes brancas e da « apertio manus » (um rito quase exclusivamente celta e que consiste num sinal da cruz traçado pelo sacerdote na mão direita do batizado; encontra-se esse rito em Jumièges no século XI. Martène, De ant. Eccl. ritibus, p. 73), vem: TUNC AD LAVANDUM PEDES EJUS ACCEPTO LINTEO. Alléluia. Lucerna pedibus meis verbum tuum, Domine. Alléluia. Adjuva me Domine et salvus ero. Alléluia. Visita nos Domine in salutare tuo. Alléluia. Tu mandasti mandata tua custodiri nimis. Mandasti misericordiam tuam, opus manum tuarum ne despicias. Si ego lavi pedes vestros dominus et magister vester et vos debetis alterutrius pedes lavare : exemplum enim dedi vobis ut quemadmodum feci vobis et vos facitais (sic) aliis. Dominus et salvator noster Jesus Christus, pridie quam pateretur, accepto linteo splendido, sancto et immaculato, præcinctis lumbis suis misit aquam in pelvim, lavit pedes discipulorum suorum. Hoc et tu facias exemplum Domini nostri Jesu Christi hospitibus et peregrinis tuis.

Segue-se imediatamente a fórmula da comunhão do novo batizado: Corpus et sanguis D. N. J. C. sit tibi in vitam æternam. Amen. É talvez, como conjectura Warren nesse ponto, esse uso galicano do pediluvium que Santo Agostinho de Cantuária pedia aos bispos bretões que abandonassem quando, entre outras condições de união, lhes oferecia esta: Ut ministerium baptizandi, quo Deo renascimur, juxta morem sanctæ romanæ Ecclesiæ compleatis. Bède, H. E., ii, 12, P. L., t. xcv, col. 83; Haddan e Stubbs, Councils and ecclesiastical documents of Great Britain and Ireland, t. i, p. 153; cf. Wilson, dissert. iv, em A. J. Mason. The mission of S. Augustin to England, Cambridge, 1897.

5. Espanha. Toda a história da lavagem dos pés neste país se situa entre dois cânones conciliares: o cânon 48 de Elvira, que a proíbe nos primeiros anos do século IV, e o cânon 3 de Toledo que o prescreve em 694. Mas no primeiro caso trata-se do rito batismal e no segundo da cerimônia anual da quinta-feira santa, da qual se tratará mais adiante. Eis o cânon de Elvira, que no Decreto, causa I, quaest. i, c. 104 : Emendari placuit, ut hi qui baptizantur, ut fieri solebat, nummos in concha non mittant, ne sacerdos quod gratis accepit pretio distrahere videatur, NEQUE PEDES EORUM LAVANDI SUNT a sacerdotibus vel clericis. F. Lauchert, Die Kanones der wichtigsten altkirchlichen Concilien... Fribourg-en-B. et Leipzig, 1896, p. 21. A última linha foi por vezes lida sed clericis. Não parece que se deva aceitar essa leitura, que daria um sentido totalmente diferente ao nosso cânon. Quanto à data do concílio de Elvira, ordinariamente colocado em 306, ela foi controvertida. Mas os limites extremos da dúvida não ultrapassam o século IV. Nossa presente investigação não requer maior precisão. Cf. Hefele, Histoire des conciles, trad. Leclercq, t. i a, p. 249.

Em todo caso, não nos espantaremos de não encontrar vestígio do rito pós-batismal da lavagem dos pés nos textos que nos são conservados da liturgia visigótica. Cf. M. Férotin, Le Liber ordinum en usage dans l'Église wisigothique et mozarabe d'Espagne du Ve au xi e siècle, nos Monumenta Ecclesiæ liturgica, publicados sob a direção de dom Cabrol e dom Leclercq, Paris, 1904, t. v, col. 34.

Os quatro textos que relatamos, a saber, os três documentos galicanos e o Missal de Stowe, são, até onde sabemos, os únicos livros litúrgicos completos que contêm o rito batismal da lavagem dos pés. O fato nada tem de espantoso, se se lembrar que não existe nenhum livro litúrgico galicano puro de toda infiltração romana. Aqueles mesmos que acabamos de estudar testemunham essa mistura de ritos que irá crescendo a partir de Carlos Magno. Cumpre notar especialmente que os livros milaneses, ditos ambrosianos, são todos de baixa época: nenhum é anterior ao século X. Cf. P. Lejay, no Dictionnaire d'archéologie chrétienne et de liturgie, art. Ambrosien (rite), t. i, col. 1375. O rito milanês só aparece na história, como rito local, por ocasião das crises que lhe fez sofrer a concorrência do romano. E dessas crises, das quais a mais antiga, atestada aliás por lembranças em parte lendárias, se liga a uma tentativa de Carlos Magno, o rito nunca saiu incólume, de modo que não é, em seu estado histórico, mais que uma mistura de romano e de galicano, testemunha a presença do cânon romano da missa.

Nada de espantoso, portanto, se o ritual batismal, menos resistente que a missa, perdeu as particularidades outrora atestadas por Santo Ambrósio e que o De sacramentis já nos mostrava fortemente abaladas pela concorrência do uso romano. Haveria evidentemente lugar para perguntar se os usos galicanos (no sentido amplo da palavra, que se aplica à Gália Cisalpina ou Alta Itália tanto quanto à nossa Gália Transalpina, hoje a França), usos que vemos opor-se ao rito romano nos séculos IV e V (cf. a carta do papa São Inocêncio a Decêncio. P. L., t. xx, col. 554), não testemunhariam eles próprios um antigo uso romano, que seria a fonte comum de todos os ritos ocidentais. A questão foi posta, como se sabe, mas ultrapassa de muito o quadro de nosso estudo e parece bem, no estado atual dos documentos, insolúvel.

Conclusão. Em que época desapareceu a lavagem dos pés pós-batismal nas regiões onde esteve em uso? Eis uma questão à qual é difícil responder. Já se disse que em Milão deve ter desaparecido entre o século V e o X. São limites bem largos.

Na Espanha, não se encontra vestígio dela depois do concílio de Elvira, no começo do século IV. Na Gália, Alcuíno, no século IX, não faz dela a menor menção ali onde enumera em pormenor os ritos do batismo. Epist., xc e cxiii, P. L., t. c, col. 292. Nada também em Amalário, De cœremoniis baptismi, P. L., t. xcix, col. 899. Basta aliás refletir um instante para dar-se conta de que a lavagem dos pés, rito comovente e instrutivo nos batismos de adultos, dificilmente podia aplicar-se às crianças. Tornando-se o batismo das crianças o caso geral, o rito devia cair por si mesmo. E talvez não se deva buscar outra causa para explicar o desaparecimento desse uso. Quem sabe mesmo se em Roma, onde ele não é atestado, não havia por esse motivo desaparecido há muito tempo na época de nossos mais antigos documentos? Explica-se em todo caso que os únicos textos que nos mostram ainda em vigor venham das regiões que, na orla do Império, viram por muito tempo ainda batismos de adultos.

Mencionemos contudo, a título de lembrança, uma sobrevivência do rito em Milão. Eis o que lemos num cerimonial do século XII, editado por Muratori, t. iv, p. 898, e reeditado por Magistretti, Beroldus sive Ecclesiæ ambrosianæ Mediolanensis kalendarium et ordines sæc. XII ex codice ambrosiano, Milão, 1894, p. 112. Após a exposição dos ritos da bênção da fonte e do batismo solene do sábado santo, imediatamente depois da unção do santo crisma, acompanhada da oração Deus Pater omnipotens... qui vos regeneravit ex aqua et Spiritu Sancto, lê-se a seguinte rubrica: Prædicti custodes debent suscipere prædictos pueros baptizatos de manibus patrum suorum qui eos traxerunt de fonte; et duo custodes majores de octo minoribus debent esse præparati, unus cum vase aquæ, alter cum manutergio sumpto de camera archiepiscopi. Et tunc archiepiscopus lavat pedes pueris tribus prædictis et extergit eos cum manutergio et osculatur, et tunc imponit calcaneos uniuscujusque super caput suum. Essa última rubrica não nos era ainda conhecida. Quem sabe se não se deve ver nela uma alusão tardia às especulações de Santo Ambrósio sobre a iniquitas calcanei? Magistretti, em sua nota neste lugar (238), remete-nos a J. Vicecomès, De antiquis baptismi ritibus et cæremoniis, II, c. xvii e xx; Joan. Steph. Durandus, l. I, c. xix, n. 44.

2° A lavagem dos pés como cerimônia especial da quinta-feira santa. — Era natural que, no dia aniversário da última Ceia, se quisesse reproduzir o gesto comovente do Salvador. A idéia deve ter surgido cedo e em diversos lugares. Mas ela só inspirou, na maioria dos casos, atos puramente privados, quando muito, nas famílias monásticas, atos da vida conventual. A este título, a história da liturgia e, com maior razão, a da teologia não tem de ocupar-se disso. Como uso litúrgico, não encontramos nenhuma menção da lavagem dos pés nas mais antigas descrições que temos dos ritos da semana santa, notadamente nessa Peregrinatio Silviæ ou Etheriæ que nada nos deixou ignorar do que se praticava nesses dias em Jerusalém no decurso do século IV ou do V. Mostramos acima, col. 18, que nada há a tirar a esse respeito da carta de Santo Agostinho ad Januarium.

1. Os mais antigos vestígios na Espanha. A mais antiga menção que temos de um rito da lavagem dos pés praticado na quinta-feira santa é esta prescrição de um concílio de Toledo em 694: Si Dominus Redemptorque noster discipulorum non ... dedignatus est ablutione aquae pedes ablui, protestante evangelista (segue-se a citação de Joa., xiii, 3-14), cur non piae actionis exhibitione imbuti, exemplorum ejus non simus devotissimi sectatores ? Denique coruscante sanctæ operationis exemplo, partim desidia, partim consuetudine, in quibusdam ecclesiis in cœna Domini ablutione pedes fratrum a sacerdotibus non lavantur, nihil aliud obtendentes nisi solam traditionis consuetudinem, cum veritas objurgans dicat mandatum Dei : Quare vos transgredimini propter traditionem vestram ? Itemque precellentissimus martyr prosequens ait : Frustra qui ratione vincuntur consuetudinem nobis opponunt, quasi consuetudo... Nam licet eadem ablutio pedum omni tempore ut fiat expedibile habeatur, necesse est ut specialius in eodem die quo a Christo gestum est omnimode observetur. Proinde haec sancta synodus decernit atque instituit ut deinceps non aliter per totius Hispaniæ et Galliarum Ecclesias eadem solemnitas celebretur, nisi pedes unusquisque pontificum seu sacerdotum secundum hoc sacrosanctum exemplum suorum lavare statuat subditorum. Quod si quisquam sacerdotum hoc nostrum distulerit adimplere decretum, mensium spatiis sese noverit a sanctae communionis præceptione frustratum. Can. 3, Mansi, Concil., t. xii, col. 97-98.

Pôde-se observar que o concílio fala do uso da lavagem dos pés na quinta-feira santa como de um uso antigo que a negligência dos pastores teria deixado cair em desuso, partim desidia, partim consuetudine. Não conhecemos contudo nenhuma atestação anterior. Em particular deve-se observar que Santo Isidoro de Sevilha, morto em 636, isto é, cinquenta e oito anos antes de nosso concílio, não faz dela nenhuma menção na exposição, contudo pormenorizada, que deixou dos ritos da quinta-feira santa. De ecclesiasticis officiis, i, 29, 2, P. L., t. lxxxiii, col. 764.

Em compensação, constata-se a existência dela nos monumentos que nos chegaram da liturgia visigótica ou moçárabe, em uso na Espanha até o século XI. O mais antigo desses monumentos é o Liber ordinum ou pontifical moçárabe editado por dom Férotin, Monumenta Ecclesiæ liturgica, Paris, 1904, t. v, col. 190. A rubrica de que se trata, é verdade, está redigida em termos muito obscuros, que só podemos reproduzir, remetendo a Férotin para um ensaio de explicação. Eodem vero die (in Cena Domini) ad missam omni tempore monendum erit signum ad sex semipedes. Et incipienda erit lectio legere ad septimum. Et erit post totum officium expletum, sive altare expoliatum, exiendum ad viginti duos pedes; et accedendum est ad cenam post pedes lavatos, sole jam occidenti. Seguem-se duas orações post pedes lavatos. Passemos sobre a esquisitice da expressão sex semipedes para designar os pés de doze homens (ou talvez um só pé de cada um dos seis primeiros).

Não é este o único enigma desse texto, cujo fim nos fala não menos bizarramente de « vinte e dois pés ». (Excluía-se talvez um apóstolo em memória de Judas). Seja qual for o sentido de tal ou tal das rubricas citadas (podem-se ver a esse respeito as notas de dom Férotin, loc. cit.), a existência do rito está muito claramente atestada. Encontra-se dela uma menção brevíssima num dos manuscritos estudados por dom Férotin para sua edição do Liber mozarabicus sacramentorum (mesma coleção, t. vi, col. 686): Incipiunt versus ad pedes lavandos. Ant. Diligamus nos invicem. A este propósito, Férotin remete ao Rituale antiquissimum de Silos e ao Breviarium gothicum, P. L., t. lxxxvi, col. 946-960.

Esse breviário moçárabe, publicado em Madri, 1775, contém na quinta-feira santa (in Cena Domini), depois das vésperas e do despojamento dos altares, sob o título Ad pedes lavandos : uma antífona e duas orações, das quais a segunda ao menos (edit. original, p. 359-360 e P. L., t. lxxxvi, col. 603-604) merece ser aqui reproduzida por dar com amplitude o simbolismo do rito. — Ant. Bone magister, lava me ab injustitia mea, et a peccato meo munda me. Si enim ego lavi pedes vestros, Magister et Dominus, et vos debetis aliorum lavare pedes. Exemplum enim relinquo ut, quemadmodum ego facio, et vos similiter faciatis. Beati immaculati in via qui ambulant in lege Domini. Oratio — Unigeniti Dei Patris Filius... Alia oratio. Domine Jesu Christe, Filius Dei, qui tempore nuntiatus et ante omnia tempora ex Patre genitus, quique etiam post multa sæcula nasci dignatus es de Virgine Matre, quique formam servi accipiens in similitudinem hominis nunquam abfuisti de sinu Ingeniti Patris; quique non dedignatus pedes tuorum lavare discipulorum; qui es etiam Dominus Angelorum : quæsumus omnipotentiam tuam, clementissime Deus, ut cujus nitimur imitari exemplum, ejus mereamur fieri participes regni : quatenus abluti ab omnibus nostrorum vitiis peccatorum, serviamus nomini sancto tuo. Lava mores nostros unda verbi tui, et a contagione sordium gratia purifica salutari; et qui Unigeniti tui humilitatem annuo recolimus opere, dum aqua fraternos pedes abluimus, humilitatem sedulo prosequamur : et quod visibiliter nos impendimus pedibus tu invisibiliter nostris impertias animabus. Amen.

O missal moçárabe de Ximenes (Missale mixtum), reproduzido por Migne, P. L., t. lxxxv, dá na quinta-feira santa um rito completo ad lavandos pedes. É a sacerdotes que o bispo lava os pés clausis ostiis et laicis omnibus foris projectis, col. 420 sq.

2. Os mais antigos vestígios nos países de rito romano. Da Espanha, passemos aos países de rito romano, que se estendem, a partir da época de Carlos Magno, a todo o Ocidente. Na época, com efeito, em que a Igreja da Espanha se servia ainda dos livros moçárabes que acabamos de citar, a liturgia galicana havia desaparecido há muito tempo da Gália propriamente dita, por obra de Carlos Magno. Nada de espantoso, portanto, se nada encontramos nos livros galicanos estudados acima a propósito do batismo. Nada aliás tampouco nos sacramentários romanos anteriores à época carolíngia. Encontrar-se-ão sem dúvida menções da lavagem dos pés nos documentos da história monástica. Mas não há nada aí que se assemelhe a um uso litúrgico: é uma simples prática de piedade ou de limpeza, e que aliás se faz fora da quinta-feira santa: a regra de São Bento a prescreve todos os sábados para a comunidade (c. xxxv) e além disso por ocasião da recepção dos hóspedes (c. liii). Essas prescrições deram lugar a diferentes usos que Martène estudou (De antiquis ritibus monachorum) e cujo desenvolvimento deu origem à cerimônia litúrgica da quinta-feira santa.

Na época carolíngia, parece bem que a lavagem dos pés ainda não estava representada no cerimonial da quinta-feira santa senão por um rito eminentemente simbólico, a lavagem dos muros e do pavimento da igreja. Pseudo-Alcuíno, De divinis officiis, c. xvi, P. L., t. ci, col. 1205. Eodem die altaria templi et parietes sive pavimenta ecclesiæ lavantur et vasa Domino sacrata purificantur. Quamvis ornatui possit congruere lavatio eorum, tamen non deest aliquid mysticum... Lavatio domus... signum est lavationis pedum fratrum. Lavatio pedum fratrum signum est remissionis peccatorum, sive quando a Domino remittuntur seu invicem a nobis ipsis. Cf. Rupert, P. L., t. clxx, col. 143 e Bento de Aniane, P. L., t. ciii, col. 1201.

Nossa cerimônia existia já na época merovíngia? A única testemunha que se pôde alegar é Santo Elói, bispo de Noyon sob o rei Dagoberto. Homilia VIII. In die Cœnæ Domini, P. L., t. lxxxvii, col. 623. Et quia in hac die sacratissima fiunt plurima in sancta Ecclesia quæ necessario debet scire vestra industria, sicut pœnitentium reconciliatio, sacri olei benedictio, sancti chrismatis confectio, fraterna pedum ablutio, ecclesiarum quoque et sacrorum purificatio, dignum judicavimus quantum Dominus dederit, hæc vestræ fraternitati disserere. Na sequência do desenvolvimento, ele não volta à lavagem dos pés como a um rito em uso, mas liga ao exemplo do Salvador o costume de lavar o pavimento e os muros da igreja, assim como os vasos sagrados. Quanto a nós, em presença do silêncio de todos os textos contemporâneos, defendemo-nos mal contra a impressão de que as palavras fraterna pedum ablutio devem ter sido acrescentadas ao texto por copistas posteriores, chocados de não ver mencionado aqui um dos ritos mais característicos da Quinta-feira santa.

Parece que ainda no século XIV, o famoso Durand de Mende, cujo Rationale é como a síntese de todo o simbolismo litúrgico da Idade Média, não conhece de outro modo a lavagem dos pés. Rationale divinorum officiorum, l. VI, c. 76. De denudatione altarium. In plerisque locis lavantur altaria vino et aqua... In quibusdam etiam locis pavimentum ecclesiæ etiam mundatur, per quod pauperes Christi significantur... Pavimentum ergo mundat qui pauperibus vel fratribus propter Deum pedes lavat et illis cetera misericordiæ opera exhibet. Inde est quod parietes domus quamvis vocabulum ecclesiæ habent pro eo quod continent ipsam, non tamen ipsi sed homines sunt ecclesia, et pavimentum est quasi hominum pedes.

Neste texto, como se vê, não se trata de um lava-pés litúrgico simbolizando uma relação de caridade, mas de um ato real de caridade simbolizado ele próprio pela lavagem do pavimento da igreja. Para encontrar a função litúrgica da quinta-feira santa, é preciso descer até os Ordines romani. Esses documentos, publicados por Mabillon (Museum italicum, t. ii) e reeditados por Migne, P. L., t. lxxviii, escalonam-se entre o século ix e o século xv. Descrevem minuciosamente as cerimônias seguidas pelo papa e pela capela papal. São essencialmente testemunhos do uso romano local. Mas, dada a força de irradiação de que sempre gozou o centro da cristandade latina, era inevitável que esses usos, mais ou menos adaptados, se espalhassem para longe. E, de fato, é nos Ordines romani que vemos nascer e desenvolver-se a maior parte das prescrições que seriam mais tarde codificadas no Cerimonial dos bispos e que se fundirão com os usos locais para formar os diferentes cerimoniais diocesanos e monásticos.

3. O rito segundo os missais. Os últimos Ordines romani são contemporâneos dos primeiros missais plenários. Chamam-se assim os livros em que todas as orações da missa estão pela primeira vez contidas in extenso, em vez de estarem dispersas, como anteriormente, entre diversos livros (o que ainda é o uso dos ritos orientais): sacramentário ou livro do sacerdote; antifonário ou livro do coro; evangeliário, epistolário etc. Por natural que pareça a ideia de reunir em um único livro todas as orações da missa, ideia que deu origem aos missais plenários, ela esperou, para produzir seu efeito, o grande desenvolvimento da missa privada que caracteriza a Idade Média. Não podendo analisar aqui todos os missais manuscritos que abarrotam nossas bibliotecas, passaremos diretamente àquele que é quase o único em uso hoje na Igreja latina, o missal romano.

O atual missal romano contém para a quinta-feira santa, depois da missa, das vésperas e do desnudamento dos altares, sem outra indicação de hora senão estas palavras: post denudationem altarium, hora competenti, facto signo cum tabula (na prática é ordinariamente à tarde), uma cerimônia muito solene que o cerimonial dos bispos considera obrigatória nas catedrais; nas demais igrejas é considerada facultativa. Caiu em desuso em muitos lugares. Para descrevê-la, nada melhor do que traduzir a rubrica precisa que a introduz: « Após o desnudamento dos altares, em hora conveniente, dá-se um sinal com a matraca e os clérigos se reúnem para fazer o mandatum (esta palavra, tornada usual para designar a própria cerimônia, é apenas a primeira palavra da antífona destinada a acompanhá-la). O prelado ou o superior reveste-se, por cima do amicto e da alva, de uma estola e de um pluvial de cor violeta; é assistido por um diácono e um subdiácono paramentados de branco como para a missa; no lugar destinado a essa cerimônia, ele coloca primeiro o incenso no turíbulo; depois o diácono, tendo sobre o peito o livro dos Evangelhos, ajoelha-se diante do superior e lhe pede a bênção. Tendo-a recebido, e cercado por dois acólitos que seguram castiçais acesos, de frente para o subdiácono que segura o livro, faz primeiro o sinal da cruz sobre o livro, depois o incensa e canta, como de costume, o evangelho da missa, Ante diem festum Paschæ. Terminado este, o subdiácono leva o livro aberto para o superior beijar, o qual é incensado pelo diácono como de costume. Em seguida o superior depõe o pluvial; ajudado pelo diácono e pelo subdiácono, cinge-se com um pano e, sempre assistido por eles, procede ao lava-pés, percorrendo a fila daqueles a quem deve lavá-los. Os clérigos lhe apresentam a bacia e a água; o subdiácono segura o pé direito de cada um; o superior se põe de joelhos diante de cada um, lava-lhes os pés, enxuga-os e os beija, enquanto o diácono lhe estende a toalha para enxugá-los. Durante esse tempo, canta-se o que segue. — »

a) Os cantos. Segue-se o texto de nove antífonas a cantar, acompanhadas na maioria pelo primeiro versículo de um salmo, após o qual se repete a antífona, como no intróito da missa. Não se diz Gloria Patri, por causa do luto especial dos dias santos. Ouve-se assim o começo dos salmos Beati immaculati, Magnus Dominus e Benedixisti. Quanto às antífonas, são tiradas do capítulo xiii de são João. Uma quarta antífona, que é o diálogo de Jesus e Pedro, repete-se três vezes seguidas, as duas primeiras com um versículo tirado do mesmo capítulo (esse recitativo é antes o de um responsório do que o de uma antífona). Vêm em seguida duas outras antífonas igualmente tiradas de são João e acompanhadas, uma de um versículo de salmo, Audite haec, a outra de um versículo do Evangelho; uma sétima antífona tirada da epístola aos Coríntios, Maneant in vobis fides, spes, caritas...; uma oitava antífona em honra da santíssima Trindade, Benedicta sit, com o começo do salmo Quam dilecta.

Uma nona antífona, de estrutura toda particular, é um centão bíblico bastante notável, entremeado aliás de versículos de composição eclesiástica. Essa peça era outrora muito mais considerável e era conhecida sob o nome de Hino da caridade; existiu por muito tempo à parte, sem ter ligação especial com a cerimônia do Mandatum. Os beneditinos a cantam ainda hoje na recepção dos noviços; dom Wilmart esboçou recentemente a história dessa notável peça de poesia litúrgica em um artigo da revista La vie et les arts liturgiques (1924), p. 250-259. Resumiremos aqui suas conclusões. Essa peça, diz dom Wilmart, que decorre da « mais pura doutrina do Evangelho, tem uma história literária da qual só o último termo aparece ainda na liturgia. Percorrendo os antigos exemplares impressos do Missal romano que precederam a publicação do papa são Pio V, percebe-se que a série total, de 1474 até as proximidades de 1570, oferece para a cerimônia do Mandatum um conjunto de antífonas que só se distingue de nosso texto oficial por sua extensão. Assim, reencontramos no Missal de 1474 a sequência dos « versículos » para os quais a antífona Ubi caritas serve de refrão.

A disposição das estrofes é materialmente a mesma, mas, em vez de três estrofes, temos nove, isto é, um poema ou um cântico que parece completo, ao menos à primeira vista. A reforma de 1570 consistiu, nessa circunstância, em reter apenas a primeira, a quarta e a última estrofes, sem outra intenção aparente senão a de encurtar um desenvolvimento tido por demasiado longo. Aliás, as primeiras edições dos séculos xv e xvi nada traziam de novo. Mantêm-se rigorosamente nos limites de uma tradição que é a da « Cúria romana ». O missal da Cúria, ou romano-franciscano, composto na segunda metade do século xiii, adotado pelo papa Nicolau III (1277-1280) para as igrejas de Roma e desde então difundido por toda parte, apresenta um ofício do Mandatum que, quanto ao texto, é exatamente aquele que acabo de indicar. Pode-se, portanto, estranhar, de passagem, que os editores de nossa peça, em 1914, não tenham tido a ideia de recorrer aos antigos missais. Os franciscanos encontraram em Roma já em uso os cantos destinados à cerimônia do lava-pés, ou são propriamente responsáveis por sua inserção no missal do século xiii? É um detalhe que não deveria ser difícil de verificar, mas que não tive meio de esclarecer. ...

Seja como for a prática de Roma na primeira metade do século xiii, diversas coletâneas litúrgicas da Itália que remontam aos séculos xi e xii, as do Monte Cassino notadamente, mostram-nos os versículos já aplicados à solenidade da quinta-feira santa. Ali ocupam o mesmo lugar que lhes é atribuído no missal da Cúria e desenvolvem-se igualmente a partir da antífona retomada antes de cada grupo de versículos. Contudo, uma nova estrofe inédita nos é fornecida, a oitava da redação primitiva, Tota ergo, o que perfaz agora um total de dez estrofes. No Monte Cassino, antes do século xi, os belos « ... versículos não são mais atestados. Da Itália central ou meridional somos reportados à região do Norte, de ambos os lados dos Alpes. ... Quatro coleções de poesias rítmicas e métricas contêm nossa peça, dando-lhe enfim seu verdadeiro nome, hino da caridade, e relatando sua forma exata em doze estrofes nas quais o refrão não é mais uma antífona inicial, mas um quinto versículo constante: Ubi caritas est vera (em lugar da repetição banal: Ubi caritas et amor, Deus ibi est). Quatro estrofes são novas; mais precisamente, dezesseis versículos nos são restituídos, pois a redação posterior deixara escapar duas meias-estrofes. A primeira estrofe dessa redação, que é também a última, o terceiro grupo do texto oficial, desaparece. É substituída por uma doxologia original que inclui, muito oportunamente do ponto de vista da história, uma oração pelos « senhores » ... Esses soberanos são verossimilmente Carlos Magno († 814) e seus filhos, em razão da partilha do império que teve lugar em 806.

« A oitava estrofe, já assinalada para o século xii, perdida em seguida, constituía um indício de grande valor. Et illius nihil amori præponamus. Este verso faz certamente eco a uma recomendação de são Bento em sua regra: Nihil amori Christi præponere, c. iv, 23; cf. v, 2; lxxii, 13, edição Butler. E assim a origem da peça está comprovada. Quanto ao resto, é bastante evidente que esse elogio da caridade fraterna, fraternus amor, essa altiva definição da vida comum, congregavit nos in unum Christi amor, esse apelo repetido à concórdia, Ne nos mente diuidamus caveamus... Unum omnes indivise sentiamus, só se entendem bem na perspectiva de um mosteiro beneditino. » Se não me engano, o hino Ubi caritas foi um desses hinos imaginados na época carolíngia para acompanhar o Mandatum ordinário (semanal) dos monges, quando as composições, quer métricas quer rítmicas, encontraram tanto crédito, notadamente sob a influência de Paulino de Aquileia.

« De que centro nos vem o hino da caridade, já que é preciso renunciar a conhecer-lhe o próprio autor? Nossos manuscritos fornecem três nomes: Saint-Gall, Reichenau no lago de Constança, Verona a meio caminho entre Milão e Aquileia. Saint-Gall é uma designação muito sedutora: as artes ali floresceram maravilhosamente. Mas convém lembrar que, das margens de Saint-Gall às planícies da Itália, o intercâmbio era frequente. Por outro lado, contrariamente ao que se poderia crer de início, o texto escrito em Reichenau não é o de Saint-Gall, mas o de Verona. Ora, um outro hino da mesma forma singular que o hino Ubi caritas nos foi conservado: uma peça sobre a ressurreição em quatorze estrofes com refrão no quinto verso. ... O hinário de Verona é o único a dá-la a conhecer. Essa circunstância determina suficientemente a proveniência italiana do hino da caridade... E é de fato na Itália que ele fez fortuna até o momento em que o Missal curial o recebeu para transmiti-lo definitivamente ao Missal de são Pio V. »

b) As cerimônias. A quando remontam o cerimonial e os outros textos? O cerimonial é simplesmente aquele que vimos nascer e desenvolver-se nos Ordines romani. Quanto ao texto das orações, tal como se lê no Missal romano reformado por Bento XV, impresso pela Tipografia vaticana e autenticado por decreto da Congregação dos ritos de 25 de julho de 1920 (é o único que tem força de lei hoje para toda a Igreja latina, salvo as exceções muito restritas e bem conhecidas de Milão, de Toledo, de Lyon e de algumas ordens religiosas: cartuxos, dominicanos, carmelitas calçados), tal já se lia nas edições oficiais e sucessivas de Pio V, de Clemente VIII, de Urbano VIII e de Leão XIII. Pode-se, portanto, dizer que esse texto não tem história desde o concílio de Trento, em nome do qual Pio V promulgou sua edição oficial, que devia pouco a pouco eliminar os missais locais e realizar a unidade litúrgica da Igreja latina. Para os tempos que precedem imediatamente o concílio de Trento, a investigação é um pouco mais complicada.

Pois já não se tem a ver com uma edição oficial única, mas com edições diversas, todas de caráter mais ou menos local e que, sobre o fundo romano idêntico, afirmado desde o próprio título, missale secundum consuetudinem curiæ romanæ, bordam todas variações mais ou menos consideráveis, das quais as mais notáveis, ou ao menos as mais aparentes, são geralmente de origem franciscana, tendo sido os frades menores, durante três séculos, os grandes propagadores do uso litúrgico romano. O missal romano, naqueles tempos, não é de modo algum um ente de razão, pois distingue-se à primeira vista dos missais locais parisiense, lionês, dominicano, cartusiano, monástico de todas as proveniências etc. Mas tampouco é uma individualidade literária determinada, como o será o Missal de são Pio V. Se tivéssemos, pois, de fazer aqui a história do Missal romano, ou mesmo de tal ou tal de seus ritos, não teríamos tão cedo terminado. Para o assunto muito restrito que nos ocupa, o problema simplifica-se, ou antes, desvanece-se. Pois, sem ter visto nem mesmo procurado ver todos os missais impressos (o trabalho seria longo e o resultado escasso), podemos afirmar que não se encontra nenhuma variante de alguma importância naqueles que pudemos confrontar com o Missal de Pio V e cujos títulos transcrevemos aqui, descendo desde a edição princeps.

a. Missale romanum, Mediolani, 1474 (título posto a posteriori no dorso do exemplar único conservado na Ambrosiana de Milão sob a cota S. Q. N. 111.14 e cujo título completo, desaparecido há muito por laceração, era sem dúvida, como na reimpressão de 1480, Missale completum secundum consuetudinem romanæ Curiæ. Aliás, só alcanço essa edição, a primeira conhecida, pela reimpressão muito cuidada de Robert Lippe, na coleção da Henry Bradshaw Society, t. xvii, Londres 1899.) Ver o lava-pés nas páginas 158-161. A rubrica que o introduz é muito curta: Post nudationem altarium hora competenti facto signo cum tabula conveniunt fratres ad faciendum mandatum majores abluunt pedes et osculantur et interim hæc subscripta cantantur vel omnia vel in parte pro dispositione cantoris. Seguem-se dezoito antífonas, nas quais se reencontram as nove de nosso missal atual com algumas variantes. Depois da primeira antífona, esta rubrica: Et sic aliæ antiphonæ cum psalmis vel versus repetuntur. Et nota quod de quolibet psalmo non dicitur nisi unus versus. Depois das antífonas, não há nenhuma rubrica. Nada tampouco dos versículos e orações que hoje terminam a função.

b. Esses últimos elementos aparecem cem anos depois na edição de Plantin, Antuérpia, 1574; cf. Lippe, t. ii, p. 75, que serve a Lippe de padrão para a edição reformada de Pio V (1570).

c. Encontram-se no mesmo ano na edição de Paris (na casa de Jacques Kerner, via Jacobsea, sub signo Unicornis, com privilégio de Pio V, de Gregório XIII e de Carlos IX, Biblioteca dos Bolandistas, Fol. Lib. lit. 55). Contudo, nesse último exemplar, a rubrica é mais curta do que hoje. Post lotionem qui aliis Post lotionem Superior abluit pedes capite detecto vel qui aliis abluit pedes dicit Pater noster, etc... lavat manus et abstergit deinde alio linteo rediens ad locum ubi prius fuerat, accipit pluviale et stans capite detecto dicit: Pater noster, etc.. Essas palavras se encontram em Lippe. Na oração final são acrescentadas estas palavras: ut ubi hic nobis et a nobis exteriora abluentes.

d. Missale romanum, edição de Veneza, apud Andream et Jacobum Spinellos... 1556. Post nudationem altarium, hora competenti,... (ut supra). Majores abluant pedes minoribus et tergant et osculentur. Et interim, etc.

A esse estudo sobre a história do Mandatum no rito romano poder-se-iam acrescentar alguns espécimes de missais não romanos, escolhidos mais ou menos ao acaso de nossos encontros e com o único propósito de fazer entrever a que infinita complicação de detalhes secundários se chocaria quem quisesse fazer uma história completa dessa função litúrgica. O teólogo pode, aliás, ignorar essas pequenas variantes.

III. Questão teológica: o lava-pés é um sacramento? 1° Sentido lato da palavra sacramentum. Essa questão nos parece hoje quase estapafúrdia. De um lado, muitas pessoas ignoram que esse rito fez outrora parte do Ordo Baptismi; de outro, estamos tão habituados à enumeração dos sete sacramentos, clássica desde Pedro Lombardo e dogmática segundo os concílios de Florença e de Trento, que sempre nos chocamos ao ver autores antigos aplicarem a denominação de sacramentum a ritos que são, no máximo, o que hoje chamamos sacramentais. Para quem, no entanto, tenha folheado os teólogos do século xii, sabe-se quão frequente era esse uso de uma palavra que, desde a Bíblia latina, tem uma história muito complexa. Essa história, que não poderíamos traçar aqui nem sequer sumariamente, acaba de ser escrita com toda a amplitude e a precisão necessárias para o período anteniceno pelo R. P. J. de Ghellinck, S. J., Pour l'histoire du mot sacramentum, Louvain, 1924. Dessa história da palavra sacramentum resulta claramente que, no século xii ainda, ela tinha dois sentidos principais:

1. O de mistério da fé, e aplicava-se-lhe, por exemplo, à Encarnação, no sentido em que se lia em são Paulo sacramentum absconditum a sæculis in Deo. Mestre Rolando Bandinelli, que devia tornar-se papa sob o nome de Alexandre III, enumera em sua Summa sententiarum sete « sacramentos », e o primeiro dos sete é a Encarnação. Cf. A. Gietl, Die Sentenzen Rolands, Fribourg-en-B., 1891, p. 157: De sacramentis itaque tractaturi ab illo præcipue sacramento, Verbi videlicet incarnatione exordiamur. Os seis outros sacramentos são os nossos; somente a ordem é omitida na enumeração, mas tratada na sequência do desenvolvimento sob este título: De clavibus sacerdotalibus.

2. O de rito simbólico, e nesse sentido aplicava-se tanto aos sete ritos santificadores que o século seguinte devia pôr à parte como causas instrumentais da graça quanto aos inumeráveis ritos que hoje chamamos sacramentais: bênção da água, imposição das cinzas etc.

2° Aplicação do sentido lato de sacramentum ao lava-pés. Ora, a esse duplo título, o lava-pés mereceria a qualificação de sacramentum.

Tal como era praticado na liturgia da quinta-feira santa, esse rito merecia ser comparado aos outros ritos simbólicos da liturgia, como a imposição das cinzas. Mas, além disso, tal como se via no Evangelho, aparecia como uma lição do Salvador, como que cheia de sentido profundo, um « mistério » de sua vida, análogo à multiplicação dos pães, à cura do cego de nascença e a outros relatos que, particularmente em são João, podem parecer ainda mais destinados a alimentar a contemplação do cristão do que a registrar recordações do passado. É esse sentido principalmente que encontraremos em um sermão de são Bernardo que ordinariamente faz as despesas da discussão, e do qual reproduzimos o essencial:

« Eis os dias que devemos reverenciar, observare, dias cheios de piedade e de graça, que provocam ao arrependimento até as almas dos criminosos. Tão grande é, com efeito, a força dos mistérios, sacramentorum, lembrados nesses dias, que seriam capazes de quebrar até corações de pedra e de amolecer peitos de bronze. Vemos que hoje ainda a paixão de Cristo comove não somente o céu, mas a terra: as pedras ainda se fendem e os túmulos se abrem, como que pela confissão dos pecados. Mas, como acontece com os alimentos do corpo, entre os alimentos da alma uns são facilmente saborosos, outros exigem, para serem degustados, algum labor: as coisas evidentes não precisam que nos esforcemos em explicá-las; não é o mesmo com as coisas ocultas, que pedem ser meditadas com cuidado. A mãe não dá à criança uma noz inteira, ela a quebra e dá a amêndoa. Assim, meus irmãos, eu deveria, se pudesse, abrir-vos os mistérios ocultos. Mas, como minhas forças não vão longe, peçamos à nossa mãe comum, a Sabedoria, que nos quebre essas nozes, as nozes espirituais, quero dizer, produzidas pela vara de Aarão, que Deus fez brotar em Sião. Há muitos mistérios, sacramenta, e uma hora não basta para perscrutá-los todos... De três deles, que convêm bastante bem a este tempo, será preciso dizer o que Deus nos inspirar. Chama-se sacramentum um sinal sagrado ou uma « coisa ao mesmo tempo sagrada e secreta. Muitas coisas não têm outro fim senão elas mesmas; mas algumas só se fazem para dar a conhecer outras: são os sinais... Assim o anel que se dá, não por si mesmo, mas para investir alguém de uma herança. Assim o Senhor, aproximando-se de sua paixão, quis investir-nos de sua graça ocultando o dom invisível sob um sinal visível. É com esse fim que foram instituídos todos os sacramenta: a recepção da eucaristia, o lava-pés, o próprio batismo, princípio de todos os sacramentos, que nos assimila à morte de Cristo. Daí a tripla imersão, à imagem dos três dias que vamos agora celebrar. Assim como, com efeito, nas coisas exteriores há sinais diferentes... e, por exemplo, a investidura dos cônegos por meio de um livro, dos abades por meio do báculo, dos bispos pelo báculo e pelo anel ao mesmo tempo, assim há uma diversidade de graças ligadas a diferentes sacramenta.

« Mas, no entanto, que fazemos, uma vez que, neste « corpo de pecado e neste tempo mau, não podemos estar sem pecado? Será preciso desesperar? Longe disso! Se dissermos que estamos sem pecado, diz são João, enganamo-nos e a verdade não está em nós. Mas se confessarmos nossos pecados, Deus é fiel, e os perdoa e nos purifica de toda iniquidade. I Joa., i, 8-9. E, com efeito, para que não duvidemos da remissão dos pecados cotidianos, temos a figura dela no lava-pés, sacramentum ejus habemus, pedum ablutionem. Perguntar-me-ão talvez como sei que « é bem a figura, o sacramentum. Sobretudo dado que o próprio Senhor fez a são Pedro esta promessa: « O que faço, tu não o compreendes ainda; tu o saberás mais tarde. » Ele nada disse de sacramentum, falou apenas de exemplo dado. Mas é que tinha muitas coisas a dizer-lhes que eles não podiam ainda suportar. E é por isso que, não querendo deixá-los totalmente ansiosos e em suspenso, não lhes disse tampouco o que não teriam podido compreender. Mas quereis saber que é como uma figura, e não um simples exemplo? vis autem nosse quia pro sacramento illud est, non pro solo exemplo factum? Prestai atenção ao que é dito a Pedro: Si non lavero te, non habebis partem mecum. Há, pois, aí algo oculto, necessário à salvação, já que sem isso o próprio Pedro não pode ter parte no reino de Cristo e de Deus. Vede, com efeito, como Pedro se assusta com essa ameaça; não reconhece nela um mistério de salvação, quando responde: Domine, non tantum pedes meos, sed manus et caput?

« E como sabemos que o lava-pés se relaciona com a purificação desses pecados que não são ad mortem e que não podemos evitar completamente antes da morte? É pelo fato de que a Pedro, que oferecia à ablução as mãos e a cabeça, é respondido: Qui lotus est non indiget nisi ut pedes lavet. Está lavado aquele que não tem pecados graves, cuja cabeça, isto é, a intenção, e cujas mãos, isto é, a operação e a conversação, são puras. Mas os pés, que são as afeições da alma, não podem ser totalmente puros enquanto andamos na poeira; não é possível que não cedamos, nem que seja por um momento, à vaidade, à volúpia, à curiosidade além do que seria preciso: In multis offendimus omnes, Jac., iii, 2. » Sermo in Cœna Domini, P. L., t. clxxxiii, col. 271 sq.

Esse sermão de são Bernardo, que fizemos questão de citar quase por inteiro, recebeu do lado católico duas interpretações diferentes. Charles du Plessis d'Argentré, em suas notas adicionais às dissertações de Martin Grandin, propunha ver no lava-pés a confissão dos pecados veniais. Estava dominado pela preocupação de explicar no sentido estrito e moderno a qualificação de sacramentum atribuída por são Bernardo ao rito que nos ocupa. O cardeal Franzelin, Tractatus de sacramentis in genere, 2e édit., Roma, 1873, p. 287 sq., refuta essa interpretação e propõe outra, à qual todos parecem aderir. A palavra sacramentum, o sentido de rito produtor da graça, mas unicamente de símbolo.

O lava-pés, tal como foi praticado por Jesus Cristo (pois no sermão de são Bernardo trata-se unicamente do fato, e de modo algum do rito que praticamos na quinta-feira santa), foi uma figura, um símbolo eloquente da purificação de nossas menores faltas (Qui lotus est, non indiget nisi ut pedes lavet). Daí vem a preocupação do santo doutor de explicar que devemos empenhar nossos esforços em purificar-nos de nossas faltas leves, sem que nada trai nele a ideia de que a reprodução material do gesto do Salvador possa contribuir minimamente para essa purificação. Se pudesse haver alguma dúvida sobre o verdadeiro pensamento de são Bernardo, parece que bastaria compará-lo com a doutrina um pouco mais explícita, mas no fundo idêntica, de um contemporâneo, Arnaldo, abade de Bonneval (1156). Em um livro De cardinalibus operibus Christi, atribuído outrora a são Cipriano e editado com esse título por Nicolau Rigault, Paris, 1648, reproduzido por Migne, P. L., t. clxxxix, col. 1610-1678, ele comenta o lava-pés depois dos outros « mistérios » ou sacramenta da vida de Cristo.

« O Senhor já havia distribuído aos apóstolos os sacramenta de seu corpo, Judas já havia saído (esse detalhe parece contrário ao texto de são João) quando, de repente, levantando-se da mesa, cinge-se com um pano e, ajoelhando-se diante de Pedro, prestou ele, o Mestre, ao servo o serviço de uma perfeita humildade. E para que nada faltasse à perfeição de seu ensinamento, entre os preceitos fixos e imutáveis e aqueles que se podem mudar e modificar, estabeleceu uma distinção desta sorte: os uns sendo estabelecidos para sempre, ... por último, uma espécie de banho é oferecida aos fiéis para suas expiações cotidianas. Eis por que, Senhor muito bom, lavais os pés de vossos discípulos: é que, depois do batismo, que o respeito nos proíbe de reiterar, reservastes-nos um outro banho que não conhece intermitência, aliud lavacrum procurasti quod nunquam debeat intermitti. Mas aquilo que ensinais, começais por fazê-lo, a fim de que aprendamos de vossa bondade que vantagem há nessa obra, quanti quaestus hoc opus sit.

« O Senhor lhe disse: Nisi lavero te, non habebis partem mecum. Pouco a pouco declara a necessidade desse mistério, já estabelecida pela condição posta. Se só podemos ter parte com Cristo na condição de que ele mesmo nos lave os pés, vemo-nos forçados a consentir. Que ele no-los lave, pois, que os enxugue e nos exponha as virtualidades desse mistério, sacramenti hujus nobis virtutem exponat. Dissemos acima que aqueles que foram uma vez lavados pelo batismo não têm mais necessidade de outro banho. Mas este foi instituído em vista de nossas faltas cotidianas, sed hoc lavacrum quotidianis est excessibus institutum. Nosso exame atento, jugis retractatio, deve ir até o fim, perscrutar a menor de nossas obras e de nossos pensamentos, corrigir e lavar a alma móvel e instável cujas paixões se dão livre curso até o vício. Não devemos deixar nada em nossa vida que não seja submetido ao exame, que não seja expiado por nossos gemidos e nossos suspiros. » P. L., t. clxxxix, col. 1050 sq.

Vê-se claramente por essas últimas palavras que se trata aqui muito mais de exame de consciência do que de sacramento, no sentido moderno da palavra. Esses textos de são Bernardo e de Arnaldo de Bonneval (sob o nome de são Cipriano), com o de santo Ambrósio citado acima (col. 8), formam uma das dificuldades mais requentadas contra a doutrina do septenário. Faz, aliás, muito tempo que essa discussão, depois de ter sido um dos lugares-comuns da polêmica protestante no século xvi, não é mais que uma tradição de escola que os autores transmitem piedosamente sem que apaixone os espíritos.

Ao argumento patrístico acrescenta-se ordinariamente uma razão teológica: a definição geral do sacramento. Sinal sensível da graça instituído por Jesus Cristo: não parece que as duas partes dessa definição convêm admiravelmente ao lava-pés, e bem melhor mesmo do que a tal ou tal dos ritos admitidos no septenário oficial? Uma circunstância particular devia, com efeito, atrair a atenção sobre o lava-pés. É que essa prática parece clara e formalmente prescrita por Jesus Cristo: Exemplum enim vobis dedi ut quemadmodum ego feci, ita et vos faciatis. Se tivéssemos em favor de algum de nossos sacramentos, da confirmação, por exemplo, um texto evangélico tão formal, não hesitaríamos em ver nele a instituição divina do sacramento. Daí uma dificuldade que os controversistas protestantes do século xvi fizeram valer contra a doutrina do septenário.

Belarmino encontrou essa dificuldade e a ela respondeu nas Controverses, t. ii, De sacramentis in genere, III, c. xxiv, De numero septenario. Depois de ter expedido sem muita pena diferentes objeções tiradas do uso extensivo da palavra sacramentum entre os Padres, acrescenta: De lotione pedum major est difficultas. E dá as razões da objeção, tomadas principalmente a Chemnitz. Não temos aqui a promessa da graça, si lavero te non habebis partem mecum, a instituição divina, exemplum dedi vobis... et vos debetis, um mistério, quod ego facio tu nescis modo, enfim autoridades patrísticas, santo Ambrósio, são Cipriano, são Bernardo? A resposta é dada brevemente; encontrar-se-á a substância dela em todos os teólogos posteriores: o lava-pés foi um sacramentum largo modo, quemadmodum sacramenta dicuntur omnia quæ mysticum sensum habent, et figuræ sunt ac typi aliarum rerum. Mas, para ser um sacramento propriamente dito, falta-lhe:

a) Uma promessa de graça santificante, pois a palavra Nisi lavero não é senão uma ameaça de castigo por uma desobediência. Si enim Petrus obstinate recusasset illam lotionem, periisset in æternum; non quia illi deerat lotio pedum, sed quia peccaverit contra Christum et deerat illi obedientia. O que não impede o sentido místico exposto por santo Agostinho, etiam justos indigere ut Christus eos quotidie lavet a peccatis venialibus. Mas essa purificação não exige a gratia gratum faciens. Por isso Cristo acrescenta, daquele mesmo cujos pés não são lavados: est mundus totus.

O pecado venial não impede a graça santificante; todavia, o justo pode ter necessidade de uma purificação mais completa. Aliás, se o lava-pés operasse eficazmente a purificação dos pecados veniais, seria todos os dias que seria preciso praticá-lo. Ao contrário, o rito único praticado por Jesus Cristo figura para sempre a ablução interior que dele recebemos.

b) Falta ainda a esse rito a instituição divina (omnes): alioquin peccarent fere homines qui non utuntur ista cœremonia. O mandamento de Cristo, et vos debetis, deve entender-se em sentido figurado: præcipit humilitatem et caritatem, non autem ipsam materialem lotionem pedum, ut patet ex praxi Ecclesiæ: nunquam enim Christiani putarunt se habere speciale mandatum de lotione pedum. Quanto aos textos dos Padres, deixam-se explicar. Santo Ambrósio não fala da purificação do pecado propriamente dito, mas somente de quasdam reliquias peccati originalis. Aliás, guarda-se bem de censurar a Igreja romana, onde o lava-pés pós-batismal não estava em uso (trata-se aqui do autor do De sacramentis, atribuído então comumente a santo Ambrósio). São Cipriano e são Bernardo, si attente legantur, não falam de um rito sacramental a praticar materialmente entre nós, mas somente de um gesto simbólico de Jesus Cristo: et sane si putarent lotionem pedum sacramentum esse, oporteret nos quotidie ex eorum sententia lavare invicem pedes: id enim ipsi dicunt, hoc sacramentum esse quotidianarum culparum expiationem.

Eis, em duas colunas (199 e 200) do t. iii da última edição das Controverses, revista pelo próprio Belarmino, Colônia, 1619, a resposta que passou substancialmente idêntica a todos os teólogos posteriores. Seremos dispensados de enumerá-los. Em suma, à dificuldade sistemática exposta acima, e que se tira da noção abstrata do sacramento combinada com o fato da instituição por Cristo, a melhor resposta é ainda hoje a de Hurter, Theologiae dogmaticae compendium, 4e édit., t. iii, p. 222: in re sacramentaria optimam esse interpretem Ecclesiæ praxim. Cum ergo ex hac constet pedum lotionem nunquam habitam fuisse pro vero proprioque sacramento, manifestum quoque est verba Joa. XIII, 14, de sacramenti alicujus institutione non esse intelligenda.

As enciclopédias religiosas contêm todas um artigo sobre o lava-pés (Fusswaschung, Feetwashing, Ablutions). Ver sobretudo A. Frank-Nighe, em Encyclopædia of Religion and Ethics, t. v, p. 81 sq. Para os usos monásticos, além dos comentadores da regra de S. Bento, c. 35 e 53, e Martène, De ritibus monachorum, ver dom U. Berlière, Le Mandatum, na Revue liturgique et monastique, 1920, p. 134-139. A história do Mandatum propriamente dito foi esboçada por D. Stiefenhofer em Festgabe Alois Knöpfler zur Vollendung des 70 Lebensjahres gewidmet, trabalho que utilizamos retificando-o quando necessário segundo as fontes citadas no decorrer do artigo.

A. Malvy.

Autor original: A. Malvy

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