LAURIA (Brancati de), frade menor conventual e cardeal, nasceu em 10 de abril de 1612, na pequena cidade de Lauria (Calábria). Reduzido ao extremo por uma grave doença, fizera voto a são Francisco de entrar em sua ordem, se recobrasse a saúde. Em cumprimento dessa promessa, em 2 de julho de 1630, recebia o hábito religioso e mudava seu nome de João Francisco para Lourenço. Depois de concluir o curso de seus estudos e conquistar o título de mestre em teologia, ensinou por sua vez em vários conventos e mesmo na universidade da Sapienza, em Roma. Cedo seus conhecimentos teológicos e canônicos valeram-lhe os cargos de consultor das Indulgências, dos Ritos, da Visita, do Santo Ofício, da Consistorial, de examinador do clero e dos bispos e de primeiro custódio da biblioteca vaticana. Muito estimado pelos papas Alexandre VII, Clemente IX e Clemente X, o P. Lourenço foi criado cardeal, do título dos Santos Apóstolos, por Inocêncio XI, no consistório de 1º de setembro de 1681, e logo depois foi nomeado bibliotecário da santa Igreja. Merecia essa dignidade por seus trabalhos anteriores, pois, mal investido nessas funções, dedicava a seus colegas do Sacro Colégio o décimo volume de suas obras.
Sob a púrpura, o cardeal Brancati continuou sua vida laboriosa; o estudo, dizia ele, sempre fora o seu melhor repouso e, verdadeiro filho de são Francisco, nem por isso perdia o espírito de santa oração e de devoção. Sua caridade era proverbial, a tal ponto que o acusavam de prodigalidade. Uma inscrição colocada no convento dos Doze Apóstolos recorda que foi o benfeitor dessa casa, cuja biblioteca, em particular, mandara construir. Contribuiu ainda largamente para as despesas da beatificação de seu confrade, o humilde José de Cupertino. Enfim, cheio de dias e de méritos, o cardeal Brancati adormeceu piedosamente no Senhor, em 30 de novembro de 1693.
Deixava as seguintes obras: Epitome canonum omnium qui in conciliis generalibus ac provincialibus, in decreto Gratiani, in Decretalibus, in epistolis, in constitutionibus romanorum pontificum usque ad SS. D. N. Alexandri VII annum quartum continentur, in-fol., Roma, 1659, 2ª edição, Veneza, 1673, 1689, 1706; Colônia, 1683, 1684. Essa obra é um simples índice alfabético, no qual remete às coleções indicadas nos preliminares. O barnabita João Paulo Paravicini, vigário provincial da Alemanha, reeditou-a acrescentando as principais decisões, sob este título: Polyanthea sacrorum canonum coordinatorum... olim opera Em. ac Rev. DD. Brancati de Laurea... in epitomen redacti... sublata fontis adeundi necessitate, 3 vol. in-fol., Praga, 1708; Colônia, 1728. Sua obra principal é a seguinte: Commentaria in III et IV librum sententiarum Joannis Duns Scoti, 9 vol. in-fol., Roma, 1653, 1682. Esses comentários apareceram numa ordem bastante estranha: começou pelo IV livro, e o tomo primeiro sobre o III livro apareceu por último. Roccaberti inseriu três Disputationes, de decretis Ecclesiae, de objecto materiali fidei in quaestionibus facti, de proponente legitime res fidei, extraídas do t. III dos Comentários in IIIum librum, em sua Bibliotheca maxima pontificia, t. xv, p. 1-141, Roma, 1698.
Publicou em seguida: Opuscula octo de oratione christiana ejusque speciebus, in tyronum orantium gratiam edita ab eorum amantissimo, in-8°, Roma, 1685; Veneza, 1687; Bréscia, 1697; Montreuil-sur-Mer, 1696, obra muito estimada e da qual Bento XIV fazia maior caso ainda, declarando não conhecer o autor « qui materiam orationis clarius, subtilius et tutius explicaverit »; Opuscula tria de Deo quoad opera praedestinationis, reprobationis et gratiae actualis, in commodum tyronum S. Augustini doctrinae studiosorum elucubrata, in-4°, Roma, 1687; nesses tratados, escreve Hurter, defende a graça eficaz por si mesma e a predestinação puramente gratuita, como a doutrina evidente de santo Agostinho. Temos como testemunho da piedade do douto cardeal: Devota ad D. N. Jesum Christum precatio; Devota laudis ad SS. Trinitatem oratio; Gratulatoria humilis et devota oratio ad omnes caelestium civium ordines; Devota ad beatam semper virginem Mariam salutatio, in-12, 1688, 1689, 1695.
Brancati compusera para seu uso um Index alphabeticus rerum et locorum omnium memorabilium ad annales card. Baronii, que confiara a um de seus admiradores, o português João de Lima e Mello, marquês de Samandria, com a permissão de mandá-lo imprimir; a impressão estava começada quando morreu o autor. O Index apareceu em Roma em 1694, in-4°. Em seu prefácio, o editor anunciava que o P. Bartolomeu Comando, conventual, pároco perpétuo dos Doze Apóstolos, ia publicar outra obra do cardeal, da qual dava um título: a Vita et Opera manu sanctorum evangelistarum Jesu Christi, scriptus vel Contextus evangelicus, uno quatuor evangelistarum calamo sacram Jesu Christi describens historiam, in-12, Roma, 1695. João de Santo Antônio relata que o mesmo Comando editou um Compendium Nicolai de Lyra, do mesmo autor. Não falaremos dos manuscritos que Brancati deixava ao morrer, nem de outras obras literárias; o que dissemos basta para justificar o juízo do historiador da literatura italiana: « Era tido como um dos mais doutos teólogos de sua época. »
Por ter confundido o cardeal Brancati, Brancatus, com seu contemporâneo e quase homônimo Brancacci, Brancatius, igualmente cardeal (✝1675), João de Santo Antônio atribuiu-lhe várias dissertações, das quais este é o autor. A mais conhecida é a que tem por título: De chocolatis potu diatribe, in-4°, Roma, 1664; nela estuda esta questão: an chocolatis aqua usu dilutus, prout hodierno sorbetur, ecclesiasticum frangat jejunium, e responde que, tomado em pequena quantidade, o chocolate não rompe o jejum. Editada várias vezes, encontra-se no volume das Dissertationes, de Brancacci, in-4°, Roma, 1672, com as seguintes: De privilegiis quibus gaudent cardinales in propriis capellis; De optione sex episcopatuum S. R. E. cardinalium; De pactionibus cardinalium quae vocantur conclavis capitula; De sacro Viatico in extremo vitae periculo certantibus exhibendo; De regulis sanctorum Patrum; De benedictione diaconali; De altarium consecratione. O P. Comando publicou: Vita F. Laurentii Brancati de Laurea cardinalis bibliothecarii, in-4°, Roma, 1698; ela foi também escrita em italiano pelo abade Gabriel Baba, in-4°, ibid., 1699.
Franchini, Bibliosofia e memorie letterarie di scrittori conventuali, Módena, 1693; Eggs, Purpura docta, Munique, 1714, t. VI, n. 98; Jean de Saint-Antoine, Bibliotheca universa franciscana, Madri, 1732; Bento XIV, De servorum Dei beatificatione, Bolonha, 1734, l. III, c. xvi; Mazzuchelli, Gli scrittori d'Italia, Bréscia, 1763, t. II, 4ª parte; Tiraboschi, Storia della letteratura italiana, Módena 1780, t. VIII; Hurter, Nomenclator, 3ª edição, t. iv, col. 351-355.
P. Édouard d'Alençon.
Autor original: P. Edouard d'Alençon
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