LACTÂNCIO, escritor cristão dos inícios do século IV. I. Vida. — II. Obras (col. 2426). III. Doutrinas (col. 2434).
I. Vida. — É a São Jerônimo, De viris illustribus, n. 80, que devemos o essencial de nossos conhecimentos sobre a vida e a pessoa desse escritor; e está longe de a notícia do De viris ser tão clara quanto desejaríamos. Lúcio Cecílio Firmiano, cognominado Lactantius, é certamente africano de origem, embora o patriotismo italiano tenha querido reivindicá-lo na qualidade de habitante de Firmo. Essa origem italiana, que se pôde sustentar durante algum tempo, esbarra nas mais graves objeções. A descoberta, nas proximidades de Constantina, a antiga Cirta, de duas inscrições, uma de um L. Cœcilius Firmianus, outra que acrescenta a um nome o apelido Lactantius, Corp. et inscript, latin., t. viii, n. 7241 et 17 767, não pode deixar lugar a nenhuma dúvida. Essas duas inscrições se referem, segundo toda a verossimilhança, a parentes próximos do escritor. Elas confirmam o dado jeronimiano segundo o qual Lactâncio foi aluno de Arnóbio, o qual ensinava em Sicca Veneria, na Numídia proconsular.
Só podemos deduzir a data de seu nascimento por conjetura. Como o apogeu de nosso escritor se situa nos primeiros anos do século IV, ele deve ter nascido por volta de 260; sua família era sem dúvida pagã, e ele próprio nos dá a entender que chegou bastante tarde ao cristianismo. Retor de renome, foi chamado da África a Nicomédia por Diocleciano, quando este fundou, em sua nova capital, uma espécie de universidade. Lactâncio ali lecionou, sem muito sucesso, diz São Jerônimo: os lazeres de que gozava decidiram-no a escrever. Entrementes, um acontecimento gravíssimo se passara para ele: converteu-se ao cristianismo. Foi algum tempo depois que irrompeu, em fevereiro de 303, a grande perseguição. Privado de seu posto oficial, talvez desde os inícios da crise, Lactâncio procurou sem dúvida fazer-se esquecer e pôde atravessar incólume os momentos mais duros da tormenta. Estava ainda em Nicomédia em 305, mas, pouco depois dessa data, deixou a capital, por razões que ignoramos.
Para onde foi? Para a Gália, dizem alguns críticos, segundo os quais ele teria sido, desde então, ligado à comitiva do imperador Constantino. É muito difícil admiti-lo. Segundo São Jerônimo, Lactâncio foi na Gália o preceptor do César Crispo, filho de Constantino. Mesmo que se admita, o que não está provado, que esse príncipe tenha nascido por volta de 300 (certos historiadores retardam seu nascimento até 307), ele ainda era muito jovem em 307 para ter necessidade de um mestre de retórica. Não é proibido supor que, para subtrair-se às buscas, por ocasião da perseguição de Galério, Lactâncio tenha procurado asilo, quer na África, sua pátria, quer em algum lugar do Ocidente, onde a calma voltara mais depressa do que no Oriente. Em todo caso, deve ter voltado a Nicomédia por volta de 311, no momento da morte de Galério. Se ele é, como tudo leva a crer, o autor do De mortibus persecutorum, é verossímil que tenha residido em Nicomédia nos anos 311-313. É depois desse momento que se situariam da melhor maneira a estada na Gália e o preceptorado do jovem Crispo. Essa função deve ter terminado bastante cedo; desde 320, Crispo está inteiramente absorvido pelas preocupações guerreiras; o papel de Lactâncio junto a ele devia ter terminado; ignoramos tudo dos últimos anos e da morte desse escritor.
II. Obras. — É ainda com o auxílio da notícia jeronimiana que podemos estabelecer o catálogo das obras de Lactâncio. Habemus ejus Symposium quod adulescentulus scripsit Africæ et Hodœporicum de Africa usque Nicomediam hexametris scriptum versibus, et alium librum qui inscribitur Grammaticus, et pulcherrimum De ira Dei, et Institutionum divinarum adversum gentes libros septem, et Epitomen ejusdem operis librum unum acephalum, et Ad Asclepiadem libros duos, De persecutione librum unum, Ad Probum libros quatuor, Ad Severum epistolarum libros duos, Ad Demetrium auditorem suum epistolarum libros duos, ad eundem De opificio Dei vel formatione hominis librum unum. De Vir. ill., n. 80. Vê-se que, na época de São Jerônimo, circulava, sob o nome de Lactâncio, um número bastante considerável de obras. De tudo isso quase só nos restam as obras apologéticas e o panfleto histórico que é o De mortibus. Depois de estudar essas duas categorias, teremos de dizer algumas palavras sobre as obras mencionadas por São Jerônimo e perdidas para nós, e sobre algumas obras não mencionadas pelo De viris e atribuídas a Lactâncio por alguns manuscritos.
Os textos serão sempre citados segundo a edição S. Brandt, do Corpus de Viena: o t. i (= t. xix da coleção) dá as Institutions e o Epitome; o t. ii, fasc. 1 (= t. xxviia), o De opificio, o De ira, os poemas e os fragmentos; o fasc. 2 (= t. xxviib) contém o De mortibus e as tabelas gerais.
1° As obras apologéticas. — Muito cedo, talvez desde o século V, foram agrupadas num único corpus quatro obras de Lactâncio cujo caráter apologético é fortemente acentuado: o De opificio Dei, as Institutiones Divinæ, o tratado De ira Dei, enfim o Epitome institutionum. Nesse corpus, as Institutions representam a parte central, longamente preparada e trabalhada pelo autor; o De opificio deve ser considerado como a introdução; o De ira Dei retoma um ponto de detalhe, tratado um tanto depressa nas Institutions; enfim, o Epitome é um resumo, executado com grande cuidado, de todos os trabalhos anteriores e especialmente das Institutions.
1. De opificio Dei vel formatione hominis. — Esse duplo título só é dado por São Jerônimo: os manuscritos hesitam entre o título simples De opificio Dei e enunciados do conteúdo mais ou menos justos: De opificio corporis humani; De divina providentia; é possível que o subtítulo dado por Jerônimo não seja ele próprio senão uma glosa acrescentada pelo autor do De viris. Composto depois do início da perseguição, dedicado por Lactâncio a um de seus antigos alunos, Demetriano, tornado alto funcionário embora cristão, esse opúsculo se apresenta como uma apologia discreta do monoteísmo pelo argumento da finalidade. O estudo do homem considerado quer em seu corpo, quer em sua alma, revela um criador soberanamente sábio, poderoso, providente, em suma, o Deus dos cristãos. O argumento não é novo.
Lactâncio quase só fez desenvolver ideias outrora indicadas por Cícero. Cf. Op. Dei, i, 12 sq., t. ii, p. 6. De Varrão e de Nemésio tomou emprestado o essencial de seus conhecimentos anatômicos e fisiológicos, que são bastante precisos para a época; os rudimentos de psicologia provêm de Aristóteles, mas corrigido e completado por Platão. As objeções feitas pelos epicureus à ideia da Providência foram fornecidas sobretudo por Lucrécio. Embora um pouco superficial, a argumentação é habilmente conduzida, às vezes desfigurada, contudo, por ingenuidades que fazem sorrir; assim que se empreende expor a prova pela finalidade, corre-se o risco de cair na maneira de Bernardin de Saint-Pierre. A questão da autenticidade de xix, 8, que encerra uma curiosa doutrina dualista, será examinada mais adiante, juntamente com a das passagens análogas das Institutions.
2. Institutiones divinœ. — Nessa obra, cuja composição o ocupou durante vários anos, Lactâncio já pensava quando escrevia o De opificio. Ver esse tratado, vi, 15; xv, 6; xx, t. ii, p. 24, 51, 63. Desde então prometia a Demetriano uma refutação em regra dos erros correntes sobre a divindade e certamente reunia os materiais de um tratado considerável. Uma campanha literária contra os cristãos, empreendida paralelamente à perseguição violenta por um filósofo pagão que é difícil identificar e pelo governador da Bitínia, Hiérocles, decidiu o professor cristão de Nicomédia a responder a esses ataques com uma obra séria, que tomasse a questão religiosa em seu conjunto, dirigindo-se ao público culto e expondo-lhe, como diz Lactâncio, doctrinx tolius substantiam. A obra, que compreende sete livros, foi certamente começada em Nicomédia; traz em muitos lugares, e especialmente no livro V (ver 15; xm inteiro; xix, l. xi, 1, 11, 23, p. 435, 439, 461), a prova de que foi composta em plena perseguição, e Lactâncio lembra o furor dos carrascos e a paciência dos mártires em termos que dificilmente podem provir senão de uma testemunha ocular.
Se, como pensamos, as dedicatórias a Constantino que se leem no início do l. I, i, 12, p. 4, e no fim do último livro, l. VII, xxvn, 2, p. 608, são realmente autênticas, seria preciso concluir que as Institutions foram terminadas num país submetido à dominação desse imperador e gozando de paz religiosa, depois dos primeiros triunfos políticos de Constantino e do edito de Milão, 313. Hiérocles e seu comparsa haviam conduzido contra os próprios fundamentos da fé cristã, isto é, contra as Santas Escrituras, um ataque muito vivo. Como outrora fizera Celso, como fazia na mesma época Porfírio, haviam insistido nas dificuldades de todo gênero que suscita a interpretação da Bíblia. Em vez de se perder em respostas de detalhe, ou de se lançar num estudo da Escritura para o qual estava mal preparado, Lactâncio passa resolutamente à ofensiva. A primeira parte de sua obra, l. I-II, será um ataque a fundo contra as duas concepções religiosas que se querem opor ao cristianismo: o politeísmo popular e a filosofia dos pretensos sábios.
Os quatro últimos livros estabelecerão, ao contrário, como a religião cristã é ao mesmo tempo a verdadeira sabedoria e a verdadeira religião, l. IV; como só ela pode ensinar a verdadeira justiça, l. V, e oferecer à divindade o culto verdadeiro, l. VI; como só ela pode conduzir à vida bem-aventurada, objeto de tantas especulações filosóficas inúteis, e cuja posse os ensinamentos escatológicos do cristianismo nos garantem, l. VII. A crítica das falsas concepções religiosas, politeísmo e filosofia, nada apresentaria que não se encontre em todos os apologistas anteriores, se não fosse preciso levar em conta o l. II, em que o autor, que no l. I perseguira com seus sarcasmos o politeísmo popular, entrega-se a uma investigação aprofundada sobre as próprias origens desse erro. De origine erroris. Resolutamente partidário da doutrina evemerista, que vê nos deuses do paganismo clássico grandes homens divinizados depois de sua morte pelos serviços que prestaram à humanidade, Lactâncio não pode deixar de reconhecer que os prodígios maravilhosos realizados nos santuários pagãos, que os oráculos proferidos pelos deuses e dos quais muitos se realizaram, contribuíram singularmente para ancorar nos espíritos a crença na mitologia. Cf. II, vii, 7 sq., p. 125.
Ele não pensa em contestar a existência desses prodígios, nem em diminuir-lhes a importância. Prefere atribuí-los a intervenções demoníacas e parte daí para estabelecer toda uma demonologia, à qual deveremos voltar. Quanto à crítica da filosofia, funda-se na impotência em que se encontra essa disciplina de dar satisfação aos desejos do homem; não encontrando nela nem o espírito nem o coração o seu proveito, é preciso buscar alhures tanto a paz da alma quanto a certeza da inteligência. Embora mais minuciosa do que a pars destruens, a segunda parte das Institutions, a pars construens, não é muito mais nova. A única coisa a notar, no l. IV, onde o autor empreende fazer propriamente a demonstração cristã, é o lugar considerável concedido ao argumento profético. Esse tema já fora amplamente explorado pelos antigos apologistas.
O que é novo é o lugar considerável dado aqui às profecias apócrifas de Hermes Trismegisto e dos Livros sibilinos, em detrimento dos oráculos do Antigo Testamento. Estes últimos são apenas indicados; de propósito o autor os deixa na sombra, sem dúvida porque os conhece mal; com efeito, ele quase só conhece a Escritura pela coletânea de Testimonia compilada por São Cipriano. Imagina, aliás, com um pouco de ingenuidade, que o público letrado a que se dirige encontrará mais proveito nos pretensos oráculos dos Livros sibilinos e herméticos. Oriundas de um meio pagão (Lactâncio o crê e quer fazê-lo crer), essas profecias, tão admiravelmente realizadas em Cristo, deverão engendrar, ao que parece, uma convicção mais robusta nos leitores. É apenas necessário lembrar que todos esses oráculos tão claros são fruto de uma ficção literária que não tem sequer o mérito da verossimilhança.
Os livros V e VI, que deduzem a natureza da verdadeira justiça fundada no reconhecimento da igualdade fundamental de todos os homens diante de Deus, e os caracteres do verdadeiro culto devido a Deus, o qual é a expressão da verdadeira justiça, trazem, na falta de ideias muito novas, uma argumentação sintética que não carece de interesse. O último livro, De vita beata, tampouco seria especialmente notável se, por um arcaísmo que surpreende nessa data, não desse uma parte considerável às quimeras do milenarismo. Se as passagens clássicas do Apocalipse fornecem-lhe os primeiros lineamentos, é sobretudo aos Livros sibilinos que Lactâncio pediu os traços com que enriqueceu suas descrições. Mais ainda do que no livro IV, essa literatura de mau quilate é abundantemente utilizada.
Como o De opificio Dei, as Institutions apresentam um certo número de passagens cuja pertença à obra primitiva não é igualmente atestada pela tradição manuscrita e que deram lugar a discussões bastante vivas. Se se tratasse apenas das dedicatórias constantinianas (I, i, 12, e VII, xxvii, 2, p. 4 e 668), a questão seria, afinal, secundária e só interessaria aos filólogos. Não se dá exatamente o mesmo com as passagens em que se exprime uma doutrina dualista tão fortemente acentuada que se poderia pensar numa influência do maniqueísmo. Essas passagens dualistas (para empregar uma expressão que se tornou corrente) encontram-se em Inst. div., II, viii, 7, p. 130; VII, v. 27, p. 602, e De opif., xix, 8, t. ii, p. 61, 62. As duas primeiras têm cerca de duas páginas, a terceira três quartos de página; além disso, a primeira é precedida, nos parágrafos imediatamente anteriores, por alguns remanejamentos importantes do texto recebido. Na edição Brandt, todas essas passagens figuram apenas em nota, pelo fato de terem sido consideradas pelo editor como interpolações, acrescentadas desde cedo à obra autêntica de Lactâncio. A edição de Lenglet, reproduzida em P. L., t. vi, também as dá em nota.
Agitada desde o século XVII, a questão da autenticidade dessas passagens não parece ter recebido ainda solução definitiva. Para falar apenas dos críticos contemporâneos, S. Brandt começou por sustentar com muita força a inautenticidade das duas séries; foi seguido por M. P. Monceaux, Hist. littéraire de l'Afrique chrétienne, t. iii, p. 302. Em sentido contrário, J. G. Th. Müller, Quæstiones Lactantianæ, Gœttingue, 1875; J. Belser, na Theologische Quartalschrift, 1898, t. lxxx, p. 548; M. Schanz, nas diversas edições de sua Geschichte der römischen Literatur, tornaram-se fiadores da autenticidade lactanciana. M. B. Pichon apresentou dessa posição uma defesa tão hábil que acabou por atrair para o seu ponto de vista o próprio M. Brandt. Ver Berliner philologische Wochenschrift, 1903, col. 1235. M. Harnack, tampouco, não vê dificuldade em admitir a autenticidade das passagens.
Parece-nos também que as razões favoráveis à autenticidade são das mais sérias. O estudo da tradição manuscrita mostra que a família que dá os textos discutidos é tão boa quanto a que os omite; desse lado nenhuma conclusão se impõe com nitidez. Ficamos, portanto, reduzidos ao exame interno das passagens em questão. É evidente que as dedicatórias constantinianas não suscitam nenhuma dificuldade de fundo; o fato de as considerarmos autênticas obriga simplesmente a modificar as teorias relativas à data do livro que certos críticos haviam preconizado. Quanto às dissertações dualistas, é bem verdade que, tomadas em si mesmas, soam pouco ortodoxas, mas, se se compararem as doutrinas que desenvolvem com as de outras passagens consideradas por todos como autênticas, não se percebe entre os textos contestados e os textos autênticos diferença fundamental; a doutrina dualista exprime-se muito claramente em diversos lugares da obra de Lactâncio; aqui afirma-se ainda mais cruamente, se assim se pode dizer; é toda a diferença. É, pois, mais simples supor que um copista, escandalizado por certas afirmações de seu texto, tomou sobre si suprimir as passagens mais escabrosas do que imaginar um maniqueu introduzindo em Lactâncio, que, em suma, nunca foi considerado por ninguém como doutor de primeiro plano, interpolações tendenciosas. Se não se procura pôr nisso uma precisão, impossível nessas matérias, a hipótese de M. Pichon parece-nos, em definitivo, a que melhor dá conta dos fatos.
3. De ira Dei. — Esse curto tratado, que São Jerônimo, não sem razão, qualifica de elegantíssimo, pulcherrimus, elucida uma questão relativa a Deus, que fora apenas esboçada nas Institutions, II, xvii, 4, p. 172. Certos filósofos, os epicureus entre outros, sustentam que a divindade não pode experimentar essas perturbações da alma que chamamos paixões, e que, em particular, a ira, ou mais exatamente o rigor, deve permanecer-lhe estranha. Contra essa ideia, que põe na própria divindade a ataraxia epicurista, os cristãos devem fazer valer as numerosas passagens escriturísticas em que se trata de um Deus irado, exercendo com todo o rigor terríveis vinganças sobre os culpados. De fato, diz Lactâncio, se se quer definir a ira motus animi ad coercenda peccata insurgentis, é indispensável admitir em Deus um movimento desse gênero. A ira é nele a contrapartida da bondade. Pretender suprimi-la seria fazer de Deus um pai demasiado brando, indiferente às faltas de suas criaturas, o que equivale a suprimir a Providência. A argumentação, aliás bastante fraca, deve muito mais aos filósofos profanos, especialmente a Cícero, do que aos Livros Santos, que mal são mencionados. As sibilas, em contrapartida, cuja história é abundantemente narrada no epílogo, c. xxii e xxiii, t. ii, p. 123 sq., fornecem ao autor certo número de provas.
4. Epitome divinarum institutionum. — São Jerônimo conhecia um resumo das Institutions que, já em seu tempo, estava mutilado: librum acephalum. É bem possível que o autor do De viris só tenha conhecido do livro em questão a última parte (c. li-lxviii das edições modernas), a única que foi publicada antes de 1711.
Nessa data, a primeira parte foi descoberta num manuscrito de Turim por Scipião Maffei; foi publicada por Chr. M. Pfaff, em Paris, em 1712. Posterior ao tratado De ira Dei e sem dúvida também ao De mortibus persecutorum, o Epitome, dedicado a um certo Pentádio, que é qualificado de irmão, Pentadi frater, é mais do que um simples resumo das Institutions. O plano foi melhorado, a Sagrada Escritura é citada com mais frequência e com mais propriedade, as sibilas são deixadas de lado, as prescrições morais são mais desenvolvidas. Visivelmente o autor se propôs fazer obra nova e tornar seu trabalho mais útil aos cristãos, aos quais, em seu pensamento, as Institutions não se destinavam. Desse trabalho de revisão saiu um opúsculo que não carece de mérito.
5. O fragmento De motibus animi. — Um manuscrito da Biblioteca Ambrosiana, F. 60 sup., que contém toda uma série de extratos, com indicação à margem dos autores responsáveis, atribui a Lactâncio, sob essa rubrica, De molibus animi, um fragmento de umas dez linhas sobre as paixões. As ideias e o estilo dessa peça nada têm que destoe do que possuímos de Lactâncio. Pode, pois, tratar-se aqui de um fragmento pertencente a uma obra perdida que São Jerônimo não teria conhecido, a menos que seja preciso relacioná-lo a uma dessas cartas de que faz menção a notícia do De viris.
2° O panfleto histórico De mortibus persecutorum. — Em 1679, o ilustre erudito Baluze publicava em Paris, no t. ii de suas Miscellanea, um tratado histórico descoberto por ele na biblioteca de Colbert e proveniente de um manuscrito comprado no ano precedente à abadia de Moissac (hoje na Biblioteca Nacional, lat. 2627). O opúsculo trazia o seguinte título: Lucii Cecilli incipit liber ad Donatum confessorem de mortibus persecutorum. Depois de uma entrada em matéria, lembrando o fim da perseguição pelo triunfo de Constantino e de Licínio, o autor anuncia seu propósito de mostrar a mão de Deus abatendo-se sobre todos os que haviam atormentado os cristãos: sero id quidem, sed graviter et digne; distulerat enim pœnas eorum Deus ut ederet in eos magna et mirabilia exempla quibus posteri discerent Deum esse unum et eundem judicem et digna videlicet supplicia impiis ac persecutoribus irrogare. i, 6, t. iib, p. 172.
Muito rapidamente é evocada a lembrança da triste maneira como pereceram os antigos perseguidores, Nero, Domiciano, Décio, Valeriano, Aureliano, c. ii-vi; depois vem, muito mais longamente desenvolvida, a história da terrível crise do início do século IV. Com a minúcia de uma testemunha imediata dos acontecimentos, o autor esboça o quadro da grande perseguição, mostrando em ação Diocleciano, fraco e irresoluto, Maximiano Hércules, grosseiro e fanfarrão, Galério, odioso, dissimulado e cínico, Maximino Daia, crapuloso e violento. Sobre eles abater-se-á, um após outro, a mão vingadora da Providência. Diocleciano e Maximiano são forçados a abdicar, e o segundo será obrigado por Constantino a dar-se a morte; Galério, atingido por uma doença terrível, chegará a reconhecer, mas tarde demais, o Deus dos cristãos, o que não o impedirá de expirar em atrozes sofrimentos; a filha de Diocleciano, Valéria, que se tornou esposa de Galério, é envolvida na mesma maldição; quanto a Maximino Daia, cercado de perto por Licínio, não terá outro recurso senão envenenar-se para não cair nas mãos de seu vencedor; sua mulher, seus filhos, raça maldita, serão massacrados por sua vez, e nesse mesmo rio Orontes, onde ela mandara muitas vezes afogar castas matronas, a esposa do tirano é ela própria precipitada: sic omnes impii vero Dei et justo judicio eadem quæ fecerant receperunt. l, 7, p. 236. Com esse grito de triunfo, quase selvagem, fecha-se o livro.
É, portanto, uma tese que o autor defende, e ele não o esconde. M. Pichon acrescenta que é um panfleto composto, e o termo é exato, no sentido de que o autor utiliza em apoio de sua tese todos os acontecimentos que encontra, tomando-os sempre no sentido mais desfavorável para as personagens que quer desqualificar. Quanto valem suas afirmações? São exatas no conjunto; onde o controle é possível, é difícil surpreender o panfletário em flagrante delito de inexatidão. Parece, aliás, que de vários dos acontecimentos relatados ele tenha sido testemunha ocular. O relato da destruição, em Nicomédia, da igreja cristã e da afixação do primeiro edito perseguidor, c. xii e xiii, p. 186 sq., é de um homem que viu; é também muito possível (embora isso não pareça tão evidente) que esse homem tenha estado em Nicomédia durante os anos 311-313 e que a história que dá dos acontecimentos dessa época repouse sobre um conhecimento todo pessoal. Assim, o De mortibus é uma fonte preciosa para a história da última perseguição e dos contragolpes políticos de todo gênero que ela produziu. Isso não quer dizer que se devam aceitar de olhos fechados todas as suas afirmações: o próprio fato de o autor sustentar, e com que acrimônia, uma tese violenta deve pôr o historiador de sobreaviso.
Seja qual for o valor do livro, um dos mais originais, sem dúvida, de toda a antiga literatura cristã, coloca-se a questão do autor. Baluze, desde a descoberta do tratado, não hesitou em atribuí-lo a Lactâncio e em identificá-lo com o Liber de persecutione assinalado por São Jerônimo. Apoiava-se para isso no nome de Lúcio Cecílio, que se lia no início do manuscrito e que é de fato (sabemo-lo hoje ainda melhor do que Baluze, ver col. 2125) a primeira parte do nome completo de Lactâncio; o opúsculo é dedicado a esse mesmo Donato, confessor da fé, a quem Lactâncio dirigira o De ira Dei; seu autor habitou Nicomédia, como Lactâncio; enfim, e isto acaba de ganhar a causa, a própria contextura do panfleto é a das obras autênticas do retor africano: língua, estilo, gramática correspondem-se; não há sequer a inocente mania de citar, até onde não têm o que fazer, Virgílio e as Sibilas, que não se reencontre de ambos os lados. Cf. De mort., ii, 8, p. 175. Tal é a argumentação de Baluze, tal é ainda, em suas grandes linhas, a dos críticos, e são numerosos, que se alinharam atrás do ilustre mestre.
Deve-se crer, no entanto, que essa tese deixa um resíduo de inevidência, visto que, desde o início, dom Le Nourry se defendia vivamente de aderir a ela, visto que numerosos autores seguiram o célebre beneditino, visto que, desde o século XVII, as demonstrações renovadas da origem lactanciana suscitaram réplicas adversas que tornaram necessárias novas argumentações. Não temos de fazer aqui a história desse conflito; seus elementos serão encontrados na 4ª memória de S. Brandt sobre Lactâncio, uma rápida descrição em Schanz, loc. cit., § 763, e enfim em R. Pichon, p. 330 sq.
Os adversários da origem lactanciana fundam-se essencialmente na grande diferença de espírito que se nota entre o De mortibus e a obra autêntica de Lactâncio. De um lado, uma paixão quase cega, um fanatismo incrível; do outro, ao contrário, uma eloquência um tanto composta, a atitude sempre digna e calma, um pouco pontificante, de um mestre-escola. O contraste é, sem dúvida, impressionante, embora seja talvez menos regular do que se pretendeu. Os partidários da autenticidade o explicam sem muita dificuldade pela diferença dos assuntos tratados; observam, com muita razão, que o germe da tese do De mortibus já se encontra no De ira Dei, e que certas páginas das Instituições em que se fala dos perseguidores deixam transparecer uma cólera surda, da qual se compreende muito bem que ela exploda no De mortibus. Parece-nos que essas respostas são justas e que, de modo geral, os argumentos favoráveis à autenticidade impõem a convicção; em particular, o testemunho do manuscrito que atribui a um Lúcio Cecílio o escrito sobre a perseguição vê-se singularmente corroborado pelo fato de estarmos hoje seguros de que o nomen de Lactâncio era de fato Cæcilius e não Cœlius, como por muito tempo se pretendeu.
É verdade que, depois da demonstração tão brilhante da autenticidade feita por M. Pichon, demonstração que conquistara M. Brandt, até então refratário, tentou-se por outra via contestar a Lactâncio a paternidade do De mortibus. A análise literária do panfleto teria revelado a M. H. Silomon que o autor teria utilizado, para sua exposição dos acontecimentos, uma história dos imperadores preexistente e também a famosa Vita Constantini atribuída a Eusébio. Ver Hermès, Zeitschrift für klassische Philologie, 1912, t. xlvii, p. 250-275. Isso é dito depressa demais; há muito tempo se havia notado as semelhanças entre Eusébio e o De mortibus, ver o Index de Brandt, t. iib, p. 270; elas se explicam melhor pelo fato de que o bispo de Cesareia teria utilizado a obra do retor de Nicomédia. Essa suposição é, sem dúvida, tão simples quanto a hipótese complicada apresentada por M. Silomon. Resta, pois, que, no estado atual da pesquisa, a origem lactanciana do De mortibus parece infinitamente verossímil.
3° Obras perdidas. Repartem-se de modo bastante natural em dois grupos: os tratados e as cartas.
1. Os tratados. São Jerônimo menciona um Symposium, do qual nada podemos dizer; um Hodoeporicum, em que Lactâncio narrava, em versos hexâmetros, sua viagem da África a Nicomédia; um Grammaticus, cujo título indica suficientemente o conteúdo; enfim, dois livros dirigidos a um certo Asclepíades, Ad Asclepiadem libri duo. Esse personagem é certamente aquele de quem se trata em Inst., VII, IV, 17, p. 595, e que dedicara a Lactâncio um tratado sobre a Providência. Salvo o último, as outras obras mencionadas datam sem dúvida da época em que o autor ainda era pagão.
2. As cartas. A julgar por uma palavra de São Jerônimo, In Epist. ad Gal., iv, 6, P. L., t. xxvi, col. 373, parece que, desde cedo, as numerosas cartas de Lactâncio foram reunidas em um corpus dividido em oito livros: quatro livros de cartas dirigidas a um certo Probus, dois de correspondência com Severus, dois, enfim, de cartas escritas por Lactâncio a esse mesmo Demetriano a quem é dedicado o De opificio. Se se deve crer no papa Dâmaso, a quem São Jerônimo havia dado a ler algumas dessas cartas, tratava-se menos de epístolas que de tratados bastante volumosos sobre questões diversas, nos quais o dogma ocupava apenas um lugar restrito. Dâmaso as julgava longas e enfadonhas: non libenter lego, quia et plurimæ epistulæ ejus usque ad mille spatia versuum tenduntur et raro de nostro dogmate disputant. Ver S. Jérôme, Epist., xxxv, 2, P. L., t. xxii, col. 451. Em dois lugares de seu comentário à Epístola aos Gálatas, Jerônimo menciona opiniões de Lactâncio, tomadas das cartas: uma anódina, sobre a origem da Galácia, a outra, muito perigosa, sobre as relações entre o Espírito Santo e as duas outras pessoas da Trindade. Ver P. L., t. xxvi, col. 353, 373.
4° Obras atribuídas a Lactâncio. Sob essa rubrica, enquadramos certas obras de que São Jerônimo não fala e que são postas, por certos manuscritos, sob o nome de Lactâncio.
1. De ave phœnice. Esse poema, em 85 dísticos elegíacos, narra a lenda da fênix, de sua existência afortunada nas regiões paradisíacas do Oriente, de sua vinda ao nosso triste mundo ocidental, de sua morte na pira odorífera que ela mesma preparou, de sua ressurreição e de seu retorno às terras de sua origem. Texto em Brandt, t. iia, p. 135 sq. Embora isso tenha sido contestado, a inspiração cristã desse poema não é discutível. Já Clemente de Roma relatava a lenda da fênix e via nela uma imagem e, se se ousa dizer, uma garantia da ressurreição, I Cor., xxv; não haveria nada de espantoso em que o autor do poema tenha utilizado o texto de Clemente, seja no original grego, seja na tradução latina que já podia circular naquele momento nos meios cristãos. Em todo caso, o De ave phœnice segue muito estreitamente o texto de Clemente. Dos três manuscritos que dele possuímos, dois atribuem o poema a Lactâncio; por outro lado, Gregório de Tours, em seu De cursu stellarum, relata a lenda da fênix referindo-se nominalmente a esse autor. Cf. Mon. Germ. hist., Script, rerum merov., t. ia, p. 861. Um gramático anônimo do alto Medievo cita o poema sob o nome de Lactâncio. Cf. H. Keil, Grammatici latini, t. vb, p. 577, 1. 14; p. 580, 23 1. e 29; p. 581, 1. 12; p. 583, 1. 32; p. 586, 1. 23 etc., e, sem nomear o De phœnice, Alcuíno assinala Lactâncio como um dos poetas cristãos da antiguidade.
Versus de sanctis Eboricensis Ecclesiœ, v. 1552, in Monum. Germ. hist., Poetœ latini œvi carolini, t. i, p. 204. Aliás, nada no poema se opõe à atribuição fornecida pelos manuscritos. A latinidade muito clássica da peça, o desenvolvimento do pensamento, as ideias essenciais concordam com o que encontramos em Lactâncio. Sem dúvida, o colorido mitológico do poema destoa um pouco do restante da obra do retor, mas não se deve perder de vista que ele era imposto pelas próprias leis do gênero. Ainda assim é bastante discreto; não se encontra nessa bela peça a violenta oposição entre as ideias cristãs e a mitologia pagã que desfigura tantas obras poéticas da antiguidade ou do Renascimento.
2. De resurrectione ou De pascha. Esta curta peça de 55 dísticos, que é atribuída a Lactâncio por uma vintena de manuscritos, todos recentes, não tem nenhum direito de figurar entre as obras de nosso autor. Deve ser restituída a Venâncio Fortunato. Incipit: Tempora florigero rutilant distincta sereno, Mon. Germ. histor., Auct. antiquissimi, t. iv, p. 59.
3. De passione Domini. Essa lamentação, em que o crucificado, dirigindo-se ao pecador, o convida a meditar sobre os sofrimentos da paixão: respice me, me conde animo, me pectore serva, foi considerada por Brandt, que dela não havia encontrado manuscrito e a publicara segundo as edições do século XVI, como um falso, ou um pastiche da época do Renascimento. Depois, Mons. Mercati deu a conhecer um manuscrito da Bibl. della Classe de Ravenna, n. 297, que dá o texto sob o nome de Lactâncio. O manuscrito, é verdade, é recente, mas a mão do século XV escreveu: Lactantii Firmiani carmen de passione Domini quod in vetustis exemplaribus inventum est. Ver Theolog. Revue, 1904, t. iii, col. 29. J. Denk voltou à questão na mesma revista, 1906, t. v, col. 382. Por outro lado, um manuscrito de Perúgia, n. 667, do século XV, dá o poema sob o nome de Cipriano (trata-se verossimilmente do autor do Heptateuchos). Vê-se que a atribuição a Lactâncio permanece de todo duvidosa, para não dizer improvável, mas a ideia de Brandt, que faz dessa obra um pastiche do tempo do humanismo, deve ser abandonada.
III. Doutrinas. Os teólogos de profissão são, em geral, severos para com Lactâncio. Fizeram dele, sem olhar mais de perto, uma espécie de humanista cristão, sem originalidade e sem profundidade, de universitário chegado às questões religiosas sem preparação anterior e sem conhecimentos suficientes, de homem de letras extraviado na teologia. Há algo de verdadeiro nesses juízos pouco lisonjeiros. Mas, se se quer fazer sobre a obra do professor de Nicomédia uma apreciação equitativa, convém não esquecer a época em que o conjunto de sua obra veio à luz. Lactâncio ignora a teologia, certamente, mas por uma boa razão, a saber, que em sua época a teologia, ao menos em língua latina, praticamente não existia, e que ele foi o primeiro dos latinos a tentar uma síntese em que entrassem os principais ensinamentos da fé cristã. Antes dele, quase só se vê Orígenes ter tentado, e aliás com o insucesso que se sabe, incorporar num conjunto os dados esparsos da dogmática. Tertuliano, com quem se compara de bom grado Lactâncio quando se quer depreciar a obra deste, forneceu certamente numerosas precisões sobre o dogma cristão, sua influência foi muito mais considerável; em grande número de pontos deu fórmulas que permaneceram; mas a teologia nas obras de Tertuliano está esparsa, e é preciso destrinçá-la em meio a um espantoso amontoado de afirmações disparatadas. Antes de julgar Lactâncio com demasiada severidade, não esqueçamos que ele escreveu quase um século antes de Agostinho, que é anterior até mesmo ao concílio de Niceia, e que inevitavelmente seu pensamento traz a marca de suas origens. Estudaremos sucessivamente a ideia geral da apologética de Lactâncio, depois diversos pontos de sua doutrina que merecem ser assinalados.
1° A apologética de Lactâncio. Seu grande mérito é ter tentado, para uso do grande público, estranho ao cristianismo, talvez hostil à nova religião, uma síntese compreensiva dos principais elementos da fé cristã. Quem se pusesse na escola de Lactâncio teria do conjunto da religião ensinada pela Igreja um conhecimento, superficial é verdade, mas de modo algum desprezível, nem tão inexato, salvo os pontos de detalhe que teremos de assinalar. Restaria a ele pedir à catequese eclesiástica a iniciação mais aprofundada, principalmente no que concerne aos sacramentos, dos quais um só, o batismo, é claramente indicado; mas, na verdade, ele teria sido conduzido até a própria porta do santuário, e não lhe restaria senão fazer-se inscrever entre os que pedem sua entrada definitiva na Igreja. Para julgar equitativamente a obra de Lactâncio, é preciso, pois, levar em conta o público a que ele se dirige, o ponto aonde quer conduzir seus ouvintes. Não se pede a um tratado de apologética que exponha o conjunto da teologia: a Summa contra gentes não é a Summa theologica.
A esse público um tanto familiarizado com a filosofia, letrado, a quem o ensino corrente das escolas deu um vago conhecimento das diversas soluções propostas pelos grandes pensadores da antiguidade aos eternos problemas, a esse auditório de gente do mundo, que já não crê quase, ou já não crê de todo nas mitologias dos cultos pagãos, Lactâncio quer apresentar a religião cristã como uma verdadeira sabedoria, como uma filosofia que tem, sobre todos os sistemas anteriormente ensinados, singulares vantagens, por resolver de modo rápido, franco, certo, esse famoso problema do sumo bem, contra o qual fracassaram os sábios da antiguidade pagã. O essencial será, portanto, mostrar no cristianismo a solução de conjunto; será preciso evitar perder-se no detalhe, ir direto ao alvo. Que pede à filosofia um homem culto? Que lhe mostre a rota do summum bonum, que conduz à vita beata: eis o cristianismo, que resolve imediatamente a questão: o homem está sobre a terra para cumprir a tarefa que Deus lhe impõe e chegar, cumprindo-a, à vida eterna e bem-aventurada que Deus lhe preparou.
Não se tratará aqui de proceder por exortação de pregador, mas por demonstração de professor; será preciso provar, discutir, raciocinar, deixar de lado os sarcasmos fáceis e as injúrias que em outros apologistas tão facilmente fazem as vezes de razões; será preciso sobretudo edificar uma síntese que possa opor-se às construções mais bem assentadas da filosofia antiga. Como acabamos de indicar, esse dogmatismo será um dogmatismo moral. Lactâncio é demasiado latino, demasiado penetrado de senso prático para escolher a via árdua das deduções metafísicas. Sem dúvida, começa por provar rapidamente a existência do Deus único, criador, providente, sobre as ruínas do politeísmo vulgar e dos sistemas filosóficos contraditórios da sabedoria antiga, e edifica a doutrina do Deus dos cristãos. Mas, a bem dizer, não há, em sua crítica das falsas concepções da divindade, nada de especialmente original. Ver De opificio e Inst., I, II.
É ao livro III das Instituições que é preciso correr depressa para apreender o pensamento profundo do apologista. A ideia central é que a filosofia pagã é incapaz de apaziguar os desejos do homem, de dar repouso a seu espírito e a seu coração. Aqui ainda o autor passa muito rapidamente pelas considerações puramente dialéticas; desde o cap. VII, chega à questão moral: transeamus nunc ad alteram philosophiæ partem quam ipsi moralem vocant, in qua totius philosophiæ ratio continetur, siquidem in illa physica sola oblectatio est, in hac etiam utilitas. O essencial não é saber quomodo nos oporteat vivere? III, vii. 1, 2, p. 190. Ver também III, xii, 1, p. 207: Si quœritur quid sit propter quod nascimur. É o angustiante problema do destino que Lactâncio vai revirar por todas as faces; problema que levanta outro, o da imortalidade da alma. III, xii sq., p. 212. Desses problemas capitais, a filosofia não resolveu definitivamente nenhum; e eis-nos levados a pedir ao cristianismo a chave desse enigma: em que consiste, pois, o bem soberano?
Desse enigma, a humanidade teve outrora a chave. Para Lactâncio, houve um tempo em que os homens viviam mais puros e melhores, menos ignorantes do sumo bem. IV, i, 1, p. 271. É verossímil que se deva ver aqui uma reminiscência do tema clássico da idade de ouro muito mais do que o dado eclesiástico da revelação primitiva. Seja como for, esse estado desapareceu no dia em que o politeísmo foi introduzido na terra pela ação dos demônios; desde então, eis a humanidade nas trevas do erro e do vício, incapaz de elevar-se à noção do bem: ventum est, ut ablata ex oculis veritate neque religio Dei veri neque humanitatis ratio teneretur, hominibus non in cœlo summum bonum quœrentibus, sed in terra. Ibid. Somente um pequeno povo, o dos judeus, conservou intacto o tesouro da verdade, IV, ii, 4, p. 227; é dele que um dia sairá Cristo, Verbo de Deus feito homem, o qual ensinará à humanidade inquieta o caminho que conduz à vida bem-aventurada.
Para o auditório pagão que Lactâncio tem em vista, o essencial é mostrar a missão divina de Jesus; bastaria, a rigor, apresentá-lo como um homem de Deus, como um profeta. De fato, Lactâncio não procede assim; de saída, parte da geração eterna do Verbo (com quanta inexatidão, diremos mais adiante) e vai mostrar que Jesus não é outro senão esse Filho de Deus feito homem. Jesus quippe inter homines nominatur. IV, vii, 4, p. 293. Essa demonstração da divindade de Jesus Cristo pode ser fornecida pelos milagres realizados pelo Salvador: veniamus ad opera illa miranda... cœlestis indicia virtutis. IV, xv, 1, p. 329. Mas sabe-se que essa prova foi pouco ou mal empregada pela maioria dos apologistas antigos; de fato, ela aparece aqui apenas de passagem e por um viés um pouco desviado. É outro veio que Lactâncio explorou, o do argumento profético. Cristo é Deus porque realizou as profecias, as quais falam claramente de sua divindade e das coisas maravilhosas que realizará o Deus feito homem.
Vê-se que a argumentação difere sensivelmente da que se tornou clássica. O apologista moderno que abordasse a demonstração desse ponto de vista se veria detido a cada passo pela própria obscuridade das profecias. Para encontrar nelas indicações relativas à divindade de Cristo, é, por assim dizer, indispensável ter posto justamente esse ponto ao abrigo de qualquer contestação. Por pouco exigente que fosse a exegese antiga, por cômodo que fosse o método de interpretação alegórica para descobrir em um texto sentidos insuspeitados, a bagagem dos textos do Antigo Testamento suscetíveis de demonstrar de imediato a divindade de Jesus Cristo não deixava de ser bastante magra. Mas Lactâncio tinha à sua disposição um tesouro que depois nos escapou. Os textos apócrifos de Hermes Trismegisto, dos Livros sibilinos, os falsos oráculos do Apolo de Mileto foram abundantemente explorados por nosso apologista. Ver o índice de Brandt, t. iib, p. 254 (Hermes trismegistus), p. 258 sq. (Oracula Apollinis, Oracula Sibyllina). Fabricados a posteriori, esses oráculos tinham toda a clareza desejável: emanados, acreditava-se e esperava-se fazer crer, de meios estranhos ao cristianismo, teriam tanto mais força demonstrativa aos olhos do público pagão.
Assim, toda essa parte da demonstração cristã de Lactâncio repousa numa falsificação literária. Mas, se a boa-fé do honesto professor foi surpreendida, seria deselegante fazer-lhe disso uma censura. Lactâncio não foi o primeiro a pôr em linha esse mau argumento, e não será o último. É só de lamentar que lhe tenha atribuído uma importância capital, de modo que toda a sua argumentação peca pela base e deve ser retomada a novos custos. Acrescentemos que convém perguntar onde nosso apologista tomou a própria ideia de sua demonstração. Veio-lhe ela de reminiscências do ensino catequético que deve ter recebido em Nicomédia quando de sua conversão ao cristianismo? Foi-lhe sugerida por suas leituras pessoais e pela forte impressão que lhe teria causado o encontro dos textos sibilinos e de outros livros apócrifos?
Esses escritos estavam suficientemente disseminados no grande público para que, fora dos círculos cristãos, se tivesse conhecimento deles? Todas essas questões, que não carecem de importância, apresentam-se ao espírito sem que se seja capaz de esclarecê-las. Aliás, de qualquer maneira que se as resolva, não deixa de ser verdade que a argumentação fundada nesses textos forneceu a Lactâncio o meio de resolver, sem petição de princípio, o grande enigma do destino humano. Cristo-Deus, verdade soberana, pode ser indicado aos homens inquietos como o doutor que os tira da incerteza.
Pretendeu-se que o apologista só viu esse papel de Cristo; que deixou completamente na sombra seu papel de redentor, que só viu no cristianismo o ensino moral que nele se distribui e negligenciou os meios sobrenaturais que permitem ao cristão orientar sua vida para o sumo bem. Ainda que fosse fundada, essa censura não seria equitativa; não é nos preâmbulos da fé que se expõe o conjunto do mistério cristão. No entanto, embora em boa lógica não tivesse de falar disso, Lactâncio não deixa de fazer alusões muito transparentes a esses pontos de doutrina que se lhe censura ter omitido. Quando fala de Cristo como do sacerdote eterno, IV, xiv, 20, p. 329, cf. xiv, 3, p. 325, xxix, 15, p. 394, constituído mediador entre Deus e os homens, IV, xxv, 5, p. 376, é verossímil que o autor das Instituições tenha presente ao pensamento toda a doutrina que desenvolve a Epístola aos Hebreus. Quando diz de Jesus que ele é o alimento e a vida de todos os que creem na carne que trouxe e na cruz em que foi suspenso, ipse est cibus et vita omnium qui credunt in carnem quam portavit et in crucem qua pependit, IV, xviii, 28, p. 358, parece de fato aludir às doutrinas joaninas. E, quanto às forças que os sacramentos dão aos cristãos, Lactâncio não deixou de indicá-las, de maneira muito discreta, mas ainda assim perceptível. Ver, a propósito do batismo, Inst., VII, v, 22, p. 660: homo cœlesti lavacro purificatus exponit infantiam cum omni labe vitæ prioris, et incremento divini vigoris accepto homo perfectus ac plenus; Cf. III, xxvi, 8 et 9, p. 260: da injustum, insipientem, peccatorem, continuo et æquus et prudens et innocens erit, uno enim lavacro malitia omnis abolebitur.
Não é menos verdade que, dados o fim que se propunha e o auditório que visava, o apologista devia insistir mais no papel exterior de Cristo. Este é primeiramente um mestre de doutrina, e mais especialmente de moral. Os livros V e VI das Instituições são propriamente o resumo dessa moral que distribui a Igreja, continuadora de Jesus Cristo. Aqui ainda se fez a Lactâncio a censura de ter apresentado sob o nome de moral cristã um estranho compromisso entre os preceitos do Evangelho e as regras formuladas pelos filósofos da antiguidade. A mesma censura poderia ser dirigida a São Tomás, cuja Ética toda se reduz a um comentário de Aristóteles. O fundamento da moral, segundo Lactâncio, é antes de tudo a certeza que temos da existência de um Deus soberano legislador, do fim que ele propõe à nossa atividade, dos meios que nos dá para alcançá-lo. Mas, uma vez solidamente construída essa base, não é preciso, para completar o edifício da moral, senão estudar o homem em si mesmo. Dessa consideração do homem ideal se tirarão sem dificuldade os preceitos relativos às diversas virtudes que deve praticar o homem concreto.
E se Lactâncio, com a filosofia antiga, insiste na justiça, raiz de todas as virtudes sociais, não deixa de lembrar as que o Evangelho preconizou. Da justiça passa muito depressa à caridade, fonte de novos deveres que os filósofos mal haviam pressentido e que pertencem propriamente aos cristãos. Hæc opera proprie nostra sunt, qui legem, qui verba ipsius Dei præcipientis accepimus. VI, xii, 22, p. 528. Longamente se estende sobre a castidade, assinalando, com sua indispensável necessidade, todos os perigos que a ameaçam. VI, xxiii, p. 654 sq. Eis uma preocupação especificamente cristã. Mais ainda, a importância concedida ao arrependimento na vida moral. Essa virtude de penitência, os antigos a ignoraram; Cícero assinalava antes o perigo que a esperança demasiado fácil do perdão faria correr aos bons costumes. Ora, Lactâncio viu bem que a atração especial do cristianismo lhe vinha precisamente da doçura com que acolhia as almas arrependidas. Sem frases, sem declamação, e todavia com uma inteligência muito advertida das necessidades do coração humano, estabelece uma das teorias mais compreensivas da penitência que nos legou a antiguidade cristã: Nec tamen deficiat aliquis aut de se ipse desesperet, si aut cupiditate victus aut libidine impulsus aut errore deceptus aut si coactus ad iniustitiœ viam lapsus est. Potest enim reduci ac liberari, si eum pæniteat actorum et ad meliora conversus satis Deo faciat. VI, xxiv, p. 571 sq. Cf. Epit., lxii, p. 748.
Que se entenda bem: trata-se antes de tudo desse perdão que a entrada na Igreja promete às almas que seus pecados acabrunham, do perdão que lhes dará esse batismo cuja eficácia soberana ouvimos Lactâncio exaltar. Realmente é preciso não ter compreendido nosso autor para falar, como o faz O. Bardenhewer: « Em matéria de exigências da moral cristã, Lactâncio não fala quase senão dos preceitos da moral natural tais como os deduziram os filósofos. » Geschichte der altkirchlichen Literatur, t. ii, p. 494. Aliás, todo esse dogmatismo moral não tem, afinal, seu coroamento no dogma das recompensas e dos castigos eternos? É o último livro, De vita beata, que dá seu sentido a toda a apologética de nosso autor. É em função desse ensino que se devem julgar todas as partes da obra, é por ele que ela adquire sua significação cristã.
Restam lacunas, sem dúvida, na apologética de Lactâncio; com demasiada frequência sua argumentação é fraca e carece de profundidade. Se o autor se sobressai em geral em colocar os problemas filosóficos, se sabe analisar, com finas nuances, as opiniões das diversas escolas, está longe de possuir o vigor dialético que penetra até o fundo da questão para trazer a resposta adequada.
Aí está propriamente sua insuficiência; seria vão querer dissimulá-la. Para render-se à argumentação de Lactâncio, não se devem ter exigências filosóficas demasiadas. Devem ter sido outras razões, e não as do professor de Nicomédia, que, no dia seguinte ao edito de Milão, conduziram as multidões pagãs aos batistérios da Igreja.
2° Pontos particulares de doutrina. Sob esta rubrica propomo-nos examinar certo número de questões estranhas à apologética, nas quais Lactâncio emitiu opiniões bastante diferentes das que se tornaram o ensino comum ou mesmo a doutrina oficial da Igreja.
1. A Trindade. Sobre este ponto, que toca apenas de passagem, Lactâncio ficou nas concepções postas em voga pelos teóricos do Logos em meados do século II e no início do século III. É dizer que, de um lado, o Filho desempenha essencialmente um papel cosmológico e que, de outro, o Espírito Santo desaparece quase completamente da santa Trindade. Quando Deus se decide a criar o mundo, começa por produzir um espírito semelhante a si mesmo, dotado de suas potências, e que será o instrumento da criação: antequam ordiretur hoc opus mundi... produxit similem sui spiritum qui esset virtutibus Patris Dei præditus. Inst., II, viii, 3, p. 129. Assim, a prolação do Filho não é eterna, e Lactâncio não toma o cuidado de distinguir os dois estados do Verbo, logos endiathetos, logos prophoricos, distinção com a ajuda da qual os antigos apologistas haviam salvado, bem ou mal, a eternidade do Logos. Notar-se-á igualmente o emprego da palavra produxit, que, ortodoxa a rigor, se a tomamos como equivalente do grego προφέρω, é tanto mais perigosa aqui quanto vem quase como sinônimo de fecit. Pior ainda, a palavra creatus é empregada em outro lugar para qualificar o Filho tanquam homo: renatus est ergo ex virgine sine patre ut quemadmodum in prima natiuitate spiritali creatus ex solo Deo sanctus spiritus factus est, sic in secunda carnali ex sola matre genitus caro sancta fieret. Epit., xxxviii, 9, p. 715.
Não acusemos, porém, depressa demais nosso autor de fazer do Filho uma criatura; pois em mais de um lugar (e no mesmo que acabamos de citar) ele fala de seu nascimento, de sua geração: antequam præclarum hoc opus mundi adoriretur, sanctum et incorruptibilem spiritum genuit, quem Filium nuncuparet. Inst., IV, vi, 1, p. 286. Deus in principio antequam mundum institueret, de æternitatis suæ fonte deque divino ac perenni spiritu suo filium sibi ipse progenuit incorruptum, fidelem virtuti ac majestati patriæ respondentem. Hic est virtus, hic ratio, hic sermo dei, hic sapientia. Epit., xxxvii, 1, 2, p. 712. Este último texto é particularmente importante e mostra bem que Lactâncio não assimila a geração do Verbo (Sermo, como em Tertuliano) à produção das criaturas; diz com bastante clareza, embora um pouco embaraçado pela falta de terminologia, que o Verbo deriva da própria substância do Pai. Tem mesmo um desenvolvimento para demonstrar ex professo que a produção do Verbo não poderia ser assimilada à criação dos anjos. Inst., IV, viii, 7, p. 296. De sorte que convém interpretar com alguma benevolência a palavra creatus que por vezes é aposta ao nome do Verbo.
Isso não impede que o Verbo assim produzido, se é semelhante ao Pai, não seja contudo, se assim se pode dizer, senão um Deus de segunda majestade. Justino já havia arriscado, ao falar do Logos, a expressão ἕτερος θεός; inspirando-se talvez na mesma fonte, Lactâncio cita uma passagem dos livros herméticos, que tem sensivelmente o mesmo som: ὁ κύριος καὶ τῶν πάντων ποιητής, ὃν θεὸν καλεῖν νενομίκαμεν, ἐπεὶ τὸν δεύτερον ἐποίησε θεὸν ὁρατὸν καὶ αἰσθητόν. Adianta, por outro lado, uma expressão que parece indicar que o Verbo não era por natureza incapaz de falha moral, visto que é por sua perseverança no bem que se tornou caro a Deus: Deo patri perseverando cum probatus tum etiam carus est. Inst., II, viii, 4, p. 130. Toda essa doutrina deve, aliás, ser interpretada em função da que se refere à criação e à queda do demônio, da qual falaremos daqui a pouco, e não se perceberia quanto, nas passagens anteriormente citadas, o pensamento de Lactâncio está longe do ensino clássico se não se levasse em conta essa oposição que ele faz perpetuamente entre o Verbo e o diabo.
Tal é, contudo, sobre o espírito de nosso autor a impressão causada pela doutrina tradicional que, depois de parecer resvalar para um arianismo avant la lettre, apressa-se em resolver, por expressões muito próximas do consubstancial niceno, o problema da unidade divina que parecera comprometer pelas expressões precedentemente citadas. Aliás, a própria natureza do auditório a que se dirige o força a abordar o problema. Consagrou dois livros a fazer o processo do politeísmo, e eis que, objeta-lhe seu leitor, parece instaurar dois deuses. Todo um capítulo é consagrado a resolver essa dificuldade. Inst., IV, xxviii, p. 391-394. É, aliás, de Tertuliano que é tomada a resposta: «Cum dicimus Deum Patrem et Deum Filium non diversum dicimus nec utrumque secernimus, quia nec Pater a Filio potest nec Filius a Patre secerni, siquidem nec Pater sine Filio nuncupari nec Filius potest sine Patre generari. Cum igitur et Pater Filium faciat et Filius Patrem una utrique mens, unus spiritus, una substantia est. Cf. Tertullien, Apologet, xxi, P. L., t. i, col. 399.
Tudo isso mostra que é preciso levar em conta, quando se estuda Lactâncio, a importância que ele atribui ao ensino tradicional. Finalmente, sua doutrina do Logos só difere, por certas imprudências de linguagem, do que diziam os apologistas seus predecessores.
O papel apagado, para não dizer mais, que desempenha o Espírito Santo na obra de Lactâncio explica-se pelas mesmas razões. Toda teoria do Logos exclusivamente cosmológica desemboca fatalmente em fazer negligenciar a terceira pessoa da Trindade. Não é que Lactâncio não empregue frequentemente o nome de Espírito Santo, mas sempre essa palavra se refere à segunda pessoa. Ver os textos assinalados acima. Ao lado desse espírito bom, Lactâncio só conhece o espírito do mal. Ver adiante. São Jerônimo já o havia notado: observa, além disso, que no 1.
VIII de suas Epístolas o apologista identificava o Espírito Santo ora com o Pai, ora com o Filho: multi per imperitiam Scripturarum, quod et Firmianus in octavo ad Demetrianum epistularum libro facit, adserunt Spiritum Sanctum sœpe patrem sœpe filium nominari. In Epist. ad Gal., iv, 6, P. L., t. xxvi, col. 383.
2. A angelologia. O dualismo. Estreitamente ligada, como dissemos, à doutrina relativa ao Logos, a teoria da origem do diabo é um dos pontos mais curiosos, e também dos mais repreensíveis, que se encontram em nosso apologista. Vamos expô-la, tendo por estabelecida a autenticidade das passagens dualistas. Ver col. 2428. Mesmo que as rejeitássemos, não chegaríamos a uma síntese sensivelmente diferente.
Depois de proferir o Verbo, Deus cria outro espírito, dotado também de qualidades eminentes, mas que, ao contrário do Verbo, não perseverou no estado em que fora criado. Deinde fecit alterum in quo indoles divinæ stirpis non permansit... ex bono ad malum transcendit, suoque arbitrio... contrarium sibi nomen adscivit. Inst., II, viii, 4, p. 129. Sua falta foi ter inveja do Verbo, seu predecessor: antecessori suo. É assim que esse espírito, criado bom, tornou-se aquele a quem os gregos chamam diabo, e os latinos acusador, pois é ele que se encarrega de denunciar a Deus os crimes a que ele nos arrasta: nos criminatorem vocamus : Deum quod crimina in quœ ipse illicit ad Deum deferat. Ibid., 6, p. 130. O diabo é, com efeito, a fonte de todo o mal moral.
Mas logo surge um problema: como Deus, soberanamente bom e justo, pôde deixar as coisas tomarem esse rumo? É a questão a que respondem as dissertações dualistas. Ver acima, col. 2429. Ora, diz o autor, é preciso partir da ideia de que só há mundo moral onde existe a luta, a tentação. Assim como o mundo físico resulta da síntese de elementos contrários, cuja luta engendra finalmente a harmonia do universo, assim o mundo da moralidade só se constitui, pode-se dizer, se nele se encontram dois elementos, o bem e o mal, que lutam juntos, estabelecendo-se a harmonia quando o bem triunfou do mal. Suprimir a presença do mal é suprimir a possibilidade do bem. Mas Deus não podia criar diretamente o mal: fas non erat ut a Deo proficisceretur malum, p. 131; ele arranjará, contudo, as coisas de modo que apareça uma vontade má, e muito poderosa, que será no mundo o agente da tentação e, por isso mesmo, o criador (bem involuntário) da moralidade.
Se o Verbo é o braço direito de Deus, o diabo é o seu braço esquerdo: fecit ante omnia duos fontes rerum sibi adversarum inter seque pugnantium, illos scilicet duos spiritus, rectum atque pravum, quorum alter est Deo tamquam dextera, alter tamquam sinistra, ut in eorum essent potestate contraria illa, quorum mixtura et temperatione mundus et quæ in eo sunt universa constarent. Eis o que vale para o mundo físico; a cada um dos dois elementos contraditórios que o constituem, fogo, água, (luz, trevas, etc.), é dado um chefe. E eis agora o mundo moral: Item facturus hominem cui virtutem ad vivendum proponeret, quam per immortalitatem assequeretur, bonum et malum fecit, ut posset esse virtus. P. 130-131.
O ponto delicado da teoria é que, se nos atemos estritamente à letra, Deus é finalmente o último responsável pelo mal. Cria o diabo para que seja o inventor do mal: illum constituit malorum inventorem, quem cum faceret dedit illi ad mala excogitanda ingenium et astutiam, ut in eo esset et voluntas prava et perfecta nequitia. Talvez convenha, contudo, não apertar o texto de demasiado perto: embaraçado por sua pouca prática da especulação teológica, o autor pôs em Deus vontade antecedente e absoluta, ali onde deveria ter posto vontade consequente e permissiva. Mas, seja como for, quer a malícia do diabo tenha sido querida por Deus, quer simplesmente permitida, eis a luta travada desde então entre o diabo e o Verbo, este inspirador do bem, aquele instigador do mal: a humanidade será, por assim dizer, o que está em jogo nessa luta.
O resto da exposição aproxima-se mais das ideias correntes, salvo um ponto, contudo: a data da queda dos anjos. Em conformidade com a Bíblia, Lactâncio fala da criação do primeiro casal humano, da tentação, da queda, da qual torna responsável o diabo. Para ajudar a humanidade em sua luta contra o mal, Deus lhe envia seus anjos; mas muitos deles sucumbem, unem-se às filhas dos homens. Sabe-se quanto essa ideia, tomada do livro de Henoc, foi corrente na antiguidade. Desde então os anjos decaídos não poderão ser recebidos no céu, e o diabo faz deles seus satélites e ministros. Quanto aos frutos das uniões incestuosas entre os anjos e as filhas dos homens, constituem uma classe especial de demônios. Seus pais habitam as regiões aéreas (os céus, como diz Lactâncio); eles estão confinados às regiões terrestres. São eles os espíritos imundos, autores de todos os males que acontecem. São suas artimanhas que mais contribuíram para espalhar sobre a terra o politeísmo. Ver sobretudo Inst., II, xiii-xiv, p. 160 sq. Epist., xxii-xxiii, p. 694-695. Quanto aos anjos que permaneceram fiéis, são os auxiliares do Verbo na incessante luta que é preciso travar contra as forças demoníacas.
No fundo de toda essa teoria há, pois, o desejo de resolver o problema do mal. Hipnotizado por essa ideia contestável, mas bem estoica, de que a virtude, o bem supõe necessariamente a tentação, a luta, logo o mal, Lactâncio chega a crer necessário um princípio do mal. Seria o maniqueísmo, se o bom senso do autor não o pusesse de sobreaviso contra a teoria dos dois princípios iguais, rivais e coeternos. Mas, para respeitar a unidade do princípio primeiro, a solução que propõe não vale muito mais, pois chega a colocar em Deus (ao menos tomando os termos com rigor) a decisão de criar um princípio mau. Compreende-se bastante bem que as passagens em que eram desenvolvidas teorias tão escabrosas tenham sido expurgadas, a partir do dia em que se viu mais claramente o perigo maniqueu.
3. A psicologia. Não haveria que insistir nas doutrinas relativas à natureza e ao destino da alma que Lactâncio desenvolve.
A espiritualidade (não digamos a imaterialidade) do princípio de vida não deixa dúvida para ele, nem tampouco sua imortalidade. A originalidade do retor está em ter afirmado com muita força a criação imediata de todas as almas por Deus, ao passo que Tertuliano, de quem depende tão estreitamente no restante de sua psicologia, havia proposto uma teoria muito mais grosseira da origem da alma. Lactâncio coloca nitidamente a questão, De opificio Dei, c. xix, t. ii a, p. 59: utrumne anima ex patre, an potius ex matre, an vero ex utroque generetur. Nenhuma dessas hipóteses é exata, continua ele; corpos podem muito bem engendrar corpos, mas almas não podem dar almas: de animis anima non potest (nasci), p. 60. É claro, pois, que as almas dos filhos não provêm dos pais, sed ab uno eodemque omnium Deo patre, qui legem rationemque nascendi tenet solus, siquidem solus efficit.
Lactâncio não diz em termos expressos em que momento Deus cria as almas. Uma frase das Instituições poderia fazer crer que ele pende para a teoria origenista, embora não tenha conhecido diretamente o autor do Periarchon. Quando Deus, diz ele, acabou de criar e de povoar o mundo, decidiu criar as almas que constituiriam seu reino eterno: rebus omnibus mirabili discriptione compositis sibi constituit et innumerabiles animas procreare quibus immortalitatem daret. Inst., II, x, 2, p. 117. Mas trata-se verossimilmente aqui do desígnio geral de Deus, que pode tê-lo executado apenas à medida das concepções humanas, e é bem isso que parece indicar o autor quando, falando da gravidade do crime de aborto, escreve: ad vitam enim Deus inspirat animas, non ad mortem. Inst., VI, xx, 18, p. 558. Cf. VII, v, 9, p. 598. Sabe-se que fortuna estava reservada a essa doutrina do criacionismo.
4. A escatologia. Se, quanto à psicologia, Lactâncio está nitidamente em progresso sobre seus predecessores, por outro lado sua escatologia é nitidamente arcaizante. Valeria a pena expô-la com alguns detalhes, e espanta ver toda essa fantasmagoria dos apocalipses apócrifos, de origem judaica ou cristã, expor-se com tanta complacência nesse manual de ensino cristão. Nada falta ali: nem a queda de Roma, nem os prodígios no céu e na terra, nem o advento do Anticristo, nem sua derrota por Cristo. É depois da vitória alcançada por este último sobre as forças demoníacas que tem lugar a primeira ressurreição, a qual atinge somente aqueles que praticaram a verdadeira religião. Essa ressurreição é seguida de um primeiro juízo. Inst., VII, xx, p. 647 sq. Quanto aos infiéis, nada têm a fazer nessa audiência, pois já estão julgados e condenados. Quanto aos fiéis, serão, segundo suas ações, ou admitidos à vida bem-aventurada ou condenados ao suplício do fogo eterno. Os próprios justos serão provados pelo fogo. Ibid., xxi, 6, p. 652: tum quorum peccata vel pondere vel numero prœvaluerint, perstringentur igni atque amburentur quos autem plena justitia et maturitas virtutis incoxerit, ignem illum non sentient.
Não se deveria imaginar, continua Lactâncio, que as almas foram julgadas imediatamente após a morte; não, enquanto o grande juiz não decide sobre sua sorte, elas ficam encerradas numa prisão comum de onde precisamente são chamadas no momento do juízo. Este vem, pois, fazer entre as almas dos fiéis uma primeira triagem. Aquelas que o fogo do juízo poupou ou purificou vão levar sobre a terra uma vida nova, enquanto as almas achadas culpadas são enviadas de volta com os ímpios para ali aguardar castigos certos. Ibid., n. 7 e 8. Começa então sobre a terra o milênio, era afortunada descrita antecipadamente pelos profetas e pelas sibilas, reino de Deus no meio de seu povo, na cidade santa. Se se olha de perto, vê-se que durante a duração desse milênio subsistem, em outro lugar da terra, nações infiéis. Estando o diabo acorrentado pela duração do milênio, esses povos não podem prejudicar a cidade santa; no dia em que o diabo é solto, uma formidável coligação se desencadeia contra o povo de Deus. Mas ela é vencida, definitivamente desta vez, pelo poder divino: enquanto este último esmaga os assaltantes, o povo fiel fica escondido nas entranhas da terra, sub concavis terrœ, até que a cólera de Deus faça justiça aos ímpios. Os últimos anos do milênio passam-se, pois, em toda a tranquilidade.
Depois tem lugar a grande renovação final, que é ao mesmo tempo a suprema manifestação da justiça divina. É a segunda ressurreição, que abrange todos os ímpios (e sem dúvida aqueles que lhes foram assimilados); ela desemboca na condenação de todos os culpados ao suplício eterno, enquanto os justos, tornados desde então semelhantes a anjos, vão reinar eternamente no céu. Inst., VII, xxvi, p. 665 sq. Cf. Epit., lxvii, p. 760: Post hœc renovabit Deus mundum et transformabit justos in figuras angelorum, ut immortalitatis veste donati serviant Deo in sempiternum.
O estudo desses diversos pontos explica como Lactâncio pôde ser julgado muito desfavoravelmente pelos teólogos, por aqueles sobretudo que, no fim do século XV e no século XVI, não podiam imaginar as relações que o pensamento do apologista mantinha com as ideias de grande número de seus contemporâneos ou de seus predecessores. Encontrar-se-ão na edição de Lenglet Dufresnoy, reproduzida em P. L., as indicações necessárias para uma história da acolhida feita a Lactâncio pelo pensamento cristão. Essas discussões em torno da ortodoxia desse apologista perderam muito de sua importância. Resta que a obra do professor de Nicomédia não merece os desdéns com que vários quiseram acabrunhá-la e que, sem prometer achados sensacionais, um estudo atento faria descobrir nela muitos traços interessantes e mal suspeitados.
I. Textos. 1° Para os manuscritos, ver os prolegômenos da edição Brandt, t. i, p. i-lvi; t. ii a, p. i-xxxix; t. ii b, p. i-xviii. 2° A história das edições é dada por inteiro nos mesmos prolegômenos; ver sobretudo t. ii a, p. xxxiv-lxxxi; um recenseamento sumário das edições em Pichon, p. xvi. A edição princeps é a que saiu em Subiaco, 1465, o primeiro impresso italiano datado; contém Inst., De ira, De opificio. As edições se multiplicam muito rapidamente, 11 antes do fim do século XV, mais de 20 no XVI; a partir de 1679, acrescenta-se o De mortibus e, a partir de 1712, o texto completo do Epitome. P. L., t. vi e vii, reproduz a edição de Lenglet-Dufresnoy, na qual se encontrarão numerosas dissertações interessantes de Baluze, Le Nourry, H. Dodwell e do próprio Lenglet.
II. HISTÓRIA LITERÁRIA. As questões relativas à datação ou à autenticidade foram estudadas sobretudo em nossos dias por S. Brandt, numa série de dissertações que completam seus prolegômenos; vejam-se em Sitzungsberichte der K. Akad. der Wissensch. zu Wien, sob este título geral: Ueber die dualistische Zusätze und die Kaiserreden bei Lactantius, nebst einer Untersuchung über das Leben und die Entstehungsverhältnisse seiner Prosaschriften : t. cxviii, fasc. 8 : I. Die dualistische Zusätze ; t. cxix, fasc. 1 : II. Die Kaiserreden ; t. cxx, fasc. 5 : III Ueber das Leben des Lactantius ; t. cxxv, fasc. 6 : Ueber die Entstehungsverhältnisse der Prosaschriften des Lactantius und des Buches De mortibus persecutorum. É preciso levar em conta as retificações que S. Brandt trouxe ao próprio pensamento na resenha da obra de R. Pichon. Ver Berliner philologische Wochenschrift, 1903, col. 1223-1228 e 1255-1259.
Os trabalhos posteriores a Brandt discutem mais ou menos o ponto de vista desse crítico. Ver O. Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Literatur, t. ii, 1903, p. 472-496; A. Harnack, Die altchristliche Litteratur. Chronologie, t. ii, 1904, p. 415-425.; M. Schanz, Geschichte der römischen Literatur, 2ª edição, t. iii, 1905, p. 113-171 (§ 752-767), onde se encontrará uma bibliografia superabundante; P. de Labriolle, Histoire de la littérature latine chrétienne, Paris, 1920, p. 252, 253 e 268-295. Mas é preciso sobretudo levar em conta a obra capital de R. Pichon, Lactance. Étude sur le mouvement philosophique et religieux sous le règne de Constantin, Paris, 1901, e a de P. Monceaux, Histoire littéraire de l'Afrique chrétienne, t. iii, p. 287-359.
III. TEOLOGIA. 1° Além das obras precedentes, que todas dão um lugar mais ou menos amplo à história das ideias, consultar-se-ão as histórias gerais do dogma, por exemplo A. Harnack, Lehrbuch der Dogmengeschichte, t. iii, 4ª edição, 1910, ver o índice, p. 935; J. Tixeront, La théologie anténicéenne, 1905, p. 441-450. 2° Os estudos especiais são muito numerosos, mas muitas vezes bastante superficiais; eis os mais importantes: J. J. Rau, Diatribe de philosophia Lactantiana, Iéna, 1733; H. J. Alt, De dualismo Lactantiano, Breslau, 1839; J. Overlach, Die Theologie des Lactantius, Schwerin, 1858; J. C. T. Müller, Quaestiones Lactantianœ, Gœttingue, 1875; F. Marbach. Die Psychologie des F. Lactantius, Halle, 1889.
Autor original: E. Amann
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