LA ROCHEFOUCAULD (Francisco de), cardeal, uma das mais belas figuras do episcopado francês nos séculos XVI e XVII (1558-1615). Nasceu em Paris em 8 de dezembro de 1558, de Carlos de La Rochefoucauld, conde de Randan, e de Fúlvia Pic, descendente dos príncipes de La Mirandola. Tendo perdido o pai aos quatro anos de idade, foi criado pelos cuidados de seu tio, João de La Rochefoucauld, abade de Marmoutier, que lhe fez fazer os estudos, humanidades, filosofia e teologia, junto aos jesuítas, no colégio de Clermont. Terminados os estudos, partiu para visitar Roma e a Itália.
A um clérigo de uma família tão ilustre, as honras e os benefícios não deviam faltar: era felizmente bem dotado e tinha todas as qualidades requeridas para desempenhar dignamente as funções que lhe iriam ser confiadas. Aos quinze anos era abade de Tournus; algum tempo depois, sucedia a seu tio no cargo de mestre de capela do rei. Henrique III o nomeou bispo de Clermont em 1585; não tinha então senão vinte e seis anos. Tendo tomado posse de sua sé em 3 de fevereiro de 1586, pôs-se imediatamente ao trabalho, esforçando-se pela conversão dos hereges, combatendo as doutrinas novas e procurando desenvolver a vida religiosa em sua diocese. Sob seu episcopado, funda-se em Mauriac uma sociedade de penitentes sub titulo Virginis Annuntiatae, em 24 de junho de 1589, sociedade confirmada por Urbano VIII em 1624. Em 1599, preside em Billom à fundação de um mosteiro de capuchinhos, cuja igreja consagra em 29 de outubro de 1606; duas outras casas de capuchinhos são fundadas, uma em 1606, em Thiers, a outra em 1608, em Issoire.
Soube, sem faltar à sua dignidade e aos seus deveres de bispo, ganhar o favor dos reis: depois de ter resistido a Henrique de Navarra protestante, submeteu-se a Henrique IV após a sua conversão. Reconhecendo suas qualidades, o novo rei o nomeou comendador da ordem do Espírito Santo e obteve para ele de Paulo V o chapéu de cardeal, em 10 de setembro de 1607. Henrique IV quis poder utilizar mais facilmente os talentos do cardeal e receber seus conselhos; obteve com esse fim que o bispo de Senlis, Antônio Rose, a quem foi dada em compensação a abadia de Saint-Mesmin, trocasse sua sé pela de Clermont. La Rochefoucauld foi assim nomeado bispo de Senlis, para grande desapontamento dos auvérnios, que lamentaram um bispo que haviam apreciado e amado durante vinte e cinco anos. O novo bispo de Senlis não pôde dirigir-se imediatamente ao seu posto, do qual tomou posse por procurador em 21 de abril de 1610; acabava de ser enviado a Roma em missão pelo rei.
Adquiriu ali imediatamente grande influência: fez parte de diversas congregações; ajudado pela amizade de Belarmino, trabalhou pela supressão dos decretos de Basileia; sucedeu ao cardeal de Givry como protetor da ordem de Cister; tornou-se, durante a ausência do cardeal de Joyeuse, vice-protetor de toda a França. Paulo V teria querido conservá-lo junto de si, e havia insistido nesse sentido junto à regente. Mas, sem esperar a resposta, impelido por seu zelo por seus diocesanos, La Rochefoucauld havia voltado à França e tomava efetivamente posse da sé de Senlis em 11 de novembro de 1613.
Sua influência se fez sentir para além dos limites de sua diocese. Os decretos disciplinares do concílio de Trento ainda estavam, na França, em discussão. Nos Estados gerais de 1614, o bispo de Senlis esforçou-se por fazer aceitar esses decretos, com a reserva, porém, das liberdades da Igreja galicana, das imunidades do reino, dos privilégios e isenções dos capítulos, mosteiros e congregações; não pôde consegui-lo, em razão da oposição do terceiro estado. Mas em 1615, na Assembleia geral do clero, foi bastante feliz para obter a aceitação dos decretos por três cardeais, sete arcebispos, quarenta e cinco bispos e trinta membros do clero inferior. A assembleia de 1615 marca uma data na aplicação na França do concílio de Trento: é um grave fracasso para o galicanismo.
Na corte, La Rochefoucauld exerce uma influência muito feliz, quando sucede, em 1618, ao cardeal Du Perron como grande esmoler da França, e quando, em 1622, por morte do cardeal de Retz, recebe a presidência do conselho real. Não podendo conduzir ao mesmo tempo todos esses encargos e a administração de sua diocese, resignou o bispado de Senlis, em 1622. O abandono de sua sé episcopal se impunha tanto mais quanto outro dever muito pesado acabava de lhe ser imposto: a reforma das ordens religiosas, da qual Gregório XV e Luís XIII o haviam encarregado. Abade de Sainte-Geneviève desde 1619, começou por esse mosteiro: restaurou-lhe a regra, agrupou os mosteiros da mesma ordem, até então independentes uns dos outros, e deu-lhes o nome de Congregação da França. Urbano VIII, em 1634, aprovou a reforma introduzida em Sainte-Geneviève, a eleição de seu abade a cada três anos e a instituição de uma congregação reformada da ordem de Santo Agostinho. Mas prorrogou os poderes de comissário geral do cardeal de La Rochefoucauld, que de fato governou a congregação até 1644; demitiu-se nesse ano, e o primeiro abade titular foi eleito em 13 de fevereiro de 1645. No dia seguinte a essa eleição, o cardeal morria na abadia de Sainte-Geneviève, querendo os funerais de um simples cônego regular. Foi sepultado em Sainte-Geneviève; mas seu coração foi levado para a capela do colégio de Clermont.
O cardeal de La Rochefoucauld levou uma vida ativa demais para ter tido tempo de escrever muito. Tem-se dele: Statuts synodaux de l'Église de Clermont, 1599; Statuts synodaux de l'Église de Senlis, 1621 (estes últimos publicados na sequência do sínodo em que foram aceitos pelo clero de Senlis os decretos de Trento); De l'autorité de l'Église en ce qui concerne la loi et la religion, Paris, 1603.
De La Morinière, Vie du cardinal de La Rochefoucauld, Paris, 1646; Gallia christiana, t. ii, iv, vii, x; Oraisons funèbres du cardinal de La Rochefoucauld, na Bibliothèque historique de la France, n. 32 254-32 261; Michaud, Biographie universelle, 2e edit., t. xxxvi, p. 222-223; Hœfer, Nouvelle biographie générale, 1859, t. xxix, col. 646-648.
L. Marchal.
Autor original: L. MARCHAL
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