KOHLER (CRISTIANO E JERÔNIMO)

KOHLER (CRISTIANO E JERÔNIMO)

KOHLER Cristiano e Jerônimo, fanáticos suíços, fundadores da seita dos Brüggler. Os dois irmãos Cristiano e Jerônimo Kohler nasceram, o primeiro em 1710, o segundo em 1711, em Brügglen, pequena aldeia da comuna de Rüeggisberg, no cantão de Berna. De condição muito modesta, nunca tiveram senão uma instrução totalmente elementar; mas hauriram nos meios pietistas em que foram criados o ódio à Igreja reformada oficial, a qual, desde o fim do século XVII, perseguia com rigor todos os adeptos desse movimento separatista. Não é este o lugar de expor as crises interiores que abalavam então as Igrejas suíças. Digamos apenas que, nos últimos anos do século XVII e nos trinta primeiros do XVIII, haviam-se formado, à margem e em oposição ao evangelismo eclesiástico, numerosos conventículos, nos quais iluminados pretendiam receber diretamente as comunicações divinas. Por um instante reprimido por medidas vigorosas, o movimento retomou com mais força em 1745. Na região de Rüeggisberg, crianças passaram por ter visões, êxtases, revelações. Os filhos dos irmãos Kohler estavam entre esses privilegiados, e seu iluminismo transmitiu-se aos pais.

Os irmãos Kohler tiveram seus transes e seus êxtases, ou pelo menos fingiram experimentar esses fenômenos, que não tardaram a explorar com vistas totalmente interesseiras. Predições e profecias multiplicaram-se. Logo os dois compadres associaram-se a uma mulher de reputação bastante medíocre, Elisabeth Kissling, e apresentaram-se como estando em relação muito especial com cada uma das três pessoas divinas. Cristiano era o templo do Pai, Jerônimo o do Filho, Elisabeth o do Espírito Santo. Utilizando também alguns dados do Apocalipse e variando o seu tema, os dois irmãos davam-se por as duas testemunhas de que se trata em Apoc., xi, 3 sq.; quanto a Elisabeth, não era outra senão a mulher que é representada no Apocalipse, xii, 2, dando à luz o Salvador. Tudo isso, inclusive as predições relativas ao fim do mundo, teria sido apenas grotesco e não teria merecido atrair de outro modo a atenção, se os fanáticos não tivessem acrescentado a esse iluminismo de baixo nível uma pregação nitidamente imoral.

O antinomismo, que se encontra tão facilmente em todas as seitas de iluminados, manifestou-se mais uma vez. Aqui, em nome da «santa liberdade dos filhos de Deus», os novos profetas autorizaram as piores dissoluções, e deram, eles primeiro, o exemplo. As autoridades civis e eclesiásticas do cantão se alarmaram. Em 1750, os pregadores, que haviam conseguido agrupar certo número de adeptos chamados os Brüggler, do nome da pátria dos Kohler, foram condenados pelo conselho de Berna a um banimento de seis anos. Refugiados no Jura, continuavam, quer por cartas, quer por visitas, a fanatizar seus partidários, aos quais predisseram o próximo fim do mundo e o advento do milênio. Preso durante uma de suas viagens pastorais, Jerônimo foi julgado e condenado à pena de morte em 15 de janeiro de 1753. A sentença foi executada no dia seguinte; o sectário foi estrangulado, depois queimado. Cristiano e Elisabeth Kissling desapareceram em seguida na prisão. Assinala-se ainda nesse mesmo ano de 1753 o processo de um certo João Sahli, que foi condenado à morte à revelia. Em 1755 instruiu-se do mesmo modo o caso de Bento Rohli, membro da seita dos Brüggler, que ousara dizer publicamente que Deus não poderia estar no céu se Jerônimo Kohler lá não estivesse. O réu escapou, por uma humilde retratação, ao castigo que deveria ter incorrido. A agitação criada pelos fanáticos acalmou-se por algum tempo, mas, perto do fim do século XVIII, Antoni Unternährer retomava as principais ideias de Kohler. Morreu em Lucerna em 1821, depois de um encarceramento de quatro anos.

— Documentos oficiais. Hochoberkeitliche Verwahrnung wegen sectierischer Lehr und Versammlungen, aus Anlass des jüngsthin exequierten H. Kohlers von Brügglen, Berne, 25 janvier 1753; Oberkeitliche Nachricht der betriegerischen Irrlehr und Verführungen Chr. und H. Kohlers, ausgeübet unter anderen an Johannes Sahli mit dessen selbst Verführ- und Theil-Nehmung, und darauf erfolgter Contumaz-Urtheil, Bienne, 1753.

— Obras de polêmica. A. Kyburz, Das entdeckte Geheimniss der Bosheit in der Brüggler-Secte: I. Theil, Worin gehandelt wird von ihrem Ursprung, von den aufgeworfenen zween Zeugen und derselben Weissagungen und Wundern, von ihren schädlichen Lehren und schändlichen Thaten, Landsverweisung und wieder neu angestellten Unfugen. Item von den groben Ausbrüchen dieser Secte in Ehebruch und Mordthaten, insonderheit des Christen und Hieronymus Kohlers greuliche Lasterthaten und des letzten Gefangennehmung, Todesurtheil und letzte Stunden, auch ein schriftmässige Widerlegung aller ihrer Meinungen, Irrthümer und Lehren, Zurich, 1753; II. Theil, Darinn nebst denen acht im ersten Theil angezeigten Capiteln noch ein und andere merkwürdige Particularitäten von den Kohlern und ihren Anhängern zum Vorschein kommen, Zurich, 1753; Isaac Sigfred, Lebens-Abspruch oder letzte Rede an den H. Kohler von Brügglen, gehalten den 15 jan. 1753; J. J. Simler, Sammlung alter und neuer Urkunden zur Beleuchtung der Kirchengeschichte, Zurich, 1757, t. i a, p. 297-341; Zehender, Kirchenhistorie der Berner Kirchen, inédit, à la biblioth. de Berne, XVI, xcix, 4, t. ix, p. 165-178; E. Meister, Helvetische Szenen der neueren Schwärmerei und Intoleranz, Zurich, 1785; Hadorn, art. Kohler, na Protest. Realenzyklopädie, t. x, p. 638-641.

E. Amann.

Autor original: E. Amann

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