KNOX (JOÃO)

KNOX (JOÃO)

KNOX João, o protagonista da Reforma na Escócia, nasceu em 1505. O lugar exato de seu nascimento permanece incerto. É, ou a cidade de Haddington, na província do mesmo nome, ou algum burgo dos arredores. Nada sabemos de sua infância nem de sua juventude. Fez seus estudos na universidade de Glasgow, e ali ouviu as lições de João Major, antigo professor da Sorbonne, que voltara ao seu país de origem. Em 1543, era sacerdote, notário apostólico e encarregado da educação de várias crianças pertencentes a famílias dos arredores de Haddington.

Um pouco mais tarde devia encontrar o homem que iria decidir seu futuro. Jorge Wishart havia sido obrigado, desde 1538, a fugir da Escócia por causa da religião. Voltara a ela clandestinamente por volta de 1545 para pregar a nova doutrina entre essa nobreza local, que via nele sobretudo um campeão da aliança inglesa contra a união secular da Escócia com a França. Sua pregação não fora longa. Preso por ordem do cardeal Beaton e do regente, o conde de Arran, foi queimado vivo em 1º de março de 1546. A vingança dessa execução não se fez esperar. Dois meses depois, o cardeal Beaton era assassinado pelos amigos de Wishart, que se haviam reagrupado em torno de Knox. Este declarou, aliás, publicamente que haviam feito « uma boa ação ». Mais ainda: como se tinham refugiado no castelo de Saint-Andrews, de onde resistiam às forças insuficientes do regente, ele foi ter com eles e continuou seu ensino e sua pregação. Mas, tendo vindo uma frota francesa sitiá-los, todos os refugiados, e Knox com eles, foram obrigados a render-se sob a condição de que teriam a vida salva. Tiveram-na, mas nas galés do rei da França. Knox permaneceu assim por certo tempo na foz do Loire. Encontrou, aliás, meio de corresponder-se com seus amigos da Escócia e até com seus companheiros do castelo de Saint-Andrews.

Um deles, Balnaves, retido nas prisões de Rouen, ocupava os lazeres de seu cativeiro na composição de um tratado teológico Da justificação. Pôde fazer chegar o manuscrito a Knox, que nele encontrou uma expressão tão justa de seu pensamento que o enviou à Escócia para ser impresso. Esse tratado nos permite apreender as concepções teológicas do reformador nesse momento preciso. Ele está então muito mais próximo da doutrina de Lutero que da de Calvino. Põe como ponto de partida a justificação pela fé somente e tira dela todas as consequências, em particular a do sacerdócio de todos os cristãos. Mas afirma ainda o dever da obediência absoluta para com os poderes políticos, bons ou maus. Só Deus pode tirar vingança de suas injustiças e de suas impiedades. Knox devia mudar singularmente neste ponto, que é vital para ele e que revela seu verdadeiro caráter: é antes de tudo um agitador político-religioso. Tinha razões pessoais para sê-lo. Em 1547, a Inglaterra se havia aproximado da França, e uma das cláusulas dessa aproximação fora a libertação dos prisioneiros de Saint-Andrews. Assim, em 15 de abril de 1549, Knox havia voltado à Inglaterra.

Graças aos homens que governavam em nome do débil Eduardo VI, ele iria encontrar ali um emprego conforme a seus gostos e aos interesses ingleses. As reformas que se haviam operado na Igreja da Inglaterra desde Henrique VIII e que acabavam de ser formuladas no primeiro Book of common Prayer estavam longe de satisfazer até mesmo aqueles que haviam sido seus promotores, em particular o duque de Somerset e o arcebispo Cranmer. Assim, acabavam de tomar uma medida importante, destinada a quebrar as resistências do clero com que haviam esbarrado. Haviam proibido todo pároco de pregar fora de sua paróquia, e todo bispo fora de sua diocese. Mas, ao mesmo tempo, haviam constituído um grupo de capelães do rei, que tinham licença e até missão de pregar por toda parte. A maioria era de refugiados estrangeiros, como Ochino, Pedro Mártir e Bucer, preocupados antes de tudo em destruir a antiga ordem de coisas, em difundir a nova doutrina e sobretudo em atacar a antiga. Era muito natural que Knox fizesse parte desse grupo. E também muito naturalmente deram-lhe como campo de seu ministério a região fronteiriça da Escócia, com residência em Berwick sobre o Tweed. Ali ficou dois anos. Estava obrigado, por sua licença, a cumprir seu ministério em conformidade com o primeiro Prayer book. Mas ele mesmo nos declara que não fez absolutamente nada disso. Em 1550, pregava violentamente contra a santa missa, que apresentava como uma « abominação ». Graças a tais meios, a nova doutrina fazia progressos.

Por isso foi preciso rever o primeiro Prayer book. Daí saiu a redação muito mais radical do segundo Prayer book, que devia entrar em uso em 1º de novembro de 1552. Ora, Knox acabava justamente de ser chamado à corte para pregar, como capelão do rei 5. Enquanto se procedia à redação do novo ritual, uma viva controvérsia surgiu a respeito da rubrica, mantida pelo primeiro Prayer book, que ordenava pôr-se de joelhos para receber a santa comunhão. Teólogos de destaque, o inglês Hooper e o polonês João de Lasco, ministro da igreja dos Estrangeiros em Londres, haviam se pronunciado contra esse rito, que qualificavam de « idolatria romana ». Knox, na presença do rei, pregou vivamente contra essa rubrica, e o resultado dessa intervenção foi que, apesar de Cranmer, e mesmo apesar da inserção do antigo texto no novo, uma nota adicional, célebre sob o nome de « Rubrica negra », lhe tirou praticamente toda a eficácia. Da mesma forma, quando Cranmer submeteu ao Conselho privado a redação dos XXXIX artigos, encontrou ainda Knox atravessado em seu caminho. Um desses artigos afirmava que as cerimônias ordenadas pelo Prayer book estavam todas em perfeito acordo com a liberdade evangélica. O reformador escocês e alguns de seus colegas dirigiram ao Conselho do rei uma confissão de fé na qual protestavam contra essa afirmação. Por isso o artigo desapareceu da redação definitiva (outubro de 1552). A morte de Eduardo VI e o advento de Maria Tudor puseram fim a essa atividade. No começo de março de 1554, Knox embarcava para Dieppe. De lá enviava suas instruções a seus discípulos ingleses.

Enquanto certos teólogos protestantes, como Melanchthon e Bucer, permitiam, em caso de necessidade, a assistência à missa católica, Knox, que se aproximava cada vez mais de Calvino, repudiava absolutamente semelhante prática. Mas o advento de Maria a Católica reconduzia o reformador às suas ideias favoritas. Knox, como todos os reformados, havia admitido até então o dever absoluto de obediência dos súditos para com seus príncipes, mesmo quando estes os perseguiam por sua fé. Tal posição era sustentável? Essa questão, cuja importância teológico-política dominava cada vez mais o pensamento do agitador religioso, ele resolveu colocá-la àqueles que passavam então por mestres da Reforma, Bullinger em Zurique e Calvino em Genebra. Assim, deixando Dieppe, dirigiu-se à Suíça. Interrogou primeiro Bullinger e lhe dirigiu as quatro questões seguintes: 1° Um príncipe criança, que é chamado a reinar sem ter a razão suficiente, pode pretender ser obedecido de direito divino? 2° Uma mulher pode governar um reino de direito divino e transmitir esse direito a seu marido? 3° Um governo que sustenta a idolatria e condena a verdadeira religião pode exigir a obediência de direito divino? 4° No caso de a nobreza de um reino resistir a um soberano idólatra, podem os homens de bem tomar o seu partido?

Vê-se facilmente aonde tendiam todas essas questões. A resposta de Bullinger e a de Calvino, que solicitou e obteve algum tempo depois, foram bastante decepcionantes para ele. Os dois teólogos reformados hesitavam ainda em proclamar o direito de rebelião em nome do Evangelho. Mas, no pensamento de Knox, a questão já estava resolvida. No mês de maio, Knox estava de volta a Dieppe, vigiando ansiosamente o curso dos acontecimentos na Inglaterra. Ali ficou até julho. Aproveitou essa estada para escrever um violento panfleto contra Maria Tudor, sob o título Fiel admonição aos professores da verdade divina na Inglaterra (A Faithfull admonition unto the professours of God's truthe in England), do qual apareceram nesse mesmo ano duas edições. Nele atacava não somente a rainha da Inglaterra, mas o imperador, o rei da Espanha e, em geral, todos os príncipes. O governo de Maria nem por isso deixava de se consolidar e, perdendo, por ora, toda esperança, Knox deixou Dieppe por volta do fim de julho para dirigir-se a Genebra.

No fim de setembro, um apelo dos refugiados ingleses estabelecidos em Frankfurt am Main pediu-lhe que viesse exercer entre eles as funções de ministro. A pedido de Calvino, aceitou. Cerca de um milhar de religionários havia deixado a Inglaterra desde o advento de Maria e buscado refúgio no continente. O grupo mais importante acabara por fixar-se em Frankfurt, graças à proteção de um magistrado calvinista, Glauburg, onde tinha liberdade, salvo restrições, de praticar seu culto. Mas mal essa comunidade se estabelecera, vivas discussões surgiram em seu seio. Uns queriam ater-se estritamente ao segundo Prayer book de Eduardo VI, outros procuravam impor uma reforma mais radical no sentido de Genebra. Knox, naturalmente, tomou partido por estes últimos. Os adversários, para se livrarem dele, não encontraram nada melhor do que denunciá-lo como autor da Faithfull admonition, na qual o imperador era grosseiramente atacado. Foi proibido ao agitador pregar, e ele foi assim obrigado a voltar para Genebra (março de 1555). Ali encontrou Calvino senhor da situação. Mas já no mês de agosto partia para a Escócia, sobretudo para ali resolver uma questão pessoal. Desposou ali Marjory Bowes, filha de uma mulher que ele havia doutrinado, para grande desespero de seu marido, que permanecera fiel à fé católica. Mas já em setembro, acompanhado da sogra e da mulher, voltava para junto de Calvino. Uma parte dos refugiados de Frankfurt para lá se haviam dirigido. Knox tornou-se seu ministro. Essa pequena comunidade foi o berço do puritanismo escocês; ali se traduziu para o inglês o Novo Testamento (1557) e mesmo a Bíblia inteira (1560). Certamente Knox teve parte, embora não saibamos qual, nesses trabalhos.

Pouco tempo depois, os chefes do partido protestante na Escócia, Glencairn, Argyle, Erskine e James Stewart, o chamavam, pintando-lhe a situação como favorável. Mas ele estava então bem instalado em Genebra com sua família e não mostrou nenhum entusiasmo em correr os riscos a que o convidavam. Foi até Dieppe, onde esperou pacientemente os acontecimentos. Para dar a mesma paciência aos que o esperavam, escreveu-lhes primeiro uma Carta a seus irmãos na Escócia, depois uma Carta aos professores da verdade na Escócia, nas quais os encorajava a continuar. Foi também ali que deu forma definitiva a uma ideia que o atormentava havia muito tempo, em sua obra principal: O primeiro monstruoso clamor da trombeta contra o regime das mulheres, The first blast of the trumpet against the monstruous régiment of Women, 1558. A tese é muito simples: « Estabelecer uma mulher para exercer o governo, a superioridade, o poder ou o império sobre um reino, uma nação ou uma cidade é coisa que repugna à natureza, que ofende a Deus, como contrária à sua vontade revelada e à ordem que ele aprova. E, finalmente, é a subversão da boa ordem, de toda equidade e de toda justiça. » Essa proposição é desenvolvida teologicamente « com um furor piedoso que atinge seu paroxismo », diz-nos o historiador admirador de Knox, P. Hume Brown.

Compreende-se o estardalhaço que devia fazer essa tese num mundo em que Maria Tudor era rainha da Inglaterra, Maria de Lorena regente da Escócia, Margarida de Parma governadora dos Países Baixos, e onde logo Isabel ia subir ao trono da Grã-Bretanha e Catarina de Médici governar a França em nome de seus filhos. Por isso a obra foi publicada não somente sob o véu do anonimato, mas clandestinamente. Apareceu em Genebra à revelia do próprio Calvino. Parece ter penetrado apenas lentamente na Inglaterra, onde provocou uma resposta da parte de John Aylmer, que foi mais tarde bispo de Londres. Um novo trabalho teológico aguardava Knox logo depois dessa publicação, cujas consequências ele ainda não suspeitava. Calvino chegara, após muitas hesitações, a fazer da doutrina da predestinação o centro de todo o seu edifício teológico.

Ora, as ideias de Calvino haviam suscitado numerosos protestos precisamente entre os partidários da reforma mais radical, entre os anabatistas. Mas estes se espalhavam pela Inglaterra e pela Escócia a ponto de inquietar os partidários de Genebra. Por isso Knox foi convidado a escrever contra eles. Foi a ocasião para ele publicar seu tratado Da predestinação, ou De la prédestination, cuja impressão o Conselho dos pastores autorizou em 9 de novembro de 1559, proibindo, contudo, a menção de Genebra. O livro apresentava-se como a refutação da obra de um anabatista inglês, que se supõe ser Robert Cooke, publicada, segundo Knox, sob o título O Pecador por necessidade, The careless by necessity, e que não parece ter chegado até nós. De resto, a obra não acrescenta absolutamente nada aos argumentos bem conhecidos de Calvino, e o temperamento de Knox não era feito para suavizar as arestas e a rigidez dessa doutrina.

Enquanto assim se ocupava de teologia, os acontecimentos que se desenrolavam na Inglaterra e na Escócia tomavam um rumo favorável às suas ideias. Em razão mesmo das circunstâncias políticas, o grupo dos reformados escoceses adquiria dia a dia uma importância mais considerável. Knox continuava a manter com eles estreitas relações e, durante a estada mais ou menos clandestina que fez em seu país, do outono de 1555 até julho de 1556, soube reavivar o zelo de seus neófitos, em particular o de seu chefe, lord Erskine de Dun. Na Inglaterra, Maria Tudor morreu em 17 de novembro de 1558. Quando sua irmã Isabel a substituiu no trono, o reformador julgou chegada a sua hora. Dirigiu-se diretamente a ela para obter um passaporte. Mas a nova rainha lembrava-se do Primeiro toque da trombeta contra o monstruoso governo das mulheres, e de alguns outros panfletos do mesmo gênero saídos das prensas de Genebra. Durante algum tempo ainda, foi preciso contentar-se em agir pela pena. Knox o fez em particular numa Carta à rainha viúva, Maria de Lorena, na qual lhe dirigia, no tom habitual dos pregadores de Genebra, as mais severas admoestações a propósito de seu mau governo e sobretudo de sua «idolatria». Essa carta apareceu em 1558.

Entrementes, a morte de Maria Tudor o decidira a aproximar-se da Grã-Bretanha. Deixou Genebra rumo a Dieppe em fevereiro de 1559 e, de lá, dirigiu requerimento após requerimento para obter de Isabel a autorização de passar à Inglaterra. Desejava, dizia, ir visitar seus correligionários de Berwick e de Newcastle. Mas a rainha nada quis ouvir, nem mesmo seu ministro Cecil, apesar de sua inclinação bem conhecida pelas doutrinas de Calvino. Assim, cansado de esperar, Knox embarcou diretamente para Edimburgo, aonde chegou em 2 de maio de 1559. Encontrou ali a revolução prestes a eclodir. Os lordes protestantes haviam formado uma associação, uma congregação, em virtude da qual prometiam assistência mútua. Várias cidades estavam, no todo ou em parte, ganhas para a sua causa. Era o caso de Saint-Andrews, Dundee e Leith. Por outro lado, a regente só podia contar com as tropas francesas que tinha à mão, apenas alguns milhares de homens. Pois a maior parte da Escócia não se interessava de modo algum por essa querela e recusava-se a tomar parte nela. Assim, a chegada de Knox foi, para Maria de Lorena, uma surpresa desagradável e, para seus adversários, uma grande razão para perseverar na resistência.

Como as forças em presença eram aproximadamente iguais, as hostilidades tomaram a forma de uma série de levantes, entrecortados de tréguas e de acordos, que logo cada partido se apressava a romper. Knox viu logo à primeira vista que os reformados, deixados a si mesmos, não chegariam a nada. Retomou sua velha ideia de uma aliança com a Inglaterra, cada vez mais inquieta com a presença dos franceses na Escócia. O casamento de Maria Stuart, que tinha além disso pretensões ao trono da Inglaterra, com Francisco II, não era feito para acalmar essas inquietações. Assim, Knox fez-se nomear secretário da Congregação para tratar desse assunto. Contudo, a coisa não andou sozinha, e foi por pouco que, de início, Isabel ofereceu uma miserável soma de dinheiro para sustentar os protestantes, que, no fim de 1559, haviam se sublevado de novo. A lembrança do Primeiro toque da trombeta ainda soava aos ouvidos da rainha da Inglaterra. Assim, a causa da Congregação parecia irremediavelmente perdida quando, no fim de janeiro de 1560, uma frota apareceu no Firth of Forth. Mas não eram os navios franceses que Maria de Lorena esperava. Isabel, por instâncias de Knox e de seu enviado Maitland, cedera por fim, e lançara seus vasos de guerra para interditar à frota francesa o acesso às costas da Escócia, isso, aliás, sem declaração de guerra. Chegaram bem a tempo de salvar Saint-Andrews, a capital dos reformados.

Nesse ínterim, Maria de Lorena morreu. As perturbações que aumentavam a cada dia na França decidiram essa potência a fazer a paz com a Inglaterra. O tratado, assinado em Leith, foi proclamado em Edimburgo em 6 de julho de 1560. Os dois governos comprometiam-se a evacuar ambos a Escócia. Esse tratado não falava de religião, mas estipulava que os Estados da Escócia seriam convocados em Parlamento. Reuniram-se em 1.º de agosto, e sua preocupação foi imediatamente regular a questão religiosa. A fé católica ali quase não foi defendida, nem mesmo por aqueles que tinham o encargo de fazê-lo. A Congregação era senhora absoluta da situação. Requereu ao Parlamento que ordenasse a redação de uma confissão de fé. Uma comissão, da qual Knox foi certamente o inspirador, foi nomeada para esse fim. Em quatro dias, redigiu 35 artigos, que se inspiravam muito de perto na confissão de Calvino e na que os ministros huguenotes haviam publicado em Paris, em maio de 1559. Esses artigos foram submetidos um a um à Assembleia, que os adotou sem grande oposição. Ao mesmo tempo, Knox quis completar sua obra unindo ainda mais estreitamente a Escócia e a Inglaterra. Tomou parte ativa na negociação do casamento de Isabel com o conde de Arran, então regente, de quem a morte de Maria de Lorena fizera a primeira personagem do reino.

Este inclinava-se então às doutrinas protestantes e tomara o reformador por seu conselheiro. Mas a negociação fracassou. A confissão de fé publicada em nome dos Estados não era senão um primeiro passo. Era preciso destruir o antigo estado de coisas e substituí-lo por um novo. Sob nova pressão da Congregação, o Parlamento tomou, em 21 de agosto, três medidas destinadas a cumprir a parte destrutiva dessa tarefa. Emitiu primeiro um decreto que anulava todos os estatutos anteriores concernentes às censuras da Igreja e ao culto dos santos. Um segundo declarava abolida no reino a jurisdição do papa. Por um terceiro, o fato de dizer a missa era declarado crime punido com o confisco dos bens; o de ouvi-la, crime punido com o banimento; e os reincidentes incorriam na pena de morte.

Mas era preciso também organizar a nova Igreja. Uma comissão, muito provavelmente a mesma que já redigira a confissão de fé, recebeu a ordem de fazer esse trabalho. Knox parece ter desempenhado nela um papel mais considerável que na primeira. Passou os últimos meses de 1560 a pôr num volume a «polícia e a disciplina da Igreja». Os Estados haviam-no encarregado além disso de redigir um relato dos acontecimentos que acabavam de ocorrer, ideia em que ele próprio já pensara. Foi essa a origem de duas obras importantes, o Book of discipline e a Historie of the Reformation in Scotland. Tanto quanto a confissão de fé, o Book of discipline não é uma obra original. É a adaptação, com algumas mudanças exigidas pelas circunstâncias, das Ordonnances de l'Église de Genève, de um lado, e, de outro, da Forma ac ratio tota ecclesiastici ministerii, de João de Lasco, que Knox certamente conhecera em Londres, quando ambos eram capelães de Eduardo VI, e que reencontrara mais tarde, no exílio, em Frankfurt am Main. Em dezesseis capítulos, a obra trata dos ministros da Igreja, de sua eleição e de sua admissão; depois do culto e das regras que nele se devem seguir; enfim, dos bens da Igreja e de suas relações com o Estado.

A doutrina aparece ali frequentemente como um compromisso entre pontos de vista divergentes. Assim, conforme a teoria calvinista, os ministros da igreja são agrupados em quatro ordens: ministros propriamente ditos, leitores, anciãos e diáconos, nomeados. Mas acima deles, e por obra do Estado, o Book of discipline coloca superintendentes dos quais dependem completamente. Por isso a controvérsia prolongou-se na Escócia, praticamente até hoje, sobre se a organização de Knox é episcopaliana ou presbiteriana. A última parte da obra regulava a atribuição dos bens da Igreja católica espoliada, e traçava, no papel, um belo plano de organização escolar. Este último ponto reservava dissabores ao reformador. Se pensara servir-se dos lordes da Congregação, estes iam lhe mostrar vivamente que, de sua parte, pretendiam servir-se dele. Para eles, tratava-se sobretudo de pôr a mão nesses bens eclesiásticos, e já haviam se lançado à obra. Aqueles em quem Knox mais confiara, Erskine de Dun, o primeiro, precipitaram-se sobre a presa. Por isso, quando os Estados se reuniram de novo, em 15 de janeiro de 1561, para se pronunciar sobre o Book of Discipline como haviam feito com a confissão de fé, apenas alguns aceitaram subscrevê-lo. Knox queixou-se vivamente.

Consolaram-no proporcionando-lhe a ocasião de um sucesso oratório: instituiu-se uma disputa entre quatro representantes do catolicismo, entre os quais o oficial de Aberdeen, John Leslie, e um professor de teologia dessa universidade, Alexandre Anderson, e, do lado dos reformados, os três principais ministros, Knox, John Willcock e Cristóvão Goodman. No relato que nos deixou, Knox apresenta essa disputa como uma brilhante vitória; Leslie, que também a narra, é muito menos afirmativo. Entretanto, o reformador obteve então dos Estados que se destruíssem os monumentos «da idolatria», e começou uma campanha de demolições que devia durar vários anos e que fez desaparecer as mais antigas obras-primas da arte religiosa na Escócia. Os executores dessa decisão, designados pelos Estados, foram os principais lordes da Congregação, Arran, Argyll, Glencairn, e o próprio irmão, bastardo, é verdade, da jovem rainha, James Stuart. Foi esse, por ora, o resultado mais claro do Book of discipline.

Mas Francisco II morrera no fim de 1560. Sua jovem viúva já não era rainha da França: continuava rainha da Escócia. Seus súditos, protestantes como católicos, reclamavam-na. Após muitas hesitações e com muitos pesares, embarcou para Leith, onde aportou em 20 de agosto de 1561. Qual seria a sua atitude? Havia recusado obstinadamente reconhecer o tratado de Edimburgo. Podia, portanto, contestar a legitimidade da convocação dos Estados e, como tal, considerar nulo tudo o que haviam feito. Por isso Knox não ocultava a sua ansiedade. De fato, durante os quatro primeiros anos que se seguiram ao retorno da rainha, travou-se um verdadeiro duelo entre ela e o reformador. Maria empregava todas as seduções e todas as astúcias de que uma mulher tem o segredo, para o envolver. Destacava insensivelmente dele os principais chefes da Congregação, James Stuart, a quem fazia conde de Moray, Maitland e Lethington, que tomava como conselheiros. Procurava voltar a política escocesa contra a Inglaterra.

Cada vez que Knox, em suas pregações de Saint-Gilles, a paróquia de Edimburgo da qual era ministro, ultrapassava os limites, ela o convocava ao palácio de Holyrood e procurava seduzi-lo com sua boa graça e discursos razoáveis. Mas o reformador permanecia inflexível. Não perdia ocasião de trovejar contra a rainha e seus conselheiros. Uma iniciativa qualquer de Maria, uma noite de dança no palácio, eram para ele ocasião de arengas inflamadas e bíblicas. Nesse ínterim, tendo morrido sua mulher, casou-se de novo com a filha de um lorde necessitado da Congregação, Ochiltree. Ela tinha dezesseis anos, ele tinha cinquenta e nove. Como a coisa se passava na Escócia, não pareceu de modo algum ridícula (1561). Outro casamento, com efeito, ocupava então todos os espíritos: o da rainha.

Fora ele a ocasião de intrigas sem fim da parte de Isabel e dos Guise, do rei da Espanha Filipe II e dos grandes senhores escoceses. A escolha de Maria Stuart decepcionou todo mundo: casou-se com seu primo Darnley, dos condes de Lennox (29 de julho de 1565). O golpe foi duro sobretudo para o partido protestante, pois o novo marido da rainha permanecera muito apegado à sua fé católica. Foi uma ocasião para Knox redobrar os ataques. Do púlpito de Saint-Gilles, pregou sobre Acab e Jezabel precisamente no dia em que Darnley fora ouvi-lo. A rainha achou que desta vez ele fora um pouco longe demais e lhe fez interditar daí em diante toda pregação. Mas era uma bela ocasião para o reformador reconstituir a Congregação. O conde de Moray, Maitland, Lethington, todos os protestantes que se haviam aliado à política de Maria, tinham sido afastados do poder. Por outro lado, a rainha entregara-se inteiramente aos conselhos de um personagem dogmático, um italiano, David Rizzio, que todos, na Escócia, consideravam um agente do papa.

Assim, a antiga coalizão ia se reformar, mais violenta, em torno de Knox e pelos cuidados do representante da Inglaterra em Edimburgo, Randolph. Os melhores aliados de Knox nessa tarefa foram, aliás, a rainha e seu novo marido. Este, ciumento do ascendente de Rizzio, organizava um complô com os senhores protestantes para fazê-lo assassinar sob os olhos da rainha (9 de março de 1566). E se Knox não tomou parte direta no complô, os historiadores mais devotados à sua causa não têm dificuldade alguma em confessar que ele certamente o aprovou. Em 10 de fevereiro de 1567, foi a vez de Darnley, que Maria deixou assassinar por lord Bothwell, a quem, em 15 de maio seguinte, deu sua mão. Durante esse tempo, Knox, que não se sentia em segurança em Edimburgo, fazia uma viagem pelo sul da Escócia, onde reavivava o zelo das comunidades protestantes e via vir para a sua causa um dos mais temíveis defensores do catolicismo, o conde de Cassilis. Escrevia uma carta aos pastores e aos bispos da Inglaterra, em favor dos puritanos que se exilavam porque reprovavam o uso da sobrepeliz e do barrete quadrado. Ia ele próprio à outra margem do Tweed, provavelmente a Berwick, onde encontrava sua antiga comunidade muito florescente.

Mas, uma vez mais, os acontecimentos voltavam-se a seu favor. Um levante dos senhores, católicos e protestantes, apoderava-se da rainha e de seu novo marido Bothwell e os retinha prisioneiros no castelo de Lochleven (16 de junho de 1567). Assim, Knox reaparecia em Edimburgo em 25 de junho, e, nesse mesmo dia, uma Assembleia geral dos protestantes ali se reunia. Impelida pelo reformador, apesar das advertências de Throgmorton, que lhe enviara a rainha Isabel, a Assembleia declarou Maria Stuart decaída de seus direitos e substituiu-a pelo jovem filho de Darnley, James Stuart, dando-lhe como tutor, com o título de regente, o próprio conde de Moray, que, desde a sua queda em desgraça, se aproximara de Knox. Foi Knox quem pregou na cerimônia de coroação do jovem príncipe, em Stirling. Reclamou friamente a essa criança a cabeça de sua mãe. Mas a sua causa não estava ganha. No começo de maio de 1568, Maria Stuart escapava, com Bothwell, da prisão de Lochleven e constituía um exército de partidários. Em 23 de janeiro de 1570, Moray, passando por Linlithgow, foi assassinado em plena rua. O conde de Lennox, que o substituiu, estava longe de ter o seu vigor e a sua autoridade. Por isso os partidários da rainha retomaram coragem, e a Escócia dividiu-se rapidamente em duas facções, tendo a maioria dos grandes senhores, mesmo protestantes, tomado o partido da rainha, enquanto a pequena nobreza e a burguesia, excitadas por Knox, sustentavam as decisões da Assembleia de 1567.

Estes últimos ainda eram os senhores da capital, Edimburgo. A guarda do castelo fora confiada a um dos mais antigos companheiros de Knox, Kirkcaldy de Grange. Mas este, convencido por Lethington, aliou-se ao partido da rainha, e a posição de Knox tornou-se insustentável. Em 5 de maio de 1571, abandonava a cidade para retirar-se à outra margem do Firth of Forth, em Abbotshall. Já estava muito doente, mas nada perdera de sua segurança. Deixou logo Abbotshall por Saint-Andrews e ali retomou suas pregações e sua atividade. Publicou ali também uma resposta à obra de um jovem escocês, James Tyrie, que entrara na Companhia de Jesus e atacara a Reforma. A obra de Knox fora composta em 1566, mas ele só a publicou no começo de 1572. Num curioso apêndice, defendeu-se contra os rumores que haviam corrido a respeito de suas relações com a mãe de sua primeira mulher, Mrs Bowes.

Tomou parte também numa controvérsia importante do ponto de vista religioso. O arcebispo de Saint-Andrews, Marmiton, fora feito prisioneiro, depois enforcado, por ordem de Morton, que sucedera ao conde de Lennox como tutor do jovem rei. Mas Morton, embora protestante, apressara-se a nomear-lhe um sucessor na pessoa de John Douglas, reitor da universidade. Knox, embora recusando misturar-se ao caso e protestando contra esse atentado à liberdade da Igreja, aceitou pregar na inauguração do novo prelado. A luta entre as duas facções pusera a Escócia num estado indescritível de anarquia. Maria Stuart confiara-se a Isabel, que fizera dela sua prisioneira. Contudo, por instâncias da França e da Inglaterra, concluíra-se uma trégua entre os dois partidos, em 31 de julho de 1572. Um artigo garantia a todos o retorno seguro à sua morada. Os correligionários de Knox pressionaram-no a voltar a Edimburgo. Ele ali entrou para morrer. Mas antes deu sua opinião sobre o caso de Maria Stuart, a quem a rainha da Inglaterra, por um requinte de política cautelosa, queria entregar aos tribunais escoceses para ser julgada. Declarou nitidamente que ela devia ser condenada e executada. Algum tempo depois, em 24 de novembro de 1572, morria, no mesmo dia em que Morton era proclamado regente da Escócia. Foi o novo regente quem pronunciou sua oração fúnebre. Deixava inédito o manuscrito da obra de que o haviam encarregado os Estados de 1560, a Historie of the Reformation in Scotland.

Um singular destino aguardava essa obra. O secretário de Knox, Richard Bannatyne, requereu à Assembleia geral dos protestantes a autorização para publicá-la, mediante uma pensão razoável. Seu pedido foi admitido. Mas, segundo o próprio Bannatyne, o manuscrito só estava completamente redigido até o ano de 1564. Daí atrasos, de modo que só em 1586 um editor escocês, Vautrollier, tentou fazê-la aparecer em Londres. Nesse momento, a censura inglesa interveio e a impressão foi interrompida. Por fim, em 1664, a obra apareceu em Londres. Mas desta vez ainda ela passara pelas mãos dos censores, que a haviam mutilado e desfigurado a tal ponto que o grande poeta Milton em pessoa levantou contra eles, em seus Areopagitica, um veemente protesto. Só no século XIX o texto definitivo foi publicado pelo editor das obras de Knox, David Laing. A obra compreende seis livros, dos quais o último certamente não foi redigido pelo reformador.

Seu último historiador e admirador, P. Hume Brown, julga assim a obra: Se Knox não tivesse escrito este livro, pode-se assegurar «com toda certeza que ele não teria a figura que tem na história da Escócia. Para fazermos uma ideia dele, estaríamos reduzidos às poucas notícias dos historiadores contemporâneos ou às referências ocasionais nos papéis de Estado. É somente na História da Reforma que se encontra, com todos os seus fins e todos os seus caracteres distintivos, o espírito essencial de Knox e de sua obra.» Op. cit., t. ii, p. 211 sq. Assim, Knox, por um caso pouco frequente na história, pareceu muito menos grande a seus contemporâneos do que à posteridade, que aceitou benevolamente o seu próprio testemunho sobre si mesmo.

Knox, Works, 6 vol., éd. David Laing, Edimbourg, 1864 sq. John Cunningham, The Church History of Scotland, t. i, Édimbourg, 1882; P. Hume Brown, John Knox, a biography, 2 vol., Londres, 1895. Estes dois últimos volumes dispensam toda a literatura anterior.

A. Humbert.

Autor original: A. Humbert

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor