JULIANO, O APÓSTATA. I. Vida. II. Obras (col. 1944). III. Disposições a respeito do cristianismo (col. 1916). IV. Ação religiosa (col. 1954).
I. Vida de Juliano. O imperador Constâncio Cloro tinha três filhos: Constantino, Anibaliano e Júlio Constâncio. O primeiro tornou-se o imperador Constantino, o Grande. O terceiro, Júlio Constâncio, era um personagem considerável, com riquezas muito grandes. De sua primeira mulher teve um filho, Flávio Júlio Galo, que se tornou César; da segunda, Basilina, teve Flávio Cláudio Juliano, que se tornou o imperador Juliano. Irmãos apenas por parte de pai, Galo e Juliano eram os dois únicos sobrinhos, pelo sangue, do imperador Constantino.
Juliano nasceu em Constantinopla, a 6 de novembro de 331. Não conheceu sua mãe, morta no ano seguinte, e foi criado sobretudo por sua avó, na residência paterna, até 337. Nesse ano o imperador Constantino morreu, deixando três filhos, já associados ao império: Constante, Constâncio e Constantino, entre os quais o imperador repartia sua sucessão. As tropas de Constantinopla aceitaram os três novos imperadores, mas massacraram impiedosamente os outros membros da família imperial, em particular Júlio Constâncio. Pouparam Galo, com cerca de doze anos, doentio, e cuja morte se esperava. Juliano, que tinha aproximadamente seis anos e meio, foi escondido sob a mesa de um altar por Marcos, bispo de Aretusa, com a ajuda de alguns sacerdotes, e assim salvo.
Constante e Constantino encontravam-se então retidos no Ocidente. Constâncio, presente em Constantinopla, presidiu as exéquias de seu pai e foi testemunha, se não cúmplice, do massacre de seus parentes. O cuidado dos dois meninos, seus primos-irmãos, cabia-lhe. Enviou Galo a Éfeso, na Jônia, onde seu pai, defunto, possuía grandes riquezas, e mandou dar-lhe a instrução que convinha a um príncipe; confiou Juliano ao bispo de Nicomédia, Eusébio, parente do menino pela mãe deste. Depois de 339, Eusébio foi transferido para a sé de Constantinopla, e Juliano voltou com ele à capital. Em 342, Eusébio morreu. Em 343 ou 344, Constâncio reuniu os dois irmãos e os enviou ao castelo real de Macelo, perto de Cesareia, na Capadócia. Os jovens, criados principescamente, tinham professores para sua instrução profana e sacerdotes para sua instrução religiosa. Galo tinha cerca de dezessete anos; Juliano, cerca de doze; a estada em Macelo durou sete ou oito anos.
Constantino II e Constante haviam morrido sem deixar filhos. Tornado único imperador em 350, Constâncio tampouco os tinha e não podia esperá-los. O peso do Império tornava-se cada vez mais pesado. Constâncio chamou de volta de Macelo seus dois primos-irmãos. Em 351, elevou Galo à dignidade de César e confiou-lhe o governo do Oriente, com residência em Antioquia. Enviou Juliano a Nicomédia, onde o menino havia passado seus primeiros anos. Mas Juliano tem agora vinte anos; é senhor de si, é rico; é o terceiro personagem do Império. Sua residência oficial é Nicomédia, mas ele não se prende a ela. Permanece em Astácia, próxima de Nicomédia, onde possui uma bela propriedade. Faz com que lhe comuniquem as lições de Libânio, então professor em Nicomédia; viaja a seu bel-prazer; vai, por exemplo, a Pérgamo, a Éfeso, e conhece os filósofos neoplatônicos Edésio, Crisanto, Prisais, Eusébio, Máximo e ainda outros, todos pagãos, como Libânio.
As queixas e denúncias afluíam contra Galo junto a Constâncio. Em 35 1, o imperador envia ao jovem César a ordem de ir juntar-se a ele em Milão, e o manda decapitar no caminho, perto de Pola. Os espiões e delatores voltam-se então contra Juliano. Constâncio envia-lhe a ordem de dirigir-se a Milão, junto dele. Desconfiado, Juliano obedece e guarda um silêncio absoluto sobre todos os acontecimentos. Durante sete meses, é como que o prisioneiro do imperador. Mas a imperatriz Eusébia toma-o em amizade, concilia-lhe o ânimo de Constâncio e obtém-lhe a autorização de retornar à Bitínia. Mal Juliano chegou ali, uma nova ordem o chama de volta. Graças a uma nova intervenção da imperatriz, Juliano é autorizado a ir a Atenas para seus estudos de filosofia, em 355, com a idade de vinte e quatro anos. Sua estada em Atenas foi curta, mas decisiva para suas convicções religiosas; voltou dali radicalmente pagão.
Entretanto, a leste, os persas ameaçavam a fronteira; no Ocidente, os francos agitavam-se na Bélgica; as hordas germânicas atravessavam o Reno, pilhavam e devastavam a Gália. Constâncio sentia a necessidade de um auxiliar. A imperatriz interveio de novo em favor de Juliano. A 6 de novembro de 355, em Milão, Juliano é criado César por Constâncio; recebe o governo da Gália e da Grã-Bretanha; recebe também por esposa Helena, irmã do imperador. A 1º de dezembro, Juliano deixa Milão e vem passar o inverno em Viena, na Gália. Em 356, em sua primeira campanha, liberta Autun, Auxerre, Troyes, Coblença, Colônia; depois toma quartéis de inverno em Sens. Em 357, obtém uma vitória decisiva sobre os germanos em Argentoratum (Estrasburgo). As campanhas de 358 e 359 completam e consolidam a libertação da Gália até o Reno. Entrementes, Juliano tomava seus quartéis de inverno em Paris. Quatro anos lhe haviam bastado para realizar sua obra; adquirira sobre o exército um prestígio irresistível; uma administração inteligente e imparcial lhe merecera o apego inabalável da população.
De repente, em 360, Constâncio, então no Oriente, reclama com urgência o auxílio das melhores tropas das Gálias contra os persas. Os soldados se amotinam e proclamam Juliano Augusto, fazendo dele o igual de Constâncio (março de 360, em Paris ou Lutécia). O ano passou-se na expectativa. Juliano advertiu Constâncio dos acontecimentos de Paris e pediu-lhe que confirmasse o ato do exército (360-361). Constâncio respondeu intimando Juliano a retomar sua posição de César. Juliano recusou; era a guerra, e a fortuna das armas decidiria. Em 361, terminado o inverno, Juliano, à frente de suas tropas, atravessou a Récia, a Panônia, o Ilírico, e dirigiu-se a Constantinopla. Constâncio voltou atrás para marchar ao seu encontro. A morte o surpreendeu em Mopsucrenas, na Capadócia, e Juliano se viu único imperador.
Entrou triunfante em Constantinopla e, livre enfim, praticou abertamente o paganismo. A guerra contra os persas urgia. Para prepará-la melhor, Juliano veio estabelecer-se em Antioquia, cidade cristã, populosa, mordaz, hostil ao imperador. Ali só experimentou desagrados. Jurou que, na volta da guerra, não tornaria a aparecer em Antioquia, e que iria, morto ou vivo, a Tarso, na Cilícia (362). Entrando em campanha em 363, invadiu o território dos persas e obteve de início alguns sucessos. Depois seu gênio pareceu abandoná-lo: tornou-se hesitante e temerário, crédulo, imprevidente, e cometeu faltas irreparáveis. Obrigado a bater em retirada com um exército exausto, pagando valentemente com a própria pessoa nos combates de retaguarda, teve um dia o flanco direito traspassado por um dardo. O ferimento era mortal. Juliano expirou logo depois, nos últimos dias de junho de 363, aos trinta e dois anos. Seu corpo foi embalsamado, trazido de volta e depositado no túmulo que mandara preparar em Tarso. Seu exército, vencido e extenuado, desligara-se de imediato dele; deu-lhe por sucessor um oficial, cristão praticante, chamado Joviano, e voltou todo inteiro — ao cristianismo.
II. OBRAS DE JULIANO. Juliano manejava o cálamo mais de bom grado que a espada, e deixou escritos bastante consideráveis.
1º Panegíricos ou Elogios. Um Elogio propriamente dito do imperador Constâncio, Ἐγκώμιον εἰς τὸν αὐτοκράτορα Κωνστάντιον, composto sem dúvida em 355, em Milão. O segundo intitula-se Περὶ τῶν τοῦ αὐτοκράτορος πράξεων ἢ περὶ βασιλείας; é o retrato do imperador perfeito, tal como Juliano o representa para si, tal como será ele próprio um dia, e tal como o reencontra, por lisonja, em Constâncio. O terceiro, Εὐσεβίας τῆς βασιλίδος ἐγκώμιον, contém o elogio propriamente dito da imperatriz Eusébia, benfeitora de Juliano. Estes dois últimos devem ser de 357.
2º Tratados de teologia pagã (em 362). Um tratado Sobre o Rei-Sol, dirigido a seu amigo Salústio, Εἰς τὸν βασιλέα Ἥλιον, πρὸς Σαλλούστιον. Um tratado Sobre a Mãe dos Deuses, Εἰς τὴν μητέρα τῶν Θεῶν.
3º Escritos polêmicos (em 362). Um é dirigido contra os filósofos da Escola cínica, Εἰς τοὺς ἀπαιδεύτους κύνας; o outro contra o filósofo cínico Heráclio, Πρὸς Ἡράκλειον κυνικόν, περὶ τοῦ Πῶς κυνιστέον καὶ Εἰ πρέπει τῷ κυνὶ μύθους πλάττειν. Neste último, Juliano fala do gênero literário da fábula e da maneira de servir-se dela. Quer então dar uma lição de coisas a Heráclio, e compõe ele próprio uma fábula. Ora, essa fábula é uma alegoria em que Juliano nos traça a história de sua própria vida; em particular, a de sua educação, de seus sentimentos e de sua passagem ao paganismo. A leitura dessa obra é repelente; mas seu estudo é capital para a história religiosa de Juliano.
4º Obras satíricas (em 362-363). Primeiro um libelo, o Banquete ou os Césares, Συμπόσιον ἢ Κρόνια ou Καίσαρες; Juliano mostra-se aí muito malévolo contra o imperador Constantino, seu tio. Depois, o Misopogon, ou o Inimigo da barba, sátira virulenta contra os antioquenos, que zombavam da longa barba de filósofo do imperador.
5º As Cartas, muitas das quais são importantíssimas e cujo número ultrapassa atualmente oitenta. Algumas podem ser da juventude de Juliano; quase todas são de seu reinado como César ou Augusto. Várias parecem ser ensaios, composições literárias, Hertlein, 19, 24, 35, 41, 46, 59; e Cumont, 194, 180, 198, 186, 4, 82; Consolação para si mesmo sobre a partida de Salústio, ou Παραμυθικὸς εἰς ἑαυτόν; Carta a Temístio. Outras são de ordem política ou administrativa: Carta circular ao senado e ao povo atenienses; Um pontífice pagão sobre seus deveres; Aos alexandrinos; Aos judeus; Às cidades do império, para proibir o ensino aos professores cristãos. As outras são pessoais e dirigidas a amigos.
6º As Poesias; pequenos jogos de espírito; a peça sobre o órgão é curiosa.
7º Fragmentos de algumas linhas de escritos perdidos, sobretudo de cartas.
8º Os Escritos perdidos: o Tratado contra os cristãos em três ou sete livros, refutado por Cirilo de Alexandria, que citou longos fragmentos no Contra Julianum; Memórias, bastante curtas, ao menos duas sobre as expedições contra os germanos; enfim, numerosas Cartas, que ainda existiam nas coletâneas nos séculos IV e V. O Sr. Paul Allard conta entre as obras perdidas as Saturnais ou Κρόνια, que julga diferirem do Banquete; essa opinião é muito duvidosa.
Todos esses escritos são em grego, língua materna e clássica de Juliano. Mas Juliano sabia também o latim, de que se servia na Gália com os habitantes e os soldados, em alocuções, arengas, julgamentos, cartas, e também para as Constituições ou Leis, conservadas, apenas em parte, no Codex Justinianus e no Codex Theodosianus.
Juliano é um escritor muito desigual. Seus Tratados, Panegíricos, Discursos polêmicos são obras verbosas e mal compostas. O estilo progride penosamente, sobrecarregado de longas citações, feitas na maioria das vezes de memória; o pensamento, filamentoso e obscuro, se desprende com dificuldade. Juliano só é ele mesmo e só dá sua medida quando escreve de improviso, nos Césares, no Misopogon, na Carta aos atenienses, ou nas cartas pessoais.
III. Disposições de Juliano a respeito do cristianismo. Para compreender essas disposições, é necessário conhecer, ao menos sumariamente, o caráter de Juliano, sua educação e instrução profanas, sua educação e instrução religiosas, que foram outras tantas etapas rumo à sua apostasia.
1º Caráter de Juliano. Os acontecimentos que cercaram a infância e a juventude de Juliano não puderam senão exercer uma influência funesta sobre seu temperamento moral. Aos sete anos, o menino se encontra só no mundo; sua família, vítima de uma tragédia de palácio, desapareceu em sangue; ele próprio foi salvo a custo pela piedade da Igreja, e obrigado a deixar a residência paterna. Seu irmão partiu para Éfeso. É entregue aos cuidados de estranhos, em casa do bispo Eusébio, devorado demais pela ambição e pelas intrigas para ocupar-se dele. Privado de toda vida de família e de toda afeição, o menino sofreu vivamente, ao que parece, com essa atmosfera de indiferença; sua alma se fechou e sofreu como que uma atrofia moral. Essa situação durou até os doze anos.
Então Juliano foi reunido a seu irmão Galo, e ambos foram enviados a Macelo; eram de fato dois irmãos e dois companheiros, mas sempre sem família e sem amizades, reduzidos a si mesmos em sua solidão, com seus mestres, seus preceptores, seus criados, e isso durante sete ou oito anos. Constâncio visitou uma vez seus dois jovens primos, de passagem, numa viagem ao Oriente. Constâncio era altivo, desconfiado, suspeitoso, pouco acessível; não era um parente, era o imperador, que mandava educar como príncipes os dois últimos rebentos da família imperial. O imperador mandava; os príncipes calavam-se e obedeciam.
Um aspecto impressionante do caráter de Juliano é a insensibilidade moral, a do coração. Não que Juliano fosse desprovido de toda sensibilidade; encontrar-se-ão exemplos do contrário em Amiano Marcelino, XVII, 7; XXII, 9; XXV, 3. Mas, em seus escritos como em sua vida, Juliano aparece como incapaz de verdadeiros movimentos do coração e de uma afeição sentida. Juliano fala uma vez de sua avó, que o criara, na Carta a Evágrio (n.º 46, Hertlein; e n.º 4, Cumont), para dizer que ela lhe deu uma pequena propriedade. Fala uma vez de sua mãe, no Misopogon, 9: «Depois que minha mãe, que só teve a mim por filho, morreu poucos meses após meu nascimento, e isso depois de ter escapado de muitas desgraças durante sua juventude graças à proteção da Virgem sem mãe (= a deusa Atena), fui confiado a meu preceptor quando já tinha sete anos.» Fala uma vez de seu pai, na Carta aos coríntios (n.º 20, Cumont): «Minha amizade por vós vem de meu pai; pois meu pai habitou entre vós..., foi aí que meu pai encontrou o repouso.» Não se apreende em Juliano nenhum sentimento terno por seus pais, nenhum pesar por não os ter conhecido, por não ter recebido seus cuidados e provado seu amor.
Como parente a amar, Juliano tinha seu irmão. Galo amava sinceramente Juliano. Juliano tinha apego a ele. Mas esse apego era antes um hábito proveniente de sua estada em comum em Macelo. Em sua Carta aos atenienses, Hertlein, p. 349, Juliano fala de seu irmão, que Constâncio mandara executar seis anos antes; fala dele com dignidade e eloquência. Só que o faz unicamente para poder acusar Constâncio e justificar-se de ter usurpado a púrpura em Paris; nessa defesa não se encontra nenhuma palavra de pesar ou de afeição por um irmão desaparecido tão lamentavelmente.
Juliano foi casado. Ao nomeá-lo César, Constâncio lhe dera sua irmã Helena por esposa, em 355. Os anos de casamento passaram-se todos na Gália, e Helena morreu em Viena no inverno de 360-361. Fora a imperatriz quem obtivera a mão de Helena para Juliano; ao mesmo tempo, presenteara-o com uma biblioteca considerável; depois, Juliano, promovido a César, partira para a Gália com a mulher e a biblioteca. Em seu Elogio de Eusébia, Hertlein, p. 159, Juliano menciona seu casamento em oito palavras gregas, sem que nenhuma delas seja uma palavra de amor ou de satisfação por Helena, sem nenhuma palavra de reconhecimento a esse respeito para com sua benfeitora. Em compensação, a biblioteca obtém três páginas, escritas com entusiasmo. Depois da morte de sua mulher, Juliano recusou-se a casar de novo, apesar das instâncias que lhe foram feitas.
A imperatriz sempre protegera Juliano e o salvara de todos os perigos; em particular, obtivera para ele o posto de César e a mão da irmã do imperador; dera a entender a Juliano que o título de Augusto o aguardava em recompensa de sua dedicação e de sua lealdade. Amava vivamente Juliano, demais mesmo, segundo os contemporâneos. O Elogio de Eusébia, composto em retribuição por Juliano, não passa de um escrito pomposo, verboso, literário e pretensioso, no qual não se descobre, sob a retórica, nenhum sentimento de verdadeiro reconhecimento ou de apego.
Juliano não só era um coração naturalmente seco, mas, quando atingiu a grandeza, tornou-se altivo, zombeteiro, suscetível, rancoroso. Esses defeitos aparecem a vivo nos escritos seguintes: o Misopogon, os Césares, a Diatribe contra os cínicos e a Contra o cínico Heráclio, a Carta ao Senado e ao povo de Atenas (ou Carta aos atenienses). Nessa Carta, Juliano se revela rancoroso, mau e caluniador a respeito de Constâncio, seu primo-irmão; manifesta o mesmo fel, nos Césares (ad finem), contra o imperador Constantino, seu tio.
Outro traço do caráter de Juliano é a dualidade que acaba em duplicidade. Antes de tudo, descobrem-se na vida e nos escritos de Juliano como que dois homens justapostos: o romano e o heleno. O romano, que na carreira política se distingue por duas qualidades: a ciência das armas e a ciência da administração. Juliano possui ambas em altíssimo grau. É essencialmente homem de iniciativa e de atividade: aprendendo o manejo das armas, restabelecendo a disciplina, reorganizando as tropas e conduzindo-as à vitória durante anos; reorganizando as províncias, diminuindo os impostos, vigiando os funcionários, fazendo uma justiça imparcial durante dias inteiros, limpando o palácio de seus milhares de parasitas, simples e afável com todos, cheio de grandeza e majestade quando seu posto o exige.
Ao lado do romano, o heleno pertence à civilização grega por sua língua, sua instrução, sua educação, sua formação literária, moral, filosófica, religiosa, artística, pelo gosto do estudo, dos livros, das escolas de literatura e de filosofia, pela curiosidade voltada a todas as coisas da inteligência. Juliano era ainda mais radicalmente heleno que romano. Amiano Marcelino diz dele, XXV, 4: «Era curioso de todos os conhecimentos, e muitas vezes era deles um juiz infalível.»
A duplicidade tornou-se um sistema nele, quando, obrigado a obedecer ao imperador e a poupá-lo, queria ao mesmo tempo agir com independência. Aos vinte anos, é enviado a Nicomédia, onde ensinava então Libânio, pagão de religião e em seu ensino. Constâncio proibiu severamente a Juliano frequentar a escola desse retor, e seu mestre em Constantinopla, Ecébolo, fê-lo jurar não ir à casa de Libânio. Juliano obedeceu; só que procurou em segredo os cadernos de curso de Libânio e seus escritos.
Entre os vinte e os vinte e quatro anos, já passou em segredo ao paganismo, e o rumor transpirou; ao mesmo tempo, assegura a seu irmão Galo, então César em Antioquia, que nada disso é verdade, e frequenta a igreja cristã em Nicomédia. Em Paris, por ocasião do golpe de Estado, procura aparentemente deter o movimento das tropas em seu favor; ao mesmo tempo, faz circular entre elas libelos contra Constâncio. Escreve em seguida a Constâncio uma carta pública, respeitosa, na qual expõe os acontecimentos à sua maneira para provar sua inocência; ao mesmo tempo, envia ao imperador outra carta, secreta, cheia de censuras e ameaças. Em Viena, antes de marchar contra Constâncio, assiste à festa da Epifania e ora publicamente a Jesus Cristo; ora, havia vários anos praticava em segredo o culto pagão. Amiano Marcelino, XXI, 2.
Juliano tinha a paixão da glória e da grandeza; ver Amiano Marcelino, XVI, 12; XVII, 4; XX, 8; XXI, 1; XXII, 9, 12; XXIII, 1, 5; XXIV, 3; XXV, 4, etc. Por exemplo, prestes a morrer, em suas despedidas a seus amigos, pronuncia esta palavra: «Agradeço com veneração à Divindade eterna... por ter eu merecido sair deste mundo com brilho, no curso de meus brilhantes sucessos e em pleno desabrochar de minha glória.» Amiano Marcelino, XXIV, 3. A ambição de Juliano era igualar os grandes homens, como Alexandre e Marco Aurélio, e até superá-los, paixão aliás nobre e distinta na Antiguidade. Juliano é orgulhoso da origem antiga e principesca de sua família. Adolescente, é o primeiro em toda parte, o primeiro de seus condiscípulos pela vivacidade de sua inteligência e a rapidez de seus progressos. Simples estudante em Constantinopla, atrai sobre si a atenção pública; em Atenas, causa sensação, nessa cidade universitária, junto aos professores e seus ouvintes. Nascido perto do trono, permanece aos vinte e quatro anos o último rebento da família reinante, e já o consideram um herdeiro presuntivo. Sua imaginação se volta espontânea e legitimamente para essa coroa que virá por si mesma pousar um dia sobre sua cabeça.
Em seu segundo Panegírico de Constâncio, Juliano, César, traça já o retrato do soberano perfeito, tal como se esforçará por sê-lo quando for em breve o colega ou o sucessor daquele de quem faz o elogio; ver ainda Amiano Marcelino, XXII, 12; XXIII, 5; XXIV, 6, 7; Libânio, De ulciscenda Juliani morte, XXIII, XXIV, XXV (com a nota de Fabricius em sua Bibliotheca grœca); Sócrates, H. E., III, 21, P. G., t. LXVII, col. 132. Amiano Marcelino, XXII, 9, diz de Juliano, tornado Augusto e único imperador: «Muito orgulhoso pelo sucesso, Juliano se pôs a aspirar a mais do que o homem: prosperis Julianus elatior ultra homines jam spirabat.» O amor desordenado da glória, a ambição do poder supremo, o orgulho de querer superar os maiores personagens impeliram poderosamente Juliano a restaurar o culto dos deuses. Empreenderia assim uma obra imensa, única no mundo; tornar-se-ia, e ele só, o organizador e como que o fundador de uma religião revivificada; igualaria ou superaria os outros fundadores de religiões, em particular esse miserável «Galileu» chamado Jesus, e também Moisés, esse judeu sem talento, cujos livros transbordam de erros; teria o prazer de destruir a obra religiosa de dois imperadores que detesta, Constantino e Constâncio, seus parentes próximos sem dúvida, mas homens ignorantes e sem filosofia. Juliano fazia desse sonho desmedido o pasto de sua imaginação e dele gozava antecipadamente. É o que nos informa muito expressamente em sua autobiografia alegórica. Contra Heráclio, 16-20, Hertlein, p. 293-306.
Ao amor da glória, à ambição sem limite juntava-se a busca da popularidade, levada até a afetação e mesmo até a excentricidade; pode-se ler, a esse respeito, as anedotas relatadas por Amiano Marcelino, que o censura por isso, XXI, 10; XXII, 7, 10, 14; XXIII, 1, 2, 3; XXIV, 2, 3, 1; XXV, 4, e passim; e também por Gregório de Nazianzo, Orat., V, 22, P. G., t. XXXV, col. 689.
2º Educação e instrução clássicas de Juliano. Dos sete aos vinte anos, Juliano foi confiado aos cuidados de seu preceptor, Mardônio, de quem se ignora a religião. O mestre trabalhou por impregnar e saturar seu aluno de helenismo, até a medula. Juliano amava apaixonadamente a leitura e, por conseguinte, os livros; foi, durante toda a vida, um bibliófilo curioso e ardente. Sua memória natural era prodigiosa; a leitura e o estudo a haviam desenvolvido ainda extraordinariamente. Os autores lidos e retidos por ele zumbem sem cessar em seu cérebro; saem dele depois em enxames, em seus discursos, em seus escritos, sob forma de alusões, reminiscências, citações. Juliano sente e pensa por meio das emoções e das ideias dos autores antigos, que sua memória lhe recorda espontaneamente, e é servindo-se de suas frases e comparações que exprime suas próprias ideias.
Sem dúvida, Juliano reconhece a parte da ficção nos escritores gregos antigos. Mas muitas vezes também crê neles com uma fé tão cândida que desconcerta o leitor. Numa passagem de Homero, Zeus envia sua mensageira Íris a Heitor e ordena a esse herói que se abstenha de combater. Juliano faz esta reflexão: Será possível que Zeus tenha dado um conselho tão baixo e tão covarde? É muito seriamente que ele se põe esse caso de consciência. II Panegírico de Constâncio, Hertlein, p. 86-87. Juliano aceita espontaneamente a autoridade moral dos autores pagãos; faz de seus livros uma escola de virtude, uma «escola superior de moral com exemplos postos diante dos olhos.» Mardônio habituara seu aluno a não considerar os homens, os acontecimentos e a natureza senão através do prisma dos escritores antigos; chegava a dizer-lhe: «Pode-se encontrar em Homero muitas árvores mais belas do que as que estão sob nossos olhos.» Misopogon, 14, Hertlein, p. 453.
A tal ponto Mardônio dera a seu discípulo uma educação artificial, «livresca» e, para dizer tudo, falseada; confinara-o no puro intelectualismo; fizera dele um heleno, mas só por imitação e por pedantismo. Os escritores pagãos haviam sido para Juliano, sem família e sem amigos, os fiéis companheiros de sua juventude abandonada. Ele lhes consagrara um culto.
Encontrara neles um politeísmo brilhante, colorido, vivo, apresentado numa bela língua, com uma arte consumada, e ficara fascinado. Como eram pequenos, em comparação, os escritores judeu-gregos, cujas humildes obras Juliano lia nos Setenta e no Novo Testamento! Desde então, durante essa educação pagã que o penetrava a fundo e o cativava, como Juliano não teria sentido uma inclinação, uma amizade secreta, ainda que inconsciente, pelo politeísmo? Amiano Marcelino o insinua, XXII, 5: «Desde as primeiras lições que recebeu em sua infância, Juliano foi antes inclinado ao culto dos deuses...» Juliano diz, por sua vez, voltando o olhar para sua juventude e sua infância, que havia então nele uma tênue centelha, a qual, cuidadosamente conservada pela providência dos deuses, bastou para acender mais tarde, em sua alma, o fogo do politeísmo. Contra o cínico Heráclio, Hertlein, p. 297-298. Depois dos vinte anos, e privado de Mardônio, Juliano entregou-se sozinho ao estudo da filosofia e à sociedade dos filósofos, que o conduziram ao paganismo.
3º Formação cristã de Juliano. Até os vinte anos, Juliano é um cristão praticante. Depois, quando é estudante livre na Ásia e César na Gália, é cristão em público e pagão em segredo. Tornado imperador, não é mais que pagão, em público e em particular, até sua morte inclusive. Nascido de pais cristãos e tendo crescido no cristianismo, Juliano certamente recebeu o batismo, embora não se saiba onde nem em que momento. Aliás, participou da Eucaristia e foi leitor na igreja de Cesareia, o que era uma honra, e não um encargo. Gregório de Nazianzo, Orat., IV, 23, P. G., t. XXXV, col. 552; Sócrates, H. E., III, 1, t. LXVII, col. 372 B.
Mas que instrução religiosa recebeu? Dos sete aos doze anos, cresceu junto ao bispo Eusébio, seu parente. Conheceu o cristianismo pelas lições elementares que devem ter-lhe sido dadas, pelas instruções que ouvia, pelos ofícios a que assistia. Durante os sete ou oito anos passados em Macelo, os dois irmãos receberam um ensino regularmente dado por sacerdotes. À teoria juntavam a prática: frequentavam as igrejas, iam em peregrinação aos túmulos dos mártires; mandaram mesmo erigir, à sua custa, uma igreja a São Mamas, mártir capadócio. Segundo as indicações esparsas em suas obras e sobretudo no Tratado contra os cristãos, Juliano havia lido ao menos os seguintes livros do Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, os Reis, os Profetas; e no Novo: os Evangelhos, os Atos e as Epístolas de São Paulo.
Infelizmente, a instrução cristã de Juliano prosseguiu nas condições mais desfavoráveis. Antes de tudo, o cristianismo que lhe foi ensinado era o arianismo. O imperador Constâncio, tutor e senhor de Juliano, era um ariano militante e tornara-se o chefe do partido ariano no Oriente. Se se considera o caráter estreito e despótico do imperador, não se pode duvidar de que o ensino dado por sua ordem aos dois irmãos, em Macelo, fosse ariano. Um detalhe é significativo. Juliano estava então em relações estreitas com um sacerdote de Cesareia chamado Jorge, que tinha uma bela biblioteca e lhe emprestava livros; ora, esse sacerdote tornou-se mais tarde bispo intruso e ariano de Alexandria. Além disso, os sacerdotes e teólogos arianos trabalhavam com ardor para preservar seus partidários da ortodoxia católica, cujos dogmas negavam. Discutiam sem fim sobre os seus, perdiam-se nas distinções e sutilezas de uma dialética refinada, cavilavam sobre os textos e se zangavam; semelhante doutrina dava pouco alimento ao espírito e nada continha para o coração.
Enfim, nas províncias orientais do império, a Igreja estava entregue à anarquia. Transformara-se num campo fechado onde se combatiam sem interrupção os bispos ortodoxos, arianos, semiarianos; disputavam-se, odiavam-se, condenavam-se, e isso, em particular, nos numerosos concílios particulares que Constâncio tinha a mania de convocar. As ambições e as intrigas andavam a par com as querelas e os anátemas. O mais belo exemplo a citar é justamente o do bispo Eusébio, o parente de Juliano. Grande favorito de Constâncio, Eusébio faz-se instalar, quase à força, na sé de Constantinopla. Tem a seu favor um partido, composto sobretudo de arianos, e contra si um partido adverso, composto sobretudo de ortodoxos; trabalha para impor-se à força a estes últimos. Nesse bispo, que despojava mais ou menos Cristo de sua divindade, não havia senão desobediência às leis da Igreja, adulação ao soberano, tortuosidade nas diligências e despotismo. Na cristandade da capital, não havia senão divisões, ódios, lutas, condenações, decretos de exílio contra os dissidentes. E as outras grandes cidades ofereciam um espetáculo análogo.
Com tais mestres e em tais circunstâncias, o cristianismo ensinado a Juliano devia parecer-lhe obscuro, incerto, contraditório quanto ao fundo, muito antipático quanto à forma; só pôde recolher e guardar dele uma impressão muito desfavorável e muito nociva. A impressão que lhe deixou o espetáculo de uma Igreja dilacerada e dividida manifestou-se aliás nele quando se tornou imperador. Amiano Marcelino, XXII, 5. A impressão que lhe deixou sua instrução religiosa é igualmente má. Seus escritos mostram que só conhecia um cristianismo superficial, vago, nebuloso; talvez Juliano nunca tenha apreendido bem a diferença fundamental que distinguia a ortodoxia, que ignorava, do arianismo, mais ou menos completo, que lhe haviam ensinado. Tornado pagão, qualifica ou deixa qualificar suas crenças anteriores com os seguintes termos: «laços, nevoeiro, ignorância, falsidade, treva, doença, fumaça, sujeira, fuligem, superstição, embuste, mácula da alma e do corpo», Juliano, Epist., Hertlein, 51, 52, Cumont, 111, 114; Contra Heráclio, Hertlein, p. 297-299; Contra os cristãos, em Cirilo de Alexandria, V, VII, VIII, X, P. G., t. LXXVI, Libânio, Orat., IV, VII, XII, XIII.
Além disso, incapaz de compreender a grandeza e a beleza morais, esse renegado sem coração insulta Jesus Cristo, sua doutrina e seus mártires; acha elegante e espirituoso chamar Jesus Cristo de «o Galileu, o morto dos judeus», zombar do batismo que apaga o mal e renova a alma, designar os mártires por esta palavra de desprezo: «os mortos». Eis um exemplo do grau de baixeza a que desceu. Em sua sátira dos Césares, põe em cena, com os imperadores pagãos, Constantino. Cada imperador deve apegar-se a um deus do Olimpo; Constantino não encontra nenhum para si. Juliano prossegue: «Não encontrando entre os deuses o modelo de sua vida e percebendo a Moleza perto de si, Constantino correu para ela; esta o acolheu ternamente; revestiu-o de roupas macias de cores variadas e o tornou belo. Depois levou-o à Devassidão, para que encontrasse Jesus, que circulava gritando a todo o mundo: Quem quer que seja corruptor, quem quer que seja assassino, quem quer que seja um maldito e um infame, venha a mim com confiança! Pois, lavando-o com esta água, purificá-lo-ei imediatamente e, se tornar a ser culpado das mesmas faltas, purificá-lo-ei de novo, contanto que tenha batido no peito e dado golpes na cabeça. Então Constantino juntou-se a ele com o maior prazer, levando seus filhos para fora da assembleia dos deuses.» Césares, ad finem, Hertlein, p. 431. De um só golpe, Juliano, imperador, blasfema contra Cristo, calunia Constantino, seu tio, e ultraja seu batismo!
4º Conversão de Juliano ao paganismo. Quando Juliano tem vinte anos, Constâncio, que prevê nele um competidor, envia-o de Constantinopla a Nicomédia para estudar. Juliano é jovem, rico, só e livre. Dispõe de seu tempo, de sua fortuna e de sua pessoa. Viaja onde lhe apraz, com uma magnificência principesca. Amigo do estudo e espírito curioso de tudo, vai dedicar-se à retórica e à filosofia; vai encontrar-se em contato com os retores, quase todos pagãos, como Libânio, e sobretudo com os sofistas, todos pagãos convictos e zelosos. O cristianismo, tão magro e tão superficial, de Juliano deverá medir-se, nas condições mais desfavoráveis, com o paganismo propriamente dito e sobretudo com as práticas secretas dos adoradores dos deuses.
Em Nicomédia, Juliano paga a um homem que recolhe as conferências de Libânio e lhas traz. Ao mesmo tempo, impelido por sua curiosidade natural pelo desconhecido, Juliano arrisca-se, nessa cidade, com um homem que praticava secretamente a arte divinatória; é o primeiro passo pagão de Juliano. Vai a Pérgamo, centro célebre de alto ensino. Ouve ali o velho Edésio, chefe da escola dessa cidade, que tivera por discípulos Máximo de Éfeso, Prisco do Epiro, Crisanto de Sardes, Eusébio de Mindos; os dois últimos eram os únicos presentes. Sempre em busca do maravilhoso, e com a curiosidade aguçada pelo que lhe contam de Máximo, Juliano vai a Éfeso, onde encontra esse filósofo. «Apegou-se e prendeu-se a este último, diz Eunápio, e apropriou-se a fundo de toda a sua ciência.» Vida de Máximo, ante med. Juliano diz dele: «Em seguida, cheguei ao vestíbulo da filosofia para ali ser instruído perfeitamente sob a direção de um homem que estimo superar todos os de meu tempo; foi ele quem me ensinou a praticar a virtude antes de tudo e a olhar os deuses como os autores de todos os bens.» Contra Heráclio, Hertlein, p. 304-305.
Começada em Nicomédia, prosseguida em Pérgamo, a conversão de Juliano ao politeísmo consumou-se em Éfeso sob os auspícios do neoplatônico Máximo, que conseguiu dar o golpe final no cristianismo de seu discípulo. Deu-se em 351 ou 352, segundo o que Juliano escreve aos alexandrinos, Epist., Hertlein, 41, Cumont, 111. Juliano voltou logo a Nicomédia, não apenas pagão, mas ainda versado nas práticas mais secretas e mais insalubres do paganismo, praticando a teurgia, a arte divinatória, a haruspicina, evocando os deuses, interpretando os sonhos e os sinais extraordinários, oferecendo sacrifícios, inspecionando as entranhas das vítimas, consultando os oráculos, guardando coletâneas escritas deles; enfim, fazendo-se iniciar nos mistérios de Dioniso, de Deméter e depois de Mitra, o Deus-Sol dos persas, que se tornou seu Deus pessoal e favorito.
Os pormenores precedentes sobre o caráter e a cultura pagã de Juliano não bastam para explicar sua apostasia, que o expunha aos piores perigos, mesmo ao da morte, se tivesse sido conhecida de Constâncio. A razão decisiva é que, de um lado, os retores e os sofistas prometiam a Juliano o império e lho asseguravam por meio de seus oráculos e da intervenção onipotente de seus deuses; é que, de outro lado, e paralelamente, Juliano tinha a convicção pessoal de que os deuses o chamavam a reinar, sob certas condições, todas em favor deles. Que surpresa e que honra para os retores e filósofos dessa época ter por discípulo, por amigo, um príncipe como Juliano, que se habituava a olhar como o futuro sucessor do soberano reinante! Sua alegria foi sem limites quando o viram dominado por sua eloquência e sua filosofia, imbuído de suas doutrinas, inclinando-se ao politeísmo e abraçando enfim esse culto dos deuses, de que eram os últimos e inabaláveis defensores. Houve um estremecimento de felicidade entre os intelectuais pagãos, os verdadeiros helenos do império, do Oriente até a Gália. Amiano Marcelino, XV, 8.
Não se contentaram com palavras e desejos; suplicaram a seus deuses e os consultaram; só encontraram nos presságios e nas entranhas das vítimas sinais favoráveis, que asseguravam o império a Juliano em recompensa de seu apego aos deuses; ao mesmo tempo que aguçavam em Juliano a sede da soberania imperial, faziam de seus deuses seus melhores auxiliares para preparar o trono a Juliano e fazer dele, um dia, seu imperador pagão; era seu interesse e seria sua glória. Com a pompa de sua retórica habitual, Libânio nos fornece as informações mais precisas sobre este ponto: Orat., mi, 27-11 59-62; 68-70; 79-90; 91-97; xiii, 1-2, 7-22; 27-28; 33-11 -19; \i\. ; 1 1 5-16, 27, 35-38, 41-44 xv, 5-7, 23-32, 36, 45-53, 67-68, 1 ; 30-50; wii; 71-73.
77, 80-83; xiv, 17, 19, xviii, 1-47, 72, 75, 95, 103-107; 113-129, 154-161, 166-180, 188-189, 192, 214, 272, 281-282, 285-287, 304-308, et passim, edição R. Fœrster, t. II.
Por sua parte, Juliano tinha a convicção, ou a fé, de que, em troca de sua conversão, os deuses o chamavam aos mais altos destinos que um príncipe filósofo pudesse sonhar: a posse da coroa imperial, a restauração ou a nova fundação da religião politeísta, a apoteose ou deificação pessoal. Em Milão, quando ia ser proclamado César, Juliano hesita; ora aos deuses que o esclareçam; «durante a noite, diz ele, os deuses me ameaçaram com a morte mais vergonhosa se eu recusasse esse favor...; cedi, pois, e obedeci-lhes, e logo me deram o manto de púrpura de César...» Carta ao senado e ao povo de Atenas, 57, Hertlein, p. 355. Em Paris, quando suas tropas lhe conferem o título de Augusto, Juliano hesita ainda; teve então a visão do Gênio do Império, que lhe disse severamente: «Há muito tempo, Juliano, estou diante do vestíbulo de tua morada, e várias vezes dela me afastei, como sendo repelido por ti; mas se desta vez não sou acolhido por ti, quando os sufrágios de todos concordam em teu nome, irei embora desanimado e triste; apenas, lembra-te bem de que não permanecerei por mais tempo contigo.» Amiano Marcelino, XX, 5, ad finem. Juliano diz ele próprio a esse respeito: «Adorei Zeus. Como as aclamações dos soldados aumentavam e tudo era tumulto no palácio, pedimos a esse deus que nos desse um prodígio; ele no-lo manifestou no mesmo instante e indicava-me claramente que cedesse e não me opusesse ao desejo do exército.» Carta ao Senado, etc., Hertlein, p. 366. Alguns meses depois, quando Juliano marcha contra Constâncio, faz isso pela vontade do mesmo céu, que conheceu por um sacrifício a Belona; ao mesmo tempo, leva consigo, num cofre, oráculos escritos que lhe predizem a morte de Constâncio e sua ascensão triunfante ao trono. Amiano Marcelino, XXI, 1-2, e XXII, 1-2; Carta ao Senado, etc., Hertlein, p. 368.
Mas possuímos sobre toda essa matéria um documento capital: é a profissão de fé de Juliano em sua autobiografia alegórica, Contra o cínico Heráclio, Hertlein, p. 294-304. Esse documento é longo; mas é fácil resumi-lo com muita exatidão. Juliano declara crer em todos os deuses do céu, dos ares e da terra; crê em particular em Zeus, o pai dos deuses; mas apegou-se pessoal e intimamente a Hélios (o Sol, ou Mitra), em cujos mistérios foi iniciado, depois a Hermes e a Atena. Antes mesmo de seu nascimento, os deuses se haviam preocupado em deter sobre a terra a impiedade cristã. Durante sua infância e sua juventude, escolheram-no em vista dessa obra; salvaram-no e protegeram-no inclinando-o já para eles. Jovem abandonado e isolado, os deuses tomaram-no, guiaram-no e conduziram-no à crença neles. Manifestaram-lhe sua vontade, isto é, que seria imperador, que seria seu servo, que seria o restaurador e o propagador de seu culto, e que daria o primeiro lugar, nos negócios, a eles e à sua religião. Confiaram-lhe a missão de iluminar o mundo, fazendo nele conhecer seu culto e difundindo-o. Asseguraram-lhe sua proteção absoluta, perpétua e vitoriosa, enquanto cumprisse essa tarefa. Ele é, sobre a terra, no meio dos homens, o servo dos deuses, seu missionário, seu apóstolo, seu profeta inspirado, seu sumo sacerdote e seu imperador.
Quanto à sua natureza humana, seu corpo só lhe foi dado para cumprir aqui embaixo a função de que os deuses o encarregaram. Recebeu deles uma alma imortal; ademais, essa alma contém em si um elemento divino, saído dos deuses, unido a essa alma e destinado a subir com ela aos céus. Então, em recompensa de sua dedicação aos deuses, Juliano se tornará, ele também, deus, e gozará da contemplação dos deuses. A alegoria termina com estas palavras de Hélios a Juliano: «Enfim, sabe que teu corpo só te foi dado em vista da função que te é confiada!... Lembra-te, pois, de que possuis tua alma, que é imortal e é da mesma raça que nós; lembra-te de que, servindo-nos fielmente, serás deus, e contemplarás nosso Pai ao mesmo tempo que nós.» Para que o leitor não se engane sobre o sentido da alegoria, Juliano acrescenta: «Isso é uma fábula, ou é história verdadeira? Não sei.» Maneira modesta de insinuar que a fábula recobre uma história verdadeira, que é a sua.
Imperador pelo favor dos deuses e por predestinação, Juliano era devedor deles. Só podia saldar sua dívida de reconhecimento, cumprir os compromissos assumidos por ele às vistas e ciência dos retores e sofistas e enfim corresponder à sua vocação divina trabalhando para restabelecer o culto dos deuses e devolver-lhe sua magnificência de outrora. É o que fez imediatamente. Libânio diz: «As promessas que Juliano fizera aos deuses e aos homens, a respeito dos deuses, ele as cumpriu brilhantemente depois de tornar-se imperador.» Orat., XVIII, 126; cf. XII, 69; XV, 53; XVII, 9; XVIII, 114-116, 281; Amiano Marcelino, XXII, 5.
IV. A ação religiosa de Juliano. Foi dupla. De um lado, era preciso revivificar e reorganizar o politeísmo, para não deixar o campo livre ao cristianismo. De outro lado, era preciso deter os progressos deste último e enfraquecê-lo, antes de pensar em abatê-lo e substituí-lo.
1º Restauração do politeísmo. Todo imperador juntava ao seu título de Augusto o de Pontifex maximus, ou sumo pontífice da religião pagã. Essa alta magistratura era puramente política e muito importante; conferia ao soberano a vigilância absoluta de toda a religião, pessoas e coisas, e sobretudo a dos cultos estrangeiros. Constantino e Constâncio, cristãos, eram sumos pontífices da religião pagã do Império e retinham cuidadosamente suas prerrogativas. Juliano, imperador, possuía essa dignidade, como seus predecessores. Mas Juliano não era um imperador como estes. Os deuses o haviam eleito, a ele pessoalmente, para ser seu representante e seu delegado; era seu imperador, por direito divino, e, por direito divino também, seu sumo pontífice.
Enquanto o imperador velava pelo governo do Império, o sumo pontífice trabalhava por restabelecer ou conservar o culto dos deuses. Dessa posição assumida por Juliano decorrem importantes consequências.
1. Juliano, sumo pontífice, exerce as funções inerentes a essa dignidade. Juliano tem plena consciência de seu papel. César na Gália, no Segundo panegírico de Constâncio, onde traça o retrato de um príncipe perfeito, exprime-se assim: «Convém, a meu ver, que o chefe do exército ou o monarca tenha sempre o cuidado, na qualidade de sacerdote e profeta, de honrar magnificamente a divindade, de nada negligenciar a esse respeito, de não crer que essa função convém melhor a outro que a ele e de não a confiar a outro por julgá-la indigna de si.» Hertlein, p. 87. Imperador, escreve ao grande sacerdote da província da Ásia: «Mostro que sou o grandíssimo sumo pontífice da religião dos deuses, sem dúvida bem indigno de tão alta função, mas que quer ser digno dela e que pede sem cessar aos deuses que o venha a ser.» Cartas, Cumont, 89 b, p. 138-139; Hertlein, p. 383. Libânio diz, por sua parte: «Juliano gosta de ser chamado pontífice, tanto quanto imperador, e esse nome lhe convém; pois, se igualou os monarcas por seus atos de soberano, igualou outro tanto os sacerdotes pelas cerimônias religiosas.» Orat., XII, 79-80; cf. ainda XVIII, 121; XXIV, 34-36; XII, 69; XIII, 45; XVIII, 21 e ss., 282, et passim.
Uma das preocupações do sumo pontífice é manter-se numa união estreita com seus deuses, particularmente com Hélios, a quem oferece cada dia um sacrifício em seu palácio, ao aparecer de manhã e ao desaparecer à tarde; pratica exercícios religiosos de dia e de noite; faz de uma parte de seu palácio e de seus jardins como que uma vasta capela privada com altares. Goza continuamente da assistência muito particular dos deuses, bem como de suas inspirações; possui o dom dos milagres, segundo a opinião de seus admiradores e de seus amigos. Guarda a continência absoluta e a temperança mais estoica, a fim de não ser distraído da contemplação dos deuses e de seu comércio místico com eles. Ver Libânio, Orat., XII, 80-82; XIII, 47-50; XV, 3, 29-31; XVII, 5-9; XVIII, inteiro, e sobretudo 39-40, 65, 103-115, 127-128, 161, 176-180, 281-283; Juliano, Misopogon, Hertlein, p. 445-446, 463-469; Amiano Marcelino, XXV, 4.
Juliano tinha, como convinha, a preocupação da salvação e da conversão dos cristãos; trabalhava pelo exemplo e pela palavra para curar suavemente os espíritos desencaminhados pelo erro cristão e reconduzi-los ao bom caminho da verdade politeísta. Libânio, Orat., XVIII, 121 ss. Juliano, Epist., Hertlein, 51, Cumont, 111, e passim nas Cartas. O ensino religioso estava no coração do sumo pontífice. No início de seu Discurso sobre o Rei-Sol, escreve: «Que o eloquente Hermes, com as Musas e Apolo Musageta, que se interessa também pelos discursos, estejam junto de mim para assistir-me, e que me concedam dizer todas as coisas que os deuses gostam que se diga deles e que se creia sobre eles.» Termina assim: «Que o grande Hélios me conceda conhecer, sem que nada falte, tudo o que lhe diz respeito, e ensiná-lo depois a todo o mundo e, em particular, àqueles que são dignos de aprendê-lo.»
Juliano mostra-se teólogo dogmático em seus tratados sobre o Rei-Sol e a Mãe dos Deuses, e passim em suas Cartas; polemista, em sua obra Contra os cristãos; moralista religioso na maior parte de seus escritos e de suas cartas, por exemplo em certas cartas pastorais e encíclicas, como a longuíssima carta ao grande sacerdote da Galácia, já citada. Ensina também de viva voz, catequiza, exorta seus amigos e conhecidos, os cristãos em relação com ele, a fim de curar esses pobres doentes de espírito. Esse apostolado de Juliano produziu certamente conversões entre os tímidos, os hesitantes, os ambiciosos; em seu séquito, na corte, entre os funcionários; muito particularmente no exército; e também em certas cidades que voltaram ao paganismo. Hertlein, p. 464-466.
O sumo pontífice, grande sacerdote dos deuses, gosta de oficiar pessoalmente e nisso põe sua glória. Libânio está encantado: «Não é sentado num assento elevado, ou cercado de guardas de escudos de ouro, que Juliano faz render aos deuses o culto que lhes é devido. Opera por si mesmo; faz a aspersão ao redor do altar; coloca com suas mãos os pedaços de lenha sobre o fogo; toma a faca dos sacrifícios; corta em dois o corpo das aves; sabe consultar suas entranhas, e seus dedos, todos cheios dos presságios que daí tira, são disso a prova formal.» Orat., XII, 79-83; Amiano Marcelino, XXII, 12. No Misopogon, loc. cit., Juliano relata as zombarias dos antioquenos: «Já se está farto, dizem eles, dessas festas, e é por causa das bolotas do carvalho; está-se enojado. O imperador sacrificou uma vez no templo de Zeus, depois no da deusa Tique; depois foi três vezes seguidas ao de Deméter, e não se sabe quantas vezes no recinto sagrado de Dafne... Quando chega a neomênia dos sírios, eis o imperador que vai de novo ao templo de Zeus Fílio, etc.» Iniciado nos mistérios de Mitra, Juliano iniciava ali os outros na capela de seu palácio. Cheio de piedade, o sumo pontífice compõe orações; uma oração termina o Tratado ou Discurso sobre o Rei-Sol, e outra o tratado Sobre a Mãe dos Deuses.
2. Juliano, sumo pontífice, organiza o sacerdócio e o culto. Um dos primeiros cuidados de Juliano foi chamar de volta e recolocar em funções os antigos sacerdotes dos deuses que ainda viviam; depois, institui um novo clero e reorganiza o culto. Quer não apenas igualar o cristianismo, mas ainda superá-lo. «Não deixemos os outros serem superiores a nós no bem que nós devemos fazer; envergonhemo-nos, pois, de nossa preguiça, e melhor ainda, marchemos à frente de todos os outros no caminho da religião.» Epist., Hertlein, 49, Cumont, 84 a; cf. Libânio, loc. cit. Estabelece uma verdadeira hierarquia eclesiástica. No cume, Juliano, pontífice supremo, sacerdote de todos os deuses e deusas e de todos os templos e cultos do império, com o poder religioso sobre tudo e sobre todos.
Em seguida vem o sumo sacerdote da província. Sob ele se encontram os simples sacerdotes, que exercem seu ministério nos templos, permanecendo ligados às cidades e às aldeias importantes. Essa hierarquia era coisa inteiramente nova no paganismo. Juliano possui a jurisdição soberana e universal. Ele nomeia e institui os sumos sacerdotes e os sacerdotes, as grandes sacerdotisas e as sacerdotisas. Exerce um controle rigoroso sobre todo o seu clero, ao qual impõe uma disciplina severa; um sacerdote havia agredido outro; o sumo sacerdote da província faz seu relatório a Juliano, que suspende o culpado por três meses lunares. Epist., Hertlein, 62, Cumont, 88.
O sumo sacerdote de uma província é responsável perante Juliano pela administração religiosa de sua província; tem a intendência do culto; vela sobre os sacerdotes, seus subordinados, dirige-os, instrui-os sobre os seus deveres, exorta-os, faz que progridam na vida sacerdotal, da qual lhes ensina a substância. O recrutamento dos sacerdotes deve fazer-se unicamente segundo o seu mérito. «Ordeno, diz Juliano, que se escolham os homens que são os melhores em suas cidades, e sobretudo os que mais amam, primeiro, os deuses, e depois, mais que os outros, os homens... Contanto que um homem tenha o amor dos deuses e o amor dos homens, que seja nomeado sacerdote!» Hertlein, p. 390-392; Cumont, n. 89 b, p. 145.
Qualquer que seja a sua posição na hierarquia, o sacerdote deve possuir as qualidades e as virtudes do seu estado e levar uma vida verdadeiramente sacerdotal. Deve ter a moderação, a bondade, a justiça, a caridade fraterna, até em seus pensamentos; a humanidade sob todas as suas formas, a castidade no casamento ou fora do casamento. Abster-se-á de tudo o que lhe é inconveniente: teatros, jogos, corridas, circos etc., de toda ocupação baixa ou vil, da taverna e da ágora, dos festins e dos banquetes. O sacerdote não deve dizer nem ouvir nada de indecente; guardar-se-á não somente das ações, mas ainda das conversações vergonhosas: não lerá nem Arquíloco, nem Hipônax, nem outros autores desse gênero; dedicar-se-á aos filósofos, e somente aos bons, como Platão, Aristóteles, Crisipo, Zenão, excluindo os céticos e os ímpios, como Epicuro e Pirro. Fora do seu tempo de serviço, o sacerdote lembrar-se-á de si mesmo e levará uma vida digna de sua posição. Mas, durante o seu tempo de serviço no templo, sua vida será exclusivamente sacerdotal: sempre pensamentos piedosos para com os deuses em seu espírito, o olhar voltado para os seus templos e suas estátuas com respeito e veneração, o temor ao aproximar-se de seus altares, refletindo que eles estão presentes, embora invisíveis, e que penetram até os seus pensamentos ocultos. O sacerdote não frequentará os funcionários e os magistrados; mas será honrado por seus concidadãos mais do que os funcionários e os magistrados; em troca dessa existência severa, Juliano promete uma recompensa ao seu clero; o sacerdote, diz ele, assegura para si muita alegria nesta vida e uma esperança de felicidade ainda maior para a outra vida, «pois não somos daqueles que creem que a alma perece com o corpo.» Fragmentum epistolæ, Hertlein, p. 371-392 e sobretudo p. 390-392; Epist., Hertlein, 49, 62 e 63, Cumont, 84 a, 88 e 89 a.
A organização do culto caminha a par com a do clero. Deve haver um culto público, exterior, visível. «O homem, diz Juliano, é um ser vivo, destinado por sua própria natureza a viver em comunidade com seus semelhantes, e são esses hábitos naturais de viver em comum uns com os outros que nos dão também o hábito da piedade para com os deuses e da bondade para com os homens.» Fragm. epist., Hertlein, p. 374-376, Cumont, 89 b. O culto material é necessário para nos tornar sensível a presença dos deuses: «Nossos pais estabeleceram estátuas, altares, o fogo perpétuo e todos os outros objetos desse gênero, como símbolos da presença dos deuses, não para que olhemos esses objetos como sendo deuses, mas para que honremos os deuses por meio desses objetos. Pois nós existimos num corpo e, por conseguinte, é preciso que nossas adorações aos deuses sejam também corporais, embora os deuses sejam incorpóreos...» Fragm. epist., Hertlein, p. 376-378, Cumont, 89 b, p. 133.
O maior respeito é devido ao culto. O sacerdote, em função, testemunha por sua atitude e seus atos a sua profunda veneração pelos deuses invisíveis, mas presentes; está penetrado do mesmo sentimento por suas estátuas, seus templos, seus recintos sagrados, seus altares, ao passo que ele próprio se torna como um objeto sagrado enquanto oficia. O sacerdote é senhor em seu templo, onde assegura a boa ordem e o respeito por parte de todos. Conserva-se puro noite e dia, e entrega-se, aliás, às purificações prescritas; passa no templo os dias de seu tempo de serviço; ali estuda a filosofia; ocupa-se de todos os pormenores do culto e das cerimônias, vela sobre tudo, dispõe tudo com ordem. Oferece os sacrifícios, faz as orações rituais, observa com cuidado as cerimônias tradicionais e nacionais, sem nada acrescentar, sem nada retirar. Ora com frequência aos deuses, em particular e em público, e sobretudo três vezes ao dia; e se três vezes são impossíveis, ao menos de manhã e à tarde. «É preciso também que o sacerdote saiba de cor os hinos dos deuses; esses hinos são numerosos e belos, compostos por antigos e por modernos; é preciso saber ao menos os que se cantam nos templos... É preciso fazer esses exercícios de canto.» Hertlein, fragm. epist., e sobretudo p. 390-392, Cumont, 88.
Juliano acrescenta dois elementos novos, antes estranhos ao paganismo. O primeiro é o respeito e o cuidado dos mortos; mas ele não entra em nenhum pormenor a esse respeito; em compensação, como o pagão se julgava impuro se encontrasse ou visse um cadáver, o que acontecia com frequência nas cidades povoadas de cristãos, Juliano proibiu, sob penas severas, transportar os defuntos antes do pôr do sol ou depois do seu nascer. O segundo elemento diz respeito às instituições de beneficência. «A virtude que o sacerdote deve praticar antes de todas as outras é a beneficência...» Ela se estenderá a todos os homens necessitados, mesmo aos nossos inimigos, mesmo aos prisioneiros culpados ou inocentes, e também aos estrangeiros.
Escreve ao sumo sacerdote da Galácia: «Estabelece numerosos hospícios nas cidades, a fim de que os estrangeiros gozem ali dos benefícios de nossa humanidade, não somente os estrangeiros de nossa religião, mas também qualquer outro homem de outra religião que precise de socorro... É vergonhoso, quando nenhum judeu mendiga, quando esses galileus ímpios alimentam os seus pobres e também os nossos, é vergonhoso que os nossos pareçam desprovidos de todo socorro de nossa parte. Ensina os adoradores dos deuses a contribuir para essas piedosas instituições etc.» Fragm. ep., Hertlein, p. 373-375, e Epist., 49, Cumont, 89 b, p. 129 sq., 84 a, p. 113 sq.
Esse esboço da ação de Juliano em favor do politeísmo nos revela o seu pensamento. Ele havia compreendido claramente que era preciso dar ao politeísmo desfalecente aquilo que lhe faltava: uma alma, um princípio íntimo de vida, de desenvolvimento, de conservação. Ajudado pelo conhecimento que adquirira do cristianismo durante a juventude, calca absolutamente sobre ele o seu ensaio de restauração. Instituições de beneficência, orações, cantos, sacrifícios, procissões; hierarquia, recrutamento, formação e organização do clero; vida e virtudes sacerdotais desse novo clero; mistérios que substituem os sacramentos; trindade de sóis que substitui a Trindade cristã das pessoas; felicidade do céu com os deuses: tudo é a imagem e a reprodução da religião cristã. Tal é a obra pagã de Juliano, obra que, cremos, só foi tentada uma vez na história.
2° A luta contra o cristianismo. Paralelamente às medidas tomadas em favor do politeísmo, outras eram dirigidas contra o cristianismo, segundo um plano amadurecido de longa data. Em primeiro lugar, Juliano usa de benevolência para com todos os cristãos e sobretudo para com os ortodoxos perseguidos por Constâncio. Toma a seu respeito medidas marcadas pela imparcialidade, pela justiça, pelo liberalismo, como convém a um imperador que se gaba de tolerância e, sobretudo, ao romano essencialmente dotado do senso da ordem e da administração. Depois, a hostilidade contra o cristianismo se manifesta. O Heleno, o filósofo orgulhoso de sua filosofia e de sua nova religião, quer curar o mundo do cristianismo, que ele chama de «uma doença contagiosa»; tratará os doentes pela persuasão, não pela violência; trata-se de esclarecer os espíritos, de impressioná-los, de convertê-los, e não de forçar os cristãos a apostatar sob pena de morte.
Por isso as medidas tomadas por Juliano são sobretudo de ordem intelectual e moral, destinadas a pressionar as convicções cristãs e a abalá-las; ao mesmo tempo, são frequentemente indiretas, oblíquas, insidiosas, com aquela duplicidade inerente ao caráter de Juliano. Enfim, o sucesso não progride ao gosto do imperador; há resistências e desobediências; Juliano, autocrata e déspota, zelador intransigente de seu paganismo, irrita-se e recorre frequentemente a golpes de força e de autoridade, ao que chamamos «o fato do príncipe». Por vezes vê-se juntar-se a isso a zombaria e o sarcasmo, que tanto agradam ao escritor contra os seus adversários cristãos. Vamos dar uma visão geral dessa ação de Juliano contra o cristianismo e os cristãos.
1. Medidas liberais para com o cristianismo. «Juro pelos deuses, escreve Juliano, não quero que os galileus sejam mortos nem golpeados, contrariamente à justiça, nem que tenham de sofrer qualquer mal...» Epist., Hertlein, 7, Cumont, 83. De novo, «aconselho aos que vieram à verdadeira religião (o paganismo) que não cometam injustiças contra os grupos de galileus, que não os ataquem e que não os ultrajem. É preciso ter piedade, antes que ódio, daqueles que se enganam acerca das coisas mais importantes; pois a (verdadeira) religião é realmente o maior dos bens, e a falsa religião, ao contrário, o maior dos males.» Epist., Hertlein, 52, Cumont, 114. «Quanto a mim, certamente, comporto-me com todos os galileus tão suave e humanamente, que nenhum deles sofre em parte alguma violência, é arrastado à força a uma cerimônia sagrada, ou é vivamente solicitado a alguma outra coisa desse gênero contra a sua vontade.» Epist., Hertlein, 43, Cumont. 115.
Grande número de ortodoxos havia sido exilado sob Constâncio. Juliano permitiu a todos que voltassem a seu país e fez que lhes fossem devolvidos os bens confiscados. «Eu pensava, diz ele, que os chefes dos galileus mostrariam por mim mais reconhecimento do que por aquele que reinou antes de mim. Pois sucedeu, sob o reinado deste último, que a maior parte deles havia sido exilada, perseguida, privada de seus bens por confisco; mais ainda, que se haviam massacrado multidões dos que se chamam hereges (= os ortodoxos), como em Samósata, em Cízico, na Paflagônia, na Bitínia e na Galácia, e que muitas outras províncias e aldeias haviam sido pilhadas ou destruídas de alto a baixo, ao passo que, sob o meu reinado, é exatamente o contrário. Os que haviam sido exilados foram enviados de volta para casa; os que haviam tido os bens confiscados obtiveram de mim, por uma lei, retomar tudo o que lhes havia pertencido. Eles, no entanto, chegam a tal grau de insolência e de demência etc.» Epist., Hertlein, 52, Cumont, 114.
Juliano pretende, pois, deixar aos cristãos a liberdade religiosa, a da consciência e a do culto. Exige ao mesmo tempo que reine a paz, primeiro entre cristãos, depois entre pagãos e cristãos. Por exemplo, Juliano reuniu em seu palácio os bispos em discussão uns com os outros, ao mesmo tempo que a sua população estava igualmente dividida, e advertiu-os em bons termos que pusessem fim às suas discórdias e que cada um praticasse a sua religião em segurança, sem que ninguém os impedisse. Amm. Marc., xxii, 5. Foram assinaladas a Juliano desordens ocorridas em Bostra entre pagãos e cristãos, das quais se responsabilizavam os eclesiásticos; ele escreve: «Resolvi, pois, fazer saber a todas as populações, por meio deste edito, e impor-lhes claramente que não se amotinem de comum acordo com os eclesiásticos, que não atirem pedras por instigação deles e que não desobedeçam aos magistrados; mas, ao contrário, que se reúnam tanto quanto quiserem e recitem por si mesmos as suas orações habituais, e toda tentativa de desordem será castigada. Epist., ibid.
Essas medidas, tão liberais em princípio, apresentavam de fato restrições. O imperador chamava de volta os exilados a seu país, mas sem lhes devolver as dignidades e funções, às vezes mesmo sem lhes devolver as igrejas. Escreve aos alexandrinos: «Por ora, concedemos o regresso ao seu país, mas não às suas igrejas, aos galileus exilados pelo bem-aventurado Constâncio.» Epist., Hertlein, 26, Cumont, 110. Pode-se dar a essa restrição um motivo de ordem administrativa. Um bispo ortodoxo teria encontrado a sua sé ocupada por um bispo ariano; daí, conflito e luta entre os dois partidos, católico e ariano. O mesmo conflito teria irrompido numa cidade meio cristã, meio pagã, entre os cristãos, fortalecidos pela presença de seu bispo, e os pagãos, agora sustentados pela autoridade imperial. É preciso acrescentar um motivo de ordem religiosa. Se o bispo ortodoxo tivesse voltado à sua igreja e à sua sé, os cidadãos cristãos ter-se-iam reunido em torno dele e teriam sido confirmados na sua religião; daí um obstáculo à restauração e à propaganda pagãs de Juliano. Ao contrário, sem o seu bispo, a comunidade cristã, acéfala e sem direção, permanecia enfraquecida e hesitante; daí um estado favorável à apostasia.
Amiano Marcelino faz esta reflexão: «A fim de assegurar o efeito das disposições tomadas por ele, Juliano convocava ao seu palácio os bispos cristãos em desacordo entre si, com o seu povo dividido, e advertia-os de que deviam pôr fim às suas discórdias e de que cada um devia praticar a sua religião em segurança, sem que ninguém o impedisse. Agia assim com perseverança, pelo motivo de que a liberdade que deixava aumentaria as dissensões e de que ele não teria de temer em seguida uma população que estivesse animada de um único e mesmo sentimento: pois sabia por experiência que a maioria dos cristãos é mais feroz uns para com os outros do que o é qualquer fera selvagem para com os homens.» Amm. Marc., xxii, 5. Tal é a impressão que Juliano havia recolhido, durante a juventude, e conservado das lutas fratricidas entre ortodoxos e arianos, sob Constâncio.
Sozômeno diz também: «Juliano trabalhava para afastar de suas cidades os eclesiásticos e os bispos das Igrejas. Na verdade, visava ele sorrateiramente, por esse afastamento, a interromper as reuniões do povo, de maneira que este não tivesse ninguém para dirigir a Igreja, nem para ensinar, nem para conferir os sacramentos, e de maneira que as práticas religiosas do povo caíssem assim no esquecimento, com o tempo.» Sozômeno, H. E., v, 15, em P. G., t. lxvii, col. 1257 B.
Outra restrição diz respeito à propaganda cristã. Era ela ao menos tolerada? Parece que não. Juliano mandou expulsar de Cízico o bispo Eleusio, pelo motivo principal de que persuadia os «helenistas» dessa cidade a abandonar a sua religião (pagã) tradicional. Ordenou severamente que se exilasse de todo o Egito Atanásio, «esse celerado, que teve a audácia, reinando eu, de batizar mulheres gregas de alta condição; que o expulsem!» Epist., Hertlein, 6, Cumont, 112. A imparcialidade, a justiça, a tolerância existiam mais nas palavras e nos escritos de Juliano do que em seus atos. Seu zelo pelos deuses, seu orgulho interessado no sucesso, sua cegueira o desviam facilmente dos princípios que professa e o levam à pressão e à violência contra os cristãos.
2. Polêmica contra o cristianismo. Os cristãos são doentes do espírito, diz Juliano, e é melhor «instruir os insensatos do que castigá-los.» Ele o tentou numa obra de polêmica, Contra os cristãos, em três ou sete livros. Dessa obra só temos longos fragmentos citados por São Cirilo de Alexandria em seus dez livros de refutação Contra Juliano, P. G., t. lxxvi. Juliano havia estabelecido um paralelo entre o cristianismo e o politeísmo, mas partindo do Antigo Testamento, que os cristãos haviam tomado por conta própria. Dogma, moral, legislação, passava tudo em revista, tanto para o Antigo como para o Novo Testamento. Pretendia que o cristianismo, «a seita dos galileus», segundo a sua expressão, não passava de uma fraude puramente humana; que o Deus de Moisés era bem inferior ao de Platão; que, nos livros «dos galileus», tudo não passa de fábulas, erros grosseiros, mediocridades de toda espécie, em comparação com a beleza, com a verdade das doutrinas filosóficas dos gregos e de suas instituições políticas e religiosas. Em particular, que é Jesus, fundador da seita? É Deus, destruindo a unidade de Deus, ou não o é? E aliás, a sua pretensa divindade não é uma invenção de João? Que fez de notável? Que serviços prestou ao mundo? Será o de ter curado, como se pretende, alguns cegos e paralíticos?
Nos fragmentos que nos restam, Juliano toma o cristianismo e o politeísmo pelos pequenos aspectos, por detalhes superficiais e insignificantes; o fundo não é tratado; e talvez Juliano fosse incapaz de fazê-lo, em razão de sua mediocridade filosófica e teológica; além disso, há nesses fragmentos excesso de imaginação e de hipóteses gratuitas, que revelam muita ignorância das questões.
Acrescentemos aqui uma observação de ordem linguística. As palavras pagão e paganismo são latinas e tardias; não têm equivalentes em grego. Já nos Setenta, o termo Ἕλλην e outras palavras derivadas da mesma raiz designam todos os não judeus, com os seus costumes e sobretudo o seu politeísmo, por oposição aos judeus e ao seu monoteísmo. Na época em que estamos, a antítese existe agora entre os cristãos e os não cristãos. O que é grego se confunde com o que é pagão: os pagãos do império de Juliano são chamados correntemente Ἕλληνες, Ἑλληνισταί, Ἑλληνίδες, com o adjetivo Ἑλληνικός para as coisas, e o substantivo ὁ Ἑλληνισμός para designar o paganismo. Esse uso existe tanto em Juliano como em seus contemporâneos. É a esse helenismo pagão, sectário, estreito, que correspondem as medidas precedentes de Juliano e o seu tratado Contra os cristãos.
3. Medidas relativas ao ensino. Não se podia pensar em reconduzir ao paganismo, pelo ensino, as pessoas de idade avançada e firmadas na fé.
Mas podia-se agir sobre a juventude, subtraindo-a à influência cristã, submetendo-a a uma influência pagã, suave e contínua, por meio do ensino; prender-se-iam assim ao culto dos deuses as crianças e os jovens de famílias pagãs; inclinar-se-ia agradavelmente para o paganismo o espírito das crianças cristãs; prepararíamos, enfim, gerações novas bem dispostas para a restauração que Juliano empreendia. Que era preciso fazer para isso? Toda a instrução se dava por meio da literatura pagã, tornada clássica; era preciso, pois, pôr de acordo os livros e os mestres, fazer que mestres pagãos dessem essa formação intelectual haurida unicamente nos autores pagãos, e estabelecer assim a unidade pagã no ensino de toda a juventude. Esse cálculo era lógico, e era confirmado no pensamento de Juliano por sua experiência pessoal; foram a literatura pagã e a filosofia pagã, ensinadas por mestres pagãos, que primeiro o solicitaram e depois o voltaram completamente para o paganismo, apesar das precauções tomadas e das proibições de Constâncio. O meio era, pois, eficaz.
Numa lei de junho de 362, Juliano declara que a nomeação dos mestres e dos professores será feita, em cada cidade, pelo senado local; mas que a nomeação será submetida à sua aprovação. Com isso Juliano se reservava o direito de aceitar apenas mestres pagãos para as escolas públicas. No mesmo ano, um edito proíbe o ensino a todos os mestres cristãos, quaisquer que fossem, se não renunciassem à sua fé. Epist., Hertlein, 42, Cumont, 61 c, p. 70. Vamos dar uma análise desse documento célebre e único na história, infelizmente mutilado no início e no fim.
A retidão deve existir, antes de tudo, na educação. Pensar de um modo e ensinar de outro é falta de sinceridade e de honestidade nos mestres e um engano em relação aos seus discípulos. Assim é para todos os professores: retores, gramáticos, sofistas. Os deuses são sempre honrados e louvados em autores como Homero, Hesíodo, Demóstenes, Heródoto, Tucídides, Isócrates, Lísias, e os professores cristãos, que os explicam, empenham-se em desonrar esses mesmos deuses como falsos e maus: não é isso absurdo? Em consequência, os professores são postos na contingência de escolher entre estes dois partidos: «ou não ensinar o que julgam não ser bom, ou, se querem ensinar, estar eles mesmos convencidos e ensinar em seguida que todos esses autores estão na verdade a respeito dos deuses.» Ou ainda, se persistem em suas convicções cristãs, «que vão às igrejas dos galileus para ali explicar Mateus e Lucas...» Quanto aos jovens cristãos, por mais atingidos que estejam pela doença, é preciso deixar-lhes toda a liberdade de se instruírem junto aos mestres pagãos, até que possam conhecer o seu caminho.
A proibição de ensinar, imposta aos mestres cristãos, era absoluta. Juliano só abriu uma única exceção, em favor do sofista cristão Proerésio, professor em Atenas, seu amigo pessoal e de renome universal. Nobre e simplesmente, Proerésio desceu de sua cátedra. Jerônimo, Chronicon, ann. 363, P. L., t. xxvii, col. 503, e cf. Eunápio, Vit. soph., Prohœrésius, ad finem. Essa proibição produzia ao mesmo tempo duas outras consequências. Por falta de mestres, as escolas cristãs existentes deviam fechar-se, e era impossível abrir outras novas. Os jovens cristãos, que não queriam frequentar os mestres pagãos, viam-se privados de toda instrução superior e, por isso mesmo, inábeis para as carreiras liberais e administrativas. Isso não devia desagradar a Juliano, no momento em que esses jovens resistiam à sua propaganda. Parece mesmo que uma lei complementar tenha proibido essa frequência aos jovens cristãos. Sócrates, H. E., iii, 12, 16, 18, 22, P. G., t. lxvii, col. 412, 417, 426, 436; cf. Teodoreto, H. E., iii, 4, t. lxxxii, col. 1096; Zonaras, xiii, 12, 21, P. G., t. cxxxiv, col. 1149; Gregório de Nazianzo, Orat., iv, 5, 6, 101, 102, 105; v, 39.
«Juliano, diz Sócrates, evitou a crueldade excessiva empregada sob Diocleciano; mas nem por isso se absteve de perseguir; chamo perseguição à mania de perturbar os cidadãos pacíficos. Juliano perturbou-os da seguinte maneira. Ordenou por uma lei que os cristãos não poderiam receber a sua parte de instrução, “para que, dizia ele, não afiem as suas línguas e não estejam prontos a medir-se com os dialéticos gregos (= os filósofos e sofistas pagãos)...” Nossas Escrituras inspiradas, diz ainda Sócrates, nos fornecem dogmas divinos; insinuam no espírito dos ouvintes grande piedade e a retidão de vida... Mas não ensinam de modo algum a arte do raciocínio, de que se precisa para lutar contra os inimigos da verdade; ora, esses inimigos da verdade são vigorosamente combatidos quando nos servimos contra eles de suas próprias armas... Foi o que o imperador Juliano viu muito bem, e é por isso que impediu por uma lei os cristãos de receber a instrução dos gregos; sabia muito bem como a mitologia dos deuses tornava ridícula a sua crença nos seus deuses...»
Essas afirmações de Sócrates encontram eco numa carta de Juliano ao heresiarca Fotino: escreve-lhe a respeito do bispo Diodoro de Tarso: «Este veio a Atenas para a desgraça pública, e é com os recursos de sua eloquência que armou a sua odiosa língua contra os deuses celestes...» Epist., Hertlein, 79, Cumont, 90. São João Crisóstomo, falando da perseguição sorrateira e tortuosa de Juliano, diz dele: «Vede a sua malignidade. Os médicos, os militares, os sofistas e os retores, todos quantos são, ordena-lhes que deixem o seu ofício ou renunciem à sua fé.» Panegírico dos SS. Juventino e Maximino. P. G., t. l, col. 571-578, e para os médicos, cf. Epist., Hertlein, 25 b, 45, 48. Cumont, 75 b, 58, 153. Parece mesmo que Juliano tenha procurado paganizar o ensino da música, ao menos no conservatório de Alexandria. Epist., Hertlein, 56, Cumont, 109.
4. Adjurações, injúrias, ameaças. «Pelos deuses, escreve Juliano, tenho vergonha, ó alexandrinos, de que um único dos alexandrinos declare ser galileu.
Em verdade, os ancestrais dos hebreus estavam outrora escravizados aos egípcios; mas agora, alexandrinos, vós, os senhores dos egípcios, já que o vosso fundador dominou o Egito, aceitais, contrariamente às vossas leis antigas, escravizar-vos voluntariamente a gente que desdenha os dogmas de vossos ancestrais!» Esses «galileus» são aliás «doentes, contagiosos, loucos, insensatos, selvagens, ignorantes, obscurantistas, iletrados; ímpios, ateus, homens sem religião; gente odiosa, malditos, objetos da cólera dos deuses; avarentos, homens de dinheiro, falsários e captadores de heranças, vingativos; hipócritas e enganadores em sua pretensa caridade para com os infelizes.» Quanto aos seus livros sagrados, Juliano zomba deles agradavelmente e deseja a sua destruição: «havia também, diz ele, na biblioteca do bispo Jorge, muitos volumes contendo a doutrina desses ímpios galileus, volumes que eu desejaria ver completamente destruídos.» Pode-se aproximar dessas palavras este outro desejo a respeito do bispo Atanásio: «Prouvesse aos deuses que a perversidade da escola ímpia onde ele ensina se limitasse a ele só!» Epist., Hertlein, 9, 51, Cumont, 107, 111.
Ferido em seu orgulho e em seu despotismo, Juliano abandona-se facilmente às ameaças. Os habitantes de Nísibis, cristãos e os mais expostos aos golpes dos persas, enviam-lhe uma embaixada; ele declara com cólera que não os socorrerá, que não receberá a sua embaixada, que não entrará em sua cidade ímpia, a menos que saiba que voltaram ao helenismo (= o paganismo). Em outras ocasiões, declara que, depois de sua vitória sobre os persas, estenderá o seu politeísmo sobre as ruínas do cristianismo e que destruirá até o nome deste. Quanto ao bispo Atanásio, deve deixar Alexandria; «do contrário, diz Juliano, aplicaremos contra ele penas maiores e mais terríveis.» Epist., Hertlein, 26, Cumont, 110. Escreve em seguida ao prefeito do Egito que, se Atanásio não tiver deixado o Egito antes de primeiro de dezembro, tornará responsável por isso a região, «que ele atingirá com uma multa de cem libras de ouro». Epist., Hertlein, 6, Cumont, 112. Ameaça os cristãos de Edessa, em caso de distúrbios, «com a espada, o fogo, o exílio.» Epist., Hertlein, 43, Cumont, 115.
5. Medidas contra as pessoas e as coisas. Juliano reserva os favores e as preferências aos pagãos fiéis, aos apóstatas, aos hereges, aos judeus, com exclusão dos cristãos, e sobretudo quando as medidas por ele tomadas prejudicam ao mesmo tempo o cristianismo. Seus verdadeiros amigos, aqueles que honra com suas cartas mais calorosas, são os adoradores dos deuses, os retores e sobretudo os filósofos; faz de Libânio o seu íntimo; cumula Máximo de Éfeso de marcas de honra excepcionais. Louva o zelo dos habitantes de Cízico pela restauração do paganismo e, em consequência, concede-lhes todos os seus pedidos. Está pronto a ajudar a cidade de Pessinunte, mas com a condição de que os habitantes tornem propícia a Mãe dos deuses e de que se tornem em massa os seus adoradores; do contrário, não receberão da sua parte senão censuras e malevolência; é aliás a regra que Juliano segue com as cidades. Sofre à vista dos que se deixam acorrentar pelo cristianismo; alegra-se com aqueles que os deuses soltaram e libertaram desse erro; protege muito especialmente o bispo Pegásio, passado ao paganismo. Convida à sua casa o bispo Aécio, chefe dos anomeus; tem uma fraqueza por Jorge, bispo ariano e intruso de Alexandria, que conhecera sacerdote em Cesareia; pelo herege Fotino; pelos novacianos e donatistas, aos quais manda devolver as suas igrejas e os seus bens; pelos judeus, que valem mais que os cristãos e para os quais saberá muito bem reedificar o seu templo.
Todavia, Juliano guardou má lembrança dos arianos, que haviam sido os aduladores e os sustentáculos de Constâncio; escreve aos habitantes de Edessa: «Quanto aos da igreja ariana, orgulhosos de sua riqueza, atacaram os valentinianos e cometeram contra Edessa atos de audácia tais que não deve haver numa cidade bem administrada. Em consequência, já que a sua admirável lei lhes ordena deixar tudo para entrar no reino dos céus, queremos ajudar os seus santos; ordenamos que se apreendam todos os bens móveis da igreja de Edessa para dá-los aos nossos soldados, e as suas propriedades para atribuí-las ao nosso domínio privado; e isso a fim de que, tornados pobres, se tornem sábios e não sejam privados do reino celeste, que ainda esperam. Ordenamos além disso, a vós, habitantes de Edessa, que vos abstenhais de todo motim e rivalidade, para que, se irritardes a nossa habitual humanidade voltando-a contra vós mesmos, não pagueis pela desordem de todos, sendo punidos pela espada, pelo fogo e pelo exílio.» Epist., Hertlein, 43, Cumont, 115 (onde se deve ler προείρηται ἀφεῖναι πάντα ἵν’ εἰς κτλ., e não τὰ ὑπάρχοντα προέσθαι).
Os cristãos não convinham muito para preencher os empregos civis sob um imperador pagão; desagradavam ao senhor, que ordenara preferir-lhes sempre os adoradores dos deuses; aliás, não podiam assistir, nem com ele nem com os seus representantes, às cerimônias pagãs. Juliano proibiu mesmo nomear cristãos para qualquer emprego civil, para qualquer função pública; alegava, muito espirituosamente em seu pensamento, que a lei dos cristãos lhes mandava «viver à margem das coisas deste mundo, não combater, não se servir da espada, não julgar, não possuir nada de próprio, desprezar as coisas deste mundo como se não existissem, não retribuir mal por mal, apresentar a outra face a quem batia na primeira e ceder a túnica a quem tomava o manto.»
O encargo civil de curial era muito temido, em razão das despesas que acarretava. Sob Constantino e Constâncio, leis especiais haviam isentado dele os eclesiásticos. Juliano suprimiu esse privilégio, pensando que agradaria às populações e as atrairia a si: quanto mais curiais houvesse, mais cidadãos haveria para suportar os encargos dessa dignidade.
Numa lei de 13 de março de 362, Juliano ordena: «Que os decuriões, que recusam os encargos a título de cristãos, sejam a eles chamados de volta etc.» Escreve aos bizacenos: «Devolvi-vos todos os vossos curiais, quer se tivessem entregue à seita religiosa dos galileus, quer tivessem tentado, de uma maneira qualquer, furtar-se ao conselho (ou senado) local.» Epist., Hertlein, 11, Cumont, 54.
Juliano gozava de um prestígio considerável sobre o exército; este constituía para ele um apoio inabalável por dentro e por fora. Por isso se aplicou a ganhá-lo para o culto dos deuses. Já em 360, no momento de marchar contra Constâncio à frente de suas tropas, Juliano escreve a Máximo de Éfeso: «Honramos os deuses abertamente, e a grande massa do meu exército é piedosa para com eles.» Ordenou que todos os soldados participassem dos sacrifícios, das libações e de outras cerimônias, alegando que as armas não traziam nenhum socorro quando faltava o socorro dos deuses. Quando a severidade ou a ameaça não produzia sobre os soldados o efeito desejado, acrescentavam-se o ouro e a prata, «e o atrativo do ganho, diz Libânio, obtinha o que as palavras não haviam podido.» Na prática, os cristãos eram excluídos do exército, e este era pagão, salvo exceções.
O imperador paganizou a moeda, mandando gravar nela um altar e um boi, sinais dos sacrifícios aos deuses. Além disso, para as suas próprias estátuas ou imagens expostas em público, fazia representar, junto de si, Zeus aparecendo do alto do céu e conferindo-lhe os atributos da soberania imperial, e também Ares e Hermes, que fixavam os olhos nele, para atestar que se distinguiria na guerra e na eloquência. Essa representação correspondia a duas preocupações de Juliano. Em primeiro lugar, lembrava o papel de Ares e de Hermes junto dele, Juliano, durante a sua juventude, segundo a alegoria autobiográfica da Diatribe contra Heráclio. Depois, os cidadãos que quisessem honrar a imagem do imperador viam-se prestando homenagem, de bom ou mau grado, aos deuses representados com ele; e os cristãos, que por consciência se abstinham de fazê-lo, eram acusados de faltar à majestade imperial.
Os cristãos tinham o costume de transportar os seus defuntos através da cidade e de celebrar os funerais em pleno dia, com certa pompa e muito respeito. Mas o encontro de um cadáver é uma mácula para o pagão, que se vê assim excluído das cerimônias de seu culto. Por uma medida geral, Juliano proibiu rigorosamente o transporte dos defuntos e os seus funerais durante o dia; só se farão à noite, depois da décima hora, quando o sol está posto, ou ainda antes do seu nascer; os infratores sofrerão penas severas.
6. Medidas contra os mártires. Juliano proibiu escrever qualquer memória, qualquer relação, qualquer narrativa relativa aos mártires; estes deviam perecer e desaparecer inteiramente, anônimos e esquecidos. Sua linguagem é aliás amarga quando fala deles. Para despertar o oráculo mudo de Dafne e reabrir a fonte Castália, manda retirar o corpo do grande mártir de Antioquia, São Babilas, e todos os outros corpos de cristãos sepultados no mesmo lugar. A propósito do templo de Apolo Didimeu, em Mileto, Juliano ordena ao governador da Cária que queime e destrua tudo o que se havia erguido em honra dos mártires junto ao santuário do deus pagão. No Misopogon, Hertlein, p. 462 e 464-466, Juliano louva «as cidades santas e piedosas como ele, que reergueram os templos dos deuses e destruíram os túmulos dos ateus, em conformidade com uma de minhas últimas ordens»; essas cidades, «tão piedosas», eram Emesa, Aretusa, Heliópolis, Gaza. Não se virá mais, doravante, honrar os túmulos dos mártires.
7. Medidas e atos de violência e de tirania. O imperador desculpa com a maior indulgência os pagãos, que agora levantaram a cabeça e que atacam os cristãos. No Misopogon, Hertlein, p. 465, Juliano contenta-se em dizer que as cidades santas e piedosas haviam ido, apesar de tudo, longe demais contra os cristãos. Em Gaza, o povo pagão havia torturado e massacrado três irmãos cristãos, Eusébio, Nestabo e Zenão. Juliano tomou o partido do povo: «Que era isso para os habitantes, diz ele, ter matado alguns galileus em troca de todo o mal que estes lhes haviam feito, a eles e aos deuses!» Sozômeno, H. E., v, 9, 11-13, P. G., t. lxvii, col. 1240. Pode-se comparar a estranha indulgência de Juliano para com os alexandrinos que massacraram o bispo ariano Jorge. Epist., Hertlein, 10, Cumont, 60.
Sob Constantino e sobretudo Constâncio, muitos templos haviam sido demolidos, ou destruídos em parte e despojados do mobiliário. Os que haviam tomado e empregado os seus materiais foram condenados a reconstruir os edifícios destruídos, a reparar os que haviam sido danificados, e isso a suas custas; os objetos que haviam sido levados dos templos destruídos ou abandonados deviam ser para lá devolvidos. Por exemplo, diz Libânio, encantado, «os que haviam mandado construir casas com as pedras dos templos restituíam em dinheiro; por outro lado, podiam-se ver as colunas dos templos devolvidas aos deuses que delas haviam sido despojados, umas em navios e outras em carros.» Oratio xviii, 126, edição Foerster. Uma perturbação tão grande não se fez sem muitas brutalidades, ameaças, multas, prisões, torturas e mesmo condenações à morte. Cf. Sozômeno, H. E., v, 5, 5. P. G., t. lxvii, col. 1228.
Sob os imperadores Constantino e Constâncio, haviam sido atribuídos bens às igrejas para as suas necessidades e a sua manutenção. Juliano mandou retirá-los delas e os atribuiu às municipalidades. Assim foi mesmo para as rendas que serviam ao sustento das virgens e das viúvas, inscritas pelas igrejas em suas listas oficiais; por vezes, obrigaram-nas mesmo a devolver o que haviam legitimamente recebido para viver anteriormente. Retiraram-se das igrejas os bens móveis, as doações, os vasos sagrados; prenderam e torturaram os sacerdotes e chefes religiosos que quiseram opor-se a isso. Em Antioquia, Juliano mandou paganizar as fontes de Antioquia e de Dafne por meio de sacrifícios aos deuses, a fim de forçar a um ato de idolatria os que ali fossem haurir água. Da mesma forma, mandou aspergir com a água lustral dos sacrifícios todos os gêneros do mercado.
Tendo sido o templo de Apolo destruído acidentalmente por um incêndio, Juliano tornou os cristãos de Antioquia responsáveis por essa desgraça. Mandou submeter os acusados a torturas mais cruéis que de costume, mandou fechar a grande igreja de Antioquia e adjudicou ao fisco os objetos que ali se conservavam.
Tirou uma vingança terrível da cidade de Cesareia da Capadócia, perto da qual passara a juventude, em Macellum, que então frequentara e onde fora sem dúvida leitor da igreja com seu irmão Galo. Os habitantes, cristãos em massa, haviam demolido anteriormente os templos de Zeus e de Apolo e destruído em seguida, desde o próprio reinado de Juliano, o último templo que restava, o da deusa Tique. Juliano ficou indignado, diz Sozômeno; censurou os pagãos por não se terem oposto pela força a essa destruição; ordenou apreender, ainda que empregando a tortura, todos os bens móveis e imóveis das igrejas de Cesareia e da província; exigir de imediato para o fisco trezentas libras de ouro; alistar os eclesiásticos na mais baixa classe da polícia; riscar Cesareia do número das cidades, devolvendo-lhe o seu antigo nome de Mazaca; enfim, inscrever todos os cristãos no número dos contribuintes. Os demolidores do templo foram, uns exilados, e os outros mortos. Juliano jurou que, se os habitantes não reerguessem prontamente os templos destruídos, não cessaria de persegui-los e não deixaria os cristãos conservarem a cabeça sobre os ombros. Por felicidade, a morte rápida de Juliano livrou os habitantes desse terror.
Na sua expedição contra os persas, o imperador, tendo necessidade de dinheiro, resolveu obtê-lo à custa dos cristãos; impôs uma multa em dinheiro aos cristãos dos países atravessados por ele, que se recusavam a sacrificar aos deuses; a multa foi calculada segundo a fortuna de cada um e exigida com rigor. As violências eram antes raras e moderadas nas províncias ocidentais do império, afastadas de Juliano, de Constantinopla e de Antioquia, e logo libertadas pela morte do restaurador do politeísmo. Exerceram-se sobretudo no Oriente, nas províncias submetidas mais diretamente à ação pessoal de Juliano. Por vezes também, nas cidades, os governadores e os magistrados, e igualmente os habitantes, seguros da impunidade, faziam zelo e ultrapassavam as ordens do imperador, já severas: a autoridade impunha ou exigia multas ilegais, ou ainda empregava os castigos corporais; a populaça pagã derrubava os sinais do cristianismo, apoderava-se das igrejas, atacava a população cristã, destruía os túmulos dos mártires, entregava-se aos diversos impulsos de seu ódio, crendo servir ao imperador.
Tal é o quadro abreviado da perseguição de Juliano, que melhor se chamará a política seguida por Juliano a respeito do cristianismo, política que consiste numa série de medidas legislativas e de atos administrativos. Como diz Rufino, Juliano fazia cada dia «progressos na arte de achar medidas sorrateiras e hábeis, que nada apresentassem de cruel.» Rufino, H. E., i, 31, P. L., t. xxi, col. 502. Desde então, e embora muitos cristãos tenham perdido a vida por sua fé, o número dos mártires propriamente ditos é muito restrito para o reinado, aliás brevíssimo, de Juliano. Podem-se citar Eupsíquio e Damas, em Cesareia; Eusébio, Nestabo e Zenão, em Gaza; Marcos, bispo de Aretusa, o salvador de Juliano; Juventino e Maximino, soldados, Artêmio, e Teodoreto, sacerdote, em Antioquia; Emiliano, soldado, em Durostorum (Silistria); Macedônio, Teódulo e Taciano, em Mera, na Frígia; Cirilo, diácono, em Heliópolis; os dois irmãos João e Paulo, em Roma etc.
Conclusão. A tentativa de Juliano para restaurar o politeísmo tinha a seu favor as seguintes probabilidades: embora enfraquecido, o politeísmo vivia e resistia, e podia-se esperar salvar o doente. Tinha a seu favor o direito de prescrição, adquirido havia muitos séculos; a tradição nacional, com a rotina e o hábito tão poderosos no povo. Os templos, fechados, permaneciam de pé em sua maioria, e também os ídolos sobre as suas estelas; esses monumentos lembravam aos olhos e aos espíritos um passado recente que muitos tinham visto. Apesar dos editos dos imperadores cristãos, vários desses templos permaneciam abertos, e ali se ofereciam sacrifícios com a conivência das autoridades locais. O politeísmo tinha a seu favor o prestígio do que chamamos a civilização: letras, ciências, artes, legislação, constituição e organização, educação e instrução, família e sociedade; a humanidade havia crescido e florescido com o culto dos deuses, de que a sua vida era inseparável. A metade dos habitantes do império devia ainda ser pagã e constituía um ponto de apoio importante; muitos, entre os cristãos, eram convertidos, que talvez voltassem ao culto de sua juventude. O politeísmo tivera contra si o poder imperial desde Constantino; mas agora o teria a seu favor, e os inumeráveis tentáculos desse poder iriam por toda parte apanhar os cidadãos. Enfim, o cristianismo se achava dilacerado por divisões intestinas, que o tornavam vulnerável.
Justamente surgia, no momento fatídico, o homem predestinado ao sucesso do empreendimento por suas capacidades, sua vontade e sua fé pagã. Augusto único, Juliano punha a sua soberania absoluta e a sua pessoa a serviço dos deuses. Tinha a seu favor o prestígio da vitória, a habilidade, o talento, a juventude, a nobreza do sangue; julgava-se firmemente chamado pelo céu a essa obra nova, com uma confiança inabalável no sucesso. Era versado nas doutrinas filosóficas, praticava as virtudes morais, era familiar com todo o politeísmo, até em seus ritos mais secretos. Como tinha a experiência pessoal do cristianismo, podia combatê-lo tanto mais facilmente e, ao mesmo tempo, tomar-lhe emprestados os seus elementos de vitalidade, que infundiria no politeísmo. E, no entanto, Juliano fracassou completa e imediatamente; seu cadáver ainda não esfriara e o seu exército, tão fiel e tão pagão, passava ao cristianismo. A tentativa de Juliano não foi mais que uma sequência de erros.
Antes do cristianismo, um soberano podia introduzir em seus Estados uma religião obrigatória para todos os cidadãos; mas o cristianismo havia libertado dessa tirania a consciência humana. Sem dúvida, Juliano se julgava escolhido pelos deuses e enviado por eles à terra para cumprir a sua missão; mas os seus súditos não o criam, e ele não podia convencê-los disso. O politeísmo não podia dar ao império as três coisas mais augustas do mundo: a verdade, a religião e a virtude; o politeísmo não tinha nada a ensinar como verdade religiosa e não pretendia nenhuma influência moralizadora; os espíritos pagãos, cultos, ponderados, afastavam-se dele e o desdenhavam.
Juliano enganou-se ao confundir a filosofia com a religião. Enganou-se ao tentar renovar, por uma alegoria qualquer, uma mitologia gasta, fabulosa, bizarra, pueril, que era um retrocesso em relação ao sentimento monoteísta dos pensadores pagãos e ao monoteísmo trinitário dos cristãos. Juliano enganou-se ao imaginar que o seu politeísmo iria ao coração do simples cidadão, do artesão, do agricultor, do comerciante, do escravo ou do servidor, numa palavra, desses homens que vivem, em número imenso, num canto obscuro deste mundo. Criado nos palácios, nos livros e nas escolas, imperador filósofo, diletante da literatura, da filosofia, da religião, Juliano ignorava completamente a alma do povo, bem como as suas necessidades morais e religiosas; há, em toda a obra de Juliano, uma palavra para a única classe social que chamamos «o povo»?
Juliano enganou-se ao crer que podia tomar emprestados ao cristianismo os seus elementos vivificantes para transportá-los tais quais ao seu politeísmo. Se o cristianismo vinha de Deus e se Deus depusera nele um princípio de vida e de movimento, não era um homem, nem mesmo o imperador, quem podia arrebatar-lho; tampouco era a imitação pura do cristianismo, a adoção de suas formas exteriores e administrativas, que podia infundir a vida divina no neopaganismo de Juliano.
Não é de admirar a cegueira de Juliano. Homem de ação e de inteligência, brilhante em muitos aspectos, Juliano poderia ter sido um excelente imperador, se tivesse permanecido exclusivamente homem político. Infelizmente, trazia em seu espírito uma enfermidade de nascença, ou antes de educação: era incapaz de razão e de raciocínio quando era preciso aprofundar questões de filosofia, de moral e de religião, apreender-lhes as causas últimas e formar uma convicção luminosa e firme. Essa enfermidade aparece em toda a obra de Juliano. Por isso o mundo civilizado de então, já cristão em uma metade, mostrou-se rebelde à sua tentativa. A palavra da situação foi dita por Chateaubriand com o seu gênio costumeiro: «O mundo não quis deixar-se atrofiar.»
Em contrapartida, a Igreja tirou várias vantagens dessa tentativa. Esta era essencialmente uma contrafação do cristianismo; era, pois, uma homenagem que Juliano prestava, embora a contragosto, à superioridade da religião de Jesus Cristo. As divisões e disputas que a dilaceravam sob Constâncio se aplacaram e cessaram; a provação refez a união, e todos se voltaram contra o novo inimigo de todos os cristãos. Enfim, essa tentativa era necessária para o bem e a honra do cristianismo. Desde os apóstolos, no mundo greco-romano, a luta prosseguia entre Deus e os deuses; estes últimos permaneciam sempre unidos ao império e, na pessoa de Juliano, ao imperador. Era bom que o politeísmo reunisse todas as suas forças e todos os seus recursos para desferir um último assalto contra o seu rival, o monoteísmo; que a sorte religiosa do mundo greco-romano se decidisse enfim num último duelo. Tudo foi posto em jogo e em obra por Juliano, e tudo se perdeu. Depois desse último sobressalto, o politeísmo, vencido, acabou por expirar.
I. Fontes. 1° Obras de Juliano. 1° Edições antigas. D. Petau, Juliani imperatoris orationes III panegyricae, com tradução latina e notas, Paris, 1614; do mesmo, Juliani... orationes et epistolæ, com tradução latina e notas, Paris, 1630; E. Spanheim, Juliani imp. opera, com tradução latina e notas (sobretudo de Petau), Leipzig, 1696; do mesmo, Les Césars de l'empereur Julien, com observações e provas, Paris, 1683, Amsterdã, 1728; E. Spanheim, Spon e J. M. Heusinger, Juliani imperatoris Cœsares, com notas e tradução, Gotha, 1736. 2° Edições modernas. L. H. Heyler, Juliani imperatoris quae feruntur epistolae, Mogúncia, 1828; Hertlein, Juliani opera Teubner, Leipzig, 1875; Bidez; Cumont, Juliani opera, ed. da Associat. G. Budé, Paris, 1922-1924; as cartas também em Epistolographi grœci, Paris, 1873; o tratado Contra christianos foi publicado por Neumann, Leipzig, 1880. 3° Traduções. Marquês d'Argens, Deffense du paganisme par l'empereur Julien (grego e francês; dissertações e notas), Berlim, 1764; H. J. Lasius, Les Césars et le Misopogon (em alemão), Greifswald, 1770; J. Duncombe, Les Césars, le Misopogon, Les lettres (em inglês, com notas), Londres, 1798; Talbot, Œuvres complètes de l'empereur Julien, Paris, 1863.
2° Autores antigos. S. Ambrósio, Epist., 18 e 40, P. L., t. xvi; De obitu Valentiniani, t. xvi, col. 1280; De obitu Theodosii, t. xvi, col. 1403; Amiano Marcelino, livros xv-xxv; Astério de Amaseia, Homilia III, P. G., t. lx; S. Agostinho, Confessions, viii, P. L., t. xxxii; Contra litteras Petiliani, ii, 97, 224, e Contra epistolam Parmeniani, x, xii, P. L., t. xliii; De civitate Dei, iv, 29; v, 31; xviii, 52, P. L., t. xli; Cassiodoro, Historia ecclesiastica tripartita, P. L., t. lxix; Codex Theodosianus, et Justinianus; Chronicon Paschale ou Crônica de Alexandria, P. G., t. xcii; Cirilo de Alexandria, Ὑπὲρ τῆς τῶν χριστιανῶν εὐαγοῦς θρησκείας, πρὸς τὰ τοῦ ἐν ἀθέοις Ἰουλιανοῦ, Pro christianorum sancto cultu, contra scripta impii Juliani, P. G., t. lxxvi; S. Efrém, Sermo II, Contra Julianum; Eunápio, Vitœ Soph., (Edésio, Prisco, Máximo, Libânio, Oribásio); Eutrópio, Breviarium historiœ romanœ, x; Eutiquiano, Magnus e João de Antioquia, em Fragmenta histor. graecorum, (Didot), t. iv; Jorge Cedreno, Historiar. compendium, P. G., t. cxxi-cxxii; S. Gregório de Nazianzo, Orationes, iv, v, Contra Julianum, i e ii, P. G., t. xxxv; Himério, Orationes, v, vi, vii (e ver Fabricius, Bibliotheca grœca, t. ix, p. 426); Historia acephala, P. G., t. xxvi, e Batiffol, Mélanges de littérature et d'histoire religieuses, Paris, 1899; São João Crisóstomo, De S. Babyla, contra Julianum; In Juventinum et Maximinum, P. G., t. l; In Matthœum, hom. iv et lxviii, P. G., t. lvii; Adversus Judœos, v, P. G., t. xlviii; João, o Monge de Rodes, Artemii passio; São Jerônimo, Translatio Chronicorum Eusebii, P. L., t. xxvii, an. 359-366; Epist. lxx, ad Magnum, P. L., t. xxii; Libânio, Opera, edição Foerster, Orationes, xii, xiii, xiv, xv, xvi, xvii, xviii, xxiv, xlviii, e Epist. dcxciv; cf.
Orationes, xvi, xviii e xxiv, em Fabricius, Bibliotheca grœca, t. vii, p. 145-378, com notas e tradução; Mamertino, Gratiarum actio Juliano, P. L., t. xviii; Simeão Metafrasta, Passio Artemii, P. G., t. cxv; Miguel Glicas, Annales, iv, P. G., t. clviii; Nicéforo Calisto, Ecclesiastica historia, x, P. G., t. cxlvi; São Optato, De schismate donatistarum, II, 16 sq., P. L., t. xi; Paulo Orósio, Historia adversus paganos, vii, P. L., t. xxxi; Filostórgio, H. E., iii, iv, vi, vii, P. G., t. lxv; Fócio, Bibliotheca, P. G., t. ci (Quœst., ci e cix, ad Amphilochium) ciii (col. 246 e 1302); civ (col. 150-154); Prudêncio, Apotheosis, P. L., t. lix; Rufino, H. E., x, P. L., t. xxi; Sextus Aurelius Victor, De Caesaribus, 42; Epitome de vita et moribus imperatorum, 42-43; Sextus Rufus, Breviarium, 28; Sócrates, H. E., ii, iii, P. G., t. lxvii; Sozômeno, H. E., v, P. G., t. lxvii; Suidas, Lexicon, s. v. Ἰουλιανός; Sulpício Severo, Vita S. Martini, IV, 306, P. L., t. xx; Teodoreto, H. E., iii, P. G., t. lxxxii; Teófanes, Chronographia, P. G., t. cviii; Zonaras, Annales, xiii, P. G., t. cxxxiv; Zósimo, em Corpus Scriptorum, Histor. Byzant., e análise na Clavis Patrologiœ — grœcœ de Migne.
— II. Trabalhos.
1° Trabalhos anteriores ao século XIX. Paganino Gaudenzio (ou Gaudentius), De philosophica cognitione Juliani, etc., Pisa, 1641; La Mothe le Vayer, De la vertu des païens, Paris, 1642 (p. 319-369, curioso e bem documentado); S. Johnson (Philaretus Anthropopolita), Some seasonable remarks upon the deplorable fall of the emperor Julian, Londres, 1681; do mesmo, Julian the Apostate, being a short account of his life, Londres, 1682; T. Long, A vindication of the primitive christians, etc. e J. Dodwell, The Triumph of Christianity, Londres, 1683; J. P. Oheim, De Juliani imperatoris apostasia, Leipzig, 1684; Adam Rechenberg, De Juliani apostasia, Leipzig, 1684; Gott. Arnold, Unparteiische Kirchen-und Ketzerhistorien, Frankfurt am Main, 1699. Tillemont, Histoire des empereurs, etc., Paris, 1700-1704; Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique des six premiers siècles, Paris, 1701-1712; J. A. Fabricius, Bibliotheca grœca (tomo vii), Hamburgo, 1708-1714; Salutaris lux evangelii, Hamburgo, 1731; Dom Remy Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés (iv° século), t. XVII, Paris, 1729-1763; P. Gaudentius, Julianus imperator philosophus (em Vitae summorum virorum de Meuschen), Coburgo, 1735; La Bleterie, Vie de l'empereur Julien, Paris, 1735 e 1746; Histoire de l'empereur Jovien et traduction de quelques ouvrages de Julien, Paris, 1748; Baronius, Annales ecclesiastici, Lucca, 1739; G. F. Gude, De artibus Juliani apostatae paganam superstitionem instaurandi, Jena, 1739; W. Warburton, Julian or A discourse, etc., Londres, 1750; Abade de la Porte, L'esprit de Julien (em L'esprit des monarques philosophes), Amsterdam, 1764; E. Gibbon, Decline and fall of the Roman Empire, Londres, 1787; Voltaire, Histoire de l'établissement du christianisme, e art. Julien, no Dictionnaire philosophique; Montesquieu, Grandeur et décadence des Romains; Esprit des lois; Card. Gerdil, Considérations sur Julien l'Apostat; Du discernement de la religion, IV, Roma, 1806-1809.
— 2° Trabalhos recentes. G. F. Wiggers, De Juliano apostata religionis christianœ et christianorum persecutore, Rostock, 1810; Julian der Abtrünnige, Leipzig, 1837; S. T. Mücke, De Juliano imperatore scholis christianorum infesto, Schleusing, 1811; A. Neander, Ueber den Kaiser Julian und sein Zeitalter, Leipzig, 1813; M. Jondot, Histoire de l'empereur Julien, Paris, 1817; R. Tourlet, Œuvres complètes l'empereur Julien, traduzidas pela primeira vez, com notas, Paris, 1821; Le Beau, Histoire du Bas-Empire, Paris, 1759 e 1824; Rüdiger, De statu et conditione paganorum sub imperatoribus christianis post Constantinum magnum, Varsóvia, 1825; G. H. van Herwerden, De Juliano imperatore religionis christianae hoste eodemque vindice, Leiden, 1827, Mogúncia, 1828; J. H. Newman, The arians of the fourth century, Londres, 1833 e 1876; Conde Beugnot, Histoire de la destruction du paganisme en Occident, Paris, 1835; H. Schulze, De philosophia et moribus Juliani apostatœ, Stralsund, 1839; C. P. Jälme, Disputatio... de Juliani Augusti in Asia rebus gestis, etc., 1840; H. H. Milman, The history of christianity from the birth of Christ to the abolition of the paganism in the Roman Empire, 1840;
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J. Viteau.
Autor original: J. Viteau
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