JOSÉ DE JESUS-MARIA

JOSÉ DE JESUS-MARIA

JOSÉ DE JESUS-MARIA, carmelita descalço, historiador e teólogo místico (1562-1629). — I. Vida. II. Obras místicas.

I. Vida. Dom Francisco de Quiroga, sobrinho do cardeal de Quiroga, arcebispo de Toledo, nasceu em 1562 em « Castro Caldelas », povoado situado em Orense, província da Espanha, de pais nobres. Já possuindo o doutorado em direito e titular de um canonicato na igreja metropolitana de Toledo, deixou o mundo para entrar na ordem dos carmelitas descalços; em 1595, aos trinta e três anos, ingressou no convento de Madri. Concluído o noviciado, percorreu várias províncias da ordem, recolhendo por toda parte informações de história carmelitana; nomeado historiador geral da Congregação da Espanha, retirou-se na solidão para escrever suas notáveis obras. Unindo a um trabalho intelectual obstinado a prática de todas as virtudes, mereceu figurar entre os mais ilustres religiosos da Reforma. Sua ciência lhe veio mais do Céu que da terra, como confessou um dia a um confidente que lhe perguntara como e em que livros estudava as sublimes matérias tratadas em seus escritos. As provações acabaram de santificá-lo, destinando-o o Senhor a uma grande glória; avisado do dia de sua morte, morreu santamente no convento de Cuenca, em 13 de dezembro de 1629; seu rosto, iluminado por uma beleza sobrenatural, maravilhou todos os que assistiram a seu trânsito e a seus funerais.

Gozando do favor excepcional de beber em suas fontes imediatas os ensinamentos de são João da Cruz e de santa Teresa, defendeu zelosamente a doutrina mística dos santos reformadores; além disso, fervoroso discípulo de são Tomás, desenvolveu tão fielmente a doutrina do doutor angélico que, ao ler seus escritos, parece-se ouvir o próprio são Tomás ensinando a teologia mística. Com o venerável Tomás de Jesus, seu confrade e contemporâneo, foi um dos principais defensores da contemplação adquirida. Para bem compreender a importância e a oportunidade das obras místicas desse escritor, convém recordar a perseguição que se abateu sobre a doutrina mística carmelitana, sem excetuar a de são João da Cruz e a de santa Teresa; essa perseguição só desarmou no século xviii. Os documentos dessa época nos revelam a natureza e a inaudita ousadia dessa oposição; eis um desses documentos.

« Em 5 de fevereiro de 1633, diz André da Encarnação, C. D., em suas Memorias historiales, foi apresentada ao Santo Tribunal (da Inquisição espanhola) uma denúncia pelo P. Poza, S. J., sob o disfarce, contudo, de um nome falso; entre outras coisas, o denunciante ali diz: " Deste mês de fevereiro até meados de março, ocupar-se-á em denunciar a V. A. as coisas concernentes a vinte e seis livros que correspondem à Historia profetica (obra do P. Francisco de Santa Maria, C. D.) e conspiram com ela. Mais tarde abordará os livros sobre a oração provenientes dessa ordem. Pela paciência e pela caridade de Jesus Cristo, suplica a V. A. que tome cuidado com esse gênero de livros e com seu método de oração, por ser muito perigoso. Calando-se sobre essas matérias, o suplicante julgar-se-ia culpado de cooperação. Todavia, a fim de que entretanto V. A. possa dispor das censuras a respeito da Historia profetica e dos livros que a ela se referem, as denúncias em matéria de oração só começarão por volta do fim do mês de março. " »

Apareceram então numerosas e eruditas apologias da mística carmelitana; o P. Nicolau de Jesus-Maria escreveu sua famosa Elucidatio phrasium mysticæ theologiæ V. P. FR. Joannis a Cruce, livro a respeito do qual o P. Poza ousava dizer: « O suplicante o denunciará a V. A. como sendo de má doutrina. » José de Jesus-Maria distinguiu-se nessa luta por seu entusiasmo e seu zelo, bem como pelo número e pelo valor intrínseco de suas obras. O sucesso obtido pelas edições sucessivas de sua obra principal, Subida del Alma a Dios, reanimou a perseguição.

Em 1668, o capuchinho Félix Alamin escreveu primeiro um panfleto anônimo contra a contemplação adquirida ensinada pelos carmelitas descalços; nele anunciou a próxima publicação de um livro que trataria amplamente da verdadeira e da falsa contemplação; esse livro apareceu sob o título Espejo de verdadera y falsa contemplacio; « pretendendo fundar-se na Escritura Santa e nos Padres, o autor atacou vivamente os melhores escritores místicos carmelitas, em particular são João da Cruz. Depois disso, denunciou à Inquisição espanhola a Subida del Alma de José de Jesus-Maria; mas o tribunal aprovou as obras denunciadas. Alamin apelou para a Inquisição romana, que, ela também, as aprovou. Decepcionado, mas não desanimado, foi lançar-se aos pés do sumo pontífice, entregou-lhe os livros denunciados com um escrito expondo os motivos particulares que tinha para perseverar em sua denúncia; essa denúncia versava sobre 28 obras místicas.

Mas o P. Cristóvão de São José, C. D., procurador-geral da congregação da Espanha em Roma, tendo tomado conhecimento da denúncia e do Espejo, e vendo ali tantas acusações tão indignas quanto falsas dirigidas a autores tão sábios e tão dignos, escreveu ele mesmo uma Memória ao papa. O sumo pontífice remeteu tudo à Inquisição, a qual, já sobrecarregada de trabalho, o repassou à Sagrada Congregação do Índice. Essa congregação examinou cuidadosamente os livros; nada encontrando de condenável, aprovou-os por um decreto elogioso, em 1.º de junho de 1701. Por fim, o P. Cristóvão de São José denunciou ele mesmo em Roma e fez denunciar à Inquisição da Espanha o Espejo de Alamin, que foi condenado pelos dois tribunais como contrário à Escritura Santa e aos Padres.

Poder-se-ia ter acreditado num desarmamento dos adversários da mística carmelitana; nada disso aconteceu. Por volta de 1740 jesuítas se meteram nisso: tinham por chefe o P. Antônio Rabago, membro da Inquisição da Espanha e confessor do rei católico Fernando VI. Os inquisidores, influenciados pelas manobras do todo-poderoso Antônio Rabago, condenaram a obra de José de Jesus-Maria, ousando mesmo negar-lhe a paternidade desse escrito. Com efeito, a condenação de 4 de julho de 1750 diz: « Dois tomos in-8.º, impressos em Madri na tipografia de Diego Diaz de la Carrera nos anos de 1656 e 1659... tendo por título Subida del Alma a Dios, obra póstuma falsamente atribuída ao P. José de Jesus-Maria,... porque contêm doutrinas sumamente perigosas e proposições semelhantes e equivalentes às condenadas em Miguel de Molinos, sapientes haeresim e heréticas. » O P. Antônio Rabago obteve também a condenação das obras do cardeal Noris, da ordem dos agostinianos, embora fossem aprovadas pela Inquisição Romana e pelo papa. Tendo os agostinianos conseguido obrigar a Inquisição espanhola a retratar-se, os carmelitas descalços compuseram com o mesmo objetivo várias apologias da doutrina de José de Jesus-Maria; alguns mss. delas se conservam na Biblioteca nacional de Madri: ms. V, 434; ms. E, 307-19530; ms. V, 432; ms. V, 425; ms. V, 418; a Defensa o apologia de el libro intitulado « Subida del Alma... », inédita, é conservada no convento dos carmelitas descalços de Burgos. José de Jesus-Maria foi primeiramente o historiador da reforma carmelitana, mas deixaremos aqui de lado suas obras históricas, ver Thérèse (Sainte), para falar somente das obras místicas.

II. Obras místicas. 1.º Subida del alma a Dios y entrada en el Parayso Espiritual; essa obra póstuma compreende duas partes; a 1.ª, Subida del Alma a Dios que aspira a la divina union, da qual uma edição pouco fiel apareceu em Madri, 1656, in-8.º. Uma tradução italiana foi publicada em Roma, 1661; 2.ª edição espanhola, seguida de várias outras, Madri, 1675. O ms. autógrafo encontra-se na Biblioteca nacional de Madri. A 2.ª parte, Entrada del alma a Parayso espiritual, apareceu em Madri em 1659; existe dela uma tradução italiana, Gênova, 1669. Essa edição, diz o P. Andrés de la Encarnación, C. D., foi truncada por mãos estranhas. De fato, embora numa composição posterior o P. José de Jesus-Maria tenha ampliado consideravelmente sua primeira obra, como testemunham os mss. autógrafos conservados na Biblioteca nacional de Madri, as edições espanholas e italianas dão apenas uma mínima parte do texto verdadeiro. A Entrada se subdivide em duas partes: a 1.ª nunca foi editada; compreende três livros, dos quais o 1.º conta 27 capítulos; o 2.º, 10; o 3.º, 19. Da 2.ª parte, 8 capítulos, do xv ao xxii inclusive, foram omitidos, a saber:

2.º Apologia mistica en defensa de la contemplacion divina contra algunos maestros escolasticos que se oponen a ella. A obra se compõe de 29 capítulos e nunca foi editada; a Biblioteca nacional de Madri possui dela duas cópias anônimas, ms. P. 117-4287, in-8.º, p. 246, e ms. 4478.

3.º Tratado de la oracion y contemplacion sacado de la doctrina de la bienaventurada M. Teresa de Jesus y del venerable P. Fray Juan de la Cruz, ms. 8452 da Biblioteca nacional de Madri. O P. Gabriel Lopez Navarro, da ordem dos mínimos, publicou uma obra, Mistica teologia, Madri, 1641 e 1651, da qual somente o 1.º capítulo ou tratado pode ser-lhe atribuído; todos os outros capítulos ou tratados não são senão uma sequência de plágios feitos em detrimento de são João da Cruz, de santa Teresa e sobretudo de José de Jesus-Maria; 15 capítulos (ou integralmente, ou ao menos em grande parte) do Tratado de la oracion y figuram ali; e o x.º ou último tratado é uma obra apócrifa de são João da Cruz: Breve compendio de la eminentisima perfeccion cristiana; o P. Fernando de Matha é talvez o verdadeiro autor. A Revue d'ascétique et de mystique, t. iv, julho de 1923, p. 14, atribui ainda sem nenhuma restrição a Mistica teologia a Gabriel Lopez Navarro; o que é lamentável.

4.º Concordia de la doctrina de nuestra Madre Santa Teresa de Jesus con la de la Sagrada Escritura, Santos Padres, etc. O P. Bernardino Planes, cartuxo de « Monte Alegre », na Catalunha, publicou essa obra de José de Jesus-Maria sob o título Concordia mistica: en la cual se trata de las tres vias, purgativa, illuminativa y unitiva, y se declara y concuerda entre si la doctrina de la santa madre Teresa de Jesus con la de los santos y maestros de la vida espiritual, en tres libros, Barcelona, 1667. Embora o P. Planes tenha colocado seu nome no frontispício da obra, na dedicatória, contudo, declara que não é obra sua e que o ms. se conservava em seu convento havia cerca de trinta anos. Não é, portanto, surpreendente ver os autores que fazem menção dessa obra atribuí-la, apesar disso, a Planes, quando ele mesmo não a considera um fruto de seu espírito?

5.º Don que tuvo San Juan de la Cruz para guiar las almas a Dios. Esse opúsculo é uma notável apologia da doutrina de são João da Cruz. O P. Gerardo de San Juan de la Cruz o inseriu nas Obras del Mistico Doctor San Juan de la Cruz, t. iii, p. 511-570, Toledo, 1911, segundo os mss. 8273 e 11 990 da Biblioteca nacional de Madri e o ms. de nosso convento de Toledo.

6.º Respuesta a algunas razones contrarias a la contemplacion afectiva y oscura que Nuestro Padre Fray Juan de la Cruz, guiado de Dios, de la Escritura y de los santos, enseña en sus escritos. Igualmente editada pelo P. Gerardo na sequência do opúsculo precedente, segundo os mss. 8278 e 11990 de Madri.

7.º Declaracion del capitulo XXII de la Vida de Nuestra Madre Santa Teresa, acerca de como se ha de ejercitar en la contemplacion la memoria de la vida y pasion de Nuestro Señor, inédito; Biblioteca nacional de Madri, mss. 8273 e 11 330; nosso convento de Toledo possui igualmente uma cópia, mas o prólogo falta.

8.º Escala mistica. Obra bastante considerável, que permaneceu inédita.

9.º Brevisimo comentario a las liras « Aquella niebla oscura » y « Oh dulce noche oscura ». Ms.: opúsculo inédito de 79 páginas.

Acrescentemos ainda duas outras obras: Excelencias de la castidad, 4 vol. in fol., dos quais somente o primeiro tomo foi editado, Alcala, 1601; Vida y excelencias de la Virgen Maria, um vol. in-fol., Antuérpia, 1652. O P. Gerardo de san Juan de la Cruz, C. D., preparava uma edição completa e crítica das obras de José de Jesus-Maria; uma morte prematura o impediu de realizar esse desígnio; praza a Deus que um de seus confrades conclua seu trabalho e dê a conhecer melhor esse ilustre filho de santa Teresa.

François de Sainte-Marie, C. D., Reforma de los Descalzos de N. S. del Carmen de la Primitiua obseruancia, Madri, 1644, p. 216-217; Joseph de Sainte-Thérèse, C. D., Reforma de los Descalzos, Madri, 1684, p. 631-636; Paul de Tous les Saints, C. D., Opera omnia Ven. P. Thomœ a Jesu, Colônia, 1684, t. ii, p. 195; Martial de S. J.-B., C. D., Bibliotheca scriptorum utriusque congregationis et sexus carmelitarum excalceatorum, Bordéus, 1730, p. 265, n. 79; Cosmas de Villiers, O. C., Bibliotheca carmelitana, Orléans, 1752, t. ii, col. 176-178, n. 192; Andrés de la Encarnación, C. D., Memorias historiales, mss. 13 482, 7031 e 12 254 da Bibl. nat. de Madri; Defensa o apologia de el libro intitulado « Subida del Alma a Dios y entrada de el alma al Parayso Espiritual. », ms. conservado no convento dos carmelitas descalços de Burgos; Barthélémy de Saint-Ange e Henri du S.-Sacrement, Collectio scriptorum ordinis carmelitarum excalceatorum utriusque congregationis et sexus, Savona, 1884, t. i, p. 345-347, n. 116; Hurter, S. J., Nomenclator litterarius, 3.ª edição, t. iii, col. 673; Gerardo de San Juan de la Cruz, C. D., Obras del Mistico Doctor San Juan de la Cruz, ed. crít., Toledo, 1912-1914, t. i, Preliminares, p. xl-xli; xlix, nota 2; lviii-lix; t. iii, p. 505-510; Anastase de S. Paul, C. D., Cursus theologiœ mystico-scholasticœ P. Fr. Josephi a Spiritu Sancto, ed. crít., Bruges, 1924, t. i, append., p. 293-295.

P. Fr. Anastase de S. Paul.

Autor original: P. Fr. Anastase de S. Paul

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