JOÃO FILOPONO

JOÃO FILOPONO

JOÃO FILOPONO, sábio, gramático, filósofo e teólogo do século VI. I. Vida. II. Obras. III. Ensinamento teológico.

I. Vida. — Não sabemos praticamente nada da vida de João Filopono. Nicéforo Calisto, H. E., l. XVIII, c. xlvii P. G., t. cxlvii, col. 424, assegura-nos que era de origem alexandrina, e pode-se crer nele neste ponto, mas ele certamente se engana ao fazer dele, aliás depois de Fócio, Cod. 240, P. G., t. ciii, col. 1208-1213, o contemporâneo de Sérgio de Constantinopla (610-639). Na realidade, João viveu um século antes, como se pode comprovar por diversas alusões muito precisas contidas em suas obras. No quarto livro de seus comentários sobre a física de Aristóteles, quando começa a falar do tempo, o comentador escreve: «Estamos agora no ano 233 da era de Diocleciano.» Essa data corresponde ao ano 517 da nossa era. O número 233 σλγ' é o que fornecem os melhores manuscritos. Alguns trazem o algarismo 333, τλγ', que as antigas edições haviam reproduzido. No seu tratado sobre a eternidade do mundo contra Proclo, Filopono escreve: «Em nossos dias, no ano 245 de Diocleciano, os sete astros errantes encontraram-se reunidos na constelação do Touro.» A obra foi, pois, composta pouco depois do ano 549. O tratado sobre a criação do mundo é dedicado a Sérgio, patriarca de Antioquia, que presidiu aos destinos dessa Igreja de 546 a 549: foi, portanto, durante esse intervalo de tempo que foi composta a exegese de João. É preciso, por conseguinte, renunciar às antigas lendas que fazem de João um contemporâneo da tomada de Alexandria pelos árabes (641), que narram seus vãos esforços para a conservação da célebre biblioteca, ou que até pretendem conhecer a sua conversão ao islamismo. Cf. Fabricius-Harles, Bibliotheca graeca, t. x, p. 639 sq.

As principais datas da vida de Filopono podem ser estabelecidas aproximadamente da seguinte maneira. Em 517 situa-se, como se disse, o comentário sobre a física. Em 529, o De aeternitate mundi, que é talvez a sua mais antiga obra pessoal. Por volta da mesma época, deve-se situar a controvérsia com Severo de Antioquia, (Suidas, sub verbo Ἰωάννης) e o tratado De Universali et particulari dirigido a Sérgio, que naquele momento ainda não era senão presbítero. Sérgio foi ordenado patriarca de Antioquia em 546; é talvez a pedido dele que João escreveu sua principal obra teológica, o Διαιτητής, assim como as duas apologias redigidas para defender esse livro. Não se sabe exatamente em que momento preciso Filopono se declarou manifestamente triteísta, mas foi seguramente antes de meados do século VI, pois Mar Abas, primaz do Oriente, que morreu em 552, havia-se convertido a essa doutrina. Assémani, Bibliotheca orientalis, t. ii, p. 411. Sem dúvida o seu ensino foi a razão pela qual Justiniano o intimou a vir a Constantinopla. João desculpou-se, por carta, de não poder fazer essa viagem. Assémani, Ibid., t. iii, p. 252; A. Mai, Spicilegium Romanum, t. iii, p. 739.

Nada mais sabemos de preciso sobre Filopono até 568; nessa data, tendo João de Constantinopla pronunciado um discurso sobre a santa Trindade, Filopono respondeu-lhe com um βιβλιδάριον que Fócio conhecia. João Filopono devia estar então muito idoso. Segundo Nicéforo, H. E., xviii, 48, foi contemporâneo de Jorge de Písidia, cujos trabalhos apareceram sob o reinado de Heráclio (610-640): pode-se concluir desse dado, se for exato, que João morreu por volta de 580.

A reputação de João deve-se sobretudo ao seu amor ao trabalho, pelo qual mereceu o sobrenome de φιλόπονος. Nenhuma das ciências humanas parece ter-lhe sido estranha; e ocupa lugar importante no movimento filosófico e científico de seu tempo. Discípulo de Amônio, filho de Hermias, que ensinava no fim do século V, aprendeu com ele a conhecer a doutrina aristotélica, e em seus comentários sobre a física de Aristóteles aconteceu-lhe frequentemente reproduzir as lições de seu mestre. Todavia, não se prendeu de maneira exclusiva às teorias aristotélicas: e em muitos casos soube preferir-lhes as de Platão ou as dos estoicos. Foi sobretudo em matéria científica que manifestou a independência de seu espírito: seu tratado sobre a eternidade do mundo é dirigido contra Proclo, de quem refuta um após outro os dezoito argumentos; e até nos comentários sobre a física insere frequentes digressões para combater a opinião peripatética; particularmente notáveis são os desenvolvimentos que traz assim sobre o tempo e o lugar, sobre o pleno e o vazio, sobre a queda dos corpos, etc. Cf. P. Duhem, Le système du monde. Histoire des doctrines cosmologiques Platon à Copernic. Paris, 1913, t. i, p. 313-321; 156; 361-371. Por isso não é de admirar que as teorias de João tenham sido frequentemente combatidas pelos aristotélicos fiéis, em particular por Simplício, de quem fora condiscípulo na escola de Amônio, e que se tornou um de seus principais adversários.

O sábio filósofo era cristão. Todos os testemunhos são unânimes em afirmá-lo. Mas nunca se tornou bispo; e em particular não foi bispo de Alexandria, como ainda escreve, sem fornecer nenhuma prova, Ph. Meyer na Realencyklopädie de Hauck, t. ix, p. 310. Foi mesmo um cristão de espécie à parte: para ele o ensinamento da Igreja deve ser provado por meio dos argumentos da filosofia; é, pois, partindo das definições fornecidas pelos filósofos que se esforça por reconstruir os dogmas da Trindade e da Encarnação. Chega assim a teorias heréticas; pois, sob o pretexto de que a natureza não existe fora dos indivíduos, conclui que em Cristo a humanidade não é uma pessoa, uma vez que nunca existiu de maneira independente e que, por conseguinte, tampouco é uma natureza: não há, portanto, em Cristo outra natureza senão a natureza divina; e João une-se assim aos monofisitas. Por outro lado, uma vez que há em Deus três pessoas, há também três naturezas divinas; e chega-se por aí ao triteísmo. Cf. Leôncio de Bizâncio, De sectis, Act., v, 6, P. G., t. lxxxvi a, col. 1232-1233.

Uma vez construídas essas teorias, João, aliás, as confirma por testemunhos patrísticos: segundo Fócio, encontravam-se em seu livro contra João de Constantinopla citações tomadas de São Gregório de Nazianzo, de São Basílio, de Santo Atanásio, de São Cirilo de Alexandria. Cod. 75, P. G., t. ciii, col. 240.

II. Suas Obras. — As obras de João Filopono são muito numerosas e muito variadas; abrangem praticamente todos os gêneros da atividade intelectual. Podem-se agrupar sob quatro títulos principais: escritos gramaticais, filosóficos, científicos, teológicos. São naturalmente estes últimos que nos interessam sobretudo aqui.

1° Escritos gramaticais. — João frequentara a escola do gramático Romano; foi junto dele que se iniciou nos trabalhos de gramática e de lexicografia. Devemos-lhe um tratado intitulado Τονικὰ παραγγέλματα, editado com a obra de Herodiano περὶ σχημάτων, W. Dindorf, Leipzig, 1825, e um escrito em forma de léxico, que foi grandemente difundido na Idade Média: περὶ τῶν διαφόρως τονουμένων καὶ διάφορα σημαινόντων, ed. P. Egenolff, Breslau, 1880. As duas obras completam-se mutuamente; e parecem ter de fato um ponto de partida, a Καθολική de Herodiano; são, por conseguinte, úteis para ajudar a reconstituir essa obra perdida. Cf. A. Ludwich, De Joanne Philopono grammatico, Königsberg, 1888-1889.

2° Escritos filosóficos. — Os escritos filosóficos de João Filopono são essencialmente comentários aos livros de Aristóteles. Esses comentários são, aliás, notáveis pela originalidade de vistas que testemunham. De maneira bastante frequente, João abandona a física do peripatetismo para expor e defender as teorias estoicas, das quais é, no início do século VI, o mais brilhante propagador. Eis os títulos das principais exegeses de João. 1. Ἰωάννου γραμματικοῦ Ἀλεξανδρέως τοῦ φιλοπόνου ἐκ τῶν συνουσιῶν Ἀμμωνίου τοῦ Ἑρμείου σχολικαὶ ἀποσημειώσεις εἰς τὰς Ἀριστοτέλους δέκα κατηγορίας. Cf. Fabricius-Harles, Biblioth. graeca, t. x, p. 645. 2. In Analytica priora σχολικαὶ ἀποσημειώσεις ἐκ τῶν συνουσιῶν Ἀμμωνίου τοῦ Ἑρμείου, μετά τινων ἰδίων ἐπιστάσεων, ed. V. Trincaveli, Veneza, 1536. 3. In Analytica posteriora, etc., ed. V. Trincaveli, Veneza, 1534.

4. Ἰωάννου γραμματικοῦ ὑπόμνημα εἰς τὰ περὶ φυσικῆς τέσσαρα πρῶτα βιβλία τοῦ Ἀριστοτέλους. Ioannis grammatici in primos quatuor Aristotelis de naturalis auscultatione libros commentaria, ed. Trincaveli, Veneza, 1535. Dessa edição grega, Girolamo Doroteo de Veneza deu uma tradução latina em 1539(?), depois em 1542. Uma segunda tradução latina, que não era aliás senão uma revisão completa da precedente, apareceu em 1569 em Veneza, aos cuidados de Giambattista Rassario, médico em Novara. Cf. P. Duhem, op. cit., t. i, p. 314, nota 5. A mais recente e a melhor edição grega do comentário sobre a física é a que apareceu na coleção dos Commentaria in Aristotelem graeca, Berlim, 1887 sq., t. xvi e xvii, aos cuidados de J. Vitelli. Esta obra, ignorada, ao que parece, pelos escritores ocidentais da Idade Média, é uma das mais importantes de que dispomos para nos fazer conhecer as teorias físicas em voga na época de seu autor. Possuímos dela os quatro primeiros livros inteiros e fragmentos bastante pouco consideráveis dos quatro últimos.

5. In librum primum meteororum libri III, Veneza, 1551. 6. In libros tres de anima commentarii [ubi libri singuli in τμήματα, commentarii ipsi in θεωρίας sive fusiores disputationes et πράξεις sive lectiones verba philosophi brevi explicatione illustrantes a Philopono divisi fuerant] ed. V. Trincaveli, Veneza, 1553. 7. In libros duos de generatione et interitu, cum praefatione Fr. Asulani, Veneza, 1527. 8. In libros quinque de generatione animalium scholia Philoponi. A autenticidade deste último comentário é pelo menos duvidosa. Harles, Biblioth. graeca, t. x, p. 647, nota y, atribuí-lo-ia antes a Miguel de Éfeso. 9. In libros XIV metaphysicorum [ἐξηγήσεις τῶν μετὰ τὰ φυσικὰ Ἀριστοτέλους ἀπὸ τοῦ Φιλοπόνου Ἰωάννου] latine interpretavit Fr. Patricius, Ferrara, 1583. Essa longa enumeração basta para mostrar a atividade de Filopono. Não é impossível que a autenticidade de um ou outro dos últimos comentários citados deva ser definitivamente rejeitada; mas permanece que nosso autor deve ser contado entre os mais importantes exegetas da obra aristotélica.

3° Escritos científicos. — Citam-se sob o nome de João Filopono dois livros de ciência pura: um tratado Sobre o astrolábio, ed. H. Hase, no Rheinisches Muséum, 1839, t. vi, p. 127-171; e um comentário sobre o primeiro e o segundo livro da Aritmética de Nicômaco de Gerasa, ed. Rich. Hoche, 2 fasc., Leipzig, 1864; Berlim, 1867.

4° Escritos teológicos. — As obras teológicas de Filopono são bastante variadas. O escritor interessa-se por todos os assuntos, desde a criação do mundo até a ressurreição dos mortos; desde as estátuas dos ídolos até a natureza divina.

1. A mais importante dessas obras é a que trazia o título de Διαιτητής (O árbitro) περὶ ἑνώσεως. Compreendia dez livros, Nicéforo Calisto, H. E., XVIII, xlvii, P. G., t. cxlvii, col. 424, mas não estava redigida em forma de diálogo, como por vezes se sustentou (assim Ph. Meyer, art. Johannes Philoponos, na Realencyklopädie, t. ix, p. 311, l. 19). São João Damasceno, De haeres., 83, P. G., t. xciv, col. 744-755, cita dois fragmentos no texto grego: um provém do l. IV (Incip.: ὁ γὰρ κοινὸς καὶ καθόλου τῆς τοῦ ἀνθρώπου φύσεως λόγος. Des. : ταύτῃ φαμὲν δύο τινῶν εἶναι); o outro, o mais considerável, do l. VII (Incip. : ἑβδομός ἐστι λόγος, Des. : οὐδὲ κατὰ τοῦτο ἂν διαφέροιεν). Uma parte dessa mesma passagem (Incip.: οὐκοῦν ἑκάστη φύσις. Des. : ἣν μόνην ἐκ πασῶν ὁ λόγος προσείληφε) é reproduzida por Nicéforo Calisto, H. E., ibid., P. G., t. cxlvii, col. 425-428, com algumas omissões e algumas variantes. O conjunto do texto original desapareceu; mas a obra inteira conservou-se numa tradução siríaca que figura num ms. do British Muséum: Wright, Catalogue, t. ii, p. 587; cf. t. i, p. 114 e 388, e num ms. do Vaticano. Assémani, Biblioth. orientalis, t. iii, p. 250. Essa tradução é ainda inédita. O Διαιτητής é um escrito consagrado ao exame dos problemas trinitários e cristológicos.

Voltaremos a encontrá-los ao examinar o ensinamento teológico de Filopono.

2. Κεφάλαια δεκὰ καὶ ἑπτὰ πρὸς τοὺς ἀκεφάλους. Esta obra havia sido refutada por um monge de nome Nícias, cujo trabalho Fócio ainda lia, Cod. 50, P. G., t. ciii, col. 85. e João teve ocasião de citá-lo em seu Διαιτητής. Suidas, Lexicon, sub verbo Ἰωάννης, assinala entre os livros de João um escrito contra Severo de Antioquia (512-538); e Fabricius, Biblioth. græca, t. x, p. 652, pensa que os dezessete capítulos contra os acéfalos faziam parte desse escrito. K. Krumbacher, Geschichte der byzantinischen Litteratur, 2ª ed., p. 53, indica como contendo os capítulos em questão o cod. Vindobon. theolog. 196, f° 99 v°-130 v°.

3. Κατὰ τῆς ἁγίας καὶ οἰκουμενικῆς τετάρτης συνόδου. Fócio lia esta obra contra o concílio de Calcedônia. (Cod. 55, P. G., t. ciii, col. 97. O escrito em questão estava dividido em quatro partes e esforçava-se por provar, conforme a tática em uso entre os monofisitas, que a doutrina calcedoniana era idêntica ao ensinamento de Nestório.

4. Κατὰ τῶν ἐνθέως δογματισθέντων περὶ τῆς ἁγίας καὶ ὁμοουσίου τριάδος ὑπὸ τοῦ ἐν ἁγίοις Ἰωάννου ἀρχιεπισκόπου Κωνσταντινουπόλεως τοῦ ἀπὸ Σχολαστικῶν. Obra atestada por Fócio, de quem acabamos de citar o título, Cod. 75: P. G., t. ciii, col. 240, mas perdida, como a precedente. A obra de João Escolástico, patriarca (intruso) de 565 a 577, à qual Filopono devia responder aqui, era um Discurso catequético, pronunciado em 566. Fócio, id., ibid. O escrito de Filopono era, pois, um dos últimos, se não o último, de sua longa carreira. Nada conhecemos dele, senão que o autor nele citava textos patrísticos, totalmente alheios à questão, segundo Fócio.

Εἰς τὴν Ἑξαήμερον. Mencionado por Fócio, cod. 240, col. 1208-1213, este escrito é citado habitualmente sob o título: περὶ κοσμοποιίας λόγοι ζʹ. (Commentariorum in Mosaicam mundi creationem libri septem). A primeira edição desta obra foi publicada em 1535 em Veneza por Trincaveli. A mais recente e a melhor é a de H. Rabe, Joannes Philoponus de æternitate mundi contra Proclum. Leipzig, 1899. A Proclo, que reunira dezoito argumentos para demonstrar a eternidade do mundo, João Filopono responde com outras tantas contraproposições, cada uma das quais refuta um argumento de Proclo. A obra é longa, por vezes enfadonha; mas nela se encontram também algumas vistas interessantes. Proclo objetava, por exemplo, que a criação introduzia uma mudança em Deus, que não pode passar da potência ao ato, nem produzir, por conseguinte, um mundo no tempo. João responde que Deus é criador por natureza, ἕξις, sem sê-lo necessariamente em ato, ἐνέργεια: o fato de não criar nada lhe tira de seu caráter, assim como o pedreiro não deixa de ser pedreiro se não constrói, nem o professor de ser professor se não ensina. Aliás, o fato da criação não acarreta para Deus nenhuma mudança, assim como o fato de construir não produz mudança no construtor. Em toda parte o agente permanece o mesmo: o que é passivo é o único modificado para ser conduzido a um estado novo. A maior parte das soluções propostas por Filopono é tomada da filosofia aristotélica; outras se aproximam das doutrinas platônicas. Sua obra é propriamente filosófica e poderia igualmente ter sido escrita por um pagão, se o próprio dogma da criação, tão fortemente defendido, não fosse uma teoria cristã.

7. Περὶ ἀναστάσεως. A obra sobre a ressurreição está perdida. Fócio a lera, (Cod. 21, P. G., t. ciii, col. 57, e indicava o número de tomos que compreendia, mas o algarismo caiu em nossos mss de Fócio. Mas Timóteo de Constantinopla, De recept. hæretic., 10, P. G., t. lxxxvi a, col. 61, e Nicéforo Calisto, H. E., XVIII, XLVII, P. G., t. cxlvii, col. 124-125, conservaram-nos dela um fragmento (Incip. : τὰ αἰσθητὰ ταῦτα πάντα. Des. : δημιουργεῖσθαι ὑπὸ θεοῦ), segundo o qual aprendemos que as criaturas sensíveis e visíveis foram chamadas por Deus à existência segundo a matéria e a forma; que, por conseguinte, elas também se corrompem segundo a matéria e a forma. É por isso que, no lugar de nossos corpos atuais, Deus criará outros corpos incorruptíveis e eternos. Vê-se que, nesse sistema, a ressurreição dos corpos é substituída pela entrada de nossas almas racionais em corpos novos. A teoria de Filopono encontrou numerosos contraditores. Entre eles, Fócio cita, Cod. 22, P. G., t. ciii, col. 60, o monge Teodósio, que reuniu testemunhos escriturísticos e patrísticos para mostrar a vaidade do sistema de João; e ainda, Cod. 23, P. G., t. ciii, col. 60, uma obra de Conon, Eugênio e Temístio, consagrada também a estabelecer, mas por provas filosóficas, o dogma da ressurreição. Deste último escrito, algumas linhas nos foram transmitidas por Timóteo de Constantinopla, De recept. hæret., 10, P. G., t. lxxxvi a, col. 61 e por Nicéforo Calisto, H. E., loc. cit., P. G., t. cxlvii, col. 425: ainda assim, a citação não é talvez inteiramente textual.

8. Περὶ ἀγαλμάτων κατὰ Ἰαμβλιχοῦ. Obra perdida, mas atestada por Fócio, Cod. 215, P. G., t. ciii, col. 708. À teoria bem conhecida de Jâmblico, segundo a qual as estátuas dos ídolos estão cheias da presença divina, Filopono respondia com argumentos variados: vários desses argumentos pareciam muito fortes, segundo Fócio; outros pareciam, ao contrário, menos sólidos; é pena que não possamos mais apreciar nós mesmos o valor dessas provas.

9. Disputatio de Paschate, ὅτι τῇ τρισκαιδεκάτῃ τῆς σελήνης πρὸ μιᾶς τοῦ νομικοῦ πάσχα τὸ μυστικὸν τοῦ κυρίου γέγονε δεῖπνον καὶ ὡς οὐ τὸν ἀμνὸν τότε μετὰ τῶν μαθητῶν ἔφαγεν ὁ Χριστός. Este pequeno escrito chegou até nós, e foi editado por último por C. Walter, Iena, 1899. O título marca o conteúdo com precisão suficiente. João esforça-se por mostrar nele que Cristo comeu a Ceia no dia 13 de nisã e, por conseguinte, que não pôde então celebrar a Páscoa segundo o rito judaico.

10. Apologiæ duæ pro Diaitete, seu solutio objectionum quæ contra Diaitetem afferuntur. Assémani, Biblioth. orient., t. i, p. 613; t. iii, p. 251.

11. De universali et particulari tractatus ad Sergium presbyterum. Ibid., t. i, p. 613.

12.

De differentia quœ manet in Christo post unionem hypostaticam. Ibid. 13. Epistola ad Justinianum imperatorem. Ibid., e A. Mai, Spicilegium romanum, t. iii, p. 739. 14. De divisione, differentia et numero ad Justinianum imperatorem. Assémani, Biblioth. orient., t. i, p. 613. 15. Contra Andream disc. IV. Wright, Catalogue, t. ii. p. 917. 16. Quæstiones, dirigidas a Cristóvão e a outros. Assémani, Biblioth. orient., t. i, p. 105.

Como se vê, a lista das obras de Filopono forma um conjunto imponente. Seria de desejar que um estudo completo fosse consagrado a um escritor tão fecundo quanto variado: esse desejo que formulava K. Krumbacher em 1897 ainda não foi realizado, apesar do interesse que apresentaria tal trabalho consagrado a uma das personalidades mais marcantes do século VI.

III. Ensinamento teológico. — Só nas questões da Trindade e da Encarnação é que o ensinamento teológico de João Filopono apresenta um interesse real. Mesmo assim, para bem compreender esse ensinamento, seria preciso poder recolocá-lo em seu quadro exato, o que ainda é praticamente impossível, e o continuará sendo enquanto não possuirmos uma história completa do movimento monofisita. Leôncio de Bizâncio dá da doutrina de Filopono um resumo que é preciso citar primeiro: «Enquanto Teodósio ainda ocupava a sé em Bizâncio, o dogma dos trideístas apareceu de novo: o heresiarca foi Filopono. Este, com efeito, propunha à Igreja esta objeção: Se dizeis duas naturezas em Cristo, é preciso que digais também duas hipóstases. Ao que a Igreja respondia: Se a natureza e a hipóstase são a mesma coisa, é-nos necessário confessar a indistinção. τὸ ταὐτόν. Mas se a natureza é uma coisa e a hipóstase outra, por que seríamos obrigados, quando dizemos duas naturezas, a confessar também duas hipóstases? Os hereges respondiam então à Igreja: Sim, a natureza e a hipóstase são a mesma coisa. Então a Igreja retomava: Se a natureza e a hipóstase são a mesma coisa, diremos, pois, que há três naturezas na Trindade divina? pois admite-se que há três hipóstases. A essa conclusão da Igreja, Filopono replicava: Seja! dizemos que há três naturezas na Trindade. Falando assim, apoiava-se na autoridade de Aristóteles. Pois Aristóteles diz que os indivíduos, ἄτομα, possuem μερικαὶ οὐσίαι, e que há uma só οὐσία comum. Do mesmo modo Filopono explicava que há três μερικαὶ οὐσίαι na santa Trindade, e uma οὐσία comum.» De sectis, act. v, 6, P. G., t. lxxxvi a, col. 1232-1233.

No ponto de partida da teoria encontram-se definições da natureza, da hipóstase, do πρόσωπον e do ἄτομον. A natureza é a razão comum de todo o ser em todos os que participam da mesma: o homem, por exemplo, é um animal racional, mortal e capaz de ciência. A natureza e a ousia são, pois, a mesma coisa. Quanto à hipóstase ou ao πρόσωπον, essas palavras designam a subsistência particular de cada natureza, τὴν ἰδιάζουσαν τῆς ἑαυτῆς φύσεως ὕπαρξιν, caracterizada pelas propriedades particulares segundo as quais diferem todos os que têm a mesma natureza. João Filopono, Arbit., vii, em João Damasceno, De hœres., 83, P. G., t. xciv, col. 715. Por outro lado, a natureza, enquanto essa palavra designa o gênero ou a espécie, só existe fora de nosso espírito nos indivíduos que a realizam; mas aí se confunde com a pessoa ou a hipóstase, não sendo esta, como se acaba de ver, senão a natureza particularizada pelos caracteres individuantes. Assim a natureza só existe como indivíduo, e o indivíduo é a pessoa: ἄτομον δὲ ταὐτὸν εἶναι καὶ ὑπόστασιν χρὴ δεχθῆναι. Ibid., col. 753.

Resulta daí que, quando dizemos μία φύσις τοῦ Θεοῦ Λόγου σεσαρκωμένη, queremos exprimir que é a única φύσις do Deus Verbo que se encarnou; logo, também a sua única hipóstase. Ibid., col. 718. A humanidade de Cristo, uma vez que existe, é individual; mas não é uma natureza, caso contrário seria uma pessoa; o que é impossível, pois não há em Cristo senão uma só pessoa: δύο φύσεις ὁμολογοῦσι νοοῦν καὶ ἀριθμὸν ibid., col. 752. Assim o monofisismo se vê confirmado pela filosofia aristotélica; e os partidários do concílio de Calcedônia são levados a uma contradição: Todos os que reconhecem uma só hipóstase e duas naturezas estão em desacordo consigo mesmos e com a verdade, 1 col. Aplicando essas teorias à Trindade, é lógico concluir que, uma vez que há em Deus três pessoas, há também três naturezas divinas: ἀνάγκη τρεῖς φύσεις λέγειν ἐπὶ τῆς ἁγίας Τριάδος. Leôncio, De sect., act. v, 6; P. G., t. lxxxvi a, col. 1233.

Daí o nome de triteístas que foi dado aos discípulos de Filopono. Não quer dizer, aliás, que admitissem realmente três deuses, e Timóteo observa bem que, embora confessassem três substâncias (οὐσίαι ou naturezas φύσεις) iguais, recusavam energicamente falar de três divindades. De recept. haeretic., P. G., t. lxxxvi, a, col. 60. Seria interessante saber se João Filopono foi o inventor dessa teoria, ou se outros o haviam precedido na via do triteísmo. Leôncio de Bizâncio, De sect., act. v, 6; P. G., t. lxxxvi a, col. 1233, parece bem afirmar que João foi o primeiro a introduzir o triteísmo na Igreja. Barhebreu, em Assémani, Biblioth. orient., t. ii, p. 328, atribui, ao contrário, a origem da doutrina a um filósofo bastante obscuro do século VI, João Askunages. A questão ainda está sem solução. Bastará aqui notar que a autoridade de Barhebreu é bastante fraca. Cf. J. Tixeront, Histoire des dogmes, t. iii, p. 195 sq.

A doutrina de Filopono encontrou logo certo número de defensores, entre os quais Fócio nos dá a conhecer Conon, Eugênio e Temístio. Estes refutavam as teorias de João sobre a ressurreição, mas o seguiam em suas opiniões sobre a Trindade. Fócio lera, Cod. 24, P. G., t. ciii, col. 60, os Acta disputationis inter Cononem et Eugenium tritheitas et Paulum ac Stephanum, de onde resultava que Conon e Eugênio haviam recusado anatematizar Filopono, e se haviam esforçado por provar que estava de acordo com Severo e Teodósio. Em contrapartida, sabemos que as teorias de Filopono foram vivamente contraditas, pouco tempo depois de seu aparecimento. Nicéforo Calisto, H. E., XVIII, xlviii, P. G., t. cxlvii, col. 428, assinala entre seus adversários mais temíveis o monge Leôncio e Jorge de Písidia, que escreveu contra ele em versos iâmbicos. Outro monge, Nícias, segundo o testemunho de Fócio, Cod. 50, P. G., t. ciii, col. 85, refutou os capítulos contra os acéfalos. Por volta de 580, Jorge, bispo de Tagrit, escreveu igualmente contra João. Assémani, Biblioth. orient., t. i, p. 165. Anastácio de Antioquia (✝ 599) compôs também um livro (perdido) contra Filopono. Cf. Pitra, Juris ecclesiastici graeci historia et documenta, t. ii. p. 238 sq. Sem dúvida poder-se-iam ainda indicar outros inimigos literários de nosso autor. Sua doutrina, aliás, tão absolutamente oposta ao cristianismo, não podia ter nenhuma chance de êxito. Não tardou a tornar-se, para os heresiólogos, um simples objeto de curiosidade.

J. A. Fabricius-Harles, Bibliotheca graeca, Hamburgo, 1807, t. x, p. 639-669; F. Trechsel, nos Theologische Studien und Kritiken, 1835, t. viii, p. 95-118; J. M. Schönfelder, Die Kirchengeschichte des Johannes von Ephesus, Munique, 1892, p. 286-297; Steinschneider, Johannes Philoponus bei den Arabern, nas Mémoires de l'Académie des Sciences de Saint-Pétersbourg, 1869, t. xiii, p. 152-176; 220-221; 250-252; A. Stöckl, art. Johannes Philoponos, no Kirchenlexicon, t. vi, col. 1748-1755; K. Krumbacher, Geschichte der byzantinischen Litteratur, 2ª ed., Munique, 1897, p. 53, 581-582, 621, 624; P. Meyer, art. Johannes Philoponos na Realencyclopädie für protestantische Theologie und Kirche, t. IX, p. 310-311 ; P. Duhem, Le système du monde. Histoire des doctrines cosmologiques de Platon à Copernic, Paris, 1913, t. i, p. 313-321 ; 351-356; 361-371 ; 381-385 sq.; 1911, t. ii, p. 108-112; 169-471 ; 194-501 et passim; U. Chevalier, Bio-bibliographie, 2ª ed., t. ii, col. 2170 sq. ; T. W. Davids, art. Joannes Philoponus, no Dictionary of Christian biography t. iii, p. 125-427 ; Wolf, art. Johannes Philoponus, em Pauly-Wissowa, Realencyclopädie der classischen Altertumswissenschaft, t. ix. col. 1791-1795.

Gustave Bardy.

Autor original: Gustave Bardy

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