JERÔNIMO DE PRAGA

JERÔNIMO DE PRAGA

JERÔNIMO DE PRAGA, companheiro de João Hus, queimado como herege em Constança em 30 de maio de 1416. — I. Jerônimo antes do concílio de Constança. — II. Jerônimo no concílio.

I. JERÔNIMO ANTES DO CONCÍLIO DE CONSTANÇA. Estamos bastante mal informados sobre as origens e os começos na vida pública desse personagem, cujo curriculum vitae não é fácil reconstituir. É aos interrogatórios que Jerônimo sofreu por ocasião de seu processo que devemos o mais claro de nossos conhecimentos; fazem-se ali numerosas alusões a diversos acontecimentos de sua vida. Por infelicidade, a maior parte das datas atribuídas a esses fatos não pode ser aceita com certeza, seja porque se deva incriminar a exatidão dos próprios testemunhos, seja porque se deva lançar a culpa sobre os copistas que nos transmitiram esses textos. Sabe-se, com efeito, que não se conservou ata autêntica completa dos atos do concílio de Constança. Sob o benefício dessas observações, eis como se pode restituir a carreira de Jerônimo de Praga antes do concílio de Constança.

Nasceu na capital da Boêmia, de uma família de pequena nobreza, sobre a qual não temos outras informações. A data de seu nascimento pode ser conjecturada pelo fato de que Jerônimo foi recebido bacharel em artes em 1398. Se seguiu o curso regular dos estudos, devia então ter uns vinte anos; teria, pois, nascido por volta de 1378, uns dez anos depois de João Hus. Ligou-se cedo com este último, que desde 1398 ocupava na universidade de Praga uma situação de destaque; é graças a ele que Jerônimo obteve em fevereiro de 1399 a dispensatio biennii, isto é, a dispensa da obrigação de ensinar durante dois anos, à qual estavam sujeitos os bacharéis antes de tomar o título de Mestre. Espírito vivo, penetrante, muito desejoso de instruir-se, Jerônimo tinha, com efeito, a intenção de visitar os principais centros intelectuais da Europa. Oxford sobretudo o atraía; havia vinte anos, relações regulares se haviam estabelecido, graças aos acontecimentos políticos, entre a Inglaterra e a Boêmia. Por seu favor, os livros e as opiniões de Wiclef, morto desde 1384, mas cuja influência permanecera grande em Oxford, haviam encontrado o caminho de Praga. Se as obras teológicas do pároco de Lutterworth ainda eram desconhecidas na Boêmia, suas obras filosóficas haviam atraído cedo a atenção. Apaixonavam-se em particular pelo audacioso realismo desse mestre, que fazia um contraste tão vivo com o seco nominalismo então em voga em todas as universidades do continente.

É incontestavelmente a doutrina filosófica de Wiclef que atraiu primeiramente a Oxford Jerônimo de Praga. Mas ele tomou gosto ainda muito mais pelos ensinamentos teológicos desse doutor. Apesar das condenações que desde 1382 haviam atingido grande número de teses wiclefistas e os livros que as continham, ainda era possível obter em Oxford as duas obras mais significativas do inovador, o Dialogus e o Trialogus. É por elas que Jerônimo se iniciou nas reivindicações de Wiclef, em suas acerbas críticas contra as perversões eclesiásticas da época. Percebeu ele que várias das teses sustentadas, notadamente as relativas aos sacramentos, e em particular à eucaristia e à ordem, iam de encontro às doutrinas tradicionais? Não é certo; Jerônimo não deve ter visto em Wiclef senão o ardente apóstolo dessa reforma da Igreja, cuja imperiosa necessidade tudo então proclamava, e que os melhores espíritos da época reclamavam em altos brados.

Quando, em 1402, Jerônimo voltou a Praga, trazia consigo o Dialogus e o Trialogus. O momento era favorável à propagação de tais escritos. O mesmo vento de revolução que acabava de passar sobre a Inglaterra começava a soprar em Praga. Desde março de 1402, João Hus, pregador na capela de Belém, inaugurava seu papel de reformador. Não se poderia encontrar terreno mais bem preparado para o desenvolvimento das ideias teológicas de Wiclef. Em torno das teses vindas de Oxford, as discussões foram logo se exacerbando. Não parece que Jerônimo tenha tomado parte considerável nesses debates que preencheram o ano de 1403; quando, por ocasião de seu processo, o acusarem de haver sustentado nessa época teses wiclefistas, responderá que estava então em Jerusalém. Não temos nenhuma razão para rejeitar esse álibi.

Grande viajante, Jerônimo reencontra-se em Paris em 1404, em Heidelberg e em Colônia em 1406; em cada uma dessas universidades faz-se receber mestre em artes. Em cada uma também atrai para si dificuldades bastante graves; parece, aliás, que estas lhe vieram antes das teses filosóficas que sustentava do que de ensinamentos heterodoxos que teria espalhado. É sempre o realismo exagerado que se ataca nele. Jerônimo compraz-se em afixar, nas diversas escolas, as teses mais extremadas do realismo wiclefista, e as apresenta um pouco facilmente demais como ligadas à doutrina teológica. Tratar-se-á, mais adiante, de um certo «escudo da fé», scutum fidei, que ele imaginou e que apregoa no mundo dos estudos. É um grande quadro em que as relações entre a essência comum, de um lado, e, de outro, os diversos indivíduos nos quais ela se especifica são assimiladas às relações que se estabelecem entre a essência divina e as três pessoas da santíssima Trindade. Ver uma reconstituição desse quadro em Fontes rerum austriacarum, t. vii, p. 20.

Em 1407, Jerônimo voltou a Praga, onde é recebido no número dos mestres em artes. Permanecido leigo, nunca tomará os graus em teologia; mas essa circunstância não o impede de lançar-se com todo o seu ardor nas questões religiosas. É o momento em que as discussões em torno das teses propriamente wiclefistas atingem seu paroxismo; é o momento em que as ideias de reforma religiosa encontram, na reação nacionalista tcheca, um aliado inesperado. João Hus e Jerônimo de Praga são os grandes artífices do movimento que, em 1409, varreu da universidade os alemães que até então ali falavam como senhores. Inteiramente eslavizada, a nova universidade abre-se cada vez mais largamente às influências wiclefistas. Nas ardentes lutas que se seguem à publicação da bula de Alexandre V, o novo eleito do concílio de Pisa, contra os erros de Wiclef, Jerônimo se faz notar por sua brilhante eloquência, seu extraordinário ardor.

Mais ainda do que João Hus, ele é o chefe da juventude universitária, que toma violentamente partido contra os representantes oficiais da Igreja. Praga logo é um teatro estreito demais para o seu zelo de reformador. Trata-se de ganhar para o wiclefismo os países vizinhos da Boêmia: Hungria, Croácia, Áustria, Polônia. Talvez, antes de empreender essa viagem de propaganda, Jerônimo tenha ido retemperar-se em Oxford nas fontes puras do espírito reformador. Parece, com efeito, que se deve referir a essa época (1409-1410) uma carta da universidade de Praga dirigida à universidade de Oxford, para interceder em favor do mestre Jerônimo, que palavras suspeitas fizeram encarcerar. Palacky, Documenta, p. 330. Seja como for, encontra-se Jerônimo em Buda na quinta-feira santa de 1410, discursando diante do rei Sigismundo contra os vícios do clero e pregando a reforma da Igreja. Por queixa do arcebispo de Praga, é preso e posto na prisão pelo bispo de Gran. Encontra meio de fazer-se pôr em liberdade; em agosto está em Viena, talvez depois de haver passado de novo por Praga, onde bem poderia ter assistido às justas teológicas relativas às proposições de Wiclef que preenchem o fim de julho de 1410.

Em Viena, as coisas se estragam seriamente. As palavras de Jerônimo talvez houvessem revestido uma veemência particular; o oficial do bispo de Passau (ainda não há sede episcopal em Viena) cita Jerônimo a comparecer diante de uma deputação da universidade de Viena. Censuram-lhe haver ensinado algumas das quarenta e cinco teses wiclefistas, e objetam-lhe sua atitude dos anos anteriores em Colônia e em Heidelberg. Para permanecer em liberdade, Jerônimo jura sobre os evangelhos não deixar a cidade antes de haver dado toda satisfação sobre sua doutrina; mas falta à palavra e foge de Viena, sob o pretexto de que todo o processo fora conduzido contrariamente ao direito. Julgado à revelia, é declarado veementemente suspeito de heresia; essa sentença é afixada às portas da igreja de Santo Estêvão de Viena, em Cracóvia e em Praga. Sobre o processo de Viena, ver Ladislas Klicman, Processus judiciarius contra Jeronymum de Praga habitua Viennae, anno 1410-1412, dans Historisches Archiv der tschechischen Akademie, n. 12, Praga, 1898.

De Viena, Jerônimo havia fugido para a Morávia. Reencontra-se-o novamente em Praga em 1412, ao lado de João Hus. As querelas religiosas, por um instante adormecidas no fim de 1411 pelo apelo de João Hus à Santa Sé, retomavam com mais força em torno da questão das indulgências. Com uma violência da qual o próprio Hus se espanta, Jerônimo ataca a bula de João XXIII, que pregava a cruzada contra Ladislau de Nápoles, o sustentáculo de Gregório XII, e concedia a indulgência plenária aos que dela participassem. No concílio de Constança, acusarão Jerônimo de haver sido o organizador da procissão burlesca em que a bula pontifícia foi passeada pelas ruas de Praga, suspensa ao pescoço de uma mulher de vida fácil, para ser em seguida solenemente queimada. Jerônimo declarou, é verdade, que nada tinha que ver com essa paródia, da qual parece que o encenador foi Woksa de Walstein, um dos favoritos do rei Venceslau. Nem por isso deixa de ser certo que Jerônimo, nessas conjunturas, se aplicou a atiçar a indignação popular. Foi ele, com efeito, que, depois da execução judicial de três jovens que haviam perturbado a pregação da indulgência, fez aos «primeiros mártires» funerais triunfais, em 11 de julho de 1412.

Desde os últimos meses desse mesmo ano de 1412, João Hus, ferido de excomunhão pontifícia, tivera de deixar Praga, ou de ali permanecer apenas incógnito. Jerônimo, não menos suspeito, tivera de afastar-se. Encontra-se-o em 1413 em Cracóvia, na corte do grão-duque Vitold. No curso de uma de suas expedições à Rússia e à Lituânia, que ele acompanha, essa viagem de Jerônimo por países cismáticos faz-se notar pelas atenções que prodigaliza aos heterodoxos, cujos ritos teria afetado venerar mais do que os da Igreja católica. Todas essas diligências de Jerônimo não passavam despercebidas. Em Viena, um professor da universidade, João Sybart, dizia abertamente que o mestre em artes de Praga fora a Cracóvia para recrutar adeptos de sua heresia. Carta de João Hus, de 1º de julho de 1413, em Palacky, Documenta, p. 63.

II. JERÔNIMO NO CONCÍLIO DE CONSTANÇA. — Entretanto, o estado de anarquia em que desde havia quarenta anos se debatia a Igreja, estado que tudo contribuíra para o progresso das ideias heterodoxas, parecia dever chegar ao fim. O concílio convocado em Constança para 1º de novembro de 1414 ia logo se impor a todos como a única autoridade capaz de fazer prevalecer suas decisões. Compreende-se como os dois reformadores tchecos se sentiram constrangidos, um depois do outro, a vir a Constança, onde os esperava o mesmo trágico destino. Coisa estranha, ambos ali vieram de sua livre vontade, impelidos, contudo, por uma invencível atração para essa cidade onde se concentrava por um momento toda a autoridade da Igreja. Ambos ali vieram pelas mesmas razões, mais ou menos obscuramente percebidas: solícitos dessa ideia de reforma eclesiástica que assombra toda a cristandade, têm a necessidade de desvinculá-la dos conceitos heterodoxos em que eles próprios a comprometeram; querem justificar a jovem nação tcheca da censura de heresia que já se cola a seu nome; eis quanto à defensiva. Pensam tomar a ofensiva; esperam ganhar para as suas visões reformadoras a alta assembleia onde tantos bons espíritos pensam como eles no essencial? Não é proibido supô-lo. É como apóstolos da reforma que deixam a Boêmia. Mas mal transpuseram a fronteira, sentem-se acusados, quase condenados.

Hus partiu primeiro, em 11 de setembro de 1414; Jerônimo, no momento da partida, prometeu-lhe ir juntar-se a ele, se fosse preciso, para ampará-lo e defendê-lo. Ora, desde o mês de dezembro de 1414, Hus, prisioneiro apesar do salvo-conduto imperial, sente que a partida está perdida, que tudo conspira ali contra a ideia da reforma à moda tcheca. Manda dizer a seus amigos de Praga que ninguém venha juntar-se a ele. Palacky, Documenta, carta 50, p. 89-90. Tal recomendação não era feita para deter Jerônimo. Na quaresma de 1415, põe-se a caminho de Constança, alimentando talvez as mesmas ilusões que haviam decidido seu amigo a ir ao concílio.

Como ele, parte sem salvo-conduto, esperando que nada lhe será mais fácil do que fazer respeitar os direitos da defesa. Ainda não chegara a Constança e já sente caírem todas as suas ilusões. Chegado incógnito em 4 de abril, é sem dúvida informado pelos nobres boêmios do verdadeiro rumo que toma o processo de João Hus. Imediatamente deixa a cidade, dirige-se a rlingen e endereça ao concílio um pedido de salvo-conduto. Ao mesmo tempo, manda afixar em Constança um aviso, no qual se declara pronto, ele, Jerônimo de Praga, mestre em artes de Paris, Heidelberg, Colônia e Praga, a prestar contas de seus ensinamentos e doutrinas, acrescentando aliás que não recusa, caso seja achado em algum erro ou heresia, sofrer publicamente a pena, prout erronrum teu hœreticum itecet. Não vendo vir o salvo-conduto, Jerônimo começa a conceber temores. Munido de uma carta que lhe entregaram os nobres tchecos, e que deve servir-lhe para justificar seu regresso a Praga, retoma, sempre incógnito, o caminho da Boêmia. A veemência de algumas palavras que profere faz que seja reconhecido e preso em Hirschau.

É boa presa, pois justamente alguns dias mais tarde, sem dúvida em 17 de abril, o concílio respondera ao seu pedido de salvo-conduto com uma citação em regra. Jerônimo é intimado a apresentar-se diante da assembleia para responder às acusações que possam ser feitas contra ele em matéria de fé: ad quod a violentia (justitia semper salvat onuuni tibi salvum conductum nostrum offerimus. Essa última frase pretendia pô-lo ao abrigo de toda violência ilegal, mas não lhe assegurar a impunidade no caso de ser reconhecido culpado. Em 1º de maio a citação é renovada; no dia seguinte, na vne sessão geral, o promotor mestre Piro de Colônia requer do concílio que Jerônimo seja declarado contumaz, e obtém prosseguir o processo contra ele. O procedimento por contumácia seria, aliás, evitado. Atirado de cárcere em cárcere, ao acaso das jurisdições feudais que atravessava, Jerônimo chegava a Constança em 25 de maio, algemado, com uma corrente de ferro à cintura. Era num equipamento quase tão deplorável que, na véspera, o papa João XXIII, prisioneiro do concílio, havia feito sua entrada em Constança, para ouvir-se depor em 29 de maio.

Um primeiro interrogatório sumário teve lugar na chegada de Jerônimo de Praga. Gerson, chanceler da universidade de Paris, um mestre de Colônia, outro de Heidelberg, fizeram-lhe algumas perguntas sobre as teses filosóficas relativas ao problema dos Universais que ele havia sustentado nessas diversas escolas. Mas não era aí o ponto vivo do debate. De resto, o concílio tinha por ora outras preocupações: em 29 de maio concluía-se o processo de João XXIII, para abordar em seguida o de João Hus. Encerrado na torre do cemitério de São Paulo, submetido ao mais rude cativeiro, Jerônimo deverá aguardar o desfecho da ação movida contra seu amigo. Não parece que tenha podido comunicar-se diretamente com ele. Na véspera de seu suplício, que teve lugar em 6 de julho, João escreve a seus amigos da Boêmia que não tem nenhuma notícia de Jerônimo: sabe somente que está numa dura prisão, que, como ele próprio, espera a morte, carta lxxi, Palacky, p. 117; João espera que Jerônimo sofra a morte com ainda mais coragem do que ele próprio. Carta lxxxvi, ibid., p. 140.

O suplício de João Hus havia exasperado ao mais alto ponto a agitação da Boêmia. O cisma se declarava abertamente em Praga. Uma nova execução arriscava comprometer definitivamente a causa da unidade. É esta sem dúvida a razão pela qual o promotor do concílio empregou todos os meios para obter de Jerônimo uma abjuração que o salvaria do suplício, um desmentido das doutrinas professadas por João Hus, uma aprovação da sentença proferida contra este. Energicamente trabalhado pelo cardeal de Florença, vencido por um duro cativeiro que logo deu cabo de sua robusta constituição, Jerônimo decidiu-se a fazer o que dele se esperava. Numa congregação pública realizada em 11 de setembro de 1415, leu uma fórmula de retratação escrita inteiramente de seu punho. Mas queria-se dar a esse ato mais solenidade fazendo-a reiterar na xve sessão geral, que se realizou em 23 de setembro. Jerônimo teve de reler ali o texto fornecido anteriormente por ele.

Anatematizava ali toda heresia e especialmente aquela da qual era suspeito, e que era a heresia de João Wiclef e de João Hus; aceitava a autoridade da Igreja e a do concílio, especialmente no que concerne ao poder das chaves, aos sacramentos, à ordenação, aos ofícios e censuras eclesiásticas, às indulgências, às relíquias dos santos, às cerimônias, às liberdades da Igreja; em suma, rejeitava os 45 artigos de Wiclef, já tantas vezes condenados, e os 30 artigos de Hus, condenados também pelo concílio; vários desses artigos eram notoriamente heréticos, outros blasfemos, errôneos ou pelo menos escandalosos. Vinha em seguida uma explicação da conduta adotada por Jerônimo nas teses relativas ao problema dos Universais. Ninguém lhe censurava seu realismo, por exagerado que fosse, mas pedia-se-lhe que declarasse, o que fez, que não ligava a verdade desse sistema aos dogmas da fé. Explicava em seguida como havia podido admitir de boa-fé a inocência de João Hus, mas que então, plenamente convencido da culpabilidade deste, compreendia que havia sido justamente condenado, ele e sua doutrina, como herético e insensato. Seguia-se uma explicação sobre alguns termos empregados por ele na sessão precedente e que podiam dar lugar a mal-entendido. O todo terminava por uma protestação de fidelidade à Igreja. «Se nisso faltar, concluía Jerônimo, quero incorrer em toda a severidade dos cânones e expor-me à pena eterna: canonum severitati subjaceam et œternœ pœnœ obligatus inveniar.»

A abjuração de Jerônimo não acarretava por si só a libertação imediata, que este havia calculado. Foi mantido na prisão, numa situação mais branda, é verdade, do que antes. Esperava-se dele, com efeito, uma diligência sobre cuja eficácia muitos contavam.

Cartas de Jerônimo endereçadas ao rei, à rainha, à nobreza da Boêmia, aos partidários de João Hus, nas quais seriam altamente reconhecidas a culpabilidade do reformador e a justiça de sua execução, teriam o melhor efeito, pensava-se, para reconduzir todo o partido hussita a uma apreciação mais sã das coisas. Jerônimo havia, desde 12 de setembro, entrado nesse caminho e escrevera nesse sentido a Lackon de Krawar. A carta em Palacky, Documenta, p. 59s. Mas logo recusou continuar. Essa atitude fez suspeitar da sinceridade de sua retratação. No fim de outubro, Gerson publicava um opúsculo De protestatione ac revocatione in rebus fidei, que fazia uma alusão apenas velada à enojosa postura em que Jerônimo arriscava colocar-se. Certo número de altas personalidades conciliares, é verdade, d'Ailly, o cardeal des Ursins, o cardeal de Florença, eram de parecer que se pusesse Jerônimo em liberdade. Mas os adversários de Jerônimo, Miguel de Causis e Estêvão Palecz, aproveitaram habilmente certas acusações feitas contra Jerônimo por alguns carmelitas recentemente chegados de Praga e que outrora haviam podido ser vítimas das violências do cavaleiro. Fez-se tanto e tão bem que se decidiu que o processo de Jerônimo seria retomado de novo, que os antigos juízes seriam desapossados e que uma nova investigação seria conduzida pelo patriarca latino de Constantinopla, João de Rupescissa.

Como Jerônimo não deixara escritos, todo o processo devia decorrer por audição de testemunhas. Em 27 de abril de 1416, os comissários delegados depunham seu relatório em congregação pública. Haviam elaborado uma lista dos fatos apurados contra o acusado; essa lista foi ainda aumentada pelos cuidados do promotor. O texto em von der Hardt, t. iv, p. 629-683, e em Mansi, Concil., t. xxvii, col. 840-863; encontrar-se-á um resumo bastante suficiente em Hefele-Leclercq, t. vii a, p. 377-387. Podem-se, em suma, reduzir a duas categorias os capítulos de acusação: Jerônimo fez-se propagador das ideias de Wiclef quando já conhecia tanto a malícia delas quanto a condenação lançada contra elas. Apoiou essa propaganda em numerosos atos de violência, que testemunham seu apego obstinado às doutrinas proscritas. Esses diversos capítulos de acusação seriam submetidos ao réu, que deveria responder, sob a fé do juramento, às diversas perguntas que lhe seriam feitas.

Assim acuado, Jerônimo fez frente da melhor maneira que pôde. Empenhou-se em mostrar aos comissários investigadores que os atos de violência que lhe censuravam haviam sido ou exagerados ou mal interpretados; que, por outro lado, as doutrinas wiclefistas, às quais aderira, não eram um bloco a aceitar ou a rejeitar sem mais, e que muitas proposições condenadas eram suscetíveis de uma interpretação mais benigna. Num só ponto Jerônimo julgava que era preciso separar-se nitidamente de Wiclef e, se necessário, de João Hus: tratava-se da doutrina da transubstanciação, que Jerônimo declarava aceitar sem rodeios, ao passo que os dois inovadores pareciam ter ensinado a doutrina da remanência e mais ou menos comprometido o dogma da presença real.

Essa tática, adotada nos interrogatórios privados, Jerônimo a retomou em sessão pública na congregação geral de 23 de maio de 1415. Havia pedido com muita instância essa comparência pública; esperava sem dúvida que lhe seria permitido expor ali oratorio modo o conjunto de suas ideias sobre a reforma da Igreja. Confiante em sua eloquência, lisonjeava-se talvez de voltar a seu favor uma assembleia que pusera em sua ordem do dia a extinção dos abusos de que sofria a cristandade. Sua esperança foi frustrada; teve de responder de novo a todas as chicanas de detalhe acumuladas com uma minúcia de procurador pela acusação. Nessa defesa perdia a maior parte de suas vantagens. Várias vezes, contudo, aconteceu-lhe conquistar, por suas réplicas vivas e espirituosas, a simpatia da assembleia; sorrisos benevolentes acolheram algumas de suas respostas, como Poggio, que assistia à sessão, o notou muito bem. Mas foi preciso uma nova audiência, em 26 de maio, para esgotar a interminável lista de queixas acumuladas contra ele. Tendo as testemunhas, aliás, mantido os diversos pontos contestados por Jerônimo, o patriarca de Constantinopla concluiu declarando que o acusado era quadrupliciter de haeresi convictum, o que deve entender-se, ao que parece, não de quatro pontos especiais nos quais Jerônimo teria sido convencido de heresia, mas antes da energia da convicção que o processo deixara na alma do prelado relativamente à culpabilidade do réu.

Restava apenas deixar-lhe a palavra para sua defesa. Antes, fez-se-lhe notar que, se quisesse retratar seu erro, revocare errorem suum, o concílio em sua misericórdia ainda estava pronto a recebê-lo no seio da Igreja, mas que, no caso contrário, se procederia contra ele juxta juris dispositionem. Segundo Poggio, que deixou de toda essa sessão uma narração muito viva, o discurso de Jerônimo foi uma maravilha de eloquência, digna de ser posta em paralelo com o que os oradores clássicos deixaram de mais famoso. Sua argumentação geral não deixara de causar grande impressão nos Padres do concílio. Partindo dos grandes exemplos de acusações injustas e caluniosas da antiguidade profana e sagrada, Jerônimo esforçava-se por explicar as razões que tinham seus inimigos de conjurar sua perda. Seu processo não era outra coisa senão uma represália dos alemães contra o nacionalismo tcheco, e tudo isso dito com tanta verve parecia tão verossímil que muitos se sentiam inclinados à misericórdia.

Mas a última parte do discurso estragou tudo; esperava-se que Jerônimo lamentasse seus possíveis erros e pedisse perdão por eles. Ao contrário, com um ardor extraordinário retratou sua abjuração do ano precedente, arrancada, dizia, pelo terror que lhe inspirava a fogueira; proclamou altamente a inocência, a santidade de João Hus, retirou a carta escrita por ele a Praga para aprovar a condenação de seu mestre e amigo. Acrescentou, enfim, que aderia em geral às doutrinas de Wiclef, salvo no que dizia respeito ao sacramento do altar: ubi ipsi Joannes Wiclefus et Joannes Hus quoad sacramentum altaris dixerunt contra doctores Ecclesiœ eorum opinionem quoad illam partem non sequitur neque eam tenet.

Quanto a todos os pontos de fé, cria o que a Igreja cria; Wiclef e João Hus, salvo o ponto acima, não haviam crido outra coisa, mas haviam-se levantado com força contra o orgulho, o fausto, a pompa dos prelados, contra as enormes desordens com que se escandalizava a Igreja. Falando assim, Jerônimo, bem o sabia, pronunciava a sua própria condenação. Já não era apenas herético, mas relapso, isto é, quaisquer que pudessem ser seus sentimentos ulteriores, passível da pena capital. Teoricamente, poderia ter sido entregue ao braço secular em plena sessão. Parece que o concílio quis prevenir uma execução precipitada. Deixaram-se ao acusado dois dias para refletir, esperando talvez que se retratasse e que, em violação aliás da jurisprudência da época, se lhe pudesse conceder o perdão. Diversas tentativas foram feitas para ganhá-lo; fracassaram. Nem Jerônimo nem o concílio podiam mais recuar.

A xxie sessão geral, que se realizou no sábado seguinte, 30 de maio, foi especialmente reunida para concluir o caso. O bispo de Lodi começou por requerer contra Jerônimo as penas de direito, caso não se retratasse em plena sessão. O acusado respondeu com uma nova exposição de suas ideias, e uma narração de sua vida, análogas às que dera dois dias antes. Foi assim levado a fazer uma profissão de fé muito precisa, que lança uma luz curiosa sobre sua mentalidade. «Cria, dizia, numa só Igreja católica, o que se pode entender da multidão dos que devem ser salvos, da Igreja triunfante e da Igreja militante. Mas a Igreja católica é também o conjunto de todos os que professam a fé de Cristo; é ainda a comunhão dos prelados e dos chefes. A esses prelados, a esses chefes é preciso obedecer, mesmo quando são perversos, etiam dyscolis, quando mandam segundo a lei de Deus, mas de modo algum quando são exteriormente perversos, exterius dyscolis. Jerônimo mantinha, aliás, todos os artigos de fé, admitia as cerimônias da missa, os ofícios, os jejuns, mas sem as cerimônias acidentais: tenere caeremonias missarum, officiorum, jejuniorum sine caeremoniis accidentalibus. Mas era preciso, segundo ele, rejeitar do clero todos os abusos, isto é, a pompa e o fausto, dum clerus convertit patrimonium Christi in fastus, pompas, quoad pulchros equos, domos, curias, vestes, non ministrando pauperibus illa quœ clerus tenet ultra necessitatem ejus et utitur bonis sive patrimonio Christi quoad lasciviam et alios actus meretricales. Acrescentava, para terminar, que seu maior pecado era haver, por medo do fogo, condenado em setembro a memória de João Hus.»

Diante dessa obstinação, só restava ao patriarca de Constantinopla propor a sentença definitiva. Foi lida por ele, e aprovada pelos quatro bispos deputados das nações (sabe-se que o concílio havia adotado o voto por nações e não por cabeças). O cardeal de Óstia, presidente, deu também o seu placet. O texto da sentença constata que Jerônimo de Praga, mestre em artes e leigo, aderiu primeiro aos erros de Wiclef e de João Hus, que depois os renegou, mas que se tornou relapso, no sentido de que declarou iníqua a sentença proferida contra Hus, e declarou nunca haver lido nos livros desses autores nem erros nem heresias; que declara presentemente aderir a todos os seus ensinamentos, salvo no ponto do sacramento do altar, onde confia mais nos doutores da Igreja do que em Wiclef e Hus. O concílio o retalha, pois, da Igreja como um ramo morto, denuncia-o e condena-o como herético e relapso, excomunga-o e fere-o de anátema. Só restava requerer a intervenção do braço secular, o que foi feito no mesmo instante. Às dez e meia da manhã, Jerônimo era queimado vivo no mesmo local onde onze meses antes se acendera a fogueira de João Hus. Morreu com coragem heroica, dando até o fim as marcas da maior piedade e da mais absoluta confiança em Deus.

Morreu, em suma, por não haver notado suficientemente que escórias se misturavam às iniciativas reformadoras de Wiclef primeiro, de João Hus em seguida. Leigo, sem formação teológica especial, não chegou a discernir o que continham de infinitamente perigoso para a Igreja as teorias do doutor de Oxford, tão imprudentemente propagadas por ele. De boa-fé sem dúvida, procurou para os pensamentos mais aventurosos de Wiclef uma interpretação que não fosse demasiado contrária aos princípios da ortodoxia. Só parcialmente o conseguiu. Notou-se com que insistência se separa de seus dois mestres na questão da eucaristia. Se queria, como declarou, permanecer fiel a todo o ensino da Igreja, poderia, deveria ter aplicado a grande número de outras teorias wiclefistas o mesmo princípio que aqui proclamava: «Creio mais no ensinamento de Agostinho e dos doutores aprovados do que no de Wiclef e de Hus.» Mas essa discriminação não soube fazê-la. Fogoso até a violência, aderiu com ardor inaudito à causa da reforma da Igreja, sem ver que a comprometia por seus próprios excessos; seus exageros, mais ainda do que as pregações de João Hus, lançaram a Boêmia nas mais sangrentas aventuras, abriram caminho à grande revolução religiosa do século XVI.

Fontes. — Antes de tudo, os atos do concílio de Constança, por infelicidade muito imperfeitamente publicados. Encontrar-se-ão eles em Mansi, Concil., t. xxvii, e, de maneira muito mais utilizável, em von der Hardt, Res concilii œcumenici Constantiensis, Frankfurt e Leipzig, 1698, t. iv, part. 8, p. 493-769. Existem do processo e da morte de Jerônimo duas narrações anônimas impressas uma em seguida à outra, em Historia et monumenta Joannis Hus atque Hieronymi Pragensis, Frankfurt, 1715, t. ii, p. 522-528; 528-532. A primeira apresenta um parentesco incontestável com a Crônica de Lourenço de Brezina, publicada por C. Höfler em seus Geschichtschreiber der hussitischen Bewegung in Böhmen, Fontes rerum austriacarum, t. ii, p. 331 et sq.; deve derivar da mesma pena; salvo o espírito nitidamente favorável ao movimento hussita, essa narração se ajusta bem ao relato que dão as Atas conciliares.

— Poggio, de passagem por Constança no momento do processo final, deixou dele uma excelente narração numa carta ao Aretino; o texto em Historia et monumenta, t. ii, p. 532-534, em von der Hardt, op. cit., t. iii, part. 5, p. 64-71. — Os primeiros historiadores do concílio falam naturalmente de Jerônimo: Thierry Vrie, Historia concilii Constantiensis, t. VII, dist. IV, em von der Hardt, op. cit., t. i, p. 180 sq., e Thierry de Niem, De vita et fatis Constantiensibus Joannis XXIII, ibid., c. xxxiv, t. ii, p. 449-454. Outros documentos importantes em F. Palacky, Documenta M. Joannis Hus, Praga, 1869, e nos t. ii e VI das Fontes rerum austriacarum. Quase todos os textos citados acima são analisados em Hefele, Histoire des conciles, trad. Leclercq, t. vii a, passim.

Trabalhos. — Indicar-se-ão apenas os mais importantes; para mais pormenores ver o art. Hus (João), t. vii, col. 345; J. Palacky, Geschichte von Böhmen, Praga, 1845, t. iii a, p. 239-392; J.-A. Hellert, Hus und Hieronymus, Praga, 1853; C. Höfler, Magister J. Hus und der Auszug der deutschen Professoren und Studenten aus Prag, Munique, 1864, e Geschichtschreiber der hussitischen Bewegung, Einleitung, em Fontes rerum Austriacarum, t. vii. A parcialidade demasiado evidente de Höfler em favor dos alemães e contra os tchecos valeu-lhe uma réplica muito dura de F. Palacky, Die Geschichte des Husitenthums und Professor C. Höfler, Praga, 1863, que contém alguns apanhados interessantes sobre o papel de Jerônimo de Praga; J. Loserth, Hus und Wiclif, Praga, 1881, e o art. Hus na Realencyclopädie für protestantische Theologie und Kirche, t. viii, col. 1000, p. 142 sq.

E. Amann.

Autor original: E. Amann

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