JERÔNIMO DE JERUSALÉM, escritor eclesiástico grego, de época incerta, autor de um tratado de controvérsia com os judeus. — No dossiê patrístico que forma a segunda parte da Oratio III de imaginibus atribuída a São João Damasceno, figura um breve fragmento, relativo à adoração da cruz, que é dado como sendo de um certo Jerônimo, presbítero de Jerusalém, P. G., t. xciv, col. 1109. O mesmo nome se encontra à frente de algumas escólias marginais de um comentário de Teodoreto sobre os Salmos, conservado no ms. Coislin 80 da Biblioteca Nacional de Paris. Ver, por exemplo, f° 91 r°. No início do século XVII, o erudito F. Morel havia lido essa mesma designação à frente de dois fragmentos gregos um pouco mais importantes, publicados sucessivamente por ele em 1598 e 1612 sob estes títulos respectivos: De sensu gratiae divinae in baptismo et christianismi (ou notis christiani) e Dialogus christiani cum judæo. Desses dois fragmentos, Fabricius deu em 1712 uma edição mais curta, Biblioth. grœca, t. viii, p. 376 sq. É ela que passou em 1770 para o t. vii da Bibliotheca patrum de Gallandi, e daí para P. G., t. xl, col. 845-866.
Desde então, Mons. Batiffol propôs anexar às reliquiae de Jerônimo de Jerusalém um fragmento anônimo que figura no ms. 854 do fundo grego da Biblioteca Nacional, f° 220 v°-225 r°, sob o título: Discussão dos judeus Papisco e Fílon com um abade a respeito da fé cristã. Um incontestável parentesco de pensamentos, de feição geral e de expressão liga esse fragmento às duas peças publicadas por F. Morel. Coisa mais notável, o fragmento antigamente conhecido e o texto inédito foram utilizados em conjunto por um autor do século IX, cujos tratados adv. judaeos figuram erroneamente entre as obras de Anastácio, o Sinaíta, P. G., t. lxxxix, col. 1204, 1228, 1240. Essa demonstração, se for aceita, permite reconstituir as grandes linhas da obra de Jerônimo. Trata-se de uma dessas numerosas discussões religiosas entre um judeu e um cristão, das quais o Diálogo de Justino constitui o protótipo. Mons. Batiffol quereria que o fragmento relativo à Trindade, P. G., t. xl, col. 848-860, tivesse formado a primeira parte da obra; os debates sobre o batismo e seus efeitos situar-se-iam bastante bem perto do fim da conversa, que sem dúvida devia terminar com o batismo do judeu. Ibid., col. 860-865. Entre os dois, podem-se imaginar discussões em torno da juventude de Jesus, ἀντιλογία περὶ Χριστοῦ, às quais se poderia ligar o fragmento inserido no ms. 854.
Sem ser muito profunda, a teologia dessas diversas peças não deixa de merecer um estudo. Notar-se-á a maneira pela qual o cristão prova ao judeu a divindade do Filho, forçando-o a confessar primeiro a personalidade e a divindade do Espírito Santo. A descrição dos efeitos do batismo e da graça santificante é bastante desenvolvida. A terminologia é a de uma época em que as controvérsias cristológicas do século V parecem esquecidas. O cristão assinala, por exemplo, que Jesus é Filho de Deus não θετικῶς, como os outros homens, mas verdadeiramente φυσικῶς. Todos esses traços tornam impossível a atribuição do diálogo a um autor do século IV, como havia feito primeiramente Cave. Este identificava esse Jerônimo de Jerusalém com um outro Jerônimo, presbítero e monge, de origem dálmata (1), autor de uma história dos solitários do Egito que se encontrará na sequência da História lausíaca nos mss. grego 853 e Coislin 83, da Biblioteca Nacional, sob este título: Ἑτέρα ἱστορία etc. τοὺς βίους τῶν ἁγίων τῆς Αἰγύπτου, συγγραφεῖσα παρὰ Ἱερωνύμου μοναχοῦ καὶ πρεσβυτέρου τοῦ ἐκ Δαλματίας. Essa identificação já não é sustentada por ninguém.
A descoberta de Mons. Batiffol permite, aliás, determinar com muita exatidão a data de composição do diálogo. Lê-se no fragmento inédito, f° 224 v°-225 r°, que os judeus, há 670 anos, já não têm nem altar, nem arca, nem profeta; e o fragmento termina com um período bastante amplo em que o cristão mostra o cristianismo de posse de uma realeza que nem os pagãos, nem os reis persas, nem os reis judeus, nem os reis árabes puderam arrancar-lhe. Tudo isso nos reporta à primeira metade do século VIII, à época mesma da atividade de João Damasceno, de quem Jerônimo de Jerusalém poderá ter sido companheiro.
Cave, Scriptorum ecclesiasticorum historia litteraria, t. i, p. 282; Fabricius, Bibliotheca grœca, Hamburgo, 1712, t. vii, p. 376 sq.; Gallandi, Veterum Patrum bibliotheca, t. vii, prolégomènes, p. 18; Ceillier, Histoire des auteurs sacrés et ecclésiastiques, t. vi, p. 333; W. M. Sinclair, dans Smith et Wace, Dictionary of Christian biography, t. iii, col. 28-29; P. Batiffol, Jérôme de Jérusalem d'après un document inédit, na Revue des questions historiques, 1880, t. XXXIX, p. 248-255.
E. Amann.
Autor original: E. Amann
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