ISIDORO DE PELÚSIO (São), monge egípcio e escritor eclesiástico († por volta de 440). — I. Vida. II. Obras. III. Doutrina.
I. Vida. — 1° Época em que viveu. — Nascido na segunda metade do século IV e já em relação epistolar, em 395, com Rufino, o ministro de Teodósio I, que morreu assassinado naquele mesmo ano, Isidoro viveu ainda por muito tempo durante a primeira metade do século V. Foi em Alexandria que viu a luz do dia, segundo o testemunho de Efrém de Antioquia, recolhido por Fócio, Bibliotheca, 228, P. G., t. ciii, col. 964. Mas nada se sabe de preciso, nem sobre sua família, nem sobre o ano de seu nascimento. Os Menologios gregos, em 4 de fevereiro, dia de sua festa, dizem-no oriundo de nobre estirpe e parente próximo dos patriarcas de Alexandria, Teófilo e Cirilo. A julgar por seu conhecimento dos poetas, dos historiadores, dos oradores e dos filósofos gregos, deve-se crer que recebeu uma educação esmerada. Nicéforo Calisto, H. E., l. XIV, c. xxx, afirma que teve por mestre São João Crisóstomo; mas é uma falsa indução tirada do conhecimento que Isidoro tinha das obras do bispo de Constantinopla; pois Isidoro, que menciona várias vezes nos termos mais lisonjeiros São João Crisóstomo e que elogiava notadamente seu livro sobre o Sacerdócio, Epist., i, 156, bem como seu comentário sobre a Epístola aos Romanos, Epist., v, 32, não deixa entender em parte alguma que tenha sido seu discípulo.
2° Monge e abade. — Desde cedo sofreu a influência do monaquismo, então tão florescente no Egito, e retirou-se para um mosteiro, sobre uma colina, perto de Pelúsio, que era a sede do governador da província Augustamnica Prima. Havia fugido, diz ele, dos ruídos da cidade para a solidão, Epist., i, 191, e convidava mais tarde alguns de seus correspondentes a fugir deles como ele. Epist., i, 266. Qualifica-se de monge, Epist., i, 93, e foi nesse retiro que levou uma vida austera, mortificando o corpo, mas nutrindo a alma. Tornou-se assim um verdadeiro modelo do ascetismo monástico e da contemplação divina. Ele mesmo dá a entender que foi sacerdote, Epist. i, 258; e Facundo de Hermiane o afirma, Def. trium capit., ii, 4, P. L., t. lxvii, col. 573-574; e foi sem dúvida de Amônio, o bom bispo de Pelúsio, como o chama, Epist., ii, 127, que recebeu o sacerdócio, e não de Eusébio, de quem deixou um retrato tão pouco lisonjeiro. Nada prova que tenha recebido além disso o caráter episcopal, mas tudo prova que exerceu alguma autoridade, pois diz-se estabelecido por Deus para defender a Igreja contra os arianos e para repreender os maus. Epist., i, 389. Sua maneira de agir e de escrever, Epist., i, 52, 142, 154, 318; ii, 182, mostra que a função que exerceu foi a de abade; tal é, com efeito, o título que lhe dá um de seus contemporâneos, o conde Ireneu, tornado bispo de Tiro, numa carta publicada por Christian Lupus (Wolf), Ad concilium Ephesinum variorum Patrum epistolae, Lovaina, 1682, p. 22; Synodicon adv. tragœdiam Irenœi, vi, P. G., t. lxxxiv, col. 587.
3° Seu zelo. — Grande amigo da verdade, Epist., ii, 146, iii, 312, 390, da virtude, Epist., v, 223, 229, e da paz, Epist., v, 552, Isidoro foi animado de um zelo verdadeiramente apostólico. Considerava uma falta tolerar as ofensas feitas a Deus, Epist., v, 227, e aplicou-se muito especialmente a fazer reinar a disciplina em seu mosteiro. Nem por isso se desinteressou da Igreja de Pelúsio, objeto constante de suas solicitudes. Repreendia seu clero por ter eleito temerariamente por chefe um sujeito indigno do episcopado. Epist., i, 39. A esse bispo, de nome Eusébio, censurava não somente ter agido contra os cânones ao admitir ao diaconato um leitor justamente deposto por quatro grandes crimes pelo bispo Amônio, Epist., iii, 178, mas ainda vender o sacerdócio a preço de dinheiro, Epist., i, 26, e praticar a simonia. Epist., i, 119. Aos sacerdotes Zósimo e Maron, censurava desonrarem o sacerdócio. Epist., i, 118, 220. E tal era a vida escandalosa do clero de Pelúsio que muitos fiéis chegaram a crer que não se podia receber validamente dele nem o batismo, nem os outros sacramentos. Epist., ii, 37. Em consequência, Isidoro rogava a Zósimo que cessasse sua má conduta, Epist., ii, 38, e a Maron que não agisse mais por cobiça. Epist., v, 569.
Outro flagelo arruinava Pelúsio: era a tirania dos governadores civis da província. Estes estavam longe de se parecer com o bom Simplício. Epist., i, 226. Cirênio, entre outros, antes mesmo de fazer sua entrada, havia retirado da Igreja o direito de asilo, Epist., i, 174, 175, e depois se entendeu bem demais com o bispo Eusébio. Epist., i, 177. Isidoro suplicou a Rufino que o chamasse de volta. Epist., i, 178. Ao saber, em outra circunstância, que um capadócio, conhecido por seus procedimentos de corrupção e de extorsão, pleiteava o governo de Pelúsio, Epist., i, 483, tentou fazer fracassar sua candidatura, dirigindo-se a Seleuco. Epist., i, 484. Desde o momento, dizia ele, em que se afastavam do poder, por causa de seus malfeitos, os cartagineses e os egípcios, por que confiar os cargos públicos aos capadócios, que são piores? Epist., i, 485. O aspirante a governador, chamado Gigantius, havia deixado na cidade as mais tristes recordações: capadócio, havia governado como capadócio. Epist., i, 486, 487. Que se enviem, pois, os homens da Capadócia para governar seus compatriotas. Epist., i, 489.
O zelo de Isidoro ultrapassava os muros de seu mosteiro e as fronteiras de sua província, estendia-se por toda parte onde havia um encorajamento a dar, uma advertência a fazer, uma injustiça a reparar. Bispos e sacerdotes, monges e leigos, ninguém, qualquer que fosse sua posição e seu posto, escapava à sua solicitude. Numerosos e ilustres, é verdade, πολλοὶ καὶ εὐδόκιμοι, Epist., iv, 105, foram aqueles que ele conseguiu reconduzir à prática do dever; alguns pertenciam mesmo ao mais alto escalão. E assim, congratula-se um dia por ter convertido um deles, e convida o bispo Apolônio a celebrar como uma festa esse retorno a Deus. Epist., ii, 273. Mas, ao desempenhar esse ingrato papel de endireitador de erros, suscitou violentas inimizades e ataques injuriosos. Epist., ii, 122. Consolava-se disso, contudo, pois isso acrescentava à satisfação de ter libertado sua consciência a vantagem de sofrer pela justiça.
A seus inimigos dizia: «Vós me coroastes sem o querer, pois Deus me concedeu não somente crer nele, mas sofrer por ele.» Epist., ii, 131. A exemplo dos apóstolos que tanto sofreram por Cristo, diz ele em outro lugar, Epist., ii, 54, as injúrias a que estou exposto não são para me abater e desesperar. Por isso declarava-se pronto a suportar ainda outras novas, desde que fosse pela piedade e pela justiça; tendo apenas um pesar, o de não alcançar, como outros, a perfeição, agradecendo àqueles que lhas infligiam e rezando por eles. Epist., v, 398.
4° Defende a memória de São João Crisóstomo. — A conduta indigna do patriarca de Alexandria, Teófilo, para com São João Crisóstomo havia revoltado particularmente Isidoro. João tivera de deixar Constantinopla e morreu no exílio. Roma pedia que se restabelecesse seu nome nos dípticos das Igrejas do Oriente. São Cirilo, sobrinho e sucessor de Teófilo, não parecia muito apressado em dar seguimento a essa justa reclamação. Mas Isidoro interveio. Não se havia contentado em estigmatizar o tio, censurando-lhe o que chama sua mania das construções e sua paixão pelo dinheiro, λιθομανῆ, χρυσολάτριν, sobretudo seu encarniçamento e seu ódio contra um homem tão piedoso quanto instruído, como Crisóstomo, Epist., i, 152; quis reabilitar a memória do exilado no Egito e fazê-lo inscrever nos dípticos da igreja de Alexandria; e foi o que acabou por obter da parte de Cirilo, pouco depois do ano 410, se dermos crédito a Nicéforo, H. E., l. XIV, c. xxviii, P. G., t. cxviii, col. 1152. Cf. Tillemont, Mémoires, t. xiv, p. 281.
5° Intervém no caso de Nestório. — Muito atento ao movimento das ideias religiosas e às ameaças da heresia, Isidoro esteve longe de se desinteressar do caso de Nestório e do concílio de Éfeso no ano de 431. Reprovava o novo erro, mas receava, por um lado, a ingerência do poder civil numa questão de ordem dogmática, e não ignorava, por outro, as prevenções de São Cirilo, encarregado de presidir o concílio. Os representantes do imperador não se mostravam simpáticos a Nestório. Por isso o abade de Pelúsio pediu por carta a Teodósio, o Jovem, que afastasse seus representantes e assistisse ele mesmo à reunião dos bispos, para evitar todo perigo ulterior. Epist., i, 321. Em contrapartida, São Cirilo, muito exaltado contra Nestório, era capaz de tomar uma decisão ab irato. Que faz Isidoro? Muito corajosamente escreve-lhe: «A prevenção não vê claro; mas a antipatia não vê absolutamente nada. Se, portanto, quereis evitar esse duplo defeito, não profirais sentenças violentas, mas submetei as imputações a um juízo justo e íntegro... Muitos dos que foram convocados a Éfeso vos acusam de perseguir e de vingar ressentimentos pessoais, em vez de buscar com retidão os interesses de Jesus Cristo. Ele é, dizem, o sobrinho de Teófilo, imita-lhe a conduta. Como o tio derramou sua fúria contra o ilustre João, inspirado e amigo de Deus, assim também o sobrinho procura fazer-se valer e glorificar-se, ainda que haja grande diferença entre os acusados.» Epist., i. 310, P. G., t. lxxviii, col. 361.
A condenação e a deposição de Nestório foram seguidas de um desacordo lamentável entre Cirilo e João de Antioquia; os ânimos se esquentavam de parte a parte. Isidoro, julgando que o patriarca de Alexandria mostrava demasiada obstinação, conjura-o a não voltar contra o corpo da Igreja a vingança de uma injúria pessoal, a pôr termo a esse cisma e a não o perpetuar sob pretexto de religião. Epist., i, 370. Mas, sabendo mais tarde que Cirilo havia escrito aos orientais para se reconciliar com João de Antioquia, e sabendo que os mais avançados do partido alexandrino estavam persuadidos de que seu patriarca, ao aceitar o símbolo de união, havia cedido em algum ponto de doutrina, escreve-lhe de novo: «Deveis permanecer sempre invariável, sem trair por temor o interesse do céu, nem parecer contrário a vós mesmo. Pois, se comparardes o que acabais de escrever com vossos escritos anteriores, vereis que se pode acusar-vos de complacência, de leviandade ou de vanglória, em vez de perseverar até o fim e imitar esses ilustres campeões que preferiram passar toda a vida longe de sua pátria a prestar apenas ouvidos a uma opinião errônea. Epist., i. 321. col. 369.
6° Sua morte. A reconciliação de Cirilo com João de Antioquia tendo ocorrido em 433 ou 131, Isidoro ainda vivia nessa data. Prolongou ele sua vida até a época em que veio à discussão a heresia de Êutiques? Tillemont, Mémoires, t. xv, p. 117, e Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés et eccl., Paris, 1858-1868, t. xiii, p. 603, creem que não morreu antes de 119. É certo que, sem nomear Êutiques, Isidoro condenou em várias ocasiões o erro dos que misturavam e confundiam em Cristo as duas naturezas ou que não lhe atribuíam senão uma só. Epist., i, 102, 323, 405, 419, 416. É certo também que não fez a menor alusão ao Latrocínio de Éfeso. E então, sem ser certa, a data da morte de Isidoro de Pelúsio, em 11'.», permanece verossímil. Seu nome foi inscrito no catálogo dos santos, e sua festa se celebra, tanto no Ocidente quanto no Oriente, em 4 de fevereiro.
II. Obras. — 1° Obras supostas ou perdidas. A maneira de falar de Facundo, Defensio trium capitulorum, l. 1. P. L., t. lxvii, col. 573-574, não autoriza a colocar Isidoro de Pelúsio entre os biógrafos de São João Crisóstomo, tanto mais que o próprio Isidoro, solicitado por Símaco a contar-lhe a tragédia de João Crisóstomo, responde que não pode, que isso ultrapassa seu espírito, e contenta-se simplesmente em lembrar o ódio de que foi perseguido por Teófilo de Alexandria e a morte no exílio que o colocou entre os bem-aventurados. Epist., i, 152. Não há mais razão para ver uma obra especial no Πρὸς Κύριλλον que lhe atribui Evágrio. H. E., i, 15 P. G., t. lxxxvi. col. 2464. Pois esse título se explica suficientemente pelo conjunto das cartas dirigidas pelo abade de Pelúsio ao patriarca de Alexandria.
Aliás, Isidoro não consagrou sua atividade literária a trabalhos de longo fôlego, embora nos informe que havia escrito dois tratados: um, contra os gregos, Λόγος πρὸς Ἕλληνας, no qual refutava a objeção contra a Providência tirada da prosperidade dos maus e da provação dos justos. Epist., ii, 137, e no qual combatia a mântica grega, Epist., ii, 228; o outro, que qualifica de λογίδιον, sobre a inexistência do destino, περὶ τοῦ μὴ εἶναι εἱμαρμένην, Epist., iii. 253, e do qual se pode considerar a carta ao sofista Harpocras, Epist., iii. 154, como o resumo ou sumário. Dupin acreditou que esses dois títulos concerniam a uma só e mesma obra. Nouvelle bibliothèque des auteurs ecclés., Paris, 1693-1696, t. iv, p. 4. Tillemont contenta-se em dizer a propósito do primeiro: «Não sei se é a mesma obra, que ele chama noutro lugar um livro, ou antes um livrinho contra o Destino.» Mémoires, Paris, 1701-1709, t. xv, p. 117. Se fosse assim, pergunta-se por que, dirigindo-se ao mesmo correspondente, Isidoro lhe teria designado o mesmo tratado sob dois títulos diferentes. Seja como for, nada nos chegou de Isidoro sob um ou outro desses títulos; mas pode-se fazer ideia deles pelos argumentos que ele apresenta sobre os mesmos assuntos em várias de suas cartas.
2° As cartas. — 1. Seu número. — Isidoro de Pelúsio é, entre os antigos, aquele de quem se possui o maior número de cartas. Sua vasta correspondência parece ter absorvido toda a sua atividade literária. Foi recolhida desde cedo, notadamente no convento dos Acemetas de Constantinopla, em quatro manuscritos contendo cada um 500 cartas. Temos por testemunha um contemporâneo do abade de Pelúsio, o conde Ireneu, que, depois de ter citado algumas delas em sua Tragédia, se exprime assim, segundo a tradução latina do autor anônimo do Synodicon adversus Tragœdium Irenœi, vi, P. G., t. lxxxiv, col. 587: Has omnes beati Isidori presbyteri et abbatis Pelusiotae excerpsi et transtuli ex epistolis ejus duobus millibus, quae sunt per quingentenas distributae in Acoemetensis monasterii codicibus vetustissimis quatuor. Havia ainda outras? É provável. Suidas pretende que Isidoro escreveu três mil sobre a interpretação de certas passagens da Escritura, sem contar outras; e Nicéforo Calisto chega a dez mil. Seja como for, atualmente só possuímos 2012, e mais exatamente 1997, porque algumas estão desdobradas, ao passo que outras estão repetidas.
2. Sua descoberta e sua publicação. - Apesar do que pretendeu Heumann, Dissertatio de Isidoro Pelusiota et ejus epistolis, Gœttingue, 1737, cujos argumentos foram refutados por Niemeyer, De Isidori Pelusiotae vita, scriptis et doctrina, Halle, 1825, P. G., t. lxxviii. col. 38-39, deve-se tê-las por autênticas. Só foram descobertas e publicadas aos poucos, a partir do fim do século XVI. O beneditino Jacques de Billy († 1581) descobriu, o primeiro, 1213 delas, que traduziu para o latim, fazendo-as seguir de dois livros de observações, tudo publicado após sua morte, em três livros: S. Isidori Pelusiotae epistolarum amplius mille ducentorum, libri tres, Paris, 1585. Alguns anos mais tarde, o jurisconsulto Conrad Rittershusen encontrou outras 230 num manuscrito da Baviera, que traduziu igualmente para o latim e com as quais formou o IV livro, que publicou com os três precedentes: s. Isidori Pelusiotae, de interpretatione divinae Scripturae, epistolarum libri quatuor, Heidelberg, 1605. Por fim, o jesuíta André Schott descobriu ainda 560 num manuscrito do Vaticano, cujo texto grego publicou à parte, e que formam o atual V livro: S. Isidori Pelusiotae epistolae hactenus ineditae, Antuérpia, 1623. No ano seguinte, fez aparecer em Roma uma versão latina; enfim, em 1629, reuniu os dois textos em Frankfurt. O todo foi reunido numa só obra e publicado em Paris, na casa de Morel, em 1638.
Mas a descoberta de novos manuscritos permitiu emendar o texto e dar uma edição menos defeituosa: foi obra do jesuíta Pierre Poussines, Collationes Isidorianae, Roma, 1670, cujas notas com a só versão latina foram reimpressas em Veneza em 1745, mas que Migne reproduziu por inteiro, P. G., t. lxxviii, dando-lhe por prefácio o estudo crítico de Hermann Niemeyer, De Isidori Pelusiotae vita, scriptis et doctrina, Halle, 1825. Desde então, outros manuscritos das cartas de São Isidoro foram assinalados e parcialmente descritos pelo Padre Bouvy, por Lundström, por Turner e por Lake (ver a bibliografia). Uma nova edição seria, portanto, necessária para melhorar o texto.
3. Seu interesse. — Dirigidas a múltiplos correspondentes, eclesiásticos ou leigos, bispos, sacerdotes, diáconos, subdiáconos, leitores, monges, imperador, prefeitos, governadores, magistrados, médicos, escolásticos ou gramáticos, essas cartas não oferecem menos interesse pela forma do que pelo conteúdo. Muito curtas, em geral, e muito concisas, dizem muitas coisas em poucas palavras, num estilo simples e elegante. O autor aplicou-se ele mesmo a praticar o conselho que dá aos outros. Uma carta, escrevia ele, Epist., v, 133, col. 1404, não deve carecer nem de elegância nem de ornamento, evitando ao mesmo tempo a afetação; pois o primeiro defeito a tornaria pouco interessante, e o segundo, ridícula. Uma elegância discreta une o útil ao agradável. As que escreveu são de um espírito cultivado, de uma alma ardente, de um crente muito apegado à ortodoxia, de um moralista atento a não tolerar nenhum dos vícios ou desordens que lhe eram assinalados ou que ele descobria. Fócio as louvou como um modelo do estilo epistolar. Epist., ii. 11. P. G., t. cii, col. 861. E Possevino († 1611), no começo do século XVII, desejava que fossem postas nas mãos dos alunos para formá-los na piedade e na eloquência.
O conteúdo é muito instrutivo. Quer toquem os acontecimentos políticos e religiosos ou as controvérsias doutrinais, quer tratem de exegese ou de interpretação bíblica, quer abordem de passagem alguns pontos de dogma ou de moral, quer enfim indiquem os princípios diretores da vida monástica ou espiritual, abundam sempre em perspectivas interessantes sobre a história, a controvérsia, a disciplina da época.
É lamentável apenas que, na falta de uma ordem cronológica, bastante difícil de estabelecer, não as tenham disposto ao menos por ordem das matérias tratadas.
III. Doutrina. — 1° Sobre a Escritura. — 1. Sua inspiração. — Sem traçar um catálogo de todos os livros da Bíblia, Isidoro de Pelúsio crê na inspiração de seus autores. É Deus, diz ele, quem falou por Moisés, Epist., iii, 76, pelos profetas, Epist., iii, 231; iv, 205, e o Espírito Santo nos salmos. Epist., i, 416. Os apóstolos foram cheios da sabedoria de Deus. Epist., ii, 54. São João compôs seu Evangelho sob a inspiração do Espírito Santo. Epist., iii, 102. Proíbe-se, por conseguinte, inscrever-se em falso contra os oráculos divinos, Epist., ii, 249, ou contra os mistérios dos santos Livros. Epist., i, 24. Aqueles que se julgam mais sábios do que esses oráculos enganam a si mesmos e enganam os outros. Epist., v, 376.
2. Diferença e harmonia dos dois Testamentos. - - Deus instruiu os judeus pelo Antigo Testamento, e nos instruiu pelo Novo: é o legislador de um e de outro. Epist., ii, 133: iv, 209. Um e outro concordam harmoniosamente entre si: é o que São Isidoro chama sua συμφωνία, Epist., i, 107, sua ὁμόνοια, Epist., i, 146. Diferem, contudo. Epist., i, 494, não somente porque a lei mosaica só foi dada ao povo judeu, ao passo que a lei evangélica é para o mundo inteiro. Epist., iii, 53: mas ainda porque o Evangelho é muito superior à Lei, Epist., iii, 53; iv, 11. A Lei, com efeito, foi dada a judeus grosseiros e sem instrução, ἀπαιδεύτοις, Epist., iv, 203; o legislador teve de acomodar-se à sua fraqueza. Por aí Deus os encaminhava aos preceitos superiores de Cristo e dos apóstolos, não sendo a Lei e os profetas senão a preparação para a nova filosofia do Evangelho. Epist., iv, 134. Moisés punia os delinquentes de fato, ao passo que Cristo quis perseguir o mal até em suas raízes, proibindo-lhe o pensamento ou o desejo. Epist., i, 458; ii, 243; iv, 209. É a diferença entre o corpo e o espírito: a lei mosaica era carnal, σαρκικός, a lei evangélica é espiritual, νόμος τοῦ πνεύματος. Epist., i, 106. O ensinamento de Moisés e dos profetas era velado sob figuras, Epist., i, 494, e símbolos, Epist., iv, 157, ao passo que a verdade é plena e distintamente notificada pelo Evangelho. Epist., i, 401.
3. Interpretação. — São Isidoro de Pelúsio não escreveu comentário sobre nenhum livro da Bíblia, mas nem por isso deixou de fazer obra de comentador, ao sabor das circunstâncias ou para responder às questões que lhe faziam, sobre grande número de textos escriturísticos. Interpretava-os de ordinário segundo o sentido literal, sem se proibir recorrer por vezes à interpretação alegórica. O intérprete, dizia ele, não se limita a explicar cada palavra, como se estivesse isolada, mas deve prestar atenção ao contexto e ao encadeamento das ideias, Epist., iii, 136; ater-se fielmente à Sagrada Escritura, sem desviá-la de seu sentido para lhe substituir arbitrariamente o seu, Epist., iii, 292; pois misturar-lhe algo de seu seria parecer-se com o taberneiro que adultera o vinho com água. Epist., iii, 125. Excelentes preceitos, que ligavam Isidoro à escola exegética de Antioquia mais do que à de Alexandria, mas dos quais nem sempre fez caso. A interpretação alegórica, praticada por Fílon e Josefo, Epist., iii, 19, e tão cara aos alexandrinos, estava longe de proibi-la, mas queria que oferecesse perspectivas sensatas. Epist., iv, 117. Chegou mesmo a usá-la por vezes, sem muito sucesso, como se pode convencer pela leitura de algumas cartas. Epist, i, 42, 192, 193, 206, 210. Isso não impediu Richard Simon de declarar que Isidoro «merece ser posto na categoria dos mais hábeis comentadores tanto do Velho quanto do Novo Testamento.» Histoire critique des principaux commentateurs du Nouveau Testament, p. 306. Seria de colocar entre os melhores intérpretes de seu tempo, se tivesse feito melhor uso da crítica e se tivesse se comprazido menos em estranhas alegorias: tal é, ao menos, a conclusão de Niemeyer, De Isidori Pelus. vita, P. G., t. lxxviii.
4. Importância da Escritura. A Escritura oferece uma doutrina celeste. Epist., v, 120. É uma regra de verdade, κανὼν τῆς ἀληθείας, Epist., iv. 111; um viático de salvação, ἐφόδιον τῆς σωτηρίας. Epist., ii, 73. Sem dúvida, muitas obscuridades nela se misturam a passagens fáceis de apreender; Deus, em sua sabedoria, quis assim para que a clareza de umas nos levasse a admitir a obscuridade de outras, ainda que não as compreendamos. Epist., iv, 42. Pois não se devem querer penetrar mistérios incompreensíveis. Epist., iv, 24. Tal como é, e embora passe por bárbara aos olhos dos gregos, a Escritura obteve mais sucesso do que toda a eloquência ática. Epist., iv, 28. Sua leitura é utilíssima: ajuda a corrigir os maus hábitos e os vícios, Epist., ii, 135; ocupa todo o espírito, faz esquecer as coisas terrenas, Epist., iii, 388, inspira a admiração da sabedoria e da bondade de Deus, afasta a ignorância, torna probo e sábio. Epist., iv, 100. E é porque não se pratica o bastante sua leitura que o cristianismo decaiu e que há tantas tragédias e calamidades. Epist., iv, 133. Mas antes de se entregar a ela, importa purificar o coração. Epist., iv, 133. É preciso procurar entendê-la para crer o que ensina e praticar o que prescreve. Epist., iv, 43. É na seguinte ordem que se devem ler em particular os livros de Salomão: primeiro os Provérbios, para aprender nelas as virtudes morais; depois o Eclesiastes, para reconhecer a vaidade dos bens deste mundo, e por fim o Cântico dos Cânticos, para saborear os bens espirituais. Epist., iv, 40.
2° Sobre o dogma. — 1. A Trindade. — Sobre esse dogma fundamental do ensinamento cristão, Isidoro quer que se atenha firmemente às decisões do concílio de Niceia como à regra de fé. Epist., iv, 99. Deve-se dizer: una é a essência divina, e três são as pessoas: μία ἡ θεότης, τρεῖς δὲ αἱ ὑποστάσεις. Epist., i, 247, col. 332. E isso, sem confundir as pessoas e a essência, pois a unidade se aplica à essência, e a trindade às pessoas. Epist., i, 59, 67, 138, 247; ii, 142, 143; iii, 18, 112; iv, 99.
2. Cristologia.
— A queda primitiva foi a fonte dos maiores males, tanto para o corpo quanto para a alma do homem. Pois, sem corromper totalmente a natureza humana, já que essa natureza conservou apesar de tudo alguns germes de probidade, Epist., iii, 2; iv, 53, ela submeteu, por um lado, o corpo ao sofrimento e à morte, Epist., iv, 204, e, por outro, levou a alma a pecar. Epist., iii, 162. Sob a sugestão do demônio, o mal moral não fez senão crescer. Mas Deus, tomado de piedade pelo homem, enviou seu Filho para resgatá-lo. É por isso que o Verbo se encarnou: tomou carne na Virgem Maria e dela, ἐν αὐτῇ καὶ ἐξ αὐτῆς. Epist., i, 121, col. 299. E tornou-se verdadeiramente semelhante a nós em tudo, exceto no pecado. Epist., i, 193. Foi formado sem intervenção de semente humana e em nada prejudicou a integridade de sua mãe: τὸν δὲ Κύριον ἡμῶν Ἰησοῦν Χριστὸν κυήσασαν, αὐτὸς συλληφθεὶς ἀσπόρως προερχόμενος ἐγέννησε, καὶ πάλιν ἐσφραγισμένην κατέλιπεν. Epist., i, 23, col. 196. Tornou-se verdadeiramente homem permanecendo verdadeiramente Deus, digno de nossa adoração, um só em duas naturezas: εἷς ἐξ ἀμφοτέρων τῶν φύσεων. Ibid., col. 197. Ao tomar o que não era, nada mudou do que era: οὔτε ὃ ἦν τραπείς, καὶ ὃ οὐκ ἦν προσλαβών. Epist., iv, 123, col. 369. Possui assim duas naturezas, Filho unigênito de Deus, sem nada mudar do que era ao tornar-se o que somos: ἐκ δύο φύσεων, εἷς υἱὸς ὢν Θεοῦ, οὐ τραπεὶς ὅπερ ἦν, ἐν τῷ γενέσθαι ὃ ἐσμέν. Epist., i, 303, col. 300. Ao tomar a humanidade, o Filho eterno de Deus não sofreu nem mudança, nem confusão, nem divisão. Epist., i, 119.
Tornado homem, fez-se a vítima propiciatória por todos, aplacando assim a ira divina, reconciliando-nos com seu Pai, devolvendo-nos a graça, merecendo-nos esse dom por excelência de sermos filhos adotivos: prova ao mesmo tempo da soberana justiça e da bondade infinita de Deus, Epist., iv, 100; derramou seu precioso sangue pelos homens. Epist., ii, 127. Morreu pelos pecadores. Epist., ii, 117. Expiou em sua totalidade o pecado do mundo, Epist., iv, 73. E, com isso, não somente venceu a morte por sua morte, Epist., vi, 128, e crucificou o pecado e a morte, Epist., ii, 192, mas ainda triunfou do demônio, Epist., iv, 108, e de toda a multidão dos falsos deuses. Epist., iv, 150. Não se deve dizer a paixão de Deus, mas a paixão de Cristo, pois não foi em sua divindade que sofreu, coisa impossível, Epist., iv, 166, mas somente em sua carne. Epist., i, 121. Por sua ressurreição, mereceu-nos ressuscitar um dia como ele e devolveu-nos a imortalidade. Epist., i, 123. Vê-se por tudo isso que Isidoro está muito mais próximo da cristologia antioquena do que da de Alexandria.
3. Justificação e salvação. — Isidoro de Pelúsio fez-se com frequência o eco da palavra de São Tiago: «A fé sem as obras é uma fé morta.» Tg, ii, 20. A fé só, diz ele, não salva ninguém; deve ser acompanhada de boas obras. Epist., iii, 73; iv, 65. Assim como o marinheiro deve aproveitar os ventos favoráveis que Deus lhe envia, assim o homem deve cooperar com a boa vontade que Deus lhe dá para o bem. Epist., ii, 2. Deve juntar a virtude à sã doutrina da piedade. Epist., iv, 20. É a graça divina, unida ao esforço humano, que salva o homem. Epist., iv, 51. Mas ela não é concedida a todos indistintamente. Isidoro parece comprometer sua gratuidade, fazendo depender, por assim dizer, sua concessão das boas disposições de cada um, Epist., iii, 271, da preparação que se leva a ela, Epist., iii, 316, mas tem o cuidado de dizer que, para obtê-la, é preciso fazer tudo o que se deve e implorá-la, pois então ela sobrevém e assegura a vitória; mas, se não se faz tudo o que se deve, é em vão que se a imploraria. Epist., iii, 406. Deus não a recusa àqueles que têm boa vontade e fazem tudo o que podem. Epist., ix, 171; v, 237, 459. Da sua parte, o homem deve fazer tudo o que pode para cooperar com a graça, Epist., ii, 2, e guardar-se bem de torná-la inútil. Epist., ii, 61. O desejo da salvação implica o emprego dos meios que a proporcionam. Epist., ii, 27. Mas não é a si mesmo que o homem deve atribuir o bem que faz, é à graça. Epist., ii, 242. Em vez de confiar demais em si mesmo, deve pôr sua confiança no socorro vitorioso de Deus, ibid.; e, se for vencido, só a si mesmo pode imputar sua derrota. Epist., iv, 64. Não é pela força e pela coação que a salvação é assegurada, mas pela persuasão e pela doçura; cada um é o árbitro de sua salvação e só será justamente recompensado ou punido segundo o uso bom ou mau que tiver feito de sua liberdade. Epist., ii, 129.
4. Alguns outros pontos de doutrina. — A ortodoxia de Isidoro de Pelúsio se mostra em particular na apreciação que formula de passagem sobre os erros passados ou contemporâneos. Conhecia bem as heresias antigas dos séculos II e III, que estigmatiza ou repele numa palavra: as dos marcionitas, Epist., i, 371; dos montanistas, Epist., i, 67, 242, 245, 499, 500; dos maniqueus, Epist., i, 52, 102, 215, 113; ii, 133; dos novacianos, Epist., i, 100, 338; dos sabelianos, Epist., i, 67, 138, 247, iii, 119. Mas insiste mais naquelas do século IV, que arruinavam o dogma da Trindade, negando a divindade do Filho, como os arianos e os anomeus, Epist., i, 241, 246, 353; iii, 31, 335, 342, ou a do Espírito Santo, como os macedonianos. Epist., i, 20, 60, 97, 109, 499, 500. Ocupou-se sobretudo, como vimos, daquela que eclodiu em seu tempo, o nestorianismo.
Teve também de combater os judeus. Estes, admitindo a Escritura, é com o auxílio da Escritura e de judeus célebres, como Josefo e Fílon, que os combateu. Negais a divindade de Jesus Cristo, dizia-lhes, mas, por um lado, Josefo não confessou que Cristo fez milagres e que foi divinamente enviado ao mundo como o preceptor do gênero humano? Epist., iv, 225. E Fílon, por outro lado, não atribuiu a natureza divina ao Logos? Epist., ii, 143. Os judeus repeliam toda interpretação alegórica do Antigo Testamento, mas Josefo e Fílon não se faziam de rogados em recorrer a ela. Epist., iii, 19.
Isidoro mostra que as profecias messiânicas se cumpriram em Jesus Cristo, e afirma a realidade da concepção do Verbo no seio de uma Virgem. Epist., i, 141; iv, 17. Em sua polêmica contra os pagãos, pode-se saber por suas cartas, apesar da perda das duas obras que compôs contra eles, o que pensava da mitologia e da filosofia desses detratores do cristianismo. Basta, observava ele, comparar os santos Livros com os escritos dos pagãos para ver imediatamente de que lado está a religião verdadeira. Epist., i, 21. Os primeiros contêm verdades sublimes, que inspiram respeito; os outros estão cheios de fábulas e de loucuras, dignas de todo desprezo. A mitologia encerra tantas impiedades e obscenidades que é impossível justificar, aos olhos da sã razão, o culto dos deuses. Epist., ii, 92; iv, 194. Esse culto traz em si marcas evidentes de falsidade, ao passo que a religião cristã possui os caracteres da verdade. Epist., iv, 27-30. Acusam esta de novidade, mas ela só é nova porque corrige um estado já antigo, defeituoso e mau. Epist., ii, 46. Seu estabelecimento tem algo de prodígio. Epist., i, 270. E seus sucessos incessantemente crescentes entre as pessoas do povo, os humildes e os pequenos, no seio mesmo e em detrimento do paganismo, mostram o quanto o ensinamento apostólico prevalece em força e eficácia. Epist., iv, 76. É um erro opor a mãe dos deuses a Maria, pois o que a caracteriza é o transbordamento de suas paixões, ao passo que Maria concebeu e deu à luz sem intervenção humana e sem a menor mácula: οὔτε σπορᾶς γενομένης, οὔτε φθορᾶς μεσιτευσάσης. Epist., i, 54, col. 216.
Isidoro não condena em bloco a filosofia grega, pois permite juntar-lhe o estudo à leitura da Escritura, Epist., ii, 3, mas duvida de que se possa tirar dela algum fruto. Epist., iv, 127. Os sábios gregos não são πνευματικοί, como São Paulo, que se elevava pela fé acima da razão, mas ψυχικοί, que só se apoiam em raciocínios e silogismos. Não há nenhum crédito a lhes conceder desde que se choquem com algum ensinamento da Bíblia. Epist., iii, 37. E desde que repelem esse ensinamento, é preciso refutá-los por argumentos tirados da razão ou pela opinião de outros filósofos. Epist., ii, 146. Era assim que ele mesmo agia em várias ocasiões, notadamente a respeito da ressurreição, Epist., ii, 43, opondo Homero a Homero, Epist., ii, 228, Isócrates a Demóstenes. Epist., ii, 146. Ataca sobretudo a doutrina deles sobre o destino e a mortalidade da alma. Não há destino. Epist., iii, 135. O fatalismo denuncia uma falsa noção da divindade e uma negação, racionalmente insustentável, da Providência. Epist., iii, 154. É a Providência, e de modo algum a influência dos astros ou a fatalidade, que rege os acontecimentos. Epist., iii, 135, 154, 191. Estes não acontecem porque Deus os conhece ou os prediz, mas ele os conhece e os prediz porque devem acontecer. Epist., i, 56. Cf. sobre a Providência, Epist., iv, 151; v, 66; e sobre o fatalismo, Epist., iii, 26, 102, 253; v, 117.
A respeito da alma humana, Isidoro refuta a opinião daqueles que faziam dela uma porção da substância divina, Epist., iv, 124, e a de Orígenes, que sustentava sua preexistência e sua queda antes de sua introdução no corpo. Epist., iv, 163. Afirma sua imortalidade, Epist., iii, 295; iv, 125, 146, e sua liberdade. Epist., i, 271, 303. Deus, diz ele, não a constrange a obedecer, apenas a convida a isso por respeito à sua liberdade; e é unicamente o bom ou mau uso dessa liberdade que salva o homem ou o perde. Epist., ii, 129.
A respeito dos sacramentos, Isidoro de Pelúsio sustentou sua validade, que declara independente do valor moral daquele que os confere. É o ensinamento que dava aos fiéis de Pelúsio, que não queriam receber os sacramentos das mãos de seu clero. A vida desregrada dos ministros da Igreja, escrevia-lhes, não impede de maneira alguma o efeito dos sacramentos naqueles que os recebem. Epist., ii, 37, 52; iii, 34, 394. Um sacerdote, mesmo culpado, e nisso digno de castigo, não deixa de ser o anjo do Senhor, porque oferece o sacrifício divino e trabalha pela salvação das almas. Epist., i, 349. Do batismo, Isidoro assinala os efeitos, Epist., iii, 195; v, 197; da penitência, diz do sacerdote que tem o poder de ligar e desligar, Epist., iii, 260, e do pecador perdoado que não deve recair no pecado contando com uma nova graça de penitência. Epist., iii, 157. A propósito da eucaristia, afirma o dogma da presença real em termos que não deixam nenhuma dúvida. O Espírito Santo, diz ele, faz com que o pão comum e ordinário, que é oferecido sobre a mesa mística, se torne o próprio corpo de que o Filho de Deus se revestiu em sua encarnação. Epist., i, 109. O ministério dos sacerdotes que consagram os dons divinos sobre um linho limpo estendido sobre o altar é o mesmo que o de José de Arimateia para com Jesus Cristo. Quando santificamos sobre esse linho o pão que é oferecido, encontramos indubitavelmente o corpo de Jesus Cristo. Epist., i, 123. Dá-se o nome de comunhão à participação nos mistérios, porque ela nos proporciona a união com Deus e nos faz participantes de seu reino. Epist., i, 128. Comparando o matrimônio e a virgindade, Isidoro declara esta preferível, como o céu é preferível à terra e a alma ao corpo. Epist., iv, 192. Contudo o matrimônio é bom, mas melhor é a virgindade. Epist., ii, 133. Em parte alguma Isidoro assinala o número dos sacramentos.
Viu-se acima como opunha o cristianismo ao paganismo. Várias vezes volta às provas da verdade da religião cristã. Epist., i, 266, 270; ii, 4, 251; iii, 182, 317, 345; iv, 76, 80, 150, e à natureza dessa religião, fora da qual não vê salvação. Epist., ii, 246; iv, 103; v, 469, 569. Vê na Igreja uma assembleia de santos, unidos pela verdadeira fé e pela boa vida. Epist., ii, 246. Não exclui dela, contudo, os pecadores ou maus cristãos, visto que todos os cristãos, diz ele, dispersos por toda a terra, formando o corpo de Jesus Cristo. Epist., ii, 103. Justifica o culto prestado às relíquias dos mártires pelos favores que dele tiram aqueles que o praticam.
Epist., i, 55. É um belo ato de piedade, observa ele, ornar o túmulo dos mártires, mas melhor ainda é imitar suas virtudes. Epist., i, 189. Por fim, presta testemunho ao dogma da ressurreição dos corpos. Epist., i, 284; ii, 43; iii, 77; iv, 201; v, 179.
3° Sobre a moral. — Não menos interessantes são as cartas de Isidoro de Pelúsio sobre a moral, a disciplina, a vida cristã e os usos de seu tempo. Na impossibilidade de tudo citar, vamos restringir-nos a alguns pontos principais relativos à vida dos sacerdotes, dos monges e dos fiéis.
1. O clero. — É menos das virtudes do clero de seu tempo do que de seus defeitos que trata Isidoro em suas cartas. Sabe reconhecer e apreciar os méritos, mas escreve mais frequentemente para repreender e censurar do que para louvar. Ora, um dos vícios que estigmatiza mais energicamente entre as pessoas de Igreja é a simonia, que faz da concessão dos sacramentos um comércio ilícito e sacrílego, de natureza a aviltar o ministério, a torná-lo infrutífero e a atrair sobre os que a ele se entregam os maiores castigos de Deus. Epist., i, 26, 29, 30, 106, 111, 119, 145, 148, 315. Era notadamente o flagelo do clero de Pelúsio, de modo que os fiéis se recusavam a receber os sacramentos de suas mãos, julgando erroneamente que esses sacramentos eram sem valor.
Alguns sacerdotes, arrastados pela ambição, buscavam o episcopado, alegando a palavra de São Paulo: Εἴ τις ἐπισκοπῆς ὀρέγεται, καλοῦ ἔργου ἐπιθυμεῖ. I Tim., iii, 1. É entender mal o pensamento do apóstolo, observa Isidoro, e dar-lhe uma falsa interpretação. Pois a sequência da passagem deveria bastar para reprimir tal desejo. A maioria, com efeito, não oferece as qualidades requeridas pelo apóstolo para uma função tão augusta e tão temível. Ao exprimir-se condicionalmente, como fez, o apóstolo quis pôr os ambiciosos em guarda contra a paixão que os impele a desejar o episcopado sem levar em conta as virtudes que ele requer, a vigilância e os cuidados, os labores e as penas que impõe, os perigos a que expõe. Isidoro qualifica de divino o episcopado: acha-o tão temível que os melhores mesmos deveriam guardar-se de desejá-lo. Epist., iii, 210; iv, 219. Só podem desejá-lo aqueles que se aplicam a reproduzir a vida de São Paulo, Epist., i, nu, e que veem nele o meio, não de satisfazer seu orgulho ou suas cobiças, mas de exercer uma paternidade espiritual. Epist., ii, 125. O bispo deve imitar o bom Pastor. Epist., i, 136. Não basta a um bispo ter bons costumes, deve ainda possuir a ciência e saber falar. Epist., ii, 217. E não pode ser útil a seus súditos aquele que chegou ao episcopado sem ter passado, como exigem os cânones, pelos graus inferiores. Epist., ii, 264. O bispo pouco cuidadoso da salvação das almas, que só se preocupa com fausto e dinheiro, desonra a sua própria pessoa. Epist., ii, 200.
Comparando o clero de seu tempo com o das idades precedentes, Isidoro escreve: «Não se elevavam então ao sacerdócio senão as pessoas virtuosas, hoje elevam-se a ele os que amam o dinheiro. Fugia-se então do episcopado por causa da grandeza de sua dignidade, hoje deseja-se, aceita-se de bom grado, apodera-se dele com vistas a procurar uma abundância de delícias. Outrora se fazia uma honra da pobreza voluntária, hoje só se procura ganhar dinheiro. Então se pensava no julgamento de Deus, hoje não se pensa mais nele. Então se estava pronto a sofrer tudo, hoje se está pronto a fazer os outros sofrerem. Que necessidade há de dizer mais? A dignidade do sacerdócio mudou-se num desejo de reinar: passou-se da humildade ao orgulho, do jejum às delícias, da qualidade de ecônomo e dispensador à de senhor e proprietário dos bens da Igreja.» Epist., v, 8.
Isidoro reconhece, contudo, que todos os bispos de seu tempo não estavam nesse ponto: pois apreciava notadamente alguns deles, tais como Lampélio, Epist., ii, 221, Serapião, Epist., iii, 44, e seu amigo Hermógenes. Epist., v, 166. Mas queixa-se em geral da falta de energia dos prelados para reprimir o desregramento dos outros e felicita, quanto a ele, Hierax, um sacerdote virtuoso, por ter fugido do episcopado como de um encargo perigoso. Epist., i, 125. A propósito do perdão concedido pelo sacerdote Zósimo a um pecador, culpado de perjúrio, que lhe havia oferecido alguns peixes, Isidoro declara que o sacerdote possui realmente o poder de ligar e desligar, mas com a condição de exigir a reparação da injustiça ou do dano causado e de não aceitar presentes. Epist., iii, 260. Os diáconos, diz ele, são o olho do bispo: devem zelar cuidadosamente pelos bens da Igreja, Epist., iv, 188, e não praticar a avareza, porque, a pretexto de aumentar suas riquezas, prepararão assim matéria para o fogo futuro. Epist., i, 19. Esses membros do clero devem conformar sua vida aos ensinamentos que dão; sem isso, longe de converter os ouvintes, incitam-nos a zombar dos que falam. Epist., i, 112. Melhor é viver e agir bem do que falar com correção e elegância; é pela ação mais do que pela palavra que se avança na vida espiritual. Epist., i, 11. Exprimir-se com elegância é assemelhar-se a um címbalo retumbante: agir bem é próprio dos anjos. Epist., i, 163.
2. Os monges. - Pode-se entrever pelo que precede o que o abade de Pelúsio exigia dos monges. Via na vida monástica o ideal da perfeição e o cumprimento de todos os mandamentos de Deus. Epist., i, 278. A seus olhos, João Batista era o modelo dela, tanto pela veste de pelos de camelo quanto pela frugalidade. Epist., i, 5. Esse gênero de vida exige, dizia ele, o retiro para esquecer tudo o que se deixou e a obediência para renunciar aos próprios hábitos e praticar a mortificação da carne. O monge deve, pois, afastar-se do tumulto dos negócios, Epist., i, 25, não correr as cidades e não frequentar os espetáculos públicos. Epist., i, 92. Deve ser humilde, pois é em vão que teria deixado as riquezas e as honras do século, se se entrega ao orgulho. Epist., i, 15. Não deve governar-se ao sabor de seus desejos, mas segundo a vontade de seus superiores, daqueles que envelheceram na prática da vida religiosa.
Pois se, para aprender algum ofício vil ou uma arte mecânica, se procuram com cuidado os mestres mais reputados, com muito mais razão, para instruir-se na sabedoria divina, é preciso dirigir-se àqueles que têm experiência dela. Epist., i, 200. O monge deve contentar-se com uma só veste e com um simples alimento de ervas, a menos que a fraqueza de seu temperamento a isso se oponha: nesse caso, deve ater-se às prescrições de seu superior. Epist., i, 5. Deve abster-se de todo jejum imoderado. Epist., ii, 45. Que não se lisonjeie de escapar às tentações, mesmo em plena solidão, visto que Jesus Cristo foi tentado no deserto. Epist., i, 75. O deserto oferece ao menos esta vantagem: nele não se é perturbado pela inquietação dos maus negócios nem por conversas que ferem o pudor. Epist., i, 92, 220. O monge deve entregar-se ao trabalho manual. Epist., i, 49; não afetar falar bem e, se tem algum talento de palavra, não procurar agradar por uma dicção demasiado estudada. Epist., i, 02. Deve proibir-se a leitura dos autores profanos, porque ela poderia manchar sua imaginação e despertar antigas paixões. Epist., i, 03.
Evidentemente, em meio a tão numerosos mosteiros e entre tantos milhares de cenobitas, nem tudo era perfeito. Isidoro assinala, com efeito, aqui uma falta de hospitalidade, Epist., i, 50, ali um excesso de boca, Epist., i, 392, em outra parte um humor brigão. Epist., i, 298. Mas isso é pouco em comparação com o que ele disse do clero.
3. Os fiéis e a vida cristã. — São demasiado numerosas as passagens em que Isidoro, falando da vida cristã, assinala os defeitos a evitar e as virtudes a praticar, para que se possam relatá-las. Baste indicar aquelas em que trata da natureza e das consequências do pecado, Epist., iii, 261; iv, 52; v, 175, 172, 501: de seu remédio pela penitência, Epist., i, 408; iii, 71, 177, 209: v, 8, 9, 253, 307, 317, 500, 539: da necessidade do combate espiritual, Epist., i, 4, 144, 264; ii, 12, 24, 103-107, 101, 101, 179, 189, 225, 212, 250, 207, 208; iii, 00, 205, 228; iv, 195; v, 19, 27, 00, 139, 144, 316, 350, 364, 424, 509, 533, 510; da obrigação de repelir as tentações. Epist., i, 393; ii, 70, 104, 281; iii, 83, 150, 160, iv, 138; v, 28, 39, 08, 90, 220, 270, 300, 314, 350, 309; da paciência em suportar as injúrias e a adversidade; Epist., ii, 51, 71, 132, 291; iii, 20, 330; v, 71, 96, 160, 238, 254, 201, 270, 282, 313, 350, 471: da perfeição cristã e dos meios de alcançá-la. Epist., i, 8, 27, 102, 103, 435, iii, 12: ii, 19, 23, 106, 201, 225; iii, 118, 280, iv, 41; v, 102, 288, 296.
Três coisas, dizia Isidoro, são necessárias à vida cristã: a oração, a virtude, a fé; a oração como o ornamento, a virtude como o corpo, a fé como a alma. Epist., v, 162. Não é tanto a veste e a linguagem que fazem o verdadeiro cristão, é antes a sua conduta e seus bons costumes. Epist., iv, 31. Por sua participação nos mistérios sagrados, isto é, na eucaristia, o batizado une-se a Jesus Cristo como o corpo à cabeça. Epist., iii, 195. Proibia assistir aos espetáculos por causa do perigo moral que oferecem. Epist., iii, 336; v, 185: eles são, com efeito, a escola da devassidão, Epist., v, 463: perdem a juventude, Epist., v, 186; é preciso, pois, afastar deles todos os homens. Epist., v, 517.
Muitas coisas, segundo o uso que se faz delas, conduzem ao bem ou se voltam para o mal. « As riquezas são boas, mas para aqueles que sabem usá-las bem e administrá-las sabiamente. A pobreza é boa, mas para aqueles que a suportam com uma alma forte e corajosa. As honras são boas, mas para aqueles que as empregam na defesa e no alívio dos aflitos e dos oprimidos. O poder é bom, mas para aquele que governa com equidade e que não se serve dele para vingar-se de seus inferiores. A força é boa, mas para aqueles que a fazem servir à defesa dos fracos. Não são, pois, as coisas em si mesmas que se deve acusar, uma vez que podem ser instrumento da virtude, mas as disposições daquele que pode usar mal do que é bom. » Epist., iii, 172. Se cada um fosse tratado aqui na terra segundo os seus méritos, o juízo final se tornaria inútil, Epist., v, 179; mas não será inútil, pois se veem neste mundo muitos maus prosperarem e os justos frequentemente aflitos. Epist., v, 215. É na outra vida que os maus sofrerão a pena que merecem e que os justos serão recompensados. Epist., v, 221, 222.
I. Fontes. — Para as cartas de santo Isidoro de Pelúsio, Migne reproduziu, P. G., t. Lxxviii, a edição de Pierre Poussines, Collationes Isidorianœ, Roma, 1670, fazendo-a preceder do estudo crítico de Hermann Niemeyer, De Isidori Pelusiotae vita, scriptis et doctrina, Halle, 1825; a edição de Poussines fora precedida pela de A. Morel, Paris, 1638: Synodicon adversus Tragœdiam Irenœi, P. G., t. lxxxiv; 13 das 49 cartas contidas no Synodicon foram publicadas por Mansi, Concil., t. v, col. 758-762, em latim, segundo um ms. do Vaticano; as 49 cartas da mesma versão latina haviam sido editadas, segundo o Cod. Casin., 11, do xii' século, por Baluze sob o título de Nova collectio e passaram para os Concilia de Labbe-Colet, t. iv, p. 23 sq.; foram reeditadas na Bibliotheca Casinensis, 1873, t. i, Appendix, p. 7-24; R. Aigrain, Quarante-neuf lettres de S. Isidore de Péluse, édition critique de l'ancienne version latine contenue dans deux mss. du concile d'Éphèse, Paris, 1911; Facundus d'Hermiane, Defensio trium capitulorum, l. II, c. iv, P. L., t. lxvii, col. 573-574; S. Éphrém d'Antioche, em Photius, Bibliotheca, 228, P. G., t. ciii, col. 964; Évagre, H. E., i, 15, P. G., t. lxxxvi, col. 2464; Nicéphore Calliste, H. E. XIV, P. G., t. cxlvi.
II. Trabalhos. — Henschenius, Comment. histor. de S. Isidoro Pelusiota, nos Acta sanctorum, em 4 de fevereiro; Dupin, Nouvelle bibliothèque des auteurs ecclésiastiques, Paris, 1693, t. iv, p. 3-14; Tillemont, Mémoires, Paris, 1701, t. xv, p. 97-119, 817; Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés et ecclésiastiques, Paris, 1858, t. viii, p. 476-498; Heumann, Dissert. de Isidoro Pelusiota et ejus operibus, Gœttingue, 1737; A. Fabricius, Bibliotheca grœca, Hamburgo, 1807, t. x, p. 480-494; Glueck, Isidori Pelusiotae summa doctrina moralis, Wurtzburgo, 1848; L. Boher, De arte hermeneutica S. Pelusiota; Cracovie, 1878; Bouvy, De S. Isidori Pelusiotæ libri III, Nîmes, 1885; Batiffol, La littérature grecque, Paris, 1897, p. 314; Bardenhewer, Patrologie, 3e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1910, p. 316; Fessler-Jungmann, Institutiones patrologiœ, Inspruck, 1896, t. 116, p. 128-143; Realencycklopädie für protestantische Theologie und Kirche, 3e édit., Leipzig, 1901, t. IX, p. 411-117; B. Lundström, De Isidori Pelusiotae epistolis recensendis praelusiones, em Eranos, 1897, t. ii, p. 67-80; N. Capo, em Studi italiani di filologia classica, Florença, 1901, t. ix, p. 419-466; C. H. Turner, The Letters of Isidore of Pelusium, em Journal of theological studies, Cambridge, 1905, t. vi, p. 70-86; K. Lake, further notes on the mss. of Isidore of Pelusium, ibid., p. 270-284; L. J. Sicking, Isidore von Pelusium, em De Katholick, 1906, t. lxxx, p. 109-129 (segundo ele, Isidoro seria originário de Alexandria de Antioquia; cf. Revue d'histoire ecclésiastique, Lovaina, 1912, t. xiii, p. 411-115); E. Lyon, le droit chrétien. Isidore de Péluse, nas Études historico-juridiques, offertes à M. Th. Girard, Paris, 1912, p. 209-223; L. Rayer, Isidors von Pelusium klassische Bildung, Paderborn, 1915; J. Tixeront, Précis de patrologie, Paris, 1918, p. 220-221; Smith et Wace, Dictionary of Christian biography, Londres, 1878-1888, t. iii, p. 315-320; Kirchenlexikon, 2e édit., t. vi, col. 364-369; U. Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, t. I, col. 2232-2233.
G. Bareille.
Autor original: G. Bareille
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