ISAÍAS, monge e autor ascético, que por muito tempo se identificou com um célebre anacoreta de Scete contemporâneo de santo Atanásio († 373), sobre o qual se podem ver as informações reunidas por Tillemont, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique, t. vii, p. 430; t. viii, p. 447, 789. Está hoje demonstrado que o autor ascético, o único, entre os numerosos homônimos, que deve ter lugar neste dicionário, não é outro senão aquele monge Isaías, nascido no Egito e morto nas cercanias de Gaza, de quem Zacarias, o Escolástico, escreveu, por volta do ano 518, uma breve biografia, perdida em grego, mas conservada em siríaco e publicada nessa língua por J. Land. Anecdota syriaca, Leyde, 1870, t. iii, p. 346-356. Encontra-se uma tradução alemã em K. Ahrens e G. Krüger, Die sogenannte Kirchengeschichte des Zacharias Rhetor, Leipzig, 1899, p. 263-274.
Segundo esse documento, Isaías, nascido no Egito, abraçou, ainda jovem, a vida monástica na solidão de Scete; mais tarde, sem dúvida depois do concílio de Calcedônia (451), retirou-se para a Palestina, primeiro no deserto de Eleuterópolis, depois perto de Gaza, no povoado de Beth-Daltha, onde construiu um mosteiro, cuja direção abandonou em seguida a seu principal discípulo, Pedro, o Egípcio, para levar ele mesmo a vida de recluso numa estreita cela. Fala-se dele mais de uma vez nas Plerofórias de João de Maiuma, e dois relatos dessa compilação que lhe dizem respeito podem facilmente ser datados, um do ano 471, e o outro do ano 478. Plérophories, édit. F. Nau, Paris, 1899, n. 12, p. 14, e n. 22, p. 25. Por outro lado, a pretensa História eclesiástica de Zacarias, o Escolástico, mostra-nos Isaías ainda vivo na Palestina em 482, depois da promulgação do Henótico de Zenão, em relações muito íntimas com os chefes monofisitas, Pedro, o Ibero, bispo de Maiuma, e Teodoro, futuro bispo de Arsinoé. Ahrens e Krüger, op. cit., p. 79; Nau, Plérophories, n. 65, p. 65; R. Raabe, Petrus der Iberer, Leipzig, 1895, p. 96-99, 115-117, 132.
Isaías era, portanto, sem sombra de dúvida, monofisita declarado, mas sem intransigência, e se não se esquivou, como seus amigos acima nomeados, à visita dos enviados do imperador Zenão, foi porque não hesitou em assinar o Henótico. Veja-se o episódio dessa visita em Ahrens e Krüger, op. cit., p. 90, 272; Raabe, op. cit., p. 96-99. Há mais: outro relato mostra-no-lo aconselhando dois monges ortodoxos a permanecerem fiéis ao concílio de Calcedônia. F. Nau, Les récits inédits du moine Anastase, Paris, 1902, p. 66 sq. Seu monofisismo, vê-se, nada tinha de feroz. Sabemos por sua Biografia que ainda vivia em 484, por ocasião da revolta de Illos, Leôncio e Pamprépio, e Kugener provou, com o auxílio da Vida anônima de Pedro, o Ibero, que sua morte ocorreu a 11 de agosto de 488. Byzantinische Zeitschrift, 1900, t. ix, p. 466.
Que o anacoreta de quem acabamos de falar seja realmente o autor dos tratados ascéticos publicados sob o nome do monge Isaías, não se poderia duvidar. Além do testemunho de seu biógrafo, que lhe atribui um livro de Exortações sobre a vida religiosa, dois de seus discursos, o vigésimo quinto e o vigésimo sexto, são dirigidos a seu discípulo Pedro, e viu-se acima que o principal discípulo de Isaías tinha precisamente o nome de Pedro. Segundo o Mosquensis 177 de Vladimir, foi por esse mesmo Pedro que Isaías, conforme o costume recebido entre os reclusos de seu tempo, fez chegar a seus religiosos outras dezessete instruções; precioso pormenor, não indicado na tradução latina. Esses discursos têm, pois, por autor um homem de fé suspeita, e essa circunstância não escapara a São Sofrônio de Jerusalém, que trata Isaías de acéfalo, P. G., t. lxxxvii, col. 3192, embora São Teodoro Estudita, por uma distinção pouco fundada, o tenha tido por ortodoxo, P. G., t. xcix, col. 1028 e 1816, criando assim uma tradição que logo registrará Doroteu, o editor estudita das obras do monge, P. G., t. lxxxviii, col. 1613.
Nada, porém, no que nos resta dos tratados de Isaías fere a verdadeira doutrina. O fato se explica pela própria natureza dessas breves conversas, que têm por objeto apenas a perfeição religiosa. São primeiro vinte e nove discursos sobre as virtudes e as práticas monásticas, reeditados por Migne, P. G., t. xl, col. 1105-1206, numa tradução latina devida a Pierre-François Zéno, de Verona, e aparecida pela primeira vez em Veneza em 1571. O texto grego, por muito tempo inédito, foi publicado recentemente pelo monge Augustin, da Laura de São Gerásimo, no vale do Jordão, sob o seguinte título: Τοῦ ὁσίου πατρὸς ἡμῶν ἀββᾶ Ἠσαΐου λόγοι κθ'. in-8°, Jérusalem, imprimerie du Saint-Sépulcre, 1911, xxv-251 p.
Esses vinte e nove discursos formam quase toda a herança literária de Isaías. Com efeito, os Capitula XIX de religiosa exercitatione et quiete, publicados por Pierre Poussines em seu Thesaurus asceticus. Toulouse, 1683, p. 315-325, e reproduzidos por P. G., t. xl. col. 1205-1212, segundo a edição de Gallandi, Veterum Patrum bibliotheca, t. vii, não são senão fragmentos tomados dos vinte e nove sermões. Deve-se dizer o mesmo dos Praecepta seu homilia LXVIII, posita tironibus in monachatu, que São Bento de Aniane, no início do século ix, introduziu em sua compilação de regras monásticas sob o nome de Isaías, P. L., t. ciii. col. 127-131. Essa pretensa regra não passa de uma série de centões tomados das obras de nosso anacoreta. Por isso causa surpresa ver o citado monge Augustin retraduzir para o grego esses avisos espirituais e inseri-los em sua edição p. 209-217. quando, com um pouco de esforço, poderia ter reencontrado em sua própria coletânea o texto grego original.
Não se deveria, contudo, imaginar que a obra de Isaías esteja toda nesses vinte e nove sermões. O monge Augustin publicou, op. cit., p. 218-235, fragmentos de um abade Isaías, que provêm talvez, em grande parte ao menos, de nosso anacoreta. O mesmo se dá com os extratos contidos na Philocalia, Veneza, 1782, p. 33-37; Atenas, 1893, p. 17-21, e no Evergétinos, vasta coletânea ascética aparecida em Veneza em 1783, em Constantinopla em 1861, em Atenas, em 1900, sob o título de Συναγωγὴ τῶν θεοφθόγγων ῥημάτων. O nome de Isaías aí é citado setenta e seis vezes, e pode-se dizer sem exagero que todas as obras desse asceta aí se acham reeditadas.
Deve-se observar, no entanto, que o autor dessa coletânea, Paulo de Aniorion, fundador do Evergétis, nem sempre cita com exatidão: permitiu-se mais de uma vez retocar o estilo dos autores que despojava, sem dúvida para dar à sua obra um caráter mais homogêneo. Cumpre atribuir a nosso Isaías os diversos apotegmas que trazem o nome do abade Isaías nos Apophthegmata Patrum. P. G. t. lxv, col. 180-184? Nem o conteúdo dessas sentenças nem a cronologia a isso se opõem, pois nosso Isaías, como se viu, viveu em Scete até por volta do ano 451. Em contrapartida, os Conselhos do abade Isaías à religiosa Teodora e a suas irmãs, traduzidos para o grego moderno por Nicéforo de Quios e publicados pelo arquimandrita Cristóforo em Hermópolis, em 1885, pertencem incontestavelmente a outro Isaías, talvez ao recluso de Nicomédia, de que se trata no artigo seguinte.
Um editor atento não deixaria de enriquecer consideravelmente a obra de Isaías. Ao lado dos trechos recolhidos por Gallandi entre os Sacra Parallela de São João Damasceno, P. G., t. xl, col. 1212 sq, e t. xcvi. col. 326 e 419, poder-se-iam citar ainda os escólios de vários capítulos de São João Clímaco pertencentes a Isaías, P. G., t. lxxxviii, col. 645, n. 10, col. 788, n. 14, col. 792, n. 27, col. 836, n. 1, col. 849, n. 3, col. 873, n. 4, col. 908, n. 12, col. 1093, n. 10, col. 1101, n. 2, col. 1124, n. 30. Esses últimos fragmentos ainda não tinham sido, que eu saiba, assinalados.
Para a literatura antiga, veja-se o Répertoire de U. Chevalier, que tem, porém, o defeito gravíssimo de não distinguir entre os dois Isaías. Os trabalhos recentes são indicados acima, no decorrer do artigo. Veja-se, em particular, Kugener, Observations sur la vie de l'ascète Isaïe, na Byzantinische Zeitschrift, 1900, t. ix, p. 404-470; Krüger, em Ahrens e Krüger, op. cit., p. 385, e Byzant. Zeitschrift, 1899, t. viii, p. 303; S. Vailhé, Un mystique monophysite: le moine Isaïe, nos Échos d'Orient, 1906, t. ix, p. 81-91.
L. Petit.
Autor original: L. Petit
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