ISAAC, O ARMÊNIO, controversista, sobre cuja vida paira o mais profundo mistério. Chegaram-nos sob o nome de Isaac, católico ou patriarca da Grande Armênia, duas Invectivas muito agressivas, na primeira das quais o autor estabelece a doutrina de uma dupla natureza em N.-S. Jesus Cristo segundo os Padres do século IV e do V, enquanto na segunda, depois de um breve preâmbulo em que conta sua conversão à verdadeira fé, enumera os erros armênios, em número de vinte e oito. P. G., t. cxxxii, col. 1155-1238. Atribui-se ao mesmo autor, mas sem fundamento, a Narratio de rebus Armeniae, ibid., col. 1237-1258, e t. cxxvii, col. 880-901, pequena história eclesiástica desse país que se detém no fim do século VII.
Como o autor dessa Narratio passava por ser o mesmo que o controversista a quem devemos as duas Invectivas, Lequien, Oriens christianus, t. i, p. 1356, havia julgado poder identificar esse Isaac com o patriarca armênio desse nome (677-703), que tinha vindo a Constantinopla sob Justiniano II e ali abraçara a ortodoxia. Cujus (narrationis) verus auctor mihi videtur fuisse Isaac ille catholicus, quem mox appellabam, qui Justiniano II imp. Constantinopoli orthodoxam fidem, haeresi ejurata, professus est, atque adversus gentiles suos haereticos invectivas duas erudite scripsit. Fizemos questão de citar a passagem, porque, algumas páginas adiante, col. 1300, o mesmo Lequien escreve: Cavendum omnino ne Isaac iste (isto é, Isaac III mencionado acima) idem putetur fuisse ac alter catholicus Isaac, cujus in Armenos gentiles suos invectivam Combefisius eodem atque Narrationem volumine edidit. Por que essa contradição? Porque Lequien havia observado depois que se tratava, numa e noutra invectiva, col. 1189 e col. 1233, do sínodo de Manazkert, que teve lugar em 726, portanto um quarto de século depois do patriarcado de Isaac III. O autor do Oriens christianus poderia ter acrescentado que nelas também se faz menção do segundo concílio de Niceia de 787, col. 1216, posterior em todo um século ao mesmo Isaac III. Este deve, pois, sem nenhuma dúvida possível, ser posto fora de causa.
A. Ehrhard, em K. Krumbacher, Geschichte der byzantinischen Litteratur, Munique, 1897, p. 89, faz viver o nosso Isaac no século XII, sem aliás dar as razões, e Fr. Tournebize, Histoire politique et religieuse de l'Arménie, Paris, 1900, p. 247, parece da mesma opinião de Ehrhard, embora citando a opinião de Lequien. Em nosso parecer, isso é descer demasiado baixo, pois Eutímio Zigabeno, que vivia sob Aleixo I Comneno (1081-1118), certamente saqueou sem vergonha as duas Invectivas. Um autor contemporâneo do mesmo Aleixo Comneno, Anastásio de Cesareia, vai talvez fornecer-nos o meio de esclarecer o mistério. Em seu interessante opúsculo sobre os jejuns, ele diz isto (citamos apenas o latim): Et adhuc in Invectiva quam Joannes metropolita Nicaeae scripsit ad catholicum magnae Armeniae contra jejunium Arziburii, quod tanquam illegitimum evertit, ubi ait: Cum nec sancti apostoli, etc., P. G., t. cxxvii, col. 521, e cita por extenso uma passagem da primeira Invectiva, c. xiv, em Combefis, Auctarium, t. ii, col. 372; P. G., t. cxxxii, col. 1200.
Assim, pois, para Anastásio de Cesareia, o autor das Invectivas não é Isaac, mas João de Niceia. Deve-se ver nessa afirmação um lapsus memoriae, segundo a expressão de Cotelier em sua nota sobre a passagem citada? Não o pensamos. É certo, como se evidencia do início da segunda Invectiva, que o autor não era ainda, quando a escrevia, senão simples sacerdote. Pôde muito bem tornar-se depois bispo, mas deve, se recebeu o episcopado, ter mudado de nome, segundo um costume geral entre os gregos, e deve igualmente, ao mudar de nome, segundo um uso não menos sagrado, ter retido de seu antigo nome a primeira letra. Ora, em grego, Isaac e João começam efetivamente pela mesma letra. E como sabemos que João de Niceia era por assim dizer um especialista nos assuntos armênios, a ponto de o católico Zacarias (853-876) não julgar poder fazer melhor do que dirigir-se a ele para a solução de certas dificuldades relativas às divergências litúrgicas entre as duas Igrejas, é infinitamente provável, se não certo, que o Isaac das duas Invectivas e o João de Niceia da carta ao católico Zacarias, P. G., t. xcvi, col. 1435-1450, sejam uma só e mesma personagem. E como não existe outro Zacarias suscetível de ter recebido tal carta de um prelado grego além do contemporâneo de Fócio, é igualmente à época de Fócio que será preciso situar a existência de João de Niceia e, por conseguinte, do sacerdote armênio convertido Isaac. Nada, nos documentos em questão, vem contradizer essa hipótese.
Uma coisa certa é que, sendo João de Niceia citado por Nicon, o autor das Pandectas, que vivia sob Constantino Ducas (1059-1067), segundo o prólogo publicado por Montfaucon, e mesmo, no relato do próprio Nicon, sob os imperadores Basílio (976-1025) e Constantino (1025-1028), Lequien, Oriens christianus, t. i, p. 648, é evidente que a existência de João deve ser recuada para além do reinado desses dois imperadores. Há mais. Demétrio de Cízico, que vivia sob o patriarca Aleixo (1025-1043), inseriu em sua exposição dos erros armênios a Narratio de rebus Armeniae; esse documento é, pois, necessariamente anterior a Demétrio. Nada se oporia, portanto, a que tivesse realmente por autor João de Niceia e, por conseguinte, o sacerdote armênio Isaac, que o teria escrito por volta de 840. Todavia, detendo-se a Narratio, na lista dos patriarcas armênios, em Israel Otmsétzi (667-677) e em Isaac Tsoraporétzi (677-703), é provável que tenha sido composta sob esses dois últimos prelados. Por isso não podemos, no que nos concerne, atribuí-la a João de Niceia. Em compensação, tanto as duas Invectivas quanto a carta ao católico Zacarias nos parecem provir de um único autor, armênio convertido, de nome Isaac, que se tornou, sob o nome episcopal de João, metropolita de Niceia e vivia na época do católico Zacarias (853-876). Essa hipótese, que submetemos ao juízo da crítica, enquadra-se muito bem com todos os sincronismos e explica por si só que um escritor como Anastásio de Cesareia tenha podido atribuir a João de Niceia uma obra que os manuscritos nos conservaram sob o nome de Isaac.
L. Petit.
Autor original: L. Petit
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