INOCÊNCIO VIII, papa (1484-1492). João Batista Cibo nasceu em Gênova, em 1432, de Arano Cibo, que em 1455 será membro do senado de Roma, e de Teodorina de' Mari. Passou a juventude na corte de Nápoles, depois foi estudar em Pádua e em Roma. Nesta última cidade, obteve o favor do cardeal Calandrini, meio-irmão de Nicolau V. Paulo II deu-lhe o bispado de Savona, e Sisto IV o de Amalfi. Em 1473, Cibo foi criado cardeal-presbítero, do título de Santa Balbina; depois, trocou essa igreja pela de Santa Cecília. Por morte de Sisto IV (1484), foi eleito papa e tomou o nome de Inocêncio VIII. A escolha dos cardeais era infeliz. Cibo tivera costumes muito livres. Um epigrama dirá dele, com um jogo de palavras sobre seu nome de papa: Octo Nocens pueros genuit totidemque puellas; Hunc merito poterit dicere Roma patrem. Sem dúvida, em lugar desses dezesseis filhos, a história só pode citar dois verdadeiramente autênticos, Teodorina e Franceschetto; e teve-os antes de entrar nas ordens. Mas essa família pesou duramente sobre sua vida. Assim, em janeiro de 1488, casava solenemente Franceschetto com Madalena, filha de Lourenço, o Magnífico, e irmã do futuro Leão X. As núpcias tiveram lugar no Vaticano. Era a primeira vez que se via assim o filho de um papa reconhecido de certo modo oficialmente e fazendo, a esse título, sua entrada na cena política.
Cibo carecia, pois, de senso moral. Mas nada havia nisso que desviasse seus colegas de elegê-lo papa. Por escolhas muito infelizes, notadamente em sua família, Sisto IV havia mundanizado o colégio dos cardeais; daí, mais tarde, as escolhas de Alexandre VI e de Júlio II. Em compensação, Inocêncio VIII tinha as qualidades fáceis e os defeitos atraentes que tornam popular: era acolhedor, amável e chegava mesmo à bondade; só há uma voz para falar de sua fraqueza, de seu desleixo e de sua falta de caráter. Depois, foi fortemente apoiado pelo cardeal Juliano della Rovere, o futuro Júlio II. Promessas fizeram o resto: a eleição de Inocêncio foi manchada de simonia; ao entrar no conclave, assinara com seus colegas um pacto eleitoral e, depois, teve mesmo de fazer a vários deles promessas muito mais precisas.
A corte de Inocêncio assemelhou-se mais ou menos à corte dos pequenos príncipes italianos da época. A maioria dos cardeais eram grandes senhores mundanos. Dentre estes, os mais em vista eram Ascânio Sforza, Riario, Orsini, Sclafenatus, João de la Balue, Juliano della Rovere, Savelli e Rodrigo Bórgia. Iam à caça, jogavam grosso, entregavam-se aos prazeres da mesa, davam festas de um luxo extravagante, tomavam parte nas diversões licenciosas do carnaval e permitiam-se desvios escandalosos. — O erário pontifício estava sempre vazio; o papa chegou a empenhar sua tiara. Acentuou, pois, a venalidade dos cargos da cúria. Os possuidores desses ofícios procuraram indenizar-se à custa do público. Esses funcionários, ávidos e detestados em todos os países, só pensando em seu interesse pessoal, sempre à procura de novos expedientes para explorar as igrejas, eram naturalmente opostos a qualquer medida reformadora. Daí a queixa crescente de que em Roma tudo se obtinha a preço de dinheiro. Fundou-se mesmo uma verdadeira associação para vender bulas falsas. Falta de caráter no papa, poder e rivalidade dos cardeais, venalidade dos funcionários, tudo explica que, sob esse pontificado, Roma e os Estados da Igreja estivessem num estado vizinho da anarquia; pilhagens, assassinatos, violências eram aí fatos cotidianos. Em março de 1492, Lourenço, o Magnífico, escrevia a seu filho, o jovem cardeal João, mais tarde Leão X, que Roma se tornara « o ponto de encontro de todos os vícios ».
Inocêncio protegeu as letras e as artes. Sem atingir nesse terreno o mecenato de um Sisto IV, de um Júlio II ou de um Leão X, coloca-se contudo na linhagem deles. Em Roma, mandou restaurar várias igrejas e reconstruiu Santa Maria in via lata. Perto do Vaticano, mandou construir o famoso Belvedere, que Júlio II empreendeu ligar ao Vaticano; e, a cinco milhas de Roma, a vila Magliana. Em Roma trabalhavam então Antonio Pollajuolo, o Pinturicchio, Andrea Mantegna, Filippino Lippi e o Perugino.
Inocêncio VIII tentou agrupar a cristandade numa cruzada contra os infiéis, e notadamente contra o Crescente. Mas em 1489 acabou por concluir um tratado com Bajazet II; o papa devia guardar estreitamente em Roma o famoso príncipe Djem, concorrente de Bajazet; para esse fim, o sultão lhe pagaria anualmente 45 000 ducados. Em Nápoles, sob a influência de Juliano della Rovere, Inocêncio tomou o partido dos barões contra o rei Ferrante. Finalmente, em 11 de setembro de 1489, excomungou-o, depôs-o e reuniu seus Estados aos da Igreja; mas, em 1492, o papa e o rei se reconciliaram. Em três bulas de 1486, Inocêncio declarou que Henrique VII, da casa dos Tudor, era o verdadeiro rei da Inglaterra, por triplo direito de conquista, de herança e de escolha nacional; e aprovou seu casamento com Isabel, filha de Eduardo IV. — É no fim desse pontificado que teve lugar a tomada de Granada (2 de janeiro de 1492), depois da qual os mouros foram expulsos da Espanha. Em Roma, esse acontecimento foi objeto de grandes regozijos.
Por essa ocasião, Inocêncio deu a Fernando e a seus sucessores o título de Rei Católico. Mas o que aqui nos deve deter mais é a atividade doutrinal de Inocêncio VIII. Desde 1484, ocupou-se em deter as manobras dos judeus da Espanha ou marranos; nos anos seguintes, o proselitismo dos hussitas e mais ainda dos valdenses. Mas dois atos referentes à doutrina permaneceram sobretudo célebres: a bula contra a feitiçaria e a condenação de Pico della Mirandola.
Até meados do século XIV, a Igreja parece ter-se ocupado pouco da feitiçaria; estava-se antes inclinado a ver nela uma embustice, e não um comércio verdadeiro com o diabo. Hoje, teólogos graves, como Hurter, não crêem numa arte da magia, isto é, na faculdade de produzir infalivelmente efeitos extraordinários, com o auxílio do demônio, mediante certos sinais estabelecidos. No século XIV, o papa João XXII concedeu à magia e às práticas de feitiço mais atenção do que sem dúvida teria sido conveniente. O século XV viu retumbantes processos de magia, notadamente o de Gilles de Rais. Quanto à crença nos feiticeiros, nas fadas, nas aparições, numa palavra, em todo um sobrenatural que beira a contrafação, a Alemanha sempre esteve na primeira fila. Nesse país, mais ainda do que alhures, as práticas de feitiçaria se haviam então desenvolvido muito infelizmente.
É contra essas práticas que, em 5 de dezembro de 1484, Inocêncio VIII lançava a bula Summis desiderantes. Começa por constatar nela a extensão considerável que os crimes ditos de feitiçaria tomaram em várias partes da Alemanha. « Segundo o que chegou recentemente ao nosso conhecimento, diz ele, ... muitas pessoas de ambos os sexos, esquecidas de sua salvação e desviando-se da fé católica, têm maus comércios com os demônios íncubos e súcubos. Por seus encantamentos, sortilégios, conjurações e outras superstições sacrílegas, por excessos, crimes e delitos de feitiçaria, fazem definhar e morrer crianças, crias de animais, colheitas, uvas, frutos das árvores, homens, mulheres, rebanhos, gado e outros animais, vinhas, pomares, prados, pastagens, trigos, cereais e outras produções da terra. Por horríveis sofrimentos, tanto internos quanto externos, atingem e torturam homens e mulheres, bestas de carga, rebanhos, gado e outros animais. Impedem a procriação das crianças... A própria fé que receberam no batismo, essas pessoas a renegam com boca sacrílega; por instigação do inimigo do gênero humano, não temem cometer uma multidão de outros malefícios, excessos e crimes, em perigo de suas almas e em desprezo da majestade divina, dando assim maus exemplos em quantidade. »
Em seguida o papa se dirige aos dois inquisidores Henrique Institoris e Tiago Sprenger, da ordem de São Domingos; confere-lhes, sobre a Alta Alemanha e sobre várias outras partes desse país, todo o poder para perseguir, prender e punir todos os culpados, qualquer que seja sua condição. Foi então que esses dois inquisidores fizeram aparecer seu livro tornado tão famoso, o Malleus maleficarum, ou Martelo das feiticeiras (Colônia, 1486). Esse livro contém relatos extraordinários. Vê-se nele, por exemplo, como se produz o granizo e a chuva: faz-se um pequeno buraco, derrama-se água nele e mexe-se com o dedo. Sprenger conheceu uma velha que, por esse processo, destruíra todas as messes e outras colheitas, numa milha de terreno, a vinte e oito milhas de Salzburgo. Part. II, q. i, c. xv. Quando se lê essa obra, convence-se sem dificuldade de que eram Institoris e Sprenger que haviam « feito chegar ao conhecimento » de Inocêncio VIII os fatos indicados na bula de 1484; ele os conhecia « por ouvir dizer ».
« Em toda essa bula, não há vestígio de decisão dogmática a respeito da feitiçaria. A ideia fundamental desse documento é, o autor não o esconde, a hipótese, de todos os tempos firmemente sustentada pela Igreja, da possibilidade de uma influência do demônio sobre a humanidade. » Quanto aos fatos indicados, o papa, pessoalmente, pôde estar convencido de que eram reais; esse ponto importa pouco. Aqui, sua opinião tem apenas o valor de uma decisão pontifícia sobre uma questão alheia ao dogma, como seria, por exemplo, uma contestação a respeito da posse de um benefício. Enfim, sobre a própria feitiçaria, a bula não contém nenhuma prescrição absolutamente nova. L. Pastor, Geschichte der Pàpste, 4e édit., 1899, t. iii, p. 268; trad. franc., par Furcy-Renaud, 1898, t. v, p. 338-339.
Em 1486 veio a Roma o famoso Pico della Mirandola. Com vinte e três anos de idade, vinha com novecentas teses « sobre a dialética, a moral, a física, a matemática, a metafísica, a teologia, a magia e a cabala. » Essas teses eram em parte de sua invenção, em parte emprestadas « aos monumentos dos sábios caldeus, árabes, hebreus, gregos, egípcios e latinos. » Oferecia-se a uma defesa pública, submetendo-se, aliás, ao juízo da Igreja. Teólogos julgaram certas dessas teses suspeitas de heresia; por parecer deles, Inocêncio recusou autorizar a defesa; depois, por um breve de 4 de agosto de 1486, condenou em bloco todas as proposições. Nesse momento, o caso se obscurece. Datado de 4 de agosto, o breve só foi público no mês de dezembro.
Nesse ínterim, Pico escreveu rapidamente uma defesa de suas teses e, se se crê em seus inimigos, antedatou-a: com isso, parecia não responder ao breve. Finalmente, retirou-se para uma vila perto de Florença e se entregou à oração; em 1494, morreu ainda muito jovem, no momento em que, sob a influência de Savonarola, ia fazer-se dominicano. Pretendeu-se que, por um breve de 1493, Alexandre VI havia ab-rogado a condenação de Inocêncio VIII. O breve existe, mas não parece que se deva interpretá-lo nesse sentido. Seja como for, certas teses de Pico eram inconciliáveis com o dogma católico: não era realmente que Cristo havia descido aos infernos; limitado no tempo, um pecado mortal não podia ser punido com penas eternas; nenhuma ciência era mais capaz do que a magia e a cabala de demonstrar a divindade de Jesus Cristo. Ver o artigo especial. Muratori, Rerum italicarum scriptores, 1734, t. iii b, p. 1070 sq.; t. xxiii, p. 87 sq.; Annali d'Italia, Milão, 1820, t. XII, p. 611 sq.; Raynaldi, Annales eccl., an. 1484-1492; J. Burchardi, Diarium Innocentii VIII, édit. Gennarelli, 1854; édit. Thuasne, 1883. Aliás, encontrar-se-á uma abundante bibliografia em L. Pastor, Geschichte der Päpste seit dem Ausgang des Mittelalters, 1895, t. iii, p. 167-268; trad. Furcy-Raynaud, 1898, t. v, p. 225-360. Para este papa e os seguintes, encontrar-se-á uma bibliografia mais abundante nas notícias da Realencyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, 1901, por Benrath.
J. Paquier.
Autor original: J. Paquier
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