HUET (PEDRO DANIEL)

HUET (PEDRO DANIEL)

HUET (Pedro Daniel), bispo de Avranches, nascido em Caen em 8 de fevereiro de 1630, morto em Paris em 26 de janeiro de 1721. Fez seus primeiros estudos em sua cidade natal, junto aos Padres cruzíferos, depois junto aos jesuítas no colégio du Mont. Quis aprender o grego e o hebraico e, mal tinha vinte anos, já se fizera notar por sua erudição. Chegado a Paris, entrou em relações com os principais sábios de seu tempo. Em 1652, acompanhou seu amigo Samuel Bochart, o autor da Geographia sacra, à corte da rainha da Suécia e, durante sua breve estada em Estocolmo, o estudo de um manuscrito dos comentários de Orígenes fez nascer nele o desígnio de editar as obras desse ilustre doutor. De volta a Caen, foi eleito membro da Academia de letras dessa cidade e, alguns anos mais tarde, entregando-se a estudos de química, astronomia e anatomia, ali criou uma Academia de ciências, da qual foi o primeiro presidente. Não recuava diante de nenhuma espécie de trabalho, e chegou a publicar alguns romances, o que o levou a escrever um Essai sur l'origine des romans.

Em 1659, a rainha Cristina chamou-o para junto de si e quis mesmo confiar-lhe a educação do príncipe real da Suécia; mas nada pôde decidi-lo a deixar seu país e as ilustres amizades que ali criara. Daniel Huet foi escolhido em 1670 para auxiliar Bossuet, nomeado preceptor do delfim, e coube-lhe o mérito e a glória dessas edições clássicas ad usum delphini, que enriquecia de notas e comentários. Quatro anos mais tarde, era eleito membro da Academia Francesa. Não abandonava, porém, seus outros trabalhos: publicara os comentários de Orígenes e trabalhava em sua Demonstratio evangelica, na qual se esforça por tirar provas da religião de todas as tradições da Antiguidade. Esses últimos estudos levaram-no a abraçar o estado eclesiástico, e em 1696 recebeu o presbiterado das mãos de Claude Auvry, bispo de Coutances. Dois anos mais tarde, o rei nomeava-o abade comendatário de Aulnay, na diocese de Bayeux. Residiu muitas vezes em sua abadia e ali compôs algumas de suas obras. Em 1685, foi nomeado para o bispado de Beauvais; mas em 1689 as bulas ainda não haviam chegado e ele permutou com Brulard de Silleri, que acabava de ser chamado ao bispado de Avranches. Somente em 1692 Daniel Huet pôde tomar posse de seu bispado. Renunciou a ele em 1699, recebendo então a abadia de Fontenay, onde não encontrou a calma e a tranquilidade de que gozara em Aulnay. Numerosos processos o afastaram dela em demasia, e ele veio a Paris, retirando-se no bairro Saint-Antoine, na casa dos jesuítas, e ocupando-se apenas de oração e estudo. Ali morreu com noventa e um anos, deixando-lhes sua magnífica biblioteca, que, depois da supressão da Companhia de Jesus, passou para a biblioteca do rei.

As principais obras de Daniel Huet são: De claris interpretibus et de optimo genere interpretandi, in-4°, Paris, 1661; 1680; Origenis commentaria in sacram Scripturam grœce-latine, cum latina interpretatione, notis et observationibus, 2 in-fol., Paris, 1668; Rouen, 1679, edição precedida de uma excelente introdução sobre a vida, a doutrina e os escritos de Orígenes; essa introdução está reproduzida em P. G., t. xvii, col. 633-1284; De l'origine des romans, in-12, Paris, 1670; Demonstratio evangelica, in-4°, Paris, 1679; frequentemente reeditada; em Migne, Cursus completus sacrœ Scripturæ, t. ii, col. 262-679; trad. francesa em Migne, Démonstrations évangéliques, Petit-Montrouge, 1843, t. v, col. 7-936; Censura philosophiœ cartesianæ, in-12, Paris, 1689; edição aumentada em 1694; Quæstiones Alnetanæ de concordia rationis et fidei, in-4°, Paris, 1690; Nouveaux mémoires pour servir à l'histoire du cartésianisme, in-12, Paris, 1692; Amsterdã, 1698; primeiramente partidário declarado da filosofia cartesiana, Daniel Huet viu-lhe o perigo para a fé e o assinala nas obras precedentes; De la situation du paradis terrestre, in-12, Paris, 1691; trad. latina nos Critici sacri, Leipzig, 1694, reproduzida; Statuts synodaux pour le diocèse d'Avranches, in-8°, Caen, 1693, 1 1695, 1696 e 1698; De navigationibus Salomonis, in-12, Amsterdã, 1693; Recherches sur la ville de Caen et ses environs, in-8°, Rouen, 1702; Dissertations sur diverses matières de religion et de philosophie, in-12, Paris, 1712; Histoire du commerce et de la navigation des anciens, in-12, Paris, 1716; Bruxelas, 1717; Commentarius de rebus ad eum pertinentibus, in-12, Amsterdã, 1718; essas interessantes memórias foram traduzidas: para o inglês por J. Aikin, 2 in-8°, Londres, 1810, e para o francês por Ch. Nisard, in-8°, Paris, 1853.

Em 1722, o abade d'Olivet publicou o Traité de la faiblesse de l'esprit humain, in-12, Paris, cujo texto original, escrito em latim, apareceu sob o título: Pétri Danielis Huetii, episcopi Abrincensis, de imbecillitate mentis humanæ libri tres, in-12, Amsterdã, 1758. Nessa obra, que foi viva e justamente criticada, revelam-se todas as tendências do autor ao ceticismo filosófico. Segundo Huet, saber duvidar seria a verdadeira ciência, e é preciso contentar-se com probabilidades até que a fé nos dê a plena certeza que nos falta. Censura com razão a Descartes sua dúvida metódica, mas ele mesmo, por outro caminho, reduz a razão a uma completa impotência. Nesse mesmo ano, o abade d'Olivet publicava Huetiana ou pensées diverses de M. Huet, in-12, Paris, 1722, que fez preceder de uma breve notícia sobre esse ilustre sábio. O abade V. Verlaque publicou: Lettres de Bossuet à Daniel Huet, in-4°, Paris, 1876.

Journal des savants, 25 avril 1672, p. 110; 6 juin 1689, p. 320; 20 décembre 1706, p. 1101; 8 juillet 1709, p. 46; 21 octobre 1709, p. 46; avril 1722, p. 371; mai 1730, p. 43; Journal de Trévoux, novembre 1702, p. 173; mars 1711, p. 468; mars 1716, p. 399; avril et mai 1721; août 1722, p. 1309; juin 1725, p. 929; A. Baillet, Jugement des savants, in-4°, Paris, 1722, t. ii, p. 24; t. v, p. 405; Nicéron, Mémoires, t. I, p. 49; Moréri, Dictionnaire historique, t. vi, p. 118; Gallia christiana, in-fol., Paris, 1759, t. xi, p. 415, 445, 505; C. Bartholmès, Huet, évêque d'Avranches, ou le scepticisme théologique, in-8°, Paris, 1850; J. d'Avenel, Histoire de la vie et des ouvrages de Huet, in-8°, Mortain, 1853; A. de Gournay, Huet, évêque d'Avranches, sa vie, ses œuvres, in-8°, Caen, 1854; Flottes, Étude sur Daniel Huet, évêque d'Avranches, in-8°, Montpellier, 1857; U. Maynard, L'Académie française et les académiciens, XXXVIe fauteuil, na Bibliographie catholique, novembre 1863, p. 359; C. Trochon, Huet, évêque d'Avranches, d'après des documents inédits, dans Le Correspondant, 1876, t. cv, p. 869-1079; 1877, t. cvi, p. 1080; H. Moulin, Chapelain, Huet, Ménage et l'Académie de Caen, in-8°, Caen, 1882; Brucker, Historia critica philosophiœ, in-4°, Leipzig, 1766, t. iv, p. 552; A. Franck, Dictionnaire des sciences philosophiques, in-8°, Paris, t. I, p. 730; É. Blanc, Histoire de la philosophie, in-12, Paris, 1806, t. ii, p. 87; Barach, Huet als Philosoph, 1862; Espenberger, Die apologetische Bestrebungen des Huet, 1905; Hurter, Nomenclator, Inspruck, 1910, t. iv, col. 1091-1103.

B. Heurtebize.

Autor original: B. Heurtebize

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