HORNES (Arnoldo de), nascido no condado cujo nome trazia, governou a diocese e o principado de Liège durante dez anos, de 1379 a 1389. Sucedia a João de Arckel e, como ele, ocupara primeiro a sé episcopal de Utrecht. Por morte de João de Arckel, o capítulo de São Lamberto dera seus sufrágios à pessoa de Eustáquio Persyn de Rochefort; mas essa escolha, aceita por Clemente VII, papa de Avinhão, chocou-se com a oposição de Urbano VI, que designou de Hornes. O grande cisma do Ocidente acabava justamente de estourar e começava a produzir seus naturais e lamentáveis efeitos. Forte com o apoio do pontífice romano, Arnoldo julgou contudo mais oportuno tomar provisoriamente apenas o título de « mambour » ou mainbour, isto é, de administrador; e, depois de designar seu irmão Luís para gerir os negócios em seu nome, foi juntar-se a seus primeiros diocesanos. Então os liegenses, como movidos por um sentimento de ciúme, chamaram-no de volta para o meio deles. Sua situação, assim consolidada, ficou definitivamente assegurada quando obteve do imperador Venceslau cartas de confirmação. Nomeado em 1381 cardeal-presbítero por Urbano VI, declinou essa alta distinção, sem que possamos dizer qual foi o motivo de sua recusa.
Aliás, de caráter brando e antes conciliador, sabendo, se preciso, fazer da necessidade virtude, parece que por isso mesmo sofreu menos com as dificuldades que haviam encontrado vários de seus predecessores e contra as quais eles haviam batido inutilmente. Assim, viram-se, sob seu governo, os progressos da democracia acentuarem-se sempre. O principado de Liège, que compreendia então o Condroz, a Hesbaye, o condado de Looz, o marquesado de Franchimont, o senhorio de Bouillon e o Entre-Sambre-et-Meuse, organizou-se numa espécie de república federativa. Em 1384, os patrícios renunciaram a todo privilégio nas eleições. Por reconhecimento, nas eleições desse ano escolheu-se para burgomestre um membro da nobreza, Fastré de Lardier, mas o conselho foi composto inteiramente de gente do povo; e no ano seguinte aconteceu o mesmo com os burgomestres. Daí em diante todos os direitos foram concentrados na burguesia, e para dela participar os nobres viram-se obrigados a fazer-se inscrever na lista dos ofícios.
O poder soberano, que até então pertencera ao episcopado e à aristocracia, passou às mãos da nação representada pelos três estados, sendo os pequenos ofícios chamados a votar como os grandes, os operários como os mestres, e tendo os próprios aprendizes direito de voto. Pôde-se ver aí, em plena Idade Média, algo análogo a um ensaio de sufrágio universal. O conselho da cidade episcopal contava por si só mais de 200 membros. Consentiu o bispo de bom grado nesses arranjos, ou foi moralmente constrangido a subscrevê-los, ignora-se. O que é certo é que Liège apresentava nesse momento a imagem da mais completa igualdade que jamais se encontrou. Michelet sublinhou esse fato com complacência. Mas poderia ter acrescentado que as melhores coisas têm seus inconvenientes, pois « multidão engendra confusão », como já dizia a esse propósito um contemporâneo, Jacques de Hemricourt; e quando a febre democrática sobe a certo grau, é muito difícil fazer chegar às multidões a voz da razão e da moderação.
Essas verdades de experiência iam receber logo dos acontecimentos uma nova e retumbante confirmação, pelas desordens que estouraram sob João de Baviera, sucessor imediato de Arnoldo, e pelos massacres de que foram ocasião. Em 12 de outubro de 1386, Arnoldo de Hornes promulgou a lei orgânica conhecida sob o nome de mutação da paz de Waroux. Essa lei regulava sabiamente vários pontos relativos aos testamentos e aos contratos de casamento, reconstituía a corte alodial sobre bases mais largas, e fixava na capital a sede da corte feudal, anteriormente ambulante. Foi o último ato político de um prelado sábio e moderado, que morreu em 8 de março de 1389, levando para o túmulo o pesar dos liegenses.
Polain, Histoire de l'ancienne principauté de Liège, 1844, t. II, p. 182; Namèche, Cours d'histoire nationale, Bruxelles, 1856, t. V, p. 1077-1078; Kurth, La cité de Liège au moyen âge, Bruxelles, 1910, t. ii et iii; Alph. Le Roy, art. Arn. de Hornes, na Biographie nationale de Belgique, Bruxelles, 1886-1887, t. ix, col. 491-492.
J. Forget.
Autor original: J. Forget
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