HOCHSTRATEN OU HOOGSTRATEN (JACÓ)

HOCHSTRATEN OU HOOGSTRATEN (JACÓ)

HOCHSTRATEN, ou melhor HOOGSTRATEN Jacó, nasceu em Hoogstraeten, no Brabante, donde o seu nome. Estudou filosofia em Lovaina e ali foi promovido a mestre em artes em 1485. Biographie nationale de Belgique, Bruxelas, 1889, t. x, p. 77. Era também licenciado da faculdade de teologia de Lovaina e durante algum tempo foi professor na pedagogia do Falcão. De Jongh, L'ancienne faculté de théologie de Louvain, ibid., 1911, p. 100. Entrou em Colônia na ordem dos frades pregadores em data incerta, mas pouco depois de 1485. Uma vez sacerdote, foi enviado à universidade de Colônia para ali prosseguir os seus estudos teológicos; foi matriculado em 10 de setembro de 1495. Ennen, Geschichte der Stadt Köln, 1875, p. 92. O capítulo geral, realizado em Ferrara em 1498, designou Hochstraten para Colônia, como segundo leitor. B. Reichert, Acta cap. gener., Roma, 1900, t. iii, p. 432. Em 1500, é eleito prior de Antuérpia; depois, em 1504, é promovido a mestre em teologia em Colônia. H. Cremans, De Jacobi Hochstraten vita et scriptis, Bonn, 1869, p. 6. O capítulo de Milão (1505) e o de Pavia (1507) chamaram-no de volta a Colônia na qualidade de regente dos estudos. Acta cap. gen., t. iv, p. 52, 72. Regente, Hochstraten tornava-se pelo próprio fato titular de uma cátedra de teologia na universidade de Colônia. Durante a sua regência, foi encarregado, com Fr. Jerônimo, prior de Colônia, da reforma do convento de Wesel; a comissão está assinada pelo mestre Caetano, em 6 de dezembro de 1509, em Pisa. Mortier, Histoire des maîtres généraux, Paris, 1911, t. v, p. 392.

1° Primeiras polêmicas da ordem dos frades pregadores. — Em Colônia, Hochstraten não tardou a mostrar-se polemista ardoroso. Começou por uma defesa em favor das ordens mendicantes. Com efeito, um canonista havia pretendido que os fiéis só podiam satisfazer ao preceito da confissão anual dirigindo-se ao seu próprio pastor e não a religiosos. É contra essa pretensão que Hochstraten fez aparecer em 1507: Defensorium fratrum mendicantium contra curatos illos qui privilegia fratrum injuste impugnant, signaturis doctorum utriusque juris de alma universitate studii Coloniensis egregie permunitum, in-4°, s. n. a. Ver N. Paulus, Die deutschen Dominikaner im Kampfe gegen Luther (1518-1563), Friburgo em Brisgóvia, 1903, p. 88.

Pelo fim do ano de 1507, apresentou-se a ocasião para Hochstraten de entrar de novo em liça e num debate que devia ter maior repercussão. Com efeito, no curso do verão de 1506, um jurista italiano, Pedro Tomasi de Ravena, que havia empreendido a volta das universidades alemãs, veio também a Colônia para dar algumas lições. Mas logo emitiu proposições tão ousadas que o senado da universidade, no decorrer de março de 1507, lhe pediu que se justificasse das acusações de que era objeto. Prometeu dar satisfação, mas alguns meses depois não deixou de recomeçar a sustentar proposições irritantes. Numa nova edição de seu Compendium de direito eclesiástico, aparecida no verão de 1507, pretendeu que os príncipes alemães não tinham o direito de deixar no patíbulo o corpo dos supliciados e que isso era contrário ao direito natural e ao direito divino; afirmava, além disso, que cometiam, agindo assim, um pecado mortal. A faculdade de teologia se comoveu e opôs outras tantas antíteses às quatro teses que o jurista italiano pretendia defender; ao mesmo tempo, vários teólogos se apresentaram para confundi-lo numa disputa pública. O jurista esquivou-se e declarou que demonstraria o fundamento de sua doutrina no curso de suas lições.

Hochstraten não permanecera inativo e, no fim do ano de 1507 ou no começo de 1508, fez aparecer contra Tomasi, em favor dos príncipes alemães, um tratado intitulado: Justificatorium principum Alemaniae... dissolvens rationes clarissimi utriusque juris doctoris et equitis magistri Petri Ravennatis quibus principum judicia carpsit, s. l. ii. d.; 2ª edição, Colônia, 8 de maio de 1508. A conclusão de Hochstraten é que se podem muito bem deixar os corpos dos supliciados no patíbulo, sem pecado, e que nem sequer se está obrigado a prestar as últimas honras aos condenados arrependidos. Tomasi respondeu em tom injurioso e, tendo sabido que Hochstraten preparava um segundo opúsculo contra ele, antecipou-se-lhe com um novo escrito: Anticipatio quedam nova, veniens opus F. Jacobi Hochstraten... ut fertur, parturientis, s. l. ii. d. Pouco depois, Pedro de Ravena deixava Colônia por Mogúncia. A réplica de Hochstraten não se fez esperar. Tinha por título: Defensio scholastica principum Alamanie in eo quod sceleratos detinent insepultos in ligno, in-4°, Colônia, 8 de maio de 1508.

Ao mesmo tempo, outro teólogo de Colônia fazia aparecer contra Tomasi: Tractatus de cadaveribus maleficorum morte punitorum, Colônia, 1508. Tomasi respondeu a um e a outro em seu Compendium breve et pulcherrimum in materia consuetudinum feudorum, Colônia, 1508. Sua resposta foi das mais vivas; não foi menos violento num escrito aparecido no decorrer do verão, sob este título: Prima pars egregii et salutiferi operis celeberrimi juris utriusque doctoris Petri Ravennatis contra Gherardum de Zutphania et fratrem Jacobum theologiae professores, Mogúncia, 1508. Tomasi não recuara diante da difamação; por isso seus adversários de Colônia apelaram ao arcebispo de Mogúncia.

Em 10 de setembro, o vigário geral de Mogúncia dava conta ao decano da faculdade de teologia de Colônia de que ia instruir a causa. De fato, a segunda parte do tratado de Tomasi, dirigida sobretudo contra Hochstraten, não apareceu; além disso, o núncio, Bernardino Carvajal, que se encontrava então em Mogúncia, pronunciou-se em favor dos teólogos de Colônia contra Tomasi. Este apelou ao papa, mas o seu apelo não teve seguimento, pois morreu no ano seguinte em Worms (1509). Entrementes, Hochstraten havia preparado uma resposta às quatro proposições emitidas outrora por Tomasi. Ela é datada de 20 de junho de 1509. Hochstraten comunicou-a a várias universidades e chancelarias episcopais para recolher o seu parecer e dar assim à sua resposta uma autoridade mais alta. De fato, encontrou aprovadores não só entre os teólogos da universidade de Colônia, mas ainda entre os de Lovaina, e junto aos bispos de Liège e de Utrecht. Entretanto, ao saber da morte de Tomasi, Hochstraten não quis que a sua resposta continuasse a circular; não pretendia, dizia, combater contra um morto. Não obstante, esse escrito apareceu revestido da aprovação de mais de trinta sábios. Intitulava-se: Protectorium principum Alemanie de maleficis non sepeliendis contra Ravennatem, Colônia, 1511. No início desse opúsculo, datada de 19 de outubro de 1508, encontra-se uma carta dirigida a Hochstraten por Adriano de Utrecht, o futuro Adriano VI, que era então chanceler e reitor da universidade de Lovaina. Ver Guido Pasolini, Adriano VI, Roma, 1913, p. 20-21; N. Paulus, op. cit., p. 92, n. 2. Adriano tomava abertamente partido contra Tomasi.

Tendo morrido o prior de Colônia, Servatius Banckel, em Basileia, em 17 de maio de 1508, Hochstraten foi eleito prior. Nessa qualidade, tornava-se de direito inquisidor para as províncias eclesiásticas de Colônia, Mogúncia e Tréveris. Figura já como inquisidor num escrito do imperador Maximiliano, de 10 de novembro de 1509. Böcking, Hutteni operum supplementum, Leipzig, 1864, t. i, p. 89; ver também Paulus, op. cit., p. 93. Seus começos como inquisidor foram para sevir contra a opinião então reinante de que era permitido recorrer a feiticeiros e magos para lutar contra outros sortilégios. Fez aparecer sobre esse assunto, em 1510: Tractatus magistralis declarans quam graviter peccent querentes auxilium a maleficis compilatus, Colônia, 1510. Hochstraten não receia declarar herética essa prática; os que a ela se entregam, se persistirem em sua opinião, poderão ser processados e sujeitos à pena do fogo. Mostrou que levava a sério suas funções de inquisidor, pois, no fim de 1512, entregou ao braço secular para ser executado o médico holandês Hermann de Ryswick. P. Fredericq, Corpus documentorum inquisitionis haereticae pravitatis Neerlandicae, Gand, 1889, t. i, p. 498-502.

2° Hochstraten e o processo de Reuchlin. Um judeu convertido de Colônia, Pfefferkorn, para apressar a volta de seus antigos correligionários, pensou que o melhor meio seria retirar-lhes os livros talmúdicos. Com esse fim, obteve do imperador um primeiro mandato, em 19 de agosto de 1509, autorizando-o a procurar e destruir, na presença do pároco do lugar e de dois representantes, todos os livros que pudesse encontrar opostos à fé cristã ou à fé judaica. Por outro decreto imperial, de 10 de novembro de 1509, a condução de todo esse assunto era confiada ao arcebispo de Mogúncia, Uriel. Devia assegurar-se do concurso dos sábios das universidades de Mogúncia, Colônia, Erfurt e Heidelberg, bem como do inquisidor Hochstraten, do judeu convertido Victor Carben e do sábio hebraísta João Reuchlin; segundo um terceiro rescrito imperial, de 16 de julho de 1510, devia recolher a opinião de uns e de outros.

Reuchlin foi de parecer que somente os panfletos dos judeus, abertamente dirigidos contra a fé cristã, deviam ser procurados e destruídos; quanto aos outros livros, podiam ser conservados. Os outros consultores foram de parecer muito mais rigoroso; Hochstraten e os doutores da universidade de Colônia foram por que só se deixasse aos judeus a Bíblia; os livros talmúdicos deviam ser confiscados, como vários papas já o tinham muitas vezes ordenado. Ver o voto de Hochstraten, datado de 9 de outubro de 1510, em Böcking, Hutteni operum supplementum, t. i, p. 99 sq. O imperador avocou a si o assunto e este não teve outro seguimento, sob essa forma ao menos, pois a questão dos livros judaicos ia entrar numa nova fase. Reuchlin havia atacado vivamente Pfefferkorn em seu parecer fundamentado; este respondeu em tom muito violento em seu Handspiegel (Espelho de mão), aparecido em 1511; Reuchlin respondeu no mesmo tom com o seu Augenspiegel (Espelho dos olhos), que apareceu em Frankfurt, no decorrer do outono de 1511.

O pároco dessa cidade, Petrus Meyer, julgou descobrir nesse livro de Reuchlin proposições errôneas e o enviou a Hochstraten, inquisidor para a província de Mogúncia, na qual o livro havia aparecido e se vendia. Hochstraten não quis precipitar nada numa questão tão delicada e enviou o livro à universidade de Colônia para que fosse examinado, em virtude dos privilégios de censura concedidos a essa universidade pelo papa Sisto IV. Ver N. Paulus, op. cit., p. 95. O exame do livro foi confiado pelo inquisidor e pela faculdade de teologia a Arnaldo de Tungern e a Conrado Kollin.

Uma troca de cartas entre Reuchlin e Colônia veio ainda envenenar o debate. Num novo escrito publicado em 1512, Reuchlin sustentava mais do que nunca o seu modo de ver. Conrado de Tungern respondeu-lhe num factum em latim, no qual pedia que o Augenspiegel de Reuchlin fosse condenado, por favorecer as doutrinas judaicas contra a verdade cristã. Repreendia igualmente o humanista por ter procurado intimidar a faculdade de Colônia. Por sua vez, Pfefferkorn publicava contra o adversário o seu Brandspiegel; censurava muito vivamente a Reuchlin por tê-lo tratado de mentiroso e, de sua parte, também não lhe poupava os epítetos mais malsoantes. O imperador Maximiliano, em 7 de outubro de 1512, fez condenar o Augenspiegel. Reuchlin, não obstante, fez publicar uma apologia contra os teólogos de Colônia, na qual os trata de « carneiros, bodes, porcos », etc. Pedia ao imperador que os dois partidos guardassem doravante o silêncio; os teólogos, de seu lado, intervinham junto ao imperador para que Reuchlin pusesse termo às suas injúrias. Entrementes, as universidades de Colônia, Lovaina, Mogúncia, Erfurt e Paris, postas por Hochstraten a par da questão, pronunciaram-se todas contra Reuchlin; a faculdade de Paris emitiu o seu juízo em 2 de agosto de 1514. Ver Du Boulay, Hist. univ. Paris., t. vi, p. 47-69, 107; d'Argentré, Collectio judiciorum, t. i, p. 350-351. No ano seguinte, a 2 de maio de 1515, interveio de novo para apressar a condenação do livro de Reuchlin. Ver L. Delisle, Notice sur un Registre des procès-verbaux de la faculté de théologie de Paris, 1899, p. 39.

Forte com esse apoio, Hochstraten entrou em cena como inquisidor. No mês de setembro de 1513, citava Reuchlin a comparecer em Mogúncia, diante do seu tribunal; mas Reuchlin apelou ao papa Leão X; este remeteu então o assunto ao arcebispo de Spira, o conde palatino Jorge, que por sua vez encarregou o preboste Tomás Truchsetz, discípulo de Reuchlin, de decidir o litígio. A sentença foi proferida em 29 de março de 1514; declarava-se que o livro de Reuchlin, Augenspiegel, não continha nenhuma heresia, nem favorecia os judeus; por conseguinte, a sua leitura era não somente permitida, mas até de recomendar. Ao contrário, Hochstraten era condenado a pagar as custas do processo, que montavam a 1 100 florins de ouro, e além disso a abster-se doravante de se imiscuir nessas questões. Como era de esperar, Hochstraten não quis submeter-se a uma sentença tão ofensiva para ele e, por intermédio do seu procurador em Spira, Fr. João Host de Romberg, interpôs imediatamente apelação ao papa contra a sentença do tribunal de Spira. O papa nomeou o cardeal Grimani juiz da causa. Em 11 de junho de 1514, o cardeal chamou as partes a Roma; somente Hochstraten ali se apresentou; a idade avançada impediu Reuchlin de comparecer, mas ele fez-se defender por um procurador. As coisas se arrastaram. Nesse ínterim, os partidários de Reuchlin e todos os que se designavam sob o nome de poetas triunfavam; no decurso do ano de 1515 começaram também a aparecer as Litterae virorum obscurorum, que procuravam lançar o descrédito sobre os religiosos e cobri-los de ridículo. Sobre essas Litterae, ver F. Griffin Stokes, Epistolae obscurorum virorum, The Latin text with an English rendering, notes and a historical introduction, Londres, 1909.

Em Roma, nomeara-se uma comissão de vinte membros para examinar e julgar o caso. Na sessão de 2 de julho de 1516, quase todos os membros se mostraram favoráveis ao livro de Reuchlin; só restava passar à votação, quando, por ordem do papa, a sentença foi adiada. Hochstraten permaneceu ainda algum tempo em Roma, na esperança de ver terminar o processo. Só estava de volta a Colônia no decurso do verão de 1517. Depois do adiamento do processo, estando ainda em Roma, Hochstraten se oferecera para defender, perante o sínodo do Latrão então reunido, toda uma série de teses contra o livro de Reuchlin; seu pedido foi rejeitado. As teses não deixaram de aparecer sob este título: Erroneae assertiones in oculari Speculo I. Reuchlin verbatim positae et conclusiones per magistrum Johannem de alta platea, in-4°, 1517. Este escrito, desconhecido de Cremans, de Geiger e de Böcking, encontra-se no British Museum (3836).

Em Colônia, aonde acabava de regressar depois de uma ausência de quase três anos, Hochstraten reencontrava os partidários de Reuchlin muito dispostos a triunfar do silêncio de Roma. No mês de setembro de 1517, o preboste Hermann de Neuenahr fez publicar um diálogo entre um sábio italiano e o arcebispo de Nazaré, Jorge Benignus, um dos membros da comissão romana. Reuchlin ali era glorificado e a sua causa representada como a da justiça e da verdade. Hochstraten respondeu com uma longa apologia, que apareceu em fevereiro de 1518, sob este título: Apologia reverendi Patris Iacobi Hochstraten ad dominum Leonem decimum sanctissimum nostrum ac divum Maximilianum imperatorem semper augustum, Colônia, 1518. Geiger, Reuchlin, p. 404-412. Reuchlin e seus partidários desafogaram o mau humor contra Hochstraten em cartas dirigidas ao conde de Neuenahr, que nada teve de mais urgente do que fazê-las publicar com um prefácio e uma das duas apologias romanas de Reuchlin.

Hochstraten viu-se, pois, obrigado a responder; fê-lo numa segunda apologia que, embora terminada em agosto de 1518, só veio à luz no início de 1519: Apologia secunda, Colônia, 1519. Geiger, op. cit., p. 421-427. Por volta dessa época o terreno da luta deslocou-se. Em 1517, Reuchlin fizera publicar o seu tratado De arte cabalistica libri III, Leoni X dicati, Haguenau. Esse livro oferecia certamente perigos para a fé; por isso Hochstraten, no mês de abril de 1519, publicou a sua Destructio Cabale, Colônia, dedicada ao papa Leão X; mostrava que a doutrina secreta dos judeus, longe de fornecer argumentos à fé católica, só podia tornar-se fonte de erros. Geiger, op. cit., p. 199-201. Erasmo interveio então junto a Hochstraten, por um escrito de 11 de agosto de 1519, para lhe pedir que não inquietasse mais Reuchlin; pouco antes, Franz von Sickingen, em 26 de julho, havia intervindo com o mesmo propósito. Essa intervenção vinha acompanhada de ameaças; por isso, numa conferência realizada em Frankfurt no mês de maio de 1520, decidiu-se que o provincial dos dominicanos solicitaria ao papa a solução do conflito, que se pronunciaria a anulação do julgamento de Spira e que se imporia silêncio aos dois partidos. Entrementes, o capítulo provincial dos dominicanos, reunido em Frankfurt, destituía do cargo de prior de Colônia a Hochstraten, que por isso mesmo deixava de ser inquisidor, e lhe impunha silêncio.

Contudo, essa solução não foi bem recebida em Roma. O estrondo que Lutero acabava de provocar abrira enfim os olhos ao papa; podia-se ver agora que a oposição a Roma vinha precisamente do grupo daqueles que se haviam mostrado mais ardentemente partidários de Reuchlin. Por esse motivo, Hochstraten acabava de encontrar nos acontecimentos, que iam mudar a face das coisas na Alemanha, um socorro inesperado. Assim, em 23 de junho de 1520, o papa cassava a sentença de Spira, condenava o Augenspiegel de Reuchlin e o seu autor às custas do processo. Ao mesmo tempo, Hochstraten, por autoridade do papa, era restabelecido em todos os seus cargos. Saía, enfim, vencedor da luta. Esse episódio da luta contra o humanismo tem sido freqüentemente explorado contra a Igreja em geral, e contra as ordens religiosas em particular, sobretudo as mendicantes, para mostrar a sua intransigência e também o seu desprezo por todo progresso intelectual. Que tenha havido, da parte de Hochstraten tanto quanto do lado dos seus adversários, um excesso no ataque e na réplica, que com demasiada freqüência se tenham ido buscar argumentos em alusões pessoais, ofensivas, é certo. Todavia, não se pode negar, e os acontecimentos o provaram, que a verdade estava do lado de Hochstraten. Ver N. Paulus, op. cit., p. 99 sq.

3° Hochstraten e o protestantismo. Desde o começo, Hochstraten havia chamado a atenção do papa para os perigos que as doutrinas dos inovadores faziam correr à fé. Mesmo no seu tratado Destructio Cabale, assinalara, desde o mês de abril de 1519, o perigo das doutrinas de Lutero, sem contudo nomeá-lo. Este, não obstante, ali se reconheceu depressa e respondeu de maneira muito violenta num cartaz: Scheda adversus Iacobum Hochstraten, 1519. Representava Hochstraten como um homem de sangue e o pior dos hereges. Ver N. Paulus, op. cit., p. 102. Por volta da mesma época, a faculdade de teologia de Lovaina apresentou à de Colônia, para ali serem examinados, toda uma série de escritos de Lutero. Ver de Jongh, L'ancienne faculté de théologie de Louvain, p. 207-208. Poucos dias depois, a faculdade de Colônia enviou a Lovaina, como deputado, Jacques Hochstraten, para levar ali a condenação pronunciada em Colônia contra os escritos de Lutero. De Jongh, op. cit., p. 208 e 45*. Erasmo pretende que tenha sido sobretudo Hochstraten quem excitou os seus colegas contra Lutero. Opera, 1703, t. iii, col. 1361; de Jongh, op. cit., p. 216. Em 30 de agosto de 1519, a faculdade de teologia de Colônia condenou os escritos de Lutero, e este foi convidado a uma retratação pública.

Depois da sentença de excomunhão lançada contra Lutero, em junho de 1520, Hochstraten fez, no mês de novembro seguinte, queimar publicamente os escritos do inovador. Além disso, compôs contra os erros de Lutero todo um tratado, que em seu pensamento devia apresentar quatro partes, das quais, porém, só duas apareceram. Está concebido em forma de diálogo, no qual o próprio santo Agostinho toma a si a tarefa de refutar as doutrinas novas. A segunda parte apareceu primeiro, sob este título: Ad principem Carolum illustrissimum ac serenissimum cesarem... cum divo Augustino colloquia contra enormes atque perversos Martini Lutheri errores. Pars secunda, Colônia, 1521. Depois, no ano seguinte, deu a primeira parte: Ad sanctissimum dominum nostrum modernum nomen nondum pontificem cujus pontificale innotuit... cum divo Augustino colloquia... Pars prima cui compendium quoddam generale premittitur, Colônia, 1522. Nessa obra, Hochstraten se propunha sobretudo responder à apologia que Lutero fizera das suas teses de Leipzig em 1519; só de passagem se faz alusão aos outros escritos de Lutero. No ano anterior, Hochstraten publicara uma obra mais importante de filosofia moral, intitulada: Margarita moralis philosophiae in duodecim libros omnia maximeque redacta, ejusdem principia secreta ac cognitu summopere necessaria luculenter complectens, Colônia, 1521.

Hochstraten teve ainda ocasião de combater a corrente das idéias novas, fazendo publicar contra João Lonicerus, ex-agostiniano, Dialogus de veneratione et invocatione sanctorum, contra perfidiam Lutheranam. Authore I. Philalethe, vigilantissimo haereticae pravitatis inquisitore, Colônia, 1524. No ano seguinte, publicava um escrito de menor importância: De purgatorio, Antuérpia, 1525. A doutrina fundamental de Lutero sobre a justificação e as obras encontrou em Hochstraten um adversário declarado. Publicou primeiro o seu Epitome de fide et operibus, adversus chimericam illam atque monstrosam Martini Lutheri libertatem, quam ipse falso ac perdite christianam appellat. Per venerandum heretice pravitatis inquisitorem, Colônia, 1525. Por volta da mesma época compôs também Dialogus adversus pestiferum Lutheri tractatum de christiana libertate, Antuérpia, 1526. Num outro tratado explica a doutrina católica sobre o valor das boas obras; esse escrito intitula-se: Catholicae aliquot disputationes. Contra Lutheranos. Scopus totius operis: Opera bona non iustificant, sed hominem beatificant, s. l., 1526. Foi a última obra de Hochstraten: com efeito, morreu alguns meses depois, em 27 de janeiro de 1527. Seus adversários lhe haviam predito um triste fim e, assim que souberam da sua morte, espalharam a esse respeito toda sorte de boatos mentirosos sobre ele.

Echard, Scriptores ordinis praedicatorum, Paris, 1719-1721, t. ii, p. 57-62; M. Cremans, De Iacobi Hochstraten vita et scriptis, Bonn, 1869, cujos juízos são por vezes corrigidos por N. Paulus, Die deutschen Dominikaner im Kampfe gegen Luther, Friburgo em Brisgóvia, 1903, p. 87-106; é de longe a melhor biografia existente, e resume todos os estudos precedentes. Ver a sua bibliografia. A. Mortier, Histoire des maîtres généraux de l'ordre des frères prêcheurs, Paris, 1911, t. v, p. 391 sq.; H. de Jongh, L'ancienne faculté de théologie de Louvain au premier siècle de son existence (1432-1540), Lovaina, 1911, passim; ver em particular o c. v: La lutte contre Érasme et Luther, p. 87 sq.; F. Pijper, Bibliotheca reformatoria neerlandica, Haia, 1903, t. iii, p. 377, dá uma visão de conjunto do processo de Reuchlin e indica as principais obras; à p. 382, assinala os principais panfletos escritos contra Hochstraten.

R. Coulon.

Autor original: R. Coulon

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