HILDEBERTO DE LAVARDIN

HILDEBERTO DE LAVARDIN

HILDEBERTO DE LAVARDIN. — I. Vida. II. Escritos.

I. Vida. — Nasceu em Lavardin, perto de Montoire, antiga diocese de Le Mans (Loir-et-Cher), em 1056. Não foi monge em Cluny, apesar do que escreveu o editor de suas obras, dom Beaugendre. É em Le Mans que, com toda a verossimilhança, deve ter feito os seus estudos. A escola dessa cidade era então florescente. O bispo Hoel (1085-1097) confiou-lhe a direção dela, até lhe conferir a dignidade de arquidiácono (1092). A melhor parte do clero e o povo concordaram em elevá-lo ao episcopado (1097). Essa eleição fez-se contra a vontade de Hélie, conde do Maine, e de Guilherme, o Ruivo, rei da Inglaterra; foi igualmente desaprovada por membros do clero que não receavam levantar contra Hildeberto acusações graves e falsas perante são Ivo, bispo de Chartres.

O novo bispo de Le Mans teve assim de libertar-se por si mesmo da servidão da investidura. Fê-lo com prudência e sem fraqueza. Conseguiu subtrair aos patronos leigos certo número de igrejas e fazê-las voltar ao patrimônio comum. Apesar de suas penosas contendas com o rei da Inglaterra e o conde do Maine, ocupou-se muito ativamente de sua diocese. Os interesses espirituais reclamavam seus cuidados tanto quanto os interesses temporais. Ao voltar de uma viagem que fez a Roma (1107) e às Duas Sicílias, onde Rogério, filho de Roberto Guiscardo, o acolheu da melhor maneira, teve de reprimir os excessos de língua do pregador Henrique, discípulo de Pedro de Bruys, que amotinava os fiéis contra o clero. Ver col. 2178. Conseguiu fazer concluir a construção de sua igreja catedral.

Por morte de Gilberto, arcebispo de Tours, Hildeberto recolheu-lhe a sucessão (1125). Teve de resistir desde o início às usurpações do rei Luís, o Gordo, sobre a administração de sua Igreja. Esse príncipe pretendia impor-lhe, contra todo direito, um deão e um arquidiácono de seu capítulo catedral. Sua constância e sua moderação acabaram por triunfar das durezas empregadas contra ele com o fim de dobrar-lhe a vontade. No meio dessas dificuldades, procurou sempre um apoio do lado do sumo pontífice e de seu legado. Teve o desgosto de não poder pôr termo, após a morte de Baudri, bispo de Dol (1130), às pretensões metropolitanas dessa Igreja. O papa Honório II havia-o encarregado anteriormente, a pedido de Conan, duque da Bretanha, de reunir com seu legado, Girard de Angoulême, um concílio para remediar as desordens que perturbavam essa província e que teve lugar em Nantes em 1127. Ver Mansi, Concil., t. xxi, col. 351. Dedicou, durante essa viagem, a igreja abacial de São Salvador de Redon.

Por morte de Honório II, sua boa-fé deixou-se surpreender por Gérard de Angoulême, partidário de Pedro de Leão, o antipapa Anacleto. Mas são Bernardo logo o ganhou para a causa do papa legítimo, Inocêncio II. Hildeberto morreu em 18 de dezembro de 1133. Foi um dos melhores bispos de seu tempo. Suave, afável, sempre disposto a prestar serviço, compassivo para com os pobres e os aflitos, dedicado à manutenção da disciplina e dos bons costumes, à instrução dos clérigos e dos fiéis, sinceramente apegado às leis da Igreja, pronto a todos os sacrifícios pela defesa de seus direitos, generoso para com os mosteiros e as igrejas, granjeou a estima de santo Anselmo, de são Hugo de Cluny, de são Bernardo e das personagens mais virtuosas. Embora vários escritores lhe tenham conferido o título de santo, nunca foi objeto de culto litúrgico nem em Le Mans nem em Tours.

Embora tenha desempenhado papel considerável em Le Mans e em Tours, sua fama como bispo não iguala, perante a posteridade, a que lhe valeram seus escritos. Sua reputação foi incontestada até o século XIV. Os mestres o propunham à admiração e à imitação da juventude das escolas. Seus versos passavam por obras-primas da literatura cristã; chamavam-no egregius versificator. Aprendiam-se suas cartas de cor.

II. Escritos. — Baluze preparou uma edição das obras de Hildeberto, que não pôde concluir. Os materiais reunidos por ele conservam-se na Biblioteca Nacional entre suas notas, CXX. Dom Beaugendre foi mais feliz; sua edição apareceu em Paris em 1708. O cônego Bourassé publicou-a de novo, com suplementos, na P. L. de Migne em 1854. A edição de dom Beaugendre foi severamente criticada por seus confrades, autores da Histoire littéraire de la France, 1754, t. xi, pelo agostiniano Xisto Schier, Dissertalio de Hil-deberli operibus, eorum genuitate, inlegritale,edilionibus, in-4°, Viena, 1767, por Victor Leclerc, em 1841, em suas observações sobre a Histoire littéraire, 2e édit., t. xi, p. 20-26, e por Hauréau. Falta-nos uma edição em que se possa confiar.

Hauréau fez de suas poesias um estudo consciencioso. Seu exame incide sobre os Carmina miscellanea, editados por Beaugendre, as peças de mesma natureza impressas alhures ou permanecidas manuscritas. A crítica que fez dos 141 sermões que dom Beaugendre lhe atribuíra foi desastrosa: 54 pertencem a Godofredo Babion, 25 a Pedro Lombardo, 24 a Pedro Comestor, 7 a Maurício de Sully, 21 não podem ser atribuídos a ninguém, 2 constituem duplicata, 4 podem ser de Hildeberto, 4 lhe pertencem seguramente. A Bibliothèque des Pères só lhe atribuíra três.

Dom Beaugendre publicou em primeiro lugar as cartas, classificadas segundo seu objeto em três livros; o 1º compreende as cartas de piedade e de moral; o 2º, as que tratam do dogma e da disciplina; o 3º, a correspondência de amizade. É um dos melhores monumentos literários do século XII: a língua é excelente, os pensamentos finos; há muito a tirar delas para a história. Não temos nada de melhor em seus escritos. Foram frequentemente copiadas.

Seus opúsculos, que o editor apresenta depois dos sermões, compreendem uma Vida de santa Radegunda e outra de são Hugo, abade de Cluny, cuja autenticidade não parece duvidosa; um diálogo em prosa e em versos, De quœrimonia et conflictu carnis et spiritus, um Tractatus theologicus, onde se encontra uma exposição da doutrina cristã baseada na Escritura e nos Padres, que é um ensaio do método destinado a renovar, sob o nome de escolástica, o ensino da teologia, e alguns opúsculos litúrgicos. Os poemas ocupam na coletânea de suas obras o lugar mais importante. Encontram-se aí algumas prosas e epitáfios.

Dom Beaugendre, Venerabilis Hildeberti Turonensis archiepiscopi opéra, tam édita quam inedita, in-fol., Paris, 1708; P. L., t. clxxi, col. 1-1463; Histoire littéraire de la France, Paris, 1869, t. xi, p. 250-412; dom Ceillier, Histoire générale des auteurs ecclésiastiques, t. xiv, p. 207-225; Hauréau, Histoire littéraire du Maine, t. vi, p. 117-159; Notice sur les mélanges poétiques d'Hildebert de Lavardin, dans les Notices et extraits des manuscrits, t. xxviii b, p. 289-448; Notice sur les sermons attribués à Hildebert de Lavardin, ibid., t. xxxii b, p. 107-166; de Déservillers, Un évêque au XIIe siècle. Hildebert et son temps, in-8°, Paris, 1877; Dieudonné, Hildebert de Lavardin, évêque du Mans, archevêque de Tours (1056-1133), sa vie, ses lettres, in-8°, Paris, 1898; Franz Barth, Hildebert von Lavardin (1056-1133) und dos kirchliche Slellenbestzungsrecht, in-8°, Stuttgart, 1906; Realencyclopàdie fur protestanlische Théologie und Kirche, t. viii, p. 67-71.

J. Besse.

Autor original: J. Besse

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