HESSELS (JOÃO)

HESSELS (JOÃO)

HESSELS (João) nasceu em 1522. Veio à luz, não em Arras, como por vezes se disse, mas em Lovaina, onde seu pai, Guillaume Hessels, era conhecido como hábil escultor. Temos a prova disso notadamente em seu epitáfio, que começa por estas palavras: Joannes Hessels a Lovanio. Certos autores, talvez por causa da forma latinizada e mais conhecida de seu nome, Hesselius, confundiram-no desastradamente com Léonard-Jean Hasselinus ou Hasselius (van Hasselt), outro teólogo belga, autor de uma dissertação De Neclarii Constanlinopolitani facto super confessiones, que foi deputado a Trento por Carlos V por ocasião da primeira retomada do concílio, sob Júlio III, e que morreu nessa cidade em 5 de janeiro de 1552.

João Hessels pôde começar e prosseguir sua formação intelectual sem deixar sua cidade natal. Depois de brilhantes humanidades, seguiu os cursos de filosofia na «pedagogia do Parc» e saiu em primeiro lugar no concurso geral de 1541. O estado eclesiástico atraía-o. Abordou o estudo das ciências sagradas e, graças a qualidades de espírito extraordinárias, fecundadas por intensa aplicação, trocou depressa o papel de ouvinte pelo de mestre. Durante oito anos, ensinou a teologia e a Escritura Sagrada aos jovens religiosos premonstratenses da abadia do Parc, perto de Lovaina. Em 19 de maio de 1556, foi promovido ao doutorado em teologia, ao mesmo tempo que Martin Baudewyns, de Rythoven (Martinus Rythovius), que logo viria a ser bispo de Ypres. Nomeado então simultaneamente titular de uma cátedra real de teologia na universidade, cônego do capítulo da colegiada de São Pedro e primeiro presidente do «pequeno colégio dos teólogos», desempenhava essas diversas funções com zelo e êxito quando uma missão especial o obrigou a interrompê-las.

Em 1562, Pio IV havia anunciado a reabertura em Trento do concílio ecumênico, já suspenso duas vezes, mas cujo feliz término a Providência lhe reservava. Desejava vivamente que todas as nações católicas, e a Bélgica em particular, nele estivessem representadas não só por seu episcopado, mas ainda pela elite de seus teólogos. Tais eram também as intenções de Filipe II e da governadora Margarida de Parma, no que dizia respeito à Bélgica. Depois de várias negociações, três professores de Lovaina foram designados e partiram para o Tirol; eram Cornélio Jansen (ou Jansênio), exegeta de renome, mais tarde bispo de Gand, Michel de Bay (ou Baio) e seu amigo João Hessels. Essa escolha, quanto aos dois últimos, estava sem dúvida, como para Jansênio de Gand, fundada numa reputação merecida de piedade e saber, pois ambos, diz Palavicini, eram scienlia et cxcmplo vilœ conspicui; mas, segundo o mesmo historiador, inspirava-se além disso, no pensamento do núncio Commendone, do cardeal Granvelle e dos legados-presidentes do concílio, em uma sábia diplomacia. Baio já havia começado a espalhar suas opiniões, no mínimo ousadas, sobre a liberdade, a graça, as boas obras; Hessels, ligado a ele por amizade, partilhava até certo ponto e apoiava suas tendências; corria até, sobre um e outro, uma palavra de Ruard Capper, que teria descoberto e assinalado neles, ainda estudantes, a matéria de um cisma. Discussões ruidosas haviam estourado; o arcebispo de Malines conseguira impor provisoriamente o silêncio; mas a atmosfera continuava carregada de nuvens e apreensões.

Ora, podia-se esperar que o fato de viver em contato íntimo com Roma e todos os bispos católicos e de lutar com eles contra o inimigo comum, o protestantismo, seria salutar aos teólogos lovanienses, inspirando-lhes uma justa desconfiança de si mesmos e um sentimento de apego mais vivo à tradição e à sé de Pedro. Acrescentemos que, quanto a Hessels pelo menos, parece que essa esperança não foi enganada. Seja como for, os deputados belgas foram bem acolhidos em Trento, e sua presença não foi ociosa nem inútil. Chegados somente depois da XXII sessão, puderam ainda tomar parte ativa nas três últimas: as de 15 de julho, de 11 de novembro, de 3 e 4 de dezembro de 1563. Enquanto Baio, com o bispo de Ypres, Rythovius, foi pelos legados incorporado à comissão preparatória da doutrina sobre o purgatório, e Cornélio Jansen, com Havet, bispo de Namur, à comissão das indulgências, Hessels foi, em companhia de Richardot de Arras, inscrito naquela a que incumbia o estudo do culto das imagens. Sabemos além disso que todos concorreram para os trabalhos preliminares relativos ao Index librorum prohibilorum. São eles que redigiram, para o Calechismus romanus, a explicação dos últimos pedidos do Pater. É igualmente a pedido deles que, nos decretos supressivos ou restritivos das isenções e privilégios em matéria de benefícios, se fez uma exceção em favor das universidades; estavam justamente preocupados em conservar a Lovaina as benévolas e úteis concessões de Sisto IV, de Leão X e de Adriano VI.

De volta à velha cidade universitária, Hessels não só retomou seu ensino, mas aplicou-se mais do que nunca a combater, tanto pela pena quanto pela palavra, os erros do protestantismo. Temos dele uma carta escrita em 1565 a Cassander, que, conciliador e pacificador a todo transe, parecia por isso mesmo pender para o lado da Reforma.

Um trecho dessa carta mostra o zelo puro e franco que animava seu autor: Usquequo claudicas in duas partes : Si Dominus est Deus, sequere eum; si aulem Baal, sequere eum. Si protestantes, ut aiunt, sunl veritatis et sinecrœ fïdei prœcones, sequere eos aperte. Si autem, ut rêvera est, Ecclesia catholica, hoc est, papislica est ea quœ fundata est ab aposlolis super pelram, adversus quam nunquam preevalcbunt portée inferi, sequere eam. Nec confidas le tuo ingenio invenire posse prœler eam aliquem lulum portum, in quo securus acquiesças... Plantatio quœ contra hanc insurgit, sive a proteslantibus, sive ab lus qui, inler catholicos et protestantes veluti medii, ulroquc exlremo se inlelligentiores reputant, quia a P tre caelali non est plantata, eradicabilur.

Segundo o testemunho de Aubert Le Mire, o ardente controversista entregava-se à sua tarefa a ponto de conceder a seu corpo apenas o sono necessário. Assim, produziu, numa carreira relativamente curta, uma obra considerável, em parte exegética, em parte dogmática ou polêmica. Mas uma tal tensão não podia deixar de arruinar rapidamente sua saúde. Sofria de cálculos, e um ataque de apoplexia o levou em 7 de novembro de 1566, no momento em que ia dar a última demão à sua maior obra, o Catechismus lalinus. Tinha quarenta e quatro anos. Foi sepultado na igreja colegiada de São Pedro.

João Hessels, dizem-nos seus contemporâneos, não era muito eloquente. Em compensação, a natureza o dotara maravilhosamente quanto ao espírito, ao juízo e à memória. Além disso, seu entusiasmo e sua força de resistência ao labor estudioso tinham algo de prodígio. Afora essa inclinação ou condescendência, temporária, ao que parece, para com o baianismo, que assinalei, tudo nele impunha estima e respeito. O cardeal Belarmino o chama virummultœ doctrines et judicii, e Nicolas Sanderus o proclama prseclarissimum non Academiœ, sed Ivlius orbis lumen.

Numerosos são, como disse, os livros saídos de sua pena. Nomeemos os principais, começando pela teologia e pela exegese. Notar-se-á que a maioria só foi publicada depois da morte do autor. Vários tiveram, aliás, numerosas edições. Limitar-me-ei geralmente à indicação das primeiras.

1° Catechismus latinus, in-8°, Lovaina, 1571. Trata sucessivamente do símbolo, da oração dominical e da saudação angélica, do decálogo, dos sacramentos. É, portanto, a mesma divisão quadripartida que no Catechismus romanus, com a única diferença de que a ordem respectiva da segunda parte e da quarta foi invertida. Aliás, não se trata aqui de uma simples exposição popular da doutrina cristã, mas antes de uma grande obra catequética no gênero da de Pedro Canísio, isto é, de uma ampla explicação do dogma e da moral, cujos elementos foram haurido com ciência e discernimento nos tesouros da patrística e sobretudo em Santo Agostinho. A edição original e mais cinco apareceram incompletas, não contendo da terceira parte senão o que concerne aos três primeiros sacramentos: é aí que a pena de Hessels se detivera. Uma 7ª edição, publicada em 1660, foi completada, quanto aos quatro últimos sacramentos, segundo as notas do mestre. Diz-se que algumas infiltrações de baianismo foram eliminadas por Henri Gravius, o primeiro editor.

2° Commentarius in Passionem dominicam, in-8°, Lovaina, 1568.

3° Commentarius in priorem B. Pauli epistolam ad Timolheum, item in priorem B. Pétri canonicam, in-8°, Lovaina, 1568.

4° In Epistolas canonicas Joannis, in-8°, Antuérpia, 1601.

5° Commentarius in Evangelium secundum Matthxum, in-8°, Lovaina, 1572.

6° De schismaticis templis Judœorum et vero Dci templo, ex hisloria Josephi, in-8°, Lovaina, 1572.

7° Confutatio fidei novitiœ, quam specialcm vocanl, aduersus Joannem Monhemium. Adjunctus est Traclalus de cathedra; Pétri perpétua perfectione et firmitate, in-8°, Lovaina, 1562. Dois excelentes tratados, que foram, desde 1568, reimpressos ambos separadamente. Em meados do século XVIII, o sábio Zaccaria ainda julgava o segundo digno de tomar lugar em seu Thésaurus théologiens, t. vu.

8° De invocalione sanclorum, contra Joannem Monhemium et cjus defensorem Hcnricum Artopœum, in-8°, Lovaina, 1568.

9° De communione sub unica specie, adversus Georgium Cassandrum, 1578. É ao mesmo Cassander que era dirigida a carta da qual reproduzi acima uma passagem objurgatória, que faz honra a Hessels.

10° De corporali prœsentia corporis et sanguinis Domini in eucharistia. in-8°, Lovaina, 1564 e 1568; Paris, 1583.

11° Confutatio confessionis hsereticœ teutonice emissse, qua ostendilur eucharisliam esse sacrificium propitiatorium, in-8°, Lovaina, 1567.

12° De ofjicio pii virt, vigenle hœresi, adversus Cassandrum, in-8°, Antuérpia, 1566. O pequeno volume com esse título que foi posto no Index foi condenado sem nome de autor; não é, portanto, a obra de Hessels, que traz o mesmo título. H. Reusch; Dr Index d r verbûlenen Bûcher Bonn, 1883, t. i, p. 363. Aliás, não figura mais nas edições reformadas desde 1900.

13° Censura de quibusdam sanctorum historiis, in-8°, Lovaina, 1568. A crítica, se acreditarmos em Molanus, visava um Passionale de sanclis per annum, que estava em uso na abadia do Parc.

14° Epistola de conceptione Virginis Deiparse, reproduzida por Corneille Schulting, no t. n de sua Bibliolheca ecclesiaslica.

15° Mencionemos enfim um duplo estudo sobre os deveres próprios dos regulares: Quœslio ad quid teneantur religiosi vi voti sui; item de obligationibus religiosorum.

Valère André, Fasti academici studii gcneralis iMvaniensis, Louvain, 1635, p. 114; Foppens, Bibliolheca belgica, Bruxelles, 1739, t. XI, p. 658; Hurter, Nomenclator, Inspruck, 1907, t. iv, col. 36-37; Van Even, art. Hessels, dans la Biographie nationale de Belgique, Bruxelles, 1886-1887, t. ix, col. 320-322. Sur le rôle de Hessels au concile de Trente, voir surtout la revue Der Katholik, 1865, t. i, p. 358 sq.

J. Forget.

Autor original: J. Forget

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