HERMÓGENES

HERMÓGENES

HERMÓGENES, herege do fim do século II e do começo do III.

1° As fontes. — A principal fonte de informações sobre Hermógenes é Tertuliano, que não se contentou, por volta de 205 ou 206, em refutar por escrito uma obra latina em que esse herege sustentava que a matéria é eterna e que a alma nasce das energias da matéria e não do sopro de Deus, mas que, além disso, todas as vezes que a ocasião se apresentava, o nomeou em termos pouco simpáticos. De prœscript., 30, 33; Adv. Valent., 16; De anima, 1, 3, 21, 22, 24; De monogamia, 16, P. L., t. ii, col. 43, 46, 570, 646, 652, 685, 687, 951. Mas, por outro lado, e anteriormente ao ano de 180, os erros desse mesmo Hermógenes haviam sido combatidos, segundo o testemunho de Eusébio de Cesaréia, H. E., iv, 24, P. G., t. xx, col. 389, por São Teófilo de Antioquia num tratado Πρὸς τὴν αἵρεσιν Ἑρμογένους, que não chegou até nós. Cf. Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Litteratur, Fribourg-en-Brisgau, 1902, t. i, p. 286-287. Ignorar-se-ia, pois, o objeto dessa primeira refutação se não se estivesse fundado em crer que foi no tratado de São Teófilo que beberam ou Clemente de Alexandria, que relata a opinião singular em que Hermógenes sustentava que, no dia de sua ascensão, o Cristo deixara seu corpo no sol, Ex script, prophet., 56, P. G., t. ix, col. 724, ou o autor dos Philosophoumena, que atribui ao mesmo herege não somente a opinião assinalada por Clemente de Alexandria, mas ainda os erros refutados por Tertuliano, e alguns outros. Philosoph., viii, 17, édit. Cruice, Paris, 1860, p. 417-418.

Muito tempo depois, de 383 a 391, São Filastro, sem dar a conhecer as fontes em que bebeu, acrescenta novos pormenores totalmente desconhecidos de Tertuliano. Parece, com efeito, atribuir a mesma heresia, com uma diferença de nomes, aos sabelianos, aos praxeanos e aos hermogenianos, estes últimos assim chamados do nome de seus chefes, Praxéas e Hermógenes, que viveram na África e foram expulsos da Igreja por causa de heresia. Atribui, além disso, a dois hereges da Galácia, Seleuco e Hermias, os erros de Hermógenes. Hœr., 54-56, P. L., t. xii, col. 1168-1171. Mais tarde ainda, no século V, Teodoreto de Ciro assinala outros erros de Hermógenes e anota que esse herege foi refutado por Orígenes. Hœret. fab., i, 19, P. G., t. lxxxiii, col. 369. Se esta última informação é verdadeira, e nada prova que seja falsa, resultaria que a refutação de Hermógenes por Orígenes se perdeu.

Segundo essas fontes, é preciso fazer uma separação entre o que concerne a Hermógenes em pessoa e o que diz respeito a seus discípulos. Das informações contemporâneas resulta que foi em Antioquia ou nos arredores da capital da Síria, e no tempo de Marco Aurélio (161-180), que Hermógenes espalhou primeiro sua doutrina e recrutou discípulos, o que provocou a intervenção de São Teófilo. Dali passou à África proconsular, onde vivia no tempo de Tertuliano, que dele fala sempre como de um personagem ainda vivo e bem conhecido em Cartago.

2° O personagem. — Aos olhos do austero Tertuliano, já passado ao montanismo, Hermógenes apresentava duas máculas: a de exercer a profissão de pintor e a de ter contraído um segundo ou um terceiro casamento. Sua profissão traía ligações com a idolatria e seu estado de homem recasado era sem desculpa para os montanistas, adversários resolutos das segundas núpcias. Daí esse retrato pouco lisonjeiro que traça dele a pena mordaz e exagerada de Tertuliano. «O gênio inquieto de Hermógenes, diz ele, o destinava naturalmente à heresia. Julga-se eloqüente porque fala muito; seu despudor, toma-o por firmeza; e dizer mal de todo mundo, eis o que chama o ofício de uma consciência virtuosa. Acrescentai a isso que pinta ilicitamente e que se casa assiduamente: de um lado, invocando a lei de Deus no interesse de sua paixão; de outro, desprezando-a em proveito de sua arte; duas vezes falsário, e pelo pincel e pela pena; adúltero dos pés à cabeça, e em sua doutrina e em sua carne, pois participa do contágio dos que reiteram o casamento e não perseverou mais na regra de fé que aquele outro Hermógenes de que fala o Apóstolo. Da fileira dos cristãos passou à dos filósofos, e da Igreja à Academia e ao Pórtico.» Adv. Hermogenem, 1, P. L., t. ii, col. 198.

Embora só tenha tido de haver-se com a doutrina errônea de Hermógenes, Tertuliano não pode deixar de desferir de quando em quando algum dardo satírico contra sua pessoa ou sua profissão. É, diz ele, um pintor, que faz sombra sem luz, ibid., 2, col. 198; que só encontrou a matéria eterna entre suas cores, ibid., 33, col. 228; que, habituado a desposar mais mulheres do que pôde pintar, De monogamia, 16, ibid., col. 951, fez seu próprio retrato ao representar a matéria no estado informe e caótico. Adv. Hermog., 45, ibid., col. 238. Felizmente, essa verve sarcástica cede lugar, sob a pena de Tertuliano, a uma vigorosa e magistral refutação dos erros de Hermógenes.

3° Os erros de Hermógenes. — Tertuliano assinala dois, um sobre a origem da alma, outro sobre a criação do mundo, e consagrou um livro especial à refutação de um e de outro, o De censu animœ, que não chegou até nós, e o Adversus Hermogenem, de que se vai tratar.

Relativamente à alma humana, Hermógenes a julgava oriunda das únicas energias da matéria, e de modo algum do sopro de Deus, como se narra no Gênesis. É lamentável que o De censu animæ esteja perdido; mas eis em que termos Tertuliano a ele alude: De solo censu animée congressus Hermogeni, qualenus et isturn ex malerise potius suggestu, quam ex Dei flalu, eonstitisse prœsumpsit. De anima, 1, P. L., t. ii, col. 646. Quem fez jorrar a alma humana da matéria? São os anjos, dizem os discípulos de Hermógenes, e de modo algum Cristo. E assim, sobre este ponto capital da origem da alma, o desacordo com a doutrina católica era completo. Relativamente à origem do mundo atual, do κόσμος, Hermógenes atribuía a Deus a organização, mas não a criação propriamente dita. Sustentava, com efeito, a existência de uma matéria neque nata, neque facta, nec initium habens omnino nec finem, ex qua Dominus omnia postea fecerit. Adv. Hermog., 1, P. L., t. ii, col. 198. Com isso ele figurava entre esses materiarii, como Tertuliano os qualifica por meio de um barbarismo, ibid., 25, col. 219, os quais, distinguindo a matéria informe e confusa da matéria organizada e ordenada, pretendiam que Deus só fez o mundo atual por meio de uma matéria preexistente e eterna, de tal sorte que, em vez de ser verdadeiramente o seu criador, não teria sido senão o seu demiurgo.

Tal maneira de conceber a matéria sob dois aspectos diferentes tinha por motivo explicar a existência do mal sem tornar Deus responsável por ele. Esse motivo era ilusório, e a tese que pretendia justificar, insustentável, como Tertuliano teve o cuidado de provar. Eis a argumentação de Hermógenes: Deus tirou o mundo, ou de sua própria substância, ou do nada, ou de uma matéria preexistente. Ora, seria absurdo pretender que o tenha tirado de sua própria substância, porque os seres assim produzidos seriam outras tantas parcelas dele mesmo. Deus não admite partilha, sendo indivisível e imutável. Se tirasse o mundo de si mesmo, seria ao mesmo tempo completo e incompleto: completo, porque existe; incompleto, porque se torna. O ser perfeito exclui o devir, pois só se torna aquilo que não é tudo o que poderia ser. Além disso, Deus, a própria bondade, só pôde fazer coisas boas. Se, pois, como prova a experiência, existem coisas más, isso não pode provir nem de sua escolha, nem de sua vontade: é necessário que tenha encontrado um obstáculo numa matéria preexistente, na qual o mal tem a sua origem. Adv. Hermog., 1, ibid., col. 190. Ademais, Deus não poderia adquirir novos títulos nem novas perfeições. E assim como nunca deixou de ser Deus, deve ter sido sempre Senhor; e como o teria sido sem a existência de uma matéria a dominar? Ibid., 3, col. 200. Logo, concluía Hermógenes, das três hipóteses que podem servir para explicar a origem do mundo atual, as duas primeiras devem ser afastadas, e somente a terceira deve ser retida.

Era suprimir um dos dogmas capitais do cristianismo, o da criação, inscrito no símbolo dos apóstolos. Que responde Tertuliano? Isto: de direito, a matéria não pode ser eterna; de fato, nada prova que Deus tenha feito o mundo com uma matéria preexistente. Daí a conclusão: este mundo foi criado por Deus ex nihilo: essa expressão de Tertuliano permaneceu na linguagem teológica. De direito, e diretamente, a matéria não poderia ser eterna, pois, declarando-a innata, infecta, aeterna, equipara-se-a a Deus e fazem-se dois Deuses, já que se lhe atribui um atributo essencialmente divino. Ora, veritas sic unum exigit Deum, ut solius sit quidquid ipsius est. Ibid., 5, col. 202. É mais ainda, torná-la superior a Deus, pois, segundo a hipótese, Deus precisa dela e está sob sua dependência para organizar o mundo. Ibid., 7-8, col. 203-204.

De direito, e indiretamente, Tertuliano prova ainda a não-existência de uma matéria eterna, pois isso implica uma contradição; é contraditório que o que é eterno, sendo por isso mesmo perfeito, possa ser mau como essa pretensa matéria; e se a matéria é essencialmente má, o mal é necessário; então por que combatê-lo? Se Deus, com essa matéria essencialmente má, fez algo de bom, ele a mudou; ora, o que é eterno não pode mudar. Ibid., 11-12, col. 206-208. Quanto ao mal que persiste, ou Deus o quis, ou, não o querendo, não o impediu: num e noutro caso, resultam graves inconvenientes. Quanto ao bem produzido, de onde vem? Da matéria? É impossível, pois a declarais de essência má. De Deus, por emanação? Tampouco, pois a negais. Resta, portanto, que foi criado ex nihilo. Ibid., 14-15, col. 209-210. Se a matéria só aparece aqui para justificar Deus da censura de ser o autor do mal, Deus não deixa de ser o autor do mal mesmo na presença dessa matéria. Por conseguinte, uma vez excluída a matéria pelo próprio fato de desaparecer a necessidade de sua presença, só resta tirar esta conclusão: Deus fez tudo do nada, ou, em outros termos, não existe nenhuma razão para admitir uma matéria eterna. Ibid., 16, col. 211. De fato, nada mostra que Deus tenha feito o mundo com uma matéria preexistente.

Sem dúvida, por uma interpretação violenta do texto do Gênesis, e notadamente da palavra principio, do termo terra, e do imperfeito erat, Hermógenes tentava provar o bom fundamento de sua opinião, mas Tertuliano o reconduz a uma interpretação literal e óbvia que a arruína. Por seu silêncio relativo a uma matéria com a qual Deus teria criado o mundo, a Escritura mostra suficientemente que o criou do nada. Quanto a uma matéria eterna, acrescenta Tertuliano, procuro-a em vão na narração mosaica; Hermógenes pôde encontrá-la entre as suas cores, certamente não a encontrará nas Escrituras de Deus. Ibid., 19-32, col. 214-228. Logo satis est quod omnia et facta a Deo constat, et ex materia non constat; quœ etiam si fuisset, ipsam quoque a Deo factam credidissemus, quia nihil innatum prœter Deum prœscribentes, obtineremus. Ibid., 33, col. 228.

Antes de terminar, Tertuliano ressalta as contradições de Hermógenes nas explicações que dá sobre o estado dessa matéria e sobre a maneira como Deus teria agido sobre ela. E primeiramente, de censu materiœ, vossa matéria seria ao mesmo tempo corporal e incorporal, ibid., 35-36; boa e má, ibid., 37; localizada e infinita, ibid., 38; imutável e mutável, ibid., 39; dotada de um movimento confuso, desordenado, como o da água que ferve numa caldeira, ibid., 41-43. E depois, sobre o modo de intervenção que ele atribui a Deus: Deus teria agido sobre ela, aparecendo-lhe ou aproximando-se dela, apparens et appropinquans, à maneira da beleza que fere o espírito ou do ímã que atrai o ferro. Na verdade, para um Deus que está presente por toda parte, é uma longa viagem que se atribui a Deus para aparecer à matéria e aproximar-se dela. Ibid., 44, col. 237. Não é assim que os profetas e os apóstolos ensinaram que Deus fez o mundo. E Tertuliano tira a conclusão geral, que não visa apenas arruinar o erro de Hermógenes, mas ainda provar a criação ex nihilo: Igitur in quantum constitit materiam nullam fuisse, ex hoc etiam quod nec talem competat fuisse qualis inducitur, in tantum probatur omnia a Deo ex nihilo facta. Ibid., 45, col. 238.

4° Os hermogenianos ou discípulos de Hermógenes. — Como acabamos de ver, Tertuliano só ressalta dois erros em Hermógenes, sem fazer a menor alusão a uma relação qualquer entre ele e o sabelianismo; e é o mesmo erro sobre a origem do mundo que lhe atribui o autor dos Philosophoumena. Este precisa que, segundo Hermógenes, Deus não utilizou toda a matéria preexistente, mas somente uma parte, deixando a outra ao seu movimento desordenado; a parte organizada é o κόσμος, a outra permanece ὕλη ἀγρία καὶ ἄκοσμος. Philosoph., viii, 17, p. 417. Hermógenes, acrescenta, ibid., p. 418, confessa que Cristo é o Filho de Deus, que tudo fez; que nasceu, como narra o Evangelho, da Virgem e do Espírito Santo; que ressuscitou depois de sua morte e que apareceu corporalmente a seus discípulos, ἐν σώματι ; e que, ao subir para seu Pai, deixou o seu corpo no sol. Esta última opinião, ele a apoiava neste texto mal compreendido e mal interpretado do salmista: In sole posuit tabernaculum suum. Ps. xviii, 6.

Esses erros de Hermógenes se encontram naturalmente em seus discípulos; mas estes, não menos naturalmente, puderam tomar emprestados ou inventar outros, aos quais o seu chefe foi alheio. E, por conseguinte, se Hermógenes, sobre a questão das pessoas divinas, está pessoalmente a salvo de qualquer censura, não se poderia dizer o mesmo de seus discípulos. Estes foram nominalmente acusados de sabelianismo por São Filastro. Hœr., 54, P. L., t. xii, col. 1168. Habitavam a Ásia Menor e estavam mais particularmente confinados na Galácia, onde duas personagens, Seleuco e Hermias, propagaram a heresia de Hermógenes. Ibid., 55, col. 1169-1170. Entre os erros que lhes são atribuídos contam-se os seguintes. Segundo eles, o diabo e os demônios devem dissolver-se um dia e voltar à matéria primeira. Teodoreto, Hœret. fab., i, 19, P. G., t. lxxxiii, col. 369. O mal procede ora de Deus, ora da matéria. Não houve paraíso visível. O batismo de água é inútil, pois as almas, tendo sido formadas de sopro e de fogo, não têm outro batismo a receber senão o batismo de espírito e de fogo, de que falara São João Batista. O mundo terrestre é, a bem dizer, o inferno. A ressurreição dos corpos não é outra coisa senão a procriação dos filhos. Filastro, Hœr., 55-56, P. L., t. xii, col. 1170-1171. A seita dos hermogenianos não deixou outro vestígio na história. Santo Agostinho, De hœr., 41, fala dela como de uma coisa passada, sem relatar outra coisa senão a acusação de sabelianismo levantada contra ela por São Filastro. Nec tamen istae (sabelliens, praxéens et hermogéniens) plures sectae sunt; sed unius sectae plura nomina, ex his hominibus qui in ea maxime innotuerunt.

Tertuliano, Adversus Hermogenem, P. L., t. ii, col. 197-238 ; Philosophoumena, viii, 17, edit. Cruice, Paris, 1860, p. 417-418; Filastro, Hœr., 54-56, P. L., t. xii, col. 1168-1171; 369. Teodoreto, Hœret. fab., i, 19, P. G., t. lxxxiii, Tillemont, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique des six premiers siècles, Paris, 1701-1709, t. iii, p. 65-68; Freppel, Tertullien, 3e édit., Paris, 1887, t. ii, p. 265-287; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franç., Paris, 1899, t. i, p. 321 ; Geschichte der altkirchlichen Litteratur, Fribourg-en-Brisgau, t. i, p. 344; A. Harnack, Geschichte der altchristlichen Litteratur, t. ii, p. 534-535; Migne, Dictionnaire des hérésies, Paris, 1847, t. i, p. 767-775; Kirchenlexikon, t. v, col. 1900-1902; Smith et Wace, Dictionary of Christian biography, t. iii, p. 1-3; U. Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, t. i, col. 2132; A. d'Alès, La théologie de Tertullien, Paris, 1905, p. 46-50, 104-106, 110, 112, 113, 119, 200.

G. Bareille.

Autor original: G. Bareille

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