HENRIQUE VIII (1491-1547), rei da Inglaterra, filho e sucessor de Henrique VII. — I. O filho submisso da Igreja. II. Em torno do divórcio. III. O chefe supremo da Igreja da Inglaterra.
I. O filho submisso da Igreja. — Henrique VIII sempre teve um gosto pronunciado pelas questões teológicas. Disse-se que seu pai o destinava ao arcebispado de Cantuária, mas não se pode dar nenhuma prova disso; se esse projeto jamais existiu, a morte do príncipe Artur o aniquilou em 1502, fazendo de Henrique o herdeiro da coroa. É certo, contudo, que era muito precoce e que recebeu uma educação muito esmerada desde tenra idade. Erasmo notou-o quando tinha apenas nove anos e dirigiu-lhe um poema latino em resposta a uma carta muito bem composta em que o príncipe lhe pedia algo de sua pena. E mais tarde Erasmo testemunhava que ele havia estudado são Tomás, Escoto e os outros teólogos escolásticos. Quando subiu ao trono em 1509, estava inteiramente pronto a executar as últimas recomendações de seu pai, que o conjurava a ser fiel ao papa, e de fato manteve relações de amizade com Júlio II, que lhe enviou a rosa de ouro, e mais tarde com Leão X, que recompensou seus bons ofícios criando Wolsey cardeal em 1515.
Foi a pedido do mesmo pontífice que mandou queimar publicamente os livros de Lutero (1521), e Wolsey o exortou a entrar em liça para refutar o tratado De captivitate babylonica Ecclesiœ, em que o heresiarca atacava a autoridade do papa e todo o sistema da teologia escolástica, e só conservava três sacramentos. A resposta de Henrique VIII apareceu em julho de 1521 sob este título: Asscrlio seplcm sacra menlorum adversus Martinum Lulherum, édita ah inviclissimo Angliïe et Francise rege, et domino Iliberniœ, Ilvnrico ejus nominis octauo. Lutero é aí refutado ponto por ponto, num latim elegante, e o raciocínio é bem conduzido, embora um pouco fraco por vezes. Henrique é realmente o autor desse livro? A questão foi tratada no t. v, col. 2558. Diremos apenas que Erasmo acreditava nisso, ainda que pensasse que fora consideravelmente ajudado nessa obra; e o último editor dela, L. Donovan, cujo trabalho apareceu em Nova York em 1908, chegou à mesma conclusão após um exame aprofundado do pró e do contra.
Seja como for, o livro foi apresentado a Leão X em 2 de outubro do mesmo ano, e o papa concedeu logo uma indulgência de dez anos e dez quarentenas a todos os que o lessem. No dia seguinte foi publicada a bula que conferia ao rei da Inglaterra o título de defensor da fé. Henrique teria desejado que lhe fosse dado o título de Rei Cristianíssimo, em prejuízo do rei da França, e Júlio II já havia consentido in petto em seu pedido por ocasião do concílio de Pisa, mas Leão X, com quem Luís XII se havia reconciliado, não quis executar o ato de seu predecessor, e o outro título foi encontrado. Clemente VII o confirmou mais tarde. É interessante notar que esse título não era hereditário, mas Henrique o conservou depois de sua separação de Roma, e foi declarado prerrogativa da coroa da Inglaterra por um ato do parlamento em 1543.
Lutero respondeu com sua habitual riqueza de linguagem; o rei, ferido no vivo, procurou fazer suprimir o folheto pelo eleitor da Saxônia, mas dele só recebeu uma recusa de atender. Desdenhando escrever ele próprio, pôs em ação os teólogos que tinha a seu serviço: na Alemanha, o franciscano Murner; na Inglaterra, Fisher e Tomás More; e até Erasmo, que se decidiu a sair de seu prudente silêncio e publicou seu opúsculo De libero arbilrio (1524), no qual ataca o ponto central do luteranismo. Mas logo o heresiarca forneceu a seu adversário nova ocasião de exercer sua atividade teológica. Cristiano II da Dinamarca lhe havia dito que o rei da Inglaterra se tornava favorável ao protestantismo. A notícia era falsa, mas bastou para que Lutero escrevesse a seu inimigo uma humilde carta em que se oferecia para retratar tudo o que dissera contra ele. Infelizmente, ocorreu-lhe dizer que a Assertio não era obra de Henrique e chamar Wolsey de monstro detestado por Deus e pelos homens. O rei irritado compôs (1526) um opúsculo em que reproduzia, zombando dela, a carta de Lutero, acusando-o ao mesmo tempo de ter causado a revolta dos camponeses e de viver em pecado com uma religiosa; depois atacava seus erros com mais força do que no livro precedente, sobretudo a justificação pela fé somente e a negação do livre-arbítrio. Lutero respondeu com cólera, mas Henrique não prosseguiu a discussão; contentou-se em mandar representar o heresiarca e sua mulher no palco por bufões. Mas já se formava no espírito do rei um projeto que haveria de fazê-lo recorrer a seu adversário.
II. Em torno do divórcio. — A paixão de Henrique VIII por Ana Bolena mudou a orientação de sua vida. A moça não queria contentar-se em ser a amante do rei; aspirava a partilhar seu trono, e o único meio de chegar a isso era fazer declarar inválido o casamento de Henrique com Catarina de Aragão. Disse-se que esse meio fora sugerido ao rei por Wolsey, mas não há provas peremptórias disso. Seja como for, o soberano sentiu-se tomado de escrúpulos ao pensar que Catarina fora mulher de seu irmão. É verdade que Júlio II concedera uma dispensa do impedimento de afinidade, mas poderia o papa dispensar do que é de direito divino?
Então representou-se a comédia. Wolsey, em virtude de sua autoridade de legado, citou Henrique diante de um tribunal composto por ele mesmo e pelo arcebispo de Cantuária, Warham, a fim de provar que seu casamento com Catarina de Aragão era válido. O tribunal só se reuniu uma vez, sem pronunciar sentença; Henrique notificou à rainha que, por causa da dúvida, não podia mais coabitar com ela. Mas Catarina declarou solenemente que seu casamento com Artur não fora consumado e que, por conseguinte, o impedimento de afinidade não existia. Wolsey ficou primeiro embaraçado, mas logo lhe veio ao espírito que, nesse caso, restava o impedimento de honestidade pública, e como a bula não o mencionava, o casamento não era menos inválido. Infelizmente para sua teoria, verificou-se que o breve enviado por Júlio II a Henrique e a Catarina havia previsto essa circunstância. E, no entanto, era preciso obter de Roma a declaração de que o casamento era inválido.
As negociações com Clemente VII foram muito bem resumidas, t. iii, col. 73, até a excomunhão do rei em 1533; não voltaremos a elas, mas lembraremos que, durante esse tempo, Henrique exercia também sua atividade de outro lado. O apelo de Catarina a Roma havia posto termo à autoridade dos legados, e o próprio rei parecia ter abandonado toda ideia de prosseguir o divórcio, quando um teólogo de Cambridge, Cranmer, ver t. iii, col. 2026, deu-lhe a ideia de prescindir do papa, dirigindo-se a certo número de universidades, cuja opinião nessa matéria lhe daria autoridade suficiente para pronunciar-se. Henrique agarrou essa ideia com empenho; sem dúvida não confessou o verdadeiro objetivo de Cranmer, pois a ruptura com a Santa Sé não se deu, e até Clemente VII prometeu deixar toda a liberdade às universidades da Itália.
Foi impossível tirar uma conclusão das respostas dadas pelas universidades. Algumas disseram que o casamento era válido; outras, que era contrário à lei de Deus e nulo; outras, sem dizer por isso que a dispensa de Júlio II fosse inválida. Desse número eram Oxford e Cambridge, e no entanto se havia exercido considerável pressão sobre essas duas universidades para fazê-las dar um parecer conforme aos desejos do rei. Ver t. vi, col. 1156. Aliás, em nenhum país as universidades eram independentes. Na França, Francisco I queria manter-se em boas relações com o rei da Inglaterra; na Itália, apesar da promessa do papa, o imperador era todo-poderoso, e guardaram-se bem de consultar as universidades de seus Estados. Quanto aos luteranos da Alemanha, estavam prevenidos contra Henrique por causa de suas desavenças com seu patriarca, e até um deles publicou em 1530 um livro em favor da rainha. Isso não impediu o rei de dirigir-se a eles em 1531, por intermédio de Simão Grynaeus, um humanista recomendado por Erasmo. Melâncton disse que a proibição do Levítico pertencia à lei positiva, da qual se pode ser dispensado, ao passo que o divórcio se opõe à lei natural. Concluía aconselhando a poligamia. Isso não agradou a Henrique. Enviou embaixada após embaixada a Wittemberg, a fim de arrancar dos teólogos dessa cidade a aprovação do divórcio; só pôde obter uma declaração (1535) de que o casamento com uma cunhada era contrário à lei divina, mas os teólogos pediam para serem dispensados de dar uma resposta sobre o caso do rei.
Zuínglio respondeu francamente que o casamento em questão era contrário à lei divina, da qual nenhum papa pode dispensar; Ecolampádio era do mesmo parecer. Em Estrasburgo, inclinou-se antes para o parecer de Wittemberg, reconhecendo embora que o divórcio era um remédio pior que o mal, e aconselhando a poligamia. Bucer foi aqui como alhures “o grande arquiteto das sutilezas”; oscilou entre Lutero e Zuínglio e acabou por não tomar partido algum. Entretanto, Henrique empregava outros meios para dirigir-se ao próprio Lutero. Desde 1529, abrandara-se em relação a seu inimigo e até o louvara numa conversa com Chapuis, embaixador de Carlos V, dizendo que, se havia misturado a heresia a suas obras, isso não era razão para rejeitar as numerosas verdades que pusera em luz. Em 1531, mandou abordá-lo por Robert Barnes, antigo agostiniano que tivera de fugir da Inglaterra por causa de suas opiniões heterodoxas e se estabelecera em Wittemberg, onde Lutero lhe dava hospitalidade.
A resposta do heresiarca é idêntica à de Melâncton. Preocupa-se pouco com o poder do papa, mas ainda que o rei tivesse pecado desposando a viúva de seu irmão, cometeria pecado mais atroz repudiando-a cruelmente. Faria muito melhor tomando uma segunda mulher, segundo o exemplo dos patriarcas. A ideia da poligamia não sorria a Henrique. Um filho da segunda mulher jamais teria sido reconhecido como legítimo na Inglaterra e, como a razão que ele alegava para o divórcio era a ausência de herdeiro varão da coroa, todo pretexto honesto lhe escapava. Fez no ano seguinte duas tentativas seguidas junto de Lutero, mas sem mais êxito. Então arrependeu-se de ter escrito contra o professor de Wittemberg, e chegou a publicar uma tradução da carta que este lhe escrevera em 1525, dizendo ao mesmo tempo que fora levado a escrever seu livro por Wolsey. Mas isso não abrandou Lutero.
Uma nova embaixada em 1535 não teve melhor êxito que as precedentes, e a reação contra o protestantismo que se produziu após o divórcio de Ana de Cleves irritou os reformadores alemães. Melâncton desejou que um regicida viesse livrar a terra desse monstro. Lutero contentou-se com a invectiva, na qual era mestre; Henrique VIII, escrevia ele em 1540, não é um homem, mas um demônio encarnado.
Desde 1529, Henrique havia sido lançado em outra via, que o conduziria à ruptura completa com Roma. Tomás Cromwell, filho de um ferreiro de Putney, que acrescentava a esse ofício o de pisoeiro, mantendo ao mesmo tempo uma hospedaria, entrou a seu serviço depois da queda em desgraça de Wolsey, a quem servia habilmente havia vários anos. Foi o primeiro a sugerir ao rei a ideia de abolir a jurisdição papal na Inglaterra, e de pôr assim fim à anomalia que resultava da existência de duas jurisdições no mesmo reino.
Henrique não estava pronto, mas a ideia foi abrindo caminho em seu espírito, e a consulta às universidades a propósito do divórcio foi um aviso dado ao papa de que se poderia muito bem prescindir dele, se sua decisão não fosse a que se esperava. Em 1531, deu um passo a mais. Pediu à convocação ou assembleia do clero da província de Cantuária que o reconhecesse como « protetor e único chefe supremo da Igreja e do clero na Inglaterra ». A assembleia, que acabava de deixar-se impor uma multa de cem mil libras esterlinas, achou a pretensão exorbitante e procurou suavizar os termos, mas o rei não quis ouvir nada: no máximo permitiu que se inserissem as palavras post Deum depois de supremum caput. O arcebispo Warham encontrou um meio de sair da dificuldade, empregando uma frase elástica, que pode ter muitos sentidos; acrescentou à fórmula proposta pelo rei: « tanto quanto a lei de Cristo o permite ». E como ninguém levantava a voz para apoiar sua proposta, o arcebispo a declarou aprovada, segundo o princípio: Quem cala consente.
A convocação de York imitou a de Cantuária, e assim Henrique adquiriu um novo título, que lhe dava toda a autoridade necessária em caso de ruptura com Roma. Não tardou a reclamar todos os direitos que esse título lhe conferia. No ano seguinte, mandou redigir sob seus olhos uma súplica em nome da Câmara dos Comuns. Queixava-se ela, entre outras coisas, de que o clero reunido em convocação pudesse fazer leis e constituições sem o assentimento do rei, e de que os leigos fossem obrigados a submeter-se a essas leis sem que lhes tivessem sido declaradas em língua vulgar. Os ordinários responderam lembrando seus privilégios, fundados na Escritura e nos cânones, e apelaram até para o livro do rei contra Lutero, no qual sustentava os mesmos princípios. Consentiam, porém, em submeter-lhe os cânones que pudessem fazer, contanto que não se tratasse de matérias de fé. Mas Henrique pretendia muito bem ser chefe supremo, mesmo em matéria de fé, e fez o clero aceitar três artigos que, depois de algumas tergiversações, foram aceitos.
A 16 de maio, o arcebispo Warham, com a morte na alma, entregou ao rei o documento conhecido sob o nome de Submissão do clero. Os bispos prometiam nele: 1º não promulgar nem cânones, nem leis, nem ordenanças sem o assentimento do rei; 2º submeter a uma comissão real os cânones já existentes, e suprimir os que fossem reconhecidos contrários às leis de Deus ou do reino; 3º submeter ao assentimento do rei os dos antigos cânones mantidos pela comissão. No mesmo dia, Tomás More apresentou sua demissão de chanceler.
Não era ainda a ruptura definitiva; Henrique contava muito bem chegar a ela, mas, por ora, não estava pronto. Contentou-se em reduzir as anatas a 5 % da renda dos bispados, e em favorecer por baixo do pano a introdução e a publicação no reino de certos livros maculados de heresia, ao mesmo tempo que condenava à morte os hereges. Entretanto, o apelo da rainha a Roma deixava suspensa sobre sua cabeça a obrigação de comparecer pessoalmente perante o tribunal do papa; procurou por todos os meios furtar-se a ela. Fez alegar que a citação era contrária aos privilégios do reino, e obteve que as universidades de Paris e de Orleans a declarassem inválida. Francisco I prometeu abraçar sua causa; não imaginava que seu aliado pudesse ir tão longe quanto iria.
Warham tendo morrido a 22 de agosto de 1532, Henrique deu o arcebispado de Cantuária a Cranmer, seguro de encontrar nele um instrumento dócil. Ver t. III, col. 2026. As bulas foram obtidas de Roma a 22 de fevereiro de 1533; no dia 25, o novo arcebispo declarava inválido o matrimônio do rei com Catarina, e depois, no dia 28, proclamou a validade do que o rei havia contraído secretamente com Ana Bolena a 25 de janeiro precedente. A pretensa rainha foi coroada a 1º de junho, dia de Pentecostes. A 11 de julho, o papa excomungou Henrique.
Este não rompeu ainda abertamente com a Santa Sé, pois consentiu em que o rei da França negociasse com Clemente, que veio vê-lo em Marselha em outubro, e enviou mesmo dois embaixadores, Bonner e Pedro Vannes. Mas Bonner apelou para o concílio geral, o que ofendeu Clemente VII e Francisco I; contudo, um e outro se abrandaram, e du Bellay, bispo de Paris, foi enviado a Roma na esperança de arranjar as coisas. Apesar de seu otimismo, o consistório de 2 de março de 1534 decidiu que o matrimônio de Henrique e Catarina era válido.
O papa aderiu ao parecer dos cardeais e pronunciou nesse sentido uma sentença definitiva. Mas já era tarde demais para deter o rei da Inglaterra. Já pelo fim do ano precedente, o conselho real havia decidido que o papa não tinha mais autoridade na Inglaterra do que qualquer outro bispo estrangeiro, e doravante ele foi designado sob o nome de bispo de Roma. A sentença de 2 de março apenas precipitou os acontecimentos. Impôs-se a todos o juramento de manter o ato de sucessão. More e Fisher recusaram-se a jurar, por causa do preâmbulo que declarava inválido o primeiro matrimônio do rei; foram encerrados na Torre, de onde só saíram para ir ao suplício. Cranmer não teve dificuldade em fazer o clero secular e regular admitir a supremacia real; encontrou, contudo, resistência entre os religiosos mendicantes, os cartuxos e os brigitinos.
III. O chefe supremo da Igreja da Inglaterra. — Eis, pois, Henrique chefe supremo da Igreja da Inglaterra; foi o título que tomou, título que escandalizou até o próprio Lutero. Fez de Cromwell seu vigário geral, e Cranmer, assim como os demais bispos, tiveram de inclinar-se diante de suas ordens. Começou então a perseguição sangrenta. Os primeiros mártires foram três priores cartuxos e um religioso brigitino (4 de maio de 1435), executados por sua fidelidade ao papa, ao passo que um mês mais tarde catorze anabatistas holandeses eram queimados em diversas cidades do reino pelo crime de heresia. Logo Fisher, ver t. V, col. 2558, e More foram decapitados, o que encheu de horror a Europa inteira. Paulo III, que havia criado Fisher cardeal e com isso só conseguira tornar o rei mais furioso, preparou uma bula de excomunhão na qual depunha Henrique e desligava seus súditos do juramento de fidelidade. Mas, como não podia encontrar assistência entre os soberanos da Europa para assegurar-lhe a execução, retardou a publicação, que só teve lugar três anos mais tarde, e a bula nunca entrou na Inglaterra.
Entretanto, Henrique temia um movimento contra si da parte do imperador, e mandou fazer gestões junto aos protestantes da Alemanha. Estes consentiram em ajudá-lo contanto que aceitasse a Confissão de Augsburgo; mas o rei não estava decidido a abandonar a doutrina católica pela de Lutero, e Gardiner fez-lhe notar que não valia a pena rejeitar a autoridade do papa para submeter-se à dos hereges alemães. A tentativa de aproximação não teve seguimento, e Henrique consagrou sua atividade a exercer sua supremacia na Inglaterra. Foi uma verdadeira tirania. Ninguém pensava em resistir-lhe. A nobreza havia perdido sua independência, o povo não tinha chefe, os bispos tremiam diante dele, tanto os partidários das novas doutrinas quanto os que haviam aceitado a separação de Roma a contragosto.
Cromwell, como vimos, já era vigário geral e, como tal, sentava-se antes do arcebispo de Cantuária; mas isso não lhe bastou e, por conselho de duas de suas criaturas, decidiu dar mais um passo, para levar ao cúmulo a degradação dos bispos. A 18 de setembro de 1535, o arcebispo, por meio de uma circular, informava os demais prelados de que o rei, tendo a intenção de fazer uma visita geral, havia suspendido os poderes de todos os ordinários do reino. Os bispos submeteram-se humildemente e, ao cabo de um mês, apresentaram uma petição a fim de serem restabelecidos em sua autoridade. Em consequência, cada um deles recebeu uma comissão que o autorizava, segundo o bel-prazer do rei e como seu representante, a exercer seus poderes episcopais em sua diocese. Tudo isso devia fazer-se sob a superintendência do vigário geral e, como ele não podia estar em toda parte ao mesmo tempo, devia-se obediência a seus delegados como a ele próprio.
Cromwell pôs-se então a executar um desígnio que alimentava havia vários anos: queremos falar da dissolução dos mosteiros. Henrique aceitou com entusiasmo, porque via nisso um meio de encher seus cofres, e Cranmer não foi menos favorável a uma medida que o livrava dos mais firmes sustentáculos da antiga crença. A operação começou por uma visita geral dos mosteiros, feita por Cromwell e seus emissários, sob pretexto de reformá-los, mas na realidade para encontrar razões de suprimi-los, a fim de apoderar-se de seus bens. Assim, os relatórios dos visitadores representam os mosteiros como covis de preguiça e de imoralidade. Fez-se exceção para as casas mais importantes, cujos superiores tinham assento no Parlamento e podiam defender-se, ao passo que as outras ignoravam, na maioria das vezes, as acusações feitas contra elas.
Votou-se uma lei que dissolvia cerca de trezentos e oitenta mosteiros, deixando ao rei a faculdade de restabelecê-los. Restabeleceu uma centena, tendo o cuidado de fazer-se pagar esse favor com abundantes subsídios. Os superiores das casas suprimidas receberam uma pensão; quanto aos monges, os que não tinham vinte e quatro anos foram desligados de seus votos; os outros foram dispersados por diversos mosteiros, se quisessem permanecer na vida religiosa; caso contrário, prometeram-lhes empregos conforme sua capacidade. As religiosas receberam por toda indenização um vestido, e disseram-lhes que se arranjassem como pudessem.
O resultado dessa supressão foi um formidável levante nos condados do norte, onde as pessoas haviam permanecido apegadas às antigas doutrinas e onde eram apoiadas por seu clero, que o afastamento da corte tornava mais independente. Henrique conseguiu pacificar a insurreição fazendo promessas que não cumpriu, e quando os revoltosos tomaram de novo as armas para exigir a execução das promessas, o rei tivera tempo de reunir tropas de modo a interceptar-lhes as comunicações, e os derrotou facilmente. Isso só o tornou mais excitado em destruir os mosteiros; as grandes abadias tiveram agora a sua vez, e é preciso confessar que os abades, dos quais vinte e oito tinham assento no Parlamento, não ousaram sequer levantar a voz para procurar desviar o golpe que os ameaçava. Entregaram seus mosteiros sem demasiada dificuldade, e sua covardia só faz tornar mais dignos de admiração os três abades de Glastonbury, Reading e Colchester, que foram martirizados (1539) e são agora honrados como beatos.
A 7 de janeiro de 1530, Catarina de Aragão morrera. Henrique alegrou-se muito com isso, pois essa morte fazia desaparecer um perigo de guerra com o imperador, e Ana Bolena ficou feliz por se ver livre de uma rival, mas não gozou por muito tempo de sua felicidade. O rei começava a cansar-se dela e pusera os olhos numa de suas damas de honra, Joana Seymour. Imprudências de Ana deram ocasião de acusá-la de adultério e, por ordem de Henrique, Cranmer, que em 1533 declarara válido o matrimônio deles, declarou-o nulo três anos depois. Ana foi decapitada a 19 de maio de 1536 e, no dia 30 do mesmo mês, o rei desposava Joana Seymour, que morreu a 24 de outubro do ano seguinte, poucos dias depois de ter dado à luz um filho, o futuro Eduardo VI.
Enquanto isso, Henrique não esquecia que era o chefe supremo da Igreja; dissemos, t. I, col. 1283, qual foi sua atividade teológica nessa época. Até então se opusera à difusão da Bíblia em língua vulgar, e dava para isso excelentes razões, quando em 1530 ordenou que se entregassem às autoridades todas as traduções inglesas das santas Escrituras. « Por causa da malignidade dos tempos, dizia ele, vale mais deixar aos doutores o cuidado de explicar a Bíblia do que permitir a leitura dela a qualquer um que apareça. » Essa severidade fora excitada por uma tradução do Novo Testamento feita sob a direção de Lutero pelo ex-franciscano Tyndal e publicada em 1526. Mas nessa mesma proclamação o rei dava a esperar que uma tradução oficial por sábios católicos poderia ser publicada quando as opiniões errôneas tivessem deixado de ter curso.
Cranmer não deixou cair essa promessa; lembrou-a muitas vezes a Henrique e, por fim, ajudado pelo voto da assembleia do clero e pela recomendação de Cromwell, obteve a autorização de mandar imprimir uma versão inglesa da Bíblia. Essa edição apareceu em 1537 sob o nome de Thomas Matthew, que não passava de um pseudônimo. Na realidade, continha o Novo Testamento de Tyndal com algumas partes do Antigo Testamento do mesmo tradutor; o resto era obra de um ex-agostiniano de nome Coverdale. Cromwell ordenou que um exemplar dessa Bíblia fosse posto em todas as igrejas, para que cada um pudesse ter livre acesso a ela.
Os protestantes da Alemanha haviam ficado chocados com os seis artigos de doutrina promulgados em 1536. Ver t. I, col. 1284. Para abrandá-los, Henrique, por conselho de Cromwell, decidiu em 1539 desposar Ana, irmã do duque Guilherme de Cleves, o que, aproximando-o dos príncipes protestantes, punha-o ao abrigo de uma possível aliança contra ele entre o imperador e o rei da França. Mas viu logo que tal aliança não era de temer, e que uma tendência para o protestantismo pouco serviria a seus interesses na Europa. Houve, pois, uma reação, cujo resultado foi a ruptura do matrimônio do rei com Ana de Cleves e a queda em desgraça de Cromwell, que era o principal sustentáculo da heresia na Inglaterra. Foi encerrado na Torre e decapitado a 28 de julho de 1540.
No dia 30 do mesmo mês, Henrique acentuava o caráter que queria dar à sua Igreja mandando executar seis vítimas, das quais três favoreciam o luteranismo, ao passo que as outras três recusavam reconhecer a supremacia real: queria permanecer católico sem o papa. Continuou até o fim a fazer morrer, de um lado, papistas como a venerável Margarida Pole, condessa de Salisbury, e, de outro, hereges como Ana Askew.
Enquanto isso, seus negócios domésticos criavam-lhe preocupações. Catarina Howard sucedera a Ana de Cleves, mas o rei soube logo que ela levara outrora e ainda levava, depois de seu casamento, uma vida dissoluta; logo a mandou decapitar, a 12 de fevereiro de 1512. No ano seguinte, desposava sua sexta mulher, Catarina Parr, que lhe sobreviveu, não sem ter corrido alguns perigos por causa de suas tendências protestantes. O concílio de Trento estava reunido quando Henrique VIII morreu, a 28 de janeiro de 1517.
Ver as obras citadas nos artigos Anglicanismo, t. I, col. 1301; Cranmer, t. III, col. 2031; e sobretudo GARDINER, t. VI, col. 1156.
A. Gatard.
Autor original: A. Gatard
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor