HENRIQUE DE SANTO INÁCIO, teólogo carmelita, nasceu em Ath, em 1630. Pertencia à antiga família d'Ayméries, dita d'Aumerie ou Daumerie, da qual vários membros se qualificavam senhores ou cavaleiros d'Ayméries e da qual se encontraram ascendentes até 1169. Entrou entre os carmelitas em 1646 e distinguiu-se em sua ordem. Ensinou teologia durante vários anos. O Speculum carmelitanum, publicado em 1680, faz dele regente no convento da universidade de Douai; em 1700, era professor emérito. Foi três vezes vigário provincial, notadamente em 1685 e em 1700. Obteve que a província valona, recentemente constituída, tivesse assento e voz no capítulo geral, e trabalhou para aumentar o número de suas casas. A 8 de novembro de 1685, comprou dos religiosos do Santo Sepulcro o convento da Xhavée, em Souverain-Wandre-lez-Liège, e tomou posse dele no dia 24 do mesmo mês. Ver o breve de união e de translação de Inocêncio XI, de 7 de agosto de 1688, no Bullarium carmelitanum, t. II, p. 644. Foi seu segundo prior, 1690-1693.
Muito instruído e muito ardente, atacou com violência a moral dos casuístas e adotou, embora o negasse, a doutrina jansenista. Em 1699, aprovou e louvou opúsculos de Henrique Denys, professor no seminário, e de José Navens, cônego de São Paulo em Liège, embora fossem acusados de jansenismo. Em 1702, foi um dos seis religiosos que apoiaram a petição de vários párocos de Liège, assinalando ao bispo a doutrina ensinada no seminário pelos jesuítas e rogando-lhe que fizesse dela um exame sério. Permaneceu em Roma durante os primeiros anos do pontificado de Clemente XI e granjeou a consideração e a amizade do papa e dos cardeais. Comissário geral de sua ordem um pouco antes de 1709 e definidor em várias ocasiões, morreu a 1º de abril de 1719, no convento da Xhavée, com a idade de 89 anos, após 73 anos de vida religiosa.
Eis a lista de suas obras: 1º Theologia vetus, fundamentalis, speculativa et moralis, ad mentem resoluti doctoris J. de Bacone, carmelitica doctrinæ principis, adjuncto ei lumine angelico solis D. Thomæ Aquinatis, t. I, De Deo uno et trino, in-fol., Liège, 1677 (o único aparecido); 2º Theologia sanctorum veterum et novissimorum circa universam morum doctrinam adversus novissimas juniorum casuistarum impugnationes strenue propugnata, t. I, Circa solemniores hodie controversias de usu sacramentorum pœnitentiæ et eucharistiæ, in-8º, Paris e Liège, 1700; reapareceu em 1702 sob um novo título; 3º Appendix ad theologiam moralem abbreviatam sanctorum seu molinismus profligatus per triumphantem de eo propheticam, evangelicam, apostolicam, ecclesiasticam sanctorum Augustini et Thomæ Aquinatis de gratia doctrinam; refunduntur molinianorum maxime Henrici Henrart et Livini de Meyer S. J. de jansenismo accusationes, 2 in-8º, Colônia, 1700; 4º Ethica amoris sive theologia sanctorum, magni præsertim Augustini et Thomæ Aquinatis circa universam amoris et morum doctrinam, adversus novitias opiniones strenue propugnata et in materiis principaliter hodie controversis, fundamentaliter discussa, 3 in-fol., Liège, 1709.
É a principal obra do Padre Henrique de Santo Inácio. Aprovada pelos jansenistas, foi condenada pelo bispo de Liège, cujo vigário geral não havia dado a aprovação publicada à frente, pelo parlamento de Paris e pelo eleitor de Colônia. O Santo Ofício condenou-a também em seus decretos de 21 de agosto de 1714, de 21 de agosto de 1715 e de 27 de maio de 1722. Os carmelitas da província valona mandaram refutá-la por um deles. No capítulo realizado em Notre-Dame de Bonne-Espérance, perto de Valenciennes, a 2 de outubro de 1713, a doutrina dessa obra foi afastada das escolas de teologia da ordem. Um confrade, Ambrósio Gardebosc, julgou-a severamente em sua Historiæ ecclesiasticæ synopsis, Toulouse, 1713. Foi refutada nas Mémoires de Trévoux, julho de 1713, t. III, e julho de 1715, a. 100. O Padre de Colonia censurou-a. Nessa obra, Henrique de Santo Inácio repreendia frequentemente o carmelita Alexandre de Santa Teresa (van der Berghe), autor da Tempestas novaturiensis, in-4º, 1686.
5º Gratiæ per se efficacis seu augustiniano-thomisticæ adversus jansenismi accusationem defensio, ubi etiam theologia moralis sanctorum adversus injustos detractores defenditur, Louvain, 1713. O autor defendia-se da acusação de jansenismo levantada contra ele pelo Padre H. Henrart, O. M. (1650-1717), em seu curto tratado sobre as 31 proposições condenadas por Alexandre VIII, a 7 de setembro de 1691, in-12, Namur, 1692. O jesuíta Livin de Meyer respondeu à defesa de Henrique de Santo Inácio. Ver C. Sommervogel, Bibliothèque de la Compagnie de Jésus, t. V, col. 1047; 6º Molinismus profligatus, 2 in-8º, Liège, 1715; com o Appendice, 2 in-8º, Colônia, 1717. O cardeal de Noailles havia recusado a dedicatória dessa obra.
O Padre Henrique de Santo Inácio havia publicado sob pseudônimos escritos violentos contra os casuístas jesuítas. Sob o nome de Aletophilus Christianus: Artes jesuiticæ in sustinendis pertinaciter novitatibus damnabilibusque sociorum laxitatibus, in-12, Salzburgo, 1703 (em número de 660); proscrito pela universidade de Louvain, a 7 de setembro de 1703 e posto no Índice a 19 de julho de 1707; trad. flamenga, 1704, edição completa (mais de 1000 novidades), Liège, 1709; in-12, 1710; Estrasburgo, 1717. O Santo Ofício condenou esse panfleto a 2 de dezembro de 1711, e o Padre Afonso Huylenbroucq refutou-o, Gand, 1711.
Sob o nome de Liberius Candidus, o carmelita publicou outros panfletos: Tuba magna mirum clangens sonum ad S. D. N. papam Clementem XI, imperatorem, reges, principes, magistratus omnes orbemque universum de necessitate longe maxima reformandi Societatem Jesu, in-12, Estrasburgo, 1712; Tuba altera majorem clangens sonum, etc., 1714, 1715, 3ª edição, 2 in-12, Liège, 1717; 4ª edição, 1760. Ver H. Reusch, Der Index der verbotenen Bücher, Bonn, 1885, t. II, p. 665-666. Sobre as Vindicationes do P. Afonso Huylenbroucq, ver C. Sommervogel, Bibliothèque de la Cie de Jésus, t. IV, col. 539-541.
Cosme de Villiers, Bibliotheca carmelitana, in-fol., Orléans, 1752, t. I, col. 625-627; Hurter, Nomenclator, Inspruck, 1910, t. IV, col. 942-944, 410, 1071; The catholic encyclopedia, New York, 1910, t. VII, p. 219; Biographie nationale de Belgique, Bruxelles, 1911, t. XXI, col. 96-103 (com uma longa bibliografia).
E. Mangenot.
Autor original: E. Mangenot
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