HENRIQUE DE GAND (DOCTOR SOLEMNIS)

HENRIQUE DE GAND (DOCTOR SOLEMNIS)

HENRIQUE DE GAND, cognominado o Doctor solemnis, ocupa um lugar de primeira importância entre os pensadores belgas da Idade Média. Ao lado de são Tomás, que o precede de alguns anos na universidade de Paris, e de Duns Escoto, que o seguirá de perto e atestará seu mérito combatendo suas opiniões ainda mais frequentemente que as do doutor de Aquino, é um dos representantes mais originais da escolástica. Mas, tanto quanto suas doutrinas, de todos os tempos estimadas, estudadas e comentadas, atraíram a atenção sobre suas obras, tanto os pormenores de sua existência foram logo negligenciados e entregues ao esquecimento, a ponto de, como acontece em tal caso, a lenda tomar logo o lugar que a história deixava desocupado. Hoje possuímos de sua biografia apenas um número muito pequeno de elementos certos.

Henrique nasceu em Gand, no começo do século XIII. Os mais antigos manuscritos o chamam Henricus de Gandavo. Um de seus contemporâneos, o cronista Gilles li Muisis, o nomeia Magister Henricus ad plagam de Gandavo. Documentos posteriores designam-no ainda Henrique Goethah ou, latinizando este último nome, Henricus Bonicollius. Em 1567, para o pároco Meyerus, é Henricus Mudanus, Henricus a Muda. O ano de seu nascimento é desconhecido. Em 1267, estava em Tournai, onde parece ter habitado uma casa pertencente ao capítulo, na rua da Lormerie. Segundo um escritor dessa época, João de Thiebrode, foi distinguido e elevado às dignidades eclesiásticas pelo bispo Filipe Mouskes (1274-1282). Era já arquidiácono de Bruges quando, em 1276, pronunciou sua primeira Disputatio de quodlibet.

Nos meios teológicos de Paris, gozava de grande consideração, pois o vemos envolvido em todas as questões importantes que ali se agitavam então. Ele próprio atesta que assistiu, nessa cidade, a uma reunião de teólogos, na qual teve ocasião de associar-se a uma condenação de doutrinas errôneas, pronunciada em nome do bispo. Em 1282, encontramo-lo de novo deliberando com os teólogos da Sorbona sobre os privilégios outorgados às ordens mendicantes relativamente à confissão; e nesse debate, que apaixonava então os espíritos, não hesita em colocar-se resolutamente do lado dos ordinários e em entrar em liça com são Boaventura.

A fama de Henrique chegara até a corte de Roma. Num processo pendente entre o chanceler de Paris e a universidade, o papa Martinho IV, resolvendo ele próprio alguns pontos do litígio, remete a decisão de vários outros aos bispos de Amiens e de Périgueux, assistidos por Henrique: Discretus vir magister Henricus de Gandavo, archidiaconus Tornacensis. Nesses qualificativos, dois traços são de notar: Henrique é magister, isto é, doutor em teologia, e, desde 1277, toma esse título à frente de seus escritos; além disso, por volta da mesma época, entre a Páscoa de 1278 e a Páscoa de 1279, foi promovido do arquidiaconato de Bruges ao de Tournai, que de resto dependia do mesmo ordinário. A partir de 1281, deve ter feito várias vezes a viagem de Tournai a Paris e vice-versa, pois o reencontramos alternadamente numa e noutra dessas duas cidades.

João de Thiebrode assinala o ano de 1293 como data de sua morte, mas sem indicar-lhe o lugar. Sabemos, aliás, por um documento insuspeito, que ela ocorreu a 29 de junho. Seu décimo quinto e último Quodlibetum é da festa do Natal de 1291 ou da festa da Páscoa de 1292. Tais são, segundo os trabalhos mais recentes, sobretudo os do P. Ehrle e do P. Delehaye, os únicos dados seguros concernentes à vida de Henrique de Gand. Tudo o que a multidão dos biógrafos, gente ovelhesca, acrescenta a isso há séculos é puramente fantasioso ou controvertido.

Fantasiosa e sem fundamento sério, a fixação de seu nascimento no ano de 1217; fantasiosa igualmente, sua estada de estudos em Colônia, onde se teria encontrado com são Tomás nas lições de Alberto Magno. Ensinou ele na Sorbona, como com frequência se afirmou? Este ponto permanece duvidoso. Em contrapartida, é falso que tenha pertencido à ordem dos servitas, como se admitia há pouco quase universalmente; com mais forte razão deve-se ter por lendária sua viagem à Itália com são Filipe Benizi, empreendida, dizia-se, para defender junto a Martinho IV (1281-1285), depois a Honório IV (1285-…), a ordem nascente, já ameaçada de supressão. Num lugar dos Quodlibeta, Henrique diz claramente que a regra de santo Agostinho, adotada pelos servitas, lhe é estranha; e possuímos, das despesas de viagens feitas pelo geral da ordem durante o período 1285-1300, um Diarium muito detalhado, em que o nome de Henrique não é sequer mencionado.

Já não há ninguém que admita como autêntica uma bula de Inocêncio IV pela qual ele teria sido nomeado « protonotário apostólico da Santa Sé com poderes que se estendiam não somente a Paris e a todas as dioceses da França, mas ainda à de Tournai ». Ora, é dessa peça apócrifa que se tirava outrora uma multidão de pormenores biográficos, notadamente o nascimento em 1217 e a promoção ao doutorado em 1245 ou 1246. Enfim, a família e o nome de família do doutor solene permanecem para nós um enigma. Resulta das últimas pesquisas que suas relações com a nobre linhagem dos Goethals ou Bonicollii foram, segundo toda a verossimilhança, inventadas por genealogistas complacentes.

Por outro lado, as duas denominações Gandarensis (a Gandavo) e Mudanus (a Muda) não parecem de modo algum ser designações patronímicas, mas simples indicações de origem: explicam-se muito naturalmente pelo costume, caro aos letrados, de tomar, sobretudo quando se expatriavam, o nome de seu lugar de nascimento.

Entre as obras de Henrique de Gand, cumpre mencionar sobretudo: 1º os Quodlibeta, em número de quinze. São outras tantas dissertações ou conferências sobre os problemas mais variados. Dão-nos um panorama interessante dos assuntos agitados nas escolas de Paris e em suas dependências pelo fim do século XIII. A maior parte desses assuntos se refere à psicologia, mas há também grande número de teses de cosmologia e de metafísica, sem contar capítulos de natureza puramente canônica ou teológica. Sucede às vezes, embora raramente, que o autor, arrastado pelo espírito do tempo, caia em minúcias de uma sutileza excessiva. A coletânea dos Quodlibeta foi editada em Paris, em 1518 (é o primeiro texto impresso em que se encontra o nome de Goethals); em Veneza, com os comentários de Zuccolius, em 1608; na mesma cidade, 2 in-fol., 1613. Anuncia-se que o Sr. A. Pelzer prepara uma nova edição.

2º Uma Summa theologica, que ficou inacabada e contém na realidade apenas um prólogo e uma teodiceia. Misturando, como então se fazia, a filosofia com a teologia, começa por um estudo notável sobre os fundamentos ontológicos da verdade. Foi impressa em Paris em 1520, e reimpressa em Antuérpia, em 1639, depois em Ferrara em 1646.

3º Liber de scriptoribus illustribus, editado pela primeira vez em Colônia, em 1580. Hauréau contestou-lhe a autenticidade; Mémoire sur le livre De viris illustribus, attribué à Henri de Gand, dans les Mémoires de l'Académie des inscriptions et belles lettres, t. XXX, 2e partie, p. 349 sq.; Notices extraites de quelques manuscrits de la Bibliothèque nationale, Paris, 1895, p. 162-173; mas seus argumentos, puramente internos, não convenceram todo mundo.

4º Um Comentário sobre a Física de Aristóteles, e 5º um Tratado de lógica. Essas duas obras não foram impressas. A Biblioteca nacional de Paris possui um exemplar dos Commentarii in VIII libros Physicorum, nº 16609, mas é incompleto e contém apenas partes relativas aos livros IV-VIII. Quanto ao Tratado de lógica, existe um exemplar na biblioteca da cidade de Bruges e outro na biblioteca de Erfurt.

Resta-nos também, em manuscrito, várias obras de exegese, de moral e de ascetismo, notadamente: 6º Sermões (mss. de Saint-Omer e da Biblioteca nacional); 7º uma explicação Super prima capita Genesis; 8º um tratado De virginitate (mss. da biblioteca real de Bruxelas e da biblioteca real de Berlim); 9º um tratado De pœnitentia; 10º Quæstiones super Decretalibus (ms. de Viena). Notemos, enfim, que se atribuiu a Henrique de Gand um Comentário sobre o livro das Sentenças e um Comentário sobre a Metafísica de Aristóteles; mas, tendo em vista as numerosas confusões de que a pessoa do doutor solene foi objeto, a autenticidade desses escritos é duvidosa.

M. de Wulf, Études sur Henri de Gand, in-8º, Paris et Louvain, 1897; Franz Ehrle, Beitràge zu den Biographicn berulimter Scholastiker, Heinrich von Gent, dans Archiv fur Litleratur und Kirchengeschichte, 1885, t. I, et traduction française de ce travail par Raskop, dans le Supplément au t. XX des Bulletins de la Société historique et littéraire de Tournai; A. Wauters, contre l'authenticité de la bulle d'Innocent IV, dans les Bulletins de l'Académie royale de Belgique, 1875, 2e série, t. XI, p. 356; Delehaye, Nouvelles recherches sur Henri de Gand, dans le Messager des sciences historiques, 1886 et 1888; N. de Pauw, Note sur le vrai nom du docteur solennel Henri de Gand, et Dernières découvertes concernant le docteur solennel, dans les Bulletins de la Commission royale d'histoire, 1888 et 1889; Hagemann, De Henrici Gandavensis quem vocant ontologismo, Munster, 1898; P. Féret, La faculté de théologie de Paris et ses docteurs les plus célèbres. Moyen âge, Paris, 1895, t. II, p. 227-246; U. Berlière, dans Zeitschrift fiir katholische Théologie, 1890, p. 384-388; Hurter, Nomenclator, Inspruck, 1906, t. II, col. 396-400.

J. Forget.

Autor original: J. Forget

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