GUILHERME DE AUVERGNE (BISPO DE PARIS)

GUILHERME DE AUVERGNE (BISPO DE PARIS)

GUILHERME DE AUVERGNE, bispo de Paris. — I. Vida. II. Escritos. III. Doutrina.

I. Vida. — Dos primeiros anos de Guilherme de Auvergne sabemos somente que nasceu em Aurillac. A data de seu nascimento é desconhecida: como ocupou uma cátedra de teologia na universidade de Paris em 1225, e porque, para ser admitido a esse encargo, era preciso ter ao menos trinta e cinco anos, temos o direito de concluir que ela deve ser situada antes de 1191. Que valem os relatos contraditórios que fazem dele um mendigo ou que exaltam sua nobreza? Ignoramo-lo. Ávido de ciência, tendo tido, ainda muito jovem, a ambição « de adquirir o espírito profético e de receber em abundância os raios do esplendor divino », Opéra, Paris, 1674, t. i, p. 1056, veio a Paris. Em 1223, encontramo-lo cônego de Notre-Dame. Ensinou teologia a numerosos alunos. Honório III lhe confiou várias missões.

Por morte de Bartolomeu, bispo de Paris (20 de outubro de 1227), Guilherme protesta contra a eleição anticanônica de seu sucessor, apela à Santa Sé e vai prosseguir esse apelo em Roma. Gregório IX anula a eleição, reserva-se a escolha do bispo e designa Guilherme (10 de abril de 1228), a quem ele mesmo sagra. Logo irrompia a longa greve (1229-1231) dos mestres da universidade de Paris, em seguida a maus-tratos infligidos a alguns estudantes pelo preboste de Paris e seus homens de armas. Nesse ínterim, quer a pedido deles e com o assentimento do bispo e do chanceler, quer antes a pedido do bispo e do chanceler, os dominicanos abriram um curso público de teologia. Cf. P. Mandonnet, De l'incorporation des dominicains dans l'ancienne université de Paris, na Revue thomiste, Paris, 1896, t. iii, p. 153-155. Graças a Gregório IX, os mestres acabaram por regressar a Paris, como vencedores. Guilherme, censurado pelo papa por não ter tomado sua defesa, guardou-lhes rancor, mostrando-se ao mesmo tempo disposto a encorajar os estudos.

Não é essa a única circunstância em que esteve em desacordo com o papa. Conflitos entre o capítulo de Paris e oficiais do rei levaram (6 de janeiro de 1238) a uma intervenção de Gregório IX favorável aos cônegos e severa para com o bispo, o qual era acusado de não ter tomado suficientemente a causa deles. A. D[armesteter], Revue des études juives, Paris, 1880, t. i, p. 140, assinalou em Guilherme « seu caráter de padre galicano, de homem do rei, e a independência com que defendeu os interesses de são Luís contra o próprio papado ». Não convém exagerar esse traço da fisionomia de Guilherme, não mais do que o galicanismo de são Luís. O que é verdade é que nem o rei da França nem o bispo de Paris tiveram sempre para com o papa uma submissão efetiva. Cf., no que diz respeito a Guilherme, N. Valois, Guillaume d'Auvergne, évêque de Paris, Paris, 1880, p. 32, 62, 68, 78, 115, 138. Mas, apesar de resistências de detalhe, ambos foram apegados à Santa Sé e a serviram com dedicação.

Os papas não se enganaram: Honório III, Gregório IX, Inocêncio IV investiram Guilherme de numerosas e importantes missões, entre outras aquela, à qual se prestou de todo o coração, de proteger as ordens mendicantes, em particular os frades menores. Cf. N. Valois, op. cit., p. 84-117. Guilherme interveio no retumbante caso do Talmude, condenado em Paris (1240) e entregue publicamente às chamas. Cf. Denifle-Châtelain, Chartularium universitatis Parisiensis, Paris, 1889, t. i, p. 202-210. Em 1240 ainda, condenou, de acordo com a faculdade de teologia, proposições em voga junto a certo número de mestres e que versavam sobre a essência divina, a Trindade, os anjos, os santos, o primeiro homem e o demônio. Reduzidas a dez, foram colocadas cada uma em face da proposição ortodoxa que a contradizia. Cf. d'Argentré, Collectio judiciorum de novis erroribus, Paris, 1733, t. i, p. 158, 186-187.

Em 1228, havia encerrado uma campanha contra a pluralidade dos benefícios, fazendo declarar solenemente pelos doutores da universidade que não se podia em consciência possuir dois benefícios quando um só podia bastar à subsistência. Foi desde então o ensinamento geral no seio da faculdade de teologia. Cf. P. Féret, La faculté de théologie de Paris et ses docteurs les plus célèbres. Moyen âge, Paris, 1894, t. i, p. 212. Influente na corte, bem visto por são Luís — que, no entanto, não conseguiu dissuadir da cruzada —, confessor de Branca de Castela, desempenhou inteligentemente missões diplomáticas. Não negligenciou por isso os interesses de sua diocese, que governou com muita piedade e zelo. Morreu em 1249, talvez em 30 de março. Cf. N. Valois, Guillaume d'Auvergne, p. 152.

II. Escritos. — 1° Obras autênticas impressas. — São, na ordem em que as apresenta a edição mais completa, Orléans e Paris, 1674, os seguintes escritos: 1. De fide, t. i, p. 1-18; 2. De legibus, p. 18-102; 3. De virtutibus, p. 102-191; 4. De moribus, p. 191-260; 5. De vitiis et peccatis, p. 260-293; 6. De tentationibus et resistentiis, p. 293-309; 7. De meritis, p. 310-315; 8. De retributionibus sanctorum, p. 315-328; 9. De immortalitate animae, p. 329-336; 10. De rhetorica divina sive ars oratoria eloquentiae divinae, p. 336-406; 11. De sacramento in generali, p. 407-416; 12. De sacramento baptismi, p. 416-426; 13. De sacramento confirmationis, p. 426-429; 14. De sacramento eucharistiae, p. 429-451; 15. De sacramento pœnitentiae, p. 451-512; 16. De sacramento matrimonii, p. 512-528; 17. De sacramento ordinis, p. 528-553 ; 18. De sacramento extremae unctionis et de sacramentalibus, p. 553-555; 19. De causis cur Deus homo, p. 555-570; 20. De pœnitentia novus tractatus, p. 570-592; 21. De universo, p. 593-1074; 22. Tractatus quatuor nunc primum ex manuscriptis eruti : De Trinitate, notionibus et praedicamentis, t. II a, p. 1-64; 23. De anima, p. 65-228; 24. Supplementum tractatus novi de pœnitentia, p. 229-247; 25. Tractatus de collatione et singularitate beneficiorum, p. 248-260; 26. O De claustro animae, impresso por H. Estienne, Paris, 1507, não encontrou lugar na edição de 1674.

2° Obras autênticas inéditas. — Aqui, e daqui em diante, resumimos N. Valois, Guillaume d'Auvergne, p. 171-186, que modificou e melhorou consideravelmente as listas de Ellies du Pin, de C. Oudin, de dom Ceillier e da Histoire littéraire de la France. — 1. De passione Domini; 2. De faciebus mundi; 3. Comentário sobre o Cântico dos Cânticos; 4. sobre o Eclesiastes; 5. sobre os Provérbios; 6. De missa; 7. De gratia; 8. De laudibus patientiae ; 9. De bono et malo; 10. De paupertate spirituali; 11. Sermões, em número de cerca de 530, em latim, e um sermão composto, com a ajuda de Filipe de Grève, sobre a Santíssima Virgem; curiosos fragmentos da tradução em dialeto picardo são publicados por N. Valois, p. 220-223.

3° Obras de autenticidade duvidosa. — 1. De Inferno et paradiso; 2. Extracta super libros Sententiarum; 3. Comentário sobre o Apocalipse; 4. Estatutos sinodais, impressos no Synodicon Parisiense publicado por C. de Beaumont, Paris, 1777; são obra de um Guilherme de Paris, mas é impossível pronunciar-se em favor de um ou outro dos três bispos de nome Guilherme que ocuparam a sé de Paris com poucos anos de intervalo; 5. Consilium domini Guillelmi episcopi Parisiensis de ministerio et negligentiis altaris (a mesma incerteza quanto a este breve fragmento inédito).

4° Obras apócrifas. — 1. Comentário sobre as epístolas e os evangelhos dos domingos (cerca de 60 edições); 2. Comentário sobre o Evangelho de São Mateus (impresso, com as obras de Santo Anselmo, edição do P. Raynaud, Lyon, 1630, p. 456); 3. Diálogo sobre os sete sacramentos (inédito); 4. Liber contra exemplos (inédito, é provavelmente obra de Guilherme Beaufet, também originário de Aurillac e bispo de Paris de 1305 a 1320); 5. Sermões, em número de 300, impressos na edição de 1674, t. II b, considerados desde há muito como obra do dominicano Guilherme Perrauld.

5° Data, assunto, unidade dos escritos. — É verossímil que a maior parte dos escritos seja anterior à promoção ao episcopado. Um manuscrito de Oxford, do século XV, situa em 1234 a redação do De sacramentis; pode-se perguntar quanto vale essa informação. O De virtutibus foi posterior a 1217, pois Guilherme fala nele, t. i, p. 245, de João de Montmirail como de um homem que já não era deste mundo; ora, esse piedoso cisterciense morreu em 1217. O Tractatus de collatione et singularitate beneficiorum foi anterior à decisão de 1228: ainda que se pronuncie contra a pluralidade, Guilherme declara que a questão é, especulativamente, ainda duvidosa, o que basta, diz ele, para impor a abstenção, a fim de não se expor ao perigo de uma falta grave; evidentemente, depois do decreto de 1228, ele teria sido mais claro. O De universo situa-se entre 1231 e 1236.

O título dos escritos indica com suficiente clareza o assunto, com exceção do De universo, do De rhetorica divina, do De faciebus mundi e do De claustro animae. O De universo, que é a obra mais longa e, juntamente com o De anima, a mais importante, trata, em duas partes, do universo material e do universo espiritual. O De rhetorica divina, sob a forma de um tratado de retórica, ensina a arte de rezar. Em contrapartida, o De faciebus mundi é um verdadeiro tratado da eloquência do púlpito. Os faciès mundi são os objetos materiais, sinais e representações dos objetos espirituais; o estudo dos faciès mundi é a ciência das comparações, das alegorias e das metáforas. O De claustro animae assimila à vida claustral a vida da alma.

Os últimos editores multiplicaram a seu bel-prazer os tratados de Guilherme. O De fide e o De legibus são, na realidade, um tratado único sob este título: De fide et legibus. Os seis tratados seguintes constituem, nos manuscritos, uma Summa de vitiis et virtutibus, dividida em três partes, tratando sucessivamente das virtudes, dos costumes e, enfim, em três seções, dos vícios e dos pecados, das tentações e das resistências, dos méritos e da recompensa dos santos. O De sacramento in generali e os tratados sobre os sacramentos em particular formam um único tratado De sacramentis. Restam, pois, ao ativo de Guilherme, vinte e dois tratados nos quais se está autorizado a discernir fragmentos de um dos mais vastos monumentos que a escolástica edificou.

Essa enciclopédia, Guilherme a chamava ora de « ciência divina, divinal, sapiencial ou espiritual », ora de « filosofia primeira e teológica, filosofia sapiencial », ou mesmo « ofício primeiro, sapiencial e divinal ». Opéra, t. i, p. 102, 24, 76, 407, 69, 76, 593. Ela tem sete partes. A 1ª trata de Deus e é representada pelo De Trinitate.

Vêm em seguida o estudo do conjunto das criaturas e das relações do mundo com Deus (IIª e IIIª partes, representadas pela Iª parte do De universo); a ciência dos puros espíritos (IVª parte, representada pela IIª parte do De universo). Depois, chegamos ao homem. A Vª parte é formada pelo De fide et legibus (verdadeira religião); a VIª pelo De sacramentis. Rejeitando para fora da ciência divina a psicologia propriamente dita e anexando-a à filosofia natural, Guilherme, em sua VIIª e última parte, ocupa-se das faculdades mais nobres da alma, da vontade, das virtudes e dos costumes, dos vícios e dos pecados, dos méritos e das recompensas reservadas à virtude: é o objeto da Summa de vitiis et virtutibus.

Assim, Guilherme, a exemplo de seus contemporâneos e segundo um plano que, sem ter-lhe a perfeição arquitetônica, oferece analogias com o da Suma teológica de São Tomás, procurava coordenar seu ensino, e, quando concluía a Summa de vitiis et virtutibus, « punha na realidade o último retoque numa vasta obra que se poderia chamar sua Suma. Ela traz esse nome em um dos manuscritos de Oxford: o De fide et legibus, o De sacramentis, a Summa de vitiis et virtutibus ali não são designados senão por estas palavras: Quinta pars, sexta pars, septima pars Summae Parisiensis. » N. Valois, Guillaume d'Auvergne, p. 197.

III. Doutrina. — 1° Fontes. — Depois de A. Jourdain, Recherches critiques sur l'âge et l'origine des traductions latines d'Aristote et sur des commentaires grecs ou arabes employés par les docteurs scolastiques, 2e édit., Paris, 1843, p. 298-299, e de maneira mais completa, N. Valois, op. cit., p. 198-206, elaborou a lista dos autores citados por Guilherme. São eles: entre os gregos, Hermes Trismegisto, Hipócrates, Platão (parece não ter conhecido senão o Timeu, pela tradução de Calcídio), Aristóteles (cita as diversas partes do Organon, a Metafísica, a Física, Da alma, o tratado Do sono e da vigília, o Dos animais, os Do céu, Do mundo, Dos meteoros, as Éticas, o tratado Da geração e da corrupção, o tratado apócrifo Do fogo grego), Euclides, Ptolomeu, Galeno, Alexandre de Afrodísia, Porfírio, Temístio, Josefo, Orígenes, Eusébio, São Basílio, São João Crisóstomo, o pseudo-Areopagita, São João Damasceno, a profecia dita de Metódio; entre os latinos, Cícero, Virgílio, Ovídio, Tito Lívio, Valério Máximo, Sêneca, Plínio, o Velho, Horácio, Quinto Cúrcio, Juvenal, Marcial, Apuleio, Macróbio, São Cipriano, Santo Ambrósio, São Jerônimo, Santo Agostinho, Juliano Pomério (cita sua Vida contemplativa sob o nome de São Próspero), Fausto de Riez, Boécio, São Gregório Magno, Santo Isidoro de Sevilha, São Beda, São Bernardo, Hildeberto de Le Mans, Hugo de São Vítor, Gilberto de la Porrée (cita seu Liber sex principiorum sob o nome de Aristóteles), Guigo, o Cartuxo, Joaquim de Fiore, Alano de Lille, e sete obras anônimas: o Itinerarium clementis ou Liber disputationum Pétri contra Simonem magum (que ele atribui a São Clemente Romano), o Libellus disputationum cujusdam christiani et cujusdam sarraceni, o Liber experimentorum, o Liber imaginum lunae, o Liber maleficiorum, o Liber sacratus, os Libri judiciorum astronomiae; entre os escritores árabes e judeus: Albategni, Alfarabi, Avicena, Albumazar, Algazel, Artéfio, Alfragan, Ali, Aven Nathan, Alpetrangi, Averróis, Salomão ibn Gabirol, dito Avicebron, que ele supõe ter sido um cristão vivendo sob a dominação árabe. Nunca nomeia Maimônides, que muito admira; no entanto, está fora de dúvida que Guilherme d'Auvergne utilizou copiosamente o Guide des indécis desse autor. L.-G. Lévy, Maimonide, Paris, 1911, p. 262.

As fontes de Guilherme d'Auvergne são, pois, numerosas. Um estudo aprofundado de suas obras provavelmente revelará outras novas. Há probabilidade de que Maimônides não seja o único escritor que ele aproveita sem pronunciar-lhe o nome. Na esteira de B. Hauréau, Notices et extraits de quelques manuscrits latins, Paris, 1892, t. v, p. 196-200, G. Bülow, Des Dominicus Gundissalinus Schrift von der Unsterblichkeit der Seele, Munster, 1891, mostrou que seu De immortalitate animae reproduz quase literalmente a obra homônima do arquidiácono Gundissalvi. O De claustro animae inspira-se manifestamente no livro III do De claustro animae de Hugo de São Vítor.

S. Talamo, L'aristotélisme de la scolastique dans l'histoire de la philosophie, trad. franc., Paris, 1875, p. 228, 229, 231, 250, 256, pôde citar Guilherme entre os doutores que julgaram Aristóteles com liberdade e independência. Ele faz grande caso do Estagirita, mas, se necessário, abandona-o ou prefere-lhe Platão. O que é particularmente notável é o lugar que concede à filosofia árabe. Em uma época em que os cristãos, no Oriente e na Espanha, combatiam o islã, ele ataca a influência dos pensadores árabes. Se confere a Averróis o título de philosophus nobilissimus, Opéra, t. i, p. 851 ; t. ii a, p. 101, é « o primeiro dos escolásticos » que refuta o averroísmo « a cada página, ora sob o nome de Aristóteles, ora sob denominações muito vagas, como expositores, sequaces Aristotelis ». E. Renan, Averroès et l'averroïsme, 3e édit., Paris, 1867, p. 225. A atenção que deu aos escritores judeus, cf. J. Guttmann, Guillaume d'Auvergne et la littérature juive, na Revue des études juives, Paris, 1889, t. xvm, p. 243-255, termina de testemunhar a amplitude de suas informações.

2° Teologia. — Seria desejável que a teologia de Guilherme d'Auvergne fosse estudada a fundo. Diversos pontos já foram indicados no Dicionário; outros o serão posteriormente. Ver Absolution, t. 1, col. 175; Ame, col. 1006; Anges, col. 1226; Augustinisme, col. 2556; Bacon, t. n, col. 14; Confession, t. in, col. 894, 908, 911, 914; Confirmation, col. 1073, 1075; Crédibilité, col. 2258, 2265-2266; Démon, t. iv, col. 390-392; Dogmatique, col. 1559; Dons du Saint-Esprit, col. 1770-1771, 1774; Essence, t. v, col. 844; Eucharistie, col. 1303, 1304, 1305, 1310; Fin du monde, col. 2538-2539 ; Foi, t. vi, col. 118-119, 340, 438. Nem todas as ideias teológicas de Guilherme têm o mesmo valor. Encontram-se nelas opiniões ultrapassadas, aparecem esquisitices. Mas as visões interessantes ali se apresentam com frequência. Guilherme tem saber, abertura e penetração de espírito. Francamente ortodoxo, não quer que se prefiram seus discursos aos dos Padres, não tendo outro fim, diz ele, que ut veritatem eorum per vias probationum astruam, et contraria destruam eorumdem. Opéra, t. n a, p. 226. Enquanto muitos de seus contemporâneos se deixam arrastar pelos excessos de certo aristotelismo ou do averroísmo, ele refuta em muitos pontos Aristóteles, a quem admira, e submete a uma crítica « severa, mas não malevolente » os comentadores árabes.

Tem o olhar aberto sobre as tentativas dos heresiarcas. Consagra uma parte notável do De universo à prova da unidade de Deus e à refutação do maniqueísmo, representado nessa época pelos cátaros: persegue todos os erros, de qualquer lado que venham, tanto entre os filósofos da antiguidade quanto nas escolas da Idade Média. Admite que a heresia seja extirpada pelo ferro e pelo fogo. Cf. N. Valois, op. cit., p. 24-27, 238-241, 247, 310.

No começo do século XIII, a astrologia teve grande sucesso. Os espíritos mais firmes, os melhores teólogos nem sempre resistiram ao arrastamento geral. Guilherme d'Auvergne teve o raro mérito de combatê-la. A bem dizer, concedeu-lhe uma parte mínima, admitindo a influência dos astros sobre alguns objetos materiais: a medula dos ossos, a seiva das plantas, os líquidos, sustentando — e nisso antecipava-se ao veredicto da ciência moderna — que o mar obedece à lua; mas entrou em guerra contra as divagações dos astrólogos e suas doutrinas malfazejas, que tendiam a nada menos que destruir o livre-arbítrio e o dogma da providência. Do mesmo modo, Guilherme está adiantado em relação a seu tempo no assalto que desfere contra as superstições de todo gênero. Credulidade exagerada, livros de alquimia, de malefícios, de magia, relatos de fantasmas, contos de fadas, lendas em que intervêm lobisomens, aparições de duendes, alucinações, raptos, catástrofes preditas pelos adivinhos, tudo isso não encontra graça diante dele, nenhuma dessas imaginações lhe parece digna dos scientes et rationales. Opéra, t. i, p. 1039.

A respeito dos demônios, não rejeita todas as lendas populares. A propósito de Merlim e de suas profecias, considera não improvável o relato « famoso » que faz dele filius dsemonis incubi... Quod autem propheta in eadem regione habitasset..., ex instructione vel doctrina paterna hoc accepisse non immerito credi potest. Opéra, t. i, p. 1072. Evita, contudo, muitos desvios que circulavam em matéria de demonologia. Insiste na importância da doutrina dos demônios, que se gaba de ter formulado em primeiro lugar: notum est tibi quia de rebus hujusmodi nihil ab eis qui praecesserunt ad haec tempora devenit, e acrescenta com bastante felicidade: quapropter grata fiant tibi haec quae audivisti, quae, etsi plene nec tibi nec aliis forsan de rebus a consuetudine nostra tam remotis sufficiant, occasionem tamen et nonnulla initia ea quae desunt inveniendi tibi ac aliis philosophantibus praestant. Opéra, t. i, p. 1065.

De suas provas da existência de Deus disse-se que são « inteiramente novas » e que « contêm pontos de vista que Boaventura e Tomás de Aquino logo aproveitarão ». C. Henry, Histoire des preuves de l'existence de Dieu au moyen âge, na Revue thomiste, Paris, 1911, t. xix, p. 142. « Inteiramente novas » é excessivo. Cf. S. Schindele, Beiträge zur Metaphysik des Wilhelm von Auvergne, Munique, 1900, p. 45-56. Dependem de Santo Agostinho, da antiga escolástica e dos árabes. Mas Guilherme ali acrescentou algo de seu. Argumentos a priori, que lembram o de Santo Anselmo, são caducos; outros, melhores, preparam uma parte da argumentação de São Tomás. Emprega em sentido ortodoxo a fórmula: « Deus é o ser formal das coisas », que tão facilmente pode descambar para o panteísmo. Ao mesmo tempo que sobre a teologia de Guilherme d'Auvergne, seus escritos nos informam sobre as ideias e os costumes de seu tempo.

Certa passagem em que trata do sacramento da confirmação, por exemplo, é rica de substância histórica: Quam imperiti, quam indevoti illud hodie suscipiant, quam turbulente, irreverenter, ad illud hodie accedatur, ipsi oculi nostri faciunt nobis fidem, propter quod nec mirum si virtus ejus et efficacia apud hujusmodi homines aut parva sit aut nulla, id est quod speciem christianae religionis et signa omnia sanctitatis, et ipsum nomen, non solum erubescant sed etiam formident. rarissimi enim sunt qui non erubescant neque formident facere bona aut loqui vera in conspectu hominum etiam christianorum. De sacramento confirmationis, Opéra, t. i, p. 428-429. Se não se soubesse de quem é este texto, acreditar-se-ia que diz respeito à Idade Média e visa os contemporâneos de São Luís? Por se encontrar num tratado dogmático, composto a frio, longe dos arrebatamentos da eloquência do púlpito, tem mais força que outro texto muito duro para o clero de então, e do qual B. Hauréau, que o extraiu de um sermão inédito, Notices et extraits de quelques manuscrits latins, Paris, 1893, t. vi, p. 228-229, diz que, para apreciá-lo em seu justo valor, importa lembrar que « admite-se que um pregador possa, ao acusar, faltar com a medida ».

3° Filosofia. — Crente muito ortodoxo, Guilherme defende os direitos da razão e marca nitidamente suas fronteiras e as da fé. Nec attendas sermonibus philosophorum in parte ista (trata-se da ação de Deus sobre as criaturas), nec etiam in aliis, si vis eruditus esse et absque errore in rebus divinalibus: eis o que cabe à fé. E eis o que cabe à razão: nos tratados filosóficos, ele precisa que seus argumentos não repousam no testemunho das Escrituras, mas em provas racionais; tu autem intellige quia in omnibus tractatibus istis specialibus non utor testimonio legis alicujus, nec intentionis meae est veritatem communem et communiter sciendam vel credendam ab hominibus astruere per testimonia sed per probationes irrefragabiles. Opéra, t. i, p. 1028.

A autoridade de Aristóteles não é uma prova, e ele se guarda de alegá-la como tal, cum propositum meum sit, et in hoc tractatu et ubicumque possum, certitudinem facere demonstrativam post quam non relinquitur tibi dubitationis ullum vestigium, t. n a, p. 65; cf. p. 116. Em termos magníficos, declara-se partidário do progresso indefinido das ciências, t. ii a, p. 158.

A filosofia de Guilherme foi objeto de várias monografias. É inteiramente digna de atenção, dada sobretudo a data em que ele escrevia. Mas é por vezes indecisa; o aristotelismo imperfeito, cujos elementos aparecem nele « em estado esporádico » e que se tinge de ideias neoplatônicas, « está estranhamente aliado às doutrinas da antiga escolástica: Guilherme tenta conciliar as inovações com os legados do passado, e onde a conciliação lhe parece impossível, é a tradição que prevalece. Disso resulta uma falta característica de coesão doutrinal. » M. de Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, 2e édit., Louvain, 1905, p. 290.

Na questão dos universais, Guilherme não está, ainda que B. Hauréau tenha dito o contrário, Histoire de la philosophie scolastique, Paris, 1880, t. n a, p. 166, no número « dos realistas mais intemperantes ». Professa um realismo moderado que lhe é próprio, e que aproxima-se aqui e ali do conceptualismo e noutros pontos parece preludiar o realismo tomista. O primeiro dos escolásticos, ao que sabemos, ensina a distinção real entre a essência e a existência. « Sem dúvida as palavras distinctio realis não se encontram em seus escritos, mas os termos de que se serve para exprimir seu pensamento exprimem a ideia sem equívoco nem obscuridade. » C. Henry, Revue thomiste, Paris, 1911, t. xix, p. 446. O autor a quem é diretamente devedor dessa doutrina parece ser Avicena. Cf. S. Schindele, Beiträge zur Metaphysik des Wilhelm von Auvergne, Munique, 1900, p. 25.

O primeiro ainda, colocou francamente o problema da origem dos conhecimentos. Viu bem alguns aspectos do problema. Denunciou a teoria averroísta do intelecto agente separado, intermediário entre Deus e o homem, exercendo uma influência misteriosa sobre a multidão das inteligências passivas e gerando o pensamento. Rejeita a teoria do phantasma espiritualizado, ou da espécie sensível transformada em espécie inteligível sob a influência depurativa do intelecto agente, teoria apresentada falsamente como aristotélica e grávida de consequências ruinosas; muitos, antes dele e depois dele, deixaram-se enganar por ela. Onde é menos feliz é quando repele a divisão do intelecto em agente e possível. E, sem falar do resto, sua teoria da visão em Deus, que faz pensar no ontologismo, é grandemente defeituosa. Cf. os textos reunidos por N. Valois, Guillaume d'Auvergne, p. 266-278.

Ele é dos que não ousam renunciar às esferas homocêntricas de Al Bitrogi, de Averróis e de Aristóteles, que rejeitam os excêntricos e os epiciclos de Ptolomeu, mas também dos que denunciam a contradição formal entre o aristotelismo e a onipotência divina, e que, com isso, contribuem para suscitar essa ciência parisiense do século XIV que, como estabeleceram os admiráveis trabalhos de P. Duhem, formulou, antes de Newton, Descartes, Galileu e Leonardo da Vinci, os princípios sobre os quais repousa a ciência moderna. Cf. A. Dufourcq, Les origines de la science moderne d'après les découvertes récentes, na Revue des Deux Mondes, 15 juillet 1913, p. 353, 360-362.

4° Lugar de Guilherme d'Auvergne na escolástica. — Com Domingos Gundissalvi e, num lugar inferior, Alfredo de Sereshel, Guilherme d'Auvergne forma o grupo dos precursores na antiga escolástica do século XIII. Aristotelismo, platonismo ou neoplatonismo, elementos judaicos e árabes, tudo isso está em vias de agir sobre o pensamento cristão. Guilherme tem dessas diversas fontes um conhecimento relativamente amplo; percebe os problemas que se colocam, empenha-se em resolvê-los. Se nem sempre o consegue, se não escapa a toda incoerência doutrinal, dá mais de uma vez soluções felizes, abre os bons caminhos. Dá-se conta dos perigos que apresentam as ideias novas e, segundo a justa observação de S. Schindele, Kirchenlexikon, 2e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1901, t. xn, col. 1590, todo voltado ao que é prático e atual, combate a heresia reinante do catarismo e as teses perigosas da filosofia árabe e o monopólio que ela exerce sobre Aristóteles. Acrescente-se a isso que ele pertence à linhagem desses grandes espíritos da Idade Média que abraçaram todo o ciclo das ciências então conhecidas. Bispo e doutor, Guilherme d'Auvergne é uma das nobres figuras do século XIII.

É difícil medir sua influência sobre os escolásticos vindos depois dele. Na falta de citações, que os escolásticos nem sempre usavam quando faziam uso de um livro, e admitindo, com C. Jourdain, La philosophie de saint Thomas d'Aquin, Paris, 1858, t. i, p. 52, que o que lhe faltou, para agir decisivamente sobre a escola, foi « o apoio enérgico de uma ordem religiosa interessada em propagar seus escritos e sua glória », os numerosos manuscritos de suas obras testemunham uma difusão séria. Os elogios que lhe concedem os copistas indicam em que estima era tido. Nobilissimus philosophus... Vir elevatae intelligentiae et profundae speculationis..., cujus nomen non delebitur de terra viventium, trazem manuscritos de Chartres e de Oxford. Cf. N. Valois, Guillaume d'Auvergne, p. 326. Questões que ele havia suscitado, teorias que havia desenvolvido em primeiro lugar, reencontram-se na escolástica posterior.

Sem falar das páginas de um Tomás de Cantimpré, de um Estêvão de Bourbon, cf. A. Lecoy de La Marche, Anecdotes historiques, légendes et apologues tirés d'É. de Bourbon, Paris, 1877, p. 383, 387-389, e de um Joinville, édit. Wailly, Paris, 1874, p. 26, que são em honra do bispo — as de Tomás de Cantimpré foram extraídas, no século XV, de seu Bonum universale de apibus, 1. I, c. xix, lv, e com elas se formou uma coletânea intitulada: Determinatio Parisiensis de pluralitate beneficiorum — Roger Bacon o menciona com uma simpatia que raramente tem por seus contemporâneos. Opus tertium, c. xxm, em J.-S. Brewer, Fr. R. Bacon opera quaedam hactenus inedita, Londres, 1859, p. 74-79. Cf. F. Picavet, Roger Bacon. La formation intellectuelle d'un homme de génie au XIIIe siècle, na Revue des Deux Mondes, 1er juin 1914, p. 656-657. Sua opinião era invocada, no concílio ecumênico de Viena, por Guilherme Durand, o Moço. Tractatus de modo generalis concilii celebrandi, part. II, tit. xxi, Paris, 1671, p. 110. Num tratado Contra a pluralidade dos benefícios, em que se inspirava em Guilherme d'Auvergne, Dionísio, o Cartuxo, chamava-o « esse doutor que muitos não temem igualar a São Tomás ou a São Boaventura ». Raul de Presles, La cité de Dieu, 1. XV, c. xxm, louvava sua luta contra as superstições. Pedro d'Ailly, De legibus et sectis contra superstitiosos astronomos, em Gerson, Opéra, édit. E. du Pin, Paris, 1706, t. i, p. 781, reproduzia um capítulo do De fide et legibus. A Rhétorique divine e a Pénitence foram traduzidas em francês e a imprensa multiplicou desde cedo as edições de seus diversos tratados.

Como a maior parte dos homens ilustres da Idade Média, Guilherme d'Auvergne passou por ter-se dedicado à magia. Pretendeu-se que, à imitação do papa Silvestre II, de Roberto de Lincoln, de Alberto Magno e de Roger Bacon, tivesse fabricado estátuas falantes. Cf. G. Naudé, Apologie pour tous les grands personnages qui ont été faussement soupçonnés de magie, Paris, 1625, p. 491, 493. Proclamou-se que era um adepto convicto dos devaneios dos hermetistas. É possível, como conjectura N. Valois, Guillaume d'Auvergne, p. 328, que essa estranha reputação que se fez, depois do fato, a Guilherme venha de ter ele citado com complacência as obras do pseudo-Hermes Trismegisto. Em todo caso, era completa a metamorfose que transformava em iniciado do hermetismo e em mágico um adversário declarado da superstição e da magia.

I. Obras. — Há duas edições gerais das obras de Guilherme d'Auvergne, a de Veneza, 1591, e a de Orléans e Paris, 1674, 2 in-fol. Dá-se frequentemente a esta última o nome do cônego de Chartres Le Ferron, que comunicou ao editor a cópia de vários manuscritos de Chartres. Sobre as edições antigas das obras isoladas, ver L. Hain, Repertorium bibliographicum, Stuttgard, 1827, t. il, n. 8225-8323; Copinger, Supplément to Hain, Londres, 1895, t. i, n. 8228-8319; t. n a, n. 2856-2878; t. n b, n. 8314.

II. Trabalhos. — E. du Pin, Histoire des controverses et des matières ecclésiastiques traitées dans le XIIIe siècle, 2e édit., Paris, 1701, p. 229-239; F. Vivant, De re beneficiaria sive de non possidendis simul pluribus beneficiis, Paris, 1710 (restabelece a doutrina de Guilherme); C. Oudin, Commentarius de scriptoribus Ecclesiœ antiquis illorumque scriptis, Leipzig, 1722, t. m, p. 100-105; dom R. Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés et ecclésiastiques, Paris, 1763, t. xxm, p. 460-482; Daunou, na Histoire littéraire de la France, Paris, 1835, t. xviii, p. 357-385; X. Rousselot, Études sur la philosophie dans le moyen âge, Paris, 1841, t. n, p. 168-172; Javary, Guillelmi Alverni, episcopi Parisiensis, psychologica doctrina ex eo libro quem « De anima » inscripsit expromta, Orléans, 1851; A. Sevestre, Dictionnaire de patrologie, Paris, 1852, t. n, col. 1609-1626; B. Hauréau, em Notices et extraits des manuscrits, Paris, 1865, t. xxi b, p. 204-212; Histoire de la philosophie scolastique, Paris, 1880, t. il a, p. 143-170; Notices et extraits de quelques manuscrits latins de la Bibliothèque nationale, Paris, 1891, t. i, p. 186, 374; t. n, p. 105, 190; t. m, p. 272; t. iv, p. 31, 200-207; t. v, p. 55, 59-60, 72-73, 138-139, 142-143, 151, 154, 161-162, 171-172, 190-200; t. vi, p. 228-229; K. Werner, Die Psychologie des Wilhelm von Auvergne, Viena, 1873, extrato dos Sitzungsberichte der k. Akademie der Wissenschaften, Viena, 1873, t. lxxiii, p. 257-326; Wilhelms von Auvergne Verhältniss zu den Platonikern des XII. Jahrhunderts, Viena, 1873 (extrato dos Sitzungsberichte, 1873, t. lxxiv, p. 119-172); N. Valois, Guillaume d'Auvergne, évêque de Paris (1228-1249).

Sa vie et ses ouvrages, Paris, 1880; J. Guttmann, Guillaume d'Auvergne et la littérature juive, na Revue des études juives, Paris, 1889, t. xvin, p. 243-255; Die Scholastik des XIII. Jahrhunderts in ihren Beziehungen zum Judentum, Breslau, 1902, p. 13-32; M. Baumgartner, Die Erkenntnisslehre des Wilhelm von Auvergne, Munster, 1893 (Beiträge zur Geschichte der Philosophie des Mittelalters, t. il a); P. Féret, La faculté de théologie de Paris et ses docteurs les plus célèbres. Moyen âge, Paris, 1894, t. i, p. 211-221, 252-262; G. Bülow, Des Dominicus Gundissalinus Schrift von der Unsterblichkeit der Seele, nebst einem Anhange enthaltend die Abhandlung des Wilhelm von Paris (Auvergne) De immortalitate animae, Munster, 1897 (Beiträge zur Geschichte der Philosophie des Mittelalters, t. n), cf. N. Valois, na Bibliothèque de l'École des chartes, Paris, 1898, t. lix, p. 408-410; S. Schindele, Zur Geschichte der Unterscheidung von Wesenheit und Dasein in der Scholastik, Munique, 1900; Beiträge zur Metaphysik des Wilhem von Auvergne, Munique, 1900; no Kirchenlexikon, 2e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1901, t. xn, col. 1586-1590; Borrelli de Serres, Livre de dépenses d'un dignitaire de l'église de Paris en 1248, Paris, 1904 ; Ueberweg-Heinze, Grundriss der Geschichte der Philosophie der patristischen und scholastischen Zeit, 9e édit., Berlim, 1905, p. 279, 280, 283-284; M. de Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, 2e édit., Louvain, 1905, p. 285, 289-293; C. Henry, Contribution à l'histoire de la distinction de l'essence et de l'existence dans la scolastique, na Revue thomiste, Paris, 1911, t. xix, p. 446-450; Ziesché, Die Sakramentlehre des Wilhelm von Auvergne, em Weidenauer Studien, Viena, 1911, t. iv, p. 149-226; J. de Guibert, Le texte de Guillaume de Paris, sur l'essence du sacrement de mariage, nas Recherches de science religieuse, Paris, mai-juin 1914, p. 422-427.

F. Vernet.

Autor original: F. Vernet

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