GRÃ-BRETANHA E IRLANDA. Estudar-se-ão sucessivamente: I. a situação do catolicismo desde a Reforma; II. as publicações católicas sobre as ciências sagradas.
I. GRÃ-BRETANHA E IRLANDA. SITUAÇÃO RELIGIOSA. — É necessário tratar separadamente dos três países, Inglaterra, Escócia e Irlanda.
I. Inglaterra. — 1° Sob Henrique VIII e seus dois primeiros sucessores. — No momento da separação de Roma, a Inglaterra estava dividida, do ponto de vista eclesiástico, em duas províncias, a de Cantuária, cujo arcebispo tinha o título de primaz, com dezesseis dioceses sufragâneas, e a de York, com dois sufragâneos. O episcopado era lealmente apegado à Santa Sé, e, se a heresia de Wiclef havia deixado certos fermentos de revolta nos espíritos, esses fermentos não teriam bastado para separar a Inglaterra de Roma se não tivessem sido habilmente aproveitados por Henrique VIII e por aqueles que vieram depois dele. Como dissemos acima, ver t. i, col. 1281, o rei não tinha outro desígnio senão subtrair a Inglaterra à jurisdição de Roma, conservando ao mesmo tempo a doutrina católica, e perseguiu os que pensavam de modo diverso do seu, tanto os que queriam permanecer fiéis ao papa quanto os que tinham tendências calvinistas e luteranas. No fim de seu reinado, pouquíssimos de seus súditos estavam satisfeitos com o estado de coisas estabelecido. Muitos estavam em completa simpatia com os reformadores alemães, ao passo que a grande maioria desejava voltar à obediência ao papa. Nos dois reinados seguintes, esses dois partidos tiveram sucessivamente o predomínio. Com o jovem Eduardo VI, tudo o que restava do papismo foi abolido, e todos os bens eclesiásticos que Henrique VIII poupara foram confiscados, enquanto os bispos que haviam conservado um espírito mais católico, como Gardiner e Bonner, foram enviados à Torre. As violências que acompanharam essas medidas provocaram uma reação, de modo que, quando Maria subiu ao trono em 1553, tinha consigo todo o povo da Inglaterra pelo restabelecimento da religião católica. A pedido do parlamento, a absolvição foi concedida à nação pelo cardeal Pole em 30 de novembro de 1554, e o catolicismo voltou a ser a religião de Estado.
2° Sob Isabel e Jaime I. — Mas logo, em 17 de novembro de 1558, a rainha e o cardeal morriam com algumas horas de intervalo, e um dos primeiros cuidados de Isabel foi destruir tudo o que fora feito no reinado precedente. As duas primeiras leis que arrancou de seu parlamento foram o Ato de supremacia e o Ato de conformidade. O primeiro obrigava todos os seus súditos a reconhecê-la como « a única suprema governante deste reino, tanto nas causas espirituais e eclesiásticas quanto nas temporais »; o outro impunha o uso, em todas as igrejas, do segundo Pruijer book de Eduardo VI, e ordenava a todos os leigos que assistissem a esse ofício nas igrejas paroquiais aos domingos e festas. Todos os bispos recusaram aceitar essas leis, exceto um, Kitchen, bispo de Llandaff, que pôde assim conservar sua sé, enquanto os outros eram destituídos; metade do clero seguiu os bispos; quanto aos leigos, submeteram-se em sua maioria, tal como haviam aceitado as mudanças feitas na religião sob Henrique VIII, sob Eduardo VI e sob Maria. Não entra em nosso assunto contar como Isabel arranjou novos bispos, mas convém notar que foi assim que a Igreja oficial da Inglaterra se tornou um departamento do Estado. Os bispos são nomeados pela coroa, e a eleição pelos capítulos não passa de uma comédia. O rei envia aos cônegos a « licença de eleger », mas tem o cuidado de enviar ao mesmo tempo o nome daquele que se deve eleger. Do mesmo modo, as convocações ou assembleias eclesiásticas das duas províncias não podem tratar as questões de sua alçada antes de ter recebido do rei « cartas de negócios ». O rei é o árbitro soberano em todas as causas que interessam à fé e aos costumes, e suas decisões, dadas por seu conselho privado, são irreformáveis.
A partir desse momento, os católicos só puderam exercer seu culto às escondidas, sob o risco das penas mais severas. Muitos deles julgaram poder transigir com sua consciência; assistiam aos serviços cismáticos com maior ou menor regularidade, protestando que apenas obedeciam a uma lei civil, e aproveitavam todas as ocasiões de ir à missa celebrada pelos sacerdotes que permaneceram fiéis, dos quais grande número havia ficado no país. Isabel e seus conselheiros fechavam os olhos, na esperança de que, à medida que os antigos sacerdotes desaparecessem, os leigos abraçariam facilmente a nova religião. Mas era um erro. Os católicos começaram logo a compreender melhor seu dever, e a diminuição do número de sacerdotes fez pensar no meio de recrutar um clero suficiente. Foi então (1568) que William Allen, depois cardeal, fundou o seminário de Douai, o primeiro desses colégios que durante longos anos foram um viveiro de apóstolos e de mártires para as Ilhas Britânicas.
Isabel viu com desgosto os numerosos missionários que foram enviados à Inglaterra e salvaram a ortodoxia entre os católicos; a bula pela qual São Pio V desligava seus súditos do juramento de fidelidade levou ao cúmulo a sua cólera, e as severidades contra os católicos redobraram. Na desordem causada pela mudança de religião, a Igreja católica na Inglaterra era governada diretamente pela Santa Sé, mas, por causa da distância, cada missionário fazia mais ou menos o que lhe parecia bom. Daí resultavam graves inconvenientes, tanto mais que havia dissensões entre os missionários. Tudo isso fazia desejar um superior residente no país, e muitos pediam um bispo. Goldwell, último bispo católico de Saint-Asaph, que residia em Roma, obteve do papa a permissão de ir à Inglaterra, mas morreu a caminho. Cogitou-se então de nomear dois bispos, mas o cardeal Allen, a cujo parecer se alinhou o jesuíta Persons, fez prevalecer a opinião de delegar um simples sacerdote com poderes extraordinários. Em 1598, Clemente VIII, depois de recolher os votos do clero inglês, nomeou Georges Blackwell, a quem foi dado o título de arcipreste. Um capítulo de doze sacerdotes assistentes lhe foi adjunto, e o país foi dividido em doze circuitos, à frente de cada um dos quais estava um desses sacerdotes. O ensaio não foi feliz. Essa nova organização encontrou forte oposição, e houve apenas três arciprestes. Em 1623, Gregório XV concedeu aos católicos ingleses um bispo, na pessoa de Guillaume Bishop, que morreu no ano seguinte. Nesse meio tempo, Jaime I havia sucedido a Isabel em 1603, e os católicos julgaram poder esperar do filho de Maria Stuart um tratamento mais benigno, mas foram cruelmente decepcionados. As leis penais foram renovadas, os sacerdotes banidos do reino, e foi proibido aos católicos enviar seus filhos ao estrangeiro para fazerem a sua educação, e ter para eles escolas na Inglaterra.
3° Sob Carlos I e os demais Stuarts. — Carlos I não era perseguidor; teria de bom grado deixado os católicos em paz, e em 1625 foi dado um sucessor a Bishop, que se chamava Richard Smith. Mas Carlos havia contado sem o seu parlamento, que era inteiramente protestante; notou-se que os rigores exercidos contra os católicos coincidiram com as sessões do parlamento. Bom número de sacerdotes e de leigos foram mortos. O bispo Smith, já em 1628, fora obrigado a retirar-se para a França, onde morreu em 1655. De lá governava a Igreja da Inglaterra por intermédio de um capítulo de dezenove cônegos fundado por seu predecessor, capítulo que continuou a exercer certa jurisdição na Inglaterra durante trinta anos após a morte de Smith, até que quatro vigários apostólicos foram nomeados pela Santa Sé. A perseguição se enfureceu após a decapitação de Carlos I até a morte de Cromwell. Carlos II teve primeiramente o pensamento de tolerar os católicos e de lhes permitir o exercício de seu culto nas casas particulares, mas cedeu diante da intransigência do parlamento, e as leis penais foram de novo postas em vigor. Vários católicos foram mortos durante esse reinado, entre outros o venerável Olivier Plunkett, arcebispo de Armagh, que foi executado em Tyburn em 1681. Seu sangue foi o último derramado pela religião na Inglaterra. Desde Henrique VIII, trezentos e quarenta e dois mártires haviam selado sua fé com seu sangue. Sob Jaime II, que era católico, o exercício da religião não teve mais nenhum entrave, e a Santa Sé dividiu a Inglaterra em quatro distritos, à frente de cada um dos quais pôs um vigário apostólico. O rei favorecia seus correligionários com todo o seu poder, mas seu zelo desregrado, que a própria Roma julgava inoportuno, alienou-lhe o coração de seus súditos, e seu curto reinado de três anos terminou pela revolução de 1688.
4° Da revolução ao fim do século XIX. — O reinado de Guilherme III abriu-se com o Bill of Rights, segundo o qual nenhum príncipe católico ou casado com uma católica podia reinar na Inglaterra, e, a fim de obviar qualquer fraude, o soberano foi obrigado a fazer publicamente, em sua coroação e diante de todo o parlamento, uma declaração que o parlamento de Carlos II havia exigido de todos os que recebiam um cargo civil ou militar, a fim de afastar os papistas. Por essa declaração, o soberano negava a transubstanciação e declarava que « a invocação da Virgem Maria ou de qualquer outro santo, bem como o sacrifício da missa, segundo o uso atual da Igreja de Roma, são supersticiosos e idólatras. »
SACERDOTES IGREJAS DIOCESES e capelas seculares regulares públicas I. Westminster 391 192 Northampton ISO 77 Nottingham 66 88 47 98 Portsmouth 90 208 20 101 Southwark 319 271 222 II. Birmingham 107 153 Clifton 206 58 73 71 Menevia 27 Newport 13 49 00 76 48 Plymouth 55 77 Slirewsbury 71 12 79 185 60 III. Liverpool 316 141 Hexham et Newcastlc. 49 35 148 Leeds 208 157 116 Middlesbrough 75 37 68 Salford 251 80 145 Total :400 1472 1 837 Depois, por diferentes leis, os católicos foram atingidos por muitas incapacidades legais que seria longo demais enumerar; a mais exorbitante foi a que os impedia de receber terras em herança ou de comprá-las, a menos que renegassem sua fé; se se recusassem a fazê-lo, sua propriedade, durante a vida deles, passava ao seu parente protestante mais próximo. Ao mesmo tempo, todos os sacerdotes eram punidos com prisão perpétua, e, se fossem convencidos de ter dito a missa, aquele que os denunciava recebia uma recompensa de cem libras. Essas leis exorbitantes foram postas em vigor em muitos casos. Entretanto, um espírito de tolerância começava a prevalecer, sobretudo por causa dos progressos da indiferença religiosa no século XVIII. Em 1778 foi votada uma primeira lei, que aliviava um pouco o jugo dos católicos; foi completada, em 1791, por outra lei que prescrevia aos católicos um juramento de fidelidade compatível com sua consciência. Em contrapartida, eram dispensados do juramento de supremacia; várias de suas incapacidades legais foram abolidas, e toleravam-se suas escolas e seu culto. A Revolução Francesa teve um bom resultado para o catolicismo nas Ilhas Britânicas.
Os colégios fechados no continente foram reabertos na Inglaterra; as comunidades religiosas fundadas no estrangeiro voltaram ao seu país, e os sacerdotes franceses emigrados — houve mais de 8 000 — contribuíram para a expansão da religião tanto pelo exemplo de sua vida piedosa quanto por seus trabalhos apostólicos. Enfim, os católicos ingleses foram quase completamente emancipados em 1829, graças à agitação suscitada e mantida na Irlanda por O'Connell. Em 1840, Gregório XVI elevou o número dos vigários apostólicos de quatro para oito, e dez anos mais tarde Pio IX restabelecia a hierarquia. A Inglaterra foi erigida em província eclesiástica, composta da sé metropolitana de Westminster e de doze bispados sufragâneos; desdobramentos elevaram depois esse número a quinze.
ESCOLAS ESCOLAS POPULAÇÃO ALUNOS CATÓLICA secund. primárias 25 76 5 929 117 47 256 200 34 401 14 899 32 12 332 13 576 3 584 8 004 37 51 388 000 1 838 53 78 6 320 32 5 077 20 894 150 000 110 1 036 122 26 576 85 000 839 30 3 718 20 750 9 110 16 9 987 19 4 383 1 1 2 090 13 » 446 59 890 18 451 28 23 000 12 43 58 641 11 558 67 80 000 371 767 11 3 300 880 114 181 40 592 200 787 29 10 822 25 658 119 281 11 1 027 45 10 874 51 856 21 1 529 55 757 295 000 141 1 805 446 24 129 1 183 343 472 387
5° Estado atual da Igreja católica na Inglaterra. — Em 1911, Pio X dividiu a Inglaterra em três províncias eclesiásticas. A província de Westminster compõe-se do arcebispado de Westminster, com os quatro bispados sufragâneos de Northampton, Nottingham, Portsmouth e Southwark. A província de Birmingham compõe-se do arcebispado de Birmingham, com os cinco bispados sufragâneos de Clifton, Newport, Plymouth, Slirewsbury e Menevia, no País de Gales. A província de Liverpool compõe-se do arcebispado de Liverpool, com os quatro bispados sufragâneos de Hexham e Newcastle, Leeds, Middlesbrough e Salford. O quadro acima dá a estatística geral. Deve-se notar que o número extraordinário de sacerdotes regulares nas duas dioceses de Portsmouth e de Southwark se deve (em 1914) à presença de grande número de religiosos exilados da França. Todos esses números foram extraídos do Catltolic dircclory para o ano de 1914. Para as dioceses em que há números redondos, o número de católicos é apenas aproximado.
O arcebispo de Westminster tem de certo modo a dignidade de primaz sem ter o título. Segundo a constituição de 28 de outubro de 1911, é ele quem preside as assembleias dos bispos da Inglaterra e as convoca; é ele quem representa seus irmãos no episcopado nas relações com o governo civil, depois, porém, de lhes ter pedido o parecer, que é obrigado a seguir; tem, além disso, o direito de usar o pálio e de fazer levar a cruz diante de si em toda a Inglaterra. A nomeação dos bispos se faz da maneira seguinte. Quando uma sé está vaga, o capítulo se reúne e designa, por escrutínio secreto, três candidatos, cujos nomes são transmitidos por ordem alfabética à assembleia dos bispos. Estes fazem chegar a Roma os nomes designados pelos cônegos, acrescentando suas reflexões sobre os candidatos; muitas vezes até acrescentam um quarto nome. É com base nesses dados que a Santa Sé faz a escolha definitiva; mas acontece às vezes que o papa escolha fora dos nomes propostos, seja pelo capítulo, seja pelos bispos. Cada diocese possui agora um capítulo, cujas vagas são preenchidas pelo papa quando ocorrem em certos meses e, nos outros, alternadamente pelo bispo e pelo capítulo, mas neste último caso os cônegos se limitam a propor três nomes que o bispo transmite ao papa.
A nomeação do prepósito pertence sempre ao soberano pontífice. Os cônegos não têm o ofício canonial cotidiano; a maioria está à frente de uma missão, e reúnem-se uma vez por mês, recitam no coro o ofício de tércia, assistem à missa capitular e realizam sua reunião. Em lembrança dos antigos capítulos monásticos que existiam em várias catedrais da Inglaterra, o capítulo da diocese de Newport é sempre composto de beneditinos; o próprio bispo pertence a essa ordem. O bispo é assistido por um vigário-geral que está quase em toda parte encarregado de uma missão e é membro do capítulo; há também em cada diocese vigários forâneos ou decanos, que presidem as conferências eclesiásticas e gozam dos poderes que o bispo houver por bem lhes dar. Não há na Inglaterra paróquias propriamente ditas; as dioceses são divididas em missões que, afinal, diferem apenas ligeiramente das paróquias ordinárias. Muitas dessas missões são confiadas a religiosos, que são nomeados após entendimento entre os bispos e os superiores regulares. O clero inglês não recebe nenhum salário do governo pelo ministério paroquial. Cada diocese possui um fundo destinado ao sustento do bispo, à abertura de novas missões, às subvenções que possa ser necessário dar aos sacerdotes; esse fundo é mantido por doações e legados. Quando uma missão foi fundada, se uma renda não lhe foi assinalada pelo fundador, o clero que dela está encarregado não tem outros recursos senão a caridade dos fiéis para o seu sustento e o da missão. As esmolas dos fiéis são recolhidas de cinco maneiras aprovadas pelo quarto Concílio de Westminster: 1° o aluguel de bancos e cadeiras; 2° o direito de entrada, cobrado à porta, daqueles que não alugaram lugares; 3° as coletas feitas na igreja; 4° as coletas extraordinárias; 5° as coletas a domicílio. Os sacerdotes são submetidos a um controle bastante severo quanto ao emprego das somas assim recolhidas. Os possuidores legais dos bens eclesiásticos são sempre trusts ou sociedades civis compostas de um número maior ou menor de membros que oferecem todas as garantias desejáveis; evitam-se assim os consideráveis direitos de mutação que se produziriam à morte de cada bispo.
A educação na Inglaterra é regulamentada pela lei de 1902. Segundo essa lei, a educação, tanto primária quanto secundária, é confiada aos conselhos de condado para os condados, aos conselhos de cidade para as cidades. Esses conselhos estão submetidos, em matéria de educação, ao Bureau central da instrução, que exerce certo controle enviando seus inspetores às escolas e pronunciando em última instância sobre as dificuldades locais que possam surgir. Quanto ao mais, os conselhos são senhores, e exercem sua autoridade por meio de um comitê de educação nomeado por eles e tomado em parte dentre seus membros, em parte dentre as associações técnicas, inclusive as associações das escolas livres. O governo fornece três quartos das despesas. O que interessa aos católicos é que, sob essa lei, as escolas livres podem ser incorporadas. Para isso, o governo pede aos administradores dessas escolas: 1. fornecer gratuitamente o terreno e os edifícios; 2. mantê-los em bom estado, ficando porém a cargo do conselho os reparos exigidos pelo desgaste cotidiano; 3. fazer todas as melhorias pedidas pela autoridade; 4. submeter-se aos regulamentos e às exigências da lei. Em suma, os possuidores das escolas livres continuam sendo seus proprietários; guardam também a administração de suas escolas, exceto que devem aceitar dois administradores em seis, nomeados pelo comitê do conselho; podem, à sua escolha, fazer dar ali a instrução religiosa, mas somente no começo e no fim das aulas, aos filhos que seus pais não tiverem retirado.
Para tudo o mais, a escola é semelhante às escolas públicas, mesmos programas, mesmo ensino, mesmos inspetores, mesmas subvenções, isto é, o Estado paga três quartos das despesas, ao passo que o outro quarto é pago pela autoridade local. Quanto à contratação ou à dispensa dos mestres e das mestras, está submetida ao veto da autoridade local, que só pode exercê-lo por razões de ordem profissional. Pode-se fazer oposição à abertura de uma escola livre, se ela for declarada inútil pela autoridade local, ou pelos administradores das outras escolas do lugar, ou por dez contribuintes. Nesse caso, é o Conselho da instrução pública que decide se a escola é útil ou não. Quase todas as escolas católicas da Inglaterra vivem e florescem sob esse regime verdadeiramente liberal. Isto não quer dizer que o regime seja perfeito; há sempre possibilidade de abusos, e os jornais católicos relatam, de tempos em tempos, exemplos de injustiças cometidas pelas autoridades locais e não reparadas, e de injustiças cometidas pelo Bureau central. Para obviar tanto quanto possível a esses inconvenientes, os bispos da Inglaterra e da Escócia estabeleceram um conselho católico de educação composto de noventa e cinco membros, que representa oficialmente os bispos e a comunidade católica. Esse conselho é reconhecido pelo governo, como tendo poder de agir nas dificuldades que possam surgir entre os administradores das escolas e o Bureau de educação. Esse conselho ocupa-se também do recrutamento do pessoal docente, por meio de escolas normais. Há uma escola normal para os professores, confiada aos sacerdotes da Missão, e sete para as professoras, das quais uma na Escócia, dirigidas por religiosas de diferentes congregações. A desproporção se explica pelo fato de que na maior parte das escolas o ensino é dado por mulheres, e essas escolas são quase sempre mistas.
O ensino secundário católico é muito florescente na Inglaterra. Há grande número de colégios dirigidos ora por padres seculares, ora por religiosos, ora mesmo por leigos; alguns deles podem rivalizar com os mais célebres colégios ingleses. Quanto aos internatos de moças, seu número passa de duzentos. As religiosas do Santo Menino Jesus abriram em Londres uma escola normal secundária onde as professoras podem preparar-se para os exames do diploma conferido pela universidade de Cambridge; muitas religiosas de diferentes ordens vão ali passar o ano de estudos necessário, embora esse diploma não seja exigido no ensino secundário, que é inteiramente livre. Não há universidade católica na Inglaterra. Durante muito tempo, os leigos deploraram a impossibilidade em que se achavam de dar a seus filhos a educação superior que os colocaria à altura de seus concidadãos, mas os estatutos das universidades se opunham a isso, pois em Oxford todos os estudantes, e em Cambridge todos os que se apresentavam aos graus universitários, deviam prestar o juramento de supremacia real e assinar os trinta e nove artigos. Pelos meados do século XIX, essa obrigação foi suprimida; então alguns jovens católicos começaram a frequentar as universidades, e mesmo em 1861 foi comprado um terreno em Oxford, onde Newman devia estabelecer um Oratório. Mas diante da oposição suscitada por Manning e Ward, ele teve de renunciar ao seu projeto, e Roma, solicitada a proibir aos católicos a frequência das universidades, contentou-se em tratar a questão segundo as regras da teologia a propósito da ocasião próxima de pecado; frequentes dispensas eram dadas pelos bispos e pela própria Roma a jovens que ofereciam todas as garantias de resistência à atmosfera protestante e mesmo irreligiosa de Oxford e de Cambridge. Após a morte de Manning, o cardeal Vaughan, seu sucessor, viu que seria preferível dar uma permissão definitiva e, de comum acordo com os demais bispos, apresentou à Santa Sé uma petição dos leigos nesse sentido. A permissão foi concedida em 1895, contanto que fossem tomadas as precauções necessárias para salvaguardar a fé dos estudantes.
Os jovens católicos que vão às universidades não são reunidos em um colégio especial, mas têm um capelão que os reúne numa capela onde cumprem seus deveres religiosos e onde diversos pregadores lhes dão conferências. Um comitê, presidido por um bispo, ocupa-se de recolher os fundos necessários, de nomear o capelão e de convidar os conferencistas. Fundaram-se em Cambridge e em Oxford casas para os eclesiásticos que desejam obter os graus; certas ordens religiosas possuem também casas a fim de assegurar essa facilidade a seus jovens súditos: os beneditinos em Oxford e em Cambridge, os jesuítas e os capuchinhos em Oxford. As irmãs do Santo Menino Jesus abriram também em Oxford uma casa onde as religiosas das diferentes ordens podem preparar-se para os graus. Para a formação do clero há diversos seminários, dos quais os principais são Ushaw, Oscott, St. Edmund's e Wonersh; no estrangeiro, o colégio inglês em Roma e colégios em Lisboa e em Valladolid. Um seminário para as missões estrangeiras foi também fundado pelo cardeal Vaughan. Os católicos têm na Inglaterra certo número de hospitais; têm também orfanatos, escolas para surdos-mudos e cegos, e casas de correção. Além disso, os que se acham em instituições públicas análogas têm toda a liberdade de praticar sua religião. Os administradores dos workhouses ou depósitos de mendicância e dos asilos de alienados podem nomear e pagar capelães católicos, e na prática isso se faz em toda parte. Os capelães das prisões são nomeados pelo ministério do Interior e recebem remuneração conveniente. Há também uns quinze capelães militares e uns vinte capelães da marinha com vencimentos fixos, ao passo que cerca de cento e trinta sacerdotes são remunerados segundo os serviços que prestam.
Em suma, os católicos gozam de grande liberdade na Inglaterra; estão, contudo, ainda atingidos por algumas incapacidades legais. O Bill of rights, segundo o qual o soberano não pode ser católico nem casar com uma católica, continua em vigor, mas a declaração blasfema que essa lei lhe impunha foi abolida em 1911 graças à firmeza de Jorge V; agora o soberano se contenta em declarar que professa « a religião protestante estabelecida pela lei ». Crê-se geralmente que, segundo o ato de emancipação de 1829, nenhum católico pode ser lorde chanceler da Inglaterra nem lorde tenente da Irlanda, mas parece que a lei pode ser entendida de outra maneira. Enfim, as ordens religiosas não têm existência legal na Inglaterra, mas a tolerância de que gozam equivale a uma liberdade completa, salvo que não podem possuir enquanto ordens religiosas. Seus bens, como os bens eclesiásticos de que se falou acima, são geridos por trusts, ou sociedades civis. Os sacerdotes católicos não podem fazer parte da Câmara dos Comuns; mas isso é apenas uma incapacidade aparente, pois os clergymen anglicanos estão no mesmo caso, ao passo que os ministros dissidentes podem ser eleitos deputados.
A imprensa católica não é representada por nenhum jornal diário; os principais jornais semanais são o Tablet, o Catholic Times e o Universe. As duas principais revistas católicas são a Dublin Review e o Month. Além das grandes associações internacionais, como a Propagação da Fé, a Santa Infância, a Sociedade de São Vicente de Paulo, que florescem na Inglaterra, os católicos ingleses estabeleceram certo número de obras de doutrina e de beneficência, das quais as principais são as seguintes. A Catholic Association, cujo fim é estabelecer relações sociais entre católicos e promover os interesses católicos por todos os meios possíveis. A Catholic Truth Society, que tem por fim a publicação de livros e folhetos baratos, capazes de firmar os católicos na fé e de dissipar os preconceitos e erros dos protestantes. A Sociedade de Santo Anselmo, que faz examinar por seus comitês os livros não católicos, a fim de assinalar os que podem ser lidos sem perigo para a fé ou para os costumes.
A Catholic Young Men's Society, que conta cerca de 22 000 membros e possui 197 filiais, é algo como a Associação da Juventude Católica na França. Quase todas as missões têm clubes para os homens, os jovens e as crianças; além disso, cumpre citar a Catholic Boy's Brigade, na qual os rapazes de quatorze a dezessete anos são organizados em batalhões e recebem uma formação semimilitar, e os Catholic Boy-Scouts. A Catholic Union of Great Britain aplica-se a promover os interesses católicos de todas as maneiras possíveis.
II. Escócia. — 1° Desde a Reforma até o restabelecimento da hierarquia. — A Escócia permaneceu católica até 1560, e nessa época o país compreendia duas províncias eclesiásticas, a de St. Andrews, composta da sé arquiepiscopal e de seis bispados sufragâneos, e a de Glasgow, que possuía quatro bispados além da sé arquiepiscopal. A sorte dos católicos da Escócia seguiu a dos católicos ingleses, salvo que a perseguição foi mais intensa; de modo que não temos de entrar em pormenores. O último bispo escocês foi o cardeal Beaton, arcebispo de Glasgow, que morreu em Paris em 1603; já os católicos da Escócia haviam sido postos sob a jurisdição do arcipreste da Inglaterra (1598). O primeiro vigário apostólico inglês estendeu sua jurisdição sobre a Escócia, mas esse país foi logo posto sob a jurisdição de prefeitos apostólicos, de 1629 a 1694. Em 1694, Inocêncio XII nomeou um vigário apostólico, e em 1727 Bento XIII dividiu o país em dois vicariatos, que foram elevados a três por Leão XII em 1827. Nessa época, o número dos católicos era de cerca de 70 000, e esse número cresceu rapidamente em consequência do Ato de emancipação de 1829, que se aplicou à Escócia tanto quanto à Inglaterra.
2° Desde o restabelecimento da hierarquia até os nossos dias (1914). — Em 1878, Leão XIII restabeleceu a hierarquia eclesiástica na Escócia. Há agora nesse país duas arquidioceses, a de St. Andrews e Edimburgo, com quatro bispados sufragâneos, e a de Glasgow, que não tem sufragâneos. Eis as estatísticas que pudemos obter (1913-1914): PRÊ1 RES ÉGLISES DIOCÈSES séculiers CHAPELLES réguliers ET St. Andrews et Én'ii- BOURG 80 13 93 47 28 63 Argjll 45 56 Dunkeld 38 29 17 37 31 46 2 246 133 427 471 Total 1 ' 106
O número aproximado dos católicos na Escócia é de 518 969. Como se vê, perto de quatro quintos dessa população pertencem à diocese de Glasgow, e cumpre acrescentar que 90 ou 95 por cento desses católicos são irlandeses ou de origem irlandesa. A organização da Igreja na Escócia é a mesma que na Inglaterra; não temos, por conseguinte, de repetir o que dissemos no parágrafo precedente. Há na Escócia dois seminários para a formação do clero, um em Blairs, perto de Aberdeen, outro em Kilpatrick, perto de Glasgow. Além disso, há um colégio escocês em Roma e outro em Valladolid; certo número de seminaristas escoceses recebem sua formação na França, em diversos seminários, às expensas das « fundações escocesas ».
III. Irlanda. — 1° Desde a Reforma até a emancipação dos católicos. — A hierarquia nunca se extinguiu na Irlanda. Em 1541, Henrique VIII conseguiu reunir em Dublin um parlamento composto de anglo-irlandeses e de irlandeses, que lhe deu o título de rei e impôs à Irlanda o Ato de supremacia, que reconhecia o rei como chefe da Igreja. Mas nem o clero nem o povo se submeteram, e Henrique só pôde suprimir os mosteiros, como o fizera na Inglaterra. Vários membros dessas comunidades pagaram sua fidelidade com a vida, os outros foram expulsos e ficaram sem recursos. Eduardo VI não teve melhor êxito em tornar protestante a Irlanda, e no fim do reinado de Maria o país inteiro ainda era católico. Isabel, a princípio, não aplicou nem o Ato de supremacia nem o Ato de conformidade, mas, depois de sua excomunhão por São Pio V, ficou furiosa, e a perseguição começou na Irlanda. O arcebispo de Cashel e o bispo de Mayo foram torturados, e o país foi devastado em grande parte. Mas nessa época os irlandeses tinham chefes que os incitavam à revolta, e eram capazes de tratar de igual para igual com o poder real.
Sob Jaime I, a perseguição tornou-se mais violenta. O clero recebeu ordem de sair do país; perseguiram-se os sacerdotes que ficavam, e houve mártires. O Ato de supremacia foi posto de novo em vigor, e no Ulster os proprietários foram expulsos e seus bens entregues a protestantes ingleses e a presbiterianos escoceses. Esse sistema continuou sob Carlos I e sob o governo que lhe sucedeu; Cromwell apoderou-se da Irlanda e estabeleceu ali o sistema dos Landlords, de que o país ainda sofre. Os católicos respiraram um pouco sob Carlos II, embora as injustiças de que haviam sido vítimas estivessem longe de ser reparadas; o curto reinado de Jaime II nada pôde mudar em sua situação. Guilherme III fez belas promessas aos católicos, mas o parlamento irlandês recusou ratificá-las e fez, ao contrário, novas leis penais. Os católicos foram excluídos do parlamento, da advocacia, do exército e da marinha, de todos os cargos civis e dos conselhos municipais. Não podiam ter escolas na Irlanda, nem frequentar as do estrangeiro, nem herdar terra alguma, nem tomar uma propriedade em arrendamento; era-lhes proibido ter armas e possuir um cavalo de valor superior a 125 francos. Não podiam casar com protestantes; se o filho de um católico se tornava protestante, herdava toda a propriedade. Todos os religiosos deviam deixar o reino, bem como os bispos e os vigários gerais; quanto ao clero inferior, podia ficar, com a condição de ser registrado, e era proibido ter campanários ou sinos nas igrejas. Tais são os principais pontos desse código penal que pesou sobre a Irlanda durante longos anos sem poder fazer dela um país protestante.
Entretanto, o parlamento irlandês, que até então sempre cedera diante do parlamento inglês, a ponto de deixar-se tirar o direito de legislar para a Irlanda, começou a mostrar certo espírito de independência. Formou-se um partido nacionalista protestante, ao qual os católicos prestaram seu concurso, e o resultado foi que as leis penais foram aplicadas com menos rigor. Em 1774, um juramento de fidelidade substituiu o juramento de supremacia; em 1778, os católicos foram autorizados a tomar terras em arrendamento; em 1782, receberam a permissão de ter escolas, com a autorização do bispo protestante, e de assistir à missa sem ser obrigados a denunciar o sacerdote; os bispos católicos foram autorizados a permanecer no reino, e cessou-se de recompensar os filhos de católicos quando se tornavam protestantes. Em 1792, puderam ter escolas sem a autorização do bispo protestante, foram admitidos à advocacia, e os casamentos entre católicos e protestantes foram legalizados. Em 1793, receberam o direito de votar nas eleições parlamentares e municipais, foram admitidos às universidades e a todos os cargos civis, salvo a alguns cargos superiores; estavam ainda excluídos do parlamento e não podiam obter alguns dos mais altos postos militares.
Em 1795, uma lei foi votada pelo parlamento irlandês, fundando o seminário de Maynooth, a fim de dar educação ao jovem clero que a Revolução francesa havia expulsado dos seminários do continente. Uma soma de 800 000 francos foi votada como despesas de construção, e durante perto de cinquenta anos a Câmara dos Comuns, na Inglaterra, votou uma soma de 200 000 fr. para a manutenção desse colégio. O parlamento irlandês foi suprimido em 1800, mas Grattan, embora protestante, continuou a ser o campeão dos católicos no parlamento inglês, onde entrou em 1805. Seu objetivo era obter a emancipação completa dos católicos, e esse objetivo foi enfim alcançado, tanto para a Inglaterra como para a Irlanda, em 1829, graças aos esforços de O'Connell.
2° Estado atual da Igreja católica na Irlanda.
A Irlanda está dividida em quatro províncias eclesiásticas: Armagh, com oito sufragâneos; Dublin, com três sufragâneos; Cashel, com oito sufragâneos; Tuam, com cinco sufragâneos, o que dá um total de vinte e oito dioceses. O quadro seguinte dá a estatística: DIOCESES PAROQUIAS IGREJAS 156 Armagh 55 Meath 66 144 Ardagh 41 75 Clogher 87 Derry 40 Down et Connor 39 60 116 Dromore 18 80 42 Kilmore 42 90 Raphoe 26 52 Dublin 76 Kildare et Leighlin . . 49 193 Ferns 41 164 92 Ossory 41 96 Cashel et Emly 46 84 Cloyne 47 103 Cork 35 70 Kerry 51 99 Killaloe 57 143 Limerick 48 94 Ross 11 22 Waterford et Lismore 39 76 Tuam 56 Achonry 123 41 Clonfert 22 Elphin 24 33 86 Galway 30 46 53 Killala 39 Total 1 115 22 2 466
As dioceses estão divididas em paróquias; quanto ao resto, a organização é quase semelhante à da Igreja católica na Inglaterra. Para a eleição dos bispos, os párocos tomam parte na votação para a escolha de três nomes que são submetidos à assembleia dos bispos da província. Doze dioceses não têm capítulo. Os proprietários dos bens eclesiásticos são ordinariamente o bispo para a diocese, o pároco para a paróquia, o superior para as ordens religiosas; as igrejas não pagam impostos, nem tampouco as escolas. O governo empresta dinheiro a uma taxa pouco elevada aos sacerdotes católicos, como aos ministros das outras religiões, para construírem residências, mas essas residências não são isentas de impostos, e não são propriedade pessoal daquele que as constrói; passam a seus sucessores.
Em 1869, deu-se a separação da Igreja protestante e do Estado; os católicos ficaram assim livres do fardo que a necessidade de pagar o dízimo fazia pesar sobre eles, mas ao mesmo tempo a dotação a Maynooth foi suprimida, bem como a que o governo concedia aos presbiterianos. Como compensação, foi votada uma soma de quase 25 milhões de francos, para ser repartida entre os católicos e os presbiterianos; estes receberam duas vezes mais do que os outros. Os estabelecimentos públicos têm capelães católicos como na Inglaterra, remunerados pelo governo nas prisões e pelas autoridades locais nos demais estabelecimentos. As casas de correção e as escolas industriais estão quase todas em mãos católicas, mas devem ser aprovadas pelo governo e estão sujeitas à sua inspeção; são mantidas em parte por uma dotação do governo e em parte por impostos locais.
A educação na Irlanda está sujeita a uma legislação especial. CLERO POPULAÇÃO católica não católica secular regular 12 84 921 155 149 39 150 033 132 892 10 272 101 4 100 819 8 512 109 6 101 162 57 178 114 » 125 387 97 118 51 156 693 514 573 147 4 43 014 71 187 104 » 24 447 21 » 109 97 319 515 27 364 80 299 428 533 115 274 315 133 18 130 377 18 791 113 99 208 9 603 108 11 83 519 6 029 20 117 111 185 4 659 136 » 9 386 132 518 130 74 17 171 575 25 183 121 11 199 948 6 123 142 18 127 012 6 866 54 111 170 6 853 115 » 31 801 3 026 115 46 114 494 6 823 28 » 7 193 768 4 194 143 80 553 2 242 48 41 162 7 1 782 661 100 51 4 125 743 58 24 26 » 70 576 1 931 39 61 876 3 576 3 022 715 3 331 852 1 135 574
A lei de 1831 estabelecia um Conselho nacional que teria o encargo da instrução pública. A princípio, os católicos só tiveram dois membros em sete, e o resultado foi que o ensino ficou nas mãos de protestantes. Mas, graças às suas reivindicações, estatuiu-se em 1861 que o número dos membros do conselho seria elevado a vinte, dos quais a metade deviam ser católicos; um dos dois secretários também é católico, assim como a metade dos inspetores. As escolas são de duas espécies. Umas pertencem a sociedades compostas ordinariamente do pároco e de dois outros membros; nesse caso, o governo paga dois terços das despesas de construção, e as reparações ficam a cargo dos proprietários. As outras são propriedade do conselho, e então o governo paga as despesas de construção e toma a seu cargo as reparações. Os mestres e as mestras recebem seu salário do governo. Quatro escolas normais os fornecem: uma pertence ao conselho, duas são católicas, e a quarta depende do arcebispo protestante de Dublin. Muitas dessas escolas nacionais são dirigidas por religiosos ou religiosas. Havia em 1901 8 569, com 446 827 alunos católicos e 155 382 protestantes. Além disso, contavam-se 97 escolas primárias pertencentes a comunidades católicas, com 14 891 alunos, e 471 outras escolas primárias, que continham 10 245 alunos católicos contra 9 412 protestantes.
Quanto ao ensino secundário, cada ano os juros de 25 milhões de francos são consagrados a dar prêmios e bolsas, bem como dotações aos colégios, sem distinção de crenças, segundo os resultados dos exames. Contavam-se 510 desses estabelecimentos em 1901, com 38 564 alunos, dos quais 25 647 católicos. Os católicos da Irlanda reclamaram durante muito tempo uma universidade que lhes permitisse ter parte no ensino superior sem sacrificar suas crenças. O Trinity College, em Dublin, lhes estava, é verdade, aberto, mas não podiam esquecer que essa universidade havia sido precisamente fundada para ser o baluarte do protestantismo na Irlanda. Não é aqui o lugar de contar a tentativa malograda feita em 1854 com o auxílio de Newman.
Em 1908, foi estabelecida uma universidade, sob o nome de Universidade Nacional da Irlanda, que não corresponde completamente aos desejos dos católicos, mas que eles aceitaram, contudo, porque as influências católicas nela terão a predominância. O arcebispo católico de Dublin é seu chanceler, e ela se compõe de três colégios, um em Dublin, o segundo em Cork e o terceiro em Galway. Além de certo número de seminários diocesanos, os jovens clérigos recebem sua formação sobretudo no colégio de São Patrício, em Maynooth, magnífico estabelecimento, o maior seminário do mundo, que contém cerca de 600 estudantes. Há também o colégio irlandês de Paris, o de Roma e outro em Salamanca. O colégio de All Hallows, perto de Dublin, forma sacerdotes que vão exercer o ministério nos países para onde os irlandeses emigram. Pôde-se ver no quadro acima que o número dos religiosos sacerdotes é considerável; quase todas as ordens ali estão representadas. Seria preciso citar também várias congregações de irmãos que dão instrução nas escolas. Quanto às religiosas, são inumeráveis. Os religiosos não servem paróquias na Irlanda.
A imprensa católica está bem representada na Irlanda. Cumpre citar sobretudo o Freeman's Journal e o Daily Independent, jornais diários de Dublin; o Irish Catholic e o Leader, semanários, e entre as revistas, o Irish Monthly, redigido pelos jesuítas, o Irish Rosary, pelos dominicanos, e enfim o Irish Ecclesiastical Record e o Irish Theological Quarterly, que aparecem ambos em Maynooth.
Não existe estudo histórico propriamente dito sobre a organização da Igreja nas Ilhas Britânicas desde a Reforma. Poder-se-ão tomar por guias os três artigos England, Scotland, Ireland, na Catholic encyclopedia, 15 vol., Londres e Nova York, 1907-1912. Cada um desses artigos dá uma bibliografia muito abundante. Encontrar-se-ão muitos pormenores esparsos nas obras seguintes: a coleção Calendars of State papers, citada no fim do artigo Anglicanismo; Lingard, History of England, jusqu'en 1GS9; Dodd, Church history of England from lôOO to 10SS, edit. Tierney, Londres, 1839; Flanagan, A history of the Church in England, jusqu'en 18f>0, Londres, 1857; Butler, Historical account of the laws respecting the Roman catholics, Londres, 1795; Lilly e Wallis, A manual of the law specially affecting catholics, Londres, 1893; e também uma série de biografias e monografias surgidas em nossos dias, que honram a geração atual dos católicos ingleses: E. Burton, The life and times of bishop Challoner, Londres, 1909; B. Ward, The eve of catholic emancipation, Londres, 1911-1912; The dawn of the catholic revival in England, Londres, 1909; W. Ward, The life and times of cardinal Wiseman, Londres, 1897; The life of John Henry cardinal Newman, Londres, 1912; Purcell, Life of cardinal Manning, Londres, 1896; Snead-Cox, The life of cardinal Vaughan, Londres, 1910; Purcell e de Lisle, Life and letters of Ambrose Phillips de Lisle, Londres, 1900. Essas obras tratam também das questões que interessam à Escócia e à Irlanda, pois a legislação, na medida em que atingia os católicos, era a mesma para os três países. Para o estado atual, ver The catholic directory, publicado cada ano para a Inglaterra em Londres, para a Escócia em Edimburgo e para a Irlanda em Dublin.
II. GRÃ-BRETANHA E IRLANDA. Publicações católicas sobre as ciências sagradas. — I. Período celta. II. Período anglo-saxão. III. Da conquista normanda ao cisma de Henrique VIII. IV. Do cisma de Henrique VIII ao fim do século XVIII. V. Do começo do século XIX aos nossos dias.
I. Período celta. — 1° É curioso constatar que os mais antigos monumentos que nos restam da atividade literária dos celtas em matéria de teologia vêm de um heresiarca, Pelágio, nascido provavelmente na Bretanha, de pais irlandeses. Foi em Roma que ele professou seus erros sobre a graça, mas sua heresia foi introduzida na Bretanha por um certo Agrícola e ali se espalhou muito depressa. Seu comentário sobre as Epístolas de São Paulo gozou ali por muito tempo, bem como na Irlanda, de uma aceitação excepcional, e dele temos ainda uma tradução irlandesa; contudo, o pelagianismo nunca infectou a Igreja da Irlanda. As Vidas dos santos irlandeses, galeses e bretões são o produto mais luxuriante da atividade literária celta. Infelizmente, devem-se chamar também produtos da imaginação. Os celtas sempre tiveram um gosto muito vivo pelo maravilhoso, e os autores dessas Vidas, escrevendo muito tempo depois da morte dos personagens e tendo sobretudo um fim de edificação, não resistiam ao desejo de acumular sobre seu herói tudo o que pudesse impressionar os espíritos e provocar os corações à veneração e ao zelo. Todavia, nem tudo deve ser rejeitado nesses piedosos romances; pacientes trabalhadores se empenharam em separar o verdadeiro do falso e conseguiram extrair dos relatos lendários fatos históricos. Encontram-se ali também informações muito apreciáveis sobre muitos aspectos do monaquismo nos países celtas, na Irlanda e na Escócia tanto quanto na Inglaterra. Facilmente se acreditaria que um país tão rico em mosteiros produziu numerosas regras, tanto mais que nessa época cada mosteiro devia ter sua regra própria. Contudo, restou-nos muito pouco dessa literatura, que provavelmente foi abundante.
Encontramos, sem dúvida, certo número de composições que levam o nome de regras, mas essas composições, escritas em versos irlandeses, não poderiam comparar-se às « grandes regras orientais ou latinas. São muito mais curtas que estas e, embora forneçam incidentalmente pormenores interessantes sobre a organização monástica, a composição do ofício divino na liturgia celta, a vida do claustro ou as ocupações dos monges, consistem o mais das vezes apenas em sucessões de sentenças e exortações ascéticas, sem ligação entre si, e de um caráter bastante diferente das que se encontram nas regras continentais. A versificação foi sem dúvida adotada para facilitar a fixação dos preceitos na memória do discípulo; mas, em contrapartida, deve ter, por suas exigências tirânicas (pois as regras da poesia irlandesa são muito complicadas), contrariado o mestre na expressão de seu pensamento; depois, arrastou-o muitas vezes a desenvolvimentos poéticos, vagos e supérfluos, sem sequer preservar sua obra das chances de interpolação. » Só citaremos as dessas composições que correspondem melhor ao que entendemos por regras monásticas. A Regra em versos de santo Ailbe de Emly († por volta de 540), muito provavelmente escrita por um dos sucessores do santo, baseando-se nos ensinamentos de seu mestre. Uma curta regra em prosa irlandesa, escrita por São Columba († 597?) de Iona para eremitas. A regra de São Mochuta, ou Carthach de Rathin († 636). Enfim, uma regra escrita por Maelruain de Tallaght († 792?) para os Culdeus, espécies de cônegos regulares.
Não podemos passar em silêncio uma regra célebre escrita em latim por São Columbano († 615). Embora composta em Luxeuil para monges gauleses, é um monumento do gênio celta e traz a marca das tradições ascéticas e disciplinares irlandesas. Influenciou consideravelmente a Régula cujusdam patris ad monachos, cujo autor se ignora, e sua influência se reencontra em duas outras regras onde ela se mistura discretamente com o elemento beneditino: a Régula cujusdam patris ad virgines, que dom Gougaud liga, com muita verossimilhança, ao mosteiro de Faremoutiers, que recebeu sua regra de santo Eustásio, sucessor de São Columbano em Luxeuil, no começo do século VII. A outra é a Régula Magistri, composta por um autor desconhecido no fim do século VII ou no começo do VIII. Os mosteiros bretões não nos transmitiram nenhuma regra escrita.
Todos esses mosteiros, tanto bretões como irlandeses, eram focos de vida religiosa, onde se rezava, onde se levava uma vida ascética rigorosa, mas também onde se entregava com ardor e mesmo paixão aos trabalhos intelectuais. Cultivava-se ali, além da língua nacional, o grego e o latim, de modo a poder ler não somente a Bíblia e os Padres, mas também os autores profanos, cujas citações e reminiscências ornam as obras dos escritores celtas. Deixaram-nos numerosas obras de gramática, de dialética, de métrica, de geografia e de astronomia. Mas toda essa cultura profana não tinha por fim, em princípio, senão tornar os espíritos aptos à lectio divina, isto é, ao estudo do pensamento divino contido em sua expressão bíblica e na tradição. É essa literatura puramente eclesiástica que deve ocupar-nos aqui.
2° Escritura Sagrada. — Até o século VI, cita-se a Bíblia, em país celta, segundo versões anteriores à Vulgata, sobretudo as do tipo dito « europeu ». No século VI, vemos a Vulgata firmar pé nas Ilhas Britânicas. Gildas a cita, e ela ganha terreno à medida que os usos romanos se implantam nessas regiões. Contudo, os manuscritos do Novo Testamento não contêm um texto puro; a Vulgata ali está misturada ora com textos pertencentes à antiga versão, ora com traduções que oferecem particularidades propriamente irlandesas, de sorte que, nesses manuscritos, do século VII ao século X, e mesmo mais recentes, temos um texto especial, de que se encontram testemunhos mesmo no continente. Quanto ao Antigo Testamento e mesmo às Epístolas de São Paulo, os manuscritos desapareceram quase completamente. Possuímos também um número considerável de glosas bíblicas em irlandês antigo, mas nenhuma nos chegou nos outros idiomas celtas. Existem também comentários, ora em latim, ora em irlandês, de diversos livros da Bíblia, sobretudo dos Salmos, que eram de uso corrente para a oração litúrgica e a oração privada. O único livro do Antigo Testamento, fora o Saltério, de que subsiste um comentário de origem irlandesa, é o livro de Isaías, comentado por José, o Escoto, talvez também o livro de Jó. Há diversos trabalhos sobre os Evangelhos e as Epístolas de São Paulo; e fragmentos de um comentário sobre o Evangelho de São João por Escoto Erígena. A maior parte desses trabalhos é inédita. A leitura dos manuscritos irlandeses mostra também que os autores dessa raça se inspiraram abundantemente nos apócrifos.
3° A teologia. — O principal representante da teologia celta é João Escoto Erígena, ver t. V, col. 401 sq.; pode-se citar também um certo Dungal, defensor da ortodoxia contra Cláudio, bispo de Turim, que repelia o culto das imagens da cruz e do Salvador, assim como a prática das peregrinações e a invocação dos santos. Duas obras anônimas, o De tribus habitaculis, atribuído a Santo Agostinho, e o De duodecim abusionibus saeculi, atribuído sucessivamente a vários autores, foram muito provavelmente compostas na Irlanda. Do fato de que o comentário de Pelágio era muito lido na Irlanda no século VIII e no século IX, concluiu-se que sua heresia ali estava em favor, mas tudo leva a crer que essa é uma opinião exagerada. Não se deve omitir a menção da literatura escatológica, muito abundante, onde o espírito celta deu curso à sua paixão pelo maravilhoso.
4° O direito canônico. — Encontramos nos países celtas dois tipos de coleções canônicas, os cânones disciplinares e os penitenciais. Uns e outros têm importância considerável; com efeito, não ficaram nas Ilhas Britânicas, mas penetraram no continente na segunda metade do século VIII e contribuíram poderosamente para a formação do direito eclesiástico entre os francos, depois de terem sido recebidos com favor pelos próprios anglo-saxões. Entre os cânones disciplinares, encontramos primeiro duas séries, das quais uma remonta verossimilmente ao tempo de São Patrício, enquanto a outra foi provavelmente elaborada no seio de um ou de vários sínodos irlandeses do século VII. Além desses cânones procedentes diretamente da autoridade eclesiástica, encontramos na Irlanda várias coletâneas de origem não oficial, mas de grande importância por causa da voga que tiveram.
Em primeiro lugar a Hibernensis, compilação de sentenças e de textos repartidos sem ordem aparente em sessenta e sete livros, subdivididos eles mesmos em certo número de capítulos, sobre tudo o que toca à disciplina cristã, à vida religiosa, ao governo das almas. Atribui-se essa obra a dois canonistas irlandeses, Ruben, ou Rubin Mac Conad, que morreu em 725, e Cucumne ou Cuchuimne, o Sábio, morto em 745, de sorte que a compilação teria sido feita no primeiro quartel do século VIII. Esses dois autores têm tendências nitidamente « romanistas »; têm a peito trabalhar pelo enraizamento, em seu país, dos costumes romanos recentemente introduzidos. Uma característica especial dessa coleção é a influência que a Bíblia exerceu sobre seu conteúdo. Boa parte das sentenças e das leis que ela contém é tirada da Sagrada Escritura, e os autores tentaram mesmo aclimatar no Ocidente várias instituições de caráter nitidamente mosaico, tais como o ano jubilar, a distinção entre os alimentos puros e impuros, etc.
O Liber ex lege Moysi é uma breve série de textos extraídos do Pentateuco, feita na Irlanda no século VIII; cumpre acrescentar-lhe os Canones Adamnani, que compreendem proibições alimentares, e uma pequena coleção sobre os dízimos, De decimis et primogenitis et primitiis in lege, tudo de inspiração hebraica. Os penitenciais nos dão a conhecer um regime singular, que nasceu entre os celtas, de onde se espalhou entre os anglo-saxões e no continente. É o da penitência tarifada, segundo o qual uma penitência proporcional à gravidade da falta é imposta ao pecador pelo ministro do sacramento conforme tarifas de obras satisfatórias contidas em opúsculos chamados penitenciais.
Para os crimes mais graves: incesto, parricídio, perjúrio etc., essas tarifas prescrevem ora o exílio, ora a reclusão em um mosteiro durante um tempo mais ou menos longo; para as faltas de gravidade menor, a satisfação consiste em jejuns mais ou menos prolongados, orações, flagelações, esmolas. Encontra-se aí também o sistema das equivalências e comutações de obras satisfatórias, que levavam o nome de arrea, do irlandês antigo arra, equivalente, substituição. Um curioso tratado sobre os arrea, redigido em irlandês antigo por volta do século VIII, apresenta esses arrea como aplicáveis às almas dos defuntos. Os mais antigos penitenciais parecem originários da Bretanha celta, como indicam seus títulos e também várias particularidades de seu conteúdo. São os Excerpta quaedam de libro Davidis, os cânones do Synodus Aquilonalis Britanniae, a Altera synodus Luci Victoriae, a Praefatio de poenitentia do pseudo-Gildas, todos provavelmente do século VI, e os Canones wallici, sem dúvida da primeira metade do século VII. O mais antigo penitencial irlandês é uma coletânea do século VI posta sob o nome de um certo Vinniaus. Os penitenciais posteriores, o de Columbano e o de Cummian, este último do século VII ou VIII, procedem em grande parte dele.
5° Pode-se ligar à história o livro De excidio Britanniae, composto por Gildas, o Sábio, personagem enigmático que foi, diz-se, monge de Bangor e fundador do mosteiro de Rhuys, na Bretanha. É uma invectiva contínua contra o povo bretão, seus reis e seu clero, um requisitório brutal, evidentemente exagerado. Poderíamos elaborar uma longa lista de autores a consultar, mas cremos preferível remeter ao livro de dom Louis Gougaud, Les chrétientés celtiques, Paris, 1911, obra indispensável a quem quer que deseje estudar essas questões. Encontrar-se-á ali uma biografia classificada muito completa.
II. Período anglo-saxão. — Não temos de narrar aqui como a Igreja celta foi repelida para o país de Gales pelas invasões anglo-saxãs; os grandes mosteiros, que eram ao mesmo tempo escolas de saber, permaneceram nesse país e, mais tarde, quando os invasores se tornaram cristãos, vemo-los pedir àqueles que haviam repelido a ciência de que se haviam tornado ávidos. Os estudantes saxões acorriam às escolas celtas, quer no país de Gales, quer na Irlanda, onde eram tão numerosos que Aldhelm, bispo de Sherborne, se queixava disso, pois, dizia ele, encontrariam tão bons mestres na Inglaterra. Com efeito, os monges romanos que haviam convertido os anglo-saxões foram para eles educadores. Sob o impulso de Santo Agostinho e de seus sucessores, assim como dos bispos das outras sés e de abades como Bento Biscop, foram fundadas escolas em diferentes lugares, que rivalizaram com as escolas celtas. Um nome eclipsa todos os outros durante esse período: é o de Beda.
Esse humilde monge, que poderia ter sido original, não quis sê-lo; contentou-se em ser apenas um compilador inteligente, pensando que era mais útil salvar o pensamento dos outros numa época em que todas as tradições clássicas e literárias estavam ameaçadas de perecer. Foi como uma espécie de reservatório de todos os conhecimentos anteriores, e foi graças a ele que o facho da ciência se reacendeu na escola de York, que ele fundou, e iluminou o continente, aonde foi levado por Alcuíno. Se não pode pretender o primeiro lugar como exegeta e teólogo, por sua história da Inglaterra e suas biografias colocou-se à frente dos historiadores e analistas da Idade Média. Essas poucas observações bastarão aqui; a vida e as obras do grande monge foram descritas, t. II, col. 523. Antes dele só temos a citar Aldhelm, bispo de Sherborne, ver t. I, col. 393, cujo estilo de mau gosto recobre uma inspiração elevada e verdadeiramente cristã, e seu discípulo São Bonifácio, ver t. II, col. 1005, que por sua carreira de missionário pertence à Alemanha, mas é anglo-saxão por nascimento e educação. Não se deve esquecer o monge boiadeiro Cædmon, de Whitby (século VII), que, em suas traduções e amplificações em versos da Bíblia, nos deixou um dos mais antigos e mais interessantes monumentos da língua anglo-saxã.
Depois de Beda, encontramos primeiro seu discípulo Egberto, arcebispo de York de 735 a 766, que fundou em sua cidade episcopal uma escola célebre e nos deixou um Pontifical, precioso monumento da liturgia no século IX, um Diálogo sobre a instituição católica e um Penitencial muito interessante para a história do direito canônico. Da escola de York saiu Alcuíno, que a dirigiu antes de passar ao serviço de Carlos Magno. Ver t. I, col. 687. Os monges que acabamos de nomear, assim como os bispos saxões, eram intrépidos colecionadores de manuscritos, e as bibliotecas monásticas da Inglaterra tornaram-se muito ricas. Os próprios monges trabalharam para enriquecê-las pela cópia e iluminura dos manuscritos. Vários preciosos manuscritos da Bíblia nos vêm dos mosteiros celtas e anglo-saxões dessa época; mencionaremos apenas o codex Amiatinus, o mais antigo dos que contêm a Vulgata completa, escrito em Wearmouth no século VIII sob a direção do abade Ceolfrido, aluno de Bento Biscop e mestre de Beda.
Não poderíamos passar em silêncio o rei Alfredo, o Grande (871-900), que, depois de libertar seu povo dos dinamarqueses, trabalhou para erguê-lo da barbárie em que o mergulhara a destruição dos mosteiros pelos invasores. Soube cercar-se de homens instruídos que fez vir de países estrangeiros e, com a ajuda deles, traduziu do latim para o anglo-saxão as obras que lhe pareceram mais próprias para formar a educação de seu povo. São elas: a Regula pastoralis de São Gregório, a História de Paulo Orósio, a História eclesiástica do venerável Beda, a Consolação da Filosofia de Boécio; além disso, parece quase demonstrado hoje que a primeira ideia e mesmo a execução da Crônica saxônica remonta a ele. Era o primeiro ensaio de uma história nacional na língua nacional. Houve, aliás, outros cronistas, como Asser († 909), a quem se atribui, além da Vida de Alfredo, uma crônica da Inglaterra desde Júlio César, e Æthelweard († 974), que escreveu também uma crônica muito fiel.
As invasões dinamarquesas haviam também relaxado os laços da disciplina. Entre os reformadores, devemos mencionar São Dunstan, arcebispo de Cantuária, ver t. IV, col. 1947, e seu amigo Æthelwold, abade de Abingdon, depois bispo de Winchester, que traduziu a regra de São Bento para o inglês e compôs uma concordância das regras monásticas segundo o modelo da de São Bento de Aniane, mas com um caráter nacional pronunciado. Aqui ainda nos contentaremos em remeter a um só livro, o de dom Cabrol, L'Angleterre chrétienne avant les Normands, Paris, 1909, que contém uma bibliografia muito completa dessa época. Deve-se também ler os artigos sobre os principais personagens mencionados no Dictionnaire d'histoire et de géographie ecclésiastiques.
III. Da conquista normanda ao cisma de Henrique VIII (1066-1534). — A conquista normanda não diminuiu o ardor pelo estudo que assinalamos nas duas épocas precedentes; antes o aumentou, fazendo penetrar nas Ilhas Britânicas um elemento novo, cuja presença logo se fez sentir em todos os ramos da ciência sagrada.
1° Teologia dogmática. — Encontramos primeiramente dois italianos vindos à Normandia, um, Lanfranco, para ali fazer carreira, o outro, santo Anselmo, para ali buscar o meio de levar a vida perfeita. Ambos se encontraram na abadia do Bec, da qual foram priores um depois do outro; ambos também se sucederam na sé de Cantuária, e lhe deram um brilho que ela jamais tivera. Lanfranco, que na juventude fora um jurista eminente, ocupou-se sobretudo de coisas práticas, e aplicou-se a reformar a Igreja da Inglaterra, que disso necessitava; lançou-se também nas lutas teológicas escrevendo contra Berengário, e seu zelo o levou a corrigir os exemplares defeituosos da Sagrada Escritura e dos escritos dos Padres. Santo Anselmo, ver t. i, col. 1327, com suas monografias, que nos dão um curso quase completo de teologia dogmática, abriu um novo caminho à teologia, unindo-a à filosofia, e mereceu ser chamado o pai da escolástica.
Não poderíamos passar em silêncio Roberto Pullus ou Pulleyn, que brilhou sobretudo em Paris, onde seu ensino mereceu a aprovação de são Bernardo, mas que ensinou também teologia em Oxford, de 1130 a 1135, numa época em que as escolas dessa cidade ainda não traziam o nome de universidade. Foi como que um precursor de Pedro Lombardo, publicando antes dele oito livros de Sentenças, nos quais se poderia desejar um pouco mais de ordem. Outro inglês, Roberto, bispo de Hereford, escreveu também um Livro das Sentenças ou Suma teológica, ainda inédita. Ensinou em Paris, onde teve por alunos vários de seus compatriotas que se tornaram célebres: são Tomás Becket; João da Cornualha, que atacou a célebre proposição de Pedro Lombardo: Chrislus secundum qnod est homo non est aliquid; e sobretudo João de Salisbury, filósofo e teólogo notável, talvez o homem mais instruído de toda a Europa, que em seu Polijcralicus ataca, em estilo mordaz, os abusos que reinavam no Estado e na Igreja, ao passo que no Metalogicus defende vitoriosamente a fé cristã contra os sofistas que abusavam da dialética. Morreu bispo de Chartres em 1180. Tivera por aluno em Paris Pedro de Blois, que, depois de ter sido preceptor de Guilherme II, rei da Sicília, veio à Inglaterra em 1169 e aí exerceu diversos cargos eclesiásticos até sua morte, ocorrida em 1200. Distinguiu-se por sua santidade tanto quanto por sua ciência, e foi chamado um dos últimos Padres da Igreja. Suas obras abordam todos os pontos da ciência sagrada.
Deve-se atribuir à Inglaterra a honra do grande franciscano Alexandre de Hales, o doutor irrefragável, ver t. i, col. 772 ss.; mas ele só lhe pertence pelo nascimento. Outros franciscanos deviam logo ilustrar a universidade de Oxford, que começou a sair da sombra nos primeiros anos do século XIII. Chegaram ali em 1221, e encontraram um poderoso protetor em Roberto Grosseteste, chanceler da universidade, cuja forte personalidade domina toda a primeira metade do século XIII na Inglaterra. Abriu seus cursos públicos no convento dos franciscanos em 1236, e consagrou todo o seu ardor à prosperidade dessa escola, que se tornou assim o centro da faculdade de teologia de Oxford. É impossível nomear aqui todos os mestres que ali ensinaram; seus escritos se reduzem a comentários sobre o livro das Sentenças. Citaremos Adão de Marisco, ver t. i, col. 387, aluno e amigo íntimo de Grosseteste, que continuou as tradições de seu mestre à frente da escola, e cujas cartas nos fazem penetrar na vida intelectual do século XIII. Não se pode ligar a essa escola Roger Bacon, ver t. ii, col. 8, que estudou, é verdade, em Oxford, mas que só se tornou franciscano em idade avançada; Duns Escoto, ver t. iv, col. 1865, ao contrário, deu-lhe um brilho incomparável.
Os dominicanos tiveram também na Inglaterra teólogos notáveis. Em 1248, encontramos em Oxford Tomás Kilwardby, que, além de Aristóteles, comentou os livros das Sentenças e uma parte da Bíblia. Em 1272, tornou-se arcebispo de Cantuária e, numa visita que fez a Oxford, condenou várias proposições, entre as quais se achava a doutrina de são Tomás sobre a unidade da forma substancial no homem. No começo do século seguinte, Tomás de Jorz, da mesma ordem, atacou Duns Escoto em seu comentário sobre os livros das Sentenças, no qual dá primeiro a doutrina do Mestre, depois a de Escoto, que refuta em todos os pontos em que este se afasta de são Tomás.
É impossível enumerar os teólogos dessas duas ordens e de várias outras que, nessa época, comentaram os livros das Sentenças; muitas de suas obras permaneceram em manuscrito. Não podemos, contudo, passar em silêncio João de Gales, franciscano de Worcester, por volta do fim do século XII, a quem se dera o sobrenome de Arbor vitœ por causa dos frutos de erudição e de edificação que produzia.
No século XIV, encontramos ainda grande número de teólogos franciscanos, vários dos quais combateram as doutrinas de seu confrade e compatriota Guilherme de Occam, ao passo que o dominicano Roberto Holcoth, que morreu de peste em 1379, se tornava célebre por suas obras teológicas e escriturísticas. João Bacon (+ 1346) ilustrava a ordem dos carmelitas; aproxima-se dos escotistas e dos nominalistas, e fundou uma escola nova à qual um capítulo geral obrigou toda a ordem a se unir, mas em vão, pois a doutrina de são Tomás prevaleceu na ordem dos carmelitas. O irlandês Tomás Palmerston (+ 1330) nos deixou uma Suma de toda a teologia, e Tomás Bradwardine (+ 1349), arcebispo de Cantuária, combateu o pelagianismo com tanto ardor que pareceu cair no extremo oposto. Outro irlandês, Ricardo Eitzralph (+ 1360), arcebispo de Armagh, deixou uma Suma em dezenove livros sobre as questões concernentes aos armênios e aos gregos. Atacou as ordens mendicantes, que foram defendidas pelo dominicano inglês Henrique Bietwcll e pelo franciscano galês Rogério Conway. Alguns beneditinos comentaram também os livros das Sentenças, entre os quais é preciso citar Gualtério Bederichtwort e João Boekingham (+ 1378), que se fez monge em Cantuária depois de ter sido bispo de Lincoln.
A heresia de Wiclef suscitou uma legião de teólogos de todas as ordens religiosas que o combateram; é impossível nomeá-los todos. O primeiro que entrou na liça foi o carmelita João Kiningham (+ 1399), mas o mais célebre foi um franciscano, Guilherme de Waterford (+ 1397). A luta continuou no século seguinte, em que notamos sobretudo o carmelita Estêvão Patrington, que morreu em 1418 bispo de Chichester, e o agostiniano Filipe Repington, que, depois de ter apoiado Wiclef, o combateu, e morreu, em 1434, bispo de Lincoln e cardeal. O mais rude adversário de Wiclef, no século XV, foi Tomás Netter, da ordem dos carmelitas, morto em 1430, cujas obras foram um verdadeiro arsenal para os teólogos que, na idade seguinte, combateram o protestantismo.
O agostiniano João Bury, por volta de meados do século, combateu Reginaldo Peacock, bispo de Saint-Asaph, que ensinava muitos erros e que foi deposto num sínodo de Lambeth, em 1457. No fim do século, é preciso citar o agostiniano Tomás Penket, que sabia Escoto de cor (+ 1487), e, no começo do seguinte, o irlandês Maurício O'Fihely, frade menor conventual, arcebispo de Tuam, que também foi escotista convicto, e morreu subitamente em 1513.
2° Teologia prática. — Mal se encontra, nessa época, um teólogo que se tenha aplicado de maneira especial às questões de moral. Essas questões são tratadas junto com a teologia dogmática e o direito canônico. Citaremos aqui alguns autores que não trataram o dogma de maneira expressa. Santo Edmundo de Cantuária, ver t. iv, col. 2103, nos deixou constituições sinodais e um Spéculum Ecclesiœ em que fala dos sacramentos, da disciplina e dos ritos; Bartolomeu, bispo de Exeter (+ 1184), compusera um penitencial, enquanto três canonistas, Gilberto o Inglês, Alano e João de Gales, faziam coleções de Decretais no começo do século XIII. Pouco depois, Ricardo o Inglês, que morreu bispo de Durham em 1237 depois de ter ocupado várias outras sés, deixava um Ordo judiciarius e Dislincliones sobre os decretos, em que aproximara de cada decreto os diversos lugares em que a mesma questão era tratada. No século seguinte, João de Burgo (+ 1386) escreveu um tratado intitulado: Pupilla oculi, em que trata da administração dos sacramentos, do decálogo e de vários outros pontos úteis para o ministério pastoral.
A liturgia é representada por santo Osmundo (+ 1099), bispo de Salisbury. Deixou-nos um Liber ordinalis, e dotou sua Igreja de uma liturgia que se difundiu por todo o sul da Inglaterra e mesmo na Irlanda, e aí foi a forma da oração pública até a Reforma. Os anglicanos procuram atualmente fazê-la reviver. Devemos também mencionar Gilberto, abade de Bangor, depois bispo de Limerick, morto algum tempo depois de 1139, que, numa carta De usu ecclesiaslico, exortou o clero irlandês a regular-se pelo rito romano. Enfim, encerraremos este período com dois autores ascéticos, o escocês Adão, da ordem de Prémontré, ver t. i, col. 389, e o franciscano irlandês Malaquias Mac Aeda, morto em 1348 arcebispo de Tuam, que escreveu Septem peccalorum mortalium venena.
3° Escritura Sagrada. — Os autores que trataram da Escritura Sagrada ex professo são bastante raros durante esse período, mas é preciso lembrar que a Sagrada Escritura formava o fundo de todo o ensino teológico. Deve-se dizer também que muitos comentários escritos nessa época ainda jazem sepultados nos manuscritos, de onde vários mereceriam ser tirados. Osberne de Gloucester, por volta de 1150, compôs um comentário em forma de diálogo sobre o Hexateuco, exceto o Levítico; mais ou menos na mesma época, Clemente de Llanthony fazia uma concordância dos Evangelhos que foi traduzida para o inglês por Wiclef, e Gilberto de Hoyland continuava os sermões de são Bernardo sobre o Cântico dos Cânticos. Gilberto Foliot, morto em 1188 bispo de Londres, comentou também o Cântico dos Cânticos.
Alexandre Neckam, cônego regular de Santo Agostinho (+ 1215), deixou uma obra escriturística considerável, ainda em manuscrito; do mesmo modo Roberto Bacon (+ 1248), um dos primeiros dominicanos ingleses, e Tomás Wright (+ 1249), trinitário, arcebispo de Tuam. Não poderíamos esquecer Estêvão Langton, arcebispo de Cantuária (+ 1228), a quem somos devedores da divisão da Bíblia em capítulos, que ainda conservamos com alguns retoques. Fê-la quando ensinava em Paris, e sua obra se encontra no manuscrito 14417 da Biblioteca Nacional. Atribuiu-se, mas erradamente, essa divisão a Hugo de Saint-Cher; este, para compor sua concordância, serviu-se da ajuda de dois dominicanos ingleses, Ricardo de Stevenesby e João de Darlington, que foi depois arcebispo de Dublin. João Peckam, franciscano, arcebispo de Cantuária (+ 1292), deixou uma concordância de outra espécie, que foi publicada em Paris em 1513, e em Colônia em 1513 e em 1541, sob este título: Collectarium diuinarum senlenliarum Bibliœ. Os textos da Bíblia aí estão agrupados sob certos títulos, que fazem dela uma compilação útil para os pregadores. Uma compilação do mesmo gênero, em que as palavras da Bíblia são dispostas por ordem alfabética e explicadas segundo os diferentes sentidos que se podem dar à Escritura, tem por autor um certo Maurício, de quem se sabe muito pouco. Ricardo de Hampole (+ 1349) traduziu o Saltério para o inglês e fez um comentário sobre os Salmos, traduzido para o inglês em nossos dias e publicado em Oxford em 1884. Outros, como o franciscano Guilherme Briton (+ 1356), que bem poderia ter sido cisterciense, e o beneditino Roger (por volta de 1360), apelidado o Computista, aplicaram-se a dar o sentido das palavras da Bíblia.
No século XV, encontramos certo número de comentadores ingleses, mas suas obras permaneceram inéditas, salvo uma pesada exposição das Lamentações de Jeremias pelo franciscano João Lathbury, 1482, s. l. Nos primeiros anos do século XVI, só temos a assinalar o célebre deão de São Paulo, João Colet, ver t. iii, col. 362, e Roberto Shirwoode, que deu notas sobre o Eclesiastes, Antuérpia, 1523.
4° História eclesiástica e hagiografia. — Os historiadores são legião. Seria impossível enumerá-los todos num artigo como este; deveremos contentar-nos em nomear os principais, e remeter para o resto ao Dictionnaire d'histoire ecclésiastique. Quase não havia mosteiro que não tivesse sua crônica; contava-se nela, dia a dia, os acontecimentos que interessavam à comunidade, mas o cronista se interessava também, com frequência, pelos acontecimentos contemporâneos, e vários deles, que tinham verdadeiramente o sentido histórico, nos deram obras de grande valor. Encontramos primeiro um irlandês, Tigernach, abade de Clonmacnois (+ 1088), que compôs Anais irlandeses verdadeiramente notáveis. Escreveu-os na língua de seu país, mas foram traduzidos para o latim e publicados sob essa forma por O'Connor, Rerum hibernicarum scriplores. Foram continuados por Agostinho Mac Grady (+ 1405), depois por outro até 1407. Seu discípulo Mariano passou à Alemanha e viveu como recluso em Mogúncia durante treze anos; compôs ali um Chronicon, coberto de elogios por Orderico Vital, que teve numerosas edições. P. L., t. cxlvii.
Na Inglaterra, cumpre-nos assinalar, entre muitos outros de menor nota, dois hagiógrafos, monges de Cantuária, um, Osberne, no tempo de Lanfranco, o outro, Eadmer, ver t. iv, col. 1977, no tempo de santo Anselmo, de quem escreveu a vida, além da de vários outros santos. Guilherme de Malmesbury supera os demais historiadores ingleses do século XII por seus Gcsta regum anglorum, Londres, 1840, 1887, e seus Gesla pontificum anglorum, Londres, 1870. Guilherme de Newburgh, da ordem de Santo Agostinho, quase o igualou com sua Historia rcrum Anglteanarum, e ambos deixam muito atrás de si Godofredo de Monmouth (+ 1154), cuja fabulosa Historia Brilannise, Londres, 1844, contém a mais antiga forma que conhecemos dos romances da Távola Redonda, e Henrique de Huntingdon, que escreveu a Historia Anglorum, Londres, 1596; Frankfurt, 1601. Na Irlanda, Mariano O'Gorman compunha por volta de 1170 um Martirológio, enquanto em Roma um inglês, chamado Bóson (+ 1178), escrevia as Vidas de treze papas inseridas por Barônio em seus Anais.
No século XIII, temos cronistas interessantes, como Roger de Hoveden (+ 1204), Guilherme o Pequeno (+ 1208), Giraldo de Barri (Giraldus Cambrensis), cujas obras, pouco críticas, contêm contudo indicações que se procurariam em vão alhures; Gervásio de Cantuária, Ralph de Diceto e Roger de Wendover (+ 1237), cuja crônica é chamada Flores hisloriarum. Mas todos são eclipsados por Mateus Paris, que, no entanto, deve muito a seus predecessores, em particular a Roger de Wendover. Na mesma época, Tomás de Eccleston narrava a chegada dos frades menores à Inglaterra, e vários outros, tais como João de Wallingford, João de Tayster e Tomás Sprottus, escreviam crônicas. O século XIV não nos dá cronistas de relevo.
O dominicano Nicolau Trivet (+ 1328) e o cisterciense Adão de Murcmuth (+ 1347) nos deixaram crônicas, enquanto João de Tynemouth (+ 1348), monge de Saint-Alban, compilava uma obra importante intitulada: Sanctilogium Angliœ, Walliœ, Scotiœ et Hiberniœ, Oxford, 1901. Ranulfo Higden (+ 1363) se eleva acima dos demais em seu Polychronicon, continuado por João de Malvern, depois por Adão de Usk; é preciso ainda citar, nessa época, o Chronicon Anglise de João de Peterborough (+ 1368), e os Annales Hiberniœ de Tiago Grâce (+ 1370), monge de Kilkenny. Mais ou menos no mesmo tempo, o escocês João de Fordun (+ 1386) escrevia seu SeolichronicoK, continuado por seu secretário Walter Bower. Essa crônica teve várias edições, a última em Edimburgo, 1872.
No começo do século XV, o franciscano João Clynn, de Kilkenny, nos dá Anais irlandeses, Dublin, 1848, enquanto seu confrade inglês Tomás Otterburne (+ 1411) escrevia uma história da Inglaterra, Oxford, 1732. Um pouco mais tarde, encontramos outra história da Inglaterra escrita por Tomás Walsingham (+ 1422), monge de Saint-Alban, última edição, Londres, 1863, e uma história da fundação de Cambridge por Nicolau Cantlow (+ 1441), carmelita de Bristol. Outro carmelita, Tomás Scropus (+ 1491), bispo de Dromore, na Irlanda, nos deixou um Chronicon, ou história da ordem dos carmelitas, Antuérpia, 1680. Enfim, no começo do século XVI encontramos um martirológio compilado por Ricardo Withford, monge brigitino de Sion, perto de Londres.
IV. Do cisma de Henrique VIII ao fim do século XVIII (1534-1800). — 1° Teologia dogmática. — O cisma de Henrique VIII deu um novo caráter à teologia dogmática. De escolástica que era na época precedente, tornou-se sobretudo polêmica; os escritores que se limitaram a tratar as questões teológicas de maneira especulativa são raríssimos; ao contrário, os controversistas são muito numerosos, e pode-se dizer que a controvérsia absorveu quase toda a atividade literária nessa época. Coisa estranha, o primeiro nome inglês que se apresenta a nós na luta contra o protestantismo é o de Henrique VIII, que, em 1521, publicava contra Lutero seu livro intitulado: Asserlio septem sacranh nlorum, na composição do qual foi ajudado por João Fisher. Ver t. v, col. 2555. Fisher, que publicou uma resposta ao ataque que Lutero fizera contra esse livro, foi logo obrigado a tomar partido contra seu senhor, opondo-se ao divórcio e recusando-se a prestar o juramento de supremacia, o que o conduziu ao martírio. A mesma sorte aguardava o chanceler Tomás More, que também recusou aprovar o divórcio. Vários teólogos escreveram contra esse divórcio, que Estêvão Gardiner, ver t. vi, col. 1156, sustentou por seu livro De vera obedientia. Cuthbert Tunstall, bispo de Durham, foi mais corajoso, e morreu na prisão sob Isabel em 1555; deixou uma dissertação De verikde corporis et sanguinis Domini in eueharistia, Paris, 1554, e outra Contra impios blasphcmatores Dei pnedestinationis, Antuérpia, 1555. Em seguida encontramos dois teólogos que merecem artigos especiais, Reginaldo Pole (+ 1558), que sustentou em seus escritos o primado do papa, e Ricardo Smith (+ 1563), que combateu sobretudo os calvinistas.
Tomás Harding (+ 1572), convertido do protestantismo, e o dominicano Tomás Heskin defenderam a presença real e o sacrifício da missa contra os ataques dos teólogos protestantes. Ambos morreram no exílio. Enquanto isso, João Fowler estabelecia em Lovaina uma tipografia da qual saíram numerosas obras inglesas para a defesa da fé católica, e ele mesmo fazia um excelente resumo da Suma teológica de são Tomás (+ 1579). O longo reinado de Isabel, que viu o estabelecimento definitivo do protestantismo, nos fornece um período de brilhantes polemistas, que defenderam valorosamente a religião católica. O jesuíta Edmundo Campion, ver t. ii, col. 1448, pagou sua coragem com a vida, e é honrado agora como mártir; depois dele citaremos Ricardo Bristow, ver t. ii, col. 1133, Nicolau Sanders, ver seu artigo, cujo livro De visibili monarchia Ecclesiœ, Lovaina, 1571, teve o dom de excitar ao mais alto ponto as iras anglicanas, e que morreu de privações, na Irlanda, para onde fora enviado como núncio por Gregório XIII; o beneditino escocês Ninian Wingate, que combateu João Knox e os calvinistas em seu país; o cardeal Guilherme Allen, ver t. i, col. 215, que foi o primeiro a ter a ideia de fundar no estrangeiro colégios para a formação de sacerdotes ingleses, e enfim Tomás Stapleton, ver seu artigo, o príncipe dos controversistas.
Depois deles, citaremos ainda Archibald Hamilton (+ 1581), que combateu os calvinistas na Escócia; João de Feckenham (+ 1585), o último abade de Westminster, que passou vinte e cinco anos na prisão; o jesuíta João Gibbons (+ 1589), que publicou Concerlatio Ecclesiœ eatholicœ in Anglia, etc., ver col. 1346, e seu confrade Arthur Faunt, ver t. v, col. 2099, que combateu sobretudo os protestantes da Alemanha; Guilherme Rainolds, convertido do anglicanismo, cujas obras merecem um artigo especial. Sob Tiago I, encontramos o célebre jesuíta Roberto Persons, ver seu artigo, e seus dois confrades escoceses João Hay e Tiago Gordon Huntley, que escreveram contra os hereges, enquanto o arcipreste Jorge Blackwell (+ 1613) e o jurista Guilherme Barclay, ver t. ii, col. 389, entravam em controvérsia com Belarmino e sustentavam os princípios galicanos sobre as relações da autoridade civil com a autoridade eclesiástica. Na mesma época escreviam Guilherme Bishop, ver t. i, col. 1178; o beneditino Eduardo Maihew (+ 1625), que compunha em inglês A trealise of the grounds of the old and new religion; o franciscano Boaventura Jackson (+ 1627), que por seu Calvinolurcisnuis punha em alvoroço os calvinistas, que comparava aos maometanos; Silvestre Noms (+ 1630), que escreveu The antidote, or ireatise oj thirty conlroversies againsl scelaries, Saint-Omer, 1618; e Eduardo Weston (+ 1633), que foi sobretudo apologista. Enquanto isso, dois franciscanos irlandeses, Hugo Cavcllus, ver t. ii, col. 2045, e Florêncio Connus, ver t. iii, col. 1150, cultivavam a filosofia e a teologia dogmática.
Deve-se também ligar a esse reinado o jesuíta Tomás Fitzhcrhert, ver t. v, col. 2561, cujos tratados sobre as relações da política e da religião apareceram em 1606 e em 1610, e seu confrade João Fisher (+ 1641), cujo verdadeiro nome era Percy, que disputou sobre a fé diante do rei Tiago I, e que publicou sua disputa sob este título: An answerunio the nine points of controversy, proposée by our laie sovereign, Saint-Omer, 1625. Deixou também uma obra notável intitulada: A treatisc of failli, Londres, 1600. Os jesuítas se distinguiram ainda sob o reinado seguinte. Entre seus numerosos teólogos assinalamos Lourenço Anderton, ver t. i, col. 1178; Henrique Fitz-Simons, ver t. v, col. 2561, e Guilherme Malone (+ 1656), que demonstrou a antiguidade da religião católica romana contra o célebre Ussher. As outras ordens também estão representadas, por exemplo, pelo franciscano Boaventura Hocquard, que escreveu Perspectivum liitheranorum et calvinislarum, Viena, 1648, e o beneditino Guilherme Johnson (+ 1663), que, em Novelly reprcsl, estabelecia solidamente a posição da Igreja católica. No clero secular, encontramos Mateus Kellison, que morreu em 1641, depois de ter dirigido durante longos anos o colégio de Douai. Um ministro anglicano convertido, Tomás Vane, em A losl sheep returned home, Paris, 1648, deu uma excelente exposição dos motivos para voltar à religião católica.
Enquanto isso, os franciscanos irlandeses ensinavam a teologia escolástica nos colégios fundados no continente para seus compatriotas. João Ponce ensinava em Roma a doutrina de Escoto; Antônio Hickey (+ 1641) publicava as obras do grande doutor franciscano; Francisco Bermingham (+ por volta de 1656) escrevia uma Suma teológica de Dco uno et trino, segundo o método do doutor angélico e o espírito do doutor sutil; Francisco Molloy fazia aparecer um tratado De incarnalione Verbi divini. Patrício Raw, da ordem de Santo Agostinho, fez aparecer também tratados sobre os fins últimos e sobre diversas outras questões teológicas. À medida que os colégios se desenvolveram no estrangeiro, a teologia escolástica foi mais cultivada. Assim, sob Carlos II, encontramos o dominicano João Batista Hacket (+ 1676), Conlroversorium Iheologicum sobre a pars secunda do doutor angélico; Henrique Holden (+ 1662), Divinir fldei analgsis, Paris, 1652, em Migne, Cursus complctus thcologiœ, t. vi; Lucas Wadding (ver seu artigo), teólogo não menos sábio que historiador e exegeta; o franciscano irlandês Antônio Bruodine (+ 1664), Œconomia minorilicœ scholœ, Praga, 1633, manual de teologia escolástica no espírito do doutor sutil; o jesuíta Tomás Compton (+ 1666), Cursus theologicus, exposição da Suma de são Tomás; o carmelita Lourenço de Santa Teresa (ver seu artigo); Agostinho Gibbon, da ordem de Santo Agostinho (+ 1676), que, além de seu Spéculum Iheologicum, Mogúncia, 1669, publicou uma excelente obra de controvérsia intitulada: Lutherocalvinismus schismedicus quidem sed reconciliabilis, Erfurt, 1663.
A polêmica contra os protestantes estava longe de ser negligenciada nessa época. Além de Tomás Bailey, ver t. ii, col. 491, e João Barnes, ver t. ii, col. 423, devemos assinalar vários jesuítas que escreveram, seja em favor da transubstanciação, seja para defender a autoridade e a infalibilidade da Igreja. Pedro Talbot (+ 1680), que se tornou arcebispo de Dublin depois de sair da Companhia, publicou em inglês: A treatise oj the nature oj catholic faith and heresy, Rouen, 1657, e, além disso, De efficaci remedio contra atheismum et hœresim, Paris, 1674, uma história dos iconoclastas e uma história do maniqueísmo e do pelagianismo. O mais notável teólogo dessa época foi o franciscano Cristóvão Davenport (+ 1680), que achou meio, em meio a seus trabalhos apostólicos, de compor obras numerosas e sólidas, entre as quais mencionaremos: Systema fidei, Liège, 1648, e Deus, naturel et gratia, Leiden, 1634, em que trata da predestinação, dos méritos e da justificação segundo a doutrina de Escoto; acrescentara-lhe uma crítica dos trinta e nove artigos da confissão anglicana num espírito bastante conciliador, de modo que esse apêndice foi posto no Índice na Espanha, embora tivesse sido autorizado em Roma. Foi traduzido para o inglês e publicado com uma introdução por F. G. Lee, Londres, 1865. Cumpre citar ainda o franciscano irlandês Raimundo Caron, ver t. ii, col. 1799, sir Kenelm Digby, ver t. iv, col. 1307, e o irlandês João Sinnich, partidário do jansenismo.
Sob Tiago II, só temos a citar Ricardo Archdekin, ver t. i, col. 1759, e João Gother, ver t. vi, col. 1502, que escreveram obras de controvérsia, e o franciscano irlandês Boaventura Baron que, além de obras de filosofia, publicou tratados de teologia em que defende a doutrina de Escoto: De Trinilale, Lyon, 1666; De Dco uno, ibid., 1670; De angelis, Florença, 1676.
O século XVIII nos apresenta alguns bons polemistas. Eduardo Hawarden, cujos escritos são muito notáveis; João Constable (+ 1740), que escreveu contra o livro de le Courayer em favor das ordenações anglicanas, e criticou a história da Igreja na Inglaterra de Ch. Dodd; o mais notável foi Ricardo Challoner, vigário apostólico do distrito de Londres. Ver t. ii, col. 2208. A teologia escolástica não foi negligenciada. O franciscano irlandês Antônio Ruerk compunha um Cursus théologies scholaslica segundo os princípios e sobre o plano de Escoto, Valladolid, 1746, e o beneditino escocês Mariano Brockie (+ 1757) defendia também o doutor sutil em sua obra: Scotus a Scoto propugnalus; defendeu também a bula Unigenitus contra Quesnel, e deu além disso uma edição do Codex regularum de Holsten, com adições, 1759.
Os ataques dos incrédulos contra a religião revelada deram origem a um novo gênero de teologia, a apologética, que começou a ser cultivada na Inglaterra por volta de meados do século e deixou na sombra a antiga controvérsia com os protestantes: o novo perigo era mais grave que o antigo, pois tendia a minar pela base os próprios fundamentos do cristianismo, e os próprios anglicanos tiveram apologistas de grande valor. Citaremos alguns nomes: Simão Berington (+ 1755) dissertou sobre várias passagens do Gênesis; Antônio O'Brien (+ 1764) escreveu um tratado da revelação, Praga, 1762; Lucas José Hook (+ 1796) deu Religionis naturalis et revelatœ prinr.ipia, Paris, 1752; Artur O'Leary, franciscano irlandês, escreveu Défense of the divinily of Christ ami the immortality of the soûl, 1771; Tiago Barnard demonstrou pela Escritura e pela tradição The divinily of our Lord Jésus Christ, numa série de cartas a Priestly, e publicou outra obra de apologética: A gênerai view of the arguments for the divinily of Christ and plurality of persons in God, Londres, 1789 e 1793. Enfim, Jorge Hay, vigário apostólico na Escócia, célebre por seus trabalhos apostólicos, não o foi menos por suas obras de apologética.
2° Teologia moral, ascética, liturgia. — Reunimos essas três matérias, pois os autores que as trataram são pouquíssimos, aliás tanto quanto os exegetas e os historiadores; a necessidade de defender a ortodoxia contra o protestantismo foi a causa dessa penúria. A ordem de são Bento produziu nessa época um casuísta notável, Gregório Sayer, que morreu aos 32 anos em 1602, enquanto Ricardo Hall (+ 1604), cônego e oficial de Saint-Omer, publicava um tratado De quinqucparlita conscientia, Douai, 1598. João Pits (+ 1616), que foi sobretudo historiador, deu um tratado De legibus, Trèves, 1592, e outro De beutiludine, Ingolstadt, 1595; Raimundo Caron, ver t. ii, col. 1799, ocupou-se de teologia pastoral, assim como seu compatriota Nicolau Donellan (+ 1679). O jesuíta Antônio Terill ou Ronville defendeu o probabilismo; o dominicano Miguel Mac Quilin (+ 1714) escreveu sobre a contrição, e o beneditino João Townson (+ 1718) publicou um Enchiridion confessariorum, Hildesheim, 1705.
A ascética é representada por Ricardo Whitford (+ 1541), da ordem de Santa Brígida, que escreveu muitos livros de piedade, mas que merece ser tirado do esquecimento por causa de sua tradução da Imitação, a melhor das traduções inglesas desse livro, que foi reeditada em Londres em 1872. A teologia mística nos oferece um grande nome, o do beneditino David Agostinho Baker (+ 1641), que em seu belo livro: Sancta Sophia, dá preciosas direções para a oração de contemplação. Cumpre também citar sua penitente, Gertrudes More, beneditina (+ 1633), cujas Confessiones amantis acabam de ser reeditadas, Londres, 1911.
3° Escritura Sagrada. — Causa espanto encontrar tão poucos comentadores da Escritura Sagrada numa época em que a Bíblia se tornava oficialmente a única regra de fé na Inglaterra. Talvez se deva ver nisso uma espécie de reação contra o princípio protestante, e é de notar que todas as obras de controvérsia, tão numerosas, se apoiavam precisamente na Bíblia para sustentar a doutrina católica. Eduardo Lee, morto em 1544 arcebispo de York, pertence ao período precedente por seus trabalhos escriturísticos. Publicou Annotationes sobre as duas edições do Novo Testamento de Erasmo, em que dizia encontrar mais de trezentos erros. Erasmo julgou suas críticas suficientemente sérias para lhe responder. Ralph Baynes, morto em 1560 bispo de Coventry sob o reinado de Maria Tudor, deixou um bom comentário do livro dos Provérbios, Paris, 1550. Alano Cope, morto em 1580 cônego de São Pedro de Roma, deu uma Vida de Nosso Senhor reproduzindo o texto dos quatro evangelistas. Em 1582, morria Gregório Martin, o principal autor da versão católica inglesa da Bíblia, cujo Novo Testamento apareceu em Reims em 1582, e o Antigo Testamento em Douai em 1610.
Leandro de São Martinho, beneditino, presidente da congregação inglesa, publicou: Biblia sacra juxta ediliones ante correctionem clcmentinam vulgatas, com notas e glosas de todo tipo, Antuérpia, 1634, e além disso editou obras de teologia e de Escritura Sagrada de vários autores. Dois jesuítas irlandeses, Paulo Sherlock (+ 1646) e Pedro Redan (+ 1651), comentaram um o Cântico dos Cânticos, Lyon, 1635, e o outro os livros dos Macabeus, Lyon, 1651, e seu confrade escocês Tiago Gordon (+ 1641) publicou um comentário da Bíblia inteira, Paris, 1632, que foi louvado por Ricardo Simon. É também autor de uma teologia moral, Paris, 1631. Challoner, de quem já falamos, com a ajuda do carmelita Francisco Blyth, corrigiu e anotou o Novo Testamento de Reims, mas essa correção é considerada pouco feliz, Londres, 1738. Citaremos enfim a nova versão das Escrituras de Alexandre Geddes, ver t. vi, col. 1176, que foi proibida pelos vigários apostólicos; João Earle (+ 1818) refutou os erros de Geddes.
4° História eclesiástica. — Os historiadores também são pouco numerosos, e nada há a assinalar de muito notável nesse período.
Heitor Boece deu uma Hisloria Scotorum, Paris 1526, que não tem grande valor; ajudou Guilherme Elphinstone, bispo de Aberdeen, a fundar a universidade dessa cidade em 1505, e foi seu reitor até sua morte em 1536. Nicolau Harpsfield (+ 1575) compôs uma Hisloria anglicana ecclcsiaslica, Douai, 1622, e seis diálogos em que refuta as mentiras históricas dos protestantes, Antuérpia, 1566. O escocês Tyrie escreveu um douto tratado De antiquilalibus Ecclesia; scolicœ, Roma, 1594, e João Pits (+ 1616) publicou, além de suas obras de teologia moral, De illuslribusAnqliœscriptoribus, Paris, 1619. Em 1627, aparecia em Bolonha a Historia ecclesiastica gentis Scotorum de Tomás Dempster, obra pouco digna de fé, em que o autor acumula grande quantidade de fábulas e não recua diante de nenhuma exagero para realçar a importância de seu país. Fizera-a preceder, em 1622, de um Apparatus, cum menologio Scotorum, que não é mais digno de fé.
Mais ou menos no mesmo tempo, Tomás Messingham dava um Florilcgium insulie sanclorum, Paris, 1624, e, algum tempo depois, Tiago Colgan publicava em Lovaina Acta sanclorum Hiberniœ, 1645. O jesuíta Miguel Alford (+ 1652), numa série de obras intituladas Fidcs : regia brilannica... anglo-saxonica... anglicana, Liège, 1663, descreveu a Inglaterra católica desde as origens até o ano de 1189; publicou também Brilannia Mustrata, em que trata de questões muito interessantes para a teologia: a Páscoa dos bretões, o casamento dos clérigos, a união da Igreja bretã com a Igreja romana, Antuérpia, 1641. Ricardo Smith (+ 1655), bispo de Calcedônia, que teve desavenças com os regulares, compôs Florum ccclcsiaslicœ gentis Anglorum libri VII, Paris, 1654. O franciscano Lucas Wadding (+ 1657) publicou em Lyon, em 1625, seus Annales minorum, que completou com outra obra: Scriptorcs ordinis minorum, Roma, 1650. Cumpre citar ainda o beneditino Tomás Andcrton, ver t. i, col. 1178, com sua Ilistorg of the iconoclasls, e o jesuíta Nataniel Southweil (Sotvellus), que revisou e prosseguiu até 1675 a Bibliotheca scriptorum Socielalis Jesu, Roma, 1676.
No século XVIII, temos Carlos Dodd (+ 1737), que escreveu Church hislonj of Fngland, editada de novo em Londres em 1839 por Tierney; Eduardo Burgis (+ 1749), The Annals of the Church, Londres, 1738, compreendendo os cinco primeiros séculos; o beneditino Carlos Walmesley (+ 1797), vigário apostólico do distrito ocidental, fez aparecer General hislory of the Christian Church, 1771, que nada mais é que um comentário do Apocalipse. Enfim, encontramos dois hagiógrafos de valor na pessoa de Challoner, ver t. ii, col. 2208, e na de Alban Butler (+ 1773), cujas Vidas dos santos são universalmente conhecidas.
V. DO COMEÇO DO SÉCULO XIX AOS NOSSOS DIAS. — 1° Teologia dogmática e apologética. — O século XIX nos fornece grande número de apologistas que escreveram seja contra os incrédulos, seja contra os protestantes. Citaremos apenas os mais notáveis. Primeiramente dois bispos cujo nome não está esquecido na Inglaterra: Guilherme Poynter (+ 1827), vigário apostólico de Londres, que soube governar seu distrito com sabedoria, numa época de grandes dificuldades entre os fiéis e os pastores; deixou Chrislianitij, or the évidences and character of the Christian religion, 1827, excelente obra admitida por Migne em suas Démonstrations évangéliques, t. xiii. O segundo é João Milner (+ 1826), vigário apostólico do distrito do Centro (Midland), cuja obra apologética ainda é clássica. O jesuíta Carlos Plowden (+ 1821) defendeu a infalibilidade da Santa Sé e tomou parte ativa nas controvérsias que então dividiam os católicos ingleses.
Os próprios leigos se envolveram na luta. Carlos Butler (+ 1832), secretário daquele comitê católico que causou tantas dificuldades aos vigários apostólicos, escreveu The book of the roman catholic Church, Londres, 1825, que se encontra nas Démonstrations évangéliques de Migne, t. xii, sob este título: A Igreja romana defendida contra os ataques do protestantismo. Deixou também Historical memoirs of English, Irish and Scotiîsh catholics, Londres, 1819, em que se deixa arrastar pelo espírito de partido: foi corrigido por Milner. Há dele também Horœ bibliar., 3ª edição, Londres, 1817. Guilherme Eusébio Andrews, ver t. i, col. 1186, simples impressor de Norwich, trabalhou em concerto com Milner e prestou grandes serviços à fé católica por suas revistas e seus livros. Na Irlanda, Tiago Doyle, agostiniano, que morreu bispo de Kildare em 1834, foi um valoroso campeão do catolicismo, que defendeu não menos pela ação do que pela pena. Deixou Analysis of the divine jailli, Londres, mas é célebre sobretudo por suas Cartas ao Dr. Magee, arcebispo anglicano de Dublin, em que faz um impressionante quadro da imutabilidade da Igreja romana, em contraste com as variações dos reformadores.
Outros dois leigos merecem ser mencionados: o irlandês Tomás Moore (+ 1852), o célebre poeta, que fez obra de apologista muito útil em seu livro: Travels of an Irish gentleman in search of a religion, Londres, 1833, e o inglês Frederico Lucas (+ 1855), quacre convertido, que deu as razões de sua conversão na obra: Rcasons for becoming a catholic, Londres, 1839, mas que ajudou sobretudo o catolicismo pela fundação do jornal-revista The Tablet, que começou a aparecer em 1840 e continua em nossos dias a combater pela boa causa. João Bell (+ 1854) merece também ser mencionado por sua obra: The wanderings of the human intellect, ou dicionário das diversas seitas que dividiram a religião cristã.
Nessa época viveu um homem que deixa muito atrás de si todos os seus contemporâneos, o cardeal Wiseman (+ 1865), mas só o mencionamos aqui, pois a importância de sua ação e de seus escritos merece um artigo à parte. Diremos o mesmo do beneditino Guilherme Bernardo Ullathorne (+ 1889), bispo de Birmingham, que trabalhou de acordo com ele e, como ele, soube acolher os homens eminentes que o movimento de Oxford reconduziu à Igreja católica. As duas figuras mais notáveis entre esses convertidos são os cardeais Newman (+ 1890) e Manning (+ 1892), que terão cada um um artigo especial. Frederico Oakeley (+ 1880) deixou várias obras de apologética e de devoção. Guilherme George Ward (+ 1882), que, embora leigo e casado, foi nomeado por Wiseman professor de teologia em seu seminário, ocupa um lugar à parte na literatura católica por seus escritos de toda sorte. Edgar Estcourt, ver t. v, col. 850, é conhecido sobretudo por seu estudo sobre as ordenações anglicanas. Outro convertido célebre é Tomás Allies (+ 1903), que, imediatamente após sua conversão, escreveu The Sre of Peter the rock of the Church, em que prova que toda jurisdição vem da Santa Sé. Sua obra principal é The formation of christendom, em oito volumes que apareceram sucessivamente em Londres, de 1865 a 1896; nela trata da constituição interna da Igreja e de suas relações com a sociedade civil. O redentorista Tomás Bridgett (+ 1899), além de várias obras de história e de biografia que se destacam pela solidez e erudição, publicou History of the holg cucharist in England, Londres, 1881.
2° Escritura Sagrada, história eclesiástica, ascética, liturgia. — Temos poucos autores a citar sobre todos esses assuntos. É triste constatar que os católicos ingleses não têm nem introdução à Sagrada Escritura, nem comentário da Bíblia em sua língua. Houve tentativas; em 1852, aparecia em Dublin A gênerai introduction lo the sacred scriplures, de José Dixon, arcebispo de Armagh, mas não se encontra esse livro em parte alguma atualmente, tampouco que a edição da Bíblia de Douai que Jorge Haydock deu em Manchester, 1812-1814, com notas extraídas de diversos comentadores. Depois deles, não encontramos ninguém até o jesuíta Coleridge (+ 1893), que escreveu The life of our life, vida de Jesus Cristo em numerosos volumes, que é antes uma obra ascética do que uma explicação do Evangelho, e que foi traduzida para o francês.
No mesmo ano morria Guilherme Clifford, bispo de Clifton, cujas opiniões especiais sobre a cosmogonia mosaica foram publicadas em 1881 na Dublin review. A história foi um pouco mais cultivada nessa época. José Berington (+ 1827), apesar de suas opiniões errôneas sobre muitos assuntos, deixou obras históricas de valor, entre outras, A lilerary hislorg of the middle âges, Londres, 1814. João Daniel (+ 1823) escreveu Ecclcsiastical hislorg of the Brilons and Saxons, Londres, 1815; já falamos de Carlos Butler e das correções que lhe fez Milner; este fez também obra de historiador ao mesmo tempo que de apologista em sua Hislorg civil and ecctesiaslical and Survcij of the anliquities of Winchester, 1798-1801. A Irlanda teve também seus historiadores eclesiásticos nessa época. João Lanigan, que no século precedente fora professor de hebraico e de hermenêutica em Pavia, voltou à Irlanda, onde escreveu An ecclesiastical hislorg of Ireland lo the xm cenlurg, obra erudita e de sábia crítica, Dublin, 1822-1829. Roberto King publicava A primer of the history of the holg catholic Church in Ireland, 1834; Cotton deu Fasli Ecclesiœ hiberniese, Dublin, 1847-1860; outros se ocuparam de dioceses particulares.
Mas o mais ilustre dos historiadores católicos ingleses foi sem contradição John Lingard, cujas duas obras: Hislorg and anliquities of the Anglo-Saxon Church, e A hislorg of England são autoridade mesmo junto aos protestantes, e são ao mesmo tempo um monumento de apologética. Tomás Flanagan (+ 1865) escreveu A historg of the Church in England desde as origens até o restabelecimento da hierarquia em 1856; obra curta, mas bem feita e muito útil. O jesuíta Jorge Oliver ocupou-se sobretudo da diocese de Exeter e do condado de Devon, e Marcos Tierney continuou a história da Igreja da Inglaterra de Dodd. Dois jesuítas, João Monis (+ 1893) e Guilherme Waterworth (+ 1882), escreveram diversas obras sobre pontos especiais da história da Igreja católica na Inglaterra. Encontram-se muitos materiais para a história eclesiástica da Irlanda em The pastoral lelters ami other wrilings of cardinal Cullcn, Dublin, 1882, e nas Cartas, sermões e discursos de João Mac Haie, arcebispo de Tuam, Dublin, 1883 e 1888. O jesuíta Dionísio Murphy, além de Our martyrs, Dublin, 1896, em que narra a vida dos que sofreram na Irlanda sob as leis penais, publicou The Armais of Clonmacnois, ou história da Irlanda desde as origens até 1408, Dublin, 1896.
Entre os numerosos autores de livros de piedade que escreveram na Inglaterra, assinalaremos apenas Faber, ver t. v, col. 2045, e Ullathorne, de quem já falamos. A arqueologia cristã e a liturgia foram muito estudadas na Inglaterra em nossa época, sobretudo, é preciso confessá-lo, por anglicanos. Alguns católicos, contudo, fizeram nome numa e noutra ciência. Guilherme Maskell (+ 1890), que se tornou católico em 1850, publicara antes de sua conversão The ancient liturgg of the Church of England, em que põe em paralelo com a liturgia romana os antigos ritos de Sarum, Bangor, York e Hereford, Londres, 1811; 2ª edição, Oxford, 1882; e Monumenta rilualia Ecclcsiuanglicanœ, extratos dos antigos rituais, pontificais etc., de Salisbury, com dissertações e notas, Londres, 1846; 2ª edição, Oxford, 1882. Daniel Rock, cônego de Southwark (+ 1871), escreveu duas obras de valor: The Churcli oj our falhcrs, em que estuda a fé e as práticas religiosas na Inglaterra por meio do rito de Sarum, e Hierurgia, or the hohj sacrifice of the mass, reeditadas em Londres, a primeira em 1903, a outra em 1900. Tiago Spencer Northcote publicou, em colaboração com Guilherme Brownlow, Roma solterrana, interessante resumo da obra de J.-B. de Rossi.
Hurtcr, Nomcnclator literarius theologiœ calholictu, 3ª edição, Innsbruck, 1903-1913; Leslie Stcphen e Sidney Lee, Diclionarij o/ national biograpluj, Londres, 1908-1913, obra excelente, em que as biografias dos católicos são escritas com imparcialidade; Gillow, Literary and biographical dictionanj o/ Englisli catholics, Londres, 1885-1902. Ver também as obras citadas no fim dos artigos especiais sobre certos autores ingleses.
A. Gatard.
Autor original: A. Gatard
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor