GLANVILLE (BARTOLOMEU DE)

GLANVILLE (BARTOLOMEU DE)

GLANVILLE (Barthélémy de) era, relata Wadding, um douto frade menor que vivia na segunda metade do século XIV. Que tenha havido nessa data um franciscano pertencente à família, de origem normanda, dos barões de Glanville, condes de Suffolk, podemos concedê-lo ao analista e aos autores nos quais ele se apoia; mas que esse Bartolomeu possa ser identificado com o frade Bartholomaeus Anglicus, autor do De proprietatibus rerum, é impossível admiti-lo. Este, com efeito, vivia cem anos antes e seu livro estava escrito e muito difundido na segunda metade do século XIII. Salimbene de Parma, cujas Crônicas datam de 1283, remete, a propósito dos elefantes de Frederico II, ao livro de Bartolomeu da Inglaterra, e a citação é exata. Em 1286, a universidade de Paris fixava os preços de aluguel de certos manuais; um deles é o De proprietatibus rerum. Seria fácil multiplicar as provas, mas para quê? Tem-se dificuldade em explicar o erro de Wadding, pois na data de 1231 ele menciona em seus Anais esse frade Bartolomeu Inglês, que chegava como lente a Magdeburgo, para onde era enviado por João Parenti, ministro-geral.

Foi antes ou depois de seu lectorado na Alemanha que Bartolomeu explicou toda a Bíblia em Paris, totam Bibliam cursorie Parisius legit, como escreve o mesmo Salimbene? Cremos que foi ao voltar, pois ao cabo de alguns anos ele teve de regressar à província da França à qual pertencia, como nos ensina o autor das Conformités: qui librum edidit De proprietatibus rerum de provincia Franciae fuit. Pedro Ridolfi de Tossignano chama-o Burgundus sive Anglicus e Sbaraglia assinalou essa denominação de Burgundia num manuscrito hoje desaparecido da biblioteca do sagrado convento de Assis; todavia, observa que era apenas um acréscimo posterior. Léopold Delisle quis que ele fosse francês, mas sem apresentar provas suficientes, pois Bartolomeu não foi o único inglês a entrar entre os menores em Paris.

Bartolomeu da Inglaterra escreveu, portanto, um Opus, dito também tractatus, summa, de proprietatibus rerum; e esta obra, observava judiciosamente Salimbene, era dividida em dezenove livros, quem etiam tractatum in XIX libellos divisit. Nosso autor é, pois, de fato o primeiro grande enciclopedista da Idade Média, pois percorre inteiramente o domínio científico de seu tempo. « Deus, os anjos; a alma racional; a substância corporal; o corpo humano e suas partes; as diferentes idades da vida; as doenças e os venenos; o mundo e os corpos celestes; o tempo e suas divisões: a matéria e a forma; o ar; as aves; seus gêneros e suas espécies; a água, sua utilidade e seus habitantes; a terra e suas partes; a geografia das diferentes províncias: as pedras e os metais; as ervas e as plantas; os animais; os acidentes: cor, sabor, etc., tais são os títulos dos dezenove livros desta enciclopédia. Como se vê, é sobretudo a fisiografia que lhe constitui o fundo; as questões geográficas aí são tratadas com mão de mestre, e, neste ponto, ainda hoje se pode consultar com proveito o De proprietatibus rerum » (Felder).

Não é, pois, de espantar a grande difusão que a obra de Bartolomeu teve na Idade Média: encontram-se exemplares dela em quase todas as grandes bibliotecas, e a Nacional de Paris possui sozinha dezoito exemplares. Foi também uma das primeiras obras que se imprimiram e as edições incunábulos são numerosas demais para serem mencionadas; a primeira parece ser a de Colônia, por volta de 1473; seguem-se as de Lyon, 1480 e 1482, de Estrasburgo, 1485, etc. Cedo o De proprietatibus rerum foi traduzido em diversas línguas: o frade Jehan Corbichon, da ordem de santo Agostinho, o havia « translaté de latin en françois l'an de grâce Mil CCCLXXII par le commandement de très puissant et noble prince Charles le Quint. » Filipe, o Atrevido, duque da Borgonha, pagava quatrocentos escudos de ouro por um exemplar dessa tradução, hoje na biblioteca de Bruxelas. O Propriétaire des choses foi impresso em Lyon desde 1482 e reimpresso várias vezes. Citemos ainda a tradução flamenga, Boeck van der proprieteyten der dingken, Haarlem, 1485; a tradução espanhola, El libro de las propriedades de las cosas, transladado par fray Vicente de Burgos, Toulouse, 1494; uma tradução inglesa por João Trevisa, impressa em Londres antes do fim do século XV. O livro De rerum accidentibus, que alguns bibliógrafos mencionaram à parte, é o décimo nono da obra precedente.

Outro livro, De proprietatibus apum, que foi indicado como de Bartolomeu, é, segundo Sbaraglia, de Tomás de Cantimpré. Citam-se ainda entre as obras de Bartolomeu umas Allegoriae Veteris et Novi Testamenti, que Wadding crê reconhecer nas Allegoriae simul et tropologiae in utrumque Testamentum, Paris, 1574. Esta edição não é senão a reprodução, se é que difere dela de outro modo que não pela folha de rosto, da que dava em 1550 o cartuxo Godofredo Tilman, que a publicava como a segunda deste livro, aparecido quase trinta anos antes na casa de Josse Bade. Ele lhe acrescentou as Allegoriae Psalmorum de Othmar Luscinus, o que levou Lelong a atribuir a obra inteira a este último. As Allegoriae impressas são de Bartolomeu da Inglaterra?

Duvidamos muito, pois seu autor faz empréstimos a escritores posteriores em data a Bartolomeu; por exemplo, cita um Guilherme « de Cailloe », que cremos ser Guilherme de Cayeux, que vivia no fim do século XIV, e um Pedro de Ravena, que bem poderia ser aquele que escrevia um século mais tarde. Tilman considerava este livro como uma obra recente. Talvez a obra autêntica de Bartolomeu se encontrasse no manuscrito 148 da biblioteca comunal de Assis, outrora do sagrado convento, onde se acha um tratado intitulado: Allegoriae Veteris et Novi Testamenti; todavia, o Incipit que dele dá Sbaraglia nos faz duvidar. Quanto aos Sermones, Postillœ, Chronicon de sanctis, etc., que ainda se atribuem a Bartolomeu, as indicações são sumárias demais para permitir um juízo.

Enfim, o livro Contra Laurentium Vallam, que Wadding inscreve ainda sob o seu nome, não pode ser nem do verdadeiro Bartolomeu da Inglaterra, nem do problemático Bartolomeu de Glanville, que teria vivido em 1350, pois Valla lhe é posterior em cem anos. Foi escrito por outro Bartolomeu Facio de Gênova. O verdadeiro e autêntico Bartholomaeus Anglicus, mesmo que fosse autor somente do Propriétaire des choses, isso basta à sua memória, pois isso lhe valeu o título honorífico de Magister de proprietatibus.

Wadding, Annales minorum, an. 1231 et 1367; Scriptores ord. minorum, Roma, 1650; Sbaraglia, Supplementum et castigatio ad scriptores ord. min., Roma, 1807; nouv. édit., Roma, 1908; Hilarin Felder de Lucerne, Histoire des études dans l'ordre de S. François, Paris, 1908, p. 259-286; L. Delisle, Histoire littéraire de la France, Paris, 1888, t. xxx, p. 352; Servais Dirks, Histoire littéraire et bibliographique des frères mineurs de l'observance en Belgique, Antuérpia, 1886, p. 29; Pierre Ridolfi de Tossignano, Historiarum seraphicae religionis libri tres, Veneza, 1536, col. 311; Leto Alessandri, Inventario dell' antica bibliotheca del S. convento di Assisi, compilato nel 1381, Assis, 1906.

P. Edouard d'Alençon.

Autor original: P. Édouard d'Alençon

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