GEÓRGIA

GEÓRGIA

GEÓRGIA. A Geórgia e os georgianos. I. Época primitiva. II. Religião primitiva. III. Conversão da Geórgia. IV. Entre armênios e georgianos. V. Organização da Igreja. Autonomia. VI. História política do séc. V ao séc. XIII. VII. A Igreja georgiana do séc. VI ao séc. XIII. VIII. A vida religiosa na Geórgia. IX. Os georgianos no império bizantino. X. História política do séc. XIII ao séc. XIX. XI. A Igreja georgiana do séc. XIII ao séc. XIX. XII. A Geórgia ocidental. XIII. Organização da Igreja georgiana. Lista dos bispados. XIV. O regime russo na Geórgia. O exarcado. XV. Situação atual. XVI. Lista dos católicos e dos exarcas. XVII. O rito greco-georgiano. XVIII. Hagiografia. XIX. Língua e literatura georgianas. XX. As missões latinas do séc. XIII ao séc. XVII. XXI. Missão dos Padres teatinos (1626-1700). XXII. Missão dos Padres capuchinhos (1661-1845). XXIII. Os católicos georgianos de 1845 até os nossos dias.

— A Geórgia e os georgianos. I. A Geórgia (em russo Grousia, em persa Gourdjistan, em georgiano Karthvélie ou Karthïie) é a parte da Transcaucásia russa conhecida dos antigos sob o nome de Ibéria. Compreende as bacias do Ingour, do Rion (o Fásis dos gregos), do Tchorokh e do Kour (Ciro) até a confluência deste rio com o Alazane. Seus limites são, a nordeste, o Daguestão; ao norte, o Cáucaso; ao sul e a sudoeste, a Armênia e as províncias turcas da Ásia Menor.

A Geórgia divide-se geograficamente, pelos contrafortes que unem o Cáucaso ao Anticáucaso e ao maciço armênio, em três regiões muito diferentes: a oeste, a bacia do Tchorokh; no centro, as do Ingour e do Rion, todas três abertas para o lado do mar Negro, que gozam de um clima úmido e quente e cujo solo é maravilhosamente fértil; a leste, a bacia do Kour, orientada para o mar Cáspio, cujo clima continental é mais seco e mais frio no inverno. As culturas mais diversas, algodão, milho, arroz, trigo, painço, vinha, arbusto do chá, oliveira, figueira, romãzeira, etc., encontram-se por toda parte nas planícies; a criação de gado faz a fortuna das regiões montanhosas do norte e do sul.

Entre as riquezas minerais citemos a hulha, o manganês, a nafta, as minas de prata, de cobre, de ferro e numerosas fontes de águas minerais e termais. Os habitantes, os georgianos ou ibéricos, dão-se o nome genérico de Karthvels, mas estão longe de formar um povo completamente homogêneo. As barreiras naturais que separam as diversas regiões da Geórgia levaram à constituição de agrupamentos distintos, cujos destinos foram muitas vezes bem diferentes. Distinguem-se principalmente, a leste, os Karthvels, que deram o seu nome à raça inteira, e os Kakhètes; a oeste, os mingrelianos, os imerecianos, os gurianos e os lazes; nas montanhas vivem os Svanètes ou Svanes, os Khevsours, os Pchaves e os Thouches. As províncias habitadas por essas diferentes tribos são a Karthlie, a Kakhétie, a Imérétie, a Mingrélie, a Gourie, a Adjarie, a Lazie, a Meskhétie, a Svanétie, a Pchavie, a Thouchétie e a Khevsourie, que correspondem às províncias russas atuais de Grousie, capital Tiflis, de Koutaïs e de Ratoum, bem como a uma parte do vilayet turco de Trebizonda, a Lazie ou Lazistan. Com exceção dos lazes e de algumas outras tribos, que abraçaram o islamismo, todos os georgianos são cristãos e pertencem quase em sua totalidade à Igreja russa oficial, que os incorporou à força no século XIX. Os etnógrafos não estão de acordo quanto a classificar esta raça numa categoria determinada. Ela é certamente indo-europeia, mas parece formar, com certas outras que habitam o Cáucaso, uma categoria à parte, que os sábios acabaram por designar com o epíteto puramente geográfico de raças caucasianas.

II. Época primitiva. As lendas indígenas fazem remontar as origens do povo georgiano a Karthlos, descendente de Jafé, que se estabeleceu às margens do Kour, na sua confluência com o Aragvi, e ali fundou a cidade de Karthli, que mais tarde deu o seu nome a toda a província. Outro grupo instalou-se em Mtskhet, à beira do Kour; a fundação dessa cidade, que foi durante muito tempo a capital da Geórgia, é geralmente atribuída a Mtskhétos, filho de Karthlos. Rrosset, Histoire de la Géorgie, São Petersburgo, 1849, t. i, p. 15-23. Seja o que for dessas lendas, a história e a arqueologia concordam em constatar, desde a mais alta antiguidade, a presença dos georgianos nas regiões que ainda hoje habitam. Estendiam-se mesmo mais a oeste e sobretudo ao sul, no maciço armênio. A maior parte dos orientalistas é, com efeito, de opinião que é preciso identificá-los com os famosos alarodianos do reino de Ourartou, cujo centro era a cidade de Van e que deixaram inscrições cuneiformes muito interessantes. F. Lenormant, Histoire ancienne de l'Orient, Paris, 1882, t. iv, p. 245 sq.

Se os georgianos não são os verdadeiros descendentes dos alarodianos, são pelo menos certamente aparentados com eles. É, pois, impossível admitir as pretensões dos armênios de se apresentarem como legítimos sucessores dos ourartianos. F. Lenormant, Maspero, Th. Reinach, Robert e outros provaram, com efeito, que os armênios ou Haïgs só deixaram a Frígia, onde estavam acampados, por volta do fim do século VII, e que, por migrações sucessivas, chegaram às regiões que ainda habitam, por volta do fim do século VI. G. Maspero, Histoire ancienne des peuples de l'Orient, Paris, 1905, p. 764 sq. Os alarodianos (de Alarud por Ararud, Ararat) formavam provavelmente uma fração importante dos Khétas ou hititas, cuja dominação se estendeu por toda a Ásia Menor e que enviaram colônias até a Europa. Segundo Heródoto, eram igualmente aparentados com os Moschi, os Tibareni, os Macroni e os Colchi, cujos descendentes se encontram entre os habitantes do Cáucaso. Estiveram muito frequentemente em guerra contra o império assírio, do século XII ao século VII antes de Jesus Cristo. Sobreviveram mesmo a esse império, mas, enfraquecidos pelas invasões dos citas e dos cimérios no século VII, e também pelo seu fracionamento em múltiplas tribos rivais, recuaram pouco a pouco para o norte diante dos armênios invasores. Por volta de 540, Ciro, o Grande, submeteu a Geórgia, que formou com a Albânia, região vizinha, a 18ª satrapia sob Dario (521-485).

Desde há muito tempo, a Geórgia mantinha relações com a Grécia. É na Cólquida (a atual Mingrélie) que os argonautas foram, segundo a lenda, buscar o Velocino de Ouro, sob a direção de Jasão. Os gregos continuaram a ir até lá para fazer comércio e ali estabeleceram mesmo colônias. Um dos tenentes de Alexandre, chamado Azon, submeteu o país e atribuiu-se o governo dele por ocasião da morte do herói macedônio. As exações a que se entregou provocaram uma revolta e ele foi derrubado por um chefe indígena, Pharnavaz, que se proclamou rei. Foi Pharnavaz quem teria inventado o alfabeto georgiano. Alguns autores atribuem-lhe a introdução do culto persa de Ahoura-Mazdâh ou Ormuz, ao qual um ídolo foi erguido em Mtskhéta sob o nome de Armaz. Veremos um pouco adiante que nem todos os historiadores explicam da mesma maneira a atitude desse rei diante do masdeísmo.

Os romanos tentaram por várias vezes conquistar as ricas províncias do Cáucaso, mas só o conseguiram em 63 antes de Jesus Cristo, sob a direção de Pompeu. Os reis indígenas conservaram o seu trono sob a condição de reconhecer a supremacia de Roma. Pharnavaz I havia fundado, no século IV antes de Jesus Cristo, a dinastia dos Pharnavazidas, substituída momentaneamente pela dos Archakidas na pessoa do rei armênio Archak (século I antes de Jesus Cristo). As guerras entre os representantes dessas duas dinastias foram obstinadas e duraram até o reinado de Mirian, que fundou a terceira dinastia, a dos sassânidas, no fim do século III de nossa era. Os Pharnavazidas eram apoiados pelos persas e os Archakidas pelos armênios. —

III. Religião primitiva. A religião primitiva dos georgianos só foi estudada até agora de maneira muito sumária. Além disso, só é conhecida pelo que dela persiste nos contos e cantos populares. Até aqui, com efeito, foi impossível descobrir qualquer monumento antigo ou qualquer documento escrito que permitisse lançar sobre o assunto um pouco de luz. Seremos, pois, forçados a nos ater aos detalhes que nos fornecem as lendas populares. Fá-lo-emos segundo o que diz o eruditíssimo professor A. Khakhanachvili, em sua Histoire de la littérature géorgienne, Tiflis, 1904 (em georgiano). Ver-se-á por este estudo que houve provavelmente superposição de várias religiões, ou pelo menos influência de religiões estrangeiras sobre a da Geórgia. Mas é difícil reconhecer as crenças primitivas em meio aos aportes que vieram enriquecê-las ou deformá-las no decorrer dos tempos.

As divindades. Pode-se admitir que os primeiros georgianos eram monoteístas, como a maior parte dos povos primitivos. Parece que mais tarde identificaram Deus com o sol e com a abóbada celeste, como o fizeram os arianos e os iranianos. O zoroastrismo exerceu em seguida uma influência considerável sobre as crenças dos georgianos. Poder-se-á facilmente dar-se conta disso por certos detalhes que vão seguir-se. Em uma época indeterminada, admitiram a dualidade na divindade. Houve o Deus bom, identificado com o sol, autor do bem e criador do homem, e o deus mau, Arimani, inimigo da luz (sol) e do homem. O sol, ou o deus bom, estava constantemente em guerra contra o deus mau e não cessava de espalhar sobre os mortais a luz e o calor. Tinha as suas festas, os seus altares e os seus ministros. O povo celebrava com grandes regozijos a sua vitória sobre o frio glacial do inverno, quando rejuvenesce na primavera a natureza inteira.

Embora o cristianismo tenha penetrado cedo na Geórgia, a crença no sol deixou vestígios manifestos. Ainda hoje se encontram reminiscências da religião primitiva misturadas e confundidas com episódios do Evangelho. Não somente se personificava e adorava o sol, mas lhe ofereciam sacrifícios e lhe rendiam ações de graças pelo grande benefício que proporcionava à terra por meio da sua aparição brilhante. Eis uma oração antiga que ainda se costuma recitar quando chove: «Sol, sol, levanta-te, eu te imolarei uma ovelha gorda, cozinhar-ta-ei, salgar-ta-ei e ta oferecerei numa bandeja.» Existe também uma roda que outrora se dançava em honra do sol e cujo movimento circular lembra provavelmente a rotação desse astro. Os dançarinos cantavam: delà, delà, matin, matin, em sinal da alegria e da veneração que lhes inspirava a vista dos primeiros raios do sol. A roda continua em honra. Além disso, este costume passou de tal modo aos hábitos que todas as canções populares devem, ainda hoje, conter a palavra delà, repetida pelo menos duas vezes.

Primitivamente, o sol não era representado sob figura humana. Foi só mais tarde, sob a influência quase certa do masdeísmo, que se lhe ergueu um ídolo chamado Armaz (compare-se com o Ahoura-Mazdâh dos persas, em parsi Ormazd). Essa transformação introduziu o culto do fogo, pelo menos enquanto durou a dominação dos persas sobre a Geórgia. Segundo os autores georgianos, Pharnavaz, rei da Geórgia no fim do século IV antes de Jesus Cristo, quis subtrair o seu reino à influência persa fazendo desaparecer o culto do fogo importado pelos persas. Não se contentou em destruir os templos e expulsar os magos, inventou ainda um novo alfabeto, o khoutsouri ou sacerdotal, para consumar a destruição do culto proscrito. Tal é pelo menos a tese dos autores georgianos.

Armaz tinha um herói mortal, Amirani, o Prometeu georgiano, que é o assunto de lendas típicas ainda muito difundidas nas regiões do Cáucaso. Segundo os contos populares, o deus mau chamava-se Arimani, que os georgianos tinham identificado com o deus dos persas, provavelmente em lembrança das perseguições que tiveram de sofrer da parte desse povo. Arimani, inimigo da luz e do homem, tinha também o seu herói, o Dragão, e demônios a seu serviço, os daivis. O Dragão e os daivis perseguiam com encarniçamento os homens que Amirani, o herói do deus bom, protegia. O dragão desempenha um papel importante no rapto do Velocino de Ouro. Virgílio representou-o muito bem no episódio de Laocoonte. Eneida, II, 199-233.

O dragão vencido por são Jorge da Capadócia é provavelmente uma reminiscência desse monstro. Os daivis da tradição georgiana não se assemelham inteiramente aos daivas de Zoroastro, embora tenham provavelmente uma origem comum. Não são puros espíritos; levam uma vida errante em meio aos frutos e aos rochedos, procurando sempre prejudicar o homem, em toda parte onde o encontram. Atribuem-lhes por vezes várias cabeças. Qualquer que seja a forma que se lhes empreste, são sempre de estatura colossal. É provável que se devam assimilá-los aos Titãs da mitologia grega. Além do Dragão e dos daivis, Arimani, o deus mau, tinha ainda a seu serviço os cadjis e os tchincas. Os cadjis desempenhavam o papel mais importante após a derrota dos daivis. Levam uma vida à parte, regidos por leis particulares que fazem deles uma sociedade inteiramente especial. Seria longo demais descer a detalhes no que lhes diz respeito. Encontrar-se-ão maravilhosamente descritos no imortal poema de Chota Roustavéli, La peau de léopard, edit. Achas Borin, Paris, 1885. Os tchincas são espécies de sereias terrestres que atraem os homens por seus artifícios a fim de perdê-los.

À parte os dois princípios do bem e do mal, os primeiros georgianos tinham ainda outras divindades, que não é fácil conciliar com o dualismo dos princípios. O deus da guerra era Soutékhi e a sua mulher, a deusa Antta ou Analta (= ela iluminou) ou ainda Anouka, que percorre os céus num carro triunfal. A lua chamava-se Touth. No dialeto mingreliano, a palavra toutha significa ainda lua. O deus do disco solar chamava-se Khoud ou Khout, donde a palavra georgiana Ghouta, que significa divindade. Bcsse, ou Basse, ou Pacht, ou Bast era a esposa do deus trino Phta, divindade bastante misteriosa, que personificava as forças criadoras. No dialeto da Svanétie, a palavra Phous ou Phoust significa Senhor. Havia também outro deus que trazia o nome de Botchi.

Donde vinham essas diversas divindades? É bem difícil dizê-lo. Algumas parecem o desenvolvimento do culto do sol, como Touth, Khoud e talvez Antta. Há também as que lembram a mitologia egípcia, como Phta, que se encontra em Mênfis com os mesmos atributos. Coisa curiosa, fizeram-se numerosas aproximações entre as crenças do Egito e as da Geórgia. Seria longo demais enumerá-las aqui. Contentemo-nos em dizer que o culto do gato existia no Cáucaso, tanto quanto às margens do Nilo. Ainda hoje, os Pchav-Khevsours, tribo montanhesa meio pagã, fazem juramento segurando um gato entre as mãos. Existe também um dito muito difundido na Geórgia: «Aquele que mata um gato deve construir sete igrejas para ter a vida eterna.» Essas aproximações, que provavelmente não são fortuitas, seriam uma prova em favor dos historiadores que querem ver nos georgianos e nos hicsos do Egito duas frações da família dos heteus ou hititas.

— 2º Os fins últimos. Os primeiros georgianos admitiam a imortalidade da alma, o seu julgamento após a morte, o céu e o inferno. Resumimos as crenças segundo a Histoire de la Géorgie de G. Djanachvili, Tiflis, 1906, p. 30-32 (em georgiano). Após a morte, a alma voa para o outro mundo como uma «borboleta leve». Encontra primeiro «campos semeados», expressão que ainda não se pôde explicar de maneira satisfatória; parece que a alma ali passa algum tempo antes de sofrer a prova do julgamento. Deve, para isso, atravessar um lago de betume por meio de um fio estendido. O gato e o cão vêm então ao seu encontro. O primeiro unta de gordura o fio para precipitar a alma no betume, ao passo que o segundo lambe a gordura e a retira. (O cão é considerado o amigo do homem; é só ele que toma a defesa de Amirani.)

Durante essa prova, a alma se encontra na presença dos juízes que pesam as suas obras. Se as boas ações forem as mais pesadas, ela vai então diretamente para o paraíso, situado além do lago, e onde entra pela «porta da felicidade». Esse paraíso parece ter por moldura os ricos vales da Geórgia, e a sua concepção materialista da felicidade corresponde ao temperamento alegre dos habitantes. Os justos gozam ali, com efeito, de uma felicidade sem fim num lugar bem iluminado e verdejante. Têm a mesa eternamente servida; alegram-se, cantam e se divertem de mil maneiras (entre os georgianos não há refeição solene sem cantos). Se, ao contrário, as más ações fizeram pender a balança, a alma é imediatamente precipitada no inferno, lugar de prantos e de tormentos, que não é outro senão o lago onde borbulha o betume. A abundância dessa matéria na Geórgia explica tal concepção. O inferno e o paraíso são, pois, propriamente georgianos. Quando o falecido carece de alimento durante a sua permanência nos «campos semeados», vagueia de noite de aldeia em aldeia e come o que pode encontrar. A pobreza e a penúria em que por vezes cai fazem nascer nele um terrível ódio contra os seus parentes vivos. Por isso procura causar-lhes toda sorte de males, até que tenha obtido com que subsistir. É uma crença que se encontra em muitos povos, particularmente entre os romanos. —

IV. Conversão da Geórgia. Como a maior parte das Igrejas orientais e muitas Igrejas ocidentais, a da Geórgia procurou fazer remontar as suas origens até os apóstolos. Mais ainda, pretende ter possuído, logo após a Paixão, a santa túnica de Nosso Senhor. Eis o que contam a esse respeito os Annales géorgiennes, vasta compilação feita no início do século XVIII sobre documentos muito antigos. Após a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, grande número de judeus se estabelecera na Geórgia, principalmente em Mtzkhéta, a capital. O sumo sacerdote Anás enviou aos seus correligionários do Cáucaso um emissário para pedir-lhes que viessem à Cidade santa e se pronunciassem a respeito de Jesus, que se pretendia o Messias. Os judeus da Geórgia deputaram dois dos seus, Élioz de Mtzkhéta e Longinoz de Carsan. Esses delegados só chegaram a Jerusalém após a condenação do Salvador, a tempo de assistir à sua crucifixão. «Quando a sorte foi lançada, pelos judeus ímpios que assistiam ao seu suplício, sobre a veste de Nosso Senhor, a providência fê-la caber aos deputados de Mtzkhéta.» Élioz e Longinoz levaram-na para o seu país, onde teria sido conservada desde então até a invasão árabe, por volta de meados do século VII. Brosset, op. cit., t. i, p. 53.

Além de certos detalhes manifestamente inventados para embelezar o relato, é muito difícil admitir a convocação por Anás de seus confrades do Cáucaso; a história não diz uma palavra a respeito; aliás, os judeus de Jerusalém bastavam para condenar o Salvador. Quanto ao relato da partilha das vestes, é certamente falso, pois é em todos os pontos contrário ao texto dos Evangelhos. Não são os judeus, mas os soldados romanos que fizeram essa partilha. Certos historiadores, com o evidente propósito de conciliar a qualquer preço a tradição popular com a história, pretendem que o soldado favorecido pela sorte era georgiano. É uma asserção puramente gratuita. Apesar da inverossimilhança dessa lenda, parece certo, contudo, que ela foi universalmente admitida na Geórgia desde uma antiguidade muito alta. A relíquia ali teria sido sempre em grande honra. Consagrou-se-lhe mesmo uma festa que se tornou de certo modo a festa nacional, e que se celebra no dia 1º de outubro. Os Padres da Igreja georgiana contam numerosos milagres operados pela santa túnica. Ela chegou mesmo a ocupar lugar nas armas da família real. À parte a influência exercida na Geórgia pela presença da santa túnica, a tradição popular quer que o apóstolo santo André tenha tido uma parte muito grande na conversão desse país. Os Annales géorgiennes contêm a esse respeito detalhes tão lendários quanto os que acabamos de assinalar a propósito da santa túnica.

Se lhes dermos crédito, foi à própria santíssima Virgem que coube a Geórgia, por ocasião da partilha do mundo entre os apóstolos. Para cumprir a sua missão, Maria escolheu, segundo uma revelação de seu divino Filho, o apóstolo santo André, o protoclito (primeiro chamado). Este pôs-se ao trabalho com ardor, sustentado pela contemplação de uma imagem milagrosa da santíssima Virgem, que a Mãe de Deus lhe havia dado aplicando o seu rosto sobre uma tábua. Depois de ter convertido o povo inteiro por sua pregação e seus milagres, santo André teria ido evangelizar outras regiões. Brosset, op. cit., t. i, p. 55-61. M. Giavakhov, professor georgiano, Moambé (revista georgiana), Tiflis, 1900, n. 6, p. 35-50, faz ao relato dos Annales várias objeções às quais parece muito difícil responder. Não se encontra nenhuma menção do apostolado de santo André na Geórgia, nem na Histoire ecclésiastique de Rufino, que conta a conversão desse país por santa Nino, no século IV, nem na Vie de Pierre l'Ibère, que é do século VI, nem na Conversion de la Géorgie, escrita por volta do século VII ou VIII, nem na introdução apócrifa à Vie de sainte Nino, do século VIII ou do século IX.

Segundo esse crítico, os georgianos nada souberam, até o século IX, da missão de santo André entre eles. Essa lenda foi provavelmente criada de alto a baixo pelos monges georgianos do império grego, que queriam sustentar, contra o clero bizantino, a independência de sua Igreja. Como os gregos pretendiam, para desculpar suas tendências separatistas em relação a Roma, que Bizâncio havia sido evangelizada por santo André, o protoclito, os georgianos, para não parecerem inferiores, reivindicaram o mesmo apóstolo como primeiro missionário de sua pátria. A opinião de M. Giavakhov concorda demais com o que sabemos das discussões que se levantaram na Idade Média a propósito das preeminências das Igrejas, para que não a acolhamos com favor. Distribuíram-se então os doze apóstolos e os setenta e dois discípulos entre as diferentes Igrejas, para vinculá-las de maneira certa aos tempos apostólicos. Os textos citados em apoio da tradição georgiana não são anteriores ao século X. Se os monges dos diversos conventos georgianos do império bizantino tivessem conhecido as razões probantes que nos fazem rejeitar hoje a fundação da Igreja de Constantinopla por santo André, não teriam tido de criar lenda para fazer frente aos gregos. Apesar do que acaba de ser dito, não parece impossível admitir que santo André possa ter exercido certa influência sobre a conversão da Geórgia.

Se ele evangelizou a Cítia, como relata Orígenes, P. G., t. xii, col. 92, é possível que tenha atravessado o Cáucaso para chegar lá, pois era o caminho mais direto da Ásia Menor para a Cítia. Nada nos impede de pensar, nesse caso, que ele pôde fundar aqui e ali algumas cristandades, pelo menos na Geórgia ocidental, mais acessível e em relações constantes com os países gregos. Mas apressemo-nos a dizer que isso não passa de uma pura hipótese, que nenhum documento anterior ao século X vem confirmar. Os missionários que evangelizaram muito cedo o Ponto, na esteira de são Pedro, talvez tenham também concorrido, senão por si mesmos, ao menos por meio de seus discípulos, para a conversão da Geórgia. Barônio, Annales ecclesiastici, t. ii, an. 100, n. 10-12, forçando um texto de santo Ireneu, atribui a evangelização desse país ao papa são Clemente, relegado por Trajano ao Quersoneso Táurico (Crimeia).

Mesmo que o texto de santo Ireneu tivesse o sentido que Barônio lhe dá, parece-nos difícil admitir que o cativeiro do santo papa lhe deixasse liberdade para ir pregar a verdadeira fé na Geórgia. Contudo, é possível que seus discípulos tenham estendido seu apostolado até as montanhas do Cáucaso. Uma coletânea de vidas de santos georgianos, Sabinini, Éden da Geórgia, p. 621-627, menciona, por volta do fim do século I, dezenove mártires mortos na Albânia (a atual Kakhétia), província oriental da Geórgia. Se o martírio desses santos é autêntico, é muito duvidoso que tenha ocorrido no fim do século I, sobretudo na Geórgia oriental, que era a parte menos acessível. Em resumo, não possuímos nenhum testemunho certo da evangelização da Geórgia durante os três primeiros séculos. Estamos reduzidos a hipóteses que, no entanto, não carecem de verossimilhança.

Mas, se o cristianismo havia penetrado nesse país, estava longe de ter conduzido à verdadeira fé a massa da população, sobretudo no centro e no leste. A honra de converter o reino inteiro estava reservada a uma pobre escrava, santa Nino. Em sua História eclesiástica, I, c. x, P. L., t. xxi, col. 480 sq., Rufino relata, sem muitos detalhes aliás, a missão que a santa cumpriu na Geórgia. Era uma cativa cristã que os Ibéricos haviam levado no decurso de uma incursão entre seus vizinhos, provavelmente numa província do império romano. Ela não tardou a causar admiração entre os nativos por sua vida piedosa e casta e sobretudo pela cura de uma criança que obteve por suas orações. Informada desse fato, a rainha, que estava doente, recorreu à santa e recobrou ela mesma a saúde. Esse favor celeste a converteu e ela empregou desde então todos os seus esforços em ganhar o esposo para a verdadeira fé. Só o conseguiu quando o rei Mirian foi miraculosamente libertado de um perigo iminente durante uma caçada.

A pedido do príncipe, Nino traçou o plano de uma igreja, cuja construção ele confiou a seus operários mais hábeis. Enquanto isso, a santa pregava sem descanso a verdadeira religião, quando um milagre retumbante veio dar mais força à sua palavra. Durante a construção da igreja, os operários, depois de terem colocado no lugar as duas primeiras colunas, não conseguiram, apesar de seus esforços, erguer a terceira e tiveram de abandonar o trabalho, profundamente desanimados. À noite, quando todos se haviam retirado, santa Nino veio passar a noite em orações no edifício em construção. Pela manhã, grande foi a surpresa do rei e de sua comitiva ao encontrarem a coluna de pé, mas como que suspensa a um pé de distância do solo. Diante de seus olhos, ela desceu lentamente e foi colocar-se por si mesma sobre sua base. Um tal prodígio, impressionando vivamente a imaginação popular, facilitou grandemente a pregação de santa Nino.

Uma vez construída a igreja, era preciso encontrar sacerdotes para batizar o povo e completar sua instrução religiosa. O rei Mirian enviou para tal fim uma embaixada ao imperador Constantino, suplicando-lhe que lhe mandasse homens instruídos para concluir a conversão de seus súditos, «o que Constantino fez com tanta alegria como se tivesse acrescentado uma província ao império romano.» Tal é, em substância, o relato que fez a Rufino, por volta de 380, o príncipe georgiano Bacout ou Bacúrio, duque das fronteiras da Palestina e general de Teodósio o Grande, junto de quem se fez matar gloriosamente por ocasião da revolta do tirano Máximo.

Certos detalhes parecem já deformados pela lenda, mas Rufino escrevia numa época bastante próxima dos acontecimentos para que seu relato possa ser admitido no conjunto. Ele não indica, é verdade, nenhuma data precisa; parece bem, contudo, por causa dos outros documentos, que se deve situar a conversão da Geórgia entre os anos 320 e 330. Quanto a santa Nino, a imaginação popular teceu-lhe uma vida [trecho ilegível no original], na qual sua fantasia se deu livre curso; compôs-lhe uma brilhante genealogia [trecho ilegível no original] e atribuiu-lhe aventuras maravilhosas que não podemos relatar aqui. Os relatos paralelos, mais ou menos desfigurados, que se encontram entre os autores árabes, sírios e coptas dão-lhe o nome simbólico de Teógnosta. Ela é conhecida no Ocidente sob o de Cristiana e mencionada no martirológio romano na data de 15 de dezembro.

O nome de Nino ou Nina (Nounê em armênio) que ela recebeu na Igreja georgiana é provavelmente a deformação de Nonna, denominação pela qual se designavam desde cedo as virgens consagradas a Deus. Os historiadores bizantinos e georgianos são unânimes em afirmar que o imperador Constantino, a pedido do rei Mirian, enviou ao Cáucaso um bispo e sacerdotes. O nome desse prelado não é conhecido de maneira certa, embora os georgianos o chamem João. Tampouco se sabe qual foi o bispo bizantino que o enviou. Gelásio de Cízico (por volta de 475) é o único a dizer que foi Alexandre, bispo de Constantinopla. Ceriani, Monumenta sacra et profana, Milão, 1866, t. i, p. 139.

Segundo uma opinião que só é conhecida desde o fim do século XVIII e que se baseia em documentos do século XII obscuros demais para que se possa tirar deles algo de certo, teria sido o patriarca Eustácio de Antioquia que viria pessoalmente batizar os georgianos e ordenar-lhes um bispo. Como a Igreja da Geórgia dependeu da de Antioquia, pelo menos até o século VIII, é preciso admitir que muito cedo se estabeleceram entre essas duas Igrejas relações muito estreitas, sem o que não se poderia explicar que a Geórgia tenha permanecido tanto tempo fiel a essa dependência, nem que a tenha pedido mais tarde, quando podia declarar-se autônoma. Uma vez organizada, ela não teria aceitado submeter-se a uma Igreja longínqua à qual nada a ligava.

Nenhum documento nos informa como se estabeleceu esse vínculo de dependência. Parece que a embaixada do rei Mirian chegou junto de Constantino durante a celebração do concílio de Niceia. Pode muito bem ser que o imperador tenha confiado a santo Eustácio, escolhido no ano anterior como patriarca de Antioquia e cuja influência era então considerável, a missão de atender aos pedidos dos georgianos. Antioquia exercia nessa época sobre todo o Oriente, fora o Egito, uma supremacia incontestada, e entrava muito naturalmente nas atribuições de seus patriarcas organizar as novas Igrejas das regiões orientais. Pode-se, portanto, admitir sem muita dificuldade que o primeiro bispo enviado aos georgianos foi designado e sagrado por santo Eustácio, e que essa intervenção criou em proveito dos patriarcas de Antioquia um direito de suserania. Quanto à viagem que o santo teria feito à Geórgia, parece-nos nitidamente improvável. Eustácio foi elevado ao trono patriarcal em 324 e deposto seis anos mais tarde sob a influência dos arianos. Não se encontra nos autores gregos nenhum vestígio da missão que ele teria cumprido entre essas duas datas, e é muito improvável que o imperador Constantino o tenha enviado à Geórgia depois de sua deposição.

Não se deveria crer que todos os georgianos foram convertidos à fé cristã sob o rei Mirian. Além de este não estender sua autoridade sobre todas as tribos, está longe de ser verdade que, na região que lhe era submetida, o paganismo tivesse inteiramente desaparecido. Veremos mais adiante que houve uma luta muito viva da parte dos masdeístas contra a nova religião. Na Geórgia ocidental (Cólquida, Lazica e Abázia), a verdadeira fé só havia conquistado o povo. É somente por volta de 522 que o rei desse país abraçou a religião cristã. Certo número de autores pensou que a nação inteira seguiu então seu príncipe. Não é assim. Procópio (565) nos informa que os Lazes eram observantes muito fiéis do cristianismo, De bello persico, I, c. XII, e que possuíam um convento e uma igreja no deserto de Jerusalém, De aedificiis, IV, c. vii, o que indica entre eles uma intensa vida cristã.

Resta-nos, a propósito da conversão da Geórgia, tratar de uma questão que, há longos séculos, opõe armênios e georgianos. Os historiadores armênios criaram em torno da vida de santa Nino toda uma série de lendas com o evidente propósito de atribuir ao seu país uma parte da honra de ter introduzido a verdadeira fé nas regiões do Cáucaso. Moisés de Corene, História da Armênia, Veneza, 1865, l. II, c. lxxxvii, p. 169 sq., e muitos outros depois dele não hesitaram em fazer da apóstola da Geórgia uma companheira das santas Hripsimés, célebres virgens armênias martirizadas no século IV. Quando a Geórgia pareceu disposta a fazer-se cristã, dizem eles, santa Nino enviou, a pedido do rei Mirian, uma embaixada a são Gregório o Iluminador para reclamar seu concurso na obra apostólica que ela havia empreendido. O apóstolo da Armênia lhe enviou missionários e um pedaço da verdadeira cruz, que foi por muito tempo venerado na Geórgia como o paládio da nação.

Conhecem-se hoje suficientemente as deformações sistemáticas da história de que se tornou culpado Moisés de Corene em proveito de sua pátria, para que ele não seja também aqui suspeito. Sua antiguidade é, aliás, muito contestada em nossos dias. Muitos autores admitem, com o sr. Carrière, Moïse de Khorène et les généalogies patriarcales, Paris, 1891; Nouvelles sources de Moïse de Khorène, Viena, 1893; Les huit sanctuaires de l'Arménie païenne, Paris, 1899, que ele não é do século VI, como se acreditou por muito tempo, mas do fim do século VII ou do começo do século VIII. Seu relato foi, portanto, composto numa época demasiado distante dos acontecimentos para que tenha o mesmo valor que o dos historiadores latinos e bizantinos.

Diremos mais adiante que, segundo os armênios, existiu durante cerca de um século uma união estreita entre a sua Igreja e a da Geórgia. É provavelmente sob a influência desse fato, verdadeiro ou falso, e para aumentar o prestígio de sua nação, que os historiadores armênios concordam em ver em são Gregório o Iluminador o enviado de Deus que ajudou santa Nino em sua obra apostólica. Fazia apenas uns trinta anos que ele havia convertido o rei e parte da população da Armênia quando se produziu o movimento que levou a Geórgia ao cristianismo. Restava-lhe trabalho suficiente em sua pátria para que não dispersasse seu zelo por duas regiões tão vastas quanto a Armênia e a Geórgia. Um grande número de autores modernos crê, aliás, que ele morreu entre 315 e 320, isto é, alguns anos antes dos acontecimentos que acabamos de narrar.

Além disso, temos duas graves razões para não admitir a tradição armênia: 1º Os autores latinos e gregos, como Rufino, P. L., t. xxi, col. 480 sq.; Teodoreto, P. G., t. lxxxii, col. 972 sq.; Sozomeno, P. G., t. lxvii, col. 129 sq.; e Sócrates, P. G., t. lxvii, col. 953, que escreviam numa época bastante próxima dos acontecimentos e que não tinham nenhum interesse em deformá-los num sentido desfavorável aos armênios, não dizem uma palavra das relações de santa Nino com são Gregório o Iluminador. Os historiadores bizantinos posteriores, Gelásio de Cízico por exemplo, são igualmente mudos sobre esse ponto. 2º Se a Geórgia tivesse recebido a verdadeira fé da Armênia, como explicar que ela tenha dependido tanto tempo da Igreja de Antioquia? Os catolicós armênios estavam submetidos a Cesareia e não a Antioquia. Quanto a pretender que foi depois de separar-se da Igreja da Armênia, no fim do século VI, que a da Geórgia reclamou

Os georgianos protestam energicamente que nunca tiveram relações íntimas com os armênios e, sobretudo, que em nenhum momento dependeram da Igreja armênia. Segundo eles, existiram no máximo entre as duas Igrejas relações de boa fraternidade cristã, mas nada mais. Não é fácil fazer a partilha exata entre o verdadeiro e o falso quando nos achamos diante de asserções tão opostas, que um patriotismo ciumento certamente influenciou. Vamos, no entanto, tentar elucidar a questão com o auxílio dos documentos que nos chegaram dessa época longínqua. À primeira vista, pareceria que a Igreja da Geórgia foi realmente submetida à da Armênia. Moisés de Corene, Agatângelo, a versão armênia de Fausto de Bizâncio (o texto primitivo foi certamente remanejado pelo tradutor), etc., fornecem vários exemplos da jurisdição exercida pelos catolicós armênios sobre a Geórgia.

Vartanes, filho de são Gregório o Iluminador e seu segundo sucessor, estabeleceu seu filho mais velho, Grigoris, de quinze anos de idade, como catolicós dos Ibéricos e dos Aghovans ou Albaneses. Fausto de Bizâncio, História, l. III, c. v. Nerses o Grande (364?-384), outro catolicós armênio, envia para governar a Igreja da Geórgia seu diácono Jó. No começo do século V, Mesrob, inventor do alfabeto armênio, compõe um do mesmo gênero para os georgianos e cuida de mandar traduzir os Livros santos para a língua deles. Veremos mais adiante o que se deve pensar dessa asserção. Enfim, certo número de bispos georgianos assistem ao famoso sínodo nacional armênio de Vagharchapat (491), que adotou os erros monofisitas e condenou o concílio de Calcedônia.

Aos textos armênios que acabamos de resumir juntam-se outros que têm fonte georgiana. O sr. Marr, professor em São Petersburgo, descobriu vários documentos que parecem dar razão às pretensões dos armênios. Uma coletânea de Vidas de santos do século X, descoberta por ele no mosteiro de Iviron, no monte Athos, informa-nos que outrora os georgianos celebravam os mesmos santos principais que os armênios. Marr, Voyage d'étude au mont Athos, São Petersburgo, 1899 (em russo), p. 16. Além disso, um antiquíssimo manuscrito georgiano do Sinai diz que as duas Igrejas haviam admitido os usos tão energicamente condenados pelos prelados bizantinos, isto é, os madaghs (sacrifícios) e o jejum de Artchavour, estabelecido em memória do dos ninivitas e que os gregos sempre perseguiram com seus anátemas. Marr, Rapport préliminaire sur les travaux concernant le Sinaï... et Jérusalem, São Petersburgo, 1903 (em russo), p. 12-13.

O Sinai possui ainda dois hinos, um em honra de são Gregório o Iluminador, no qual os georgianos são chamados o «rebanho de são Gregório», o outro em honra de santa Nino, que cita a Geórgia como fazendo parte da Igreja de são Bartolomeu. Marr, op. cit., p. 41. (Sabe-se que os armênios querem que esse apóstolo tenha evangelizado sua pátria.) São Jorge Mtatsmindéli, higúmeno do mosteiro dos Ibéricos no monte Athos, um dos principais tradutores georgianos do século XI, reconhece ele mesmo no prefácio de suas obras que os armênios haviam semeado a «cizânia», isto é, o erro, nos textos dos Livros santos, o que o obrigou a rever as traduções existentes. Khakhanachvili, Histoire de la littérature géorgienne, Tiflis, 1904 (em georgiano), p. 98. Essa infiltração dos erros armênios não indicaria uma união muito estreita entre as duas Igrejas?

Está, aliás, mais ou menos provado que boa parte das primeiras traduções da Escritura para o georgiano foi feita sobre o texto armênio. Explicamos acima as razões pelas quais nos parece impossível admitir que a conversão da Geórgia tenha sido obra dos armênios. Mas não se segue de modo algum que não tenha existido depois uma união muito estreita entre as duas Igrejas e que a Geórgia não tenha dependido durante certo tempo dos catolicós armênios. Diante da concordância dos textos que acabamos de resumir, deveríamos reconhecer que a Igreja armênia exerceu momentaneamente uma jurisdição efetiva sobre toda ou parte da Geórgia. Convém lembrar, com efeito, que esse país não formava um único reino, mas vários principados mais ou menos autônomos, de modo que certas províncias puderam ser submetidas aos catolicós armênios sem que a nação inteira participasse dessa dependência.

Em que época se teria feito essa união? Estamos reduzidos a hipóteses. A parte oriental da Geórgia caiu sob o jugo dos persas por volta de 498, como a Armênia em 451. O que sabemos da política religiosa dos xás leva-nos a crer que eles provavelmente exerceram pressão sobre os georgianos para submetê-los à Igreja armênia, a fim de subtraí-los assim a uma autoridade espiritual estrangeira ao seu império e necessariamente suspeita ao governo. Mas aos documentos armênios podem-se opor os que a Geórgia fornece e que não merecem menor crédito. Os georgianos, aliás, se consideram capazes de explicar aqueles que lhes opõem seus adversários. É, pois, quase impossível, no estado atual de nossos conhecimentos, formar uma opinião certa sobre a dependência da Geórgia inteira em relação aos catolicós armênios. Preferimos deixar em suspenso uma questão tão delicada a dar, num sentido ou noutro, uma conclusão apressada.

Compreende-se que os georgianos protestem contra a união das duas Igrejas, pois, se ela realmente existiu, acarretou consequências gravíssimas do ponto de vista da fé. Tendo os armênios admitido pouco a pouco os erros monofisitas, os georgianos teriam feito o mesmo. Quanto aos vinte e dois bispos georgianos que teriam assistido ao sínodo de Vagharchapat, os georgianos afirmam que eram Aghovans, que não são da mesma raça que eles. Os autores armênios parecem dar-lhes razão neste ponto.

Quaisquer que tenham sido as relações entre as duas Igrejas, uma violenta reação produziu-se por volta do fim do século VI, mais nacional talvez que religiosa. Sob o impulso do catolicós Kvirion (Kiouron, Kyron, o Quiricus ou Quirinus dos latinos) de Mtzkhéta, os georgianos sacudiram o jugo do catolicós armênio e proclamaram-se partidários do concílio de Calcedônia. No sínodo de Tvin (596 ou 597), o catolicós armênio Abraão excomungou solenemente os dissidentes e proibiu severamente a seus fiéis irem venerar a relíquia da verdadeira cruz em Mtzkhéta. A essa proibição, Kvirion respondeu proibindo os georgianos de irem em peregrinação aos santuários armênios de Vagharchapat. Kvirion escreveu ao papa são Gregório Magno, que lhe respondeu com uma carta de felicitações. Epist., l. IX, epist. lxvii, P. L., t. lxxvii, col. 1204.

Desde essa ruidosa separação, um ódio profundo reinou entre esses dois povos vizinhos. Ele cresceu mesmo no decorrer das eras por causa de injustiças recíprocas e conserva ainda hoje toda a sua acuidade. Vicente de Beauvais, Speculum historiale, t. II, l. XXX, c. xcviii, que escrevia no século XIII, dá um curioso exemplo: se um georgiano, passando diante de uma igreja armênia, sente um espinho penetrar-lhe o pé, não deve abaixar-se para arrancá-lo, a fim de não parecer inclinar-se diante da igreja armênia. Um viajante do século XVIII, Chardin, Voyage en Perse, Amsterdã, 1711, p. 123, relata que eles se abominam mutuamente, que nunca se aliam entre si e que os georgianos têm um desprezo extremo pelos armênios, que consideram mais ou menos «como se faz com os judeus na Europa.»

Esse antagonismo violento explica os exageros cometidos de parte a parte a propósito da união temporária das duas Igrejas. Os armênios certamente deram à influência que exerceram na Geórgia uma importância que ela não teve, não só nos inícios do cristianismo nesse país, mas ainda mais tarde, quando seus catolicós ali gozaram de certa autoridade. Por outro lado, os georgianos, sem dúvida com o louvável propósito de protestar que nunca caíram nos erros monofisitas, negaram sistematicamente toda dependência de sua Igreja em relação à da Armênia. A verdade se encontra talvez entre essas duas afirmações extremas. A conclusão que parece impor-se é que a Geórgia oriental muito provavelmente dependeu durante certo tempo do catolicós armênio e que se deixou então arrastar ao monofisismo. Quanto ao resto do país, é impossível dizer se participou ou não dessa dependência.

VI. Organização da Igreja. Autonomia. — As múltiplas tribulações pelas quais a Geórgia passou durante longos séculos, invasões repetidas dos persas, dos árabes, dos turcos, dos mongóis, ocupações estrangeiras, divisões internas, etc., fizeram desaparecer um grande número de documentos preciosos, cuja ausência se faz vivamente sentir hoje. O pouco que nos resta apresenta um laconismo tal que conhecemos muito pouco sobre o período que se seguiu à conversão da Geórgia ao cristianismo. Cumpre ainda acrescentar que esses documentos são posteriores de vários séculos aos acontecimentos que narram, o que diminui singularmente seu valor, embora a maioria se baseie em textos mais antigos. Na falta de qualquer outra informação, seremos, contudo, obrigados a nos contentar com eles.

É certo que os primeiros missionários enviados à Geórgia pelo império bizantino introduziram nesse país a liturgia bizantina. A língua empregada nas cerimônias foi primeiro o grego. Mas, quando a Igreja foi organizada e a tradução dos Livros santos para o georgiano foi feita, prevaleceu a língua nacional. Não se poderia, na ausência de documentos certos, fixar a data em que se operou essa transformação. Não parece, contudo, que seja preciso recuá-la além do século VI. Certos indícios permitem-nos também afirmar que a influência síria se fez igualmente sentir, seja desde o início, seja no século VI, com a chegada dos missionários sírios de que teremos de falar de novo.

Vimos acima que os documentos georgianos dão ao primeiro bispo o nome de João. Seu apostolado, segundo a Crônica da Geórgia, Brosset, op. cit., t. I, p. 137, foi de curta duração. O bispo Tiago continuou a obra começada e fez penetrar pouco a pouco o cristianismo na massa do povo. Infelizmente, as frequentes invasões dos persas trouxeram aqui e ali o restabelecimento do culto do fogo. No começo do século V, a religião cristã havia por isso sofrido perdas importantes. O rei Artchil I (410-434) expulsou os persas, proscreveu o masdeísmo e reorganizou a Igreja, dando-lhe por chefe o bispo Mobidan. Este, secretamente partidário do masdeísmo, tentou sorrateiramente restabelecer o culto do fogo, mas foi descoberto e excomungado por um sínodo para o qual o rei havia convocado todas as autoridades religiosas do país.

Algum tempo depois, mandou-se vir de Constantinopla o bispo Miguel para presidir à educação do rei Vakhtang (446-499). Brosset, op. cit., t. I, p. 151. Esse Miguel, tornado mais tarde chefe da Igreja georgiana, lutou valentemente contra os masdeístas, que estavam longe de ter desaparecido. Em seguida a desacordos com o rei — talvez defendesse simplesmente os direitos da Igreja contra as usurpações do poder civil — viu-se substituído por outro prelado grego vindo de Constantinopla. Seria a partir dessa época, por volta de 471, que, segundo a Conversão da Geórgia, Mtzkhéta teria recebido seu primeiro catolicós ou patriarca. Taqchivili, Trois chroniques historiques (em georgiano), p. 29. A criação de doze novas dioceses, que foi a consequência desse ato, trouxe uma difusão mais rápida do cristianismo. Brosset, op. cit., t. I, p. 195.

Uma nova invasão persa, mais terrível que as outras, ocorreu por volta de 498, causou ruínas inumeráveis e valeu a palma do martírio a muitos fiéis. Por volta do meio do século VI, treze missionários vieram da Síria, sob a direção de são João Zédadznéli, e tiveram de recomeçar em grande parte a evangelização do país. É a essa época, do fim do século IV ao século VI, que se deveria fazer remontar a tradução da Sagrada Escritura para a língua nativa e a introdução do georgiano na liturgia. Os mais antigos manuscritos da Bíblia que existem atualmente são, segundo os arqueólogos, do século VII, mas foram copiados de textos anteriores. Estudaremos essa questão mais adiante, quando falarmos da literatura georgiana.

Desde meados do século VI, o catolicós foi escolhido entre os prelados georgianos. O primeiro teria sido Saba ou Dassaba (542-557). A tradição constante na Geórgia quer que a Igreja desse país tenha dependido desde a sua origem da de Antioquia. Reencontramos a mesma opinião entre os historiadores gregos ou árabes, sobretudo a partir do século XI. Ainda hoje, os dois patriarcas melquitas de Antioquia, o católico como o ortodoxo, reivindicam uma autoridade nominal sobre a Ibéria. Que se deve pensar dessa suserania exercida por Antioquia sobre a longínqua Geórgia?

Resumimos acima a tradição relativa à ação apostólica de santo Eustácio e à viagem que ele teria feito ao Cáucaso. Se não se admite que esse patriarca se tenha ocupado da conversão da Geórgia, é muito difícil indicar a partir de que data começou a dependência. Nos raros documentos que nos restam, só encontramos vestígios de uma jurisdição efetiva e nada mais. É-nos mesmo impossível precisar em que época ela cessou. A tradição georgiana quer que tenha sido sob Vakhtang, por volta de 471, quando a Geórgia recebeu seu primeiro catolicós ou patriarca. Um texto de Balsamão parece dar razão a essa opinião.

Com efeito, ele fica sabendo que uma decisão sinodal de Antioquia concedeu ao arcebispo da Ibéria o privilégio da isenção, na época do patriarca Pedro, decisão que reconhecia a autocefalia da Igreja georgiana, mas sob o patronato de Antioquia. P. G., t. lxxxvii, col. 320. Quem é esse patriarca Pedro? Será Pedro, o Pisoeiro (471), ou Pedro II, contemporâneo de Miguel Cerulário? Outros textos que utilizaremos mais adiante parecem provar que se trata do primeiro, pois seria muito difícil explicá-los se se tratasse do segundo. Notemos, porém, que muitos autores modernos se pronunciam em favor desta última hipótese.

A Conversão da Geórgia e os Anais concordam em dizer que, a pedido do rei Vakhtang, o imperador Leão I fez o patriarca de Antioquia designar um prelado para substituir o bispo Miguel, que havia desagradado ao soberano, e que Pedro foi escolhido como católico. Os dois atos devem ter ocorrido ao mesmo tempo. Os Anais da Geórgia pretendem que a autonomia completa foi concedida pelo VI concílio ecumênico (680), Brosset, Histoire de la Géorgie, t. I, p. 235-632, mas basta percorrer as atas dessa assembleia para se convencer de que ela não se ocupou da Geórgia.

Em contrapartida, o monge melquita Nicon, Biblioteca Vaticana, Codices arabici, n. 76, p. 367, e Efrém, o Jovem, Brosset, op. cit., t. I, p. 229, ambos do século XI, resumem uma narrativa segundo a qual dois monges georgianos vieram a Antioquia, sob o imperador Constantino Coprônimo (741-775) e o patriarca Teofilacto (745-751), para expor ali a situação lamentável em que se encontrava seu país em consequência da conquista árabe. Não havia mais católico desde a morte do imperador Anastácio I (610). As perseguições dos infiéis haviam até então impedido os georgianos de recorrer a Antioquia. O patriarca reuniu um sínodo e sancionou um ato em virtude do qual os bispos georgianos eram autorizados a se reunir e a sagrar o católico que tivessem eleito. Este não tinha mais outra obrigação para com Antioquia senão a de fazer menção do patriarca na liturgia e de pagar uma contribuição anual.

Essa soma foi constantemente paga até a época do patriarca João III (987-1010), que cedeu seu direito ao seu colega de Jerusalém. O patriarca de Antioquia reservou-se também o direito de intervir nas perturbações suscitadas pela heresia e de enviar para esse fim um exarca à Geórgia. Foi assim que um patriarca de nome Teodoro, Teodoro I (751-753) ou Teodoro II (970-975) ou ainda Teodoro III (1034-1042), enviou Basílio, o gramático, para combater a heresia dos Akakhtiens, da qual só conhecemos o nome. Em resumo, pode-se admitir que, depois de ter sido governada por um católico que recebia sua autoridade do patriarca de Antioquia, a Igreja georgiana obteve sua autonomia religiosa por volta de meados do século VIII, talvez até antes.

VII. História política do século V ao século XIII. — Quando o rei Vakhtang Gourgaslan, isto é, Lobo-Leão (446-499), subiu ao trono, a Geórgia era presa de seus vizinhos, sobretudo dos persas. Ele derrotou, um após outro, os inimigos de seu país e o julgava completamente livre quando sucumbiu gloriosamente com seu exército sob os golpes dos persas. Seus sucessores conservaram apenas uma autoridade muito diminuída. Um deles, Bacour III (557-570), deixou filhos menores que, por medo dos persas, foram obrigados a refugiar-se nas montanhas. A família dos Bagratidas, apoiada pelo estrangeiro, aproveitou-se disso para retomar o governo do país e substituir a dinastia sassânida. São os Bagratidas que reinaram sobre a Geórgia até o fim do século XVIII, no momento em que se consumou a anexação à Rússia.

Os bizantinos já haviam conseguido apoderar-se da Geórgia ocidental. O imperador Maurício obteve a cessão completa de todo o país e nomeou curopalata, isto é, marechal do palácio, o rei Gouram (575-600), um Bagratida. Essa suserania de Bizâncio durou cerca de meio século. Heráclio atravessou a Geórgia em sua marcha vitoriosa contra Cosroés. Desde 642, os árabes fizeram sua aparição sob a condução do emir Merwân-Qrou e semearam ruínas por toda parte. Em 717, outro emir, Iazîd, conquistou por sua vez a Geórgia, reduzindo os reis nativos ao papel de simples executores de suas ordens. O turco Bougha, vindo de Bagdá, derrotou os árabes e devastou o país em 851. A Geórgia só recuperou sua independência momentânea sob Davi, o Curopalata, cuja intervenção prestou a Bizâncio um serviço precioso pela derrota do rebelde Escleros (976). Ele mal havia reorganizado seu reino quando os turcos seljúcidas se abateram sobre ele e o arruinaram (segunda metade do século XI). Davi II, o Restaurador (1089-1125), expulsou-os e fundou um reino que ia do mar Cáspio ao mar Negro, da cadeia do Cáucaso à província de Kars. A Geórgia conheceu seu pleno florescimento sob a rainha Thamar (1185-1212), cujo nome permaneceu justamente célebre em seu país.

VIII. A Igreja georgiana do século VI ao século XIII. — As múltiplas provações pelas quais passou a Geórgia durante essa época conturbada fizeram necessariamente sentir seu contragolpe na Igreja. Os muçulmanos empregaram todos os meios para difundir sua religião entre o povo. A constância dos cristãos foi suficientemente boa para que numerosos mártires derramassem seu sangue em defesa de sua fé. Os mais célebres são São Daniel e São Constantino, mortos por volta de 715, depois de terem combatido valorosamente por seu país, Brosset, op. cit., t. I, p. 262, o santo rei Artchil, que encontrou uma morte gloriosa por volta de 727, ao reclamar do emir Dchidchoun a liberdade para sua pátria, e São Gobroni, por volta de 912. Brosset, op. cit., t. I, p. 275. Conservou-se a vida de dois outros mártires, São Abo de Tiflis, por volta de 786, e São Constantino, príncipe real, morto aos oitenta e cinco anos pelo chefe turco Bougha, em 853. Lebeau, Histoire du Bas-Empire, t. xiii, p. 47, nota 3. Enfim, é preciso assinalar o martírio de São Neófito, bispo de Urbnissi (século IX), antigo chefe muçulmano convertido ao cristianismo pelo espetáculo da vida religiosa. Acta sanctorum, octobris t. xii, 1885, p. 642.

Felizmente para a Igreja georgiana, o poder muçulmano decresceu muito para o fim do século X, sem o que ela talvez tivesse sofrido a sorte de outras cristandades orientais e desaparecido inteiramente. Quando os Bagratidas retomaram o governo do país, impunha-se uma reforma profunda. O clero, cúpido e corrompido, mostrava-se inferior à sua tarefa em meio a igrejas em ruínas. A chegada dos turcos seljúcidas, na segunda metade do século XI, semeou mais uma vez a desolação na Geórgia. Brosset, op. cit., t. I, p. 347.

A perseguição abateu-se terrível sobre os fiéis que não haviam podido encontrar refúgio nas montanhas. Davi II, o Restaurador (1089-1125), conseguiu repelir o invasor e pensou em aproveitar suas vitórias para restabelecer a ordem na Igreja e no Estado. É durante seu reinado que surgiram as primeiras escolas regularmente organizadas, nas quais se ensinava a religião, a gramática, a matemática e o canto. A escola de Arsênio, na cidade de Icalto, formou uma geração de homens célebres, entre outros o famoso poeta Chota Roustavéli, autor de A Pele de Leopardo. Para completar a instrução dos jovens, Davi II enviou quarenta deles ao monte Athos, onde se tornaram notáveis tradutores de livros eclesiásticos. Ele próprio foi bom teólogo e bom cristão. Organizou, em vários pontos de seu vasto reino, hospitais e asilos. A ele se deve a célebre catedral de Guélati, um dos mais belos monumentos da arquitetura georgiana. Khakhanoff, Histoire de Géorgie, Paris, 1900, p. 42. Reuniu também um concílio com o objetivo de levar os armênios a renunciar ao cisma e à heresia. Brosset, op. cit., t. I, p. 375. Essa generosa tentativa fracassou completamente, assim como todas as que os georgianos tentaram em seguida.

A rainha Thamar (1184-1212) ocupou-se também de reformas eclesiásticas. Reuniu um concílio, principalmente com o objetivo de pôr fim aos abusos introduzidos pelo católico Miguel. Infelizmente não conhecemos as decisões que essa assembleia tomou, pois suas atas não chegaram até nós. Brosset, op. cit., t. I, p. 405. Muitas igrejas atuais remontam ao reinado da rainha Thamar, que se comprazia em ornar os santuários. Entre os chefes da Igreja dessa época, dois tornaram-se célebres por suas obras, Arsênio II (946-976) e Nicolau, demissionário em 1170.

IX. A vida religiosa na Geórgia. — É impossível precisar a data em que a vida religiosa fez sua primeira aparição na Geórgia. Contudo, não cremos que o monaquismo tenha esperado além do século V para fazer conquistas entre os ibéricos. Com efeito, ele gozava nessa época de uma popularidade muito grande em todo o Oriente. Além disso, os apóstolos e os organizadores da Igreja na Geórgia sem dúvida não deixaram de utilizar um meio tão apropriado para assegurar a difusão da verdadeira fé. Enfim, desde esse momento assinalam-se monges georgianos na Palestina. De todo modo, a vida religiosa estava em plena floração no século VI. Os treze missionários vindos da Síria, por volta de meados desse século, imprimiram-lhe um impulso maravilhoso. O país cobriu-se de mosteiros que a piedade dos príncipes e dos simples fiéis se comprouve em dotar ricamente.

Os mais célebres foram os que estabeleceram três dos missionários sírios, João, Davi e Chio. São João, chefe da missão, estabeleceu-se na montanha de Zaden, o que lhe valeu o nome de Zédadznéli. Seu mosteiro foi destruído no século XII pelos turcos seljúcidas. Jordania, Chroniques, t. I, p. 73. Mais felizes que esse, os que fundaram São Davi Garedjéli em Garedja e São Chio Mgviméli em Mgvimé sobreviveram, apesar das vicissitudes por que tiveram de passar em consequência das diferentes invasões. O de São Chio, muito povoado, foi, de todos os conventos georgianos, o mais importante, principalmente por causa da influência que exerceu sobre o desenvolvimento da ciência eclesiástica e da vida de piedade. O de Guélati, perto de Koutaïs, fundado no século X, só ele pode ser considerado seu rival nesse ponto. A vida religiosa tornou-se tão intensa na Geórgia que, não contente de cobrir o país de conventos, transbordou ainda para o império bizantino, como veremos um pouco mais adiante.

Em 1765, o príncipe Vakhoucht, filho de Vakhtang VI, contava em sua Description de la Géorgie 79 mosteiros, em sua maioria arruinados: 16 no Samtzkhé, 48 na Karthlie, 11 na Kakhétie e 4 na Imérétie. Cf. Vakhoucht, Description géographique de la Géorgie, trad. de Brosset, Saint-Pétersbourg, 1842. Para ser completo, seria preciso acrescentar a essa lista os conventos das outras partes do país, como a Mingrélie e o Lazique. Esses números são uma prova evidente da intensidade que a vida cristã havia recebido ao longo dos séculos e da tenacidade com que os fiéis levantavam de suas ruínas, incessantemente renovadas, os santuários do monaquismo. Infelizmente só possuímos muito pouca coisa sobre esses numerosos mosteiros. As bibliotecas de Tiflis e das outras cidades da Geórgia mostram, sem dúvida com orgulho, grande número de manuscritos que deles provêm, mas estes contêm somente pouquíssimos detalhes sobre a vida religiosa do país.

X. Os georgianos no império bizantino. — Os georgianos seguiram o movimento que arrastava as populações orientais, principalmente as da Capadócia, rumo aos Lugares Santos. Desde o fim do século IV, um dos seus, Evágrio, já fazia ressoar no Oriente suas disputas teológicas com São Jerônimo. Um século mais tarde, Pedro, o Ibero, bispo de Maiuma, perto de Gaza, que se acusa, com razão ou sem ela, de ter favorecido a heresia eutiquiana, tornava a dar a conhecer na Palestina a raça georgiana. Raabe, Petrus der Iberer, Leipzig, 1895. As peregrinações levaram muito naturalmente à fundação de mosteiros. Procópio, De aedificiis, l. V, c. ix, informa que Justiniano reparou o convento dos ibéricos na Cidade Santa e o dos lazes no deserto de Jerusalém. O da cidade teria sido fundado sob o rei Vakhtang (446-499). Quanto ao dos lazes, quis-se identificá-lo com o célebre mosteiro da Santa Cruz. Se devemos crer nos historiadores georgianos, foi Pedro, o Ibero, filho do rei Bacour, quem fundou o convento de São Sabas. De todo modo, o nome desse mosteiro volta a cada instante sob a pena dos cronistas nacionais; os príncipes lhe enviam ricos presentes, o que indica ao menos que havia ali monges georgianos. Parece mesmo que possuíam ali uma igreja particular, como os armênios.

A conquista árabe interrompeu forçosamente o movimento que levava os georgianos aos Lugares Santos. O Commemoratorium de casis Dei et monasteriis, em Itinera Hierosolymitana, Genebra, 1880, t. I, p. 302, assinala, contudo, por volta de 808, vários de seus monges no monte das Oliveiras e em Getsêmani. Por volta de 1050, o rei Bagrat, curopalata, teria recebido, graças ao imperador bizantino, a metade do Calvário e ali teria estabelecido um bispo de sua nação. Palestine exploration fund, Quarterly statement, 1911, p. 185. Um pouco antes do fim do mesmo século, os georgianos constroem o convento de São Tiago Maior, que desde então passou aos armênios. Quanto ao mosteiro da Santa Cruz, foi restaurado (talvez simplesmente fundado) por volta de 1040 pelo monge Prokhoré, arruinado pelos turcos seljúcidas trinta anos mais tarde e reconstruído logo após a chegada dos cruzados. Uma lenda, que muito provavelmente se formou nessa época, situa ali o lugar em que foi cortada a árvore da qual se fez a cruz do Salvador. A Santa Cruz foi um foco de ciência eclesiástica cuja influência se fazia sentir fortemente na Geórgia, onde esse mosteiro possuía numerosas propriedades. A biblioteca patriarcal grega de Jerusalém possui 147 manuscritos georgianos que dali provêm. A igreja ainda está coberta de pinturas e de inscrições deixadas pelos monges georgianos.

Estes conservaram o convento até 1685, época em que tiveram de cedê-lo aos gregos. Sua conduta relaxada e as despesas excessivas que fizeram obrigaram-nos, com efeito, a vender sucessivamente o Calvário, onde haviam sido senhores durante três séculos, o convento de São Tiago e oito ou dez outros que possuíam na cidade de Jerusalém. R. Janin, Les Géorgiens à Jérusalem, nos Échos d'Orient, 1913, p. 32, 211. Encontram-se ainda georgianos em vários outros mosteiros da Palestina, mas temos informações demasiado escassas sobre eles para falar com mais detalhes. Vimos que o de São Sabas teve sempre a seus olhos uma importância considerável. Levando ainda mais longe o seu desejo de solidão, os georgianos foram até o monte Sinai, onde sua presença se revela ainda em nossos dias por um bom número de manuscritos. Na Síria, povoavam vários mosteiros nos arredores de Antioquia. Mostraram-se ali até bastante insubmissos em relação aos patriarcas, a ponto de o papa Gregório IX lhes escrever, ao mesmo tempo que aos armênios e aos gregos, para fazê-los voltar à obediência, em 1239. Archives Vaticanes, Reg. 19, fol. 40, n. 199. Encontram-se ainda monges georgianos em Chipre, no monte Olimpo da Bitínia, nos arredores de Constantinopla e de Tessalônica. Tamarati, Église géorgienne, Roma, 1910, p. 315 sq.

O monte Athos não podia deixar de atraí-los em grande número. Ocuparam ali durante muito tempo o mosteiro que ainda traz o seu nome, o de Iviron ou dos ibéricos (τῶν Ἰβήρων). Segundo um velho manuscrito georgiano de 1074, esse convento foi fundado por volta de 971 por um dos senhores da corte de Davi, o Curopalata, chamado João, que havia praticado antes a vida religiosa no monte Olimpo. O novo higúmeno viu logo acorrer junto a si uma multidão de seus compatriotas de toda condição, entre os quais vários personagens oficiais. Tal foi esse Tornic, antigo general, que saiu momentaneamente de sua solidão para combater o rebelde Escleros (976). O convento dos ibéricos no monte Athos tornou-se, também ele, um foco de ciência eclesiástica onde se ocupava sobretudo de traduzir as obras dos Padres da Igreja grega e de rever as antigas versões da Sagrada Escritura e dos livros litúrgicos. Foi mesmo ele que exerceu maior influência sobre toda a nação. Os mais célebres de seus higúmenos foram, depois de João, São Eutímio (964-1028) e São Jorge Mtatsmindéli (1014-1066), que traduziram para o georgiano numerosas obras gregas. Journal asiatique, 6e série, 1867, t. I, p. 333 sq.

No século XVI, o mosteiro caiu nas mãos dos gregos, que desde então têm interditado zelosamente a entrada aos georgianos, mas sem tirar nenhum proveito da rica coleção de manuscritos deixada pelos que partiram.

XI. História política do século XIII ao século XIX. — Depois dos reinados gloriosos de Davi o Restaurador e da rainha Thamar, a Geórgia começou a conhecer a decadência, por causa da corrupção da nobreza e das numerosas divisões que enfraqueciam o país. Os mongóis de Gengis-Khan não tardaram a infligir-lhe um castigo terrível em 1220-1221. Depois foi a vez de Djélal-ed-Din, sultão do Khorassan, que devastou a Geórgia de 1226 a 1230. Os mongóis voltaram em 1236. A rainha Roussoudane implorou então contra eles o socorro do papa Gregório IX (1240), que infelizmente nada pôde empreender para socorrê-la. Por fim, os georgianos resignaram-se a aceitar o domínio dos mongóis, de quem se tornaram tributários, por volta do fim do século XIII. Serviram até mesmo por muito tempo nos exércitos de seus vencedores.

Jorge V, dito o Brilhante (1318-1346), conseguiu libertar-se da tutela dos mongóis da Pérsia, então muito enfraquecidos, e reconstituiu seu reino. Quarenta anos após sua morte, Timour-Leng (Tamerlão) fez uma primeira aparição na Geórgia em 1386 e renovou em várias ocasiões suas devastações durante uns vinte anos. Brosset, op. cit., t. I, p. 652. O país recuperou-se um pouco sob Alexandre I (1413-1442). A partilha do reino entre os filhos desse príncipe trouxe de novo a divisão e acelerou a ruína. Entretanto, vários reis procuraram aliar-se com o Ocidente para uma cruzada contra os turcos, mas essas diligências não obtiveram resultado. A queda de Constantinopla (1453) teve por consequência um cerco mais temível da Geórgia. Turcos e persas imiscuíram-se nas querelas internas para atribuir a si os retalhos. Em 1469, o país desmembrou-se em três reinos e cinco principados. Os príncipes que governavam essa infeliz região tiveram de aceitar oficialmente o islamismo para conservar seu trono. Alguns permaneceram secretamente fiéis à religião cristã, mas isso foi apenas uma exceção.

A Geórgia foi, desde então, frequentemente o campo de batalha onde os dois poderosos impérios muçulmanos disputavam a predominância. Os turcos penetraram na Geórgia ocidental em 1577 e submeteram-na inteira. Por seu lado, os persas, conduzidos por Abbas o Grande (1577-1628), atacaram a Geórgia oriental e a puseram a saque. Abbas levou por volta de 1615 cerca de um milhão de habitantes, que foram dispersados nas diferentes províncias do império e que ele substituiu por armênios e persas. Nova invasão em 1633 para castigar o rei Téimouraz I, que havia erguido a cabeça. A Geórgia pareceu renascer sob Vakhtang VI (1703-1737), embora esse rei fosse obrigado a viver bastante tempo longe de sua pátria. O reerguimento acentuou-se ainda mais sob Heráclio II (1744-1798), cujas vitórias asseguraram por algum tempo a tranquilidade ao reino.

Entretanto, o perigo cada vez mais premente levou-o a concluir uma aliança que teve consequências funestas para a Geórgia. Em 1783, reconheceu-se vassalo da Rússia, o que lhe atraiu as vinganças do xá da Pérsia, Agha-Mohammed Khan (1795). Seu filho Jorge XII (1798-1800) foi o último rei da Geórgia. Em 1801, o imperador Alexandre I proclamou a anexação da Grousie ou Geórgia propriamente dita. A Mingrélia foi ocupada em 1803, a Gourie em 1810 e a Imérétie finalmente em 1814. Todo o país tornou-se então uma simples província do império. A tirania dos russos substituiu desde então a dos turcos e persas.

XII. A Igreja georgiana do século XIII ao século XIX. — Acabamos de ver por quais tribulações passou a Geórgia do século XIII ao século XIX. Esse período de perturbações internas e de invasões por parte dos muçulmanos foi dos mais funestos para a Igreja. Entretanto, produziu-se para ela uma causa nova de reerguimento interior. São as relações bastante estreitas que os reis e os catolicós mantiveram com Roma a partir do reinado de Roussoudane (1223-1247). Como essas relações receberam em seguida um desenvolvimento considerável, preferimos consagrar-lhes um estudo especial. Coloca-se primeiramente uma questão. Em que época a Geórgia se separou da Igreja católica? Ainda não se encontrou nenhum documento, nem entre os escritores nativos nem entre os estrangeiros, que possa dar alguma precisão sobre esse ponto.

Sabe-se ao menos que os georgianos permaneceram em geral alheios às querelas suscitadas em Roma pela sofística bizantina. Entretanto, os monges do monte Athos deveram muito provavelmente tomar parte nelas, e sua influência pôde contribuir para desligar a Geórgia da Igreja universal. Sua independência eclesiástica em relação aos patriarcas bizantinos atenuou certamente a animosidade dos georgianos contra Roma, pois não se tratava para eles de uma questão nacional. As guerras intermináveis que tinham de sustentar contra inimigos incessantemente renovados não lhes permitiam, aliás, misturar-se muito a essas querelas de teólogos. Até o fim do século XII, continuaram a fazer menção do papa em seus ofícios, no mesmo título que dos patriarcas gregos. Brosset, op. cit., t. I, p. 457; Jordania, op. cit., t. I, p. 140, 142, 152.

É provável que a separação se tenha feito insensivelmente, por causa da falta de relações entre a Geórgia e o mundo ocidental. Honório III, numa carta dirigida em 1224 à rainha Roussoudane, não a considera como cismática, pois lhe concede, assim como a seu povo, a indulgência apostólica. Gregório IX tampouco fala de separação numa bula de 1233. Archives Vaticanes, Reg. Val., 17, fol. 6. Todavia, numa carta que Roussoudane escreve ao papa, ela lhe promete, se receber socorro contra os mongóis, unir-se com todo o seu povo à Igreja católica. É a primeira vez que se ouve falar do cisma dos georgianos. Na resposta que deu em 1240 à rainha e a seu filho Davi, Gregório IX constata a separação nestes termos: « Por isso convém, caríssimos filhos, que vós e vossos súditos reconheçais humildemente o pontífice romano, sucessor de Pedro e vigário de Cristo, como o Pai e o chefe de nossa fé. Lamentai não ter seguido no passado essa linha de conduta e esforçai-vos por reunir-vos a ele e à Igreja romana e por obedecer-lhe no que diz respeito à salvação de vossa alma. » Archives Vaticanes, Reg. Val., 19, n. 198, fol. 142.

Na impossibilidade de traçar, por falta de documentos remontando a essa época, uma história completa da Igreja georgiana durante os seis séculos que nos ocupam, limitar-nos-emos a assinalar os fatos mais salientes que chegaram até nós. O catolicós Nicolau II não hesitou, por volta de 1245, em apresentar-se diante do chefe mongol Houlagou para lhe pedir que impedisse o saque das igrejas e dos mosteiros que seus chefes praticavam correntemente sob pretexto de cobrar o imposto. Essa diligência ousada obteve pleno êxito. Brosset, Histoire de la Géorgie, t. I, p. 541.

Em 1280, o mesmo catolicós reuniu um sínodo de todos os bispos para reprimir os abusos do rei Demétrio II (1273-1289), que dissipava os bens eclesiásticos. Foi em vão, pois o príncipe continuou suas rapinas. Seu exemplo foi imitado em demasia pelos senhores georgianos. O clero estava, aliás, longe de mostrar-se à altura de sua tarefa e não manifestava menor avidez de riquezas. Entretanto, Demétrio voltou a sentimentos mais cristãos. Como procurara subtrair-se ao jugo do temível Houlagou, este lhe ordenou que viesse a seu acampamento para prestar contas de sua conduta. Demétrio foi, apesar das súplicas do clero e dos fiéis, a fim de poupar a seu povo um castigo terrível, e morreu nos suplícios como vítima voluntária. Brosset, op. cit., t. I, p. 608. A Igreja georgiana o venera como mártir.

Jorge V o Brilhante (1318-1346) reuniu também o catolicós e os bispos num sínodo que reformou o clero, restabeleceu a disciplina eclesiástica, reconduziu os monges à observância de suas regras e pôs fim às desordens que o domínio dos infiéis havia causado. O período de calma e de tranquilidade que suas vitórias haviam assegurado a seu país não durou muito tempo. Em 1386, Timour-Leng começava as temíveis incursões que deviam renovar-se durante uns vinte anos. A religião foi de novo perseguida, os cristãos martirizados, as igrejas e os mosteiros saqueados e devastados. Alexandre I (1414-1442) trabalhou para reerguer de suas ruínas a Igreja e o Estado. A partir de meados do século XV, não sabemos praticamente nada da Igreja georgiana até os primeiros anos do século XVII, exceto as tentativas de aproximação com Roma e o êxito da missão católica. Falaremos disso mais adiante. As lutas dos turcos e dos persas, de que a Geórgia foi por muito tempo a vítima, acumularam as ruínas e aumentaram infelizmente também o número dos apóstatas.

Em muitos lugares, o cristianismo cedeu lugar à religião do Profeta. Os reis e os nobres deram, aliás, um exemplo funesto ao aceitar o islamismo para conservar sua situação. A religião nova, misturada aos restos do antigo paganismo e ao cristianismo, produziu essa « tríplice fé » de que falam os missionários católicos e os embaixadores russos. Khakhanoff, Histoire de Géorgie, Paris, 1900, p. 61. A corrupção dos grandes foi logo igualada pela do clero. Os próprios catolicós não eram mais que um joguete nas mãos dos reis impostos ao país pelos turcos ou pelos persas. Por volta de 1625, os habitantes do principado de Samtzkhé, na Geórgia ocidental, passaram quase todos ao islamismo, que ainda hoje praticam. Dubois de Montpéreux, Voyage autour du Caucase, Paris, 1839, t. I, p. 299. Um pouco antes dessa data, certo número de católicos da mesma província, vendo que os turcos não perseguiam os armênios porque estes lhes prestavam grandes serviços servindo-lhes de espiões, abraçaram o rito armênio para pôr-se ao abrigo das vexações. Tamarati, op. cit., p. 478.

Na Geórgia oriental, os persas conduziam-se quase da mesma maneira que os turcos na Geórgia ocidental. Abbas o Grande (1557-1628) superou todos os outros xás por sua tirania e seu ódio contra os cristãos. Num dia de Páscoa, massacrou várias centenas de monges (5 000, se se devem acreditar os documentos georgianos) no mosteiro de São Davi de Garédja. Para arruinar melhor a Geórgia, deportou para as diferentes províncias da Pérsia cerca de um milhão de cristãos que, pouco a pouco, perderam a fé para abraçar o islamismo (por volta de 1615). Archives de la Propagande, Persia, Giorgia, Mengrelia e Tartaria, t. ccix, p. 321; Pietro della Valle, Viaggi, Bologne, 1687, p. 198 sq.

Entre os mártires mais célebres que morreram vítimas da perseguição de Abbas, é preciso citar o rei Louarsab (1623), Brosset, Histoire moderne de la Géorgie, t. II, p. 51, e a rainha Kétévan de Kakhétie (1624), Archives de la Propagande, Scritture riferite, Giorgia, t. I, p. 14, e o confessor dessa rainha, o monge Moisés. Figueroa D. Garcias de Silvia, L'ambassade en Perse, de 1617 à 1627, Paris, 1667, p. 134, 346.

A partir dessa época até a anexação da Geórgia à Rússia, só conhecemos praticamente a Igreja desse país pelas relações que ela manteve com os missionários latinos. Um dos catolicós que mais fizeram para assegurar a união com Roma, Antônio I (1744-1788), trabalhou primeiro para reformar o clero e o povo. Num sínodo que reuniu todos os bispos da Karthlie e da Kakhétie, fez tomar as mais sábias decisões para melhorar os costumes públicos, particularmente no que concerne aos impedimentos de casamento. O zelo com que protegia a missão católica foi a causa de sua perda. Por instigação do patriarca grego de Constantinopla, Cirilo V, que via com muito maus olhos toda tentativa de aproximação com o mundo católico, o rei Téïmouraz o destituiu e o expulsou do país, em 1755. Archives de la Propagande, Monte Caucaso, t. iv, p. 72.

Deram-lhe por sucessor um certo José (1755-1763), sob cujo pontificado o rei Heráclio II reuniu uma assembleia de bispos para restabelecer a disciplina entre o clero. O rei apresentou onze artigos de leis à assembleia, que os aprovou por unanimidade. A carta se encontra no Museu eclesiástico de Tiflis, sob o n. 856. Antônio I, refugiado na Rússia, parecia ter esquecido o catolicismo, pois fez constantemente durante seu exílio a profissão de fé ortodoxa. Entretanto, escreveu na mesma época uma obra sobre o Miserere, na qual se pronuncia abertamente pela primazia do papa. Voltou à Geórgia por ocasião da morte do rei Téïmouraz, em 1781, e ocupou de novo a sé patriarcal até sua morte, em 1788.

Foi o primeiro prelado georgiano a aproximar-se da Igreja russa e a introduzir-lhe os usos em sua pátria. Esse zelo russófilo valeu-lhe até a honra de tomar assento entre os membros do santo sínodo. Apesar dessa conduta equívoca, parece, contudo, ter permanecido sempre ligado à fé católica, e os missionários latinos nos afirmam que a confessou ainda em seu leito de morte. Tamarati, op. cit., p. 384. Muito erudito ele próprio, Antônio I deu grande impulso aos estudos eclesiásticos restabelecendo os seminários e as escolas. Seu sucessor, Antônio II (1788-1811), foi o último catolicós que a Geórgia conheceu.

XIII. A Geórgia ocidental. — Desde cedo, a Geórgia ocidental, chamada também Cólquida, havia-se destacado do reino para formar vários pequenos Estados, submetidos primeiro aos romanos, depois aos imperadores bizantinos. Tomou então o nome de Lazique, sob o qual se compreendem todas as tribos georgianas que habitavam ao sul do Ingour e ao longo das costas do mar Negro. O único sinal de dependência desses Estados em relação à corte de Bizâncio era uma espécie de investidura que os basileus concediam aos novos reis enviando-lhes as insígnias de sua dignidade. O império bizantino havia feito dos habitantes dessas províncias guardas de fronteira, destinados a barrar o caminho aos invasores. Os persas viram na conquista do Lazique um meio seguro de atingir mais facilmente Constantinopla. É por isso que empreenderam contra os bizantinos uma guerra longa e encarniçada, sobretudo a partir do reinado de Justiniano.

O Lazique permaneceu, contudo, sob a dependência de Constantinopla até o começo do século X. Nessa época, uniu-se ao reino de Geórgia da Abcásia (Aphkhazétie em georgiano). Essa união durou por mais de cinco séculos, até a partilha da Geórgia entre os três filhos de Alexandre I (1442). De que patriarcado dependia a Igreja do Lazique? Ao menos desde 628, ano que marcou o esmagamento dos persas por Heráclio, se não antes, a Geórgia ocidental esteve submetida à jurisdição de Constantinopla. Numa Notitia episcopatuum, composta por volta de 650 e publicada por Gelzer, Ungedruckte und ungenügend veröffentlichte Texte der Notitiae episcopatuum, in Abhandlungen der k. bayer. Académie der Wissenschaften, Munique, 1900, p. 542 sq., o Lazique forma uma província eclesiástica, cujo chefe, o metropolita de Phasis, estende sua jurisdição sobre quatro sufragâneos, os bispos de Rhodopolis, de Saésines, de Pétré e de Ziganes. Assinala-se também na mesma lista um bispado autocéfalo na Abásgia.

Não sabemos quanto tempo durou a jurisdição de Constantinopla sobre essa província longínqua. Em todo caso, o laço de dependência já não existia no início do século X. Numa outra Notitia episcopatuum dessa mesma época, Gelzer, op. cit., p. 357, encontra-se ainda, de fato, uma província eclesiástica com o nome de Lazique, mas ela não compreende territórios verdadeiramente georgianos. A metrópole, Trebizonda, comanda sete bispados sufragâneos situados quase todos na Armênia. As sés indicadas por volta de 650 não figuram mais ali. Do século X ao fim do século XIV, a Geórgia ocidental dependeu provavelmente do catolicós de Mtzkhéta.

Mas em 1390 vemo-la governada por um catolicós particular, do nome de Arsênio. O domínio deste último compreendia a Aphkhazétie, isto é, a Imérétie, a Mingrélie, o Gouria, o Samtzkhé, a Svanétie e a Aphkhazétie propriamente dita. O catolicós residia ordinariamente em Bidchvinta ou Btunsta, cuja igreja célebre passava por ter sido edificada pelo próprio apóstolo santo André (1). A origem desse catolicado permanece mais obscura que a do catolicado de Mtzkhéta. É impossível encontrar nos documentos que nos restam dessa época qualquer indicação nem sobre a data de sua ereção, nem sobre as circunstâncias que a acompanharam, nem sobre o número dos titulares. A divisão política da Geórgia em vários principados não parece ter sido a causa principal dessa separação eclesiástica. Tamarati, op. cit., p. 397.

É provável que os patriarcas de Antioquia lamentassem ter reconhecido a autonomia à Igreja georgiana, sobretudo desde que as conquistas árabes haviam singularmente diminuído seu poder. Há provas certas de que procuraram aproveitar-se das divisões que existiam na Geórgia para retomar ao menos uma parte de sua antiga jurisdição. Podem-se citar, entre outras, cartas dirigidas ao catolicós de Mtzkhéta por bispos do Samtzkhé, nas quais confessam ter-se deixado arrastar pelos emissários gregos. Prometem não mais recebê-los e não mais sequer fazer menção do patriarca de Antioquia na liturgia. Jordania, Chroniques, t. iv, p. 227, 265, 315.

Do mesmo modo, uma carta de Doroteu, patriarca de Antioquia (1484-1523), dirigida a Mzédchabouc, príncipe do Samtzkhé, faz os maiores elogios a ele e aos bispos da região, enquanto trata de ímpio e infiel o rei da Geórgia, o que parece indicar uma lisonja interesseira. Jordania, op. cit., p. 316. Miguel, patriarca de Antioquia, teria vindo à Geórgia ocidental por volta de 1470 para regular diferentes assuntos eclesiásticos. Teria também sagrado o catolicós Joaquim, que não é de outro modo conhecido. Jordania, op. cit., p. 294. Outro patriarca de Antioquia, Macário III (1643-1672), veio várias vezes à Geórgia no decurso do século XVII. Jordania, op. cit., p. 482.

O catolicós mais célebre da Aphkhazétie é Evdémon Tchkhétidzé, morto em 1605, autor de vinte e três cânones eclesiásticos que entraram no código georgiano compilado pelo rei Vakhtang VI no século XVIII. Malaquias, que era ao mesmo tempo príncipe de Gouria, pediu ao papa Urbano VIII missionários e os recebeu com favor. Tamarati, op. cit., p. 401-403. Vários de seus sucessores mostraram-se igualmente muito acolhedores para com os missionários latinos. O último foi Máximo (1776-1795), que morreu em Kiev, durante uma embaixada junto a Catarina II para pedir-lhe socorro contra os turcos. Máximo não foi substituído.

XIV. Organização da Igreja georgiana. Lista das dioceses. — A Geórgia conservou, até o fim de sua independência, um sistema político e social semelhante em muitos pontos ao do feudalismo ocidental. O clero formava um corpo independente e privilegiado, uma sociedade regida por suas próprias leis. O catholicos, chefe espiritual do país, os metropolitas, os arcebispos, os bispos, os arquimandritas, os sacerdotes seculares e os monges constituíam a hierarquia eclesiástica. Brosset, Histoire de la Géorgie, Introduction, São Petersburgo, 1859, p. lxxix. Como para as outras classes da sociedade, todo dano cometido em detrimento de um eclesiástico era punido com uma multa ou preço do sangue, que variava naturalmente segundo a dignidade da vítima. As tarifas não mudaram do século VIII ao século XVI.

Os bispos se misturavam intimamente à vida nacional. Tal como os da Idade Média no Ocidente, acompanhavam os exércitos ao campo de batalha, e é provável que tenham desembainhado a espada mais de uma vez. O catholicos é reconhecido como « rei espiritual » do país, Brosset, op. cit., Introduction, p. cix, nas cartas reais e nos diferentes artigos do código. Isso não impedia que os príncipes seculares o maltratassem, o depusessem ou o expulsassem ao sabor de seu capricho. Davam mesmo, com frequência, seu cargo a personagens indignos, mas que pertenciam ou à sua própria família, ou a uma família nobre cujos favores queriam granjear. Os interesses espirituais eram necessariamente negligenciados por esses prelados de corte, mais ocupados com negócios temporais, e até mesmo militares, do que com o cuidado das almas.

O título de « rei espiritual » não era, contudo, uma palavra vã. Dava ao catholicos uma autoridade real sobre os cidadãos e mesmo sobre o exército, tanto no temporal como no espiritual. Brosset, op. cit., Introduction, p. cx-cxii. Não parece que a Geórgia tenha sido dividida em províncias eclesiásticas bem determinadas. Ao menos, não conhecemos nenhum documento que o prove. É provável que as dioceses se agrupassem por província civil, sem terem elas mesmas limites exatos. A maior parte das dioceses se encontrava nos campos ou nas montanhas, porque a residência de seus titulares era ordinariamente nos mosteiros. Os bispos e as dioceses tiravam seu nome do lugar da residência, ou do título que trazia a igreja catedral. O número das dioceses variou segundo as épocas. Damos aqui a lista elaborada no século XVII por um missionário teatino, o P. A. Lamberti, que permaneceu na Geórgia de 1630 a 1649. Sacra storia dei Colchi (Colchide sacra), Nápoles, 1657, p. 27-35. Na época em que escrevia esse autor, muitas dessas dioceses já haviam desaparecido em consequência das múltiplas provações que a Geórgia sofrera.

Geórgia oriental. Dioceses da província de Karthlie. 1. Igreja patriarcal de 12. 11. Tbiléli (de Tiflis). Mtzkhéta. Maganéli. 2. Zalkéli. 13. (metropolitana) :î. Iassiréli. 14. Gerghitéli. 4. Manéli. 15. Santamléli. 5. Coucouséli. 16. Nicoséli. 6. Pamboukéli. 17. Ourbnéli. 7. Actaléli. 18. Nozouéli. 8. Nakhidouréli. 19. Rouéli. 9. Bonéli. 20. Ertatsmindéli. 10. Siniskavéli. Dioceses da província de Kakhétie. 1. Allaverdéli (arquidiocese). 11. Bodbéli. 2. Zédadznéli. 12. Lertéli. 3. Djvaréli. 13. Vanéli. 4. Samébéli. 14. Arimatéli. 5. Roustvéli. 15. Kiziqéli. 6. Martkoféli. 16. Cabaléli. 7. Catatsnéli. 17. 18. Gaématéli. 8. Pouznaréli. Ninotsmindéli. 9. Nécresséli. 19. Chéqéli. 10. Tchiarambéli. 20. Viginéli. Dioceses da província de Samtzkhé. 1. Scaltéli. 11. Anéli. 2. Euphratéli. 12. Ichkhnéli. 3. Azilakéli. 13. Ispiréli. 4. Angéli. 14. Artona. 5. Scatbéli. 15. 16. Iskméli. 6. Etbéli. 17. Ortéli. 7. Surskaléli. Arzérouméli. 8. Matsqvréli. 18. Koumourdoéli. 9. Dadasnéli. 19. Erousméli. 10. Caréli.

GEÓRGIA OCIDENTAL. Dioceses da província de Mingrélie. 1. Dandréli. 6. Tchipouriasséli. 2. Cagéli. 7. Khoféli. 3. Moqvéli. 8. Obougéli. 4. Bédiéli. 9. Tsqondidéli. 5. Tzaichéli. 10. Saalindjaqéli. Dioceses da província de Abkhasie. 1. Btsunta, residência do ca- 2. Djikéli (arquidiocese), tholicos da Geórgia 3. Blaéli. ocidental. 4. Anacopéli. Dioceses da província de Gouria. 1. Schiamomémédéli. 3. Ninotsmindéli. 2. Blaéti.

Havia, pois, ao todo setenta e sete dioceses na Geórgia. Talvez o P. Lamberti tenha omitido algumas que já haviam desaparecido havia muito tempo. Observemos de passagem que não havia menos de vinte e cinco igrejas catedrais consagradas à Santíssima Virgem, o que indica entre os georgianos uma grande devoção pela Mãe de Deus. A Igreja georgiana possuía imensas riquezas, que lhe vinham das doações feitas pelos príncipes ou pelos simples fiéis. Mourier, L'art religieux au Caucase, Paris, 1887, p. 43.

Essas doações eram quase sempre gravadas com certos encargos, ordinariamente missas a serem ditas ou ágapes a serem servidos. Entende-se por ágapes, na Geórgia, uma refeição que a Igreja ou os fiéis devem pagar aos clérigos, aos pobres, aos passantes, em suma, a todos os que se apresentam, em honra dos mortos. Brosset, Histoire de la Géorgie, Introduction, p. cxiv. Essa prática, que é provavelmente de origem pagã, continua em honra e causa a ruína das famílias. A Igreja tinha, tal como o Estado, vassalos e também servos que faziam valer suas propriedades. Brosset, op. cit., p. cxxvi. Suas riquezas eram consideráveis no fim do século XVIII, apesar das desgraças do país e das pilhagens dos grandes, pois o governo russo lhe tomou mais de 350 milhões de francos em imóveis. Issari, jornal georgiano de Tiflis, 1907, n. 110.

XV. O regime russo na Geórgia. O exarcado. — Pelo tratado de 24 de julho de 1783, concluído entre o rei Heráclio II e a imperatriz Catarina II, o governo russo comprometia-se a manter no trono da Geórgia a dinastia reinante e a garantir a independência da Igreja nacional em relação ao santo sínodo de Petersburgo. Em um novo tratado firmado em 23 de novembro de 1799 entre o tsar Paulo I e o rei Jorge XII, filho de Heráclio, já voltava atrás em suas concessões. Com efeito, Jorge XII devia abdicar e ceder o lugar a seu filho Davi, que levaria o título de regente da Geórgia, dignidade que devia transmitir-se de primogênito em primogênito a seus descendentes. Rottiers, Itinéraire de Tiflis à Constantinople, Bruxelas, 1829, p. 64-70.

Ora, já em 18 de janeiro de 1801, o tsar Alexandre I proclamava a anexação pura e simples da Geórgia ao império russo. A Geórgia ocidental conservou ainda durante alguns anos uma autonomia ilusória, após o que sofreu a sorte das outras províncias. Não temos de ocupar-nos aqui da maneira brutal, habitual nos russos, com que se operou a mudança de regime, nem dos terríveis ódios que o governo moscovita atraiu sobre si, há mais de um século, pelas vexações que infligiu aos georgianos. Contentar-nos-emos em indicar a atitude que tomou em relação à Igreja.

A anexação da Geórgia acarretava logicamente, a seus olhos, o desaparecimento da dignidade de catholicos, cuja existência parecia uma injúria ao santo sínodo de Petersburgo e um grave golpe desferido contra a sua autoridade. Poderia, com efeito, haver duas Igrejas ortodoxas no império dos tsares? Por isso o imperador Alexandre I escreveu ao catholicos Antônio II, em 10 de junho de 1811, para declarar-lhe que a Igreja georgiana não podia continuar autônoma e que a dignidade dele já não tinha nenhuma razão de ser desde a anexação. Pedia-lhe, em consequência, que se dirigisse à Rússia, onde conservaria as honras devidas à sua dignidade, gozaria de uma pensão conveniente e tomaria lugar entre os membros do santo sínodo. Tamarati, L'Église géorgienne, p. 384.

Antônio II foi obrigado a render-se a esse convite, que não passava de uma ordem disfarçada. Morreu na Rússia em 1828. Para não ferir demasiado a suscetibilidade dos georgianos, o governo russo nomeou primeiro um exarca nativo, Varlaam Eristavi, para suceder ao catholicos. Seis anos depois, quando viu sua autoridade firmemente estabelecida no país, lançou fora a máscara e substituiu Varlaam por um exarca russo, Teofilacto Roussanov (1817-1821). Desde essa época, a Igreja georgiana, incorporada à força à Igreja oficial de São Petersburgo, foi constantemente governada por exarcas russos, cuja lista daremos um pouco mais adiante. Embora goze de uma organização um tanto especial, não é de modo algum autônoma, como se poderá constatar estudando sua situação canônica. A reforma não se fez sem atritos. Um primeiro regulamento, elaborado em 1811 pelo exarca Varlaam Eristavi e pelo general Tormasov, governador do Cáucaso, não teve êxito e foi substituído por outro em 1814, após a conquista da Imerécia.

A Igreja georgiana inteira, compreendendo as dioceses da Geórgia propriamente dita, da Imerécia, da Mingrélia e da Gúria, foi colocada sob a autoridade de um único exarca residente em Tiflis e assistido, não por um consistório, mas por um escritório sinodal para a Geórgia propriamente dita, ao passo que um consistório era criado em Koutaïs para a Imerécia, a Mingrélia e a Gúria. Havia cinco eparquias e um vicariato. Todas as demais dioceses foram suprimidas. O escritório sinodal entrou em funcionamento em 8 de maio de 1815. Depois de três anos de experiência, percebeu-se que a nova organização não era viável e não correspondia suficientemente às vistas burocráticas do santo sínodo. Em 1818, Teofilacto Roussanov, primeiro exarca russo, encarregou-se de redigir um novo regulamento que estabelecia na Geórgia uma única eparquia com os nomes de Karthlie e Kakhétie, e dava um bispo a cada uma das outras províncias: Imerécia, Mingrélia e Gúria. Os bispos dependiam diretamente do exarca, que residia em Tiflis e governava a eparquia de Karthlie e Kakhétie.

Ao mesmo tempo, tentou-se introduzir o procedimento eclesiástico praticado na Rússia. Até então, observavam-se no país costumes eclesiásticos totalmente patriarcais. Os párocos eram ao mesmo tempo juízes, conselheiros, administradores e proprietários. Segundo um antigo uso, o príncipe da Mingrélia e os senhores da província reuniam-se na casa do metropolita para deliberar sobre os negócios do principado. A maior parte dos bispos pertencia às famílias senhoriais e administrava suas dioceses sem recorrer às complicações de uma chancelaria burocrática. Uma taxa sobre o clero, algumas contribuições cobradas da população a título de multas judiciais e canônicas, bastavam, com as rendas dos bens eclesiásticos, para fazê-los viver. Os sacerdotes eram numerosos demais; uma aldeia de cem lares chegava a ter até oito. Acrescente-se a isso que os monges empregavam as monjas como servas em seus conventos e que os bispos se ocupavam mais em recolher os impostos do que em celebrar os ofícios litúrgicos. Se devemos crer nos relatórios russos, um bispo oficiava em média dez vezes em trinta anos!

Adivinha-se que os projetos de reformas do exarca não podiam agradar ao clero. Este se revoltou e arrastou consigo toda a população. Viram-se os eclesiásticos fugir com as mulheres e os filhos para as montanhas e as florestas, levando todo o material do culto, enquanto os guerreiros mantinham o campo. Teofilacto, ajudado pelos cossacos, conseguiu com grande dificuldade impor suas reformas na Geórgia. A Mingrélia, a Imerécia e a Gúria só as aceitaram mais tarde, em consequência de repressões sangrentas. O santo sínodo, fiel a seus processos de russificação, trabalhou metodicamente para diminuir a importância de sua nova aquisição. Depois de ter reduzido a cinco as numerosas dioceses que ainda existiam no momento da anexação (umas trinta aproximadamente), afastou os eclesiásticos zelosos, porque os suspeitava de nutrir antipatia contra o regime russo, e os substituiu por eclesiásticos vindos da Rússia, que logo ocuparam os postos mais importantes.

Esses imigrantes, de que o santo sínodo se servia para alcançar seus fins de desnacionalização, estavam longe de ter todos elevadas qualidades. Eram por vezes verdadeiros agentes de polícia que espionavam os georgianos por conta do governo de São Petersburgo. Seu zelo empregou-se sobretudo em fazer desaparecer tudo o que tinha caráter nacional georgiano, como a língua e os usos particulares. Foi assim que o antigo eslavo, língua litúrgica dos russos, foi imposto nas cidades e nos centros um pouco importantes. Tamarati, op. cit., p. 385.

Exarcas e simples sacerdotes adquiriram em pouco tempo fortunas escandalosas, principalmente vendendo os bens da Igreja, os ricos paramentos, os livros e vasos preciosos de que a piedade dos fiéis enriquecera as igrejas e os mosteiros. Encontrar-se-á a enumeração dessas pilhagens, segundo um jornal georgiano, o Issari, de Tiflis, n. 110, em Tamarati, op. cit., p. 386-387. Sozinho, o governo russo tomou da Igreja georgiana todos os seus bens imóveis, no valor de 600 000 rublos, isto é, mais de 350 milhões de francos.

Muitas vezes o clero georgiano levantou a voz para defender o bem das almas comprometido pelos pastores indignos que a « santa Rússia » enviava em número cada vez maior. As queixas que dirigia ao santo sínodo ficavam ordinariamente sem resposta, a menos que valessem toda sorte de vexações a seus autores, a quem se acusava de visões interesseiras ou de entendimento com os elementos revolucionários. Em 1901, por ocasião do primeiro centenário da anexação da Geórgia ao império russo, quatro bispos nativos viram nessa circunstância uma ocasião favorável para obter algum abrandamento do regime odioso que sua Igreja sofria. Dirigiram um relatório ao santo sínodo para pedir-lhe a instituição de uma cátedra de história eclesiástica georgiana na Academia eclesiástica de São Petersburgo. O texto se encontra em Tamarati, op. cit., p. 387. Esse requerimento, bem modesto, contudo, não obteve mais êxito que os anteriores.

Quatro anos mais tarde, sob a pressão do movimento revolucionário, a que a guerra infeliz contra o Japão dava maior força, o governo russo decidiu-se a publicar, em 17 de abril de 1905, o famoso « ucase de liberdade », que concedia a liberdade de consciência a todos os súditos do império. Na Geórgia, clero, nobreza, povo, todo o mundo viu nesse ato um encorajamento para renovar as reivindicações nacionais. O tsar e o santo sínodo receberam múltiplas petições que pediam o restabelecimento da autonomia eclesiástica para a Geórgia. Os nobres apresentaram, em 11 de outubro de 1905, ao vice-rei do Cáucaso uma carta coletiva reclamando o mesmo favor. Tamarati, op. cit., p. 393-395. A esperança de todos foi frustrada.

Tendo o governo se reafirmado um pouco, fez ouvidos moucos. Por seu lado, o santo sínodo, para enganar o público e ganhar tempo, confiou o estudo da questão a uma comissão de vinte membros, que eram todos, exceto dois, inimigos ferrenhos dos georgianos. Os dois membros favoráveis, dois georgianos, nunca foram convocados às sessões, a não ser para ouvir palavras ofensivas à sua pátria. Como era de esperar, a comissão concluiu que o projeto de restabelecimento de uma autonomia eclesiástica na Geórgia era absolutamente inaceitável. Os autores das petições foram tratados de rebeldes pelo santo sínodo, e vários deles pagaram caro sua audácia. A primeira vítima foi Mons. Kirion, antigo vigário do exarca, inculpado de delitos imaginários inventados pela polícia imperial. Foi enviado primeiro à Rússia em 1909, depois encerrado, no ano seguinte, num mosteiro da Crimeia, que ainda não recebera autorização para deixar no início de 1914.

A exasperação dos georgianos chegou ao auge quando viram naufragar a esperança, concebida com demasiada ingenuidade, de uma autonomia ao mesmo tempo política e religiosa. A ação enérgica dos partidos revolucionários trouxe logo fatos muito graves. O exarca Nicon foi assassinado em 1908; o assassino, preso pouco tempo depois, conseguiu fugir com a conivência da população e fazer desaparecer todas as peças do processo. O santo sínodo esperou dois anos, até que os ânimos se acalmassem um pouco, para dar um sucessor a Nicon. O exarca Inocêncio, nomeado em 1910, morreu subitamente em setembro de 1913 e foi substituído já no mês de outubro seguinte por Dom Alexis, bispo de Tobolsk. De 1905 a 1914, mais de 30 000 georgianos foram condenados por crimes políticos. É dizer que a repressão russa foi terrível.

XVI. Situação atual. — O regulamento de 1818 sofreu diversas reformulações, que não apresentam grande interesse. A organização fundamental permaneceu a mesma. A Igreja georgiana é governada por um exarca submetido diretamente ao santo sínodo de Petersburgo e assistido por um gabinete sinodal, do qual é presidente de direito. Esse gabinete compreende ordinariamente cinco membros, dos quais um bispo, três arquimandritas e um arcipreste. O exarca, que reside em Tiflis, porta os títulos de Karthlie e Kakhétie, administra pessoalmente a eparquia da Geórgia e tem a alta vigilância sobre as três outras dioceses que fazem parte do exarcado. É de direito membro do santo sínodo russo.

A eparquia de Imérétie (sede em Koutaïs), a eparquia de Gourie-Mingrélie (sede em Poti) e a eparquia de Soukhoum (sede em Soukhoum-Kalé) são as únicas dioceses sufragâneas do exarca. Falou-se ultimamente em separar do exarcado a eparquia de Soukhoum, julgada suficientemente russificada, para fazer dela uma diocese autônoma, mas isso não passa de um projeto, de sorte que ainda hoje o exarca da Geórgia estende sua jurisdição sobre o território das seis províncias ou governos civis de Tiflis, Bakou, Erivan, Elisabethpol, Koutaïs e do mar Negro. A ele cabe a alta direção dos estabelecimentos eclesiásticos, a ele pertence regular, seja por si mesmo, seja por recurso ao santo sínodo e ao seu procurador-geral, os conflitos que surgem entre o alto e o baixo clero ou entre o pessoal dos estabelecimentos eclesiásticos. Note-se também que o bispo russo de Bakou, embora sua diocese não seja georgiana, toma parte ativa no governo do exarcado. Assiste frequentemente às deliberações do gabinete sinodal, e é ele quem substitui o exarca, em caso de ausência ou de morte.

Como nas outras dioceses da Rússia, encontram-se no exarcado georgiano, ao lado dos bispos propriamente ditos que administram uma diocese, vários bispos-vigários. A eparquia da Geórgia (Karthlie-Kakhétie) conta com dois, dos quais um leva o título de Gori, e o outro o de Allaverdi. Ajudam o exarca no governo de sua vasta diocese. Em contrapartida, as eparquias georgianas não possuem consistórios; estes são substituídos por chancelarias. Salvo essas particularidades, a administração dessas dioceses é calcada na das outras dioceses do império russo.

Dois seminários, o de Tiflis e o de Koutaïs, provêm ao recrutamento do clero. O seminário de Tiflis, fundado em 1817 pelo exarca Teofilacto Roussanov, contava, em 1902, 177 alunos, dos quais 52 não pertenciam à casta sacerdotal. O de Koutaïs data apenas de 1894. Tem especialmente por finalidade fornecer vocações eclesiásticas à Geórgia ocidental. Contava, em 1902, 206 alunos, dos quais 58 não pertenciam à casta sacerdotal. Deve-se notar esta proporção de 28,7 % de jovens cujos pais não são membros do clero; no resto da Rússia ela é infinitamente menor.

Afora os seminários, há no exarcado seis escolas diocesanas de meninos e duas escolas diocesanas de meninas para a instrução dos filhos das famílias clericais. Os mosteiros existentes são em número de 34, dos quais 27 de homens e 7 de mulheres. Remontam em sua maioria a uma alta antiguidade, como vimos anteriormente. Estabelecidos longe de qualquer habitação, e de acesso pouco fácil, não veem afluir as esmolas dos devotos peregrinos e vegetam numa pobreza vizinha da miséria.

Citemos entre os principais: 1º o mosteiro de monjas de Bodbissi, fundado no século XII, junto ao túmulo de santa Nino, apóstola da Geórgia; várias vezes destruído e reerguido, esse mosteiro só remonta, em sua forma atual, a 1889; 2º o mosteiro de homens de Gaétat, em Imérétie, que data do início do século XII; 3º o mosteiro de homens de São Davi Garédjéli, em Garédja, nas proximidades de Tiflis, fundado no século VI por um dos missionários vindos da Síria; foi durante muito tempo um centro monástico muito importante, que ditava a lei a onze outros conventos disseminados nos arredores; conserva os túmulos do fundador são Davi e de seu discípulo são Dido; 4º o mosteiro de homens de Kvarbtakét, colocado sob a invocação da Assunção, fundado no século X ou no século XII nos arredores de Gori; 5º o mosteiro de mulheres de Mtzkhet-Samtavro, consagrado a santa Nino, e cuja igreja remontaria, se fosse de crer nas tradições locais, às próprias origens do cristianismo na Geórgia; essa igreja serviu de catedral aos arcebispos de Samtavro até 1811; 6º o mosteiro da Transfiguração estabelecido em Tiflis, onde os monges dirigem uma escola paroquial; 7º o mosteiro de Bidchvinto perto de Soukhoum-Kalé, que os russos chamam de « Novo Athos ».

Em 1900, o pessoal monástico contava 1 379 membros, dos quais 1 098 monges em 27 conventos, e 281 monjas, noviças em sua maioria, em 7 mosteiros. Os georgianos não são os únicos a povoar os 34 conventos de seu país. Os russos ocupam um certo número deles e formam até a maioria da população monástica. Os georgianos perdem cada vez mais o gosto pela vida religiosa para se lançarem nas intrigas políticas. Durante o período revolucionário que agitou o país de 1904 a 1910, os monges georgianos manejavam, diz-se, mais de bom grado a bomba do que o saltério.

Em todo caso, por ódio de raça, russos e georgianos habitam mosteiros separados. O convento de Bodbissi, que encerra o túmulo de santa Nino, está há vinte e cinco anos nas mãos dos russos, que fizeram explodir a velha igreja com dinamite em 1889 para reconstruir uma nova que em nada lembrasse o glorioso passado desse convento. Esse ato de vandalismo irritou com justiça os georgianos.

Quanto ao clero secular ou clero branco, compreendia, em 1900, 62 arciprestes, 1 647 padres, 231 diáconos, 1 805 clérigos inferiores, todos com posto fixo, e 3 arciprestes, 68 padres, 8 diáconos e 17 clérigos inferiores, em disponibilidade. Os russos entravam nesses diferentes números na proporção de cerca de um terço. Contudo, têm uma tendência marcada a atribuir a si os postos mais importantes. O número de paróquias era de 1527, o de igrejas de 2 455, o de capelas privadas de 9. A população ortodoxa chegava a 1 278 487 almas, em imensa maioria de raça georgiana, assim repartidas: 374 405 na eparquia da Geórgia (Karthlie-Kakhétie), 478 290 na de Imérétie, 321 952 na de Gourie-Mingrélie, 103 750 na de Soukhoum. As seitas eram representadas por 50 000 membros, quase todos de origem russa, dos quais 32 000 somente entre os molokanos. Contavam-se 060 escolas paroquiais instruindo 26 070 alunos, dos quais 7 201 meninas, mais 13 escolas estabelecidas junto aos mosteiros, com 546 alunos.

Esses números dados pelas autoridades russas são fortemente suspeitos, porque o santo sínodo tem todo interesse em diminuir a importância de uma Igreja que não consegue russificar. Todos os georgianos que pudemos consultar afirmam que há pelo menos 2 500 000 cristãos de sua raça na região do Cáucaso. Em 1913, havia 2 055 paróquias. O governo russo lhes dava 809 868 rublos (2 105 000 francos), dos quais 400 000 apenas às paróquias georgianas, que são pelo menos dois terços, e o resto às paróquias russas. O exarcado teve, durante algum tempo, seu periódico, o « Mensageiro eclesiástico da Geórgia », que apareceu todos os meses desde 1º de julho de 1864 até 1903. A falta de leitores foi a razão apresentada para justificar sua supressão. A redação estava estabelecida no seminário de Tiflis. A revista, redigida em georgiano, compreendia duas partes, uma oficial e outra não oficial, com um suplemento em russo. Cf. C. Rounkévitch, L'exarchat de Géorgie, na Encyclopédie théologique orthodoxe de Lopoukine-Gloubovski, São Petersburgo, 1903, t. iii, col. 717-753.

Como já observamos, o clero russo imigrado atribuiu a si, muito naturalmente, os postos mais importantes e de melhor rendimento. Age da mesma maneira para com os eclesiásticos georgianos que se mostram favoráveis às empresas do santo sínodo e que seus compatriotas se obstinam em considerar como traidores da pátria. O exarca é sempre um russo de raça e de tendências. Para quem conhece os procedimentos de governo empregados pelo gabinete de São Petersburgo em relação às outras raças do império, não há nada de surpreendente em que o santo sínodo o escolha entre os mais firmes campeões da ortodoxia oficial, sem se preocupar demais com o acolhimento que lhe reservam os fiéis. Cada vez mais, o clero russo proscreve tudo o que é puramente georgiano. O antigo eslavo ou eslavão é o único admitido nas cerimônias do culto, pelo menos nas cidades e nos centros mais importantes. A língua e o canto georgianos foram repelidos para os campos, cujas paróquias, menos ricas, não tentam a cobiça dos russos. Estas são, aliás, quase sempre atribuídas aos eclesiásticos georgianos que se mostram opostos à política religiosa do exarca, apesar do desejo sincero de conciliação que anima seus três sufragâneos. Estes últimos são quase sempre escolhidos entre os eclesiásticos georgianos. Atualmente, o bispo de Soukhoum é, contudo, um russo. Não é preciso notar que o governo russo só nomeia, para governar as eparquias, pessoas de quem tem certeza.

A proscrição dos costumes nacionais, os procedimentos vexatórios do clero russo e a « traição » de certos padres georgianos tiveram por resultado a deserção em massa das igrejas. O povo prefere abster-se de toda prática pública de religião a pactuar com os « inimigos da nação ». As preocupações políticas contribuem mais para acentuar esse afastamento sistemático do que o zelo pela dignidade da Igreja. Há alguns anos, o exarca Inocêncio queixava-se até de que um certo número de aldeias havia pedido que lhes construíssem mesquitas! Eram sem dúvida pessoas mal convertidas. Há também montanheses independentes que ainda são meio pagãos, embora recebam o batismo; chegam a oferecer sacrifícios de carneiros em grandes ocasiões e em certos dias determinados. Mal veem um padre de vez em quando. Vê-se por esse rápido panorama que a situação está longe de ser brilhante na Geórgia do ponto de vista da religião. É provável que vá até piorando, se o regime político não mudar. A perseguição empreendida pelos russos contra tudo o que é georgiano estende-se não somente aos cristãos, mas também aos muçulmanos.

Os hadjarélis, tribo montanhesa dos arredores de Batoum, tendo pedido recentemente ao governo a permissão de voltar ao cristianismo com a condição de poderem rezar em georgiano, viram-lhes recusada essa faculdade. As autoridades russas retiraram aos georgianos muçulmanos o direito de ensinar sua língua nacional nas escolas que possuem; impõem-lhes o turco para desnacionalizá-los. É verdade que esses muçulmanos passam por cima das proibições do governo e que este não ousa inquietá-los. É difícil avaliar o número dos georgianos que passaram ao islamismo durante a dominação turca ou persa. Seriam de 600 a 800 000. Depois da conquista russa, boa parte deles emigrou para a Turquia, onde são frequentemente confundidos com os tcherkesses ou circassianos, sem dúvida porque usam o mesmo traje. Há 30 ou 40 000 somente na região de Ismidt-Sabandja.

XVII. Lista dos católicos e dos exarcas. — Damos aqui a lista dos católicos e dos exarcas que governaram a Geórgia do século V até os nossos dias, tal como a elaborou o P. Tamarati em sua Église géorgienne, Roma, 1910, p. 408-410. Essa lista é forçosamente incompleta no que toca aos católicos, pois os documentos faltam quase inteiramente para certas épocas. Parece também ter havido, em diversas ocasiões, vários católicos ao mesmo tempo. As datas indicadas pelo P. Tamarati são por vezes incertas, como ele mesmo confessa. A lista será pelo menos preciosa de consultar, porque é a única que se elaborou até os nossos dias. Na dos católicos da Geórgia ocidental, notadamente, observar-se-ão vacâncias consideráveis que talvez não tenham ocorrido; mas o autor evidentemente só pôde anotar os titulares cujo nome a história nos conservou.

Católicos da Geórgia propriamente dita. 1º Pedro I, 471. Talalé. 2º Samuel I, 513-528. Samuel VIII. 3º Pedro II. Sarméan. 4º Samuel II. 5º 6º Taphtchiag I, 528-542. Tchimag. Gregório Cirilo. II. Samuel IX. 7º Dassaba, 542-557. Jorge II. 8º Evlalé, 555-557. 9º Macário, 557-570. Gabriel 1 lil.iiïiui I. 10º Simão-Pedro ou Kvirion, 590-604. Eussouki. 33º 11º Samuel III. Arsênio I. 34º 12º Samuel IV. Miguel I, 947. 13º Samuel V. Basílio 35º I. 37º 36º 14º Bartolomeu, 610-642. 38º Arsênio II, 946-976. 39º Samuel Davi I. X. 15º 16º Babila. João I. Simão. 40º 17º Thabor. 41º Melquisedeque I, 1035 18º Samuel VI. Crisóstomo, 42º 1042. 19º Evnon, 634-663. Jorge III. 20º Taphtchiag II. Gabriel 43º II, 1073. 21º Evlalé II. João III, 1105. 22º Jovel. Basílio 45º 44º II. 23º Samuel VII. 46º Epifânio. 47º Nicolau 48º I, 1170. 24º 25º Jorge Kvirion I. II. Miguel II, 1185. Teodoro 49º I, 1186. 26º Izdobosid. 50º 27º Tév. João IV. 28º Pedro III. Arsênio 51º III, 1218-1226. 29º Mania. Jorge 52º IV, 1226. 30º João II. Nicolau II, 1245-1282. Abraão 53º I, 1282. 31º Gregório I. Eutímio, 55º 54º 32º Clemente, 56º 57º 59º 58º 60º

Basílio III, 1318-1346. 89º Domenti I, 1557-1560. 66º Nicolau III, 1337. 90º Nicolau V, 1562-1517. 67º Jorge V, 1393-1398. 91º Evdomios I, 1578. 68º Elioz I, 1399-1419. 92º Doroteu II, 1583-1585. 69º Miguel III, 1419-1428. 93º 70º Domenti II, 1583-1602. Davi II, 1428. 94º Zebedeu, 1610. 71º Teodoro II, 1429-1438. 95º João VII, 1610-1615. 72º Davi III, 1439. 96º Cristóforo I, 1622-73º Chio I, 1441-1446. 1662. 74º Davi IV, 1447-1456. 97º Zacarias I, 1624-1633. 75º Marcos, 1460-1464. 98º Evdomios II, 1631-76º Davi V, 1464-1479. 1649. 77º Evágrio I, 1488. 99º Domenti III, 1660-1675. 78º Ablac-Abraão, 1492-100º Davi VI, 1672. 79º 1499. 101º Nicolau VI, 1676-1693. Efrém I, 1498-1500. 102º João VIII, 1688-1699. 80º Evágrio II, 1499-1502. 103º Bessarion, 1724-1735. 81º Doroteu I, 1503-1516. 104º Domenti IV, 1705-82º João V, 1516-1517. 1742. 83º Basílio IV, 1518-1529. 105º Nicolau VII, 1742-84º Melquisedeque II, 1524-1744. 85º 1540. 106º Antônio I, 1744-1788. João VI, 1534-1548. 107º José, 1755-1763. 86º Simão I, 1544-1548. 108º Antônio II, 1788-1811. 87º Nicolau IV, 1552. 88º

Católicos da Geórgia ocidental. 1º Arsênio, 1390. 10º Hilarião, 1672. 2º Joaquim, 1470-1474. 11º Davi, 1682-1696. 3º Malaquias I, 1519-1533. 12º Gregório I, 1690. 4º Evdémon I, 1558-13º Nicolau, 1705. 1578. 14º Gregório II, 1712-1742. 5º Malaquias II, 1605-1639. 15º Germano, 1742-1750. 6º Máximo, 1640-1657. 16º Bessarion, 1750-1761. 7º Zacarias, 1656-1659. 17º José, 1761-1776. 8º Simão, 1659-1666. 18º Máximo II, 1776-1795. 9º Evdémon II, 1666-1675.

Lista dos exarcas. Exarca georgiano. 1º Varlaam Eristavi, 1811-1817. Exarcas russos.

1º Teofilacto Boussa- 8º Paulo Lébédev, 1882- nov, 1817-1821. 1887. 2º Jonas Vasilievsky, 1821- 9º Paládio Baïev, 1887- 1832. 3º Moisés Bogdanov-Pla- 10º Vladimir Bogoiavlen- tonov, 1832-1834. sky, 1892-1898. 4º Eugênio Bajénov, 1834- 11º Flaviano Gorodetzky, 1844. 1898-1903. 5º Isidoro Nikolsky, 1844- 12º Alexandre Opotzky, 1858. 1903-1905. 6º Eusébio Ilinsky, 1858- 13º Nicolau, 1905-1906. 1877. 14º Nicon, 1906-1908. 7º Joanício Boudniev, 15º Inocêncio, 1910-1913. 1877-1882. 16º Alexis, 1913.

XVIII. O rito greco-georgiano. — Os missionários gregos que evangelizaram a Geórgia no século IV introduziram muito naturalmente o rito de seu país de origem e a língua grega nas cerimônias do culto. É provável também que tenha havido, no início, mistura de rito grego e de rito siríaco, porque a Síria exerceu uma influência certa na Geórgia. Quando a Igreja foi organizada e a tradução da Sagrada Escritura favoreceu a reforma, a língua georgiana substituiu pouco a pouco o grego, para suplantá-lo definitivamente. É muito difícil precisar a data em que se operou essa mudança importante; é provável, contudo, que ela tenha se concluído no século VI.

A partir de então, os georgianos, que mantinham relações constantes com o império bizantino, adotaram as modificações introduzidas na liturgia em Constantinopla, do século IV ao século XI. O mosteiro dos Íberos, no monte Athos, e o da Santa Cruz, em Jerusalém, que gozavam de uma influência muito grande na Geórgia, serviram por muito tempo de elo entre a Igreja nacional e a do império bizantino. Não é, pois, de espantar que aquilo a que às vezes se chama o rito georgiano não seja outra coisa senão a tradução pura e simples do rito bizantino, vulgarmente chamado rito grego.

Liturgia, ofício ritual, calendário, tudo é idêntico entre os georgianos e entre os greco-eslavos. Mal se podem assinalar alguns costumes particulares de pouca importância, como também se podem encontrar em certas Igrejas gregas, na Síria, por exemplo. Só o canto é diferente. Em vez de adotar as composições musicais bizantinas, os georgianos conservaram seu canto nacional, cujas melodias têm um cunho totalmente especial. Hoje, esse canto, proscrito pelas autoridades religiosas russas em favor do canto moscovita, refugiou-se nas igrejas do campo. Como dissemos um pouco acima, o antigo eslavo ou eslavão tende também a suplantar o georgiano nas cerimônias do culto, assim como os usos particulares da Igreja russa fazem desaparecer pouco a pouco aqueles que são comuns aos gregos e aos georgianos.

Nem mesmo a arquitetura religiosa os georgianos deixaram de tomar emprestada dos gregos. Os monumentos construídos no Cáucaso parecem, os primeiros, ter sido obra de arquitetos bizantinos. Os da melhor época, do século XI ao século XV, reproduzem os principais elementos da construção bizantina: planta em forma de cruz grega, cúpula, etc.; oferecem uma semelhança impressionante com as igrejas da Grécia no último período da Idade Média. Encontram-se também numerosas afinidades com as igrejas dos primeiros séculos erguidas na Ásia Menor, na Síria e particularmente no Hauran. A arquitetura georgiana, que sofreu tantas influências diversas, é, portanto, essencialmente composta. Apresenta, contudo, caracteres originais que a distinguem nitidamente da arquitetura armênia, sua vizinha, que sofreu as mesmas influências. Encontrar-se-á um excelente estudo na obra do Sr. Mourrier, L'art au Caucase, Bruxelles, 1907, p. 8 sq.

XIX. Hagiografia. — Embora tenham adotado o calendário bizantino e celebrem as mesmas festas que os gregos, os georgianos reservaram nele, contudo, um lugar para seus santos nacionais. Nós os indicaremos segundo o estudo que o P. N. Nilles, S. J., publicou na Zeitschrift für katholische Théologie, 1903, p. 660 sq.

Janeiro. 6. São Abo, mártir. — 14. Santa Nino. — 14. Santos Louarsab e Artchil, reis e mártires. — 19. Santo Antão, o Estilita. — 27. São Davi, o Restaurador, rei. Fevereiro. 21. São Pedro, eremita. Março. 20. São Louarsab, o Jovem, rei e mártir. Maio. 7. São João Zédadznéli. — 9. São Chio, eremita. — 13. Santo Eutímio, higúmeno. — 14. São Chalva, mártir. Junho. 1. São Chio e seus companheiros, mártires. — 27. São Jorge, higúmeno.

Julho. 12. São João, higúmeno. — 29. Santo Eustácio, mártir. Agosto. 11. São Bajden, mártir. — 11. São João, missionário. Setembro. 13. Os seis eremitas, mártires. — 13. Santa Kétévan, rainha e mártir. — 14. São José e seus companheiros, mártires. — 18. Santos Bizdina, Elisbar e Chalva, príncipes e mártires. — 26. Santos Isaac e José, mártires. Outubro. 11. Santa Chouchanike ou Susana, rainha e mártir. — 28. São Neófito, bispo e mártir. — 31. Santos Davi e Constantino, príncipes e mártires. Novembro. 6. Os dez mártires. — 10. São Constantino, príncipe e mártir. — 17. São Miguel Gobroni e seus companheiros, mártires. — 19. Santo Hilarião, eremita. Dezembro. 2. São Issé, bispo. Festas móveis. — 3ª feira depois da Páscoa, os santos mártires de Garedja. — 5º domingo depois da Páscoa, santo Abib, bispo e mártir. — 6º domingo depois da Páscoa, São Davi de Garedja.

Daremos alguns pormenores sobre cada um desses santos. Encontrar-se-á a Vida da maioria deles em Martinov, Annus ecclesiasticus grœco-slavicus. Observemos de passagem que a maioria morreu nas múltiplas incursões que a Geórgia teve de sofrer da parte dos persas, dos árabes, dos turcos, dos mongóis e dos persans.

São Abo foi martirizado em Tiflis pelos sarracenos em 890. Resumimos mais acima a vida de santa Nino, ao narrar a conversão da Geórgia, da qual ela foi a primeira apóstola. Os santos Louarsab e Artchil, reis da Geórgia, morreram pela fé cristã por ocasião da devastação de sua pátria por Merwân-Qrou ou o Surdo, em 741. Santo Antão, o Estilita, apelidado Martqoph ou o Solitário, é um dos missionários vindos da Síria no século VI sob a direção de são João Zédadznéli. Morreu por volta de 620.

São Davi III, rei da Geórgia (1089-1125), apelidado o Restaurador, trabalhou para levantar de suas ruínas a Igreja e o Estado e distinguiu-se por seu zelo na reconstrução das igrejas e dos mosteiros. São Pedro de Maïouma, que não se deve confundir com Pedro o Íbero, outro georgiano que foi bispo da mesma cidade, praticou a vida religiosa em Maïouma, perto de Gaza, e morreu por volta de 452. São Louarsab, o Jovem, rei da Geórgia, foi estrangulado pelos persans em 1622, após um cruel exílio de sete anos. São João Zédadznéli foi o chefe dos doze missionários vindos da Síria no século VI para concluir a evangelização da Geórgia. São Chio, o Taumaturgo, um dos companheiros do precedente, eremita em Mgvimé, é um dos padroeiros da Geórgia. Santo Eutímio, higúmeno do mosteiro dos Íberos, no monte Athos, era o chefe dos tradutores dos Livros santos e dos escritos dos Padres, no século XI. Morreu em 1028.

São Chalva, príncipe de Akhaltzkhé, morreu vítima dos árabes depois de ter sofrido longamente na prisão (1227). São Chio e seus cinco companheiros pereceram em data ainda não precisada, sob os golpes dos Leskines, montanheses muçulmanos do Cáucaso. São Jorge, higúmeno do mosteiro dos Íberos no monte Athos, foi um dos discípulos e dos sucessores de santo Eutímio, na tradução dos Livros santos. O fundador desse célebre mosteiro foi são João, pai de santo Eutímio, que se estabeleceu no monte Athos por volta de 970 e morreu em 998. Santo Eustácio de Mtzkhéta pereceu sob o ferro dos persas em 581. São Rajdem, o primeiro mártir georgiano, foi cruelmente morto pelo xá Piros, em 457. São João Zédadznéli teria sido um dos primeiros missionários enviados à Geórgia pelo imperador Constantino, a pedido do rei Mirian, e teria morrido em 356. Os dados históricos sérios relativos à sua vida faltam completamente.

Os seis mártires honrados a 13 de setembro foram mortos em Tiflis pelos persas. São eles: Estêvão de Hirsa, Zenão de Icalto, Tadeu de Stépan-Zminda, Isidoro de Samtva, Pirro de Bréta e Miguel dl'lnia. Santa Kétévan, rainha da Geórgia, levada em cativeiro pelos persans, morreu vítima de seu apego à religião cristã e à castidade (1622). São José de Alaverdi, eremita, foi massacrado com vários de seus companheiros, durante uma incursão dos persas em 650. Os príncipes Bizdina, Elisbar e Chalva, feitos prisioneiros pelos persans, preferiram morrer a abraçar o islamismo (1615). Os santos Isaac e José pereceram em Tiflis, durante uma incursão dos muçulmanos (808). Santa Chouchanike ou Susana recusou-se a imitar seu marido, que havia abandonado a fé católica, e morreu mártir após seis anos do mais duro cativeiro, em 458. São Neófito foi primeiramente um chefe muçulmano de nome Omar. Depois de sua conversão, entrou num mosteiro e tornou-se bispo de Urbnissi. Morreu mártir dos sarracenos, por volta de 825.

Os santos Davi e Constantino estiveram entre as vítimas feitas por Merwân-Qrou ou o Surdo em Routais, em 741. Os dez mártires honrados a 6 de novembro pereceram no século VI. Sua vida e seu ofício desapareceram infelizmente. São Constantino, príncipe e mártir, foi morto pelo califa Djafar, em 849. São Miguel Gobroni, de Akhaltzikhé, comandava os exércitos georgianos quando foi morto pelos infiéis com duzentos de seus soldados, em 920. São Hilarião Vatchinazé, originário da Kakhétie, sacerdote e eremita, morreu em Tessalônica, por volta de 882. São Issé, bispo de Cilcan, foi um dos companheiros de são João Zédadznéli. Os santos mártires de Garedja pereceram na noite da Páscoa de 1621, massacrados na igreja de seu mosteiro pelo famoso xá Abbas o Grande. A tradição quer que tenham sido cinco mil. Santo Abib, bispo de Nécressi e mártir, foi um dos companheiros de são João Zédadznéli. São Davi de Garedja, eremita, fundou a solidão monástica chamada mais tarde a Tebaida georgiana. Morreu por volta de 587.

XX. Língua e literatura georgianas. — Os linguistas ainda não conseguiram pôr-se de acordo para dizer a que grupo pertence a língua georgiana. Bopp e Brosset a ligam à família indo-europeia; Max Müller quer que ela seja da família turaniana; P. A. Trombetti, L'unità d'origine del linguaggio, Bolonha, 1905, p. 5, 216, vê no georgiano e no basco o elo que une as línguas camito-semíticas às línguas indo-europeias; outros, enfim, como Frédéric Müller, desesperando de classificar essa língua assim como outras que pertencem a povos vizinhos dos georgianos, fazem dela provisoriamente um grupo à parte, o grupo das « línguas caucásicas ». Seja como for dessa questão, que estudos mais aprofundados esclarecerão provavelmente um dia, a língua georgiana é uma das mais antigas do mundo.

Muitos sábios, seguindo A. Gatteyra, Revue de linguistique, julho de 1881, t. xiv, p. 285, e F. Lenormant, Lettres assyriologiques, t. i, p. 124-127, admitem um estreito parentesco entre o georgiano e o idioma urartiano revelado pelas inscrições de Van. No decurso dos tempos, a língua primitiva dividiu-se em vários dialetos locais, tais como o gouri-imérete, o karthli-kakhéte, o pchav-khevsour, o mesque, o inguiloï. Do mesmo modo, certo número de palavras estrangeiras, de origem sânscrita, persa, armênia, grega, latina, turca, russa, etc., introduziu-se pouco a pouco na língua. A Geórgia ocidental sofreu principalmente a influência da Turquia, a Geórgia oriental a da Pérsia. O georgiano dispõe de dois alfabetos de trinta e oito letras cada um: o alfabeto mkhédrouli ou civil, introduzido provavelmente pelo rei Pharnavaz no fim do século IV antes de Jesus Cristo, e que J. L. Okromtcheldi crê emprestado do alfabeto zenda, e o alfabeto khoutsouri, ou religioso, que não seria senão uma transformação do mkhédrouli.

Os armênios pretendem que Mesrob enviou aos georgianos esse alfabeto religioso, depois de ter composto um para seus compatriotas. Embora haja mais de uma analogia entre a escrita georgiana e a escrita armênia, essa paternidade é muito contestável, pois nem sequer está demonstrado que Mesrob tenha inventado o alfabeto armênio. Cf. Lynch, Armenia, Travels and Studies, Londres, 1901, t. i, p. 312. O Dr. R. von Aricht, Ist die Ähnlichkeit des glagolitischen mit dem grusinischen Alphabet Zufall ? Leipzig, 1895, admite que o alfabeto eslavo primitivo dito glagolítico é um empréstimo feito ao alfabeto civil georgiano, o que é uma nova prova da antiguidade deste.

A literatura georgiana não se limitou, como certas outras, às ciências eclesiásticas; ensaiou-se igualmente no domínio puramente profano e deu verdadeiras obras-primas em prosa e em verso. Apesar das vicissitudes da vida nacional, pode-se dizer que ela não cessou de produzir um só instante desde o começo até nossos dias. Enquanto outros povos orientais se limitam hoje quase exclusivamente a traduções de obras europeias, os georgianos permaneceram fiéis às suas tradições e sofrem apenas debilmente a influência ocidental. Divide-se ordinariamente a história da literatura georgiana em quatro períodos: o período primitivo ou preparatório, do século V ao século X, o período clássico, do século X ao século XIII, o período novo, do século XIII ao século XIX, enfim, o período moderno, do século XIX até nossos dias. Essa história é ainda imperfeitamente conhecida. Resta nas diversas bibliotecas da Geórgia e do estrangeiro uma massa de manuscritos ainda não estudados, cuja publicação lançará certamente uma luz nova sobre os séculos passados. Apesar dessas lacunas, poderemos dar da literatura georgiana um panorama suficiente.

1º Período primitivo. — É muito natural que as primeiras produções literárias da Geórgia tenham sido traduções da Sagrada Escritura. Compreende-se que desde o início os missionários tiveram a peito tornar inteligível aos fiéis o texto dos Livros sagrados. Um manuscrito do século IX, conservado no museu da Sociedade para a difusão da literatura georgiana, intitulado a Epístola dos apóstolos — contém todas as Epístolas apostólicas — traz em sua suscrição que foi copiado de um manuscrito mais antigo, que remonta ao terceiro ano do reinado de Arcádio, isto é, por volta de 398-399. Sabemos também que o rei Pharsman (542-557) deu a Evágrio, do mosteiro de São Chio, um Evangelho que havia pertencido ao rei Vakhtang (446-499). Era talvez aquele que o rei Artchil I (410-434) mandou traduzir para sua nora, a princesa persa Sagadoukte, mãe de Vakhtang. É muito provavelmente no idioma da Pérsia que foi feita essa tradução, mas ela prova bastante claramente que a Sagrada Escritura já era conhecida e apreciada na Geórgia.

Não faltam outros documentos que provem a atividade literária dos georgianos nos primeiros séculos do cristianismo. Um manuscrito de 897, chamado o « Evangelho de Adiche » na Svanétie, parece ter sido copiado de um texto muito mais antigo. Entre os livros da biblioteca de São Sabas, existe um sinaxário georgiano do século VII. O Sinai possui numerosos manuscritos georgianos, em papiro, menologios, saltérios, etc., que ainda não foram suficientemente estudados, mas que também se fazem remontar ao século VII. Um ordo de missas encontrado por Tischendorf foi copiado em 941 de outro que permaneceu desconhecido. Os quatro Evangelhos de Xnissa, documento apenas recenseado, trazem a data da criação 0110, o que equivale ao ano 506 de nossa era, segundo o sistema georgiano. Os Evangelhos de Urbnissa são do século mi'; os de Parkalissa e de Tbétissa não são senão cópias feitas em 973 e 995 de manuscritos mais antigos.

Sobre que texto foram feitas essas traduções primitivas? É difícil admitir que a Epístola dos apóstolos, que remonta a 398-399, tenha sido traduzida de um texto armênio, pois Mesrob e Sahag ainda não haviam empreendido traduzir os Livros santos para sua língua. É, contudo, indubitável que muitas dessas traduções sofreram a influência dos armênios. Temos como prova a confissão de são Jorge Mtatsmindéli. Khakhanachvili, Histoire de la littérature géorgienne, Tiflis, 1904, p. 98. Ele reconhece que o joio, isto é, os erros dos armênios, havia penetrado no texto sagrado. A Síria exerceu igualmente certa influência, sobretudo no século VI. Mas, a partir do século VII, é do lado de Constantinopla que os georgianos vão principalmente buscar a luz. A influência grega penetra cada vez mais e logo domina sozinha. Os importantes mosteiros georgianos espalhados no império bizantino dirigem esse movimento, que atinge seu apogeu nos séculos X e XI. Livros santos, livros litúrgicos, obras dos Padres, todas as riquezas eclesiásticas dos gregos penetram, pois, depois das dos armênios e dos sírios.

Não se deveria crer, contudo, que o movimento literário se limitou unicamente às ciências religiosas. Desde o início, a história ocupa um lugar importante. A obra intitulada: A Conversão da Geórgia, cuja primeira parte pelo menos remontaria ao século VII, dá a conhecer uma massa de escritos mais antigos, muito preciosos sobre os primeiros séculos do cristianismo na Geórgia e que infelizmente desapareceram. Outra crônica importante dessa época parece subsistir numa tradução armênia do século XVIII. O assunto principal dessa obra é a descrição da Geórgia no tempo do rei Vakhtang I (446-499), composta por um certo Gouamber, que a continuou até o reinado de Artchil II (688-718). Enfim, os Anais georgianos, vasta compilação executada no século XVIII sob o rei Vakhtang VI (1703-1738), baseiam-se numa multidão de escritos históricos muito antigos que relatam as origens e a história da nação. Como há uma diferença considerável entre o relato da Bíblia e o dos Anais, certos autores querem que esses documentos sejam anteriores à introdução do cristianismo na Geórgia. Tamarati, Église géorgienne, p. 28.

2º Período clássico. — O segundo período, ou período clássico, manifesta claramente a influência grega, mas não em todos os gêneros literários. Os conventos georgianos do império bizantino, particularmente o do monte Athos, os de Opisi, de Chatbéri, de São Chio Mgvimé, de Garedja e de Guélati, na Geórgia, concentram por si sós quase todo o movimento literário da época. No monte Athos, santo Eutímio (964-1028) e são Jorge Mtatsmindéli (1014-1066) dirigem uma escola de tradutores que fazem sua pátria aproveitar as obras gregas mais importantes. A Bíblia e os livros litúrgicos são minuciosamente revistos sobre o texto grego. Santo Eutímio publica sozinho a tradução de 52 obras e são Jorge a de 17. Encontrar-se-á a lista de 191 manuscritos georgianos do monte Athos, que são na maioria dessa época, no Journal asiatique, 6ª série, 1867, t. i, p. 333-350. Ela foi elaborada em 1836 pelo P. Hilarião, confessor do rei Salomão II. Veem-se nela as obras de santo Atanásio, de são Basílio, de são Gregório de Nazianzo, de são João Crisóstomo, de são João Damasceno, as vidas de uma multidão de santos, sinaxários, obras apócrifas, etc.

O Sr. Tsagarelli publicou no Sbornik, revista da Sociedade russa da Palestina, São Petersburgo, 1883, t. iv, p. 144-191, a lista dos 147 manuscritos georgianos conservados na biblioteca patriarcal de Jerusalém e que vêm na maioria do mosteiro da Santa Cruz. O Sinai possui também certo número de manuscritos. Todas essas obras, e mesmo boa parte das que se encontram na Geórgia, ainda não foram suficientemente estudadas. Por volta de meados do século X, o catholicos Arsênio II (946-976) escreve, sob o título A Abelha, uma história da separação dos georgianos e dos armênios; teria trabalhado também numa coleção de vidas de santos, particularmente de santos nacionais. Baumstark, Die christlichen Literaturen des Orients, Leipzig, 1911, t. ii, p. 104. Na mesma época, João Pétrissy traduzia as obras de Platão e de Aristóteles.

À influência bizantina veio logo juntar-se a influência dos árabes e dos persas. Os primeiros importaram as ciências positivas: matemática e astronomia (já haviam estabelecido, no século VIII, um observatório em Tiflis). Os persas enriquecem a literatura georgiana com uma série de composições em prosa e em verso. O reinado de Thamar (1184-1212) é marcado pelo desabrochar de obras notáveis devidas a essa influência.

Os poetas Tchakhroudzé e Chota Roustavéli celebram a rainha em seus poemas; Sarghis Tmogvéli compõe o poema heroico intitulado: Amiran-Darédjuniani e o romance Visramiani. Mas de todos os escritores dessa época, o mais notável é, sem contestação, o poeta Chota Roustavéli. Os georgianos leem e estudam ainda hoje, com respeitosa admiração, sua obra principal, a Pele de leopardo ou, melhor, o Homem vestido com a pele de leopardo, composta sob a rainha Thamar e que certos bispos demasiado zelosos do século XVIII condenaram como ímpia. Leist publicou dela uma tradução em alemão, Leipzig, 1880, e Achas Borin outra em francês, Paris, 1885.

3° Período novo. — Depois do período clássico, a literatura georgiana caiu numa profunda decadência, causada pelos desastres exteriores e pelas perturbações interiores que transtornaram o país: invasões dos mongóis, de Timur-Leng, dos persas, etc. A tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453 enfraqueceu para sempre a influência grega, que já estava em declínio. O renascimento literário só se produziu no século XVII; continuou-se durante o século seguinte. Mesmo a época mais conturbada desse período, do século XIII ao século XVII, nos deixou numerosas traduções e escritos originais, entre outros uma quinzena de poemas épicos. Encontram-se também alguns monumentos da legislação civil e eclesiástica, tais como as leis do rei Jorge V, o Brilhante (século XIV), as leis de Béka, completadas no século XV pelo príncipe Aghbougua, suserano do Samtzkhé Saatabago. No século XIII, o católicos Arsênio publica regulamentos eclesiásticos; no XIV, o arquimandrita Jorge traduz para o georgiano os cânones da Igreja; no XV, por proposta do católicos Malaquias, um concílio publica ordenanças obrigatórias para todos e confirmadas pela assinatura de onze arcebispos. Essas ordenanças e as leis do rei Jorge V, bem como as do atabek Béka e de Aghbougua, fizeram parte mais tarde do código do rei Vakhtang VI.

Como obras históricas, citemos: a História dos reis da Imerécia pelo católicos Arsênio (século XIV); a Descrição do Samtzkhé-Saatabago pelo monge João Mangléli (século XV), a Destruição da Geórgia por Ismael, do católicos Domenti (século XVI), a Vida e os feitos dos príncipes da Imerécia, pelo monge Evdémon. O renascimento dos séculos XVII e XVIII, sob os reis Artchil, Téimouraz I, Téimouraz II, Vakhtang VI, Heráclio II, produziu obras mais notáveis. Artchil, rei da Geórgia e da Imerécia, deixou várias obras poéticas, entre as quais o Artchiliani, obra épica que narra a vida e os feitos de Téimouraz I. Esse soberano ocupa um lugar importante na literatura georgiana; traduziu a História de Alexandre Magno do pseudo-Calístenes.

Vários outros príncipes da família real escreveram também tratados sobre teologia, filosofia e história, bem como poesias. A obra mais importante é o poema de David Gouramichvili, que narra as desgraças da Geórgia no século XVIII. O príncipe-monge Saba Soulkan Orbéliani, convertido ao catolicismo, e que havia viajado pela Europa, compôs um dicionário e uma coletânea de fábulas intitulada: Livro da sabedoria e da mentira. Vakhoucht, filho de Vakhtang VI, redigiu uma geografia e uma história, a Vida da Geórgia ou Anais georgianos, segundo os ricos materiais reunidos pelo comitê histórico que seu pai havia formado. Vakhoucht mandou imprimir uma edição completa da Bíblia em Moscou em 1742-1753. Por fim, o católicos Antônio I, além de diversas traduções de obras profanas, compôs uma teologia, um martirológio, biografias de santos, etc.

4° Período moderno. — Esse período produziu um grande número de autores distintos, mas que quase só se ocuparam de obras profanas. Na primeira metade do século XIX, a literatura é quase exclusivamente de inspiração georgiana; na segunda, ao contrário, a influência estrangeira, russa ou outra, se faz vivamente sentir, sem excluir completamente o nacionalismo literário. Citemos na primeira metade do século: o príncipe Jorge Eristavi, o primeiro dramaturgo georgiano, fundador do jornal Tsiscari (a Aurora), os príncipes Alexandre Tchavtchavadzé, Gregório Orbéliani, Nicolau Baratchvili, Vakhtang Orbéliani, Rafael Eristavi, as princesas Nino Orbéliani e Bárbara Djordjadzé, todos poetas notáveis, e o romancista Djonkadzé. Esse primeiro período é assinalado pelos trabalhos literários e científicos dos filhos do último rei, Jorge XII; o príncipe David escreve um compêndio da história da Geórgia, seu irmão João recolhe os atos diplomáticos de Jorge XII; Téimouraz compõe uma excelente História da Geórgia; Bagrat reúne os provérbios e ditados populares.

O único autor eclesiástico a mencionar nessa época é o bispo Gabriel da Imerécia, pregador célebre, cujos sermões foram traduzidos para o inglês por Mahun, bispo anglicano de Broad-Windsor. Depois de 1850, notam-se o príncipe Ilia Tchavtchavadzé, poeta e romancista, fundador do jornal Sakarloelos Moambé (o Mensageiro georgiano), os príncipes Akaki Tsérétéli e Mamia Gouriéli, poetas líricos, o economista N. Nicolatzé, o romancista Jorge Tsérétéli, autor de obras de arqueologia e de história, Catarina Gabachvili, autora de romances, o príncipe João Matchabéli, tradutor das obras de Shakespeare. Entre os dramaturgos citemos: o príncipe Rafael Eristavi, Eugênio Tsagaréli e Alexandre Kazbek. Os irmãos Rasikachvili consagraram seu talento poético à descrição da vida, dos costumes, dos hábitos dos montanheses. Os historiadores mais conhecidos são Platão Josséliani, Dimitri Bakradzé e F. M. Brosset, orientalista francês, que consagrou grande parte de sua vida à história da literatura georgiana. David Tchoubinof compôs numerosas obras clássicas; A. Khakhanachvili ocupou-se da história literária.

Uma parte da atividade literária dos georgianos se gasta desde há muito em numerosos jornais e revistas, apesar das implicâncias da censura oficial russa, que suprime ou condena impiedosamente toda folha cujas apreciações lhe pareçam um pouco livres. Convém citar os principais órgãos da imprensa georgiana para mostrar como é viva e ativa a elite intelectual do país. Os principais jornais são: Imereli (a Imerécia), que se publica em Koutaïs; Khma Kakhetissa (a Voz da Kakhétia) em Télav; Karthli (a Karthlia) em Cori; Iialoumi Gazeti (o Jornal de Batoum); Sassoplo Journali (o Jornal da aldeia); Cooperatsia (a Cooperação), em Koutaïs; Sakhalkho Gazeti (o Jornal do povo), em Tiflis: é o mais difundido; enfim Taviscoupali Sakarihlo (a Geórgia independente), que se publica na Europa. Citemos entre as revistas: Ganatleba (a Iluminação), revista mensal; Kldé (o Rochedo), revista semanal, em Tiflis; Gantiadi (a Aurora), revista eclesiástica, em Koutaïs; duas revistas para a infância: Djidjeli (a Germinação) e Naghdouli (o Riacho); Mossavali (a Colheita), revista mensal agrícola, em Tiflis; Samkhournalo Pourtsêli (Folha de medicina), em Tiflis.

O governo russo suprimiu nos últimos anos vários jornais importantes, alguns dos quais muito antigos, porque publicavam artigos que não tinham o dom de lhe agradar. Citemos: Iveria (a Ibéria), Droeba (o Tempo), Issari (a Flecha), Moambé (o Mensageiro), Tsnobis Pourtsêli (a Folha de notícias), Tsiscari (a Aurora), Crébouli (a Coletânea), Eri (a Nação). Enfim, encontram-se na Geórgia uma dezena de sociedades que se ocupam de difundir no povo o culto da tradição literária nacional ou da civilização em geral.

1. A mais importante é, sem contestação, a Sociedade para a difusão da literatura georgiana, fundada em Tiflis em 1877. Vive das cotizações de seus membros, de doações e de fundações; seu orçamento anual é de 200 000 rublos, isto é, de 520 000 francos. A Sociedade, cuja sede é em Tiflis, tem filiais um pouco por toda parte, principalmente em Gori, Télav, Koutaïs, Batoum, Soukhoum-Kalé, Samtrédi, Bakou, Vladicaucase, etc. Possui em Tiflis um museu histórico e uma biblioteca de manuscritos e de documentos concernentes à Geórgia. Seu fim é editar manuais populares e científicos e criar bibliotecas populares nas cidades e nas aldeias. Mantém também 15 escolas primárias.

2. A Sociedade dos nobres do governo de Tiflis ocupa-se da instrução da juventude. Possui dois ginásios em Tiflis, um para os rapazes e um para as moças. 3. Existe uma sociedade semelhante em Koutaïs, onde dirige um ginásio; tem além disso uma escola secundária em Akhalisénaki. 4. A Sociedade de iluminação (de instrução e de educação) dirige em Tiflis uma escola secundária de moças. 5. A Sociedade das damas georgianas possui em Tiflis uma escola profissional gratuita para as moças. 6. A Sociedade georgiana de história e de etnografia possui um museu em Tiflis. Edita manuscritos antigos e as obras de seus membros. 7. Existe uma sociedade semelhante em Koutaïs. 8. A Sociedade de alta literatura vem em auxílio dos escritores georgianos e publica suas obras. Citemos ainda uma sociedade para o ensino comercial, outra para o ensino agrícola, três sociedades dramáticas em Tiflis, Koutaïs e Batoum; enfim uma sociedade filarmônica em Tiflis, que recolhe os cantos populares e que dirige em Tiflis uma escola de música.

Terminemos este panorama da literatura georgiana dizendo algumas palavras sobre os primeiros livros impressos. Em 1627, a Propaganda publica um breviário paroquial e um catecismo. O rei Artchil manda abrir em Moscou a primeira tipografia georgiana importante (1705), que edita primeiro o Saltério, depois a Bíblia inteira. O bispo Anthime da Valáquia, georgiano de nascimento, funda outra, por volta de 1710, em Rimnic; transfere-a depois para Targovncin, depois para Sviagov, perto de Bucareste, e a envia finalmente à Geórgia com os operários, depois de ter impresso o Kontakion.

Duas tipografias se estabelecem logo na Geórgia, a de Tiflis e a de Koutaïs. Tiflis edita o Evangelho em 1709, o Horologion e o Kontakion em 1710. Encontram-se ainda tipografias georgianas em diversas cidades russas, em Wladimir, em Krementchouk, em São Petersburgo, em Novgorod, etc. Samébéli manda imprimir em Novgorod (1739-1740) o Horologion, a Paraclitiki e o Evangelho. Moscou edita a Bíblia em 1733; o príncipe Vakhoucht a revisa e faz dela uma nova edição em 1742-1543; em 1756, o católicos Antônio I imprime todos os livros eclesiásticos; em 1765, aparecem as Epístolas, o Saltério e um novo Horologion. A Bíblia georgiana foi reimpressa de 1848 a 1884. Por ordem do santo sínodo, trabalha-se atualmente numa nova edição dos Livros santos, baseada não no texto grego, mas na tradução eslava, que é conhecida por seus erros. Assim, o acolhimento que os georgianos dão a essa obra é antes frio.

XXI. Missão latina. Do século XIII ao século XVII. — Os primeiros missionários latinos que penetraram na Geórgia, por volta de 1230, eram franciscanos. Uma carta do papa Gregório IX ao rei desse país (abril de 1233) nos informa que ele enviava esses apóstolos não com o propósito de reconduzir os georgianos à unidade que talvez ainda não tivessem rejeitado, mas de converter as populações pagãs dos arredores. Archives Vaticanes, Reg. Vat. 17, fol. 6. Alguns anos mais tarde, oito frades pregadores enviados pelo mesmo papa estabeleciam em Tiflis um mosteiro que se tornou o centro de suas missões (1240). Tamarati, Église géorgienne, p. 430.

Apesar das calamidades que continuavam a abater-se sobre a Geórgia, os papas não cessavam de lhe enviar missionários. Nicolau IV escreve por duas vezes (1289, 1291) ao rei e ao católicos para lhes recomendar franciscanos. Langlois, Registre de Nicolas IV, Paris, 1893, t. i, p. 391 ; t. n, p. 393, 904. No início do século XIV, os papas se preocupam de novo com a sorte religiosa da Geórgia. João XXII escreve em 1321 ao rei Jorge V, o Brilhante (1318-1364), para instá-lo a voltar à unidade romana. Archives Vaticanes, Ioan. XXII com. Reg. Vat. 62, fol. 5. Sete anos mais tarde, transferia para Tiflis o bispado de Esmirna, arruinado pelos turcos, e depois erigia a capital da Geórgia em sé episcopal latina (1329). O primeiro titular dessa nova sé foi um antigo apóstolo da Geórgia, o dominicano João de Florença, que governou a missão durante dezenove anos. Tamarati, op. cit., p. 442.

Os missionários latinos, franciscanos e dominicanos, continuavam a vir em grande número à Geórgia e a trabalhar na conversão dos pagãos e no retorno dos cismáticos à união. Ch. de Saint-Vincent, L'année dominicaine, Amiens, 1702, p. cvn; Henrion, Storia universale delle missioni cattoliche, Turin, 1746, 1. 1, p. 125. João de Florença foi substituído em 1349 por Bertrand Colletti, que Clemente V transferiu para Ampúrias e ao qual deu como sucessor o bispo Bertrame (1356). O grande cisma do Ocidente fez sentir até na Geórgia seus funestos efeitos. Bertrame, tendo tomado partido pelo papa de Roma, Urbano VI, viu-se destituído por seu rival de Avinhão, Clemente VII, que o substituiu por um de seus partidários, o franciscano Henrique Ratz. Archives Vaticanes. Clem. VII com. Reg. Vat. 228, fol. 39.

Alguns anos mais tarde, Bertrame foi restabelecido em sua sé de Tiflis, onde morreu em 1391. Teve por sucessor Leonardo de Villaco, nomeado por Bonifácio IX, Archives Vaticanes, Bonif. IX, ann. n, t. XVII, fol. 168, depois um certo João, nomeado em data desconhecida. Em 1425, Martinho V escolheu como bispo de Tiflis o dominicano João de São Miguel. Archives Vaticanes, Reg. Vat., Alarl. V, t. XXXII, fol. 207. Nicolau V nomeou outro dominicano, Alexandre, em 1450, e Pio II, em 1462, Henrique, que morreu no mesmo ano, e depois Henrique Wonst, um franciscano. A sé passou em 10 de julho de 1469 a um agostiniano, João Ymmink, e voltou em seguida aos franciscanos, que contaram entre os seus os dois últimos titulares da sé de Tiflis, Alberto Engel em 1493 e João Schneider de Dortmund em 1507. Tamarati, Église géorgienne, p. 450. Houve, portanto, quatorze bispos latinos de Tiflis desde a criação da sé em 1329 até seu desaparecimento no início do século XVI. A partir desse momento, os missionários latinos se tornaram cada vez mais raros na Geórgia, até desaparecerem de todo durante cerca de um século. Foi então que foram momentaneamente substituídos pelos frades unidos ou uniteurs, ramo armênio da família de São Domingos.

Vemos, com efeito, o papa Paulo III recomendar dois desses missionários ao rei da Geórgia, Louarsab (junho de 1545). Archives Vaticanes, Paul. III, ann. xi-xn, t. v, t. CCXLV, fol. 104. A missão dos frades uniteurs parece ter tido pleno êxito, pois o papa enviou no ano seguinte um núncio à Geórgia, o arcebispo armênio Estêvão de Natchitchévan. Archives Vaticanes, Paul. III, ibid., fol. 286.

XXII. Missão dos Padres teatinos (1626-1700). — Durante quase um século, os georgianos ficaram privados de missionários católicos. No início do século XVII, pediram-nos eles próprios. Os dois príncipes Manukar e Alexandre dirigiram-se aos que evangelizavam a Pérsia, mas não obtiveram nenhum. Antoine de Gouvea, Relation des grandes guerres et victoires obtenues par le roij de Perse Cha Abbas, p. 477. Os príncipes da Geórgia ocidental logo os imitaram. O príncipe Dadian conseguiu fazer vir de Constantinopla um Padre jesuíta, o P. Luís Granger, que partiu para a Mingrélia em 1614 e iniciou um apostolado frutuoso, que a falta de missionários obrigou a abandonar. Em 1624, a Propaganda enviou ao Oriente quatro Padres dominicanos para estudar a situação. Um deles visitou a Geórgia e prometeu aos príncipes desse país fazer-lhes enviar missionários. Infelizmente não se puderam cumprir essas promessas. Archives de la Propagande, Persia, Giorgia, Mengrelia e Tartaria, t. ccix, fol. 439 sq.

Tendo vários relatórios favoráveis sido enviados à Propaganda por diversos missionários, essa Congregação decidiu-se a empreender o retorno dos georgianos à unidade católica. Escolheu para isso a ordem dos teatinos. O P. Pedro Avitabille partiu de Roma em 1626 com dois outros Padres. No caminho, encontraram em Messina um monge georgiano, Nicolau Erbachi, enviado como embaixador pelo rei Téimouraz junto ao papa e aos demais soberanos da Europa. Silos, Historia clericorum regularium, Rome, 1655, t. ii, p. 588. Nicolau Erbachi, depois de se converter em Roma, fez fundar na Propaganda uma tipografia para a língua georgiana e imprimiu nessa língua um pequeno livro de orações e um dicionário ítalo-georgiano. Tamarati, op. cit., p. 505.

Os missionários teatinos só chegaram à Geórgia em dezembro de 1628. Sua pregação e o exercício da medicina atraíram logo a simpatia geral, apesar das calúnias espalhadas contra eles por sacerdotes gregos vindos de Jerusalém para pedir esmolas em favor do Santo Sepulcro. O retorno de Nicolau Erbachi acentuou ainda mais essa simpatia. Contudo, o rei Téimouraz não ousou fazer publicamente profissão de fé católica.

Dois novos missionários teatinos partiram para a Geórgia em 1630. Encontraram em Malta o P. Pedro Avitabile, enviado a Roma para expor ali a situação da Geórgia e que logo partiu de novo com quatro novos missionários, entre os quais o P. Cristóvão Castelli, que desempenhou grande papel na sequência. Parecia que a missão ia desenvolver-se, mas, tendo as disposições do rei mudado completamente diante da recusa dos Padres de lhe pagar uma forte soma que, aliás, não tinham, perdeu-se toda esperança de uma conversão em massa da nação. O país caiu logo sob o domínio dos persas, o que não facilitava a tarefa dos missionários. Em seguimento a essa conquista, a Propaganda colocou, em 1633, a missão da Geórgia sob a jurisdição do bispo latino de Ispahan. Ao mesmo tempo, criava-se em Roma o colégio urbano da Propaganda, cuja ocasião fora a evangelização da Geórgia, e nele se reservaram dois lugares para os jovens desse país.

A missão retomou certa importância, mas a peste e as guerras que desolavam a Geórgia oriental não tardaram a arruiná-la quase completamente. Foi então que vários Padres teatinos foram estabelecer-se na Mingrélia (1633) e dois outros na Gúria, no ano seguinte. Infelizmente, a ordem não soube limitar seu apostolado à Geórgia. Os resultados maravilhosos que os agostinianos obtinham nas Índias decidiram o P. Avitabile e vários de seus companheiros a dirigir-se a essas missões longínquas. Foi essa a causa pela qual foi abandonada a missão de Gori, na Geórgia (1638). Archives de la Propagande, Persia, Giorgia, Mengrelia e Tartaria, t. ccix, fol. 391.

Os missionários da Gúria haviam recebido excelente acolhida do príncipe Malaquias, que era ao mesmo tempo católicos da Geórgia ocidental. Estabeleceram uma escola e fizeram muito bem, apesar da hostilidade dos sacerdotes gregos. Galanus, Conciliatio Ecclesiæ armenæ, t. m, p. 169. A mais célebre conversão operada por um dos seus, o P. Castelli, de quem falamos acima, foi a de uma princesa georgiana, chamada Helena, que o príncipe da Mingrélia, Dadian, obrigou a casar-se com o xá da Pérsia, mas que permaneceu sempre católica. Cottono, De scriptoribus clericorum regularium, p. 93.

A morte do príncipe-católicos Malaquias prejudicou muito a missão. A hostilidade do novo titular, Vakhtang, obrigou o P. Castelli e seu companheiro a deixar o país para refugiar-se na Mingrélia. O missionário perseguido foi logo chamado por Alexandre, rei da Imerécia. Ali também foi alvo das perseguições dos sacerdotes gregos. O patriarca de Alexandria veio mesmo a Routais, em nome de seu colega de Constantinopla, pedir ao rei o afastamento do P. Castelli, mas sua diligência permaneceu sem êxito. O prestígio dos Padres cresceu muito aos olhos do povo em consequência do fracasso dos gregos. Infelizmente, o príncipe Dadian reclamou o missionário e recorreu mesmo a ameaças de guerra para obrigar o rei Alexandre a deixá-lo partir. Archives de la Propagande, Persia, Giorgia, Mengrelia e Tartaria, t. ccix, fol. 204. Entretanto, a missão da Mingrélia, que o P. Castelli vinha reforçar, via crescer sua influência.

O príncipe Dadian deu aos teatinos uma bela igreja em Cipourias e doze crianças para serem educadas na fé católica. Lamberti, Istoria sacra dei Colchi, p. 323 sq. Eles conseguiram que o príncipe proibisse o tráfico vergonhoso de escravos, muito importante em todo o país, visto que os mercadores gregos e armênios levavam anualmente, em média, dois mil só da Mingrélia, para vendê-los aos turcos. Archives de la Propagande, Persia, Giorgia, Mengrelia e Tartaria, t. ccix, fol. 393 sq. Do mesmo modo, conseguiram rebatizar grande número de pessoas cujo batismo, conferido por sacerdotes ignorantes e segundo rituais defeituosos, era inválido. Fizeram desaparecer os erros que haviam se introduzido no ritual e instruíram o clero sobre seus deveres quanto à administração dos sacramentos. Cottono, op. cit., p. 96.

Para poderem conferir o batismo, tiveram de recorrer a subterfúgios, e conferi-lo muitas vezes sob pretexto de medicina. Silos, op. cit., t. ii, p. 631. Várias conversões importantes recompensaram os missionários por seus esforços. O arcebispo grego de Trebizonda, Macário, em viagem de coletas pela Mingrélia, e o arcebispo georgiano Allaverdéli, ambos ferozes adversários dos latinos, deixaram-se tocar pela graça e fizeram-se católicos. Archives de la Propagande, Lettere della Mengrelia, etc., t. cxxm, fol. 7; Lamberti, op. cit., p. 353. Depois foi a vez do príncipe Dadian, que os missionários batizaram e que enviou embaixadores ao papa Urbano VIII para testemunhar-lhe sua inteira submissão. Archives de la Propagande, Lettere di Polonia, Moscovia, Valachia, Moldavia, Palestina, Syria, Armenia, Persia et Tartaria, t. xi.ii, fol. 109.

A morte do príncipe em 1657 e a escassez de sujeitos acarretaram a ruína da missão dos Padres teatinos. Archives de la Propagande, Lettere della Sacra Congregazione, t. xxx, fol. 111. Desde 1660, um dos seus, o P. Galano, estabelecido em Constantinopla, propunha à Propaganda enviar à Geórgia religiosos de outra ordem. Archives de la Propagande, Asia e Cipro, t. ccxxvn, fol. 33. Contudo, a S. C. hesitava em retirar dos teatinos essa missão na qual haviam trabalhado tão bem. Pediu ao superior-geral deles que escolhesse novos missionários tão numerosos quanto possível. Archives de la Propagande, Scritture riferite, Giorgia, t. i, p. 12. A última partida de teatinos deu-se em 1691. Durante o curto espaço de tempo em que os religiosos dessa ordem evangelizaram a Geórgia, produziram um bem imenso por seu zelo apostólico, sua caridade e sua vasta erudição.

XXIII. Missão dos Padres capuchinhos (1661-1845). — Vimos que os teatinos haviam precisado, por falta de sujeitos, abandonar aos poucos a Geórgia propriamente dita para se recolherem na Mingrélia. A Propaganda decidiu, em 16 de junho de 1661, atribuir-lhes definitivamente esta última província e confiar o resto do país aos capuchinhos. Michaël a Turio, Bullarium capuccinorum, t. vu, p. 237.

O primeiro envio compreendia cinco Padres e dois irmãos conversos, que tiveram grande dificuldade em penetrar na Geórgia, por causa das guerras com os turcos. No início de 1663, três Padres chegaram a Tiflis, onde se instalaram. Um deles, o P. Carlo-Maria de Saint-Marin, voltou logo a Roma para expor a situação difícil em que se encontravam os novos missionários do ponto de vista material e para pedir prontos socorros em homens e em dinheiro. Depois de muitas negociações, obteve ganho de causa. A missão pôde desde então exercer uma influência considerável, tanto mais que os Padres capuchinhos foram autorizados, como os teatinos, a exercer a medicina com prudência. Archives de la Propagande, Lettere della S. Congregazione, t. m, fol. 209; t. lv, fol. 39. Estabeleceram uma escola e construíram uma igreja que atraiu muita gente. Archives de la Propagande, Atti della S. Congregazione, 3 agosto 1671, p. 260. Traduziram para o georgiano o catecismo de Belarmino e pediram à Propaganda que o mandasse imprimir, o que só aconteceu dez anos depois, em 1681. Seu apostolado não se exercia unicamente na cidade de Tiflis, irradiava ainda pelas regiões circunvizinhas. Archives de la Propagande, Scritture riferite, Giorgia, t. i, n. 27.

Por um momento, julgaram poder concluir a união da nação inteira com a Igreja católica, mas o projeto não pôde ser executado, porque Mons. Piquet, delegado na Pérsia, foi impedido de ir à Geórgia para tratar desse grave assunto. Archives de la Propagande, Scritture riferite, t. i, n. 88. Entretanto, os retornos parciais à unidade consolaram os missionários desse fracasso. O rei Jorge abraçou a fé católica em 1686. Archives de la Propagande, Acta S. Congregationis, feb. 1686, fol. 23.

Foi logo imitado por Eutímio, arcebispo da Geórgia, por seu próprio irmão, por vários sacerdotes, Missionari Toscani, t. i, fol. 737, e pelo príncipe Barzim, cuja conversão produziu uma impressão profunda. O rei Jorge, expulso de seus Estados por uma revolução, teve por sucessor seu sobrinho Cosrov-Khan, que abjurou o maometismo e fez-se católico. Entre os outros príncipes que abraçaram a causa da união, cumpre citar Soulkan, da ilustre família dos Orbéliani, que se fez religioso sob o nome de Saba e que prestou os maiores serviços à causa católica na Geórgia. Archives de la Propagande, Acta S. Congregationis, an. 1714, n. 32, Giorgia, fol. 442.

Em 1714, o príncipe-monge Saba foi à França e a Roma para pedir a libertação de seu tio, o rei Vakhtang, prisioneiro na Pérsia havia vários anos, e para instar pelo envio de missionários, lazaristas ou jesuítas. Esta última diligência desagradou aos capuchinhos. Archives de la Propagande, Acta S. Congregationis, an. 1714, n. 32, Giorgia, fol. 442. A Propaganda decidiu prosseguir, de acordo com o governo francês. Os lazaristas estavam a ponto de embarcar em Marselha quando a morte de Luís XIV pôs tudo novamente em questão (1715). Tamarati, Église géorgienne, p. 605.

A chegada de novos capuchinhos à Geórgia diminuiu o pesar por esse fracasso. O retorno do príncipe-monge Saba foi também uma circunstância favorável ao desenvolvimento do catolicismo, por causa da influência de que gozava em seu país. Desde o início de sua missão, os capuchinhos eram alvo das perseguições dos armênios, que as vexações dos persas obrigavam cada vez mais a emigrar para o norte. Todos os missionários se queixavam disso em suas cartas. Cf. Archives de la Propagande, Acta S. Congregationis, an. 1709, n. 43, Armenia, Giorgia, fol. 203.

Em 1669, foi preciso a intervenção pessoal do rei para impedir a expulsão dos capuchinhos de Tiflis. Archives de la Propagande, Acta S. Congregationis, an. 1669, n. 20 b, Giorgia, fol. 257. Cerca de vinte anos depois, os armênios, aproveitando-se da ausência do rei, usaram de violências contra os capuchinhos e tentaram destruir seu estabelecimento. O príncipe Barzim libertou os missionários. A derrubada do rei Jorge, protetor da missão (1697), e as convulsões políticas que foram sua consequência permitiram aos armênios recomeçar suas perseguições. Roma teve de recorrer ao xá da Pérsia e fazer intervir as potências católicas para proteger a missão ameaçada. P. Raphaël du Mans, Estat de la Perse, Paris, 1890, p. 376. A perseguição logo recomeçou, pois os armênios haviam conseguido entender-se com os georgianos devotados aos gregos e com os enviados dos patriarcas de Constantinopla e de Jerusalém. Archives de la Propagande, Scritture riferite, t. dlxvi, n. 43. Em 1717, algum tempo depois do retorno do príncipe-monge Saba à Geórgia, os armênios mostraram-se ainda mais ousados do que antes. Missionari Toscani, part. II, fol. 762 sq. Logo, porém, a situação mudou. Tendo o rei Vakhtang regressado da Pérsia a seu reino, tomou os missionários sob sua proteção, e o príncipe-monge Saba secundou seus esforços com todo o seu poder. Archives de la Propagande, Lettere della S. Congregazione, t. cvn, fol. 335; t. cviii, fol. 368, 377; t. cix, fol. 389.

Novas agitações sacudiram o país, mas não impediram os capuchinhos de desenvolver suas obras, sobretudo na Imerécia e em Akhaltzkhé, então ocupada pelos turcos. Vários príncipes, como os dois Orbéliani, João e Vakhtang, parentes de Saba, o bispo Cristóforo e outros personagens importantes abraçaram então o catolicismo. Uma nova perseguição dos armênios expulsou os capuchinhos da Geórgia e fechou sua igreja de Tiflis (1742). Archives de la Propagande, Monte Caucaso, Giorgia, t. n, n. 43, 44. Graças às diligências de Roma, os missionários puderam regressar alguns meses depois. O bispo latino de Ispahan, que estendia sempre sua jurisdição sobre a Geórgia, veio a Tiflis por volta da mesma época e julgou necessário estabelecer ali um vigário episcopal. Escolheu para isso o P. Niccolo de Girgenti, dos capuchinhos, o que desagradou ao P. Claudio, prefeito da missão, então em viagem pela Europa. Ao voltar, o P. Claudio deixou a missão de Tiflis pela de Akhaltzikhé. A querela azedou-se por causa da falta de espírito de conciliação de que deu provas o P. Niccolo e da independência que mostrou em relação ao Padre prefeito. Roma tentou em vão acalmar os ânimos. Archives de la Propagande, Lettere della S. Congregazione, t. clxxi, fol. 191; t. clxxiii, fol. 156.

As diligências tentadas de 1742 a 1750 para que se nomeasse um bispo latino em Tiflis não deram resultado. Em 1742, uma parte da Geórgia ocidental, Akhaltzikhé com seu distrito, então sob o domínio da Turquia, foi separada da diocese de Ispahan e confiada ao delegado apostólico residente em Constantinopla. Archives de la Propagande, Scritture non riferite, Monte Caucaso, Giorgia, t. Il, n. 29 a. Esse expediente, imaginado para remediar as dificuldades que apresentava a visita da Geórgia pelo bispo de Ispahan, não obteve o êxito esperado. Os delegados apostólicos nunca foram ao Cáucaso e não puderam pôr fim às desavenças que ocorriam entre o clero e os fiéis e no seio do próprio clero. A ausência de um bispo foi sempre funesta ao desenvolvimento da missão católica. Em 1757, os capuchinhos obtiveram de Roma a permissão de cantar em língua georgiana a epístola, o evangelho, o Glória e o Credo na missa solene. Em 1784, o mesmo favor foi estendido aos georgianos que seguem o rito armênio.

Os irmãos Orbéliani, de quem falamos acima, fazendo-se apóstolos como seu parente, o príncipe-monge Saba, levaram a fé católica à Imerécia ou Geórgia ocidental, onde converteram o catolicós Bessarion, o rei Alexandre, o príncipe de Ratcha, Rostom, irmão do catolicós, e outros personagens importantes, Archives de la Propagande, Miscellanee varie. t. i, cahier xm. Os capuchinhos estabeleceram ali também uma missão, que os enviados do patriarca grego conseguiram arruinar completamente. Archives de la Propagande, Scritture non riferite, Monte Caucaso, Giorgia, t. n, n. 63. Os armênios tentaram fazer o mesmo em Tiflis, mas não o conseguiram, mesmo prometendo a soma de 51 000 escudos ao catolicós Antônio I (1753). Archives de la Propagande, Scritture non riferite, Monte Caucaso, t. n, n. 69.

Entre 1750 e 1755, o catolicismo adquiriu em Tiflis uma importância considerável. O catolicós Antônio, vários sacerdotes e religiosos, uma sessentena de príncipes e grande número de fiéis estavam unidos a Roma. Archives de la Propagande, ibid., n. 71. Os gregos e os armênios coligados acabaram, contudo, por obter do rei a expulsão dos capuchinhos, por volta de 1757. Roma conseguiu, por suas diligências junto aos governos francês, austríaco e otomano, que os missionários voltassem a Tiflis, mas eles não puderam reentrar na posse de sua igreja. Archives de la Propagande, ibid., n. 76. A Propaganda formou então o projeto de fundar uma nova missão junto aos montanheses do Cáucaso e confiou a direção aos religiosos da congregação de São João Batista, apesar da oposição dos capuchinhos (1760). Archives de la Propagande, Lettere della S. Congregazione, t. cxcvi, fol. 433.

Os novos missionários, em número de cinco (três religiosos da congregação e dois sacerdotes georgianos alunos da Propaganda), não conseguiram chegar ao seu destino e permaneceram em Akhaltzikhé. Acabaram por abandonar seu projeto primitivo para fixar-se nessa cidade, onde começaram seu apostolado. Não permaneceram ali, aliás, por muito tempo. Os armênios continuavam sem desarmar. Em 1769, confiscaram todos os bens eclesiásticos da missão e os puseram sob sequestro; depois, levaram os capuchinhos para diversos lugares, onde os mantiveram prisioneiros. Archives de la Propagande, Scritture non riferite, Giorgia, t. ni, n. 1. A intervenção enérgica do embaixador da França em Constantinopla fez que os missionários fossem soltos, mas os simples fiéis não cessavam de ser molestados. A missão da Imerécia, de onde os capuchinhos haviam sido expulsos, retomava vida, e o próprio rei, Salomão, mostrava-se ali favorável ao catolicismo (1780). Enquanto isso, o rei da Geórgia, Heráclio II, dando ouvidos aos maus conselhos dos armênios, perseguia cruelmente os convertidos (1775). Chegou mesmo a proibir a seus súditos que se fizessem católicos, sob pena de dois meses de prisão, de bastonada, de confisco e de exílio.

Archives de la Propagande, Scritture non riferite, Giorgia, t. m, n. 60. Tendo Heráclio feito aliança com a Rússia, os persas devastaram a Geórgia em 1795 e destruíram completamente a missão de Tiflis. Archives de la Propagande, Scritture riferite, Giorgia, t. v, n. 16. A anexação do país à Rússia em 1800 desferiu o último golpe na obra dos capuchinhos no Cáucaso. Tinham daí em diante de contar com o fanatismo moscovita, que proibia fazer-se católico. Os arcebispos latinos de Mohilev, provavelmente por instigação do governo de Petersburgo, pretenderam desde 1783 exercer sua jurisdição sobre a Geórgia, por causa do tratado de aliança concluído com a Rússia. Archives de la Propagande, Scritture riferite, t. iv, n. 28. Enquanto os capuchinhos permaneceram no país, impediram a execução desse projeto. Em 1807, conseguiram reconstruir a igreja de Tiflis, Archives de la Propagande, ibid., t. iv, n. 42, 46, e depois construíram outra em Gori. Ibid., n. 69.

Se a perseguição já não era tão de temer, a falta de missionários ameaçava arruinar a obra começada. Em 1813, não havia mais que dois capuchinhos em toda a Geórgia. Deu-se-lhes como prefeito um sacerdote armênio, o pró-vigário de Akhaltzikhé. Archives de la Propagande, Lettere della Sacra Congregazione, t. ccxciv, 18 et 24 mai 1813; t. ccxv, fol. 70. Eram três em 1823. Alguns outros vieram ajudá-los mais tarde, mas em número insuficiente. Como se omitira a formação de um clero indígena, era, a curto prazo, a ruína da missão. Ela foi além disso violentamente atacada por um sacerdote de Akhaltzikhé, antigo aluno da Propaganda, Paul Sciagulianti, que fez causa comum com os armênios contra os latinos e apoiou-se no governo russo. Archives de la Propagande, Scritture riferite, t. v, n. 66. Este último aproveitou as dissensões surgidas entre o clero armênio católico e os capuchinhos para expulsar estes, sob pretexto de serem estrangeiros (fevereiro de 1845). Tamarati, op. cit., p. 658. Os missionários, brutalmente expulsos de suas diversas casas, refugiaram-se em Trebizonda, de onde esperavam sempre poder penetrar na Geórgia. Nunca puderam realizar seu desejo.

XXIV. Os católicos georgianos de 1845 aos nossos dias. — Após a partida dos capuchinhos, os católicos georgianos permaneceram vários anos sem outro sacerdote além de um antigo aluno da Propaganda. O intrigante Sciagulianti enviou-lhes em vão sacerdotes armênios católicos; os fiéis declararam que eram de rito latino e que não seguiriam nenhum outro. O próprio governo russo teve de pedir sacerdotes poloneses, que administraram as igrejas sem conhecer a língua do país. A Santa Sé concluiu em 1848 uma convenção com o tsar Nicolau I, em virtude da qual todos os católicos da Geórgia, de rito latino e de rito armênio, foram submetidos ao bispo latino de Tiraspol, cuja sé acabava de ser criada. Acta PU IX, t. i, p. 110 sq. Os armênios católicos procuraram desde essa época apoderar-se das igrejas latinas e de seus bens, chegando para isso a pretender que nunca houvera georgianos católicos, mas somente armênios. O imperador Alexandre III trabalhava, aliás, para fazer desaparecer o caráter nacional dos georgianos em proveito de seus inimigos: proibiu em janeiro de 1886 o uso da língua georgiana nas cerimônias do culto católico; já não se podia nem pregar nem rezar publicamente no idioma nacional. Em 1893, tirou dos georgianos, para dá-la aos armênios, a antiga igreja de Tiflis, que só foi devolvida por causa das enérgicas representações da Santa Sé. Apesar dessas perseguições da parte dos armênios católicos apoiados pelos poderes públicos, o número de georgianos unidos a Roma não cessou de aumentar. Em 1903, puderam construir uma magnífica igreja em Batum. Contam-se atualmente cerca de 40 000, dos quais 8 000 seguem o rito armênio, muitas vezes contra a vontade, severamente eles, e 32 000 o rito latino. O rito greco-georgiano é proibido aos católicos, embora tenham uma dezena de sacerdotes de sua raça. Os fiéis dependem sempre do bispo de Tiraspol, que reside em Saratov.

Há uma dezena de anos produz-se na Geórgia um movimento bastante poderoso que leva a nação inteira a separar-se da Igreja oficial de São Petersburgo. A maioria dos separatistas gostaria de unir-se a Roma, e chegaram mesmo a iniciar-se diligências com esse fim. Infelizmente, elas cessaram, por causa da dificuldade que Roma parece colocar em reconhecer o rito greco-georgiano, talvez por causa da oposição irredutível dos russos. Se os poderes eclesiásticos competentes não se decidirem a admitir a legitimidade desse rito, que tem ao menos uma dúzia de séculos de existência, é muito de temer que o movimento de união fracasse completamente. Além de não lhe estarem ausentes as preocupações políticas, há também uma minoria que preconiza o entendimento com a Igreja anglicana. Essa ideia, contudo, não obteve até aqui muito favor.

Foi para socorrer seus compatriotas católicos que um sacerdote de Akhaltzikhé, o P. Pierre Carischiaranti († 1890), fundou em Constantinopla, em 1861, a congregação da Imaculada Conceição. A nova família religiosa estabeleceu-se no bairro de Féri-Keuy, onde a igreja de Nossa Senhora de Lourdes, que ali construiu, tornou-se um lugar de peregrinação muito frequentado. A obra tinha sobretudo por finalidade formar um clero nacional que pudesse trabalhar eficazmente na expansão do catolicismo na Geórgia. Por isso, no início, os Padres seguiram o rito armênio ou o rito latino, conforme se dirigissem a georgianos de um ou de outro desses ritos. Devia-se também adotar o rito greco-georgiano, mas a autoridade eclesiástica ainda não permitiu seu uso, ao menos para a missa.

Com efeito, os Padres recitam o ofício em georgiano, administram o batismo no rito georgiano, mas todos dizem a missa latina, exceto um ancião que celebra em georgiano. Note-se, porém, que seu superior atual obteve cantar algumas vezes a missa no rito nacional, em certas solenidades. A congregação, que segue a regra de São Bento, contava, no início de 1914, 1.» sacerdotes, dos quais 7 eram missionários na Geórgia; 2 irmãos conversos, 7 noviços, 2 postulantes conversos e 11 pequenos seminaristas originários do Cáucaso. Além do convento de Féri-Keuy, possui ainda em Constantinopla uma escola de língua francesa no bairro de Papas-Keupru. O P. Carischiaranti fundou também uma comunidade de mulheres sob a invocação da Imaculada Conceição. A casa-mãe está em Féry-Keuy. A congregação possui ainda uma escola de língua francesa nos Dardanelos e outra na Geórgia. Há de 15 a 20 irmãs ao todo.

I. Obras gerais. — Bacradzé, Histoire de la Géorgie (em georgiano), Tiflis, 1889; Brosset, Histoire de la Géorgie, 3 vol., São Petersburgo, 1849-1858; Additions à l'histoire de la Géorgie, São Petersburgo, 1851; Bibliographie analytique des ouvrages de M. M.-F. Brosset, São Petersburgo, 1887; Djanachvili, Histoire de l'Église géorgienne (em georgiano), Tiflis, 1866; Histoire de la Géorgie (em georgiano), Tiflis, 1904; Jordania, Chroniques (em georgiano), 2 vol., Tiflis, 1893; Khakhanoff, Aperçu géographique et abrégé de l'histoire et de la littérature géorgiennes, Paris, 1900; Tamarati, L'Église géorgienne, Roma, 1910, obra muito documentada, mas que nem sempre se liberta do viés nacional.

II. Origens e noções geográficas, etnográficas, etc. — E. Babelon, Histoire ancienne de l'Orient, Paris, 1885, t. iv; Bergeron, Relation des voyages en Tartarie, Paris, 1634; Brosset, além das duas obras citadas acima, Rapports sur un voyage archéologique dans la Géorgie et dans l'Arménie, 3 vol., São Petersburgo, 1849-1851 ; diversos artigos nos Mélanges asiatiques, t. iv e v; P. C. de Cara, Gli Hycsos o Re Pastori, Roma, 1889; Gli Hethei, Roma, 1894; E. Chantre, Recherches anthropologiques dans le Caucase, 5 vol., Paris, 1855-1856; Dubois de Montpéreux, Voyage autour du Caucase, 6 vol., Paris, 1839-1840; Quelques notices sur la race caucasique, Paris, 1889; P. de Lagarde, Gesammtlischcs Abhandlung; V. Langlois, Essai de classification des suites monétaires de la Géorgie, Paris, 1860; F. Lenormant, Les premières civilisations, 2 vol., Paris, 1874; Les origines de l'histoire d'après la Bible et les traditions des peuples orientaux, 3 vol., Paris, 1880-1882 ; Recherches sur les populations primitives, 2 vol., 2ª ed., Paris, 1881-1887; Histoire ancienne de l'Orient, 6 vol., Paris, 1881; Sur l'ethnographie et l'histoire de l'Arménie avant les Achéménides, em Lettres assyriologiques et épigraphiques, 2 vol., Paris, 1892; Maspero, Histoire ancienne des peuples de l'Orient, Paris, 1907; H. Rawlinson, On the Alarodians of Raynaldi, Annales ecclesiastici, t. v, x, xi, xiv ; Elisée Reclus, Nouvelle géographie universelle, Paris, 1881, t. iv, vi, ix ; L'homme et la terre, 2 vol., Paris, 1905; Th. Reinach, Mithridate Eupator, roi de Pont, Paris, 1890; Vakhoucht, Description géographique de la Géorgie (em georgiano), trad. francesa por Brosset, São Petersburgo, 1812.

III. História do cristianismo na Geórgia. — Além das obras gerais citadas acima, assinalemos: Grégoire Abulpharage, Chronicon syriacum, Leipzig, 1749; Baronius, Annales ecclesiastici, Roma, 1583-1588, t. i, ix ; Martyrologium romanum cum notis, Roma, 1536; Fauste de Byzance, Histoire, em Collection des historiens anciens et modernes de l'Arménie, de V. Langlois, Paris, 1867, t. i; S. Gregório Magno, Epist., P. L., t. lxxxvii; Karbélachvili, Hiérarchie de l'Église géorgienne (em georgiano), Tiflis, 1904; R. Janin, Origines chrétiennes de la Géorgie, em Échos d'Orient, Paris, 1912, p. 289 sq.; Les Géorgiens à Jérusalem, ibid., 1913, p. 32, 211; Macaire III Za'im d'Antioche, Histoire de la conversion de la Géorgie, publicada pela Sra. Olga de Lébédev, Roma, 1905; Moïse de Khorène, Histoire d'Arménie, Veneza, 1865; Palmieri, La conversione ufficiale degl'Iberi al cristianismo, em Oriens christianus, 1902, p. 130; 1903, p. 148; La Chiesa georgiana e le sue origini, em Bessarione, 2ª série, 1901, t. vi; L. Petit, art. Arménie, t. i; Rufin, H. E., P. L., t. xxi; Sabinini, Éden et la Géorgie (em georgiano), São Petersburgo, 1852; Sócrates e Sozomeno, H. E., P. G., t. lxvii; Taqischvili, Trois chroniques historiques (em georgiano), Tiflis, 1890; Vie de sainte Nino (em georgiano), Tiflis, 1891 ; Rounkévitch, L'exarchat de Géorgie, em Encyclopédie théologique orthodoxe, Lopoukine-Gloubovski, São Petersburgo, 1903, t. m, col. 717-753.

IV. Missões católicas na Geórgia. — L. Auvray, Les registres de Grégoire IX, Paris, 1896, t. i; P. A. Carayon, Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, Poitiers, 1869, t. xx; C. M. Cottono, De scriptoribus clericorum regularium, Palermo, 1753; Part. Ferro, Istoria delle missione dei chierici regolari, 2 vol., Roma, 1701; D. Garcias de Silvia Figueroa, L'ambassade en Perse, Paris, 1667; Fontana, Sacrum theatrum dominicanum, Roma, 1666, t. u; C. Galanus, Conciliatio Ecclesiœ Armenœ cum romana, 3 vol., Roma, 1650-1654; Antoine de Gouvea, Relation des grandes guerres et victoires obtenues par le roij de Perse, Chah Abbas, Rouen, 1646; F. de Gubernatis, Orbis seraphicus. De missionibus inter infideles, Roma, 1689; Henrion, Histoire générale des missions catholiques, 2 vol., Paris, 18-12;

J. Juvencus, Historia Societatis Jesu, Roma, 1710, t. xvn ; A. Lamberti, Relazione della Colchide, Nápoles, 1654; Sacra istoria dei Colchi (Colchida sacra), Nápoles, 1675; E. Langlois, Les registres de Nicolas IV, Paris, 1893, t. i; Marcellino da Civezza, Storia universale delle missioni francescane, 11 vol., Roma, 1857; Potthast, Regesta pontificum romanorum, 2 vol., Berlim, 1873; Pressutti, Regesta Honorii Papae III, Roma, 1895; Raphaël du Mans, Estat de la Perse, Paris, 1890; Rocco da Cesinale, Storia delle missioni dei cappuccini, Roma, 1878, t. ni; Rottiers, Itinéraire de Tiflis à Constantinople, Bruxelas, 1829; Rubruquis, Voyage en Tartarie, em Bergeron, Relations des voyages en Tartarie, Paris, 1634; Ch. de Saint-Vincent, L'année dominicaine, Paris, 1702; H. Sbaralea, Bullarium franciscanorum, Roma, 1749, t. i, n, iv; J. Silos, Historia clericorum regularium, 3 vol., Roma, 1655; P. della Valle, Viaggi, 3 vol., Bolonha, 1677; Annales de la Propagation de la foi, Lyon, t. xvu, Mémoires du Levant, Lettres édifiantes et curieuses écrites des Missions étrangères, Paris, 1780. Encontram-se também múltiplas informações nos Arquivos da Propaganda, cartas, relatórios, decisões, etc.

V. Língua e literatura. — R. von Arich, Ist die Ähnlichkeit des glagolitischen mit dem grusinischen Alphabet Zufall ? Leipzig, 1895; A. Baumstark, Die christlichen Literaturen des Orients, Leipzig, 1911, t. n; Khakhanoff ou Khakhanachvili, Aperçu géographique et abrégé de l'histoire et de la littérature géorgiennes, Paris, 1900; Histoire de la littérature géorgienne (em georgiano), Tiflis, 1904; Chota Roustavéli, La peau de léopard (em georgiano); trad. alemã por Leist, Der Mann in Tigerfelle, Leipzig, 1880; trad. francesa por Achas Borin, La peau de léopard, Paris, 1885; A. Trombetti, L'unità d'origine del linguaggio, Bolonha, 1905. R. Janin.

Autor original: R. Janin

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