FUNK — Vida. Obras. Caráter. I. II. III.
I. Vida. Francisco Xavier Funk, filho de um modesto estalajadeiro württemberguês, nasceu na aldeia de Abtsgmünd, a 12 de outubro de 1840. Após sólidos e brilhantes estudos clássicos no ginásio de Ellwangen, seguiu ao mesmo tempo em Tubinga, de 1859 a 1863, os cursos da faculdade de teologia e os da faculdade de direito, com iguais aptidões e igual sucesso; pois, em 1862 e em 1863, foi coroado, um após outro, nos concursos das duas faculdades. Promovido a doutor em filosofia no outono de 1863, depois ordenado sacerdote a 10 de agosto de 1864 e nomeado vigário em Waldsee, obteve em seguida uma licença de um ano, a fim de prosseguir na Inglaterra e na França, em Paris sobretudo, seus estudos de economia política; e, de volta ao Württemberg, foi escolhido, a 26 de junho de 1866, para repetidor de moral no seminário de Tubinga. No ano seguinte, inaugurava sua colaboração estudiosa e fecunda de trinta anos na Theologische Quartalschrift.
Em 1869, com vinte e nove anos de idade, a extensão e a precoce segurança dos conhecimentos, a flexibilidade do talento e a laboriosidade, um apego inviolável ao espírito da escola católica de Tubinga, mereceram a Funk a honra de ser chamado a suprir interinamente Hefele em sua cátedra de história eclesiástica e de patrologia. A adesão momentânea do jovem historiador, durante o concílio do Vaticano, às ideias antiinfalibilistas de seus antigos mestres, o exporá, pelo resto da vida, às desconfianças e às invectivas dos adversários de suas opiniões; desde então, a contragosto, será sagrado liberal, à espera de ser sagrado modernista. Commer, Hermann Schell, p. 185-186. Em vão protestará; os dois epítetos, colados ao seu nome, não mais se desprenderão dele.
Seja como for, Funk, a 13 de setembro de 1870, subirá à cátedra de história eclesiástica com o título de professor adjunto, e, cinco anos mais tarde, após esse novo estágio, em que sua atividade literária e sua reputação irão crescendo, tornar-se-á professor titular, a 5 de fevereiro de 1875. Três dias depois, em recompensa de seus trabalhos e de seus serviços, será proclamado pela faculdade de teologia doutor honoris causa, e, a 3 de junho do mesmo ano, entrará, para dele não mais sair, no senado da universidade. Herdeiro literário ao mesmo tempo de Drey e de Hefele, suas ambições e suas esperanças estavam plenamente satisfeitas. Funk não sonhará com nada mais nem com nada diferente.
A política não ocupará em sua carreira lugar algum. Interessava-lhe ela? Em todo caso, não o seduziu e não invadiu sua vida; ao lado de sua carreira científica, Funk não teve carreira ativa. Não descerá sequer, não obstante convites prementes e lisonjeiros, de sua cátedra de Tubinga. As ofertas sucessivas de uma cátedra em Breslau em 1877, de uma cátedra em Würzburg em 1898, de uma cátedra em Washington em 1903, ficarão todas sem eco. Jamais abandonará a faculdade de teologia de Tubinga, que ele personificava, por assim dizer, e sobre a qual recaía sua grande renome. Em 1893, o senado acadêmico o elegerá reitor da universidade. Aliás, as honras civis do reino, cruzes e medalhas, não lhe faltarão. Membro da comissão württemberguesa de história nacional, será condecorado em 1890 e em 1903 com as diferentes ordens do Württemberg. Morrerá quase subitamente em Tubinga, acometido de uma afecção cardíaca, a 2! de fevereiro de 1907, em seu sexagésimo sétimo ano, no momento de dar a última mão à edição dos •mutines que a Academia das ciências de I — confiada.
II. Obras. Independentemente de sólidos estudos, quer na Real-Encyclopädie de Kraus, 1882-1886, quer na segunda edição do Kirchenlexikon de Wetzer e Welte, Friburgo em Brisgóvia, 1901; independentemente também de inúmeros artigos em diversas revistas alemãs ou difundidas sobretudo na Theologische Quartalschrift de Tubinga, e na maioria referentes à disciplina. à literatura cristã dos primeiros, nem Funk publicou, tanto como autor quanto como editor, as obras a seguir:
1° o livro da usura, Zins und Wucher, : Tub ' ' l'usure, '/Ans n un uses des fruits de sa main nouvelle de l'authenticité des lettres ubingui 1883 !.. '< I . : f - iiux tluqui oui fini pai se rail Lightfoot, Harnack, I Ramsay, 1 I les les i, , von der Goltz;
3° um Manual de história eclesiástica, Rottenburgo, 1886, traduzido para o francês, 1891, depois para o italiano, 1903-1904, editado cinco vezes em vida do autor em sua língua original, e no qual os críticos imparciais quase nada encontraram a censurar senão a extrema concisão;
4° três monografias, a primeira sobre as Constituições apostólicas, Rottenburgo, 1896, a segunda sobre o livro VIII das Constituições apostólicas e os escritos do mesmo grupo, Tubinga, 1891, a última sobre o Testamento de Nosso Senhor e os escritos da mesma família, Mogúncia, 1901; monografias judiciosas e penetrantes, que fazem autoridade, pela confissão do próprio Harnack, ao restabelecer a unidade de origem, a data respectiva, a dependência mútua das diversas produções da literatura canônica primitiva;
5° uma reedição dos Padres apostólicos de Hefele, publicada primeiro em Tubinga, 1878, e enriquecida pouco a pouco com novos achados patrísticos ao mesmo tempo que com amplos prolegômenos, até formar dois volumes, Tubinga, 1901.
A edição escolar que então se fez dela para uso dos seminários da Alemanha e que, não obstante a concorrência do livro de Gebhardt, Harnack e Zahn, foi reimpressa já em 1906, é geralmente tida por um modelo do gênero;
6° uma excelente coletânea em três volumes, intitulada Kirchengeschichtliche Abhandlungen und Untersuchungen, Paderborn, em 1897, 1899, 1907, na qual o autor reuniu grande número de seus artigos de revistas, todos de importância capital para a história interior da Igreja da primeira idade, não sem os ter retocado e remanejado;
7° uma edição erudita, com versão latina, da Doutrina dos doze apóstolos, Doctrina duodecim apostolorum, canones apostolorum ecclesiastici, ac reliques doctrina; de duabus viis expositiones, Tubinga, 1887, uma das melhores edições que essa descoberta contemporânea provocou;
8° uma edição sem igual da Didascália, Didascalia et Constitutiones apostolorum, 2 vol., Paderborn, 1905, fruto de vinte anos de estudos;
9° é preciso mencionar ainda dois opúsculos de circunstância, um, A universidade de Ellwangen e sua transferência para Tubinga, ibid., 1889, que é uma homenagem da faculdade de teologia católica ao rei Carlos de Württemberg, por ocasião do vigésimo quinto aniversário de seu reinado; o outro, dedicado em 1901 ao economista Albert Schäffle, por seu septuagésimo aniversário, e que trata de dois episódios interessantes da história do empréstimo a juros, o empréstimo da cidade de Verona, em 1710, e o livro Da usura do P. Rossignol.
III. Caráter. — À polidez e à simplicidade das maneiras, à lealdade e à benevolência do caráter juntava-se em Funk um espírito ao mesmo tempo elevado e variado, sensato e clarividente, livre com respeito e medida, infatigável no trabalho, e que soubera dar provas de si em mais de um gênero. Sacudido durante quarenta anos e mais pela febre científica, Funk, com menos sentimento e calor que razão e sagacidade, com um estilo menos arrebatador e menos colorido que nítido e preciso, dedicou-se sobretudo à história da Igreja. Nesses trabalhos, que eram sua vocação natural, libertou-se de toda outra preocupação que não fosse a busca da exatidão da verdade. Pesquisa independente, sem paixão pelo novo, embora não sem ousadia, mas sem complacência para com as opiniões correntes ou para com os preconceitos de partido, e sem se preocupar nem com sua reputação nem com seus interesses pessoais, Funk teria tido vergonha de si mesmo se o temor da polêmica e as apreensões diante das invectivas o tivessem podido levar a velar ou a calar o mal. Pc oitam impt ndere ri m., de que dão testemunho suas obras e até as flutuações de [...], foi a inviolável divisa de sua vida.
A história, sob a pena de Funk, não é um arrazoado em favor de uma causa, uma demonstração trazida em apoio de uma opinião ou de uma resolução preconcebida; é escrita, segundo a máxima de Quintiliano, para « narrar, não para provar. » A exatidão material e a verdade moral do relato são o fim e a lei suprema do historiador. Mas, se o desenho é correto, falta a cor; Funk retraça sobriamente e fielmente os acontecimentos do passado; não os faz reviver em sua forma nativa; é um relator excelente muito mais que um pintor; de suas páginas dir-se-iam fotografias ou gravuras, não são quadros vivos.
Ademais, a evolução do gênero histórico na Alemanha há uns trinta anos e o interesse atual da Igreja decidiram do caráter geral da obra de Funk, assim como da escolha particular de seus assuntos de estudo. O tempo havia andado e o gosto público mudado desde os dois grandes predecessores de Funk, Mœhler e Hefele. A voga e o crédito não iam mais, quando Funk entrou na vida literária, para as amplas sínteses históricas, em que a filosofia e a arte relegavam a crítica ao segundo plano; a crítica levava a dianteira; as vistas de conjunto já não pareciam senão quadros de enfeite; a pesquisa minuciosa do detalhe, em que se tinha mais necessidade da lupa que da luneta, era quase a única em moda; aos trabalhos de longo fôlego sucediam as monografias ou os artigos de revista; às telas imensas, os quadrinhos. Funk foi o traço de união dos dois períodos; providenciou de certo modo a transição das duas escolas. De uma tomou emprestada a ideia de seu Manual de história eclesiástica; pertence sobretudo à outra por seu trabalho de pioneiro, por seus artigos de revistas como por suas eruditas edições. Mas, ao esmiuçar quase ao infinito seu campo de estudo, Funk cavou e cultivou as parcelas de modo a limpar cada uma delas das ervas daninhas, a fertilizá-las e a colher nelas frequentemente, para vivo desprazer de seus adversários, colheitas inesperadas; mesmo ali onde não se é de seu parecer, ganha-se em ouvi-lo.
Era, enfim, uma tradição de Hefele, era ainda mais uma necessidade do século XIX que um lugar privilegiado fosse feito na obra de Funk à história do cristianismo primitivo. Funk, com efeito, não se desinteressou nem da Idade Média nem dos tempos modernos; falou deles por ocasião com competência e utilidade. Mas os tempos modernos e a Idade Média só lhe forneceram matéria de interessantes digressões.
Sem ter pessoalmente nada de comum com Baur e a escola hegeliana de Tubinga, em presença de seus esforços conjuntos para desfigurar a primeira idade cristã, Funk dedicou-se principalmente à defesa dos pontos atacados e empenhou-se sem descanso em restituir ao berço do cristianismo seu verdadeiro caráter e sua verdadeira fisionomia. Pode-se dizer que ele estava na antiguidade cristã como em sua própria casa e que em qualquer outro lugar estava como em visita. Historisches Jahrbuch, 1907, t. xxviii, p. 654-651S; Hochland, 1907, t. iv, p. 107-109; Theologische Quartalschrift, 1908, t. xc, p. 95-137; Ehrhard, Die altchristliche Litteratur, Ire partie, passim, Fribourg, 1900; P. Godet, F. X. Funk, dans la Revue du clergé français, 1908, t. LVI, p. 129 sq. P. Godet.
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