FULGÊNCIO DE RUSPE (SANTO)

FULGÊNCIO DE RUSPE (SANTO)

2. FULGÊNCIO DE RUSPE (Santo). I. Vida. II. Obras. — III. Doutrina.

I. Vida. Fulgêncio, « o maior teólogo e o mais santo bispo de seu tempo, » Bossuet, La défense de la tradition, l. I, c. xiv, nasceu em 468 em Telepte, na Bizacena, ao norte da África. Oriundo de uma família considerável e permanecido desde cedo sob a proteção da mãe, prematuramente viúva, o menino recebeu, com hábeis mestres, uma educação muito esmerada. Ainda jovem, suas qualidades de espírito e sua experiência dos negócios lhe valeram a honra de ser escolhido como procurador de Telepte. Mas renunciou logo ao cargo; a leitura de uma página de santo Agostinho, da explicação do salmo xxxvi, decidiu-o, não obstante a dor e as lágrimas de sua piedosa mãe, a deixar o mundo e a abraçar a vida monástica. Monge e logo abade, viu-se expulso, pelo ódio dos arianos, do mosteiro que edificava e governava com sucesso. Partiu para a Sicília, com a intenção de ir buscar a solidão no Egito; desviado de seu projeto na Sicília pelo bispo de Siracusa, que lhe descreveu os estragos do monofisismo entre os monges egípcios, visitou Roma, e depois voltou à pátria por volta do ano 500.

Ali construiu um novo mosteiro, do qual se tornou abade, e pouco depois foi ordenado sacerdote, contra a sua vontade. Em 507 ou 508, foi elevado, a contragosto, à sede episcopal de Ruspe, pequena cidade à beira-mar. Exilado pelo rei vândalo Trasamundo, com sessenta outros bispos católicos da Bizacena, refugiou-se como eles na Sardenha e foi ali a alma e o modelo do grupo dos banidos. Por volta do ano 515, sua fama de ciência e de gênio levou o rei Trasamundo a chamá-lo de volta a Cartago, para tomar parte em discussões teológicas; mas seus esforços pelo reerguimento da Igreja na África e os felizes êxitos de seu zelo alarmaram os arianos, que o fizeram relegar de novo à Sardenha por volta do ano 520.

Aqui se situa o incidente dos monges citas, que encontraram firme apoio nos bispos africanos, e viram santo Fulgêncio ratificar sua fórmula antinestoriana de que « uma das três pessoas divinas sofreu na carne », ao mesmo tempo que suas queixas contra o » semipelagianismo de Fausto de Riez. Trasamundo morreu em 523. O advento de Hilderico, seu sucessor, devolveu a paz à Igreja da África e permitiu aos bispos exilados regressar às suas dioceses; santo Fulgêncio pôde ainda trabalhar dez anos pelo bem de seu rebanho. Quando sentiu aproximar-se a morte, retirou-se da vida ativa e entregou-se inteiramente aos exercícios da penitência. « Meu Deus, dizia ele em sua última doença, no auge de seus sofrimentos, dai-me agora a paciência, e depois perdoai-me. » Morreu em 1º de janeiro de 533.

II. Obras. Santo Fulgêncio escreveu muito. Independentemente de suas obras teológicas, que versam, umas sobre os mistérios da Trindade e da encarnação, outras sobre as matérias da graça e da predestinação, vingando a fé católica dos ataques dos arianos como dos dos semipelagianos, restaram-nos dele também cartas e sermões.

1° Na primeira categoria encontram-se as nove produções teológicas seguintes, P. L., t. lxv: o livro Contra os arianos, col. 205-225, resposta às dez questões que o rei Trasamundo tinha proposto, por volta de 515, a Fulgêncio, a respeito das antíteses dogmáticas dos católicos e dos arianos; os três livros Ad Thrasimundum, regem Vandalorum, col. 223-303, nova resposta, por volta de 515, a novas objeções do príncipe ariano; o opúsculo De Trinitate ad Felicem notarium, col. 497-508, breve exposição dos dogmas essenciais da Igreja; o livro Contra sermonem Fastidiosi ariani ad Victorem, col. 507-528, em que o autor, apoiando-se na distinção das ideias de natureza e de pessoa, põe em relevo ao mesmo tempo a indivisibilidade da Trindade e o caráter pessoal da encarnação do Filho de Deus; o opúsculo De incarnatione Filii Dei et vilium animalium auctore ad Scarilam, col. 573-603, resposta, de data incerta, a duas questões, uma, se o Verbo somente se encarnou, a outra, se o próprio Deus criou os insetos nocivos; os dois livros De remissione peccatorum ad Euthymium, col. 527-573, que foram escritos durante o exílio da Sardenha e que põem em relevo as condições providenciais da salvação do homem, fé, boas obras, duração da vida presente;

os três livros Ad Monimum, col. 151-205, escritos igualmente no fundo da Sardenha, o primeiro sobre a dupla predestinação, a dos santos à glória e a dos maus ao inferno, o segundo sobre o sacrifício da missa, sobre o papel do Espírito Santo na Igreja, sobre o conselho ou supererogatio de são Paulo, o terceiro enfim sobre o início do Evangelho de são João; os três livros, dedicados a João e a Venério, Sobre a da predestinação e da graça divina, col. 603-671, compostos por volta de 523, pouco depois do retorno definitivo de Fulgêncio à África; o opúsculo De fide ad Petrum seu de régula verœ fidei, col. 671-768, resumo magistral de toda a teologia cristã. Várias obras de santo Fulgêncio estão perdidas, no todo ou em parte. O livro Contra Pintam não

Dos dois opúsculos, Sobre o jejum e a oração, um talvez se encontre na obra De oratione et compunctione cordis, o outro não; quanto ao breve escrito Sobre o Espírito Santo, dirigido ao presbítero Abragilem, restam-nos ainda dois fragmentos, col. 833, 834. Os dez Livros Contra o ariano Fabiano desapareceram, salvo trinta e nove fragmentos preciosos, col. [texto corrompido]. A obra «Da predestinação e da graça» não é autêntica; [texto corrompido] usurpou o nome de São Fulgêncio.

2° Temos de São Fulgêncio treze longas cartas, quase se diria livros, umas de teologia dogmática, outras de moral, col. 303-498; grande número de suas cartas não chegou até nós.

3° Somente dez sermões de São Fulgêncio sobreviveram; uns tratam das festas de Nosso Senhor e dos santos, outros de questões de moral ou de exegese sagrada, col. 719-750. O sermão sobre a Purificação da Santíssima Virgem, col. 838 sq., e o sermão sobre São Vicente são apócrifos, bem como quarenta outros sermões, que pertencem na realidade ou a Santo Agostinho, ou a São Pedro Crisólogo, ou, em sua maioria, a um autor africano que permaneceu desconhecido. Todos os escritos de São Fulgêncio testemunham uma ciência escriturística vasta, um espírito sensato e penetrante, um estilo luminoso e preciso.

III. Doutrina. Depois que as necessidades especiais da Igreja da África armaram o bispo de Ruspe contra o arianismo, os erros semipelagianos da Gália meridional despertaram-lhe a atenção e o engajaram em novas lutas. Sua doutrina da graça e da predestinação, tal como nos é revelada em particular, à falta de seus livros Contra Fausto, por sua carta ao diácono Pedro e por sua obra Sobre a verdade da predestinação e da graça, não é no fundo, não obstante algumas atenuações de forma, senão um eco fiel do sistema de Santo Agostinho. Na base dessa doutrina encontra-se, como é razoável, o grande fato da criação do primeiro homem. A bondade soberana, que presidiu a esse ato criador e o impregnou por todos os lados, defende Deus da suspeita de uma predestinação in malo.

Mas, permanecendo falível no estado sobrenatural a que Deus originariamente o elevara, Adão falhou, e a natureza humana inteira, corpo e alma, sofreu por esse fato uma mudança deplorável. A alma, privada da graça, viu sua inteligência entenebrecer-se diante das verdades eternas, sua vontade inclinar-se ao mal e perder o poder de merecer o céu. O corpo, em plena e perpétua revolta contra a alma, tornou-se presa da concupiscência e vítima da morte, à espera da hora da morte eterna. E não foi somente o primeiro homem que carregou a pena de sua desobediência pessoal; foi o gênero humano inteiro que foi e permanece atingido. Pois, com a morte física, o pecado de Adão, que é a sua razão última, pesa sobre cada um de seus descendentes, à entrada da vida, e compromete a sua responsabilidade.

Quer se pense o que se quiser, aliás, sobre a insolúvel questão da origem das almas, quer, afastada sem retorno a hipótese origenista da preexistência da alma, se prefira as idéias do traducianismo ou as do criacianismo, o pecado original se transmite por herança. A desordem dos sentidos, foeditas libidinis, que, para São Fulgêncio como para Santo Agostinho, constitui a essência do pecado original e é o anexo inevitável do ato gerador, corrompe todo nascimento humano em sua fonte. Que esse nascimento seja ou não fruto do matrimônio, pouco importa: peccatum in parvulos transmittit propagatio, sed libido. Todos os homens pecaram, com efeito, em Adão, que os continha em si, do qual somente receberam o ser e a subsistência, e por conseguinte formam todos uma massa damnata.

O homem, contudo, não caiu tão baixo que não possa ser reerguido de sua queda e curado de suas feridas; pois, enfim, desde o pecado original, sua natureza não está totalmente pervertida, nem seu livre-arbítrio abolido. Mas a salvação do homem não é obra nem de sua própria natureza, hoje cegada e paralisada, nem da lei natural ou positiva, que mostra sem dúvida a grandeza do mal, mas que, por falta de uma transformação moral da vontade, não poderia trazer ao mal um remédio. Nossa salvação só nos é possível com o socorro incessante da graça divina, que Jesus Cristo nos mereceu no mistério da encarnação. Graça interior, distinta dos benefícios da criação e da revelação, e que tende a iluminar e a fortalecer. Graça santificante e regeneradora; graça atual também, que assegura a perseverança e o progresso da santidade recuperada.

A graça, todavia, não é o elemento único da santidade nos indivíduos; o concurso da vontade humana não pode ser suprimido nem substituído. A ordem de sucessão, ou, se se quiser, de dependência na atividade recíproca dos dois fatores da santidade individual, desconhecida pelos semipelagianos, é posta de novo em relevo por São Fulgêncio. Enquanto os semipelagianos, reconhecendo a necessidade da graça interior, proclamam a bondade nativa de nossa vontade, atribuem-lhe o primeiro passo no caminho da salvação, admitem enfim certa influência das disposições morais do homem sobre a distribuição da graça, o bispo de Ruspe, em nome da Escritura e da tradição, repele o seu triplo erro.

Ele sustenta que nenhuma parcela da obra da salvação, ainda que a primeira em data, escapa à ação da graça; que o homem não poderia impor à graça divina qualquer espécie de condição, uma vez que, sem ela, está incapaz de tornar-se digno dela; e que não pode naturalmente querer o bem, uma vez que tudo, bom movimento, bom pensamento, bom desejo, lhe vem de Deus pela graça. Assim, a graça preveniente cura a impotência da vontade não somente para fazer, mas para desejar o bem; só ela faz brilhar a nossos olhos a fé e nos permite merecer. À graça que previne se acrescenta, para garantir-lhe e aumentar-lhe o efeito, a graça que coopera, gratia subsequens, e que fortalece nossa vontade, ao longo de todo o caminho, até o termo. A uma cabe a iniciativa, à outra a consumação da salvação; uma traz ao pecador o perdão e o estado de justiça, a outra lhe vale em seguida a glória dos santos. A salvação do homem, embora seja a recompensa de seus esforços, depende completamente da graça e é, em definitivo, do começo ao fim, obra de Deus.

Aliás, seria um grave erro crer que todos os homens recebem a graça na mesma medida; Deus distribui a graça como lhe apraz, sempre com limites e de modo a deixar subsistirem imperfeições na alma. A perfeição inteira e perfeita é, com a glorificação, o quinhão do céu.

Teoria da graça, teoria da predestinação divina, tudo respira igualmente, no bispo de Ruspe, o espírito agostiniano. São Fulgêncio protesta contra o excesso da heresia predestinacianista; Deus não predestina ninguém ao mal, ao pecado; o que seria negar visivelmente a Deus, pois se imputaria ao próprio Deus o mal; o réprobo só é predestinado a sofrer a pena do pecado livremente cometido contra a vontade de Deus.

Que é, na realidade, a predestinação? Nada mais que a preparação eterna de todos os atos da vontade humana sobre a terra quanto ao negócio da salvação, juntamente com a do destino que nos espera lá no alto, futuri operis divini sempiterna dispositio. É, portanto, sem que se lhe ligue qualquer ideia de coação sobre a criatura, a triagem do bloco de perdição, a escolha que distingue entre as duas partes da humanidade decaída e separa os eleitos dos réprobos. A ideia da gratia secundum meritum prœcedens levava os semipelagianos a só admitir como predestinação uma presciência divina, prevendo o que a liberdade do homem realizará. Segundo São Fulgêncio, como segundo Santo Agostinho, a predestinação é uma obra ao mesmo tempo de presciência e de vontade.

Mas, com uma linguagem menos precisa que a de seu mestre de Hipona, Fulgêncio não deixa de abraçar, depois dele, a opinião de que a predestinação à salvação repousa, em última análise e antes de tudo, sobre a vontade de Deus; somente a predestinação ao inferno se apoia na previsão dos pecados do culpado.

Mas a predestinação à salvação não se estende a todos os homens; pois Deus não quer a salvação de todos sem exceção, embora o contrário pareça, à primeira vista, resultar do célebre texto: I Tim., ii, 1. O bispo de Ruspe, contrariamente à opinião dos Padres anteriores a Santo Agostinho, particulariza em Deus a vontade salvífica, em nome da plena independência dessa vontade, sem deixar de reconhecer, aliás, que um mistério impenetrável envolve os procedimentos da justiça infinita. O número dos predestinados à salvação, determinado desde toda a eternidade, não é suscetível nem de diminuição nem de aumento, sendo a vontade divina imutável e onipotente. A predestinação é, por conseguinte, absoluta e infalível; dá-se sempre com os predestinados o que Deus quis eternamente, ou antes, o que ele quer, não havendo a seus olhos nem passado nem futuro.

O sentimento profundo dos direitos de Deus sobre o homem e das necessidades do homem em todas as fases da obra da salvação inspira e caracteriza a doutrina de São Fulgêncio. S. Fulgentii vita, P. L., t. lxv, col. 117-150; trad. allemande par A. Mally, Vienne, 1885; Fessler-Jungmann, Institutiones patrologiae, Innsbruck, 1896, t. ii, p. 398-432; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, nouv. édit. franc., Paris, 1905, t. iii, p. 148-152; Teuffel-Schwabe, Geschichte der Rômische Litteratur, 5e édit., Leipzig, 1890, p. 1238; Fr. Wœrter, Zur Dogmengeschichte des Semipelagianismus, Munster, 1893, p. 107-155; Ficker, dans Zeitschrift fur Kirchengeschichte, 1900, t. xxi, p. 9-42; H. Leclercq. L'Afrique chrétienne, Paris, 1904, t. ii, p. 204-206. P. Godet.

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