FUGA DURANTE A PERSEGUIÇÃO

FUGA DURANTE A PERSEGUIÇÃO

2. FUGA DURANTE A PERSEGUIÇÃO. I. Da parte dos cristãos em geral. II. Da parte daqueles que têm cura de almas. Da parte dos cristãos em geral.

- I. Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra, recomendava Nosso Senhor a seus discípulos, ao predizer-lhes que seriam arrastados de tribunal em tribunal, que seriam flagelados nas sinagogas, e que um número muito grande deles os perseguiria com um ódio inflexível por causa d'Ele. Mas, acrescentava: em verdade vos digo, não acabareis de percorrer todas as cidades de Israel antes que venha o Filho do homem. Mt., x, 17-23.

— 1° Erros. 1. Preceito ou conselho, estas palavras são extremamente claras. Foi preciso toda a malícia dos hereges e a perversão dos ímpios para desviá-las de seu sentido natural. Lamenta-se ver à frente dos que se dedicaram a esse ingrato trabalho aquele que foi um dos maiores apologistas da religião cristã, Tertuliano. Tendo caído nos erros dos montanistas, desenvolveu um ardor incomparável em difundir as doutrinas dessa seita que, não concebendo a virtude sem um rigorismo exagerado, pretendia que fugir, durante a perseguição, para subtrair-se aos suplícios e privar-se da coroa do martírio, era um verdadeiro crime, que nenhuma razão podia desculpar. O gênio de Tertuliano, no tratado De fuga in persecutione, escrito em 202, P. L., t. II, col. 103-120, acumula sofismas sobre sofismas para tornar sua tese aceitável na aparência, apesar das palavras tão nítidas de Nosso Senhor que a contradizem tão formalmente e a condenam de antemão.

Estabelece, primeiro, como um princípio de que decorrerá todo o seu raciocínio, que a perseguição não somente é permitida por Deus, mas que Ele a quer diretamente, a fim de santificar sua Igreja, provar seus eleitos, multiplicar o número de seus santos e dar-lhes ocasião, por combates mais duros, de merecer uma recompensa mais brilhante. É a peneira de que se serve para purificar sua eira, a Igreja, agitando esse amontoado confuso de fiéis para separar o trigo dos mártires da palha dos apóstatas. Ora, o que Deus não somente permite, mas quer diretamente, é bom e muito bom. Desde que um homem não aceita o que Deus quer, insurge-se contra Deus e comete uma falta grave: é o caso dos que fogem durante a perseguição. Opõem sua vontade à de Deus. Não dizem como Jesus no jardim das Oliveiras: Non mea voluntas, sed tua fiat; dizem-lhe: tua voluntas, mea sed fiat!

E que não se pretenda que a perseguição é querida pelo demônio e seus sequazes para a perda das almas, e que Deus a permite somente a fim de tirar o bem do mal. Non Dei ! Totum quod agitur in persecutione, gloria est probantis et reprobantis, et deponentis, et imponentis. Quod autem ad gloriam Dei est, utique ex voluntate illius venit... Portanto, de modo algum se pode atribuir a perseguição a Satanás e àqueles que ele inspira: ex hoc ipso ostenditur nobis non posse : eam quœ meliores diabolo deputari (persecutionem), efficit Dei servos. De fuga in persecutione, c. i, P. L., t. II, col. 104.

Sob sua pena acumulam-se os textos da Escritura citados em abundância em apoio de sua asserção tão temerária: Ego percutiam et sanabo, diz o Senhor; Deut., xxxii, 39; Ego sum qui facio pacem et condo mala, Is., xlv, 7; Uram illos sicut uritur argentum, et probabo illos sicut probatur aurum. Zac., xiii, 9. Tertuliano está de tal modo convencido por sua própria argumentação que não lhe parece possível que se possa pensar de outro modo, a menos que se tenha uma fé fraca e frívola: De isto quis dubitare possit ignoro, nisi plane frivola et frigida fides. Ibid., c. iii, col. 106.

Seu erro, contudo, é manifesto. Certamente, nada acontece sem a permissão de Deus, no sentido de que Ele quer positivamente o bem e, respeitando a liberdade humana, não lhe tira a possibilidade de fazer o mal. Mas se Deus permite o mal, ou melhor, não o impede, para tirar dele um bem maior, nem por isso o reprova menos. Ora, apesar das vantagens que dele resultam pelo efeito da sabedoria divina, a perseguição em si mesma não deixa de ser um mal, pois é uma injustiça e uma impiedade. É o vício procurando oprimir a virtude; é a idolatria insurgindo-se contra o culto que só é devido a Deus. Querer fazer remontar até Deus essa iniquidade é querer fazer da fonte de todo bem a causa do mal. Se as razões invocadas por Tertuliano fossem verdadeiras, seria igualmente culpável, durante as doenças, recorrer aos médicos e usar remédios, como fugir durante a perseguição, pois as doenças também vêm de Deus, já que nada acontece sem sua vontade. Cf. Salmanticenses, Cursus theologicus, tr. XVII, De fide theologica, disp. VII, De externa fidei confessione, dub. i, 2, n. 14, 20 in-8°, Paris, 1870-1883, t. xi, p. 355.

2. Suposto o seu princípio, e reconhecido doravante como incontestável, Tertuliano dele deduz as consequências práticas. Agora que sabemos de onde vem a perseguição, diz ele, é-nos fácil demonstrar que não se deve fugir dela de maneira alguma, e, ainda que se quisesse, não se poderia: si enim a Deo evenit, nullo modo fugiendum quod a Deo evenit... quia neque debeat evitari, neque evadi possit, c. iv, col. 106.

Se Deus quer a perseguição, é forçoso suportá-la; e se ele não a quer, nada tendes a temer do furor dos perseguidores, c. iii, col. 106. Aqueles, portanto, que fogem da perseguição, primeiramente fazem uma injúria a Deus, pois consideram um mal (pois sem isso não fugiriam dela) essa perseguição que é um bem, visto que vem de Deus e que Deus nada quer senão o que é bom; e é um crime rejeitar o bom, quia delictum sit quod bonum est, recusare; em seguida, aqueles que fogem da perseguição praticam um ato inútil e insensato, pois não se pode evitar o que Deus quer jam vero non posse vitari, quia a Deo evenit, cujus voluntas non potest evadi. Em resumo, fugir da perseguição é blasfemar contra a sabedoria divina, ou julgar-se mais forte que Deus Igitur qui persecutiones uti malum putant fugiendum, aut exprobrant Deo, si malum fugiant bonum enim nemo devitat; aut fortiores se Deo existimant qui putant se evadere posse, si Deus tale aliquid voluerit evenire, c. iv, col. 107. Um argumento desse gênero, por pouco que fosse pressionado, forneceria um excelente apoio ao fatalismo dos muçulmanos. Cf. Mons. Freppel, Tertullien, lição xiv, 2 in-8°. Paris, 1864, t. i, p. 313 sq.

3. Ele bem previa que à sua conclusão demasiado absoluta não deixariam de opor as palavras de Nosso Senhor: Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra. Matth., x, 23. Por isso esforça-se por demonstrar que essas palavras só diziam respeito aos apóstolos, e ainda unicamente pelo tempo que devia durar a missão especial que o divino Mestre lhes confiava então. Hoc in personas proprie apostolorum et tempora, et in causas pertinere, c. vi, col. 109.

A razão invocada em favor dessa proposição é, no mínimo, singular. Com efeito, diz ele, quando receberam esse mandamento, eles só eram enviados às ovelhas perdidas da casa de Israel. Era-lhes proibido até mesmo entrar nas cidades dos samaritanos In viam gentium ne abieritis, et in civitates Samaritanorum ne intraveritis; sed potius ite ad oves quae perierunt domus Israël, Matth., x, 5-6; ao passo que nós, acrescentava, somos enviados ao mundo inteiro; nenhuma cidade é excetuada e, quando somos presos, não é nas sinagogas dos judeus que nos flagelam; mas é diante dos tribunais romanos que somos arrastados. A fuga foi ordenada ad tempus, temporariamente, aos apóstolos, porque era preciso pregar primeiro às ovelhas perdidas de Israel, e havia que temer que o encarceramento desses primeiros mensageiros da boa nova impedisse a disseminação do Evangelho. Agora que essa obra primordial e fundamental está cumprida, o preceito da fuga já não tem razão de ser.

Como não ver também que esse preceito não se estendia para além das fronteiras da Judeia, único território para o qual o divino Mestre enviava então os seus discípulos? Não lhes dizia ele, com efeito: Non consummabitis civitates Israël? Matth., x, 23. Ao mesmo tempo, fazia-lhes uma proibição formal de irem para as nações, in viam gentium ne abieritis; mas depois que os judeus repeliram a palavra de Deus que lhes era levada, a eles primeiro, são Paulo não os advertiu de que, uma vez que se tinham tornado assim indignos da vida eterna, os apóstolos se voltariam, daí em diante, para as nações pagãs?... quoniam repellitis illud, et indignos vos judicatis aeternae vitae, ecce convertimur ad gentes. Act., xiii, 46. Si ergo cessavit exceptio viae nationum, prossegue Tertuliano, cur non cessaverit et fugae praeceptum pariter emissum? De fuga, c. vi, col. 109.

O exemplo de são Paulo fugindo de Damasco, por cima da muralha, embaraçava-o um pouco. Sob pena de acusar e condenar o grande apóstolo, é obrigado a admitir que o preceito, ou o conselho da fuga durante a perseguição, ainda existia. Mas como Tertuliano não notou que, nesse momento, os apóstolos já tinham transposto as fronteiras da Judeia, evangelizado a Samaria e levado a boa nova às nações pagãs? Cf. Act., viii, 4 sq., 14 sq.; ix, 31; x, 35 sq., 45 sq.; xi, 1, 18 sq.

Depois, não é manifesto que esse preceito não dizia respeito apenas à primeira missão dos apóstolos? No decurso desta, com efeito, eles não tiveram nenhuma perseguição a sofrer, e foram bem recebidos pelos judeus, a tal ponto que, longe de serem obrigados a fugir, voltaram ao Cristo cheios de alegria. Luc, xi, 17. Ao enviá-los para a Judeia, Jesus lhes dava conselhos e ordens para toda a sua vida. Não vemos, na Escritura, que lhes tenha dado outros, mesmo depois de sua ressurreição.

4. Não menos curioso é o dilema com que Tertuliano, montanista, termina o seu c. vi: ou esse preceito foi temporário, ou os apóstolos certamente pecaram, pois não continuaram a fugir. Ora, não é crível que todos os apóstolos tenham desde então constantemente desobedecido ao seu Mestre; logo, o preceito é somente temporário nam si perseverare illud Dominus non voluit, deliquerunt apostoli qui usque in finem fugere noluerunt. O dilema comporta uma saída. Depreende-se da conduta dos apóstolos que as palavras de Nosso Senhor, a respeito da fuga durante a perseguição, eram menos um preceito rigoroso do que um conselho cuja observância dependia de múltiplas circunstâncias, como exporemos mais adiante.

5. Tertuliano conclui sua argumentação voltando ao seu erro primeiro. Sendo a perseguição obra direta de Deus, como pode Deus ordenar igualmente que se fuja dessa perseguição que Ele mesmo envia? c. vii, col. 110. O divino Mestre quer que o confessemos diante dos homens, Mat., x, 31; como o confessaríamos fugindo? Ele proclama bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa d'Ele. Mat., v, 11. Logo, conclui Tertuliano, ai daqueles que fogem da perseguição. Mas se essas razões são verdadeiras, elas o são igualmente por ocasião da primeira missão dos apóstolos.

Como, então, Nosso Senhor lhes deu, naquela ocasião, o preceito ou o conselho de fugir? E se, então, essa ordem ou esse conselho não foi desarrazoado, tendo caído dos lábios mesmos do Verbo encarnado, por que o teria se tornado depois? Cf. Mons. Freppel, Tertullien, lições xiii-xiv, t. i, p. 274-277, 290 sq., 310-321; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, leur vie et leurs écrits, 3 in-8°, Paris, 1905, t. i, p. 339.

2° A verdadeira doutrina. Bem diferente é o ensinamento de santo Atanásio.

Os arianos, tendo procurado por todos os meios apoderar-se dele para o matar, e não tendo conseguido prender-lhe a pessoa, quiseram ao menos vingar-se cobrindo-o de injúrias e acusando-o publicamente de covardia. Ele lhes opôs sua célebre apologia, tão justamente admirada, Ἀπολογία περὶ τῆς φυγῆς αὐτοῦ, escrita por volta de 357, P. G., t. xxv, col. 643-680.

1. Sua resposta foi triunfante. Santo Atanásio a fez com aquele vigor de lógica e aquela justeza de expressões que caracterizavam sua tão viril eloquência. Depois de recordar, num quadro breve mas impressionante, os crimes horrendos de que esses sequazes do inferno se tinham tornado culpados contra todos os mais santos bispos daquela época, opõe-lhes primeiramente um terrível argumento ad hominem: se é vergonhoso fugir, quanto mais o é perseguir e perseguir com violência? Aquele que foge só se resolve a isso para escapar à morte; aquele que persegue e oprime não tem outro fim senão matar, c. viii, P. G., t. xxv, col. 653.

2. Prova em seguida, pelas Escrituras, a licitude da fuga nessas condições. O texto sagrado reprova Jacó fugindo da cólera de seu irmão Esaú, Moisés a do Faraó, Davi a de Saul? E o santo profeta Elias, embora tivesse o poder de atrair o fogo do céu sobre seus perseguidores, não se escondeu para evitar o ressentimento do rei Acab e da rainha Jezabel? c. x, col. 657. E no Novo Testamento, o evangelista inspirado por Deus reprova os apóstolos que, por temor dos judeus, se escondiam enquanto Pedro estava na prisão? E são Paulo não fugiu da cidade de Damasco, aceitando ser descido de noite, por meio de um cesto, ao longo das muralhas?... São Paulo, Elias, Davi, Moisés, Jacó e tantos outros de que fala a Escritura, foram, pois, tímidos, covardes e medrosos? Foram rebeldes contra Deus, que lhes ordenava sofrer a perseguição? Mas, durante a própria fuga, Deus os cumulava de suas graças, de seus benefícios e de suas consolações, enviando-lhes até, por vezes, seus anjos, como a são Pedro, para os ajudar a fugir, c. xx, col. 669.

Aliás, a lei divina no Sinai não havia prescrito reconhecer a certas cidades o direito de asilo, a fim de que fosse possível àqueles que eram perseguidos e ameaçados de morte encontrar ali um refúgio seguro? O Verbo de Deus, que havia ditado a Moisés essa lei salutar, não continuou a falar do mesmo modo, quando, vindo à terra, dizia a seus discípulos: Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra? Mat., x, 23. E ainda: Quando virdes no lugar santo a abominação da desolação predita pelo profeta Daniel, então os que estão na Judeia fujam para os montes, e aquele que está no campo não volte à sua casa para tomar a sua veste. Mat., xxiv, 15-18. Os santos conheciam esses ensinamentos divinos dados à terra, antes como depois do advento de Cristo; fizeram deles o princípio de seus atos e o guia de sua vida, c. xi, col. 657-660.

3. E o próprio Verbo de Deus, feito homem por amor de nós, não se escondeu quando o perseguiam? Não evitou assim as ciladas de seus inimigos? Menino, fugiu para o Egito para escapar à cólera de Herodes. Por morte deste, volta do exílio; mas, para se pôr ao abrigo de Arquelau, filho de Herodes, retira-se para Nazaré, na Galileia. Mesmo quando, mais tarde, fez resplandecer seu poder divino por inúmeros milagres, escondeu-se, contudo, no momento em que os fariseus tiveram conselho para decidir por que meio se desembaraçariam d'Ele. Mat., xxvi, 4. E quando, depois da ressurreição de Lázaro, seus inimigos, cada vez mais encarniçados contra Ele, pensavam em matá-lo, Jesus não se mostrava mais em público, e retirou-se para longe, para o deserto. João, xi, 53-54. E quando, tendo o Senhor afirmado que existia antes de Abraão, os judeus tomaram pedras para lançá-las contra Ele, Jesus escondeu-se ainda. João, viii, 58-59. E quando João Precursor foi decapitado e seus discípulos sepultaram-lhe o corpo, Jesus subiu a uma barca e, atravessando o lago, retirou-se, à parte, para um lugar deserto. Mat., xiv, 13. Ἀπολογία, c. xii-xiii, col. 660. Tais eram os ensinamentos e os exemplos do Salvador.

Meus inimigos, continua o santo proscrito, acusarão também o divino Mestre de timidez e de covardia?

4. Mas por que essa fuga de Jesus, tantas vezes renovada? O evangelista nos ensina. É porque sua hora de sofrer ainda não havia chegado. Joa., vii, 30. Quando enfim chegou a sua hora, ele não se escondeu mais, e avisou claramente os seus apóstolos de que ia ser entregue às mãos dos pecadores. Matth., xxvi, 45. Com essas palavras, o Salvador mostra que todo homem também tem a sua hora, fixada, não pelo destino cego, como falsamente imaginaram certos filósofos pagãos, mas pelo beneplácito do Pai eterno, que assim o dispôs nos segredos de sua sabedoria. Qual é essa hora para cada um de nós? Ninguém o sabe, c. xiv-xv, col. 661-664.

Embora o Verbo de Deus feito homem não ignorasse qual tempo havia sido determinado para a sua paixão por Deus, seu Pai, ele se escondia, à nossa maneira, durante os dias que precederam imediatamente esse tempo. Mas quando chegou o tempo determinado por seu Pai e por ele, em que decretara sofrer e morrer por nós, não se escondeu mais, mas mostrou-se espontaneamente, a fim de ser preso. Aos seus inimigos, que lhe responderam: « Procuramos Jesus », ele disse: Esse Jesus que procurais, sou eu. Joa., xviii, 4-6. E não somente lhes deu essa certeza uma vez, mas a repetiu. Assim, pois, conclui santo Atanásio, antes da sua hora, ele não permite que ninguém ponha as mãos sobre ele; mas, chegada essa hora, longe de se esconder, entrega-se a si mesmo, a fim de mostrar bem a todos que a vida dos homens, como a sua morte, depende unicamente do soberano Senhor que está nos céus, c. xv, col. 664.

Tal foi, seguindo o exemplo do Salvador, a conduta dos santos. Perseguidos pelos perseguidores, fugiam e se escondiam. Sendo apenas homens, ignoravam absolutamente, a menos de uma revelação especial, o tempo fixado por Deus para a consumação de seu sacrifício. Não queriam, portanto, entregar-se a si mesmos aos perseguidores, pois sua vida não lhes pertencia. Como diz o apóstolo, erravam por lugares desertos, cobertos de peles de animais, escondendo-se nas grutas e nas cavernas da terra, suportando a fome, a sede, o desamparo, as privações de toda espécie, eles, de quem o mundo não era digno, Heb., xi, 37: até que chegasse a sua hora, e que Deus, ou fizesse cessar a perseguição, ou lhes revelasse que era chegado o momento de sofrerem a última imolação, ou os entregasse ele mesmo aos perseguidores, conforme lhe parecesse melhor, c. xv, col. 665. Quantos exemplos desse gênero nos apresentam as páginas inspiradas do Antigo e do Novo Testamento!

Moisés, depois de ter fugido para a terra de Madiã diante da cólera do Faraó do Egito, não teme comparecer diante desse rei soberbo quando Deus lho ordena. Davi, que havia fugido diante de Saul, não temeu os perigos da guerra pelo interesse do povo e pela glória de seu Deus. Quando lhe era dada a escolha entre a fuga e a morte, e uma e outra lhe eram igualmente permitidas, lançava-se, intrépido, ao mais forte da refrega. Elias, depois de se ter escondido, ouvindo a voz do Senhor, vem enfrentar o rei Acab, III Reg., xviii, 17; do mesmo modo, o profeta Miqueias, III Reg., xxii, 15. E, para não nos estendermos mais longamente, por que São Paulo apela para César, senão por uma razão semelhante? Act., xxv, 11. E, como Paulo, Pedro, que se havia escondido, quando soube por revelação que deveria sofrer o martírio em Roma, apressou-se a vir a essa cidade, sem demora, e com o coração transbordante de uma alegria celeste, c. xvi, xviii, xx, col. 668-671.

5. O medo não havia causado a fuga desses santos personagens. Pelo contrário, esta lhes era um combate mil vezes mais penoso, e uma meditação ininterrupta da morte. Ao fugirem, obedeciam simultaneamente a dois preceitos: o de não dar a si mesmos a morte e o de sofrer a perseguição pela justiça; pois a fuga é muitas vezes um suplício mais terrível que o trespasse. Aquele que exalou o último suspiro não sofre mais. Ao contrário, aquele que foge está exposto, a cada dia e a cada hora, a misérias sem número. A morte seria antes para ele uma libertação. Por isso, os que perecem na fuga, durante a perseguição, não morrem sem glória. Também eles merecem e obtêm a coroa do martírio. Mostram sua invencível força de alma, ao se condenarem, por amor de Deus e por obediência às suas leis soberanas, a um gênero de vida que é, para eles, um martírio de cada instante, c. xvii, col. 667.

6. Um século e meio antes de santo Atanásio, Clemente de Alexandria havia ensinado as mesmas doutrinas, indo porém ainda mais longe. O Salvador nos recomenda, diz ele, fugir durante a perseguição, porque não quer que nos exponhamos por nós mesmos à morte. Fazendo-o, seríamos cúmplices dos perseguidores na iniquidade que meditam perpetrar. Se peca aquele que mata um homem, aquele que se oferece por si mesmo aos assassinos é culpado de sua própria morte e comete uma falta grave, pois, quanto depende dele, favorece a realização dos maus desígnios dos ímpios. Strom., IV, c. x, P. G., t. viii, col. 1286. Se não somente se entrega imprudentemente a eles, mas ainda os irrita, é semelhante àquele que provoca temerariamente uma fera e se torna uma causa ainda mais eficaz do crime que é cometido, col. 1287.

Todavia, sob a inspiração de Deus, vários santos agiram de outro modo e, longe de se tornarem culpados, deram o exemplo de uma coragem das mais heroicas. A sede do martírio e o seu grande amor de Deus levaram-nos a atos que se poderiam considerar como o último limite da temeridade, se não se visse que foram efeito da graça, descida abundante sobre eles.

Conhece-se, por exemplo, a sublime carta de santo Inácio, bispo de Antioquia, conduzido acorrentado a Roma para ser entregue às feras do anfiteatro, sob Trajano. Em seu desejo ardente de tornar-se, segundo a sua expressão, o trigo de Cristo, desejava ser moído o quanto antes pelos dentes das feras, e exclamava que elas lhe eram como que um alimento vil para devorar. Que não façam comigo como fizeram com outros servos de Deus, que não ousaram tocá-los. Se não quiserem vir a mim, irei eu a elas; excitá-las-ei para que me despedacem e nada deixem subsistir do meu corpo. Ad Rom., iv, Funk, Patres apostolici, Tubingue, 1901, t. i, p. 256. Cf. Möhler e Reithmayr, La patrologie, ou histoire littéraire des trois premiers siècles de l'Église chrétienne, part. I, § 1, n. 4, 2 in-8°, Paris, 1813, t. I, p. 128-130; Mons. Freppel, Les Pères apostoliques et leur époque, lição xviii, in-8°, Paris, 1859, p. 388-398; Fessler e Jungmann, Institutiones patrologiæ, 3 in-8°, Innsbruck, 1890-1896, part. II, c. i, § 36-37, t. i, p. 146, 155; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, leur vie et leurs écrits, 1re période, t. I, § 9, 3 in-8°, Paris, 1905, t. i, p. 70.

São João Crisóstomo relata um fato análogo no panegírico das três santas mártires, Berenice, Prosdoce, virgens, e Domnina, sua mãe, que se lançaram num rio para evitar a desonra com que os algozes as ameaçavam. P. G., t. I, col. 638 sq.

7.

Exceto os casos deste gênero, em que Deus manifesta a sua vontade pelos impulsos quase irresistíveis de sua graça onipotente, Clemente de Alexandria afirma, não sem razão, que apresentar-se de si mesmo ao algoz pode ser considerado uma temeridade culpável. É expor-se à apostasia lançar-se imprudentemente ao perigo. Tem-se o direito de contar com o socorro de Deus, se se vai, por si mesmo, a esse temível combate? Strom., IV, x, P. G., t. viii, col. 1286. É bom desconfiar das próprias forças. A temeridade, filha do orgulho, engendra a fraqueza e prepara a queda. Se Pedro tivesse sido menos temerário, ou antes, digamos a palavra, se tivesse fugido como os outros apóstolos, não teria negado seu divino Mestre, por três vezes, à voz de uma simples serva. O temor fundado de não poder suportar os suplícios seria causa suficiente para fugir diante da perseguição. Não somente, nessa persuasão, a fuga seria permitida e lícita, mas seria estritamente obrigatória, sub gravi.

Tal não era seguramente o sentimento de Tertuliano. Com que vigor e com que inconsequência se ergue contra aqueles que pensavam e agiam dessa maneira, para convencê-los de seu pretenso crime! Seu gênio, sempre propenso aos extremos, fê-lo cair nas mais profundas aberrações. Fugis para evitar renegar a Deus, dizia-lhes ele; mas estais certos, ou não, de renegá-lo? Se estais certos, já o renegastes; logo, vossa fuga é totalmente inútil, quare jam fugis, ne neges, qui jam negasti? Se, ao contrário, não estais certos de renegá-lo, por que não pensar antes que o confessareis valorosamente? Afetando vossa incerteza as duas hipóteses, por que tomar a pior, e não a melhor, se está em vosso poder renegá-lo ou confessá-lo? A menos que queirais confessá-lo somente com a condição de não sofrer. Mas recusar confessá-lo assim é renegá-lo. De fuga in persecutione, c. vi, P. L., t. II, col. 108.

Por que, mais sabiamente, não vos entregardes a Deus, em vez de fugir? Não pode ele, se fugis, reconduzir-vos à força diante dos algozes? E, se não fugis, não pode protegervos contra o seu furor, ou tornar-vos invencíveis? Por que então não dizer: Eu, fico; faça Deus de mim o que quiser; se quiser proteger-me, protegerá seguramente, Dominus est, faciat quod vult, non discedo; me Deus si voluerit, ipse proteget; e se quiser que eu me perca, perder-me-á, et si perdere me volet, ipse me perdet. Prefiro deixar-lhe a responsabilidade da minha perda, perdendo-me por sua vontade, a excitar sua cólera, salvando-me pela minha. Malo illi perditionis meae facere iniuriam voluntate ipsius pereundo, quam salutis, pro me eluendo, c. v, P. L., t. II, col. 113.

Esquecendo que a liberdade humana permanece intacta sob a ação divina que governa soberanamente os indivíduos e as sociedades, Tertuliano argumenta ainda, aqui, como o faria um adepto do fatalismo. Tudo depende de Deus. Faça o que fizerdes, os seus decretos sobre vós se realizarão. Fugi, ou não fugi. Se deveis renegar a Deus, renegá-lo-eis do mesmo modo, e se deveis confessá-lo, confessá-lo-eis nos tormentos. Loc. cit.

Uma vez engajado nesse declive, Tertuliano, com sua lógica inflexível, chega às conseqüências mais exageradas. Já não é raciocínio, é extravagância. É uma série de sofismas que desembocam no absurdo e na blasfêmia. Se renegais a vossa fé nas torturas, diz ele, ao menos tereis lutado contra os suplícios.

Prefiro ter de lamentar-vos a ser obrigado a corar por vós. Vale mais cair no campo de batalha do que fugir covardemente, c. x, col. 112. Revestistes-vos de Cristo no dia em que fostes batizados em Cristo. Ao fugir diante do demônio, desonrais o Cristo que está em vós, e entregais-vos ao demônio como um covarde trânsfuga.

Esses sofismas são apresentados com grande eloquência, um vigor incomum de pensamentos, torneios hábeis e extrema riqueza de expressões. Nem por isso deixam de ser sofismas, e não resistem a um exame calmo e sério. Que aberração num gênio tão poderoso! Preferir a queda lamentável de um cristão que renega seu Deus diante dos carrascos e queima um incenso sacrílego diante dos ídolos impuros, à sábia prudência de que teria dado prova esse cristão, evitando um combate no qual previa a sua derrota! Não vale mil vezes mais evitar a luta, quando se tem motivo para temer uma fraqueza, do que enfrentá-la temerariamente com a perspectiva de uma apostasia? Um excesso de presunção é uma falta, tanto quanto uma desconfiança exagerada.

Certamente, é mais heroico combater, quando se espera, mediante a graça do alto, perseverar até o fim; mas a fuga, se não é uma ação de brilho, nem sempre deve ser considerada uma traição. Ela pode, ao contrário, ser a prova evidente do apego que se tem a Deus e do desejo de manter-se na fidelidade para com Ele. Mas nem todos chegam a isso do mesmo modo. Non omnibus datum est! Alius sic, alius vero sic. I Cor., vii, 7. Como eram muito melhor inspirados os Padres da Igreja, os Crisóstomo, os Cipriano e tantos outros, dizendo com aquele a quem se chamava o teólogo por excelência: Não, não renega a Cristo aquele que foge, precisamente para não o renegar, fugindo. Gregório de Nazianzo, Adversus Julianum imperatorem oratio invectiva prior, P. G., t. xxxv, col. 619. Cf. S. Agostinho, Serm., cxxxiii, n. 7, P. L., t. xxxviii, col. 741. Ipsum fugere protestatur fidem; non enim fugeret qui fidem tueri nollet, sed illam palam desereret. Salmanticenses, Cursus theologicus, tr. XVII, De fide theologica, disp. VII, De externa fidei confessione, dub. i, §2, n. 12, 18, t. xi, p. 354, 357. Fuga est quœdam fidei confessio; nam exilium quod per fugam assumitur quœdam pœna est, et non parva. Suarez, De fide theologica, disp. XXV, De prœcepto actus exterioris fidei, sect. iii, n. 9, Opéra omnia, 28 in-4°, Paris, 1856-1878, t. xii, p. 389 sq. Qui fugit, non significat per suam fugam se non esse christianum, vel negare velle fidem: sed potius contrarium, se nolle fidem negare, et ideo fugere periculum negandi. Palmieri, Opus theologicum morale in Busembaum medullam, tr. V, De prœcepto virtutum theologicarum, sect. i, c. iii, De confessione externa fidei, n. 82, 7 in-8°, Prato, 1889-1893, t. II, p. 31. Cf. S. Afonso, Theologia moralis, t. II, De prœceptis virtutum theologicarum, tr. I, De prœcepto fidei, c. iii, n. 14, 4 in-4°, edição Gaudé, Roma, 1905-1912, t. i, p. 306.

Essa fuga pode também ser a observância do preceito de fugir das ocasiões de pecado. Aquele que prevê não poder suportar os suplícios não só pode, mas deve fugir. Cf. Salmanticenses, loc. cit., tr. XI, p. 355 sq. Talis fuga non est malum; imo potius est opus virtutis prudentiœ. Suarez, loc. cit., n. 9, t. xii, p. 389.

8. São Gregório de Nazianzo indica outra razão legítima de fugir: a de evitar ao perseguidor um novo crime. Os cristãos, diz ele, por maiores que sejam sua força e sua segurança de perseverar, não devem agir apenas segundo considerações que lhes sejam pessoais; mas ter piedade até dos perseguidores e poupar-lhes um crime a mais, a fim de não contribuir em nada, tanto quanto deles depende, para as iniquidades e a condenação de seus inimigos. Adversus Julianum imperatorem oratio invectiva prior, c. lxxxviii, P. G., t. xxxv, col. 617. Clemente de Alexandria também havia afirmado que uma razão desse gênero era suficiente para justificar a fuga, em certos casos. Strom., IV, c. x, P. G., t. viii, col. 1286. Cf. S. Tomás, Sum. theol., II-II, q. iii, a. 2, ad 3um; Salmanticenses, Cursus theologicus, loc. cit., n. 15, t. xi, p. 355.

De parte daqueles que têm cura de almas.

II. 1° Erros. Já tão severo para com os simples cristãos, Tertuliano não podia deixar de sê-lo ainda mais para com aqueles que têm cura de almas. Só o mau pastor abandona suas ovelhas em meio ao perigo, exclama ele, aludindo às palavras de Nosso Senhor a respeito do bom e do mau pastor. Cf. Joa., x, 12. Mas esse pastor mercenário, prossegue, será ele próprio expulso do redil; perderá o fruto de seus trabalhos anteriores, e o justo juiz lhe tirará até o que possuía de outra parte. Matth., xiii, 12; xxv, 29, 30.

É contra esses pastores infiéis que já se erguia o profeta, quando pronunciava este terrível oráculo: Framea, suscitare super pastorem meum..., percute pastorem. Zach., xiii, 7. É também contra eles que outro profeta lançava as mais temíveis maldições: Vœ pastoribus Israël qui pascebant semetipsos! Nonne greges a pastoribus pascuntur? Lac comedebatis, gregem autem meum non pascebatis. ... Quod infirmum fuit non consolidastis... quod perierat non quœsistis... et dispersœ sunt oves meœ, eo quod non esset pastor, et factœ sunt in devorationem omnium bestiarum agri. Ezech., xxxiv, 2-10.

Ora, continua Tertuliano, jamais esse lamentável desordem atinge um grau mais alto e mais terrível do que quando, durante a perseguição, a Igreja é privada de seu clero, que toma a fuga. E depois, aqueles que estão à frente das cristandades não devem dar o bom exemplo? Se os pastores, diáconos, sacerdotes, bispos, tomam covardemente a fuga, como poderão os simples fiéis perseverar? De fuga, xi, col. 113. Ah! exclama ele em outro lugar, eu os conheço, esses pastores indignos, valentes como leões quando não há nada a temer; tímidos e prontos a fugir como cervos, no momento do combate! De corona militum, c. i, P. L., t. II, col. 77.

— 2° A verdadeira doutrina. 1. Se há algo de verdadeiro nesses anátemas de Tertuliano contra os pastores mercenários que deixam as ovelhas sem defesa em meio ao perigo, há exagero quando o escritor afirma que toda fuga, mesmo da parte dos pastores que têm cura de almas, é ilícita e culpável em todos os casos. Deus, por vezes, favoreceu ele mesmo a fuga deles. Em sua Apologia, santo Atanásio encontra nessa conduta da providência uma razão que justifica igualmente os pastores que, em certas circunstâncias, se decidem a fugir durante as perseguições. Deus salvava seus servos, diz ele, para que, livrados assim das ciladas de seus inimigos e postos ao abrigo de seus maus desígnios, lhes fosse possível continuar a instruir os povos, c. xix-xx, P. G., t. xxv, col. 668-670.

Tertuliano havia reconhecido a justeza dessa razão para os primeiros apóstolos. Por que não para seus sucessores? Um motivo desse gênero não era exclusivamente próprio das origens da Igreja. Podia apresentar-se de novo no decorrer dos séculos e, de fato, apresentou-se mais de uma vez.

Se, não fugindo nenhum dos pastores legítimos, todos fossem mortos, diz o santo doutor, quem, daí em diante, pregaria a palavra de verdade e administraria os sacramentos? Não é, aliás, por esse motivo que os perseguidores perseguem os pastores com tanto encarniçamento? Não é para secar as fontes da eloquência sagrada e reduzir ao silêncio todas as bocas que se abrem para glorificar a Deus ou mostrar aos fiéis o caminho do céu? c. xx, P. G., t. xxv, col. 672. Mas, para esses santos confessores da fé, o tempo da fuga não era um tempo perdido, nem para eles, nem para as ovelhas de quem tinham a solicitude.

Não o era para eles, pois os méritos cresciam na proporção de seus sofrimentos e das privações de toda sorte que tinham de suportar; esse tempo não era perdido, tampouco, para suas ovelhas, pois, mesmo durante a fuga, não cessavam de anunciar as verdades da fé aos fiéis, continuavam a instruí-los na doutrina, premuniam-nos contra as armadilhas que seus inimigos lhes armavam para surpreender seu consentimento a atos contrários à lei de Deus, etc. A fuga dos santos é, portanto, útil aos povos, por mais que pensem o contrário os arianos, interessados em que essa fuga não ocorra, c. xxi, col. 672.

Assim, é em virtude de uma sábia disposição da providência que os santos se decidiram, por vezes, a tomar a fuga. Deus os reservava como médicos para a maior vantagem dos povos sujeitos a tantas misérias e enfermidades morais, c. xxii, col. 672. Cf. Salmanticenses, Cursus theologicus, tr. XVII, De fide theologica, disp. VII, De externa fidei confessione, 1 1, dub. i, §2, n. 1."), t. xi, p. 355.

Ao escrever essas palavras, santo Atanásio se lembrava, como ele mesmo conta, de que havia sido libertado como que milagrosamente das mãos dos soldados arianos que queriam matá-lo. Quando Deus havia intervindo tão visivelmente em seu favor, o santo prelado teria considerado um crime, dizia ele, entregar-se por si mesmo àqueles que quiseram atentar contra seus dias. Sua vida não lhe pertencia. Seu dever era conservá-la para Deus e para suas ovelhas, enquanto Deus não dispusesse dela de outro modo.

Essas reflexões nos revelam quais são os verdadeiros deveres dos pastores das almas em face da perseguição. Antes de tudo, devem consultar a vantagem espiritual dos fiéis confiados à sua solicitude, não hesitando em expor-se à morte, se os interesses sobrenaturais dos fiéis o reclamarem; e, ao contrário, conservando-se, mesmo pela fuga, se sua vida é necessária àqueles de quem têm a cura. São os pensamentos que são Paulo exprimia quando dizia: Sinto-me premido por dois desejos ardentes: um, de morrer, a fim de estar com Cristo; o outro, de permanecer na carne mortal, se isso é útil ao bem de vossas [almas].

Quanto a santo Atanásio, [...] sua libertação [...] inimigos, [...] porque era quase o mais sólido baluarte contra o arianismo. [...] queriam a todo custo [...] dele. Por esse motivo também Deus o conservou até uma extrema velhice para o bem de sua Igreja.

Santo Agostinho expunha maravilhosamente a mesma doutrina em sua carta ao bispo Honorato, que o havia consultado a esse respeito, no momento da invasão das dioceses da África pelos vândalos.

Ao nos recomendar, ou ao nos aconselhar a fugir de cidade em cidade, respondia o grande doutor de Hipona, o Senhor não quis que as nossas ovelhas ficassem sem os pastores que lhes são necessários, Ele que por elas não hesitou em derramar todo o seu precioso sangue. Quando o Senhor fugia para o Egito, não abandonava a sua Igreja, que ainda não havia fundado. E quando o apóstolo São Paulo fugiu de Damasco, porque queriam sobretudo a sua pessoa, a Igreja de Damasco não ficou abandonada a si mesma, pois tinha em seu seio sacerdotes e levitas, em número suficiente para cuidar dos fiéis. Faciant ergo servi Christi, ministri Verbi et sacramenti ejus, quod prœcepit sive permisit. Fugiant omnino de civitate in civitatem, quando eorum quisquam specialiter a persecutoribus quœritur, ut ab illis qui non ita requiruntur, non deseratur Ecclesia; sed isti prœbeant cibaria conservis suis, quos aliter vivere non posse noverunt. Epist., ccxxviii, ad Honoratum episcopum, c. II, P. L., t. xxxiii, col. 1014. Cf. In ps. CXLI, c. xi, P. L., t. xxxvii, col. 1840; Contra litteras Petiliani, l. II, c. xix, P. L., t. xliii, col. 272.

Assim, durante algum tempo, cedendo às instantes súplicas dos fiéis, esconderam-se, não por temor, mas por caridade, São Policarpo, São Gregório Taumaturgo, São Cipriano e vários outros. Cf. S. Thomas, Sum. theol., II-II, q. clxxxv, a. 5; In Joa., c. x, lect. iii, n. 3, Opéra omnia, 34 in-4°, Paris, 1871-1880, t. iv, p. 504; t. xx, p. 135; Décret de Gratien, part. II, caus. VII, q. i. c. 17, Suscitons; Suarez, De fide theologica, disp. XIV, sect. iii, n. 10, t. xii, p. 390; Salmanticenses, Cursus theologicus, tr. XVII, disp. VII, dub. i, §2, n. 15, t. xi, p. 356; Palmieri, Opus theologicum morale in Busembaum medullam, tr. V, sect. c. iii, n. 82, n, 31. i, t. p. 2.

Mas, prossegue o grande doutor de Hipona, se o perigo é o mesmo para todos, bispos, sacerdotes e leigos, que as ovelhas não sejam abandonadas pelos pastores de que necessitam. Portanto, ou que todos fujam para lugares onde estarão em segurança; ou que aqueles que são obrigados a ficar não sejam deixados por aqueles que são os seus pastores e guias; de sorte que, ou todos vivam em segurança, ou todos suportem igualmente a provação que o Pai de família envia ou permite. P. L., xxxiii, col. 1014.

Assim, diz ele, pratica-se aquela caridade que nos recomendava o discípulo amado: Assim como Cristo deu a sua vida por nós, assim devemos nós dá-la por nossos irmãos, Joa., iii, 16; pois, se leigos, quer fujam, quer não fujam, são presos e têm de sofrer, é por si mesmos e não por seus irmãos que sofrem; ao passo que aqueles que são presos e sofrem por não terem querido abandonar seus irmãos, que precisavam do seu ministério sagrado para a sua salvação, esses, sem nenhuma dúvida, dão a sua vida por seus irmãos, à imitação do divino Salvador. Quis infirmatur, et ego non infirmer? proclamava o grande apóstolo. II Cor., xi, 29. Epist. ad Honoratum, c in, mi, P. L., t. xxxiii. (i,l. lui I, 1IM6; lu .In,,., c. x. n P. L., t. xxx. col. 1731 sq.; In ps. XLI, c. xi, xxxvii, , P. L., t. col. 1840. Cf. S. Grégoire, Adversus Julianum imperatorem oratio invectiva prior, c. lxxxviii, P. G., t. XXXV, col. 617.

Os pas- I < • I . tores que sofrem a morte, porque, quando podiam fugir, não o fizeram por amor às suas ovelhas, praticam a caridade em grau incomparavelmente mais alto que os leigos, ainda que mártires. S. Augustin, Epist. ad Honoratum, c. iv, P. L., t. xxxiii, col. 1015. Cf. S. Thomas, Sum. theol., II-II, clxxxv, a. 5, in corp. et ad 2um De Lugo, q. ; Disputationes scholasticae et morales, disp. XIV, n. 12, 8 in-4°, Paris, 1868-1869; Marc, Institutiones morales alphonsianae, part. II, sect. tr. I, De fide theologica, i, c. ii, § 2, n. 430, 2 in-8°, Rome, 1900, t. i, p. 284.

3. Aquele que fugisse, quando as ovelhas têm necessidade do seu ministério, não seria um verdadeiro pastor, mas um daqueles mercenários de que fala o Salvador; mercenário que não considera as ovelhas como suas e que, vendo vir o lobo, foge, deixando o rebanho sem defesa ao furor dessa fera que o dispersa e o mata. Joa., x, 12, 13. Os dois ensinamentos do divino Mestre, aquele pelo qual recomenda ou aconselha a fuga, e aquele pelo qual a reprova e condena, não se contradizem, mas se completam e se esclarecem mutuamente. O que o Senhor proíbe não é propriamente fugir, mas abandonar o rebanho. Cf. S. Augustin, Epist. ad Honoratum, VI, P. L., xxxiii, c. t. col. 1015.

O pastor seria gravemente culpado, mesmo em tempo de paz, se recusasse às suas ovelhas os socorros do seu ministério; mas quão mais grave seria o seu crime se os recusasse a elas no momento da perseguição, quando delas têm mais necessidade do que nunca vi-viii, P. L., xxxiii, col. 1016 sq. ! c. t. Cf. Décret de Gratien, part. II, caus. VII, q. i, c. 47, Sciscitaris.

Que esses pastores indignos não pretendam, então, que se conservam para a Igreja, para tempos melhores, pois é o medo de morrer que inspira a sua fuga, e não o sério desejo de ser úteis aos outros, x, P. L., xxxiii, col. 1017.

Se, c. t. ainda, quando a fuga é legítima, ela não pode ter lugar sem escandalizar os fiéis, é preciso abster-se dela. S. Augustin, loc. cit. Cf. S. Thomas, Sum. theol., loc. cit.; In Joa., c. x, lect. iii, n. 2-3, Opera omnia, t. xx, p. 134 sq. Suarez, De fide theologica, disp. XIV, m, sect. n. 12, Opéra omnia, t. xii, p. 390 sq.

4. Eis, para terminar, algumas considerações gerais que se aplicam a todas as categorias de pessoas consideradas anteriormente: bispos, sacerdotes e simples fiéis. Quando a fuga é legítima, não se segue sempre, evidentemente, que seja obrigatória. Pode-se, portanto, então, não fugir, mas esperar tranquilamente, pedindo a Deus as graças necessárias para combater valorosamente até o fim o bom combate e, perseverando até o fim, alcançar a palma do martírio.

Aquele que não foge não se mata, o que seria ilícito; limita-se a não defender a sua vida, o que é ato de virtude, e mesmo de perfeição. Seu fim não é impelir os perseguidores a um novo crime, mas não se opõe a ele, a fim de manifestar publicamente o desejo que tem de confessar a sua fé.

Não se poderiam opor a essa proposição as palavras de Nosso Senhor: Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra. Mat., x, 23. Essas palavras, com efeito, são menos um preceito do que um conselho, cuja observância depende das circunstâncias; e significam simplesmente que a fuga, em princípio, é permitida, salvo as exceções comportadas pelos casos particulares considerados acima.

Que não se diga, tampouco, que há oposição entre essa proposição e aquelas que foram sustentadas e provadas no decurso deste artigo. Estas também só tiveram por fim demonstrar a licitude da fuga, e não a sua necessidade, salvo o caso em que houvesse, para um indivíduo, perigo próximo de renegar a sua fé nos tormentos; pois, então, a fuga seria obrigatória sub gravi, como a fuga de toda ocasião próxima de pecado grave. Ver Fuga das ocasiões de pecado, col. 951.

Em resumo, pois, salvo as exceções indicadas, fugir ou não fugir é coisa moralmente indiferente, visto que ambas as coisas são igualmente lícitas. Entre as duas, cada um pode, portanto, escolher, segundo as circunstâncias, sua inclinação e o impulso das graças que Deus lhe dá.

Cf. cardeal Caetano, In Matth., c. x; Suarez, De fide theologica, disp. XIV, sect. iii, n. 11, Opéra omnia, t. xii, p. 390; Salmanticenses, Cursus theologicus, tr. XVII, disp. VII, dub. 2, i, § n. 18, t. xi, p. 357. S. Tomás, Sum. theol., II-II, q. iii; q. clxxxv, a. 5; Opusc., XVIII, c. xix-xx; In Joa., x, lect. iii; In I Cor., i, in fine; In II Cor., ii, in fine, Opéra omnia, 34 in-4°, Paris, 1871-1880, t. IV, p. 504 sq.; t. xx, p. 133 sq. Suarez, De fide theologica, disp. XIV, m, sect. n. 8-13, Opéra omnia, 28 in-4°, Paris, 1856-1878, t. xii, p. 389-391; Salmanticenses, Cursus theologicus, tr. XVII, De fide theologica, disp. VII, dub. i, § 2, 20 in-8°, Paris, 1870-1883, t. xi, p. 353-357; Mœhler et Reithmayr, La patrologie ou histoire littéraire des trois premiers siècles de l'Église chrétienne, part. I, § 1, n. 4; part. III, n. 9, 2 in-8°, Paris, 1843, t. i, p. 128-130; t. a, p. 333 sq.; Mgr Freppel, Les Pères apostoliques et leur époque, leçons xv-xviii, in-8°, Paris, 1859, p. 321-405; Tertullien, leçons xiii, xiv, 2 in-8°, Paris, 1864, t. i, p. 274-277, 290 sq., 310-321; Clément d'Alexandrie, leçon xiv, in-8°, Paris, 1865, p. 318; E. Jolyon, La fuite de la persécution pendant les trois premiers siècles du christianisme, Lyon, 1903; A. d'Alès, La théologie de Tertullien, Paris, 1905, p. 454-460; S. Afonso, Theologia moralis, l. II, tr. I, c. iii, n. 14, édit. Gaudé, 4 in-4°, Roma, 1905-1912, t. i, p. 306; Palmieri, Opus theologicum morale in Busembaum medullam, tr. V, sect. i, c. iii, n. 82, 7 in-8°, Prato, 1889-1893, t. II, p. 31; Schwane, Histoire des dogmes. Période anténicéenne, part. IV, § 77, 6 in-8°, Paris, 1903-1904, t. i, p. 694; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, leur vie et leurs écrits, 1re période, t. I, § 9; t. V, c. II, § 50, n. 8; IIe période, c. i, § 83, 3 in-8°, Paris, 1905, t. i, p. 66-82, 339; t. II, p. 36, 41. T. Ortolan.

Autor original: T. Ortolan

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor