FROIDMONT (LIBERT)

FROIDMONT (LIBERT)

FROIDMONT 926 admiradores, sucedeu-lhe, em 28 de janeiro de 1637, em sua cátedra de Sagrada Escritura. É por volta da mesma época que foi nomeado presidente do colégio de Craenendonck. Em 1638, os sufrágios de seus colegas da universidade o conduziram às honras do reitorado, dignidade que então era apenas semestral. No ano seguinte, tornou-se, e assim permaneceu até a morte, deão da colegiada de São Pedro, em Lovaina, e, por conseguinte, vice-chanceler da universidade. Por fim, em 1610, o príncipe-bispo de Liège, Fernando da Baviera, confiou-lhe a direção do colégio ou « Seminário liegense ». Como se pode adivinhar por essa nomenclatura, sua atividade devia ultrapassar, e de fato ultrapassou muito, o seu papel de professor.

Morreu em 28 de outubro de 1653, data logo consignada pelos contemporâneos neste cronograma: Sol Academise obiit. Foi sepultado no coro da igreja de São Pedro, onde ainda há pouco se lia um epitáfio que recordava seus méritos científicos. Quisera testemunhar, até para além do túmulo, seu interesse pela ciência e especialmente pelos jovens estudantes pouco afortunados, legando uma bolsa de estudos de seis mil florins ao « Grande colégio dos teólogos » e duas outras ao Colégio do papa Adriano VI.

Libert Froidmont é conhecido sobretudo como teólogo e como exegeta; mas seus talentos, tanto quanto seu saber e seus gostos, eram muito diversos. Valeram-lhe, em vida, uma reputação precoce. Escrevia e falava o latim com uma facilidade e uma elegância pouco comuns e deixou comentários muito estimados sobre várias obras de Sêneca. Possuía o conhecimento do grego e do hebraico a ponto de tirar daí excelente proveito para seus trabalhos de exegese. E, o que talvez cause maior espanto, havia nele um matemático e um físico que souberam fazer-se apreciar por Descartes; este não somente prestou grande atenção às objeções de Froidmont contra certas proposições do Discurso do método, da Dióptrica e dos Meteoros, mas, ao responder-lhes ponto por ponto, teve de render homenagem à perfeita competência de seu crítico. É ao explicar-se a esse respeito, numa carta ao professor de medicina Plempius, que dizia: Mihi sane videor ex tanti viri quibus et in iis maleriis de ago tant versati judicio, multorum aliorum sententias cognoseere.

Contudo, em astronomia, Froidmont permanecia partidário decidido do sistema de Ptolomeu. Mostrou-o bem quando, em 1631 e 1632, iniciou uma polêmica contra Filipe Laensbergh, médico zelandês, e seu filho, Jacques Laensbergh, ambos defensores da teoria copernicana. Mais justificada e mais feliz foi a campanha da qual participou, como terceiro, contra quatro pregadores calvinistas que, recentemente instalados em Bois-le-Duc, no Brabante setentrional, pelos Estados Gerais da Holanda, haviam lançado uma provocação a um debate público. Tendo Cornélio Jansênio, que, de comum acordo com Guilherme van Engelen (ver este nome), aceitara o desafio, se visto impedido, em certo momento, de comparecer ao encontro, Froidmont, que aceitou ser seu suplente, mostrou-se digno de tal escolha. Temos um indício da amizade e da comunidade de ideias que uniam esses dois homens. Há outro, e mais conhecido.

À morte do bispo de Ypres, Froidmont foi encarregado, ao mesmo tempo que Lamuus (Reginald Lainn), secretário do defunto, e Calenus (Caelen), arquidiácono de Malines, da publicação do Augustinus. Conseguiu, com efeito, com eles, fazê-lo aparecer em 1640, depois de ele mesmo ter revisto e corrigido todas as folhas. Para chegar a isso, mantivera-se em segredo o trabalho de impressão, e não somente se prescindira da aprovação de Roma, como fora preciso enganar a vigilância e frustrar todos os esforços do internúncio 927 FROIDMONT Stravius.

Assim, os três editores haviam trazido à sua comum tarefa um zelo bastante pouco em harmonia com as intenções e as protestações de Jansênio. Este, prestes a morrer, ao recomendar que se imprimisse sua obra o mais fielmente possível e ao dizer-se « persuadido de que dificilmente se poderia mudar nela alguma coisa », não acrescentara: « Contudo, se a Santa Sé quiser algum mudança, sou de obediência, e pretendo conformar-me às vontades desta Igreja na qual sempre vivi; esta é a minha suprema vontade. » Repetira ainda, em seu Epílogo final, l. X, Epilogus omnium: « Tudo o que afirmei,... submeto-o ao juízo e à decisão da Sé Apostólica e da Igreja Romana, minha mãe, para aderir a isso doravante, se ela julgar que se deve aderir, para retratá-lo, se ela o quiser, para condená-lo e anatematizá-lo, se ela pronunciar que se deve condená-lo e anatematizá-lo. » Não obstante, é por erro que se acusaram os amigos de Jansênio de terem suprimido intencionalmente a primeira dessas declarações; ela figura, e bem, no verso da primeira folha da edição original.

Mas Froidmont não se limitou ao fato da publicação irregular e mais ou menos sub-reptícia que assinalamos; empenhou-se, durante vários anos, dedicou-se, com ardor e uma constância dignos de melhor causa, a defender a doutrina do livro, em desprezo dos verdadeiros princípios tradicionais, em desprezo dos ensinamentos e das censuras da Santa Sé, em desprezo mesmo dos exemplos de sábia reserva que lhe deixara o autor, talvez mais iludido que culpado, do Augustinus e do jansenismo. Dos volumes ou panfletos que sua pena fecunda e fácil gerou com esse fim, a maior parte apareceu anônima ou sob pseudônimo, traindo assim, de saída, intenções pelo menos equívocas ou pouco seguras de si mesmas. Numerosas são as obras ou opúsculos que nos restam de Froidmont. Todos foram escritos em latim. Eis os principais, reduzidos tanto quanto possível a algumas categorias distintas, segundo os diferentes domínios abordados sucessivamente por esse laborioso e eloquente polígrafo.

Ao período de seus começos e de sua atividade sobretudo científica, no sentido restrito dessa palavra, pertencem: 1° Ccenœ sulumalitiie Somno : varialœ sive Peregrinafione cœlesti, in-8°, Lovaina, 1610, dissertações variadas, do gênero que então se chamava Quœslioncs quodlibeticœ e que nós denominamos Miscelâneas; 2° Dissertatio de cometa anni 1018, in-8°, Antuérpia, 1619, relato de observações pessoais sobre esse fenômeno; 3° Meleorologicorum libri VI, in-8°, Antuérpia, 1627; 4° Labyrinthus sive de compositione continui, in-4°, Antuérpia, 1631; 5° Commentarii in libros Quseslionum natwalium Senecse Justo Lipsio intactos et in 'Atco-/.oàox'jv-i.><7iv sive Ludum Claudii Csesaris codeur Scneca auclore, in-fol., Antuérpia, 1632. O adversário de Copérnico entra em cena em 6° Ant-Arisiarchus sive Orbis terrœ iminobilis, adversus Philippum Lunsbergium, in-4°, Antuérpia, 1632; replica em 7° Ycsla sive Ant- Aristarchi vindex, adversus Jacobum Lansbergium, in-4°, Antuérpia, 1634.

Ao campeão da fé católica contra os empreendimentos da Reforma devemos: 8° Causas desperatse crisis adversus Spongiam Gisberti Vaetii Cornelii Jansenii, in-4°, Lovaina, 1636; 9° Sycophunla, cpislola adGisb. Voelium, in-4°, Lovaina, 1640. Gisberto Voet era o mais agitado desses quatro pregadores holandeses que trabalhavam, com o apoio do governo, para calvinizar a cidade de Bois-le-Duc. Jansênio publicara contra ele, em 1630, seu Alcxij>harmacum civibus Sylvseducensibus propinatum, depois, no ano seguinte, como réplica às críticas de Voet, outro tratado, intitulado Spongia nolarum quibus Alcxi- pharmacum aspcrgil G. Voclius. É essa Spongia que é lembrada num dos títulos de Froidmont.

Podemos atribuir especialmente ao literato ou latinista, além dos Comentários sobre Sêneca, as três orações fúnebres seguintes: 10° Alberti PU, Belgarum principis, laudalio funebris, in-8°, Lovaina, 1621; 11° Laudalio funebris Joannis Drusii, monasterii Parcensis, ordinis prœmonstraiensis, abbatis, in-8°, Lovaina, 1635; 12° Laudalio funebris Joannis Francisci a Balneo, S. R. E. cardinalis, Academiee Lovanicnsis prolectoris, in-4°, Lovaina, 1641.

Mas os estudos escriturísticos do autor, impressos em sua maioria somente depois de sua morte, merecem menção especial. Compreendem: 13° In Acla apostolorum eommentarius, in-4°, Lovaina, 1634, ao juízo de Calmet, muitas vezes excelente, e reeditado; 14° Commcntarius in omnes epistolas Pauli apostuli et seplem catholicas, in-fol., Lovaina, 1663; Froidmont mostra-se nele mais teólogo que exegeta, e sua obra é sobretudo um resumo dos longos e eruditos comentários de Estio; 15° Commenlarius in Canticum canticorum, in-4°, Lovaina, 1652; sente-se nele a influência das ideias jansenistas; é preciso dizer o mesmo do 16° Commenlarius in Apocalypsim, Lovaina, in-4°, 1657. Todos esses comentários foram reimpressos juntos e em formato in-fol., Lovaina, 1663; Paris, 1670; Rouen, 1709.

Assinalemos ainda aqui um tratado psicológico, apreciado na época em que apareceu: 17° Philosophise christianœ de anima libri IV, in-4°, Lovaina, 1649, e 18° um Calechismus in usum philosophorum facullalis artium scriplus, in-16°, Lovaina, 1633, que foi, no começo do século XVIII, retocado e melhorado por outro professor de Lovaina, Pedro Danes.

Depois do aparecimento do Auguslinus e em presença das reclamações que ele suscitou, a atenção de Froidmont e sua atividade de polemista voltaram-se principalmente para esse lado. Entre os estudos que consagrou à doutrina do bispo de Hipona, considerada em seu conjunto ou numa ou noutra de suas partes, eis primeiro: 19° Brevis analomia hominis, in-4°, Lovaina, 1641. É uma análise humana da natureza segundo a ideia que dela teria feito santo Agostinho, tendo em vista especialmente nossa decadência original e suas repercussões sobre nosso livre-arbítrio. Foi proscrita por decreto de Inocêncio X, datado de 25 de abril de 1654.

A mesma sorte estava reservada a todos os escritos semelhantes que vão doravante suceder-se em cerrada, longa, longa demais série, da qual quase todas as unidades, em razão de uma prudência pelo menos muito humana e suspeita, se apresentarão sob a salvaguarda do anonimato ou da pseudonímia.

Para melhor apreender o seu caráter, convém notar que, em 1º de agosto de 1641, o Santo Ofício havia condenado o Augustinus e proibido a sua leitura, e que logo depois Urbano VIII renovou a proibição e a condenação por sua bula In eminenti (1642). Em junho de 1641, ainda se combatia de rosto descoberto. Temos a prova disso no nº 20, Epistola Liberti Fromondi et Henrici Caleni ad Patres Societatis Jesu Lovanii, que é datada do dia 16 desse mês. É, ao mesmo tempo, uma queixa amarga contra os detratores e « caluniadores de Jansênio » e um desafio para justificar, numa discussão oral diante de árbitros a serem escolhidos de comum acordo, a realidade dos erros que lhe foram imputados. Vemos já despontar aí a famosa distinção entre a questão de direito e a questão de fato. Depois disso, encontramos sucessivamente: 21º Augustini Hipponensis et Iprensis de salvare volente homologia, in-4º, Lovaina, 1641, na qual se defende a tese restritiva, ao mesmo tempo, da liberdade humana, simples libertação da coação exterior, e da vontade eficaz em Deus de salvar os homens; 22º Conventus Africanus, sive Disceptatio judicialis apud tribunal præsulis Augustini, narratore Artemidoro Oneirocritico, in-4º, Rouen, 1641. Trata-se de uma discussão sobre o mesmo assunto e no mesmo sentido, mas em forma de arrazoado.

Aliás, é justo acrescentar que a identificação de « Artemidoro, o Oniromante » com Froidmont não é certa; vários veem nele um jurista, Pedro Stockmans, que então ensinava direito em Lovaina. 23º Somnium Hipponense, sive De controversiis theologicis modernis Augustini judicium, relatore Philetymo, in-4º, Paris, 1641; 24º Querimonia Jacobi Zegers, typographi Lovaniensis, adversus libellum tertiæ capellæ Bruxellensis concionatoris, in-4º, Lovaina, 1641. Aqui, é o impressor do Augustinus que é suposto tomar a pena: expõe longamente as suas queixas sobre o prejuízo que lhe é causado e, para apoiá-las, pretende estabelecer o perfeito acordo doutrinal do livro saído de suas prensas com o grande bispo cujo nome esse livro tomou. O adversário visado no título é o Padre Pedro de Bivero, jesuíta espanhol, residente então em Bruxelas, como pregador dos infantes Alberto e Isabel e do cardeal infante Fernando.

25º Chrysippus, seu De libero arbitrio, ad philosophos peripateticos, in-4º, Lovaina, 1644; 26º Collatio Antverpiensis ad clarissimum virum Petrum Aurelium, in-4º, Paris, 1647. Antuérpia havia efetivamente ouvido, em 3 de abril de 1646, uma Conferência feita por um jesuíta contra os institutos; mas dessa conferência apresentam-nos, sob o título acima, apenas os artigos principais, reproduzidos, depois discutidos e combatidos um a um. É, pois, por erro que este ou aquele bibliógrafo, atribuindo a Froidmont um Novus Prosper contra novum Collatorem, do qual não descobri nenhum vestígio em outro lugar, o dá como dirigido « contra o escrito intitulado: Collatio Antverpiensis »; 27º Lucerna Augustiniana, qua breviter et dilucide declaratur concordia et discordia qua nuper eximii doctores S. th. Duacenses conveniunt cum hodiernis S. Augustini discipulis, in-4º, 1650; 28º Emunctorium s. l., Lucernæ Augustinianæ, quo quibusdam fuligines aspersæ emunguntur; 29º Colloquia S. Augustini et S. Ambrosii, em versos latinos rimados.

Enfim, dois estudos De libero arbitrio, provenientes do P. Petau e de seu confrade o P. Deschamps (sob o pseudônimo de Ricardus), deram ao nosso jansenista a ocasião de três réplicas: 30º Lenis theologi Arausicani Theriaca, adversus Dion. Petavii et Antonii Ricardi De libero arbitrio libros, in-4º, Lovaina, 1648; 31º Vincentii Lenis epistola prodroma gemella ad Petavium et Ricardum, in-4º, Lovaina, 1649; 32º Antonii Ricardi stratagema, quo bellum sui suorumque defensivum ab erroribus illum transtulit in S. Augustini episcopi Iprensis et ..., Lovaina, 1650.

Ao terminar esta longa nomenclatura, não se pode deixar de lamentar vivamente que Froidmont tenha gasto tão mal conhecimentos e uma resistência que, como aliás provou, teriam sido muito utilmente empregados, seja em combater algum calvinista, seja em prosseguir os seus trabalhos sobre a Sagrada Escritura. As circunstâncias de tempo e de meio explicam em parte, sem a desculpar, esta deplorável e tenaz aberração.

Bibliografia: ... 819-821; Hurter ... 1038-1040; ... na Bibliographie nationale de Belgique, Louvain ... 1881-1888; ... xv, p. 197; ... 117-118; ... 125-126.

Autor original: J. Fonck

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