I. O problema escolar e doutrinal no início do século XIII. No século XIII ainda, como durante os séculos precedentes, somente os clérigos, isto é, os homens da Igreja, estudam e ensinam. O regime escolar depende essencialmente da administração eclesiástica, à qual cabe provê-lo, seja pela ação dos bispos, seja pela do papado. Apesar dos progressos realizados pelo século XII e da série de mestres e escritores célebres que então encontramos e cuja presença pode nos iludir quanto à situação geral do ensino, o fato da instrução insuficiente do clero e da raridade dos mestres constitui um gravíssimo problema que a Igreja procura resolver sem conseguir, nem mesmo de modo aproximado. As poucas escolas monásticas e as dos cônegos regulares, que haviam brilhado de verdade durante a primeira metade do século XII, desapareceram, ou limitaram sua preocupação aos únicos membros da ordem em condições de estudar. As escolas episcopais, que tiveram algum lustre no curso do século XII, sobretudo na França, nascem ou desaparecem conforme estejam de posse de um mestre ou o percam. O fato de uma sucessão ininterrupta, como em Chartres, é muito provavelmente excepcional. Em contrapartida, as escolas de Paris, onde predomina o ensino das artes liberais e da teologia, e as de Bolonha, onde se concentram os estudos de direito canônico e civil, veem afluir ao seu seio os estudantes e sobretudo os mestres, cuja deserção torna cada vez mais difícil o recrutamento docente das escolas episcopais. H. Denifle, Die Entstehung der Universitäten des Mittelalters bis 1400, Berlin, 1885, p. 653 (passim); G. Robert, Les écoles et l'enseignement de la théologie pendant la première moitié du xiie siècle, Paris, 1909, p. 9 sq.; L. Maître, Les écoles épiscopales et monastiques de l'Occident depuis Charlemagne jusqu'à Philippe-Auguste, Paris, 1866.
O III Concílio geral de Latrão (1179) procurou, por um decreto escolar, melhorar a situação do ensino. Apesar da moderação de suas esperanças, ele não pôde ser aplicado. O IV Concílio de mesmo nome (1215), cuja ação legislativa foi capital para o fim da Idade Média, limitou-se a impor ao episcopado um mestre de gramática por bispado e um mestre de teologia por arcebispado. Mansi, Concil., t. xxii, col. 227, 999.
Honório III e seus sucessores intervieram, seja diretamente, seja por intermédio de seus legados, para urgir a aplicação do decreto de Latrão, mas quase universalmente sem sucesso. O problema escolar continuava sem solução por meio do episcopado. Inocêncio III e seu sucessor buscaram uma compensação organizando solidamente as escolas de Paris, que se concentravam cada vez mais em um corpo universitário, e assumindo-lhes a alta direção. Honório III proibiu ali, em 1219, o ensino das leis civis para fortalecer o ensino eclesiástico. A Igreja romana dava-se conta, dia após dia, de que devia contar apenas consigo mesma para superar a crise escolar e resolvê-la. Denifle-Chatelain, Chartularium universitatis parisiensis, Paris, t. i (1889), p. 90; M. Fournier, L'Église et le droit romain au xiiie siècle, Paris, 1890, p. 21 sq.
A situação era, com efeito, perigosa. O movimento de emancipação das comunas, com a classe inquieta dos burgueses, acentua o desprezo pelo clero e a oposição já existentes; o pietismo laico subtrai-se à ação da Igreja e procede ele mesmo à sua própria pastoração; os cátaros e os albigenses exercem por toda parte, mas sobretudo no sul da França e no norte da Itália, uma propaganda intensa e abrem à luz do dia suas escolas sem que ninguém lhes resista. O problema doutrinal, menos urgente de início que o problema escolar, achava-se finalmente encerrado em um beco sem saída perigoso.
O campo do pensamento filosófico e teológico no começo do século XIII é semelhante ao regime feudal contemporâneo. É a fragmentação sem unidade e sem força. Falta-lhe uma filosofia sólida e ordenada, sobretudo uma metafísica. Aristóteles, cujos grandes tratados filosóficos entram então no mundo latino acompanhados das obras de Avicena e de Averróis, vai fornecer ao mundo intelectual de então riquezas incomparáveis e os elementos de solução para a constituição de uma filosofia cristã e o acabamento da teologia católica. Mas Aristóteles está em oposição ao dogma cristão em pontos essenciais, e o perigo que seu contato faz correr à doutrina da Igreja é mais visível e mais imediato do que os proveitos eventuais que ele pode fornecer.
A autoridade eclesiástica vai ao mais urgente. O concílio provincial da província de Sens, realizado em Paris, em 1210, proíbe ensinar os novos tratados de Aristóteles nas escolas de Paris, isto é, no maior e quase único centro intelectual da Europa. Em 1215, o legado pontifício, Roberto de Courçon, renova, precisando-a, a proibição do concílio, até que Gregório IX encare, em 1231, a possibilidade de uma correção das obras do Estagirita, projeto que aliás ficará sem desfecho. O Oriente, que repelia a conquista latina, vinha travar, no seio mesmo da cristandade, batalhas intelectuais tão perigosas quanto as do crescente contra a cruz. Mandonnet, Siger de Brabant et l'averroïsme latin au xiiie siècle, Louvain, 1908-1911, t. i, p. 13 sq.; La crise scolaire au début du xiiie siècle et la fondation de l'ordre des frères prêcheurs, na Revue d'histoire ecclésiastique, 1913.
II. A fundação dos frades pregadores e o problema escolar e doutrinal. O problema escolar e doutrinal era apenas uma parte do problema geral que então se colocava para a Igreja. As necessidades de uma nova pastoral dos fiéis e a interrupção do progresso das heresias cátara e valdense estavam em primeiro plano. A Igreja romana procurou providenciar por todos os meios às necessidades da cristandade. Foi assim que encorajou as personalidades eclesiásticas zelosas que encontrava em diversas regiões; que utilizou para os seus fins as antigas ordens religiosas, especialmente os cistercienses; que fundou mesmo de todo o zero, com valdenses convertidos, duas novas ordens religiosas votadas ao apostolado: os humilhados no norte da Itália (1201) e os pobres católicos (1208) no sul da França, isto é, nas duas regiões mais trabalhadas pela heresia. Essas tentativas foram, aliás, insuficientes em seus resultados. L. Zanoni, Gli umiliati nei loro rapporti con l'eresia, etc., Milão, 1911; J. B. Pierron, Die katholischen Armen, Friburgo-em-Brisgóvia, 1911.
Foi com são Domingos que a Igreja romana iria realizar integralmente o seu programa de reformas. No curso de uma missão diplomática, cumprida com o seu bispo, Diogo de Acebes, Domingos, subprior do capítulo de cônegos regulares de Osma, foi sucessivamente posto em contato com a heresia no Languedoc (1203) e com a cúria romana (1204). Sob a presidência de Diogo, Domingos empreendeu a evangelização do sul da França (1205-1206). Tendo o bispo voltado à sua diocese, Domingos permaneceu sozinho com seus companheiros, e Inocêncio III estabeleceu em seu favor, e pela primeira vez na Idade Média (17 de novembro de 1206), o regime dos pregadores católicos. Constituiu assim, em sua forma primitiva, a ordem dos pregadores. Potthast, Reg. pont. rom., n. 2912.
Em 22 de dezembro de 1216, Honório III dava à nova fundação a sua confirmação solene, acrescentando à vida canonical da ordem a missão apostólica e doutrinal: Nos attendentes fratres ordinis tui futuros pugiles fidei et vera mundi lumina, confirmamus ordinem tuum. Potthast, n. 5402, 5403.
Domingos organiza imediatamente e desenvolve a sua obra sobre a base da pregação e do ensino. Desde o estabelecimento, as constituições da ordem estabelecem a obrigação do estudo intensivo como fundamental: Qualiter intenti debeant esse in studio, ut de die, de nocte, in domo, in itinere legant aliquid vel meditentur, et quidquid potentat retinere cordetenus, nitantur. Prima Const., I, c. xiii.
Os pregadores tornavam-se assim a primeira ordem, na Idade Média, que colocara o estudo na base de sua constituição. Em 17 de agosto de 1217, são Domingos dispersa seus primeiros companheiros, que tomam sucessivamente posse de todas as cidades da Europa, em particular dos dois centros universitários, Paris e Bolonha, onde fundaram entre os mestres das escolas.
A fundação conventual dominicana é essencialmente uma escola. É proibido estabelecer um convento sem um doutor que ensine aos religiosos e aos clérigos seculares que ali têm acesso. Assim como a Igreja romana resolve, por intermédio dos pregadores, o problema escolar que os concílios de Latrão não puderam solucionar, é o episcopado que ouvimos dizer, nos considerandos que faz, em 1221, para acolher os pregadores em... Cohabitatio ipsorum, non tantum laicis, sed etiam clericis, sanctis lectionibus... profutura, exemple domini papae domum contulit, in multorum archiepiscoporum... O papa constituiu como um vasto... para definir a vocação dos pregadores: docere et... était ex ordine praedicatorum, quorum proprium docendi munus esset. Mandonnet, Preachers (Order of), em The catholic encyclopedia, Nova York, 1911, t. xii, p. 354-370; Balme-Lelaidier, Cartulaire ou histoire diplomatique de saint Dominique, Paris, 1893; J. Guiraud, Cartulaire de Notre-Dame de Prouille, Paris, 1907; do mesmo, Saint Dominique, Paris, 1899; A. Mortier, Histoire des maîtres généraux de l'ordre des frères prêcheurs, Paris, 1903, t. i; H. Denifle, Die Constitutionen des Prediger-Ordens, em Archiv für Literatur- und Kirchengeschichte, p. 165; P. Mandonnet, 1. 1. Les chanoines prêcheurs de Bologne d'après Jacques de Vitry, nos Archives de la Société d'histoire du canton de Fribourg, t. viii, p. 15. —
III. Organização escolar da ordem. Sem entrar na história das escolas dominicanas, devemos contudo assinalar a sua organização, não só porque, sendo as primeiras estabelecidas e as mais bem ordenadas, serviram, em muitas coisas, de modelo às outras escolas eclesiásticas da Idade Média, mas sobretudo porque foi pela extensão e pelo valor de sua ação que a ordem propagou suas doutrinas e conduziu rapidamente a uma espécie de hegemonia a escola doutrinal fundada por são Tomás de Aquino.
No sistema escolar dos pregadores, a escola conventual está na base do ensino. Todo convento a comporta necessariamente, como já dissemos; de modo que constatar o estabelecimento ou a existência de um convento dominicano numa cidade é equivalentemente constatar aí a existência de uma escola. Seu objeto é exclusivamente o estudo da Escritura e da teologia. Ela é obrigatória para todos os religiosos do convento e aberta aos clérigos seculares. Ordinariamente não comporta senão um mestre, mas sozinho com alguns auxiliares, o mestre dos estudantes e um ou vários repetidores. Nos grandes conventos, cuja escola toma o nome de studium solemne, o pessoal docente é mais desenvolvido. O mestre é secundado por um ou dois bacharéis que interpretam a Bíblia e as Sentenças de Pedro Lombardo, e o mestre acrescenta às suas lições sobre a Escritura disputas públicas. Essa escola se aproxima, ou mesmo se identifica, por sua organização material, ao studium generale, mas não tem nem o título nem os privilégios deste.
O studium generale, que se encontra nos maiores centros, comporta um mestre e dois bacharéis. Os mestres dessas escolas representam ordinariamente a elite intelectual da ordem; os estudantes são para lá enviados, em número determinado, de todas as províncias. O studium generale do convento de Paris, de São Tiago, permaneceu, em razão de sua incorporação à universidade (1229), o mais importante e o mais célebre da ordem durante a Idade Média. Possuiu duas escolas a partir de 1231. O desenvolvimento da ordem e a necessidade de um numeroso pessoal escolar fizeram erigir, em 1248, quatro novos studia generalia, estabelecidos em Oxford, Colônia, Montpellier e Bolonha. No fim do século e no começo do seguinte, a maior parte das dezoito províncias possuíram um em seu território.
No início do século XIII, nem os sacerdotes, nem os religiosos podiam estudar e ensinar as ciências profanas e as artes liberais. Somente os simples clérigos podiam tomar parte nesses estudos e nesse ensino. Os pregadores, muitos dos quais não haviam frequentado os estudos filosóficos, não podiam sem eles dedicar-se ao estudo e ao ensino das ciências sagradas com verdadeiro proveito. Romperam com usos que hoje nos podem parecer extraordinários, mas que então nem por isso deixavam de ter força de lei, e introduziram na ordem os estudos filosóficos, mas procedendo prudentemente. Somente os religiosos da ordem foram admitidos a essas lições durante o século XIII. Começou-se, primeiramente, por fazer uma escolha de religiosos para esses estudos, que foram de certo modo um ensino privado.
Mas a partir de meados do século estabeleceram-se nas províncias verdadeiras escolas de artes: lógica, ciências naturais, morais e políticas. Os pregadores deveram a essa iniciativa uma cultura filosófica predominante entre os homens de seu século, e forneceram os mais ilustres filósofos de então, Alberto Magno e Tomás de Aquino. É por isso também que, desde a origem, mesmo suas obras teológicas trazem uma marca filosófica extremamente acentuada. Mas essa resolução não se fez sem denigrações, nem sem mau humor da parte de muitos homens da Igreja, atrasados em ideias e práticas escolares ultrapassadas.
Por necessidades de apostolado e também por razões de estudo, os pregadores estabeleceram em sua ordem escolas de orientalismo. O capítulo generalíssimo de 1236 havia dado um primeiro e forte impulso ordenando que, em todos os conventos e todas as províncias da ordem, se aprendessem as línguas dos povos vizinhos. Assim é que as províncias da Grécia, da Terra Santa e da Espanha se dedicaram particularmente aos estudos do grego, do árabe, do hebraico e das línguas asiáticas. Um escritor protestante, C. Mortier, pôde resumir nestas poucas palavras a atividade dos pregadores em seus studia linguarum: « Não se contentam em ver professado em seus conventos o conjunto já suficientemente complexo de todas as divisões da ciência, tal como então se entendia. Acrescentam-lhe uma ordem inteira de estudos, que nenhuma escola cristã, exceto as deles, parece ter possuído naquele tempo, e em que não têm verdadeiramente por rivais senão os rabinos do Languedoc e da Espanha. » Guillem Bernard de Gaillac et l'enseignement chez les dominicains, Paris, 1884, p. 30.
Mas a ação escolar dos frades pregadores ultrapassa ainda os limites já traçados. Estende-se particularmente às universidades que se estabelecem sucessivamente em toda a Europa, desde os começos do século XIII. Os pregadores tomam parte preponderante na vida das grandes escolas, e A. Luchaire pôde qualificá-los com razão de « clero universitário ». L'université de Paris sous Philippe-Auguste, Paris, 1899, p. 53.
As universidades que, como Paris, Toulouse, Oxford etc., possuem uma faculdade de teologia desde a origem, incorporam a escola conventual dominicana, que é organizada segundo o tipo das escolas dos studia generalia. Quando as universidades se estabelecem numa cidade, e é o caso mais comum, depois da fundação de um convento de frades pregadores, que possui sempre, por ofício, uma escola de teologia, as cartas pontifícias concedidas para o estabelecimento da universidade não concedem faculdade de teologia. Esta é considerada como já existente em razão da escola dominicana e das outras escolas de religiosos mendicantes que seguiram, pouco a pouco, o exemplo dos pregadores.
Durante um tempo mais ou menos longo, as escolas dos pregadores ficam simplesmente justapostas a essas universidades, que não têm faculdade de teologia, e são juridicamente independentes delas. Quando esses grandes estabelecimentos pedem à Santa Sé uma faculdade de teologia e a petição é concedida, essas universidades incorporam de ordinário a escola dominicana, que se torna um membro da faculdade de teologia. Essa transformação começa no curso do século XIV e dura até os primeiros anos do século XVI. Uma vez estabelecido, esse estado de coisas subsiste até a Reforma protestante nos países que a sofreram, e até a Revolução Francesa e à sua propagação ulterior entre as nações latinas.
Mais ainda, os arcebispos que, segundo o decreto do IV Concílio de Latrão (1215), deviam estabelecer em sua igreja metropolitana um mestre em teologia para a instrução de seu clero, consideram-se universalmente dispensados dessa obrigação, em virtude da criação, em sua cidade arquiepiscopal, de uma escola de frades pregadores, aberta aos clérigos seculares. Quando os arcebispos julgaram, contudo, dever executar o decreto do concílio, ou quando foram a isso constrangidos pelos soberanos pontífices, recorreram frequentemente aos serviços de um frade pregador para ocupar a cátedra de sua igreja metropolitana. Assim é, por exemplo, que a escola catedral do arcebispo de Lyon foi constantemente confiada aos pregadores, desde os primeiros tempos de seu estabelecimento nessa cidade até o início do século XVI. J.-M.-H. Forest, L'école cathédrale de Lyon, Paris, Lyon, 1885, p. 238, 368; J. Beyssac, Les prieurs de Notre-Dame de Confort, Lyon, 1909.
O fato, embora menos contínuo, é contudo muito frequente em outros lugares, em Toulouse, Bordeaux, Tortosa, Valência, Urgel, Milão etc. Os papas, que podiam julgar-se moralmente obrigados a dar o exemplo quanto ao decreto escolar do concílio de Latrão, contentaram-se, de ordinário, durante o século XIII, com as escolas estabelecidas em Roma pelos pregadores e por outros religiosos vindos depois deles. Seguiram nisso a prática da maioria dos arcebispos. Os mestres dominicanos que ensinavam em Roma, ou nas outras cidades dos Estados da Igreja, para onde se transportavam frequentemente os soberanos pontífices, tomavam o nome de lente da cúria, lector curiae.
Contudo, quando os papas se estabeleceram em Avinhão e começaram a exigir dos arcebispos a execução do decreto de Latrão, instituíram eles próprios, em seu palácio, uma escola de teologia. Essa iniciativa se deve a Clemente V (1305-1314). A pedido do cardeal dominicano Nicolau Alberti de Prato, essa função foi confiada, desde a origem, a perpetuidade a um frade pregador, que passou desde então a levar o nome de magister sacri palatii. O primeiro titular foi Pedro Godin, que se tornou mais tarde (1312) cardeal. O ofício de mestre do sacro palácio, cujas atribuições foram sucessivamente ampliadas, permaneceu até hoje privilégio da ordem dos frades pregadores. J. Catalani, De magistro sacri palatii, Roma, 1751 (totalmente insuficiente para a questão das origens).
Enfim, quando, por volta de meados do século XIII, as antigas ordens monásticas começaram a entrar no movimento escolar do tempo, os cistercienses, em particular, recorreram por vezes aos pregadores para ter mestres em teologia em suas abadias. Durante os últimos séculos da Idade Média, os dominicanos forneceram, por intervalos, professores a diferentes ordens religiosas que não eram elas próprias dedicadas aos estudos. Denifle, Quellen zur Gelehrtengeschichte des Predigerordens im 13 und 14 Jahrhundert, dans Archiv für Literatur- und Kirchengeschichte, t. il, p. 165; Douais, Essai sur l'organisation des études dans l'ordre des frères prêcheurs, Paris, 1884; Mandonnet, De l'incorporation des dominicains dans l'ancienne université de Paris, dans la Revue thomiste, t. iv (1896), p. 139; Denifle, Die Universitäten des Mittelalters, Berlin, 1885; Denifle-Chatelain, Chartularium universitatis parisiensis, Paris, 1889 sq.; E. Bernard, Les dominicains dans l'université de Paris, Paris, 1883; Mandonnet, Siger de Brabant, Louvain, 1911, t. i, p. 30-95; The catholic encyclopedia, t. xii, p. 360; La crise scolaire, loc. cit. A legislação dos pregadores sobre os estudos encontra-se dispersa em suas constituições, sobretudo nos Acta capitulorum generalium, Roma, 1898, e em Douais, Acta capitulorum provincialium, Toulouse, 1894. —
IV. A escola dominicana agostiniana. A primeira geração de mestres dominicanos que ensinou nos centros escolares mais importantes estabelecidos pela ordem tinha sido recrutada entre os professores seculares das universidades, em Paris, Bolonha, Oxford etc. Alguns deles nem sequer haviam deixado sua cátedra de teologia ao tomar o hábito dos pregadores e continuaram seu ensino, como Roberto Bacon em Oxford e João de Saint-Gilles em Paris. Sua formação científica, assim como suas ideias doutrinais, eram as dos meios escolares em que se haviam formado. Não traziam, portanto, à ordem nascente dos pregadores nenhuma doutrina nova, a não ser o fundo comum da teologia do tempo, que se convencionou chamar de agostinismo. Esses mestres podiam fazer valer diversamente esse capital tradicional, segundo sua habilidade e seu talento pessoais; isso não chegava, contudo, a criar uma orientação doutrinal nova.
Todavia, um mestre dominicano parisiense, Estêvão de Vannosia de Auxerre, avançou o bastante, ao que parece, para que algumas de suas proposições fossem censuradas pela faculdade de teologia de Paris, em 13 de janeiro de 1241. Charl. univ. paris., t. i, p. 170.
O agostinismo, tal como o professavam os séculos XII e XIII, era incontestavelmente o produto do pensamento do grande bispo de Hipona, cujo gênio dominava, e como!, a era patrística. Esse largo rio havia atravessado os séculos bárbaros e feudais e irrigado seu solo pobre e inculto. Os últimos séculos haviam oferecido às suas águas margens mais vastas e mais ricas para fecundar. Os teólogos dos séculos XII e XIII viviam incontestavelmente da substância de Agostinho; contudo, começavam, cada qual à sua maneira, a elaborar, em seus detalhes, a doutrina do mestre; de tal modo que o agostinismo do começo do século XIII já não é, havia um século, uma simples assimilação das doutrinas de santo Agostinho. Um trabalho de determinação e de adaptação se opera sob a ação do progresso intelectual e o acesso de novas influências filosóficas. O agostinismo não é, pois, adequado ao puro pensamento de santo Agostinho. Procura ultrapassá-lo e o deforma. Sem guia seguro, em seu esforço por adaptá-lo, torna-se caótico.
O próprio santo Agostinho havia, de certo modo, fornecido o ponto de partida para esse estado de coisas. Muito firme em suas concepções teológicas, seu pensamento filosófico é mais matizado e mais fugidio. Deve-o ao estado filosófico da época, em que domina o neoplatonismo incerto. Apesar de seu impulso rumo aos cumes, os platônicos não haviam criado uma metafísica estável, apta a dar unidade ao saber humano. Estavam antes de tudo enamorados do impulso da alma para Deus e das visões da inteligência, mais do que de um trabalho paciente e disciplinado da inteligência. Santo Agostinho, pressentindo as riquezas filosóficas postas ao seu alcance, nem sempre as utilizou com suficiente tato e medida, chegando por vezes a conclusões extremas, assim como os alexandrinos tentavam unificar a multiplicidade de suas noções num pensamento sintético. Mas seu espírito, jovem e ainda inexperiente, não podia contentar-se com visões luminosas, mas muitas vezes fugidias, sem a disciplina da lógica que lhe teria dado mais firmeza e precisão. Daí, na elaboração do pensamento agostiniano, consequências que sem dúvida o próprio bispo de Hipona teria recusado.
O resultado foi o aparecimento de uma multidão de opiniões secundárias, que vão se multiplicando até em pleno século XIII e mesmo muito mais tarde, entre os teólogos que se mantêm mais ou menos no terreno do agostinismo filosófico. Assim, não é raro ouvir os contemporâneos desse movimento queixarem-se da crescente multiplicidade das opiniões em cada ponto de doutrina. É que assim o agostinismo do século XIII apresenta, sobre uma grande uniformidade de fundo, uma floração caótica de detalhes, até que o próprio fundo se desagregue notavelmente sob a ação contínua de Aristóteles. Procuramos alhures definir a natureza do agostinismo filosófico e enumerar as teses essenciais que o constituem. Encontrar-se-á, além disso, neste mesmo Dicionário, uma exposição, na palavra Agostinismo, que nos dispensa de voltar a essa matéria.
É à orientação agostiniana que pertence a primeira geração dos mestres dominicanos. Seus representantes são bastante numerosos e sua obra doutrinal bastante extensa para que se devam considerá-los como constituindo uma escola dominicana agostiniana. Apesar da importância dos escritos surgidos de sua atividade científica, esse grupo de mestres eminentes é pouco conhecido. A fundação da escola albertino-tomista os eclipsou, e a ordem dos pregadores, preocupada antes de tudo em promover a obra doutrinal de santo Tomás, nada fez para salvá-los do esquecimento. Os escritos dos agostinianos dominicanos, vários dos quais de grande envergadura, não tiveram de ordinário as honras da impressão. Daí a dificuldade de estudá-los e de lhes dar o lugar que merecem na história da teologia. Seria curioso saber se os agostinianos dominicanos se aproximam entre si em certo número de pontos doutrinais, de modo a formar uma escola, não somente pelo laço comum de sua profissão religiosa, mas ainda por um começo de unidade doutrinal.
De todo modo, um traço comum os liga entre si e à escola albertino-tomista: é o lugar preponderante que concedem à filosofia no decorrer de seu ensino e de suas exposições teológicas. As obras teológicas dos dominicanos agostinianos assumem de ordinário a forma de questões ou de comentários sobre o Mestre das Sentenças, pois os usos escolares impunham esse método de ensino e de exposição. Paris e Oxford são os centros principais, mas não únicos, de sua atividade. Rolando de Cremona, o primeiro mestre que os pregadores possuíram na universidade de Paris (1229-1230), depois em Toulouse (1230-1233), deixou-nos importantes Quaestiones super IV libros Sententiarum (Paris, Mazarine, 439). Bernardo Gui as chama uma suma, que seu autor temperou com o sal da filosofia, porque, já no século, fora um grande filósofo (f 1259).
Hugo de Saint-Cher (f 1263), que viria a tornar-se cardeal e a desempenhar um papel importante nos assuntos eclesiásticos, foi mestre na universidade de Paris durante vários anos, a partir de 1230. Compôs então um comentário sobre as Sentenças, extenso e que permaneceu inédito (Bruxelas, 1122-33; Basileia, B. II. 20; Leipzig, Universidade, 678; Veneza, Marciana, lat. cl. iii). Tiago de Metz, que era prior de Mandres em 1251, mas não ensinou em Paris, escreveu Questões sobre os livros das Sentenças. Possuímos as questões relativas aos dois primeiros livros (Munique, Clm, 3719). Pedro de Tarentaise, o futuro Inocêncio V (y 1275), deixou-nos, de seu ensino como bacharel (1256-1258), em Paris, comentários sobre as Sentenças. Mais feliz que muitos de seus contemporâneos, sua obra teve as honras da impressão, 4 in-fol., Toulouse, 1649.
Moneta de Cremona, com sua Suma contra os cátaros e os valdenses (Roma, 1730), em curso de composição em 1241, ergueu o mais importante monumento de heresiologia do século XIII. Ela é também de grande riqueza doutrinal. Hugo Ripelin de Estrasburgo (f 1268) compôs um Compendium veritatis theologicae, que é uma pequena obra-prima do gênero e foi o manual mais difundido do fim da Idade Média. Embora o autor afaste de propósito deliberado tudo o que é objeto de controvérsia, ele se liga à orientação agostiniana, mas sofre particularmente já a influência de Alberto Magno. A composição de sua obra situa-se por volta de 1260-1265.
Os pregadores ingleses forneceram também mestres de renome. Ensinaram em Oxford, onde as escolas da ordem estavam, desde a origem, incorporadas à universidade. O primeiro, Roberto Bacon, entrou na ordem já sendo mestre e continuou a esse título seu ensino teológico. Foi o amigo íntimo e o historiador de santo Edmundo de Cantuária. Ricardo de Fishacre, que lhe sucedeu, deixou-nos um comentário inédito sobre as Sentenças (Paris, Bibl. nat., lat., 1575, 16389; Londres, British Museum, Reg. 10 B. vii; Oxford, Balliol, 57; ibid., New Collège, 112; ibid., Oriel, 43; Viena, Palat., lat. 1514). Desses dois mestres, mortos em 1248, Mateus Paris escreveu que não tinham então seus iguais em teologia e nas outras ciências (ad an. 1248).
Roberto de Kilwardby, que lhes sucedeu em Oxford, antes de tornar-se provincial da Inglaterra (1261-1272), arcebispo de Cantuária (1272-1278) e cardeal de Porto (f 1278), é o mais célebre dominicano agostiniano do século, e talvez mereça o primeiro lugar entre todos os outros agostinianos de seu tempo. Sua cultura filosófica era muito vasta, e restaram-nos dele numerosas produções nesse domínio, em particular seu De ortu et divisione scientiarum, um dos mais notáveis tratados da Idade Média sobre essa matéria. Possuímos também dele, em vários estados, um comentário sobre as Sentenças (Avignon, 290; Chartres, 325; Oxford, Merton, 131). Quer pela forma de sua atividade literária (vários de seus escritos têm manifestamente destinação escolar), quer pelo vigor e pela decisão de suas doutrinas, Kilwardby estava qualificado para ser chefe de escola. As altas funções que ocupou em sua ordem e na Igreja da Inglaterra ajudavam além disso eficazmente.
Mas, apesar de seu valor pessoal e da extensão de sua atividade literária, o agostinismo de Kilwardby tinha a fraqueza inerente a essa orientação doutrinal. Não pôde lutar eficazmente, mesmo entre os pregadores, contra o tomismo, seu contemporâneo. Veremos, contudo, Kilwardby não depor as armas diante de seu rival e servir-se contra ele (1277), não só de seu prestígio pessoal, mas ainda da autoridade que lhe conferia sua dignidade de arcebispo de Cantuária e de primaz da Inglaterra.
O agostinismo devia ainda deixar um tênue rastro na ordem dos pregadores. Uma coletividade que encerrava tantos homens de estudo e um corpo docente enorme (contava, ao menos, mil e quinhentos professores no fim do século XIII) dificilmente poderia ser reconduzida a uma unidade doutrinal absoluta. Se algo, no entanto, pode surpreender-nos, foi a rapidez e a universalidade do triunfo do tomismo no interior mesmo da ordem. Siger de Brabant, t. i, c. ii, e passim.; Scriptores ordinis praedicatorum, t. i; Denifle-Châtelain, Chartularium universitatis parisiensis, t. i; Ehrle, Der Augustinismus und der Aristotelismus in der Scholastik gegen Ende des xiii Jahrhunderts, dans Archiv für Lit.- und Kirchengeschichte des Mittelalters, t. v (1889); Bäumker Cl., Die europäische Philosophie des Mittelalters, em Allgemeine Geschichte der Philosophie (Kultur der Gegenwart, i, 5, 1909, p. 360 sq); G. Freih. von Hertling, Wissenschaftliche Richtungen und philosophische Probleme im dreizehnten Jahrhundert, Munique, 1910. —
V. Alberto Magno e Tomás de Aquino. Foi sob a ação de Alberto Magno e de Tomás de Aquino que a ordem dos pregadores, e em seu seguimento a maior parte do mundo eclesiástico, saiu do tradicional e inconsistente agostinismo, para aderir à criação doutrinal nova desses dois mestres que dominam soberanamente o século XIII. A fundação da escola tomista deve-se incontestavelmente à ação pessoal de são Tomás de Aquino; mas o mestre abriu de tal modo o caminho ao discípulo que seus nomes e sua obra são para sempre inseparáveis.
Alberto, nascido na Suábia, em 1207, e Tomás, nascido no reino de Nápoles, em 1225, entraram muito jovens, um e outro, na ordem dos pregadores. Vieram a ela, contudo, como tantos outros, de um meio universitário: Alberto, de Pádua (1223), e Tomás, de Nápoles (1244). A inclinação natural e as aptidões de Alberto o levaram, talvez mais que a qualquer de seus contemporâneos, ao estudo das ciências racionais, naturais e sociais. Não tendo sofrido, no desenvolvimento ulterior de sua formação doutrinal, a ação dos grandes centros escolares, de Paris sobretudo, ele se libertou mais facilmente das influências agostinianas então reinantes em sua ordem e fora dela. Mas é sobretudo pela tomada de posse da ciência antiga e da ciência árabe, cujos grandes monumentos afluíam então, por suas traduções, ao mundo latino, que Alberto foi levado a abandonar o campo tão pobre e tão magro da ciência e da filosofia do século XII. É por aí também que ele foi, para seu jovem discípulo, o iniciador ao conhecimento de um mundo novo.
Foi em Paris, por volta do fim de 1245, que o jovem Tomás de Aquino se uniu a Alberto da Teutônia, como então se chamava o filho dos condes de Bollstädt tornado simples frade pregador. Tomás tinha vinte anos e seu mestre menos de quarenta. Alberto ocupava a regência de uma das duas escolas de teologia dos pregadores, e começava a conduzir, concorrentemente ao seu ensino, a composição e a publicação de sua grande enciclopédia científica. Tomás foi testemunha e um dos primeiros beneficiários dos trabalhos e das lições de Alberto. Quando este deixou Paris, nas férias de verão de 1248, para ir a Colônia e assumir a direção do studium generale que os frades pregadores acabavam de ali estabelecer, Tomás o seguiu. Permaneceu ali sob a direção de Alberto durante quatro anos, isto é, até o momento em que o discípulo voltou a Paris, em 1252, para se preparar para ser, por sua vez, mestre em teologia. Foi, portanto, durante sete anos consecutivos (1245-1252) que a ação de Alberto se exerceu sobre Tomás de Aquino.
Essa separação não rompeu, aliás, as relações doutrinais desses dois homens, que se encontraram, alguns anos mais tarde, no capítulo geral de 1259, realizado em Valenciennes, e onde trabalharam, em colaboração com outros mestres, num regulamento para os estudos em sua ordem. Mas, se já nessa hora o pensamento de Tomás de Aquino é muito autônomo, e se o jovem mestre caminha apenas pelas forças de seu gênio, nem por isso deixa de dever a Alberto Magno o ter atravessado em pouco tempo espaços que outros, mesmo com os anos, teriam sido incapazes de percorrer. Restaram-nos, além disso, vestígios materiais ainda visíveis das relações entre Tomás e Alberto. Possuímos, de mão do discípulo, uma cópia dos comentários do mestre sobre as obras de Dionísio Areopagita (Nápoles, Bibl. nation.), e temos também as Questiones fratris Alberti ordinis predicatorum quas collegit magister frater Thomas de Aquino (Vaticano, M. 722).
Existem entre Alberto Magno e Tomás de Aquino numerosos pontos de contato, mas também grandes diferenças. Antes de tudo, o gênio pessoal de um é dos mais dessemelhantes do gênio do outro. Alberto possui uma rara capacidade de trabalho e de assimilação. Absorve, por assim dizer, tudo o que foi dito e pensado antes dele no mundo antigo e no mundo árabe. Tomás tem uma informação muito vasta, mas discreta: afasta tudo o que não vai ao seu fim. É mais advertida e mais crítica que a de Alberto, e a ultrapassa mesmo em muitos pontos no conhecimento das fontes.
Alberto está um tanto perdido e afogado no meio do material literário que explora. Domina apenas imperfeitamente sua matéria. Falta-lhe precisão e decisão no pormenor, bem como espírito de síntese para unificar seu saber. Em compensação, como verdadeiro agostiniano, tem por momentos intuições admiráveis, e escreve então páginas muito pessoais e do mais alto valor. Tomás domina todo o seu saber. Dele elimina o supérfluo. Classifica o que é útil e define-lhe as partes com uma precisão que desafia qualquer paralelo. Tomás é uma potência de ordem. Seu gênio possui igualmente a precisão e a finura na análise, e a visão dominadora na coordenação e na síntese. Tomás é eminentemente construtivo, arquitetônico, para empregar uma palavra que lhe é familiar. Em suma, Alberto revelou ao seu século um mundo intelectual que lhe era desconhecido; Tomás, com os destroços do mundo antigo, criou um novo. Alberto e Tomás tiveram uma mesma ideia diretriz muito consciente: utilizar, em proveito do pensamento e da ciência cristã, o saber elaborado antes deles por várias civilizações.
Alberto pôs esse saber ao alcance de seus contemporâneos sob uma forma assimilável e prática. Tomás nele buscou os materiais de uma criação nova. Ambos trabalharam para resolver o problema da assimilação de Aristóteles na filosofia e na teologia cristãs. O trabalho de Alberto teve o mérito da iniciativa, mas permaneceu provisório. O de Tomás foi definitivo. Os escritos dos dois mestres são muito numerosos e constituem duas séries consideráveis. O esforço de Alberto incidiu especialmente sobre as ciências racionais, naturais e morais. Tomás consagrou-se particularmente às ciências filosóficas propriamente ditas e às ciências sagradas. Seus escritos, quanto ao método e ao valor intrínseco, apresentam as características que assinalamos, uma vez que é sobretudo por meio deles que podemos conhecê-los.
Do ponto de vista doutrinal, há um terreno que lhes é comum, sobretudo em filosofia. Alberto já adotou grande número das teses que o mestre retomará. É, contudo, mais platonizante. Em teologia, Alberto é de um agostinismo menos estrito. Para ele, não se pode dispensar Agostinho no que toca à doutrina sobrenatural e às verdades tradicionais tomadas dessa orientação. Tomás vê em Agostinho as verdades tradicionais que não hesita em substituir... 874 por suas visões filosóficas pessoais àquelas que Agostinho juntou à interpretação dos dogmas, quando lhe parecem insuficientemente sólidas.
Enfim, Alberto e Tomás trouxeram à sua obra doutrinal um sentido religioso e eclesiástico profundo, confirmado que era por seu desinteresse pessoal e pela santidade de sua vida. Mandonnet, Siger de Brabant et l'averroïsme latin au xiiie siècle, t. i, c. ii; Dictionnaire de théologie catholique, t. i, col. 666 sq.; Dictionnaire d'hist. eccles., t. i, col. 515. A acrescentar à bibliografia citada nos lugares precedentes: E. Michael, Wann ist Albert der Grosse geboren? dans Zeitschrift für katholische Theologie, t. xxxv (1911), p. 561-576; J. A. Endres, Albertus Magnus und die bischöfliche Burg Donaustauf, dans Historisch-politische Blätter, t. cxlix (1912), p. 829-836; P. Mandonnet, Roger Bacon et le Speculum astronomiae, dans la Revue néo-scolastique, 1910, p. 313-335; H. Stadler, Alberti Magni liber de principiis motus processivi ad fidem codicis archetypi, Munique, 1909; C. Brentano, Albertus Magnus, Ordensmann, Bischof und Gelehrter, Munique, 1881; F. Pangerl, Studien über Albert den Grossen (1193-1280), Beiträge zur Würdigung seiner Wissenschaft und wissenschaftliche Methode, dans Zeitschrift für katholische Theologie, t. xxxvi (1912), p. 304-316, 512-549; H. Lauer, Die Moraltheologie Alberts des Grossen mit besonderer Berücksichtigung ihrer Beziehungen zur Lehre des hl. Thomas, Friburgo em Brisgóvia, 1911; Th. Schmidl, Die Meteorologie und Klimatologie des Albertus Magnus, Dürkheim, 1909; H. Langenberg, Aus der Zoologie des Albertus Magnus, Elberfeld, 1891; H. Stadler, Vorbemerkungen zur neuen Ausgabe der Tiergeschichte des Albertus Magnus, dans Sitzungsberichte d. R. Baier. Akad. d. W., Philo.-philol. u. hist. Klasse, 1912; S. Killermann, Die Vogelkunde des Albertus Magnus, Ratisbona, 1910; J. Wimmer, Deutsches Pflanzenleben nach Albertus Magnus, Halle, 1908. Ver também uma parte da literatura indicada na seção seguinte. —
VI. A obra doutrinal de São Tomás de Aquino. Uma exposição, ainda que sumária, das doutrinas de São Tomás estaria aqui fora de lugar. Não podemos, contudo, renunciar a definir o conjunto de sua obra e a assinalar-lhe as principais características, pois, em suma, a história da teologia na ordem dos frades pregadores é constituída sobretudo pelo desenvolvimento, pela utilização, pela propagação e pela defesa da doutrina de São Tomás de Aquino.
— 1º Os escritos. A obra literária de São Tomás de Aquino é muito extensa. Compreende cerca de setenta e cinco obras de dimensões muito diferentes. Uma literatura apócrifa muito abundante também se reclama, a títulos diversos, de São Tomás de Aquino, e ocupou parcialmente lugar nas edições completas de suas obras. As principais edições das obras completas são as de Roma, 1570, ordenada por São Pio V (15 in-fol.); de Veneza, 1594, feita sobre a precedente com diversos comentários e adições (18 in-fol.); de Antuérpia, 1612, por cuidado de Côme Morelles (19 in-fol.); de Paris, 1636 (23 in-fol.); de Veneza, 1745, por Bernardo de Rubeis (28 in-4º), reproduzida, no mesmo lugar, em 1775; de Parma, (28 in-4º); 1852 (25 in-4º); de Paris, 1871-1880, por Fretté e Maré, e da qual vários volumes foram reeditados em datas posteriores (34 in-4º); de Roma, 1882, ainda em curso de publicação e devida à iniciativa de Leão XIII.
Enumeraremos aqui apenas as obras mais importantes de São Tomás de Aquino. Os escritos filosóficos compreendem, antes de tudo, os comentários sobre os principais livros de Aristóteles: a Interpretação (Periermenias), os Analíticos Posteriores, a Física, o Céu e o Mundo, a Geração e a Corrupção, os Meteoros, a Alma, a Metafísica, a Moral a Nicômaco e a Política. Entre os tratados especiais de filosofia: Da Unidade do Intelecto, Das Substâncias separadas, Do Ser e da Essência, os comentários sobre o livro das Causas e as Semanas de Boécio, o Governo dos príncipes e o Governo dos judeus.
Os escritos sobre a Sagrada Escritura compreendem comentários sobre alguns livros do Antigo Testamento e sobre todos os do Novo, a saber, sobre Jó, o Cântico dos Cânticos, Isaías, Jeremias, as Lamentações, os quatro Evangelhos, as Epístolas de São Paulo, além de uma glosa contínua sobre os quatro Evangelhos, composta com extratos dos santos Padres e conhecida hoje sob o nome de Catena Aurea (Cadeia de Ouro). As obras de teologia são representadas sobretudo pelos comentários sobre as Sentenças de Pedro Lombardo, a Suma teológica, os comentários sobre os Nomes divinos de Dionísio Areopagita e sobre a Trindade de Boécio. As Questões disputadas e os Quodlibeta são obras mistas, que contêm assuntos filosóficos e teológicos. A apologética é especialmente representada pela Suma contra os gentios, pelo Tratado contra os erros dos gregos, e por três obras contra Guilherme de Saint-Amour e seus adeptos, para defender os direitos das novas ordens religiosas mendicantes. Acrescentemos a esta lista abreviada o Ofício para a festa do Santíssimo Sacramento, uma das mais belas obras da liturgia católica. Cf. Mandonnet, Des écrits authentiques de S. Thomas d'Aquin, 2ª edição, Friburgo, 1910.
A obra literária de São Tomás não é apenas muito extensa, tomada em si mesma; foi também executada com surpreendente rapidez. Veio à luz em cerca de vinte anos (1253-1273); o que representa uma média de aproximadamente mil páginas in-4º, em duas colunas, por ano. Não se deve esquecer, aliás, que São Tomás ensinou constantemente durante esse tempo, pregou com frequência e realizou numerosas e longas viagens a pé. Ao ler seus escritos, nos quais tudo parece pesado e maduramente refletido, seríamos levados a crer que o doutor angélico procedeu com extrema lentidão. Não é nada disso. Compôs suas obras às pressas, como homem apressado que tem o sentimento de seu fim prematuro.
Nada, a esse respeito, é mais significativo do que sua escrita. O autógrafo da Suma contra os gentios, hoje na biblioteca Vaticana, apresenta-nos uma escrita cursiva extremamente abreviada, quase ilegível e muito pessoal. À primeira vista reconhece-se nela uma mão forte e vigorosa, mas sobretudo rápida. Alguns dos escritos de São Tomás são também reportações ou estenografias de seus ouvintes, por ele mesmo revistas; e o religioso que lhe servia de companheiro pôde prestar-lhe alguns serviços. Mas tudo isso é bem pouca coisa; e foi o mestre, em suma, quem carregou sozinho o peso desse trabalho gigantesco. As obras de Tomás de Aquino são de natureza muito diversa.
Tendem, contudo, a concentrar-se na filosofia e na teologia, isto é, nas ciências que veem então se empenharem os problemas capitais para o pensamento cristão e para a Igreja. A escolha dos assuntos e o modo de execução são, o mais das vezes, impostos ao autor pelos usos e pelas circunstâncias. Numerosos pequenos tratados, e mesmo algumas grandes publicações, devem-se a pedidos de personalidades muito altamente colocadas na Igreja ou na sociedade civil, ou às vezes até de simples particulares, a cujo desejo São Tomás não julgou poder recusar-se.
Entretanto, uma parte principal de suas obras lhe foi imposta por suas obrigações de professor: tais são seus comentários sobre o Mestre das Sentenças e sobre a Sagrada Escritura, as Questões disputadas e quodlibetais. Seus comentários sobre Aristóteles e sobre alguns outros autores clássicos nasceram das necessidades intelectuais da época e dos graves problemas que então se colocavam. A Suma contra os gentios e a Suma teológica são, quanto à feitura, as obras mais pessoais de Tomás de Aquino. Ele pôde nelas mover-se com toda a liberdade, observando ao mesmo tempo uma técnica de execução que era clássica em seu tempo. Mas, aqui como alhures, Tomás de Aquino desdobrou qualidades pessoais de escritor que lhe eram próprias.
Ele livra seu terreno de questões ociosas ou supérfluas e introduz nele outras novas, que são úteis ou necessárias. Limita as citações e os raciocínios ao que é essencial e estritamente próprio à questão. Desenvolve seu assunto com justas proporções e mantém um sábio equilíbrio entre as partes, que são elas mesmas logicamente coordenadas no todo. Quando comenta textos clássicos, trate-se da Escritura, de Aristóteles ou de outras obras, concentra, antes de tudo, seu esforço no sentido literal do livro, abandonando os antigos métodos que sobrecarregavam os comentários com materiais estranhos e amplificações inúteis. Enfim, seu estilo é claro, preciso, sóbrio e apropriado ao seu pensamento. A equação entre a expressão da ideia e a própria ideia é tal que o espírito não é nem distraído nem embaraçado pelas palavras e fórmulas. Tomás de Aquino é o autor mais facilmente legível da Idade Média.
— 2º O método. O procedimento de São Tomás, no tocante à sua informação literária e ao seu senso crítico na utilização de suas fontes, está muito à frente de seu tempo. Sua metodologia se junta imediatamente à que praticamos em nossos dias. Tomás de Aquino veio numa época de enorme afluxo literário, não somente em razão das produções latinas dos letrados da Idade Média, mas também em razão das traduções incessantes que revelavam aos pensadores de então a sabedoria das civilizações grega e árabe. A informação de São Tomás, favorecida pelas pesquisas literárias de Alberto Magno, foi enorme para o seu tempo, em que os manuscritos eram ao mesmo tempo raros e dispendiosos. Ele nada negligenciou para alcançar fontes ainda inexploradas por seus contemporâneos. Lembra-se a anedota em que declarava a um de seus discípulos que preferiria, à posse de Paris, as homilias de São João Crisóstomo sobre São Mateus. É o símbolo da preocupação constante que teve de alcançar o maior número de fontes literárias e sobretudo as melhores.
Tomás, secundado pela ordem dos pregadores, organizou uma verdadeira exploração literária. Seus cuidados aplicaram-se particularmente a entrar em contato com o antigo mundo grego. Um de seus confrades, Guilherme de Moerbeke, empreendeu, por iniciativa sua, uma revisão das traduções de Aristóteles sobre o grego, bem como a tradução de livros ainda desconhecidos dos latinos, como as Políticas e as Econômicas. Numerosas obras de filósofos ou de sábios gregos passaram assim aos latinos, como a Elementatio theologica de Proclo, os comentários de Simplício sobre as Categorias, sobre o Céu e o Mundo e sobre a Alma, os de Temístio sobre a Alma, a Syntaxis de Ptolomeu, para nomear apenas alguns dos que São Tomás utiliza. Várias traduções de Aristóteles por Boécio, ou a ele atribuídas, foram também reencontradas. Enfim, Tomás mandou traduzir do grego algumas obras dos Padres gregos, que ele utiliza em particular em sua Exposição contínua dos Evangelhos (Catena aurea).
Sobre essa base de informações ampliadas e renovadas, Tomás desdobra um senso crítico penetrante. Descarta resolutamente toda uma literatura apócrifa, que havia usurpado o nome de Aristóteles e que havia lançado alguns de seus contemporâneos num completo desconcerto quanto à doutrina autêntica do Filósofo. Reconhece também, o primeiro entre os latinos, a origem do livro das Causas, que se atribuíra universalmente a Aristóteles. Purifica igualmente a literatura agostiniana de vários apócrifos. Sem dúvida São Tomás de Aquino não resolveu todos os problemas de atribuições literárias: nosso tempo, apesar de seus inúmeros progressos e recursos, mal acaba essa obra. Mas é preciso reconhecer que o esforço de São Tomás e os resultados a que chegou são únicos na Idade Média.
Alguns lhe procuraram sobretudo querela, nesse domínio, a propósito de seu Tratado contra os erros dos gregos. Mas, além de se ter exagerado muito a parte do apócrifo nesse opúsculo, não se deve esquecer que essa tarefa foi imposta por Urbano IV, e que Tomás não assume outra missão senão a de intérprete católico dos textos que lhe foram submetidos, como atestam o prefácio e a conclusão do tratado. Realizado o trabalho de discernimento bibliográfico, Tomás de Aquino procede à interpretação dos textos com muita sagacidade e exatidão. Determina o sentido por uma crítica interna comparada, seja referindo-se à marcha e ao espírito do tratado que comenta ou utiliza, seja comparando as ideias de um mesmo autor em seus diversos escritos.
Quando opera sobre traduções, como é o caso de Aristóteles e de algumas outras obras, compara as diversas traduções e recorre, repetidas vezes, ao testemunho do próprio original grego, ajudado nisso, cremos, não por um conhecimento pessoal notável do grego, mas pela colaboração de seu tradutor, Guilherme de Moerbeke. Na determinação do pensamento dos grandes autores, em particular de santo Agostinho e de Aristóteles, Tomás de Aquino adota um método que nos desconcerta um pouco hoje e induz mesmo em erro os leitores insuficientemente advertidos de suas obras.
Tomás de Aquino persegue de ordinário um fim filosófico e teológico, mas não um fim histórico. Procura estabelecer a verdade nos dois domínios que são especificamente os seus. Em presença das grandes autoridades profanas e sagradas, reconduz-as, por via de interpretação, ao seu próprio pensamento. É o que ele mesmo chama expô-las respeitosamente: exponere reverenter. Ele nada mais faz, nisso, do que conformar-se a um uso universal de seu tempo. Teria achado audacioso, então, qualificar de errôneas as autoridades da Igreja, ou mesmo simplesmente afastá-las. Expunham-se, determinavam-se ou concordavam-se, segundo as expressões usadas naquela época. São Tomás conservou em relação a Aristóteles uma atitude análoga à que tomou a respeito de santo Agostinho. Puxou-o para si. Isso era tanto mais fácil quanto o Estagirita fora extremamente reservado sobre muitos pontos de sua filosofia e deixava lugar, sem grande inverossimilhança, a várias interpretações. Foi guiado nessa maneira de proceder por um uso que teria parecido temerário transgredir, naturalmente levado por aquilo que se chamou com justiça sua caridade intelectual: faz de bom grado beneficiar, segundo sua expressão, prœclara ingénia que não conheceram a fé, das verdades das quais tem a alegria de poder se aproximar.
Contudo, não se deve deixar de notar que Tomás utilizou de bom grado esse estado de coisas e não pôs em demasiada evidência a interpretação doutrinal que operava no domínio da filosofia e da teologia, revoltando um bom número de seus contemporâneos, que não perceberam nem todo o alcance, nem todo o valor de seu trabalho; a crítica de nosso tempo não deve, portanto, iludir-se sobre o alcance da atitude tomada por Tomás em relação aos grandes pensadores que o precederam. Eles não devem crer, primeiro, que são Tomás não teve uma visão clara de sua verdadeira posição doutrinal. São Tomás fornece ele próprio a prova do contrário. Eles não devem igualmente medir a distância que separa Tomás de Aquino de seus predecessores pela interpretação benévola que ele, pelas razões já assinaladas, deu ao pensamento e às doutrinas deles, mas pela distância real que os separa em suas respectivas posições. É somente a essa condição que se possuirá uma visão verdadeiramente histórica da obra de renovação realizada no século XIII por Tomás de Aquino.
O senso crítico de são Tomás também lhe fez tomar uma posição característica a respeito das afirmações das ciências da antiguidade e de seu tempo. Trabalhando para reorganizar a filosofia e a teologia cristãs sobre uma base segura e duradoura, ele desprendeu as doutrinas fundamentais de seu sistema dos dados problemáticos que encontrava no domínio das ciências da natureza. Foi assim que ele não somente manteve em suspeita as teorias astronômicas vindas da antiguidade, as de Aristóteles como as de Ptolomeu, mas pressentiu a solução que simplificaria a complexidade dos movimentos aparentes dos astros e chegou a declarar que os astros deviam constituir, não um sistema único, mas sistemas múltiplos. Emitiu as mesmas reservas quanto à animação dos céus e dos astros, e fez observar que era indiferente à filosofia que os corpos celestes fossem movidos por inteligências, ou pela virtude imediata da causa primeira.
Enfim, a mesma preocupação de dar uma base segura às suas deduções filosóficas o faz escolher suas observações experimentais dentre aquelas que menos se prestavam a uma possibilidade de interpretação errônea, fiel nisso ao espírito da filosofia de Aristóteles, da qual dizia, em feliz fórmula: proprium ejus philosophiae fuit a manifestis non discedere. Os exemplos vulgares, de que se serve correntemente para ilustrar seu pensamento, são muitas vezes emprestados dos autores antigos e, se nem sempre têm hoje, em si, a mesma significação científica, conservam seu valor de comparação, o único que lhes atribui Tomás de Aquino.
— 3º O gênio pessoal. A obra doutrinal de são Tomás foi ajudada, em seu desabrochar, pelo estado geral de cultura de seu tempo e por circunstâncias especialmente favoráveis, como o meio intelectualista da ordem dos pregadores e a ação pessoal de Alberto Magno. Mas aquilo a que a obra tomista deve sua superioridade incomparável não é redutível a nenhuma influência exterior: a obra de Tomás de Aquino é fruto de seu gênio pessoal. Nele encontrou-se um homem que possuía faculdades excepcionalmente completas e equilibradas, cujo desenvolvimento atingia, além disso, um grau eminente. Esses dons elevaram-se, de um simples bom senso extremamente firme, até a potência criadora do gênio.
O gênio de Tomás de Aquino é feito de uma igual capacidade de análise e de síntese. O mestre, antes de mais nada, é extremamente nítido quanto ao procedimento próprio de cada ciência humana. Nas ciências especulativas, onde reina o regime exclusivo da dedução, ele define, divide, infere com uma maestria consumada, detendo-se, contudo, em justos limites, evitando igualmente os escolhos opostos da indeterminação e da sutileza. Mas não é inferior a si mesmo quando passa ao domínio da psicologia: faz uso de um método de introspecção. olisci el l;i 1 1 I Il \ i analisa com uma maestria admirável toda a vida da alma consciente, como as faculdades e operações internas, quer se trate das paixões e dos sentimentos, quer da inteligência e da vontade.
No terreno das ciências morais e políticas, ele disseca os fatos morais e sociais com plena consciência de que está num terreno misto, onde os princípios gerais comandam de cima a matéria, mas onde os fatos e a experiência se tornam elementos de uma significação soberana. É mesmo nas ciências psicológicas e morais que a distância entre Tomás de Aquino e seus contemporâneos é mais impressionante: ele os deixa, ele, a enormes distâncias. Enfim, no domínio da observação dos fenômenos da natureza e dos fatos cotidianos, ele testemunha um senso do real que surpreende em um homem de ordinário concentrado nas altas especulações do pensamento.
O espírito de síntese em são Tomás talvez não seja superior ao seu espírito de análise, mas, sendo um dom muito mais raro, nos espanta mais. O mestre veio em um tempo em que o solo da filosofia e da teologia estava juncado de todos os destroços da ciência antiga, árabe e medieval. Ensaios parciais de sintetização, ou melhor, de sincretismo, já haviam sido tentados, mas nada se realizara que tivesse valor duradouro. Em todo caso, nenhum empreendimento de conjunto havia aparecido, exceto o de Alberto Magno, cujas qualidades e fraquezas assinalamos. Foi sobre um canteiro imenso, atulhado de materiais de toda espécie, que Tomás de Aquino teve de erguer sua obra. Cumpria-lhe criar a ordem onde outros, com seus ensaios, não haviam feito senão aumentar a anarquia.
Apesar de sua rara precocidade de gênio, Tomás teve algumas hesitações no início de seu empreendimento, isto é, quando, antes dos trinta anos, comentou o Mestre das Sentenças. Mas, desde esse momento, já tem a clara visão de sua obra. Onde ainda não está resolvido, abstém-se de tomar posição definitiva, de sorte que terá, à medida que avança em sua carreira, mais a completar e a precisar do que a destruir para refazer. Não obstante, o trabalho reformador empreendido por Tomás de Aquino era vasto e complicado demais para que ele não tivesse algumas hesitações e algumas incertezas durante os primeiros anos, premido como era de todos os lados pelo peso da tradição e das ideias correntes de seu século.
Tal como foi realizada, a obra doutrinal de Tomás de Aquino revela um gênio de organização de primeira ordem. Tendo tomado conhecimento de todos os problemas suscitados pela filosofia humana e pela teologia cristã; tendo pesado o valor respectivo das diversas soluções e dos pontos de vista sistemáticos já ensaiados, viu finalmente, nos lampejos de iluminação mais ou menos prolongados próprios dos gênios criadores, a ordem final que implicava a unificação de tudo o que era conhecido e de todo o saber. Essa visão última foi preparada, sem dúvida, por múltiplas tentativas de adaptação das partes ao todo, por provas e contraprovas que preparavam a síntese derradeira; mas esse trabalho, em seu conjunto, parece ter sido rápido e precoce. Na idade em que os homens, aliás raros, que devem possuir uma personalidade intelectual mal começam a pensar, Tomás de Aquino era senhor de sua doutrina.
A força de intuição e de ordenação de que é dotado o gênio de Tomás de Aquino resulta de um senso metafísico superior. Pouquíssimos espíritos se elevam e planam sem esforço nas regiões da especulação e do pensamento puros. É das alturas da ciência do ser que Tomás dominou o mundo do pensamento e dos fatos, e é ainda aí que é preciso situar-se se se quer entendê-lo naquilo que ele verdadeiramente é. A metafísica é o princípio unificador de todas as ciências, como da ordem real; e é porque Tomás de Aquino ultrapassou a massa dos pensadores de seu tempo, como metafísico, que lhe foi reservado produzir uma obra única.
À força de intuição de Tomás de Aquino é preciso acrescentar sua força de atenção. Possuiu, como poucos homens, a faculdade de concentrar todas as suas forças sobre o objeto que solicitava seu pensamento, quer se tratasse do que os outros haviam pensado, quer do que ele próprio pensava. Essa faculdade de imobilizar-se na visão ou na busca da verdade, até a absorção completa e ordinária de toda atividade mental, cria naqueles que a possuem o meio de ultrapassar infinitamente a força de visão, não somente dos espíritos superficiais, mas ainda dos espíritos penetrantes que só possuem de modo intermitente a faculdade de convergência das forças integrais de sua inteligência.
Esse estado de atenção intensa traduzia-se, em Tomás de Aquino, por uma frequente ruptura de contato com o mundo exterior, que todos os seus contemporâneos observaram e assinalaram como dando ocasião, da parte do grande pensador, a estranhos equívocos e curiosas distrações. Esse conjunto de faculdades eminentes conferiu a Tomás de Aquino o dom próprio do gênio, a potência criadora. Os espíritos que veem em Tomás de Aquino apenas o seu método corrente de utilizar seus predecessores e de cercar-se de autoridades, conforme um uso que a tradição havia consagrado, puderam tomar o grande pensador por um simples compilador. Mas nada está mais longe da verdade do que essa visão superficial.
O que constitui o traço próprio e brilhante do gênio do doutor angélico é incontestavelmente a sua superior potência criadora. Aí está, direi eu, a grande linha de demarcação que isola Tomás de Aquino do resto dos mais ilustres pensadores cristãos. É verdade que o mestre trabalhou ele próprio para dissimular a sua própria excelência, abrigando-se de bom grado atrás da autoridade profana ou sagrada de seus predecessores e parecendo antes seguir os outros do que conduzi-los. Mas esse procedimento, que Tomás de Aquino deve a uma grandíssima modéstia pessoal e à preocupação de chocar o menos possível seus contemporâneos com a vista da revolução que operava na filosofia e na teologia, não poderia iludir-nos. O estudo interno, assim como o estudo comparado de sua obra, proclama, com uma evidência que salta aos olhos dos espíritos menos prevenidos, que foi ele, e somente ele, quem criou a ordem e a unidade da filosofia e da teologia cristãs.
— 4º A obra filosófica. Do ponto de vista da informação filosófica, Tomás de Aquino deve imensamente a seus predecessores, sobretudo aos grandes pensadores de todas as escolas. Não existe índice dos autores citados no conjunto das obras de são Tomás; mas pode-se tomar o que foi elaborado para a Suma teológica e que dá uma ideia aproximada do uso que ele fez das autoridades clássicas (edição Vives, t. vi, p. 713). Aristóteles, entre os gregos, prevalece sobre todos os outros, e o pensamento de são Tomás quase nunca perde o contato com o do Estagirita. Por ele conheceu a filosofia anterior, sobretudo a de Platão, de quem utilizou vários diálogos (Timeu, Fédon, Mênon). O neoplatonismo chegou a são Tomás por numerosas derivações; mas mais particularmente pelo Livro das Causas e por sua fonte principal, a Elementatio theologica de Proclo, pelo pseudo-Dionísio Areopagita. Os filósofos latinos que ele invoca com maior frequência são Cícero, Sêneca e Mânlio Boécio; entre os árabes, Avicena e Averróis; entre os judeus, Maimônides. Vai de si que o conteúdo filosófico da literatura cristã, incomparavelmente menos importante aliás, lhe é exatamente conhecido.
As ideias e os sistemas filosóficos anteriores, tais como se apresentavam a são Tomás, estavam maculados de graves erros. Tomás de Aquino os retificou. Ele apontou em Aristóteles e seus comentadores, sobretudo em Averróis, as teorias da eternidade do mundo, da negação da providência, da unidade da inteligência, etc.; nos neoplatônicos e em Avicena, a teoria da emanação do mundo; em Maimônides, a da equivocidade dos atributos de Deus e das perfeições das criaturas; no agostinianismo, as razões seminais, a existência da matéria nos espíritos, a pluralidade das formas, a iluminação intelectual, o primado da vontade, etc.
A obra filosófica positiva de são Tomás desembocou na primeira e única grande sistematização científica capaz de integrar-se ao ensino cristão. Ele foi o primeiro a proclamar firmemente a autonomia do saber racional, que antes dele estivera engajado, de fato e em princípio, nas especulações teológicas, especialmente em teodiceia, em psicologia e em moral. Juntando o exemplo à teoria, executou seus trabalhos filosóficos sem jamais invocar outra autoridade que a da experiência e da razão para estabelecer suas conclusões científicas e defendê-las. Formulou nitidamente uma teoria do progresso científico, definiu e classificou as ciências, estabeleceu o espírito próprio de cada uma, e executou o programa das ciências filosóficas particulares: Lógica, Metafísica e Teodiceia, Cosmologia, Física, Psicologia, Moral e Política.
Suas principais obras de filosofia apresentam-se sob a forma de comentários às grandes obras de Aristóteles; mas toda a sua obra teológica e escriturística é fortemente marcada de filosofia; e encontram-se a cada passo as fórmulas mais ricas e mais luminosas sobre todos os problemas do pensamento. Estabelecida sobre a base do conhecimento sensível e da experiência para o estado presente do homem, a filosofia de são Tomás passa, no domínio do absoluto, ao mais alto e mais puro intelectualismo. Pela segurança de seu ponto de partida, o mundo sensível, ela se resguarda contra as ilusões dos antigos e novos materialismos, e por sua transcendência intelectualista torna caducos os erros mais grosseiros e mais sutis. O esforço filosófico de Tomás de Aquino havia resolvido o problema da assimilação de Aristóteles e dotado a Igreja de uma filosofia cristã poderosamente assentada.
— 5º A obra teológica. Ela supera em grandeza a sua obra filosófica porque, não apenas aumenta a força e a luz desta última, mas sobretudo porque, ao transportar-se para o terreno da revelação cristã, mais alto e mais vasto, Tomás de Aquino aí desenvolveu as mesmas qualidades. A informação teológica de são Tomás em nada cede à sua informação filosófica. Estende-se aos assuntos doutrinais do dogma tanto quanto às obras do pensamento cristão. Tomás de Aquino possui um conhecimento profundo da Escritura, da Igreja romana, do direito canônico, dos Padres e dos escritores eclesiásticos posteriores, dos quais aqueles que ele invoca mais frequentemente com autoridade são Agostinho, Jerônimo, Gregório Magno, João Damasceno, Anselmo, Hugo e Pedro Lombardo. Opera, t. vi, p. 721.
Assim como Tomás de Aquino proclamou a autonomia da ordem racional, assim também proclamou a autonomia da ordem revelada, sustentando a impossibilidade de um conflito real entre as duas ordens, que têm Deus por autor. Existe uma linha intransponível entre a natureza e a graça, a razão e a fé. O dogma repousa unicamente sobre a autoridade de Deus, que o revela, e da Igreja, depositária de sua autoridade. Por sua natureza, a verdade dogmática está fora do alcance da razão, sendo esta impotente para dar dela uma demonstração intrínseca. Com isso Tomás de Aquino detém o fideísmo, que julgava só poder salvar o dogma negando o valor da razão, e o racionalismo inconsciente do século XII, que, ao tentar dar uma demonstração do objeto da fé, o reduzia a um conceito puramente racional.
A razão humana pode, contudo, esclarecer exteriormente a verdade de fé por analogias e motivos de conveniência. As grandes verdades filosóficas sobre Deus e sobre a alma são praeambula fidei que, por si mesmas, não pertencem à ordem revelada, mas tornam-se-lhe acidentalmente para aqueles que não possuem a certeza racional delas. Tomando por princípios as verdades reveladas, a razão pode delas deduzir verdades secundárias, ou conclusões teológicas, e constituir assim uma verdadeira ciência. Esta ciência, todavia, é subalternada, porque não possuímos, neste mundo, a evidência de seus princípios. Somente os bem-aventurados, na visão beatífica, veem em sua plena clareza as verdades da fé; e assim a ciência teológica se encontra em estado de subordinação no conhecimento presente de seus princípios, mas não na certeza e no valor de suas conclusões. Tomás de Aquino deu à teologia cristã, em sua Suma teológica, um modelo de exposição, do ponto de vista da ordem, da clareza e da profundidade, que ainda não tivera seu análogo e nunca mais foi igualado.
— 6° O valor doutrinal permanente. Aos olhos de todo o mundo, Tomás de Aquino é o maior pensador da Idade Média; e aos olhos da Igreja católica, o maior filósofo e teólogo cristão. Este fato é de notoriedade universal e encontrar-se-ão diversas provas dele na sequência deste artigo. São Tomás tornou-se na Igreja católica uma autoridade teológica sem par. Mas não se deve esquecer que sua autoridade é apenas a consequência de seu valor científico. Tomás de Aquino é uma autoridade de ordem excepcional, pois foi um pensador de gênio e criou uma obra doutrinal sem igual.
Não é, portanto, sobre o nome de são Tomás que se apoiam a Igreja e a escola tomista, como espíritos superficiais afetam às vezes dizer, mas sobre o valor sem par de saber e de razão que esse nome representa. É por isso também que esse valor permanece. Aliás, é fácil ver as causas desse fato. As qualidades pedagógicas de são Tomás fazem dele o único autor da Idade Média diretamente utilizável em seus próprios escritos. Não há manual que possa ser comparado à Suma teológica. Os autores da Idade Média são demasiado difusos, desordenados, incompletos, de língua difícil, ou de doutrina pouco coerente. Tomás de Aquino evitou todos esses escolhos, e sua obra doutrinal, se a compararmos à dos autores dessa época, é de uma luminosidade e de uma riqueza que a classificam entre as dos outros filósofos e teólogos.
As qualidades científicas da obra de são Tomás justificam também sua proeminência. Ela é baseada, poder-se-ia dizer, em dados eternos. O doutor angélico teve o cuidado de afastar o artificial, o acidental e o duvidoso de suas ideias sistemáticas e de suas conclusões; ao passo que tomou sempre, como ponto de partida de suas construções doutrinais, os dados empíricos ou racionais de primeira evidência e cujo alcance não é suscetível de variar. Além disso, a amplitude e a elasticidade de suas concepções gerais e a moderação que ele emprega nas soluções de detalhe deixam as portas abertas a todos os progressos intelectuais. Os dados científicos ultrapassados que se encontram nos escritos de são Tomás, aliás bastante raros, não fazem de modo algum corpo com suas ideias sistemáticas.
As qualidades de ortodoxia da obra doutrinal de são Tomás distinguem-na também da dos outros grandes teólogos. Sua santidade de vida unida à grandeza de seu gênio conferiram-lhe como que um dom de inerrância que lhe é próprio.
É por isso que a Igreja católica, que deve prover com segurança à formação de seus clérigos e ao ensino público dos fiéis, fez de Tomás de Aquino seu doutor oficial. A Igreja não pode, com efeito, entregar seu ensino ao capricho e às convicções singulares daqueles que são seus agentes, nem às modas do momento, correndo o risco de cair na anarquia e de comprometer os mais altos e mais graves interesses. É por isso que a Igreja romana, em nossos tempos mais do que nunca, exprimiu energicamente e em muitas ocasiões a sua vontade de que o ensino eclesiástico fosse dado em conformidade com as doutrinas de santo Tomás de Aquino. Ela julga que esse é o meio mais eficaz de infundir uma elevada força ao pensamento católico e de subtraí-lo às flutuações incessantes e estéreis da filosofia racionalista e anticristã de nosso tempo.
A questão da perenidade da doutrina tomista implica a das condições de sua propagação e de sua assimilação em uma época dada e especialmente na nossa. A propagação é obra da boa vontade dos escritores católicos e, mais especialmente, dos escritores eclesiásticos. É também obra de sua docilidade para com a autoridade pontifícia.
Quanto ao trabalho superior de assimilação total do pensamento de santo Tomás, ele implica um estudo aprofundado e sem preconceitos. É preciso compreender a doutrina do mestre e conhecê-la. É preciso, sobretudo, entendê-la em função de sua síntese geral e especialmente de sua metafísica, que comanda toda a economia da obra. O ecletismo não tem lugar diante das doutrinas tomistas, residindo o seu valor e a sua força essencialmente na potência de sua unidade. Não se quebra uma obra de arte para recolher-lhe os fragmentos, a menos que se possua também uma mentalidade de criança ou de bárbaro.
É preciso também, no domínio da filosofia, coordenar os elementos muitas vezes dispersos de numerosas questões, pois santo Tomás não constituiu um corpo de doutrina filosófica em uma obra análoga à da Suma teológica. Esse trabalho exige pesquisa e um verdadeiro senso crítico. Enfim, santo Tomás deve ser traduzido em uma linguagem clara e precisa, afastando-se o menos possível de sua terminologia e da forma de seu pensamento. Nada é mais falacioso do que interpretá-lo com a terminologia das filosofias modernas, nas quais as palavras e as fórmulas não têm nem o mesmo sentido nem o mesmo valor.
De S. Thoma Aquinate, dans Acta sanctorum, t. i martii, p. 655-747; Quétif-Echard, Scriptores ordinis praedicatorum, t. i, p. 271-354; B. de Rubeis, De gestis, et scriptis, ac doctrina sancti Thomae Aquinatis dissertationes criticae et apologeticae, Venise, 1750; P. Mandonnet, Des écrits authentiques de S. Thomas d'Aquin, Fribourg, 1910; A. Touron, la vie de S. Thomas d'Aquin, Paris, 1737; K. Werner, Der hl. Thomas von Aquin, Ratisbonne, 1889; J. V. De Groot, Het leven van den h. Thomas van Aquino, Utrecht, 1907; Bäumker et Hertling, études citées à la bibliographie de la précédente section; P. Mandonnet, Siger de Brabant et l'averroïsme latin au xiiie siècle, Fribourg, 1899; 2e édit., Louvain, 1908-1911; H. Grauert, Magister Heinrich der Poet in Würzburg und die römische Kurie, Munich, 1912; J. A. Endres, Thomas von Aquin, Mayence, 1910; M. Baumgartner, Thomas von Aquin, dans Grosse Denker, Leipzig, 1911, t. i, p. 283; M. Grabmann, Thomas von Aquin. Eine Einführung in seine Persönlichkeit und Gedankenwelt, Kempten, Munich, 1912; Z. Gonzales, Estudios sobre la filosofia de santo Tomás, Manila, 1864 (trad. allem. de Nolte, Ratisbonne, 1885); Ch. Jourdain, Philosophie de S. Thomas d'Aquin, Paris, 1858; P. Rousselot, L'intellectualisme de S. Thomas, Paris, 1908; A. Sertillanges, Saint Thomas d'Aquin, 2 in-8°, Paris, 1910; H. Uehove, Essai critique sur le réalisme thomiste comparé à l'idéalisme kantien, Lille, 1907. É impossível indicar aqui, mesmo sumariamente, a bibliografia relativa à pessoa de santo Tomás, a seus escritos e a suas doutrinas. Encontrar-se-á um precioso ensaio em U. Chevalier, Répertoire des sources historiques du moyen âge, Bio-bibliographie, Paris, 1907, col. 4471-4493. —
VII. A hegemonia doutrinal de São Tomás. Embora a obra doutrinal de São Tomás chocasse de frente com quase todas as ideias de seus contemporâneos, ela impôs seu domínio sobre a massa dos espíritos com uma rapidez que causa espanto; e nada testemunha mais manifestamente o valor dos escritos e das doutrinas do doutor angélico. A ação da ordem dos pregadores e da Igreja romana foi particularmente eficaz, como veremos, para assegurar a rapidez da hegemonia doutrinal de São Tomás. Mas existem, a esse respeito, diversos testemunhos que é preciso destacar, pois seria vão emitir, à distância de longos séculos, juízos de valor sobre fenômenos gerais, sobretudo quando pertencem à ordem intelectual, se não se estabelecessem os fundamentos históricos.
Nada é mais significativo, em primeiro lugar, do que os testemunhos contemporâneos, fornecidos até mesmo por adversários. Descarto a priori os juízos dos escritores dominicanos. Desde o pontificado de Urbano IV (1261-1264), Henrique de Wurzburgo, que se encontra na cúria romana ao mesmo tempo que Tomás de Aquino, escreve a seu respeito, em seu De statu curiae romanae, que ele é capaz de recriar a filosofia, caso ela viesse a perecer, e melhor ainda do que os antigos. Est illic aliquis, qui, si combusta iaceret, Inventor fieret, philosophia, nove; Erigeret meliore modo novus editor illam, Vinceret et veteres artis honore viros. H. Grauert, Magister Heinrich der Poet, p. 100 et passim.
De volta a Paris (1269-1272), Tomás encontra ali seus mais ardentes adversários. Mas para Nicolau de Lisieux, o partidário de Guilherme de Saint-Amour, ele é "o grande mestre", assim como para Siger de Brabante, o chefe do averroísmo parisiense, ele é, com Alberto Magno, o grande filósofo do século: praecipui viri in philosophia Albertus et Thomas. Siger de Brabant, t. i, p. 47, 95.
Depois da morte de Tomás de Aquino, o reitor e os mestres em artes da universidade de Paris escrevem, já em 2 de maio de 1274, ao capítulo geral da ordem dos pregadores para lhe pedir o corpo e os últimos escritos de frei Tomás e fazem do mestre falecido um elogio entusiástico, do qual basta tirar estas linhas: Quis posset estimare matutinam divinam providentiam permisisse, stellam praeeminentem in mundo, jubar in lucem seculi, immo, ut verius dicamus, luminare majus, quod praeerat diei, suos radios retraxisse? Plane non irrationabiliter judicamus solem suum revocasse fulgorem et passum fuisse tenebrosam ac inoppinatam eclipsim, dum toti Ecclesiae tanti splendoris radius est subtractus. Et licet non ignoremus conditorem naturae ipsum toti mundo ad tempus speciali privilegio concessisse, nihilominus si antiquorum philosophorum auctoritatibus vellemus inniti, evaa videbatur simpliciter posuisse natura ad elucidandum ipsius occulta. Denifle-Chatelain, Chartularium universitatis parisiensis, t. i, p. 504.
O célebre Egídio Romano, geral dos eremitas de Santo Agostinho, morto arcebispo de Bourges (1316), dizia a seu confrade Tiago de Viterbo, mais tarde arcebispo de Nápoles († 1308): Frater Jacobe, si fratres praedicatores nos voluissent, ipsi fuissent scientes et intelligentes, et idiotae, et non communiassent nobis scripta fratris Thomae. Revue des sciences philosophiques et théologiques, t. iv (1910), p. 487, nota 2.
Godofredo de Fontaines, um dos mestres seculares mais célebres da universidade de Paris no fim do século XIII e adversário, em mais de um ponto, de São Tomás, escrevia em suas Questões quodlibéticas: "Apesar do respeito que devo a certos doutores, a doutrina de frei Tomás, posta de lado a dos santos e a daqueles que são alegados como autoridades, prevalece sobre as demais doutrinas por sua utilidade e seu valor.
É ao autor de uma semelhante doutrina que se pode aplicar especialmente a palavra dita aos apóstolos pelo Senhor: Vós sois o sal da terra, e se o sal perder o sabor, com que se salgará? Esta doutrina, com efeito, serve de corretivo às de todos os outros doutores; torna-as saborosas e suculentas. Se viesse a desaparecer, os estudantes achariam noutra parte muito pouco gosto." Siger de Brabant, t. i, p. 48.
Dante Alighieri, cuja inspiração doutrinal é tão profundamente tomista, não hesita na Divina Comédia, depois do longo discurso que pôs na boca de Tomás de Aquino, em declarar que o falar de Tomás é semelhante ao de Beatriz, para dizer que a doutrina do grande doutor se identifica com a fé cristã. Paradiso, XIV, 7-8.
Enfim, quando Estêvão de Bourret, bispo de Paris, julgou dever relatar, em 14 de fevereiro de 1325, a condenação de seu predecessor, Estêvão Tempier, na medida em que ela poderia ter atingido a doutrina de São Tomás, fê-lo concedendo elogios que testemunham de que autoridade gozava o grande doutor: praesertim cum fuerit [beatus Thomas] et sit universalis Ecclesiae prefulgidum lumen, gemma radians clericorum, flos doctorum, universitatis nostrae parisiensis speculum clarissimum et insigne, claritate vitae, fame et doctrine velut Stella splendida et matutina refulgens. Charl. univ. paris., t. n, p. 281.
Os testemunhos que acabamos de ler atestam a incontestável preeminência assumida, muito cedo, pela doutrina de Tomás de Aquino no mundo das escolas e na Igreja. A consequência dessa posição foi que um título doutoral foi conferido a São Tomás de Aquino.
Foi, com efeito, o primeiro, entre os teólogos de seu século, a receber um qualificativo que, mais do que os de eximius e de egregius que se ajuntam frequentemente a seu nome, testemunha a universalidade de ação que ele já exercia. É o de doctor communis, que entrou em circulação desde o início do século XIV, e que continuará a ser-lhe atribuído, até que o de doutor angélico tenda, desde o século, a suplantar o precedente, cujo alcance histórico é bem mais notável. Em todo caso, o título doutoral de doctor communis, tal como era aos olhos dos contemporâneos, equivalia à afirmação do domínio exercido desde cedo pela doutrina de são Tomás no mundo das escolas e de seu ascendente sobre os espíritos. Mandonnet, Les titres doctoraux de saint Thomas d'Aquin, na Revue thomiste, t. (1909), p.
A difusão das doutrinas de Tomás de Aquino encontra uma prova no fato das traduções que foram empreendidas de certo número de suas obras, desde o fim do século XIII, em língua grega e hebraica. Os principais fundos gregos das bibliotecas da Europa possuem bastante numerosos manuscritos que contêm traduções de são Tomás. A Suma teológica foi traduzida duas vezes, uma primeira vez perto do fim do século XIII pelo frade pregador Bernardo de Caillac, uma segunda no século XIV por Demétrio Cydonès, do qual se possui uma carta em grego sobre o estudo da teologia de são Tomás de Aquino, editada por Franco, e dirigida a seu irmão Prócoro, que também traduziu para o grego o De aeternitate mundi.
Cydonès deu igualmente uma versão da Suma contra os gentios, concluída em 1355. No século XV, Miguel Sophianus traduziu os comentários do De anima e o De ente et essentia. Este último tratado foi comentado por Jorge Escolário, que tomou o nome de Genádio quando se tornou patriarca de Constantinopla. Certos manuscritos gregos da Suma teológica trazem no fim esta exclamação, que testemunha que Tomás encontrava entre os gregos ardentes admiradores: O utinam Thoma, non in Occidente, sed in Oriente natus fuisses! Scriptores ord. praed., t. i, p. 435; N. Franco, I codici vaticani della versione greca delle opere di san Tommaso d'Aquino, Roma, 1893.
Os rabinos judeus traduziram também para o hebraico, desde o fim da Idade Média, diversos tratados e fragmentos filosóficos de são Tomás. Continuaram mesmo durante os séculos seguintes. Não é banal ouvir um deles, Abraão Nachmias, declarar no fim do século XV, na tradução das Metafísicas de são Tomás, que esse doutor é « o grande filósofo, o chefe dos teólogos, que quase não se afasta do reto caminho e não diz em seus escritos nem uma palavra a mais nem uma palavra a menos. » Um dominicano, José Ciantes, traduziu, mais tarde, para o hebraico, a Suma contra os gentios, impressa em Roma, em 1657. M. Steinschneider, Die hebräischen Uebersetzungen des Mittelalters, Berlim, 1893, p. 483, 1066 (na palavra Thomas d'Aquino).
Enfim, quando se percorrem os catálogos dos manuscritos das bibliotecas da Europa, salta aos olhos que nenhum teólogo medieval viu uma difusão de seus escritos comparável à das obras de são Tomás de Aquino: testemunho irrecusável da hegemonia doutrinal exercida pelo mestre dominicano sobre o pensamento cristão antes da era da imprensa.
VIII. Posição da ordem dos pregadores a respeito das doutrinas de São Tomás. O ensino de Tomás de Aquino, em vida dele, havia alcançado grande número de religiosos da ordem, e seus discípulos, bem como seus múltiplos escritos, levavam seu pensamento àqueles que sua palavra não pudera atingir. Pode-se dizer que, por ocasião de seu desaparecimento, o conjunto da ordem estava conquistado para suas doutrinas.
Temos o eco disso nas próprias palavras escritas, no ano anterior à sua morte, em 1273, pelo antigo mestre geral da ordem, Humberto de Romans, na célebre consulta composta a pedido de Gregório X, sobre as questões que deviam ser tratadas no segundo concílio de Lyon. É incontestavelmente aludindo a Alberto Magno e sobretudo a Tomás de Aquino, ainda vivos ambos, que Humberto faz a seguinte declaração: Philosophia sic concinnata est per catholicos quosdam excellentis ingenii, qui omnia, quae apud eum sunt, investigaverunt et multo clarius quam ipsi philosophi plura intellexerunt, propter divinam scientiam quam habuerunt, in his in pluribus illuminaverunt, quod nunc et eos solum non rebellat philosophia fidei catholicae, sed magis eidem est quasi tota obsequium ejus. Concilia omnia tam generalia quam particularia, Colônia, 1551, t. n, p. 967; E. Brown, Appendix ad fasciculum rerum expetendarum, Londres, 1690, p. 187; Mortier, Histoire des maîtres généraux de l'ordre des frères prêcheurs, t. i, p. 88.
A primeira forma sob a qual a ordem dos pregadores interveio, relativamente às doutrinas de Tomás de Aquino, foi a repressão dos adversários que se encontravam na própria ordem. A influência exercida entre os pregadores pela primeira geração de seus mestres agostinianos não podia cessar num dia; e uma coletividade dedicada especialmente ao estudo, como a dos pregadores, não podia deixar de encerrar alguns dissidentes, como aliás sempre se encontraram no curso de sua história.
A condenação, feita em Oxford a 18 de março de 1277, da teoria da unidade das formas, pelo arcebispo dominicano de Cantuária, Roberto Kilwardby, um agostiniano de grande destaque, provocou a primeira intervenção da autoridade oficial da ordem. A província da Inglaterra, da qual Kilwardby fora por longo tempo o mais ilustre mestre e o provincial, era, pela força das coisas, mais agostiniana de doutrina do que as outras províncias da ordem; e alguns mestres tiveram de, se não secundar o arcebispo, ao menos subscrever sua condenação. O capítulo geral de Milão, em 1278, delegou às pressas, à Inglaterra, dois religiosos da província de Provença, Raimundo de Mévouillon e João Vigouroux, com poder de castigar aqueles que tivessem falado mal dos escritos do venerável padre frei Tomás de Aquino, até privá-los de seus cargos e mesmo exilá-los de sua província, se fossem reconhecidos culpados. O caso era sem dúvida menos grave do que se havia julgado, pois o capítulo do ano seguinte não volta a ele, e alguns anos mais tarde encontraremos os dominicanos ingleses entre os defensores mais resolutos das doutrinas de São Tomás. Acta cap. gen., t. i, p. 199; Siger de Brabant, t. i, p. 233; C. Douais, Essai sur l'organisation des études, p. 91.
Até meados do século XIV, os capítulos têm ocasião de renovar, uma vez ou outra, suas ameaças contra aqueles que atacassem as doutrinas de Tomás de Aquino, e essas intervenções da autoridade correspondem sem dúvida a algumas das manifestações antitomistas que nos são conhecidas. Acta capit. gener., t. i, p. 199, 204; t. n, p. 64, 81, 191, 297, 303, 308, 313, 340, 350. A correção de 1278 parece ter bastado para pôr na linha a província da Inglaterra, como dissemos. É bastante duvidoso que, no século XIV, Roberto Holcot (f 1349) tenha sido um dissidente, embora tenha sido apontado como tal. Script. ord. praed., t. i, p. 629; Charl. univ. paris., t. n, p. 592.
Foi diferente na província da Teutônia, onde um agostinianismo, tingido de neoplatonismo, encontrou adeptos sem formar, contudo, uma escola no sentido estrito da palavra. A influência de Alberto Magno talvez não seja alheia a uma parte dessas tendências. Ulrico Engelberto de Estrasburgo (y 1277), em sua importante Suma De summo bono, que permaneceu manuscrita, está ainda na direção agostiniana da primeira tradição dominicana, com influências árabe-neoplatônicas. Scrip. ord. praed., t. i, p. 356; M. Grabmann, Studien über Ulrich von Strassburg. Bilder wissenschaftlichen Lebens und Strebens aus der Schule Alberts des Grossen, dans Zeitschrift für kathol. Theologie, t. xxix (1905), p. 82-107.
O célebre mestre João Eckhart de Hochheim (f 1327), o teórico e inspirador da mística alemã, no século XIV, inclina-se fortemente para algumas doutrinas neoplatônicas. Ver t. iv, col. 2054; H. Denifle, Meister Eckeharts lateinische Schriften und die Grundauschauung seiner Lehre, dans Archiv für Lit.- und Kirchengeschichte, t. n (1886), p. 417, 672. Teodorico de Freiberg (f por volta de 1315), cuja atividade literária se estendeu particularmente às ciências naturais, é um agostinizante fortemente influenciado por Avicena. Não hesita em combater diretamente São Tomás em pontos essenciais de sua filosofia. E. Krebs, Meister Dietrich (Theodoricus Teutonicus de Vriberg). Sein Leben, seine Werke, seine Wissenschaft, Munster, 1906, dans Beiträge zur Geschichte der Philosophie des Mittelalters, t. v, p. 5-6; do mesmo autor, Le traité « De esse et essentia » de Thierry de Friberg, in Revue néo-scolastique, t. xviii (1911), p. 516.
É sem dúvida sob as mesmas influências que um discípulo de Thierry de Friberg, Berthold de Mosburch, escreveu um comentário sobre a Elementatio theologica de Proclo. M. Grabmann, in Philosophisches Jahrbuch, t. xxiii (1910), p. 53-54; Cl. Bäumker, Der Anteil der Elsass an den geistigen Bewegungen des Mittelalters, Estrasburgo, 1912. A província da França deu, na pessoa de Durand de Saint-Pourçain, um dos adversários mais encarniçados de São Tomás. Seu comentário sobre as Sentenças, várias vezes reeditado, é um verdadeiro manifesto, e o autor foi considerado um dos fundadores do nominalismo. Ver t. iv, col. 1964; Script. ord. praed., t. i, p. 586; C. Urbain, De concursu divino scholastici quid senserint, Paris, 1894.
O que pode parecer mais surpreendente é que a própria Itália produziu alguns adversários das doutrinas tomistas. Assim, o capítulo provincial de Arezzo, em 1315, puniu Ubertus Guidi, bacharel de Santa Maria Novella, em Florença, por ter atacado as doutrinas de frei Tomás de Aquino em suas disputas e lições. Charl. univ. paris., t. n, p. 174. O capítulo geral de Le Puy, em 1344, intervém contra Tomás de Nápoles, que dirigiu seu ensino contra São Tomás. Não se fica pouco surpreso diante de semelhante atitude num religioso que não só era compatriota de Tomás de Aquino, mas ainda ocupava a própria cátedra que o grande doutor havia ilustrado nos últimos anos de seu ensino. Acta cap. gener., t. n, p. 303; Charl. univ. paris., t. n, p. 614.
A autoridade oficial da ordem dos frades pregadores não devia limitar sua ação à repressão dos adversários que a doutrina de Tomás de Aquino podia encontrar entre alguns de seus subordinados. Ela fez publicamente o elogio do ensino do mais ilustre dos doutores da ordem e ordenou energicamente que fosse promovido. Foi o capítulo geral de Paris, realizado em 1286, que iniciou esse caminho. Sua iniciativa foi indubitavelmente provocada pela condenação que João Peckham, frade menor, antigo adversário de São Tomás em Paris, tornado arcebispo de Cantuária, proferiu em 30 de abril de 1286. Registrum epistolarum fratris Johannis Peckham, edit. C.-T. Martin, Londres, t. m (1885), p. 921.
Em suas admoestações, o capítulo geral escreve: Districtius injungimus et mandamus omnes fratres et singuli, prout sciunt et possunt, efficaeem dent operam ad doctrinam venerabilis magistri fratris Thomae de Aquino, recolendae memoriae, promovendam, et saltem ut est opinio defendendam: et si qui contrarium facere attemptaverent assertive... ipso facto ab officiis propriis et gratiis ordinis sint suspensi. Acta cap. gen., t. i, p. 235.
O capítulo geral de Saragoça, em 1309, promulga esta ordenação: Volumus et districte injungimus lectoribus et sublectoribus universis, quod legant et determinent secundum doctrinam et opera venerabilis doctoris fratris Thomae de Aquino, et in eadem scolares suos informent, et studentes in ea cum diligentia studere teneantur. Acta, t. n, p. 38. O capítulo geral de Metz, em 1313, não apenas mantém o ensino de São Tomás, mas qualifica sua doutrina de tal maneira que podemos ver o progresso realizado na difusão e na aceitação da doutrina tomista, mesmo fora da ordem: Cum doctrina venerabilis doctoris fratris Thomae de Aquino communior et sanior ab ordine reputetur, et noster specialiter prosequi teneatur, etc. Acta, t. n, p. 64.
Os capítulos gerais posteriores voltam, por ocasião, à obrigação em que se encontram os membros da ordem dos frades pregadores de se apegarem à doutrina de São Tomás e de promovê-la. Mas essas iniciativas são bastante raras para se ver que quase não é necessário tomar a peito os interesses de uma causa ganha. Citemos simplesmente, para terminar, a qualificação que o capítulo geral de Castres, em 1329, faz da doutrina de São Tomás quando diz que doctrina sancti Thomae toti mundo sit utilis et ordini honorabilis, p. 191, e a ordenação do capítulo de Brive, em 1346, que é feita por vontade do soberano pontífice, p. 308. Ver também Acta cap. gen., t. n, p. 196, 262, 280, 297, 367, 372, 391.
Não há dúvida de que a ordem dos pregadores seguiu em massa a direção dada pelos capítulos gerais. Em vez de procurar testemunhos particulares entre os teólogos dominicanos, basta tomar emprestado o juízo de um adversário bem informado. O célebre médico espanhol Arnaldo de Vilanova (f 1311), abandonando o terreno de sua ciência, lançou-se em especulações para as quais não tinha nem a competência nem a tranquilidade de espírito. Depois de ter estudado hebraico com os dominicanos de Barcelona, sob o célebre Raimundo Martini, e teologia durante seis meses, com os pregadores de Montpellier, entrou em conflito com seus antigos mestres, quando persistiu em suas ideias de reforma eclesiástica e na predição do fim do mundo.
Um dos escritos polêmicos de Arnaldo, dirigido contra os pregadores, por volta de 1304, traz o título significativo de Gladius jugulans thomatistas (Vatic. 3824, fol. 181). É nele que lhes censura preferirem o estudo da Suma teológica de São Tomás ao da Escritura. Menéndez Pelayo, Historia de los heterodoxos Españoles, Madri, s. d., t. i, p. 473; H. Finke, Aus Tagen Bonifaz VIII, Münster, 1902, p.
cxvii, cxxiii. Essa acusação absurda, dirigida a religiosos entre os quais a Bíblia era o principal livro de texto no ensino da teologia, não deixa de testemunhar a autoridade adquirida, desde muito cedo, pela doutrina de São Tomás entre os frades pregadores. Erasmo, cujo horizonte teológico não ultrapassava o do humanismo, haveria de formular a mesma censura dois séculos mais tarde, prova de que a ordem havia mantido firme a bandeira tomista durante os dois últimos séculos da Idade Média. Thomae decreta... dominicain paene praeferunt Evangeliis. Opera omnia, Leiden, t. n (1703), col. 515.
Uma questão prática se ligava diretamente à difusão da doutrina de São Tomás na ordem, isto é, a da multiplicação de suas obras e de sua adoção como livros de texto para o ensino. A raridade dos manuscritos na Idade Média tornava muito dispendiosa a divulgação dos livros. Por isso, pouquíssimas obras filosóficas e teológicas tiveram grande difusão e exerceram, em consequência, uma ação extensa sobre a formação intelectual. Impondo oficialmente à ordem a doutrina de Tomás de Aquino, os capítulos gerais impunham, pelo próprio fato, a obrigação de multiplicar as obras do mestre. É por isso que o capítulo geral, concedendo excepcionalmente aos frades em estudos a autorização de vender seus livros, excetua deles a Bíblia e São Tomás. Acta, t. n, p. 40. O capítulo geral de 115 proíbe aos conventos alienar os livros úteis, em particular os de São Tomás, e pede que os conventos e os studia de estudos gerais, bem como aqueles em que ensinam os lentes, possuam todas as obras de São Tomás. Acta, t. m, p. 83.
A obra doutrinal de São Tomás era um tesouro coletivo, e era natural que os pregadores quisessem assegurar-lhe a difusão para o desenvolvimento de sua cultura intelectual. Mas o uso das obras de São Tomás, como livros de texto, encontrava dificuldades especiais, pois, no século XIII, a organização e os usos do ensino teológico já estavam definitivamente fixados nas escolas. A Bíblia era o texto principal, e o livro das Sentenças, o texto teológico por excelência. Assim era em toda a Europa cristã. Os interesses escolares da ordem lhe impunham submeter-se a um uso que se tornara universal. Não podendo nem querendo transformar um estado de coisas já antigo, a autoridade dos pregadores contornou a dificuldade. Pediu, antes de tudo, que as questões doutrinais fossem resolvidas segundo o pensamento de São Tomás. Acta, t. i, 38.
O livro das Sentenças, que era uma matéria teológica sem espírito sistemático, prestava-se muito bem a que os problemas que abria fossem encerrados no sentido tomista. Foi assim que os pregadores interpretaram Pedro Lombardo, como se diria mais tarde, in via Thomae. A exemplo deles, outros leram por sua vez as Sentenças in via Alberti, in via Durandi, in via Scoti. Contudo, a ordem permaneceu alheia à interpretação segundo Alberto e segundo Durand, embora esses dois mestres lhe pertencessem.
Os capítulos gerais deram um passo além. O de 1313 ordena que, no curso das Sentenças, se tratem três ou quatro artigos da doutrina de frei Tomás; e que só se enviem à universidade de Paris frades que já tenham estudado essa doutrina durante pelo menos três anos. Acta, t. n, p. 65. Em 1314, o capítulo de Londres ordena que o mestre dos estudantes leia, da Páscoa até o primeiro de agosto, um tratado de moral, ou o texto de um escrito de São Tomás, ou ambos simultaneamente. Acta, t. n, p. 72, 81. Os textos de São Tomás tomavam, portanto, lugar ao lado do texto das Sentenças, e tratados particulares eram interpretados pelo mestre dos estudantes. Os três ou quatro artigos de São Tomás que os leitores das Sentenças deviam expor em cada lição não eram outros senão os artigos da Suma teológica.
O uso havia mesmo precedido, e muito, sem dúvida, a legislação dos capítulos gerais, pois o capítulo provincial de Perúgia renova, em 1308, uma proibição que pode parecer estranha vinda da parte dele, a de substituir o texto das Sentenças pela Suma de São Tomás. Item, volumus et ordinamus firmiter observari quod lectores et baccellarii legant de Sententiis et non de Summa Thomae. Archives générales O. P., m, 1, fol. 15. O pessoal docente da ordem tendia, portanto, fortemente e desde cedo, a substituir o texto das Sentenças pelo da Suma teológica. A autoridade da ordem se opôs a uma transformação tão brusca de um uso escolar universal, estando seus próprios interesses ligados ao regime geral de ensino que então prevalecia.
Não se pode negar, porém, que foi uma desgraça o fato de a Suma teológica não ter substituído o livro das Sentenças desde o século XIV. Nada teria sido mais eficaz para deter ou atenuar a decadência teológica que atingiu os dois últimos séculos da Idade Média. Pois, como escreveu o P. Ehrle, S. J., o destino da Suma teológica era o da própria ciência eclesiástica. Stimmen aus Maria Laach, t. xviii, p. 298. Foi somente no fim do século XV que a ordem dos pregadores estabeleceu o ensino direto e exclusivo da Suma de São Tomás nos cursos de teologia dos grandes studia, uso que se generalizou no século seguinte.
Esta medida contribuiu indubitavelmente para o renascimento teológico do século XVI, como se verá mais adiante. Tomás de Aquino não tendo sido apenas um grande doutor, mas um homem de grande santidade de vida, a Ordem, à vista dos milagres realizados por sua intercessão, empenhou-se em obter sua canonização. Foi o capítulo provincial do reino de Nápoles, realizado em Gaeta em 1317, se não no ano anterior, que designou o lente Roberto de Nápoles e Guilherme de Tocco para fazer uma investigação sobre os milagres de são Tomás. Este trabalho foi sobretudo obra de Tocco que, havia muitos anos, se interessava por este assunto. Ao término de sua investigação, escreveu uma biografia de são Tomás e foi com Roberto de Nápoles a Avinhão, onde se encontrava a cúria romana, munido de petições de Maria, rainha de Nápoles, dos principais membros da nobreza do reino e da universidade de Nápoles.
Os dois delegados estavam em Avinhão no mês de agosto. João XXII, acedendo ao pedido deles, nomeou em 13 de setembro o arcebispo de Nápoles e o bispo de Viterbo para a instrução do processo de canonização, que começou em Nápoles, em 21 de julho de 1319. Os autos do processo foram levados a Avinhão pelos notários, seguidos por Guilherme de Tocco, que havia completado sua legenda. Uma nova investigação teve lugar na abadia de Fossanova no mês de dezembro de 1321. Após o exame do processo, João XXII colocou Tomás no rol dos santos por suas cartas de 18 de julho de 1323.
No palácio pontifício, numerosos oradores fizeram-se ouvir na cerimônia de 14 de julho. O papa e Roberto, rei de Nápoles, estavam entre os numerosos oradores; e as cerimônias de 18 de julho, presididas por João XXII, cercado do colégio dos cardeais e dos prelados do rei e da rainha de Nápoles e de uma numerosa assistência, desenrolaram-se pomposamente sob as abóbadas de Notre-Dame de Avinhão, e a cidade inteira celebrou a festa como no dia de Natal. Paris, Bibl. nat. lat. 3112 e 3113; Acta sanctorum, t. i martii, p. 655 sq.; Bullar. ord. praed., Roma, t. n (1730), p. 159.
São Tomás de Aquino havia morrido em 7 de março de 1274 na abadia cisterciense de Fossanova. Apesar de seu ardente desejo, a Ordem dos Pregadores não pudera entrar na posse dos restos de seu ilustre doutor. As relíquias, objeto de múltiplas cobiças, haviam sofrido diversas vicissitudes. O corpo se encontrava nas mãos do conde de Fondi, patrono da abadia de Fossanova, e a cabeça era conservada em Piperno, quando o mestre geral dos Pregadores, Hélie Raymond, tomou posse deles, em 1368. Por vontade de Urbano IV, as relíquias foram transportadas para Toulouse, onde chegaram em 28 de janeiro de 1369. Foram depositadas no convento dos Pregadores com grande pompa, em meio a um imenso concurso de povo. O capítulo geral de Valência, em 1370, apelou à Ordem para obter os recursos necessários para erguer ao doutor angélico um suntuoso sepulcro. Douais, Les reliques de saint Thomas d'Aquin, Paris, 1903 ; Acta cap. gen., t. ii, p. 421. —
IX. Polêmicas tomistas. A oposição que as doutrinas de Tomás de Aquino haviam encontrado no seio da ordem dos pregadores era muito pouca coisa diante da que lhe haveria de vir de fora. A ação filosófica e teológica de Tomás de Aquino havia lançado a desordem entre seus contemporâneos. O farol que se erguera sobre o mundo cristão foi, para muitos, pedra de tropeço e sinal de contradição. Mestres cuja formação intelectual estava encerrada; espíritos que creem que tudo já está concluído com o passado; homens nos quais o espírito de corpo e de partido é mais poderoso que o gosto da pesquisa desinteressada e o amor da verdade; todos aqueles, em uma palavra, que, por uma causa ou outra, eram incapazes de assimilar uma doutrina cuja extensão e profundidade ultrapassavam a medida vulgar das inteligências, todos esses organizaram a resistência; uns passivamente, continuando a mover-se em trilhas fáceis por terem sido longamente cavadas; outros misturando concessões às reservas e às reticências; outros, enfim, tentando dar diretamente o assalto à fortaleza tomista. Mas, como vimos, em seu conjunto, a ordem dos pregadores, que representava a maior potência intelectual da época, estava conquistada, ou acabava de o ser, às doutrinas de seu ilustre mestre. Plenamente conscientes do valor da herança que a providência lhes havia transmitido, os pregadores iam propagá-la com zelo incansável e defendê-la com tenaz resolução contra os adversários que encontrassem em seu caminho.
As lutas que os pregadores sustentaram durante o fim da Idade Média, para defender sua escola, tiveram por objetivo, umas, fazer frente às agressões de conjunto do agostinismo, outras, tomar posição sobre questões especiais que foram levantadas em razão de diversas circunstâncias históricas.
1° Polêmicas gerais. 1. A primeira agressão seguiu de perto a morte de Tomás de Aquino. Em 7 de março de 1277, o bispo de Paris, Estêvão Tempier, condenou duzentas e dezenove proposições visando, em sua maioria, o averroísmo parisiense, mas das quais algumas pareciam atingir o ensino de Tomás de Aquino. Em 18 de março, o arcebispo de Cantuária, Roberto de Kilwardby, O. P., solidarizado com o bispo de Paris, condenava por sua vez diversas proposições, algumas das quais relativas à teoria da unidade das formas substanciais. A ordem não entrou diretamente em polêmica com o bispo de Paris. Considerou sem efeito a iniciativa de Estêvão Tempier na medida em que ela pudesse atingir seu ensino. Foi somente durante o ano escolar de 1316-1317 que João de Nápoles levantou em Paris, em suas disputas quodlibéticas, esta questão: Utrum licite possit doceri Parisius Thomae omnis doctrina fratris quoad conclusiones ejus. O autor destacou em seguida a questão de suas disputas quodlibéticas e fê-la preceder de um prólogo para constituir com ela um tratado especial (Paris, Bibl. nat. lat. 14549, fol. 130). Mas um dos próprios sucessores de Estêvão Tempier, Estêvão de Bourret, iria encarregar-se ele mesmo de acabar de tornar caduca a condenação de 1277, revogando-a no caso em que tivesse atingido Tomás de Aquino, por suas cartas de 14 de fevereiro de 1325, nas quais insere o mais lisonjeiro elogio das doutrinas do novo santo.
A ordem foi menos passiva em relação à iniciativa do arcebispo de Cantuária. A razão era que Roberto de Kilwardby era um de seus membros e que havia atacado uma doutrina determinada, fundamental na filosofia tomista. Um prelado dominicano, Pedro de Conflans, arcebispo de Corinto, que residia na cúria romana, fez advertências a seu confrade inglês, que lhe dirigiu um memorial justificativo, mas não deve tê-lo convencido. Um religioso do convento de Paris, Gil de Lessines, escreveu (julho de 1278) um tratado para defender a teoria de São Tomás contra os cantuarienses. Siger de Brabant, t. i, p. 231; M. De Wulf, Le traité De unitate formae de Gilles de Lessines, Louvain, 1901.
2. A reação agostiniana contra o tomismo concentrou-se especialmente entre os frades menores. Vinda de uma grande coletividade, devia ter mais força e tenacidade do que entre doutores isolados. Mas a fraqueza da reação agostiniana provinha dos próprios defeitos do agostinismo que assinalamos anteriormente. A essa inferioridade congênita somava-se a incapacidade dos mestres agostinizantes de entender-se entre si sobre uma multidão de problemas. Sua unidade não tinha outro fundamento além de sua comum oposição à escola tomista.
A oposição franciscana, que datava do tempo em que Tomás de Aquino ainda vivia, foi a primeira a manifestar-se. Por volta de 1280, um frade menor inglês, Guilherme de la Mare, provavelmente professor em Oxford, escreveu uma série de 117 anotações relativas a diversos pontos de doutrina, tirados das principais obras de Tomás de Aquino e que ele reprovava muito vivamente. O capítulo geral dos menores, realizado em Estrasburgo, em 1282, ordenou que não se deixasse, na ordem, a Suma teológica de Tomás de Aquino senão nas mãos dos leitores mais inteligentes, acompanhada das declarações de Guilherme de la Mare. Essas declarações, todavia, deviam ser escritas, não à margem da obra, mas em um caderno especial, cuja cópia não devia ser confiada a copistas estranhos à ordem.
Essa decisão do capítulo geral conferia, de certo modo, um caráter oficial ao correctório do franciscano inglês, e pode-se considerar a posição doutrinal por ele assumida como aquela que a ordem aceitava universalmente naquela época.
Os dominicanos ingleses de Oxford não ficaram para trás diante da agressão. Responderam-lhe passo a passo, por assim dizer, ressaltando cada uma das críticas do adversário, cujo factum passou desde então a ser qualificado de Corruptorium. Foi assim que veio à luz, por volta de 1282, o Correctorium corruptorii, que começa com estas palavras tomadas emprestadas ao livro de Jó: Quare quum detraxistis sermonibus veritatis, ex vobis nullus est qui possit me arguere. O autor reproduz, sobre cada ponto controvertido, o ataque integral de Guilherme de la Mare antes de responder-lhe; e é graças a esse procedimento que a crítica do franciscano inglês obteve notável difusão. O correctório dominicano já foi editado certo número de vezes, com a falsa atribuição a Egídio Romano, dos eremitas de Santo Agostinho; mas Egídio não tem nenhum direito sobre ele. Possuem-se, aliás, bastante numerosos manuscritos dele. O correctório dos dominicanos ingleses nunca trouxe, segundo toda a aparência, nenhum nome de autor em sua origem; mas não há dúvida de que os direitos de autor se repartem entre Guilherme de Makelfield e Ricardo Knapwell, dois professores dominicanos da universidade de Oxford. Sua contribuição respectiva deve corresponder aos dois estados nos quais se encontra essa obra.
Em presença do ataque de Guilherme de la Mare, os dominicanos parisienses, cujo convento de Saint-Jacques era o principal centro da vida doutrinal da ordem, não ficaram atrasados em relação aos dominicanos de Oxford. Um deles, Hugo de Billom, mestre da universidade de Paris e futuro cardeal (f 1298), escreveu um segundo correctório contra o franciscano inglês. Alguns anos mais tarde, mas antes do fim do século XIII, um dominicano, João da Sicília, outro mestre de Paris (f 1306), cujo nome patronímico era João Quidort, mestre em artes e depois em teologia na universidade, escreveu por sua vez um novo correctorium contra Guilherme de la Mare; mas essa obra permaneceu inacabada.
Os problemas debatidos nos correctórios são de ordem filosófica e teológica. Mas os primeiros são mais numerosos e mais importantes. Muitas questões, entretanto, são muito secundárias. As principais dizem respeito à visão beatífica enquanto imediata e essencialmente de inteligência, à possibilidade da criação de uma matéria nos anjos e no homem, à identificação do indivíduo e da matéria como princípio de individuação, à ausência de qualidades ativas ou passivas na matéria-prima, à unidade substancial nos compostos e no homem, à criação primordial das almas e das inteligências, à preeminência da inteligência sobre a vontade. Entre as questões teológicas, a da natureza da virtude da pobreza, tal como a praticaram Cristo e os apóstolos. A superioridade da defesa sobre o ataque, nessa polêmica, não faz senão refletir o valor respectivo do tomismo e do antitomismo, tal como o indicamos acima.
3. Uma das primeiras apologias do tomismo foi elaborada por um frade pregador italiano, Roberto de Bolonha, cuja atividade literária se situa no fim do século XIII e durante as primeiras décadas do século seguinte. Sua obra, que permaneceu inédita, traz por título Apologeticum pro S. Thoma. Segundo Grabmann, pode-se dizer « de todos os correctoria corruptorii fratris Thomae, é este o que apresenta a fisionomia mais característica e o que trata com maior desenvolvimento as questões controvertidas. »
Enfim, um dos mais célebres tomistas, Hervé Noël de Nédellec, chamado Hervé, o Bretão, mestre na universidade de Paris e mestre geral da ordem dos frades pregadores (1318-1323), havia começado, a pedido do geral da ordem, Aimerico de Placência (1304-1311), uma defesa geral da doutrina de São Tomás no terreno teológico, conformando-se, ao que parece, ao plano da Suma. A obra, se tivesse sido concluída, teria sido muito vasta. Mas só se conhece a primeira parte e o começo da segunda, relativas à natureza da teologia e ao seu objeto. A obra traz por título Defensa doctrinae D. Thomae. E. Krebs, Theologie und Wissenschaft nach der Lehre der Hochscholastik. An der Hand der Defensa doctrinae D. Thomae des Hervaeus Natalis, Munster, 1912.
4. Outra série de polêmicas foi aberta por diversos frades pregadores contra vários mestres célebres do fim do século XIII e do começo do século seguinte, que haviam combatido, direta ou indiretamente, as doutrinas tomistas. Bernardo de Gannat, dito também de Clermont e de Auvérnia, escreveu contra Henrique de Gand, Godofredo de Fontaines e Egídio Romano nas questões em que esses autores combatem a doutrina de São Tomás ou dela se afastam. Essas obras polêmicas datam, ao que parece, dos primeiros anos do século XIV. Um pregador inglês, Roberto de Hereford, compôs por volta da mesma época, se não antes, obras polêmicas contra Henrique de Gand e Egídio Romano. Hervé de Nédellec, de quem já falamos, escreveu uma série de questões contra Henrique de Gand.
Tomás de Jorz, professor em Oxford, prior provincial da Inglaterra (1297-1303), confessor de Eduardo I e cardeal de Santa Sabina (f 1310), compôs um comentário ao I das Sentenças no qual combate a doutrina de Escoto, oposta à de São Tomás, Veneza, 1523. É, com toda a verossimilhança, a mais antiga polêmica tomista contra João Escoto. A data deve situar-se, ao que parece, nos anos de 1290-1294. Durand de Saint-Pourçain, que encontramos entre os mais ferozes adversários dominicanos de São Tomás, encontrou por sua vez um contraditor enérgico em seu compatriota Durand de Aurillac. A obra que este último lhe opôs, embora permaneça inédita, é de grande alcance. Sua composição recai nos anos de 1332-1334.
Os progressos das doutrinas tomistas e os favores manifestos que lhes concedia a Igreja romana fizeram diminuir o ritmo das polêmicas durante o fim da Idade Média. A escola tomista, não deixando contudo de ter adversários, tomou de tempos em tempos a defesa de seu ensino e produziu trabalhos de grande envergadura. Entre eles contam-se as célebres Defensiones de João Capréolo (f 1444), a quem se chamou princeps thomistarum, Tours, 1900-1908. Pedro Niger (f 1481), que foi o braço direito de Matias Corvino, rei da Hungria, na fundação da universidade de Budapeste, compôs dois escritos de defesa: Clypeus thomistarum contra modernes, Veneza, 1481; Clypeus thomistarum adversus omnes doctrinae angelici doctoris obtrectatores, Veneza, 1504. Por fim, Diego de Deza (f 1523), célebre protetor de Cristóvão Colombo e um dos mais altos dignitários da Igreja e do Estado no tempo de Fernando e Isabel, deixou-nos duas obras polêmicas em favor de São Tomás, das quais a mais importante traz por título Novarum defensionum doctrinae angelici doctoris beati Thomae Aquino super quatuor libris Sententiarum quaestiones profundissimae et utilissimae, 4 in-fol., Sevilha, 1517.
A literatura das Defensoria pode reivindicar sua parte de êxito no triunfo do tomismo. Esse trabalho incessante de confrontação das doutrinas de Tomás de Aquino com as de seus adversários era eminentemente próprio para mostrar o valor respectivo das teorias postas em presença. As Defensoria representam a parte combativa e conquistadora do tomismo. São uma literatura de vanguarda, que testemunha a vitalidade da escola e a convicção de êxito de que estavam animados os seus adeptos.
5. A escola tomista não se empenhou apenas em repelir os ataques dirigidos contra a doutrina de seu chefe; empreendeu ainda uma série de trabalhos destinados, seja a mostrar a unidade de doutrina de São Tomás nos pontos em que o pensamento do mestre tinha sofrido algumas variações, seja a facilitar a consulta de suas obras. Dessas preocupações nasceram as concordâncias e as tábuas. Uma mão desconhecida, mas provavelmente a de um adversário, redigiu, talvez por volta do fim do século XIII, uma série de 32 conclusões, em que confronta diversos pontos de doutrina do comentário às Sentenças com os pontos semelhantes da Suma teológica, para fazer ressaltar as dessemelhanças. O problema da concordância das doutrinas de São Tomás estava posto. Um tomista zeloso, muito provavelmente o frade pregador Bento de Assignano, dito também de Como, cidade da qual se tornou bispo (f 1339), compôs por volta de 1310-1312, em Paris, uma concordância de cem artigos, tomados do comentário às Sentenças, com a doutrina correspondente dos outros escritos. Esse importante trabalho permaneceu em estado de manuscrito. Um dominicano inglês, Tomás de Sutton, compôs, por volta do fim do século XIII, uma concordância de trinta artigos, na qual o próprio São Tomás parece apresentar-se como autor do tratado, concebido à maneira das Retratações de Santo Agostinho. Essa composição é há muito tempo editada entre as obras completas de São Tomás.
A literatura das concordâncias e, mais ainda, a freqüentação cotidiana das obras de São Tomás fizeram sentir a necessidade de tábuas gerais de seus escritos. A obra do mestre era demasiado extensa para que fosse fácil encontrar imediatamente as passagens em que cada ponto de doutrina era exposto, sobretudo com o regime tão incômodo dos manuscritos. A primeira tábua, ou índice das matérias dos escritos de São Tomás, foi empreendida por um religioso parisiense, Hervé de La Queue. A composição desse trabalho recai, ao que parece, entre 1350 e 1360. Encontram-se dele manuscritos bastante numerosos, mas nunca foi impresso. No século XV, um novo ensaio de tábuas foi empreendido por um pregador lombardo, Pedro de Bérgamo, professor de teologia em Bolonha (f 1482). Essas tábuas são muito mais desenvolvidas que as precedentes. Foram editadas pelo próprio autor em 1475, em Bolonha. O trabalho de Pedro de Bérgamo divide-se em duas partes. A primeira é um índice das matérias sob este título: Index universalis in omnia opera D. Thomae Aquinatis; a segunda é uma concordância: Concordantiae locorum doctoris angelici, quae sibi invicem adversari videntur. O fato de Pedro de Bérgamo ter julgado dever constituir uma parte especial para estabelecer a concordância das doutrinas de São Tomás testemunha que esse problema, cujas origens remontavam ao século XIII, não tinha perdido sua atualidade dois séculos depois.
As tábuas de Pedro de Bérgamo foram frequentemente reeditadas; mas sofreram remanejamentos sucessivos, que tiveram por resultado fundir as duas partes primitivas e desenvolver muito o seu conteúdo. P. Mandonnet, Premiers travaux de polémique thomiste, dans la Revue des sciences philosophiques et théologiques, t. vii (1913), p. 46 sq. ; F. Ehrle, Der Kampf um die Lehre des heiligen Thomas von Aquin in dem ersten funfzig Jahren nach seinem Tod, dans Zeitschrift fur katholische Théologie, avril 1913, p. 266-318 (1er article).
2° Polêmicas especiais. Certo número de pontos doutrinais emergiram especialmente do domínio da filosofia e da teologia durante o fim da Idade Média; e a escola tomista, que estava em primeiro plano, viu-se particularmente engajada neles.
1. São Tomás de Aquino havia formulado, com grande precisão, a teoria da unidade da pessoa humana, fazendo da alma intelectual a forma única do composto humano. Havia sido combatido, de um lado, pelo averroísmo parisiense, partidário da unicidade da inteligência na espécie humana, e, de outro, pelo pluralismo agostiniano das formas. Uma primeira tentativa de condenação havia ameaçado o hilemorfismo tomista em Paris, em 1270; e o arcebispo de Cantuária, como vimos, o havia proibido em 1277. A escola tomista defendeu energicamente as suas posições. Os Correctoria, de que falamos, lhe concedem um lugar importante, e numerosos tratados foram consagrados a esse problema. Antes do concílio de Viena (1311), no qual foi levada essa questão, a Tabula scriptorum ordinis praedicatorum, encerrada nesse mesmo ano, nomeia como autores de tratados sobre essa matéria, além de Alberto Magno e São Tomás, Pedro de Tarentaise, Gil de Lessines, Hugo de Billom, Guilherme de Hotham, Guilherme de Mackelfield, Tomás de Sutton, João de Faenza e Pedro de Pistoia. Por volta dessa mesma época, Hervé, o Bretão, escreveu um importante tratado sobre a mesma matéria.
A questão foi levada ao concílio geral de Viena, que definiu a doutrina tomista sobre a natureza do composto humano, declarando herético quem quer que sustentasse quod anima rationalis seu intellectiva non est forma corporis humani per se et essentialiter. Essa doutrina foi confirmada pelo V concílio de Latrão (1515), e por Pio IX em sua carta ao arcebispo de Colônia (15 de junho de 1857). Ver Forme du corps humain. Pode-se ver, pela decisão do concílio de Viena, com que rapidez se operava a hegemonia doutrinal de Tomás de Aquino, visto que o ponto talvez mais combatido de sua doutrina se impunha em pouco tempo às definições do concílio geral. Denifle, Archiv fur Lit.- und Kirchengeschichte, t. ii, p. 226 ; T. M. Zigliara, De mente concilii Viennensis, Rome, 1878, p. 88-89 ; F. Ehrle, Zur Vorgeschichte des Concils von Vienne, dans Archiv, t. ii, p. 353.
2. A questão da natureza da pobreza religiosa e da prática mantida por Jesus Cristo e pelos apóstolos com respeito às posses assumiu graves proporções entre os pregadores e os menores. São Tomás havia formulado explicitamente a sua doutrina na Suma teológica, muito verossimilmente sob a inspiração da Igreja romana. Sustentava que a pobreza não é um fim, mas um meio, e que a perfeição de sua prática nas ordens religiosas consiste em sua adaptação ao fim perseguido pela sociedade; além disso, embora levando uma vida pobre, Cristo e os apóstolos haviam possuído. As polêmicas foram violentas da parte dos menores. Entre os pregadores que escreveram sobre essas matérias, assinalemos Roberto de Kilwardby, Jacopo de Varazze, Pedro de la Palud, João de Nápoles, Roberto de Bolonha, Bento de Como, Hervé, o Bretão. Os autores dos Correctoria corruptorii também delas se ocuparam.
Tendo o caso assumido, no tempo de João XXII, proporções desastrosas, depois de um sério exame, o papa condenou como errôneas e heréticas as proposições que afirmavam que Cristo e os apóstolos nada haviam possuído, e que não podiam praticar ato de proprietários no uso, na venda, na compra ou na permuta (12 de novembro de 1323, Cum inter nonnullos). F. Ehrle, Archiv fur Lit.-und Kirchengeschichte, t. iii, p. 517 ; A. Ott, Thomas von Aquin und das Mendikantentum, Fribourg-en-Brisgau, 1908 ; A. G. Little, The grey Friars in Oxford, Oxford, 1892, p. 320 ; F. Tocco, La questione della povertà nel secolo xiv, Naples ; Balthazar, Geschichte des Armutstreites im Franziskanerorden bis zum Konzil von Vienne, Munster, 1911 ; Jacques de Voragine, Defensorium contra fratres praedicatores (quod non vivant secundum apostolicam vitam), Venise, 1504, 1516 ; Raynaldi, Annales, ad an. 1323, n. 61.
3. Outra querela teológica irrompeu entre os pregadores e os menores, relativamente ao sangue de Cristo derramado na paixão. Estes últimos pretendiam que ele havia cessado de estar unido à divindade, ao passo que os primeiros pretendiam o contrário. A questão havia sido suscitada pela primeira vez em Barcelona, em 1351, mas retomou na Itália, em 1362, por ocasião da pregação feita no dia de Páscoa desse ano pelo frade menor Tiago da Marca, em Bréscia. Pio II avocou o caso a seu tribunal, e as disputas instituídas diante do papa nas festas do Natal duraram três dias. A maioria dos cardeais e o próprio papa pronunciaram-se em favor da opinião dominicana; mas não foi proferida nenhuma condenação. O papa proibiu as duas partes (1º de agosto de 1464) de agitarem essa questão.
Os doutores que defenderam a opinião dos pregadores foram Domingos de' Domenichi, bispo de Torcello, alto personagem do clero secular, cuja memória foi publicada, De sanguine Christi tractatus, Veneza, 1557; e religiosos dominicanos, delegados pelo mestre geral da ordem Conrado de Asti, a saber, Gabriel de Barcelona, Tiago de Bréscia e Vercelino de Vercelli. Outro pregador, Bartolomeu Lapacci de Florença, então demissionário de Coron, escreveu também, pouco depois, um tratado De divinitate sanguinis Christi. Encontra-se toda a literatura dessa questão em um manuscrito da Biblioteca Nacional de Paris (lat. 12390, fol. 1-78). L. Pastor, Geschichte der Papste, Friburgo em Brisgóvia, t. ii (1904), p. 197; Mortier, Histoire des maîtres généraux de l'ordre des frères prêcheurs, t. iii, p. 287; iv, p. 413; Bento XIV, De servorum Dei beatificatione et canonizatione sanctorum, l. II, c. xxx.
4. O século XIV viu abrir-se, com Durand de Saint-Pourçain, O. P., e Guilherme de Occam, O. M., a via filosófica que se chamou nominalismo. A unidade dessa série de filósofos e de teólogos, que não admitem a realidade das razões comuns, mas simplesmente dos singulares, corresponde a uma teoria fundamental. São espíritos cujos [...] filosóficos e teológicos são [...] e que têm em comum sua impotência metafísica. Suprimem o universal [...] ao único, [...] o espírito possa passar do mundo [...], e reduzem assim a [...]fia a um simples empirismo. A maior parte são almas [...]nalistas que equiparam [...] com [...] dos deterministas que eles têm [...] os grandes agentes da decadência, fim da escola tomista [...] invasão que percorreu a Europa, mas se deteve também frequentemente em Paris, onde Luís XI promulgou, Dict. de théol. cath., um decreto (1º de março de 1473) para proibir essa maneira de ensino.
Muitas vezes se colocou o pregador inglês Roberto Holcot entre os nominalistas, mas isso me parece bastante mal estabelecido. Jourdain, La philosophie de saint Thomas, t. ii, p. 216; Baluze-Mansi, Miscellanea, Luca, ii (1761), p. 293; du Boulay, Hist. univ. paris., t. v, p. 706; K. Werner, Die nominalisirende Psychologie der Scholastik des späteren Mittelalters, Viena, 1882.
5. O averroísmo, contra o qual Alberto Magno e sobretudo Tomás de Aquino haviam lutado tão energicamente, não desapareceu completamente com a condenação parisiense de 1277. Reapareceu no tempo de Filipe o Belo e prosseguiu sob formas mais ou menos atenuadas. No início do século XVI, os debates reabriram-se na Itália, e os frades pregadores viram-se nela muito ativamente envolvidos. O geral da ordem, Tomás de Vio, dito Caetano, publicou um comentário sobre o De anima de Aristóteles, Florença, 1509, no qual, abandonando a posição outrora tomada por santo Tomás, sustenta que o Estagirita não ensinou a imortalidade individual, mas a imortalidade coletiva da alma humana; Caetano, contudo, declarava muito explicitamente que, nisso, a doutrina de Aristóteles é filosoficamente errônea. Tratava-se, em suma, de um problema de crítica filosófico-histórica. Alguns anos depois, o concílio de Latrão, por seu decreto de 19 de dezembro de 1513, condenava não somente o ensino averroísta, mas exigia, além disso, que os professores de filosofia resolvessem os argumentos contrários dos filósofos, o que Caetano não aprovava, reservando esse ofício aos teólogos somente. Mansi, Concil., t. xxxii, col. 842.
Pedro Pomponazzi, tendo publicado em Bolonha, em 1516, seu tratado De immortalitate animae, no sentido averroísta, embora fazendo expressa profissão de fidelidade ao ensino cristão, suscitou numerosas polêmicas e foi tido por suspeito. Crisóstomo Javelli, filósofo de destaque, regente em teologia no convento de São Domingos, de comum acordo com a autoridade eclesiástica e a pedido de Pomponazzi, procurou tirar este último do mau passo em que se metera, redigindo uma breve exposição teológica da questão que seria anexada, no futuro, à obra de Pomponazzi.
Mas as polêmicas não deviam cessar tão cedo. Vários dominicanos entraram na liça. Jerônimo de Foimaths submeteu a exame a polêmica de Pomponazzi com Agostinho Nifo, pois lhe parecia que a doutrina dos dois filósofos pedia retificações, Bolonha, 1519. Bartolomeu Spina, que devia tornar-se mais tarde mestre do sacro palácio, atacou, em três escritos, Tomás Caetano, tornado cardeal, e Pedro Pomponazzi, Veneza, 1519.
Dirigiu contra o primeiro seu Propugnaculum Aristotelis de immortalitate animae contra Thomam Cajetanum. Spina, que era admirador de Caetano e havia cuidado da edição de seus comentários sobre a IIa-IIae, Veneza, 1518, fazendo-a preceder de um esplêndido elogio do autor, não hesita em acusar Caetano de ter aberto o caminho a Pomponazzi. Isidoro de Isolanis, conhecido aliás pelo primeiro tratado que se escreveu sobre são José, publicou também um tratado sobre essa mesma questão da imortalidade da alma, Milão, 1520. Enfim, Crisóstomo Javelli compôs ele próprio, em 1533, um estudo sobre a imortalidade da alma, no qual refutava o ponto de vista de Caetano e o de Pomponazzi. Cf. Javelli, Opera, Veneza, 1577, t. iii, p. 52.
Caetano manteve não somente sua posição a respeito do que tinha sido o pensamento de Aristóteles, mas declarou além disso que a imortalidade da alma era uma verdade de fé e que a filosofia só podia confirmá-la por razões prováveis. In Ecclesiasten (1534), c. iv. Pomponazzi, Pietro Fiorentino, Firenze, 1808.
6. O século XIV viu nascer as primeiras disputas sobre a conceição imaculada da santa Virgem. Essa doutrina, explicitamente trazida à luz no começo do século XII pelo beneditino inglês Eadmer de Cantuária em seu Tractatus de conceptione sanctae Mariae, edit. Thurston-Slater, Friburgo em Brisgóvia, 1904, permaneceu quase estranha aos teólogos do século XIII e do século XIV. E, no entanto, o pequeno tratado de Eadmer é um dos melhores que foram elaborados na Idade Média sobre essa questão. No início de sua carreira teológica (1253-1254), Tomás de Aquino afirmou muito explicitamente que talis fuit puritas beatae Virginis, quae a peccato originali et actuali immunis fuit. In IV Sent., dist. XLIV, q. i, a. 3, ad 3um.
Mas percebeu logo, ao que parece, no curso mesmo dessa primeira obra, que uma tal afirmação, assim como diversas opiniões que vinham a lume, redundavam em subtrair a santa Virgem à redenção de Cristo. Eis por que todo o seu esforço doutrinal tendeu a salvaguardar os direitos de Jesus Cristo sobre a pessoa de sua mãe na obra do resgate da humanidade. Com esse fim, colocou sempre a questão sob esta forma: a Virgem Maria não foi santificada antes de sua animação, a fim de que o corpo da Virgem, concebido nas condições ordinárias, representasse a causa instrumental que teria produzido o pecado na alma no momento da animação. Toda a argumentação de são Tomás vai no sentido de exigir o que chamamos, e o que ele mesmo chama, o debitum culpae, e por aí a necessidade da redenção para a santa Virgem. Quanto à questão de saber em que momento exato a Virgem havia sido santificada no seio de sua mãe, ele a afastou muito conscientemente. Afirmou que a santificação tinha seguido rapidamente a animação, mas declarou que se ignorava o momento.
É por isso que nunca colocou a questão de saber se a Virgem Maria tinha sido santificada no momento mesmo de sua animação. Vários de seus predecessores e contemporâneos, como são Boaventura, haviam expressamente colocado o problema e o haviam resolvido pela negativa. São Tomás, querendo deixar a questão aberta e não tomar posição, evitou abordar o ponto crítico para não ter de dar uma solução positiva ou negativa. Ter-lhe-ia sido fácil, se o tivesse querido, distinguir no ato da santificação da alma de Maria, no momento da infusão, entre a prioridade de natureza e a prioridade de tempo, conforme uma distinção que lhe era familiar e que ele empregara para a santificação dos anjos e do primeiro homem. Julgou dever abster-se.
Se tivesse seguido sua inclinação pessoal, teria sem dúvida concluído pela afirmativa, como o atesta sua primeira declaração no l. I sobre as Sentenças. Mas o sentido teológico superior de Tomás de Aquino não lhe permitia ir mais longe diante do silêncio da tradição, da posição negativa de um grande número de teólogos, e em particular da atitude reservada da Igreja romana, que não celebrava a festa da Conceição. São Tomás absteve-se de lançar o peso de seu sufrágio num sentido ou noutro. Seu pensamento era o mesmo que foi exprimido muito tempo depois por Gregório XV, em suas cartas de 4 de julho de 1622: Spiritus Sanctus nondum tanti mysterii arcanum Ecclesiae suae patefecit. Errou-se, pois, a meu ver, em querer puxar são Tomás para si nos campos opostos, uma vez que ele se abstivera voluntariamente. N. del Prado, Santo Tomas y la Immaculada, Vergara, 1909; Fr. Morgott, A doutrina sobre a Virgem Maria ou Mariologia de são Tomás de Aquino, Paris, 1881, p. 139 sq.
A escola tomista seguiu em seu conjunto a direção negativa. Mas julga-se muitas vezes muito mal a sua posição, porque, empregando a terminologia mesma de são Tomás, ela chama pecado original na santa Virgem o debitum culpae, em virtude do qual Maria pertence à ordem da redenção, o que é a própria doutrina católica, exposta na definição do dogma da imaculada conceição. Na medida em que os teólogos tomistas negaram a santificação de Maria no primeiro instante de sua conceição pessoal, não podiam reclamar-se de são Tomás; mas reclamaram-se do silêncio da tradição eclesiástica primitiva, e de sua posição bastante negativa, desde que esse problema havia sido explicitamente levantado, e foi o seu sentido teológico da tradição que os fez tomar semelhante posição; protestaram sempre, aliás, que cabia à Igreja romana determinar essa questão. De resto, a violência das polêmicas que estouraram a propósito dessas matérias, entre os tomistas de um lado, e os nominalistas e os escotistas de outro, deveu sua acuidade muito mais às oposições de temperamento e de interesses dos combatentes do que ao objeto mesmo da disputa.
Não se deve esquecer, aliás, que os diversos adversários da escola tomista, que haviam sofrido múltiplas derrotas doutrinais, concentraram de preferência seu esforço nesse terreno polêmico, onde podiam mais facilmente irritar a opinião pública, dando à atitude dos tomistas uma aparência odiosa com relação à Virgem Maria.
A primeira explosão deu-se em 1387, na universidade de Paris, por ocasião da mestria em teologia do dominicano aragonês João de Montson. A faculdade de teologia, desviada para o nominalismo e o galicanismo, só esperava uma ocasião de entrar em conflito com a escola tomista, baluarte de uma sã doutrina teológica e dos direitos pontifícios. Ela fez condenar catorze proposições de João de Montson. Este, e a ordem depois dele, apelaram para a cúria romana de Avinhão. Clemente VII avocou o caso a seu tribunal, em 12 de julho de 1391. O estado de perturbação em que então se encontrava a Igreja, por causa do cisma, fez deixar a causa em suspenso. Os dominicanos permaneceram fora da universidade até 1403. Foram reintegrados nela sob a condição de não ensinarem as proposições condenadas. Daí o fato de que certo número de pregadores parisienses se encontrem entre os defensores da imaculada conceição. Chart. univ. paris., t. iii, p. 486 ; t. iv, p. 56.
O concílio de Basileia também abordou essa questão e encarregou João de Torquemada (Turre remata) de fazer um relatório aos Padres sobre o assunto. O Tractatus de veritate conceptionis beatissimae Virginis foi apresentado no mês de julho de 1437 (Roma, 1517 ; Oxford e Londres, 1869). É um dos mais belos trabalhos de erudição do século XV. Na época do V concílio de Latrão, Leão X pediu uma memória sobre a mesma questão ao mestre geral da ordem, Tomás de Vio Caetano, que respondeu com um breve tratado datado de Roma, 1515, concebido com grande precisão teológica e executado com muito tato e moderação. Opuscula, Veneza, 1531.
7. O século XIV e o século XV foram testemunhas das lutas contra os direitos do papado e da constituição da Igreja. As pretensões do poder civil, a conivência dos cleros nacionais e a ação nefasta da universidade de Paris e dos teólogos nominalistas lançaram a Igreja romana na mais lamentável situação. Foram as doutrinas de Tomás de Aquino que serviram de arsenal aos defensores dos direitos do papado, e em primeiro plano achou-se a ordem dos pregadores. Seus teólogos defenderam pela pena os direitos pontifícios em numerosas obras, algumas das quais estão entre as mais notáveis.
No tempo de Filipe, o Belo, João de Paris, sofrendo mais do que o razoável a influência do meio francês, escreveu seu Tractatus de potestate regia et papali, que parece ter inspirado Dante em sua Monarchia. Ele é, ao que parece, o único pregador que fraquejou na defesa dos direitos pontifícios. C. Cipolla, « De Monarchia di Dante Alighieri e l'opuscolo « De potestate regia » et papali » di Giovanni da Parigi », Milão, 1892. No tempo de João XXII, quando vieram à luz com estardalhaço as pretensões do império com Luís da Baviera, os pregadores se levantaram em grande número para defender o papado.
Tolomeu de Lucca compôs sua Determinatio compendiosa de jurisdictione imperii, edit. M. Krammer, Hanôver e Leipzig, 1909 ; M. Grabmann, Ein Selbstzeugnis Tolomeos von Lucca fur seine Autorschaft an der Determinatio compendiosa de jurisdictione imperii, dans Neues Archiv der Geschichte fur ältere deutsche Geschichtskunde, 1912, p. 818 ; Guilherme Pierre de Godin compôs seu tratado, De causa immediata ecclesiasticae potestatis ; Hervé de Nédellec dirigiu especialmente contra os erros de um mestre parisiense, João de Pouilly, Chart. univ. paris., t. ii, p. 213, seu De potestate papae. Guido Vernani de Rimini escreveu um breve tratado De potestate summi pontificis, e outro dirigido especialmente contra a Monarchia de Dante (1327) De potestate summi pontificis et de reprobatione Monarchiae compositae a Dante Alighieri, Bolonha, 1746.
No fim do grande cisma, João Dominici foi o sustentáculo de Gregório XII e dirigiu sua política até que depusesse, em nome de seu senhor, diante do concílio de Constança, o soberano pontificado. Defendeu-o igualmente pela pena (Viena, Hofbibl., lat. 5102) ; A. Rosier, Cardinal Johannes Dominici, O. Pr. Ein Reformatorenbild aus der Zeit des grossen Schisma, Friburgo em Brisgóvia, 1893 ; P. Mandonnet, Beiträge zur Geschichte des Kardinals Giovanni Dominici, dans Historisches Jahrbuch, 1900, p. 388.
No tempo do concílio de Basileia, o papado encontrou os mais firmes defensores de seus direitos na ação pessoal e nas obras de Henrique Kalteisen e de João de Torquemada contra as ideias cismáticas do concílio, e contra as pretensões dos gregos no concílio de Ferrara-Florença em André de Rodes e João de Montenero. Os escritos de Torquemada sobre a autoridade dos soberanos pontífices e a constituição da Igreja dominam a literatura semelhante do fim da Idade Média. M. Grabmann, Die Lehre des heiligen Thomas von Aquin von der Kirche als Gotteswerk, Ratisbona ; H. Scholz, Die Publizistik zur Zeit Philipps des Schönen und Bonifaz VIII, Stuttgart, 1903.
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X. Atividade teológica da ordem. A produção literária da ordem dos pregadores foi, ao que parece, a mais extensa e a mais importante que as coletividades da Idade Média forneceram. Começou com os próprios inícios da ordem dos pregadores. Um cronista, contemporâneo desses anos, escreve: [fratres praedi]catores studio sacrae Scripturae et lectioni jugiter intenti, tantum in scribendo libros opus faciebant, quantum diligentissime a magistris suis audiebant, ut arcu, et omni armatura fortium possent ingredi [leia-se aggredi], et stare pro defensione sanctae matris. Monument. Germaniae hist., Scriptores, t. iii, p. 377. Num panfleto cheio de azedume, composto por João Peckam contra Roberto de Kilwardby, por volta de 1276, o irascível franciscano, falando da ordem, escreve que muitas pessoas plures in scientiae praeconium, membranas plurimas impleverunt. G. Tocco, La questione della povertà nel secolo xiii. A vários séculos de distância, um julgamento dá o mesmo testemunho sobre a atividade literária dos pregadores: Eo tempore, prodierunt strenui viri, adeo ut vix rari fuerint in republica litteraria alicujus nominis viri, in doctrina sacra conspicui, qui dominicanae familiae non essent alumni. De religione, tr. IX, l. II, c. vi, n. 11.
Não se pode cogitar, aqui, de traçar uma simples lista dos escritores dominicanos que trataram das ciências eclesiásticas na Idade Média, nem mesmo de enumerar apenas os teólogos. Pode-se ver, para a história das ciências escriturísticas, o que dissemos a respeito no Dictionnaire de la Bible, art. Dominicains. Já assinalamos, mais acima, os teólogos mais notáveis que dependem da direção agostiniana, os dissidentes tomistas e os polemistas que defenderam as doutrinas da escola. Baste-nos agora apresentar algumas observações gerais, seja sobre a direção tomada pela literatura teológica tomista, seja sobre algumas obras especiais, que permaneceram superiores em seu gênero e que têm por vezes o caráter de verdadeiras criações.
1° Trabalhos teológicos. As obras teológicas ocupam o primeiro plano na atividade literária dos frades pregadores, tanto por sua importância como por seu número. Grande número de teólogos compuseram comentários sobre o Mestre das Sentenças, Pedro Lombardo, isto é, sobre o texto clássico nas escolas de teologia. Ao lado dos comentários das Sentenças, ordinariamente obras dos bacharéis nas universidades, situam-se as questões disputadas e as questões quodlibéticas, que são sempre trabalhos de mestres. As sumas teológicas expõem a matéria teológica segundo um plano mais completo e mais bem ordenado que o de Pedro Lombardo, e sobretudo com princípios e soluções filosóficas firmes que faltavam no livro das Sentenças. Manuais de teologia, e mais especialmente sumas do sacramento da penitência, para uso dos confessores, foram também compostos em grande número.
Os mais antigos comentários dominicanos sobre as Sentenças são os de Rolando de Cremona, de Hugo de Saint-Cher, de Roberto Fitzacre, de Roberto de Kilwardby e de Alberto Magno. A série começa no ano de 1230, se não antes, e os últimos são anteriores ao meado do século XIII. Siger de Brabant, t. i, p. 53. A Tabula scriptorum ordinis praedicatorum, encerrada em 1311, embora incompleta, indica um bom número desses comentários sobre as Sentenças. Archiv fur Lit.- und Kirchengeschichte, t. ii, p. 226.
A Suma teológica de São Tomás (1265-1273) permaneceu como a obra-prima do gênero. A. Portmann, Das System der theologischen Summe des hl. Thomas von Aquin, Lucerne, 1885 ; J. Berthier, L'étude de la Somme théologique de s. Thomas d'Aquin, Paris [1905]. A de Alberto Magno, monumental, mas difusa, permaneceu inacabada. A Summa de bono de Ulrico de Estrasburgo (f 1277), discípulo de Alberto, ainda é inédita, mas é do mais alto interesse para a história do pensamento no século XIII. M. Grabmann, Studien über Ulrich von Strasburg, dans Zeitschrift fur katholische Théologie, t. xxix (1912). A Suma de teologia de Santo Antonino, bispo de Florença, goza de grande crédito junto aos moralistas e aos economistas. C. Ilgner, Die Volkswirtschaftlichen Anschauungen Antonius von Florenz, Paderborn, 1904. O Compendium theologicae veritatis de Hugo Ripelin de Estrasburgo (f 1268) é o manual mais difundido e mais perfeito da Idade Média. Mandonnet, Des écrits authentiques de S. Thomas d'Aquin, p. 89. O mais antigo manual dos confessores se deve a um autor da Hungria e foi composto para os frades de São Nicolau de Bolonha (1220). Foi editado sem atribuição de autor na Bibliotheca Casinensis, t. v (1880), p. 191 ; e sob uma falsa atribuição em Duellius, Miscellanea, l. i, Augsbourg, 1723, p. 59. A Summa de paenitentia de São Raimundo de Peñafort, composta em 1235, permaneceu clássica na Idade Média e é uma das obras cujos manuscritos foram mais multiplicados. A Summa confessorum de João de Friburgo (f 1314) é, no dizer de F. von Schulte, o produto mais perfeito desse gênero de literatura. O pisano Bartolomeu de San Concordio (f 1343) nos deixou uma Summa casuum, composta em 1338, na qual a matéria é disposta por ordem alfabética, e que gozou de grande sucesso nos séculos XIV e XV.
Os manuais para confessores de João Nieder (f 1459), de santo Antonino (f 1459), de Jerônimo Savonarola (f 1498), gozaram em seu tempo de notável crédito. Scriptores ord. praed., t. i, passim ; H. Hurter, Nomenclator, Inspruck, 1906, passim ; F. von Schulte, Die Geschichte der Quellen und Literatur des Canonischen Rechts, Stuttgart, t. ii (1877), p. 410 sq. ; J. Dietterle, Die Summae confessorum von ihren Anfängen an bis zu Silvester Prierias, dans Zeitschrift fur Kirchengeschichte, t. xxiv (1903)-xxviii (1907) ; J. Göttler, Der hl. Thomas von Aquin und die vortridentinischen Thomisten über die Wirkungen des Bussakramentes, Fribourg-en-Brisgau, 1904.
2° Trabalhos apologéticos. Os pregadores, nascidos em meio à heresia albigense e especialmente estabelecidos para a defesa da fé, consagraram seus esforços literários a atingir todas as categorias de dissidentes em relação à Igreja católica. Produziram, e de longe, as obras mais poderosas no domínio da apologética. A Summa adversus catharos et valdenses, Roma, 1743, de Moneta de Cremona, em curso de composição em 1244, é a obra mais completa e mais sólida que a Idade Média elaborou contra os cátaros e os valdenses. A Suma contra os gentios de santo Tomás de Aquino é uma das mais fortes criações do mestre. É a defesa da fé diante da filosofia não cristã, sobretudo da filosofia árabe. Raimundo Martini, em seu Pugio fidei, em curso de composição em 1278, Paris, 1642, 1651 ; Leipzig, 1687, mediu-se especialmente com o judaísmo. Essa obra, baseada em grande parte na literatura rabínica original, é o monumento de orientalismo mais considerável da Idade Média. A. Neubauer, Jewish controversy and the Pugio fidei, dans The expositor, 1888, p. 81 ; J. Loeb, La controverse religieuse entre les chrétiens et les juifs au moyen âge en France et en Espagne, dans la Revue de l'histoire des religions, t. xviii, p. 136. O florentino Ricoldo de Monte-Croce, missionário no Oriente (f 1320), compôs seu Propugnaculum fidei, especialmente contra o Alcorão. É uma das raras obras medievais latinas compostas diretamente sobre a literatura árabe. Demétrio Cidônio traduziu o Propugnaculum para o grego no século XIV, e Lutero para o alemão no século XVI. Mandonnet, Fra Ricoldo de Monte-Croce, pèlerin en Terre Sainte et missionnaire en Orient, dans la Revue biblique, t. i (1893), p. 44 ; Grabmann, Die Missionsidee bei den Dominikanertheologen des 13. Jahrhunderts, dans Zeitschrift fur Missionswissenschaft, t. i (1911), p. 137. Giovanni Dominici compôs (1405), sob o título de Lucula noctis, uma obra em regra contra os perigos do humanismo na educação da juventude cristã. É a única grande obra escrita contra os desvios religiosos e morais do Renascimento. B. Johannis Dominici cardinalis S. Sixti Lucula noctis, édit. R. Coulon, Paris, 1908. O Triumphum crucis de Jerônimo Savonarola (f 1398) é uma apologética das mais notáveis tanto por seu conteúdo quanto por seu andamento todo moderno. A. Décisier, L'apologétique de Savonarole, dans les Études, t. cxxiv (1910), p. 483.
3° Trabalhos pragmáticos. Além das obras escriturísticas, filosóficas e teológicas, os pregadores forneceram uma produção literária considerável, com vistas a atender às necessidades de todas as classes sociais, e que chamaremos literatura pragmática, ou prática, para poder simplificar nossa exposição. Os pregadores compuseram, para utilidade dos clérigos, tratados teóricos de pregação, modelos ou matérias de sermões e coleções de discursos. Encontram-se, entre as mais antigas dessas produções, as Distinctiones e o Dictionarius pauperum de Nicolau de Biard (f 1261), o Tractatus de diversis materiis praedicabilibus de Estêvão de Bourbon (f 1261), o De eruditione praedicatorum de Humberto de Romans (f 1277), as Distinctiones de Nicolau de Goran (f 1295) e de Maurício da Inglaterra (f por volta de 1300), etc. Script, ord. praed., t. ii, p. 968, 970 ; Lecoy de la Marche, La chaire française au moyen âge, Paris, 1886 ; T. F. Crane, The « exempla » or illustrative stories from the « Sermones vulgares » of Jacques de Vitry, Londres, 1890.
Os pregadores abriram caminho na composição das grandes coleções de vidas de santos ou legendários, visando ao mesmo tempo à utilidade dos clérigos e à edificação dos fiéis. Bartolomeu de Trento redigiu seu Liber epilogorum in gesta sanctorum em 1240.
Rodrigo de Cerrate compôs, depois de meados do século XIII, uma coleção de Vitae sanctorum, Madrid, Universidade, cod. 146. A Abbreviatio in gestis et miraculis sanctorum, composta em 1243, segundo o Speculum historiale de Vicente de Beauvais, é obra de João Mailly. A Legenda sanctorum de Tiago de Voragine, universalmente conhecida sob o nome de Legenda áurea, foi redigida por volta de 1260. O sucesso do livro, escreve o P. Poncelet, bolandista, « foi prodigioso ; ultrapassa de longe o de todas as outras compilações análogas. » Foi, aliás, traduzido cedo em todas as línguas vulgares da Europa. O Speculum sanctorale de Bernardo Gui é um trabalho de caráter muito mais científico, cujas três primeiras partes foram concluídas em 1324, e a quarta em 1329. Pedro Calo (f 1348) empreendeu, por volta da mesma época, sob o título de Legendae sanctorum, uma « imensa compilação », procurando ser mais completo que seus predecessores. A.
Poncelet, Le légendier de Pierre Calo, em Analecta bollandiana, t. xxix (1910), p. 5-116.
A literatura catequética é também abordada desde cedo pelos pregadores. Raimundo Martini redige, em 1256-1257, a sua Explanatio symboli ad institutionem fidelium. Revue des bibliothèques, t. vi (1896), p. 32; J. M. March, La « Explanatio symboli », obra inédita de Ramon Marti, autor del Pugio fidei, em Anuari de l'Institut d'Estudis Catalans, 1908, e Barcelona, 1910. São Tomás escreveu quatro pequenos tratados que representam a matéria de um catecismo, tal como era entendido na Idade Média: De articulis fidei et Ecclesiae sacramentis; Expositio symboli; De decem praeceptis et lege amoris; Expositio orationis dominicae. A. Portmann e X. Kunz, Katechismus des hl. Thomas von Aquin, Lucerna, 1900. Lourenço de Orléans compôs, em 1277, a pedido de Filipe, o Ousado, de quem era confessor, um verdadeiro catecismo em língua vulgar, conhecido sob o nome de Somme le Roi. Mandonnet, Laurent d'Orléans, l'auteur de la Somme le Roi, na Revue des langues romanes, 1913, p. 20. Ver t. n, col. 1900. No começo do século XIV, Bernardo Gui compôs um compêndio da doutrina cristã, que retomou mais tarde, tendo-se tornado bispo de Lodève (1324-1331), numa espécie de catecismo para uso de seus párocos, para a instrução dos fiéis. Notices et extraits de la Bibliothèque nationale, Paris, 1879, t. xxvii b, p. 362; C. Douais, Un nouvel écrit de Bernard Gui. Le synodal de Lodève, Paris, 1894, p. vii. O Discipulus (1418) de João Herolt gozou em seu tempo de notável crédito. N. Paulus, Johann Herolt und seine Lehre. Ein Beitrag zur Geschichte des religiösen Volksunterrichts am Ausgang des Mittelalters, em Zeitschrift fur kath. Théologie, t. xxvi (1907), p. 417.
Os pregadores também puseram a mão em obras de pedagogia. Guilherme de Tournai escreveu um pequeno tratado De modo docendi pueros (Paris, Bibl. nat., lat. 16435), que o capítulo geral de 1265 recomendou, assim como a pregação e a confissão para as crianças das escolas. Acta cap. gen., t. i, p. 125; Scriptores ord. praed., t. i, p. 349. Vicente de Beauvais escreveu particularmente para a educação dos príncipes. Compôs primeiro (1250-1252) o seu De eruditione filiorum regalium, Basileia, 1481, depois o De eruditione principum, publicado entre as obras de São Tomás, a quem foi atribuído erroneamente, assim como a Guilherme Perrault; enfim (por volta de 1260), o Tractatus de morali principis institutione, que é uma obra de conjunto permanecida inédita. Script. ord. praed., t. i, p. 239; R. Friedrich, Vincentius von Beauvais als Pädagog nach seiner Schrift De eruditione filiorum regalium, Leipzig, 1883. Nos últimos anos do século XV, Giovanni Dominici compôs uma obra muito estimada sobre o governo da família: Regola del governo di cura familiare, edit. D. Salvi, Florença, 1860. Santo Antonino de Florença é o autor de uma Regola a ben vivere, edit. Palermo, Florença, 1858.
Enfim, os pregadores compuseram escritos para o governo da Igreja e dos Estados. Conhece-se o tratado de São Tomás De rege et regno, destinado ao rei de Chipre (concluído por Ptolomeu de Lucca) e o De regimine subditorum, redigido a pedido da condessa de Flandres. Humberto de Romans compôs, a pedido de Gregório X, um tratado sobre as matérias que deviam ser examinadas no II Concílio geral de Lyon (1274). Esta obra testemunha, naquele que é o seu autor, um conhecimento excepcional da situação da cristandade inteira. Este escrito é publicado, sem nenhuma atribuição, na Maxima bibliotheca, Colônia, t. xxv (1551), p. 967, e reproduzido do mesmo modo em E. Brown, Appendix ad fasciculum rerum expectandarum, Londres, 1690, p. 185; em resumo, com atribuição, em Martène, Amplissima collectio, t. vii, p. 174. Jerônimo Savonarola redigiu, a pedido do governo florentino, os seus Trattati circa il regimento e governo della città di Firenze, edit. Audin de Rians, Florença, 1847, nos quais demonstra um senso político superior.
Quétif-Échard, Scriptores ordinis praedicatorum, t. i; H. Hurter, Nomenclator, Innsbruck, t. ii (1906); U. Chevalier, Répertoire des sources historiques du moyen âge, Bio-bibliographie, Paris, 1905.
citaremos as ordenações do capítulo geral de Salamanca, em 1551, porque ele nos apresenta em resumo o espírito da autoridade da ordem em matéria de ensino e estabelece o texto da Suma de São Tomás para todas as escolas da ordem: Ordinamus non solum : ut in sacra theologia, sed eliam in pliilosophia, ab omnibus lectoribus legatur, dcclaretur cl defendatur stmper doclrina sancti Thomse, sicut mandatum est a patribus nosiris in pluribus capitults generalibus ita ut in summulis legatur ab omnibus Hispanus, ; Pelrus et bene inlelligalur, rejeclis sophislicis argutiis; in logica, textus Aristolelis, et in pliilosophia similUer, cum inlegro commento sancli Thomse, reliclis inutilibus et sophislicis argumcnlis. In sacra theologia, item declaretur lotus articulus, scilicet sancli Thomse, et ex ipsomet sancto Thoma elucidetur, et difficultatibus respondentur, ut habelur apud Capreolum et Cajelanum, relictis propriis phanlasiis et scarlafaccis, a quorum scribendorum obtigalione omnes et singulos scholares absolvimus, nolentes eos ad id posse a quoquam, magistro generali inferiore, de cselero obligari. Acta cap. gen., m, p. 316. t. A consequência da introdução da Suma teológica de São Tomás como livro de texto foi o aparecimento da longa linhagem dos comentadores da Suma. Os primeiros comentários da Suma teológica são os de Tomás de Vio Caetano, compostos de 1507 a 1522, considerados o intérprete clássico de São Tomás; os de Conrado Köllin, sobre a P IP, Colônia, 1512; os de Francisco de Vitória, que permaneceram manuscritos (f 1546); os de Bartolomeu de Medina, sobre a P IP, Salamanca, 1577, e a IIP, Salamanca, 1578; os de Domingos Báñez sobre a P, Salamanca, 1584-1588, a IP IP, 1584-1594, e a IIP, que permaneceu manuscrita. Os comentários de Francisco Silvestre de Ferrara sobre a Suma contra os gentios gozam de grande autoridade. Veneza. 1534. Scripl. ord. j>r;cd., t. n; Hurter, Nomenclalor, t. ii-m. — //.
O HUMANISMO E A TEOLOGIA TOMISTA. A decadência teológica do século XIV e do século XV foi obra das escolas dissidentes do tomismo, sobretudo do nominalismo. Os comentários de Gabriel Biel sobre as Sentenças podem dar uma ideia do estado de poeira em que havia caído o ensino teológico no início do século XVI. Preservada contra os perigos da decadência pelo estudo constante das obras de santo Tomás, a sua escola não se perdeu nem nas sutilezas nem nas doutrinas aventureiras. Tomás de Vio Caetano, cuja obra filosófica e teológica é de primeiríssima ordem, permanece ainda no método de exposição medieval. Sem dúvida ele é um teólogo de transição por sua originalidade e sua independência pessoal; mas seu método, assim como sua língua, são ainda medievais, e é a isso que ele deve, depois de seu incomparável talento, a sua superioridade, mesmo sobre os maiores tomistas da nova era.
Uma coletividade como a dos pregadores, votados por vocação à vida doutrinal, não podia subtrair-se inteiramente ao grande movimento literário humanista do fim do século XV e do começo do século XVI. Se os pregadores lutaram contra as imprudências e as audácias do humanismo, especialmente contra Reuchlin e Erasmo, nem por isso deixaram de sofrer a ação do Renascimento no domínio das letras e das artes. Forneceram mesmo a esse duplo movimento contribuições muito notadas, seja com letrados à maneira de Francisco Colonna, o autor do célebre Sonho de Polifilo (1499), e de Mateus Bandello, um dos novelistas italianos mais conhecidos do século XVI; seja com artistas como fra Bartolomeo, Guilherme de Marcillat e fra Carnevale. Mas o que nos interessa aqui é a ação que o humanismo exerceu sobre os teólogos dominicanos.
Foram os pregadores espanhóis que entraram mais rapidamente e mais generalizadamente no movimento de humanização da teologia. Essa revolução foi obra de Francisco de Vitória. Educado na universidade de Paris, onde teve por mestre Pedro de Bruxelas, Vitória levou à Espanha um programa de renovação teológica que executou durante os vinte anos de ensino em que ocupou a primeira cátedra de teologia da universidade de Salamanca (1526-1546).
Novo Sócrates, Vitória, em seu ensino, não deu outro fruto senão o que sua palavra produziu sobre um número considerável de ouvintes. Alguns de seus discípulos publicaram fragmentos de suas lições, dentre as quais várias, como as sobre o direito das gentes, são uma verdadeira criação. Mas subsistem numerosos manuscritos de seus cursos, registrados por seus ouvintes, e dos quais uma edição está em projeto. Vitória foi verdadeiramente o preceptor da Espanha teológica, e seus contemporâneos o cumularam dos mais raros elogios. Vitória abandonou o método cerrado e curto dos antigos tomistas para substituí-lo por um método de exposição literária, de uma língua sóbria e rica, embelezada pela erudição eclesiástica e da qual são afastados não somente os problemas sutis e as questões ociosas, mas também, ao que parece, boa parte da metafísica.
Dos discípulos que Vitória formou, nenhum é mais autêntico do que Melchior Cano (+ 1560), o célebre criador do método teológico com seu tratado geral De locis theologicis, edição póstuma, Salamanca, 1563. Além do talento e da originalidade de pensamento de que essa obra dá testemunho, ela é tributária do mais autêntico humanismo pela pureza e pela beleza da língua. Cano nela iguala os maiores latinistas do Renascimento; e assim, por uma estranha coincidência, um teólogo acaba por ter encerrado o movimento, já desaparecido, do humanismo do século XVI.
Domingos Soto (+ 1560), cuja formação primeira foi parisiense, mantém-se a igual distância do gosto humanista e da forma medieval. Os dois discípulos de Cano, Bartolomeu de Medina (+ 1581) e Domingos Báñez (+ 1604), escrevem em bela língua teológica, mas se aproximam mais do humanismo, sobretudo o primeiro, pela amplitude e pelo desenvolvimento da matéria que tratam e pelas preocupações de erudição, do que pela busca literária. Em Báñez, aliás, o retorno à grande tradição tomista, preocupada antes de tudo com o fundo e com os altos problemas, já está plenamente efetuado. Getino, Historia de un convento, Vergara, 1904; El maestro Fray Francisco de Viloria, dans La ciencia tomista, (1910)-m t. i I); Q. Albertini, L'œuvre de Francisco de Victoria et la doctrine canonique du droit de guerre, Paris, 1903; F. Caballero, Vida de Melchor Cano, Madrid, 1871; A. Viel, Dominique Soto, dans la Revue thomiste, xu (1904)-xiv (1906); P. Duhem, Dominique t. Solo et la scolastique parisienne, dans le Bulletin hispanique, t. xu (1910)-xiv (1913); P. Alvarez, Santa Teresa y el P. Báñez, Madrid, 1882.
Na Itália, os teólogos dominicanos sofreram menos fortemente do que na Espanha a ação do humanismo. Dois teólogos, contudo, merecem ser assinalados, Crisóstomo Javelli (+ 1538) e Ambrósio Catarino (+ 1553), menos por suas tendências literárias do que por suas tendências doutrinais.
É ao humanismo que devem, o primeiro, seu gosto pelas ciências morais e políticas, Opera omnia, Veneza, 1577, e, o segundo, suas qualidades de polemista, e ambos, inovações doutrinais sobre a predestinação e a [lacuna] que procedem dos humanistas eclesiásticos da época e das quais falaremos mais adiante. J. Schweizer, Ambrosius Catharinus Politus (1484-1553), Münster.
O humanismo pareceu prestar alguns serviços à teologia, dando-lhe uma língua mais elegante e acessível, enriquecendo suas exposições com desenvolvimentos de erudição e de história. Na realidade, ele lhe fez incomparavelmente mais mal do que bem. Destruiu o espírito científico e filosófico do [século XIII], suprimindo ou substituindo arbitrariamente a síntese metafísica que fora realizada pelo [gênio] de são Tomás. Dissimulou sua pobreza e sua nudez de fundo sob acúmulos de materiais estranhos à própria ciência e sob amplificações de exposição que fatigam e desorientam o leitor, em vez de convencer-lhe o espírito. O humanismo pôde, em aparência, vivificar a teologia; foi, na realidade, o obstáculo que deteve até os nossos dias a restauração da filosofia e da teologia cristãs. Ainda estamos, com demasiada frequência, sob [o domínio da] demonstração pelos lugares-comuns da retórica, em vez de ceder ao império da razão [e da experiência]. Revue thomiste, 1902, p. 604.
Embora [os teólogos] da ordem dos frades pregadores tenham aderido mais ou menos ao gosto do tempo, durante [certo período], mantiveram-se, contudo, de ordinário, dentro de justos limites; [censura-se] mesmo a alguns deles, [como] a tantos outros, uma difusão [excessiva], que, como [se] os rejeitasse, [um] método, nos antípodas dos hábitos pedagógicos [do século XIII]; ao menos permaneceram eles, em sua totalidade, fiéis às ideias e às doutrinas do [mestre e] de sua escola. Alguns, porém, deram [origem a] pontos doutrinais cuja ação [se exerceu] fortemente, durante [longo tempo], sobre a teologia. Nós [os designamos]: Catarino [e sua doutrina da predestinação] e [a de] Medina, com a invenção do probabilismo.
Essas duas doutrinas, inteiramente heterogêneas à doutrina tomista, nasceram de um estado de espírito humanista: a falta de [rigor], uma compreensão filosófica [insuficiente] e a tendência à simplificação excessiva dos problemas árduos do dogma e da moral tomista. Admirar-se-á, em todo caso, a riqueza doutrinal da árvore tomista, ao ver destacarem-se de seu pé esses dois rebentos selvagens, que mãos estranhas à ordem dos pregadores adotaram e cultivaram com cuidados no mínimo excessivos. Depois de ter dado à Igreja, na Idade Média, sua maior escola de teologia, a ordem dos pregadores deu aos tempos modernos os dois grandes chefes de fila da teologia humanista. Voltaremos a encontrá-los mais adiante.
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III. OS FRADES PREGADORES E O PROTESTANTISMO. Quando a revolução religiosa do início do século XVI eclodiu na Alemanha e lançou toda a Igreja em profundo desconcerto, os pregadores, em razão de sua vocação doutrinal, bem como do lugar que ocupavam no alto ensino e na administração eclesiástica, viram-se nas primeiras fileiras para suportar o assalto dos agressores e defender a cidadela da Igreja. O célebre pregador de indulgências João Tetzel teve de sofrer os primeiros ataques de Lutero desde 1517. Defendeu corretamente a doutrina tradicional católica, e a crítica histórica o lavou das calúnias com que Lutero procurou manchar sua memória. N. Paulus, Johann Tetzel der Ablasspredigcr, Mogúncia, 1899; Zur Biographie Telzel's, em Der Katholik, 1901, t. i; Mandonnet, Jean Tetzel et sa prédication des indulgences, na Revue thomiste, 1899, p. 481. Foi o cardeal Caetano, antigo mestre-geral da ordem, quem teve de tratar, como legado pontifício, com Lutero por ocasião da dieta de Augsburgo (outubro de 1518). O cardeal, habituado a lidar com os homens, procedeu com Lutero com muita mansidão, mas nada pôde obter de um homem já obstinado em sua revolta. O caso de Lutero seguiu seu curso na cúria romana, e Caetano e diversos teólogos dominicanos tiveram de tomar nele uma parte importante. Ver t. ii, col. 1317; P. KalkolT, l'orchungcn zu Lulhcrs rômischem Prozess, Roma, 1905; Zu Lulhcrs rômischem Prozess, Gotha, 1912. Mas foi sobretudo por sua atividade literária que os pregadores enfrentaram Lutero e seus adeptos, que inundavam a Alemanha e o mundo com seus escritos. Um dos sábios mais versados na história das perturbações religiosas do século XVI, N.
Paulus, resumiu nestas palavras o papel dos frades pregadores na Alemanha em sua resistência ao protestantismo: "Temos o direito de dizer que, na difícil luta que a Igreja católica teve de sustentar na Alemanha, no século XVI, nenhuma outra sociedade religiosa forneceu escritores tão numerosos e tão bons quanto a ordem de São Domingos", p. vi. Os frades pregadores, aliás, não limitaram sua atividade literária contra a reforma apenas aos países germânicos. O esforço foi geral e prolongado, e a autoridade superior da ordem, nos primeiros capítulos realizados após a revolta de Lutero, exorta com veemência os religiosos a lutar por todos os meios contra a heresia e, se necessário, a sofrer o martírio. Acta cap. gen., t. iv, p. 200. Os mestres-gerais acrescentavam por suas cartas o peso de sua autoridade ao dos capítulos, assim como Garcia de Loaysa, em sua carta circular de 1523, exorta especialmente os frades ao estudo das ciências sagradas, em razão das necessidades especiais da hora, diante da heresia: Quod si aliquo unquam tempore christiano populo fuit utile ac salutare, maxime necessarium, nunc cum vineam Domini truculentus aper exterminet, singularis ferus et pravis diversisque dogmatibus Christi fidem depascatur ; pro qua tuenda majores olim nostri scribendo atque praedicando, vitas, corpora, animasque posuere. Acta cap. gen., t. iv, p. 180.
Os pregadores que entraram em luta contra Lutero pela pena durante os primeiros anos das perturbações luteranas (1518-1521) forneceram a principal parte da polêmica católica, e têm direito, ao que parece, a que se escrevam aqui seus nomes: João Tetzel, Silvestre Prierias, Isidoro de Isolanis, Radini-Tedeschi, Ambrósio Catarino, Tomás de Vio, Cipriano Benêt, Tiago Hochstraten, Eustáquio de Zichenis. Os pregadores alemães forneceram, como era justo, o primeiro e principal esforço contra Lutero e a revolução protestante. N. Paulus, que se fez o historiador dos que estiveram mais em evidência, consagrou-lhes trinta e três monografias. Todos lutaram pela palavra e pela ação, e também, em sua maioria, pela pena. Encontramos entre os principais polemistas João Mensing, Pedro Sylvius, Mateus Sittard, João Dietenberger, Ambrósio Pelargus, Miguel Vehe, João Fabri de Heilbronn, Bartolomeu Kleindienst.
Os pregadores italianos também foram os primeiros e os mais numerosos a enfrentar Lutero e seus adeptos. O recente historiador dos adversários literários italianos de Lutero, F. Lauchert, escreve: "Entre as diferentes ordens religiosas, os dominicanos, na Itália como na Alemanha, ocupam, por seu número, o lugar principal", p. 1-2. Os que foram mais ativos, e que gozam de particular reputação, são Silvestre Prierias, Ambrósio Catarino e Tomás Caetano. N. Paulus, Die deutschen Dominikaner im Kampfe gegen Luther (1518-1563), Friburgo em Brisgóvia, 1903; F. Lauchert, Die italienischen literarischen Gegner Luthers, Friburgo em Brisgóvia, 1912; H. de Jongh, L'ancienne faculté de théologie de Louvain au premier siècle de son existence (1432-1540), Lovaina, 1911; J. Schweizer, Ambrosius Catharinus Politus (1484-1553), Münster, 1910.
Os pregadores que se mostraram valentes defensores da Igreja diante do protestantismo tiveram de sofrer suspeitas pouco ou nada justificadas na pessoa de alguns dos numerosos prelados que ocupavam cargos episcopais. O perigo era tal na Igreja que as menores suspeitas criavam os mais graves embaraços aos chefes das dioceses.
Foi assim que, em 1548, Jacques Nachianti, bispo de Chioggia, foi ameaçado com um processo na corte de Roma, do qual, aliás, saiu perfeitamente ileso. G. Buschbell, Reformation und Inquisition in Italien um die Mitte des xvi Jahrhunderts, Paderborn, p. 160. Gilles Foscarari, bispo de Módena, foi envolvido, em 1558, no processo do cardeal Morone, mas foi plenamente reabilitado, em 1560, pelo cardeal Alexandrino, inquisidor-geral, e Foscarari, como Nachianti, apareceu com honra no concílio de Trento. Scriptores ord. praed., t. ii, p. 185. A causa do célebre Bartolomeu de Carranza, arcebispo de Toledo e primaz da Espanha, foi motivada pela publicação de seu catecismo em língua vulgar, Antuérpia, 1558. Seu longo processo, iniciado na Espanha e concluído em Roma, fez resplandecer a santidade de sua vida sem atingir a integridade de sua fé. Scriptores ord. praed., t. ii, p. 236 ; Colección de documentos inéditos para la Historia de Espana, Madrid, 1844, t. v ; Menedez Pelayo, Los heterodoxos Espanoles, Madrid, 1880, t. ii, p. 359 ; B. Martin Minguez, Vindicación del Sr. D. Bartolomé Caranza de Miranda, arzobispo de Toledo, Madrid, 1902 ; J. Cuervo, Carranza y el Dr. Navarro, em Revista Ibero-Americana, t. iii (1902), p. 601 ; t. iv (1902), p. 50, e La ciencia tomista, t. vi (1913), p. 369.
Os pregadores pagaram, aliás, com seus bens e com suas pessoas, em todos os países onde grassou o flagelo das guerras de religião, engendrado pelo protestantismo. Um número considerável de conventos foi saqueado e arruinado, seus habitantes maltratados, e um número bastante grande de religiosos foi morto. Um deles, João de Gorcum, foi canonizado. As religiosas dominicanas da Alemanha, diante das seduções e das violências da reforma, mostraram-se particularmente heroicas. A. Mortier, Histoire des maîtres généraux de l'ordre des frères prêcheurs, t. v ; K. Rothenhänsler, Standhaftigkeit der altwürttembergischen Klosterfrauen im Reformations-Zeitalter, Stuttgart, 1884.
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IV. A teologia humanista e o catarinismo. Alguns teólogos dissidentes da ordem dos frades pregadores iriam, no século XVI, como Durand de Saint-Pourçain no século XIV, criar novas correntes teológicas. Um deles foi Ambrósio Catarino Politi. As novas doutrinas sobre a predestinação e a graça, que esse escritor pôs em circulação, tinham antecedentes entre os teólogos humanistas do século XVI; mas nenhum deles as expôs de maneira tão sistemática nem as sustentou com tanta audácia quanto ele. É por isso que o catarinismo encarna mais especialmente os desvios da teologia humanista.
O centro do rudimento doutrinal que forma a teologia de Lutero era a negação do livre-arbítrio. Essa posição devia ser particularmente combatida pelos teólogos católicos. « Infelizmente, os primeiros polemistas católicos que se empenharam nesse caminho estavam pouco e mal preparados para essa empresa. Pertenciam ao meio humanista, ou, pelo menos, não eram profissionais da teologia. Ao defenderem as teses da ortodoxia católica contra o dogma luterano, abandonaram mais ou menos completamente a grande orientação criada nessas matérias por santo Agostinho e santo Tomás de Aquino, a qual dominava havia muito tempo, malgrado algumas dissonâncias secundárias, a teologia católica. Apanhados desprovidos de uma formação técnica e segura, entregaram-se ao seu gosto e à sua iniciativa pessoais, procurando abrigar-se, bem ou mal, atrás de alguns escritores gregos, tais como Orígenes e Crisóstomo, cujas opiniões esparsas jamais haviam constituído um sistema nessas matérias, nem gozado na Igreja de crédito apreciável. A intervenção desses teólogos improvisados teve por efeito criar, no interior da teologia católica, uma nova antítese, cujas consequências seriam de longo alcance. Durante quase dois séculos e meio, as polêmicas dogmáticas na Igreja católica deverão mover-se no terreno delimitado pela dogmática luterana, e pôr em confronto as antigas escolas agostiniana e tomista com as teorias oriundas da teologia humanista. »
A polêmica de Erasmo e de Lutero sobre o livre-arbítrio (1525-1527) abre fogo com estrondo, embora com pouca luz. O humanista, sem estudo da teologia clássica da Igreja, improvisa suas soluções; e apesar de sua circunspecção, chega a afirmar enormidades, como esta: Sine Dei voluntate nihil fit, fateor ; sed generaliter illius voluntas pendet a nostra voluntate. H. Humbertclaude, Érasme et Luther. Leur polémique sur le libre arbitre, Paris, 1910 ; K. Zickendraht, Der Streit zwischen Erasmus und Luther über die Willensfreiheit, Leipzig, 1909 ; Ch. Andler, Étude critique sur les relations d'Érasme et de Luther, Paris, 1909 ; Ch. Goerung, La théologie d'après Érasme et Luther, Paris, 1913. Jacopo Sadoleto, um dos grandes humanistas italianos e bispo de Carpentras, mais tarde cardeal, em comércio literário com Erasmo, começou, sob a influência deste, a comentar a Epístola aos Romanos. A obra apareceu em Lyon, em 1535. Não escapou à censura romana. Já Sadoleto ultrapassa Erasmo em imprudência, pois, sem fio condutor, tende a ser mais sistemático. Abandona, criticando-a vivamente, a doutrina de santo Agostinho, para colocar-se a reboque do comentário de Crisóstomo sobre são Paulo, cujo texto grego acabava de ser publicado em Verona (1529). S. Ritter, Un umanista teologo, Jacopo Sadoleto (1477-1547), Roma, 1912. O exemplo de Sadoleto arrastou o beneditino Lúcio de Otobonis de Mântua, que publicou, em Bréscia, 1538, comentários aos sermões de são João Crisóstomo sobre a Epístola aos Romanos : in eos, qui Chrysostomum divinam extenuasse gratiam, arbitriique libertatem supra modum extulisse suspicantur et accusant. A obra de Lúcio de Mântua foi posta no índice por Paulo V (1559). Alberto Pighius, outro humanista, dedicou a Sadoleto um De libero hominis arbitrio et divina gratia, Colônia, 1542, no qual ultrapassa ainda seu mestre, e não hesita em qualificar a opinião de santo Agostinho sobre a predestinação ut parum probabilem, nec divinae bonitatis dulcedini admodum congruentem, fol. 134. Linsenmann, Albertus Pighius und seine theologischer Standpunkt, dans Tübinger theologische Quartalschrift, 1866, p. 571. Alguns outros autores enveredaram ainda pelo mesmo caminho, como o autor anônimo que publicou os Commentarii in Pauli ad Romanos et Galatas Epistolas, Lyon, 1544.
Mas foi Ambrósio Catarino que concentrou, sozinho, todo esse movimento de deserção em relação à teologia tradicional. Com sua falta de senso teológico e sua audácia, tranquilizado pelos amigos e pelas altas proteções que possuía na corte romana, sintetizou a nova teoria sem cobri-la de restrições e de evasivas, confessando, sem escrúpulos, o que os outros haviam omitido ou dissimulado. Começou a expor sua doutrina em seu De praescientia, providentia et praedestinatione Dei, Paris, 1541, e voltou várias vezes mais tarde a essas matérias e a outras que lhes são conexas. O fundo de sua doutrina é que, em matéria de salvação, os homens formam uma dupla ordem: a dos predestinados e a dos não predestinados. Os primeiros, muito numerosos, recebem graças de tal natureza que não pode acontecer que não se salvem.
Seu número é determinado e não pode ser aumentado nem diminuído, tanto em relação à presciência quanto à providência divina, e essa condição não destrói o livre-arbítrio. Os não predestinados podem salvar-se, embora o seu número seja determinado na ciência divina; não o é na ordem da providência de Deus, do contrário o livre-arbítrio seria destruído. Assim, Deus permite que diversas coisas que ele não previu de maneira certa cheguem à existência, e isso ocorre especialmente com o que depende do nosso livre-arbítrio. É fácil notar as contradições de que essa doutrina, e a falta de noções filosóficas que ela implica, estão marcadas. Ela devia, contudo, inspirar aqueles que se aplicaram a assinalar-lhe as lacunas, modificando, porém, notavelmente o fundo. Script. ord. praed., t. ii, p. 144 ; J.
Sdrwelzer, Ambmlilus (1484-1553), Munster, 1910. ... de Lovaina, ... daquilo que há de ... , mas é ao preço de que eles não chegam ... influências agostiniano-tomistas ... circulação pelos teólogos humanistas de que falamos. Tais são Jean Driedo († 1535), De gratia et libero arbitrio; De concordia liberi arbitrii et prœdcslinalionis divinœ, Louvain, 1537; Ruart Tapper (1559), Explicaliones arliculorum ven. facultalis S. Iheologise Lovaniensis circa dogmata ccclcsiastica ab annis triginla quatuor controversa, Anvers. Louvain, 1545-1547; e Jean de Bologne, De œterna Dei pnrdestinatione et reprobatione, Louvain, 1544. M. de Baets, Quœsliones de operibus divinis quœ respiciunt crealuras, Louvain, 1903. —
V. OS FRADES PREGADORES E O CONCÍLIO DE TRENTO. Os frades pregadores tomaram parte importante no concílio de Trento, tanto pelo número e pela qualidade dos prelados e dos teólogos que a ordem forneceu quanto pelo papel doutrinal preponderante que desempenhou são Tomás de Aquino nas discussões teológicas e na redação dos decretos conciliares. O pessoal que a ordem forneceu ao concílio distribui-se entre os arcebispos e bispos, os procuradores de prelados ausentes, os teólogos designados pelos papas e pelos príncipes, os teólogos dos bispos e alguns outros que ali apareceram a títulos especiais. O mestre geral da ordem teve voto deliberativo como os bispos. Os pregadores presentes em Trento foram mais ou menos numerosos conforme os três períodos do concílio, cujo número de membros foi bastante diferente.
Sob Paulo IV (1545-1549), o concílio contou dez arcebispos ou bispos dominicanos, dos quais a maioria desenvolveu grande atividade, como Sebastião Lecavella, arcebispo de Naxos, Tomás Stella, bispo de Salpe, Tiago Nacchianti, bispo de Chioggia, Ambrósio Catarino, bispo de Minori, Pedro Bertano, bispo de Fano, Tomás Casella, bispo de Bertinoro. O geral da ordem, Francisco Romeu de Castiglioni, assistiu apenas a uma parte das sessões. Bartolomeu de Carranza e Domingos Soto foram delegados pelo imperador Carlos V, e três outros frades pregadores foram enviados ao concílio em nome de João III, rei de Portugal. Cerca de quinze outros teólogos dominicanos também estiveram presentes a títulos diversos.
Sob Júlio III (1551-1552), o concílio teve menos importância e a ordem contou nele apenas três Padres e uma dúzia de teólogos. Entre estes últimos, além do mestre geral já nomeado, Bartolomeu de Carranza e Melchior Cano, delegados por Carlos V. Sob Pio IV (1562-1564), encontramos no concílio cinco arcebispos e uns vinte bispos dominicanos, e mais de trinta teólogos, dos quais quatro delegados pelo papa, dois por Filipe II e dois por Sebastião de Portugal. Dom Bartolomeu dos Mártires, bispo de Braga e primaz de Portugal, tomou, com Pedro de Soto, antigo confessor de Carlos V, parte preponderante na questão da residência dos bispos de direito divino.
Em nenhum momento a escola tomista teve interesses mais graves em jogo no concílio do que durante o primeiro período. Foi, com efeito, nesse momento que foram tratadas as questões dogmáticas relativas à justificação, ponto central da teologia, que confinava com grande número de outras. É verdade que o concílio havia declarado querer definir a fé católica para repelir os erros luteranos, e não para tomar posição entre as opiniões dos doutores católicos. Mas, pela força mesma das coisas, não se podia aprofundar uma questão sem se encontrar diante das opiniões dos doutores católicos e, em particular, das de são Tomás. A situação para a escola tomista tirava sua gravidade do fato de que um certo número de personagens presentes no concílio eram nitidamente malévolos para com as doutrinas de são Tomás.
Ambrósio Catarino, o dominicano trânsfuga, estava presente no concílio, embora o capítulo geral da ordem, realizado em Roma, em L642, tivesse feito extrair quinze proposições de suas obras, consideradas errôneas. Catarino tinha sido conduzido ao concílio por um dos legados, o cardeal del Monte, que outrora fora seu aluno, e que permaneceu seu constante protetor. Irrequieto e audaz como era, Catarino constituiu-se no centro do grupo de teólogos humanistas que se encontravam no concílio. Encontrou seus melhores apoios em Luciano de Mântua, então abade de Pomposa, em Diogo Laynez, S. J., e em alguns outros. Sadoleto, em relação com o grupo humanista, o encorajava por suas cartas e suas elucubrações teológicas. Outro dos legados, o cardeal Cervini, era manifestamente favorável ao partido catarinista e nem sempre sabia dissimular suas simpatias pessoais em funções que deveriam tê-lo colocado acima das escolas ou das facções.
Felizmente, bom número de Padres e de teólogos mantinha-se na direção da teologia agostiniana e tomista. Domingos Soto, em particular, que gozava de grande crédito, opôs-se a Catarino. Viu-se mesmo, por um momento, o concílio oferecer-se em espetáculo esses dois pregadores, tornados inimigos, porque Catarino houvera por bem levantar diante da assembleia de Trento a questão da certeza individual do estado de graça. O combate prosseguiu, aliás, por escrito entre os dois protagonistas, querendo Catarino indevidamente trazer para si as resoluções do concílio.
Diante da desenvoltura dos teólogos catarinistas, sobretudo depois de um discurso infeliz de Luciano de Mântua, O.S.B., que ele aliás teve de retratar, o mestre geral da ordem dos pregadores protestou contra o pouco respeito que certos teólogos se permitiam testemunhar a são Tomás. A posição dos tomistas no concílio achava-se, aliás, fortalecida pela comissão que Paulo III havia nomeado em Roma para estudar simultaneamente a questão da justificação, e cujos pareceres e opiniões eram transmitidos aos presidentes do concílio. Entre os cinco membros dessa comissão, três eram dominicanos, entre os quais o mestre do sacro palácio, Bartolomeu Spina, o mais ativo de todos.
O decreto sobre a justificação, que exigira tão longo tempo para sua elaboração, foi finalmente redigido numa forma em que, evitando a terminologia da escola, os Padres se mantinham tanto quanto possível no terreno comum da tradição católica geral. Não puderam, contudo, nos pontos mais delicados, dispensar o auxílio de santo Tomás.
Assim, o texto do decreto sobre o modo da preparação para a justificação, sess. vi, c. vi, é tomado, nos seus menores detalhes, de um artigo da Suma teológica, IIIª, q. lxxxv, a. 5. O decreto enumera seis atos preparatórios para a justificação. São os mesmos, quanto à sua natureza, ao seu número e à sua ordem, que em santo Tomás. Igualmente, no capítulo seguinte do mesmo decreto, os Padres, ao assinalarem as causas da justificação, reproduzem a doutrina de santo Tomás na sua Suma teológica, IIª, cxn, Iª q. a. 1; IIª IIª, q. xxiv, a. 3. A autoridade de santo Tomás, aliás, devia permanecer preponderante no restante do concílio. Alguns dos escritos de Catarino, em contrapartida, só escaparam à condenação do concílio, em 1563, graças aos bons ofícios de Afonso Salmerón, S. J., a quem Catarino havia conferido o barrete de doutor, em 1549, assim como a dois outros de seus confrades.
Uma antiga tradição relata que a Suma teológica de santo Tomás fora colocada ao lado da Bíblia na sala do concílio. Seja como for quanto ao fato, essa tradição era o símbolo do lugar efetivamente ocupado pela doutrina de santo Tomás nas discussões e nas decisões dos teólogos e dos Padres de Trento. Um dos bispos presentes ao concílio no tempo de Pio IV, Jerônimo Vielmi, O. P., escrevia e publicava, no momento em que o concílio se encerrava, um elogio de santo Tomás, no qual traduz assim a atitude geral dos Padres em Trento: Ccrlc in hac Tridenlina œcumenica sgnodo, cum : frcquenlissimam celebramus, quam, haec scribimus, nemo Palrum esse videtur, cui religio non sil, cum de fldci dogmatibus agitur, a Thomse senlentia vel lalum unguem recedere, aut ab Ma provocare. De D. Thomas Aquinatis doctrina et scriplis, Viena, 1763, p. 79 (a 1ª edição é de Veneza, 1564).
O concílio acabava de encerrar-se quando Pio V proclamou santo Tomás de Aquino doutor da Igreja (11 de abril de 1567), e, nos considerandos, faz valer que santo Tomás, por sua doutrina, reduziu as heresias no decorrer dos tempos, e que isso apareceu claramente, há pouco, pelos sagrados decretos do concílio de Trento e liquida: nuper in sacris concilii Tridenlini decrelis apparuit. Bull. ord. præd., t. v, p. 155. Enfim, quando, em 3 de novembro de 1593, Clemente VIII declarou aos religiosos da Companhia de Jesus, reunidos na quinta congregação geral, que seu desejo era que, em matéria de doutrina, seguissem santo Tomás, que é um doutor insigne, acrescentou que «o concílio de Trento havia aprovado e adotado suas obras.» A. Astrain, S. J., Historia de la Compañia de Jesús en la asistencia de España, Madri, t. iii (1909), p. 580.
Antes de se separar, o concílio havia empreendido a preparação de um catecismo oficial em que fosse exposta a doutrina da Igreja para uso do clero. A composição dessa obra foi confiada, pelo próprio concílio, a três religiosos dominicanos dos mais estimados dos Padres: Leonardo de Marinis, arcebispo de Lanciano; Egídio Foscarari, bispo de Módena, e Francisco Foreiro, teólogo do rei de Portugal. O trabalho, contudo, ainda estava em estado de esboço quando o concílio se separou. Os três teólogos continuaram a obra, que foi publicada por ordem de Pio V, sob o título de Calechismus ex decreio concilii Tridenlini ad parochos PU quinti pont. max. jussu edilus, Roma, 1566.
Esse catecismo é mais conhecido sob o nome de Catecismo romano, e goza na Igreja de uma autoridade doutrinal particular, em razão de sua origem e das recomendações que dele fizeram os soberanos pontífices. A. Reginaldus, De calechismi romani auctorilale, Toulouse, 1648; Nápoles, 1765. A. Theiner, Acta uenuina concilii Tridenlini, Agram, [1874]; Concilium Tridentinum, ed. Societas Goerresiana, Friburgo em Brisgóvia, 1901 sq. J. Schweizer, Ambrosius Catharinus Politus, Münster, 1910; J. Hefner, Die Entstehungsgeschichte des Trienter Rechtfertigimgsdekreles, Paderborn, 1909; A. Reginaldi, De mente S. concilii Tridenlini circa gratiam seipsa efjicacem, Antuérpia, 1706.
VI. O TOMISMO E O JANSENISMO. O Augustinus, obra póstuma de Cornélio Jansênio, bispo de Ypres, publicada em Lovaina em 1640, reabriu as polêmicas sobre as matérias da predestinação e da graça. Jansênio consagrara o labor de sua vida a essa exposição monumental das doutrinas de santo Agostinho. Seu pensamento era pôr em oposição esse ensinamento, tão autorizado na Igreja, com a nova teologia, especialmente a de Molina e de Suárez. O paralelo que ele estabeleceu no final de seus três volumes in-fólio, em trinta e poucas páginas, entre a doutrina semipelagiana dos marselheses e a de alguns teólogos recentes, não deixa dúvida sobre a finalidade prática de seu empreendimento. Infelizmente para ele, Jansênio pôs-se na escola de santo Agostinho passando por cima, de pés juntos, da teologia clássica da Idade Média, compreendida a de santo Tomás de Aquino, e cometeu o erro de crer que a tradição teológica pode ser tida como inexistente. Diante das imprecisões doutrinais de santo Agostinho, era perigoso perder de vista as precisões e a sistematização que santo Tomás trouxera à doutrina do bispo de Hipona. O Augustinus suscitou uma oposição muito viva na Companhia de Jesus, cujos teólogos eram atacados.
Num primeiro momento, os pregadores puderam crer que Jansênio era um aliado, já que combatia seus adversários. Mas, uma vez esclarecidos sobre o conteúdo do Augustinus, não hesitaram em rejeitar um concurso perigoso. Durante as polêmicas jansenistas e as fases sucessivas pelas quais passou o problema, os pregadores mantiveram sua atitude tradicional e permaneceram no terreno da doutrina de santo Tomás. Colocados entre os dois adversários, tiveram por vezes de suportar os golpes de uns e de outros, e foram alternadamente acusados de pactuar com os jansenistas ou com os molinistas. Mas esses argumentos de polemistas, que fazem flecha de qualquer madeira, não abalaram a resolução da escola. A autoridade da ordem, em particular, permaneceu sempre firme ao lado da Igreja romana, que declarou constantemente em suas condenações não querer atingir as doutrinas de santo Agostinho e de santo Tomás.
Tendo a agitação jansenista, desde a origem, por centros principais Lovaina e Paris, dois teólogos dominicanos nessas duas cidades escreveram contra a doutrina de Jansênio. Alexandre Sébille, regente dos estudos em Lovaina, publicou D. Auguslini et SS. Palrum : de libero arbitrio inlerprcs thomisticus adversus Cornclii Junsenii doclrinam, Mogúncia, 1652; e Bernardo Guyard, doutor da Universidade de Paris, Discrimina inter doclrinam thomisticam et jansenianam, Paris,
O caso das cinco proposições extraídas de Jansênio preocupou os teólogos e o geral da ordem quando foi levado a Roma. Parecia, com efeito, que as questões debatidas nas congregações De auxiliis iam ser retomadas. Como as duas partes presentes em Roma procuravam atrair para si o geral e seus conselheiros, para se prevalecerem deles, estes recusaram-se a aceitar qualquer outro terreno que não o das doutrinas de santo Tomás. Com esse fim, diversas memórias foram preparadas pela ordem. Mas o papa, que não queria reabrir a questão De auxiliis, limitou-se ao exame e à censura das cinco proposições (31 de maio.
Inocêncio X não cessou, aliás, de declarar constantemente que a censura de Jansênio não devia atingir de modo algum as doutrinas de santo Agostinho e de santo Tomás. Chegou mesmo a dar ordem, pelo cardeal Barberini, ao geral da Companhia de Jesus, de fazer saber a seus religiosos que não se prevalecessem da constituição contra santo Agostinho e a graça eficaz, sob pena de tomar medidas contra eles. Journal de M. de Saint-Amour, [...] o que se passou em Roma no caso das cinco proposições, s. 1., 1662, passim e p. 568.
[...] pela faculdade de teologia de [Paris] em janeiro de 1656, contra Antoine Arnauld, suscitaram [...] polêmicas. O P. Jean Nicolaï, O. P., professor na Universidade e regente no colégio de Saint-[...], foi particularmente implicado. Diversos escritos [se cruzaram] entre ele e Antoine Arnauld, que o acusava de abandonar as doutrinas de sua ordem. As Cartas provinciais de Pascal, que começaram [em janeiro de 1656], lançaram o debate ao grande público [...] tomou partido em suas [...] cartas contra o P. Nicolaï e aqueles que ele chama de novos tomistas.
Na realidade, ele não abandonara a doutrina de santo Tomás, mas se havia aliado, quanto à questão da graça suficiente, às ideias de [...] um dos [...] tomistas das discussões De auxiliis. Esse ponto de vista devia, aliás, [...] no século [...]. Mas nas polêmicas contra Nicolaï, Arnauld exagera, para as necessidades de sua causa, a posição doutrinal de seu adversário, que foi um escritor abundante e muito erudito. Script, ord. prxd., t. II, p. 647; Supplcmcntum novissimum, p. 3 [...]; Œuvres de messire Antoine Arnauld, Paris-Lausanne, 1775-1783, t. XIX-XX; Les Provinciales de Blaise Pascal, edição Molinier, Paris, 1891; J. Guillermin, De la grâce suffisante, na Revue thomiste, t. IX-XI (1901-1903); Nicolaï, Thomisticœ ac orthodoxse de gralia divina veritales jansenianis erroribus ac dogmalibus oppositœ, Paris, 1656; Judicium scu censorium suffragium, de propositione Anlonii Arnaldi, s. 1. n. d. [Paris, 1656].
A publicação da bula Unigenilus (8 de setembro de 1713) renovou e agravou as antigas perturbações do jansenismo. As 101 proposições condenadas, sem nenhuma determinação precisa do sentido da condenação, abriam a porta a todas as interpretações. Com preocupações diversas, jansenistas e molinistas declararam ver nelas a condenação das doutrinas de santo Agostinho e de santo Tomás, que a Igreja não deixara de cobrir com a sua autoridade. Bastaria simplesmente concluir que as proposições condenadas não o eram nem no sentido de santo Agostinho, nem no de santo Tomás. Mas aqueles que haviam provocado a constituição procuravam tirar dela o máximo de proveito para a sua escola.
A autoridade dos pregadores e a massa da ordem não hesitaram um só instante, diante do ato pontifício. Mas doutores e professores, lançados na refrega, seguiram o movimento de apelo que se formou contra a aceitação da bula, particularmente na França. O mais célebre dentre eles foi Noël Alexandre, doutor da universidade de Paris e historiador eclesiástico muito renomado. Os gerais da ordem reagiram energicamente contra os apelantes, que se submeteram à obediência quando viram, pelas declarações pontifícias, que as doutrinas tomistas estavam não somente incólumes, mas louvadas e favorecidas pela Santa Sé. R. Coulon, .Jacobin, gallican et « appelai! », le P. Noël Alexandre, dans la Revue des sciences philosophiques cl thêologiques, t. vi (1912), p. 9.
Os elogios que os papas fizeram mais tarde à doutrina de santo Tomás de Aquino afirmam que a bula Unigenitus deixa incólume a doutrina da escola tomista. O pontificado do papa dominicano Bento XIII viu retornarem à Igreja bom número de apelantes, e o P. Hyacinthe Aniat de Graveson, (). P., empenhou-se particularmente em reconduzir o cardeal de Noailles à aceitação da bula. Journal de l'abbé Dorsanne, Rome, 1753; Mémoires el instructions secrètes du cardinal de Noailles,s. 1., 1756: E. de Barthélémy, Le cardinal de Noailles d'après sa correspondance inédite (1651-1728), Paris, 1886.
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No século XVI viu-se nascer uma teoria nova, que tomou lugar na teologia moral e estava destinada a permanecer célebre sob o nome de teoria da probabilidade. As ideias de santo Tomás sobre as condições necessárias para agir licitamente no ato moral, quando a consciência não chega à certeza, eram das mais racionais e das mais claras. Em muitos atos humanos, só agimos com base em dados prováveis. A probabilidade, para santo Tomás, na esteira de Aristóteles, é a justificação de uma ação à qual os homens sábios dariam a sua aprovação. Ela é suficiente para agir. Contra a opinião provável há apenas uma opinião improvável, que não se poderia seguir. Quando a nossa razão parece encontrar igual probabilidade entre duas alternativas opostas, sem que nem uma nem outra seja provável, o espírito não possui senão o estado de dúvida, e não se pode agir nessa condição. É preciso esclarecer a dúvida por si mesmo ou por meio de outros, e seguir então a opinião provável, deixando de sê-lo a opinião contrária. Se não se pudesse sair da dúvida, seria preciso tomar a alternativa mais segura.
Foi um dominicano espanhol, Bartolomeu de Medina, primeiro professor de teologia na universidade de Salamanca, quem pôs em circulação uma doutrina nova, absolutamente irredutível à de santo Tomás. Foi ele quem criou a nova teoria geral sobre a probabilidade e a forma especial que tomou o nome de probabilismo. Expôs suas ideias em seus comentários à I-II da Suma teológica, q. XIX, a. 6, publicados em Salamanca em 1577. «Parece-me, diz ele, que, se uma opinião é provável, é permitido segui-la, mesmo quando a opinião oposta for mais provável.» Depois, no curso de sua demonstração, define assim a opinião provável: Uma opinião não é dita provável pelo simples fato de se apresentarem em seu favor razões aparentes e de haver pessoas que a afirmam e a defendem; nesse caso, todos os erros seriam opiniões prováveis. Uma opinião é provável quando é sustentada por homens sábios e confirmada por excelentes argumentos, de modo que não é improvável segui-la. É a definição de Aristóteles.
Vê-se quão preocupado está Medina, por sua definição da probabilidade, em fechar a porta ao laxismo depois de tê-la, na aparência, aberto pela afirmação de que se pode sempre seguir uma opinião provável, ainda que contradita por uma opinião mais provável. O erro não deixava de permanecer o mesmo: a possibilidade de que o sim e o não, sobre um mesmo objeto, tenham, na ordem moral, uma justificação suficiente. A teoria de Medina entrou em circulação sem alarde, numa época em que outras polêmicas atraíam a atenção para outro lugar. Medina tinha feito valer o lado utilitário de sua teoria, tal como os teólogos humanistas nas matérias da predestinação e da graça.
Certo número de dominicanos espanhóis seguiu seu confrade Bartolomeu: Domingos Báñez, Diego Alvarez, Luís López e Pedro de Ledesma. As novas teorias sobre a probabilidade penetraram um pouco por toda parte, sem consideração de escola. Os jesuítas, em geral, adotaram-nas; mas houve também entre eles opositores. A facilidade em tornar prováveis todas as opiniões, desde que as contraditórias pudessem sê-lo, não tardou a conduzir a graves abusos. As Provinciais de Pascal, em 1656, lançaram ao domínio público essas questões que até então haviam permanecido no interior das escolas. O escândalo foi grave, e Alexandre VII notificava, nesse mesmo ano, ao capítulo geral dos dominicanos, sua vontade de ver a ordem combater eficazmente as doutrinas probabilistas. Desde então, os frades pregadores, entre os quais essa doutrina fora trazida à luz pela primeira vez e encontrara seus primeiros propagadores, mostraram-se seus mais enérgicos adversários, e a ordem não conheceu mais escritores probabilistas,
VIII. ATIVIDADE DOUTRINAL DA ORDEM. Do século XVI ao século XVIII, a ordem dos frades pregadores desenvolveu, em seu conjunto, uma grande atividade doutrinal e produziu obras teológicas notáveis. Já assinalamos anteriormente algumas instituições escolares que aumentaram a vitalidade científica da ordem. Mencionaremos aqui apenas uma, em razão de seu caráter e de sua importância. O cardeal Jerônimo Casanate (†1700) havia constituído o convento da Minerva seu legatário, com vistas ao estabelecimento de uma biblioteca pública, de duas cátedras para o ensino do texto de santo Tomás e de um colégio de teólogos para a defesa da fé e da Santa Sé. Esse projeto foi executado. A biblioteca, que foi chamada Casanata, tornou-se a principal biblioteca pública de Roma, e os dominicanos conservaram sua administração até o momento em que Pio IX foi despojado de seus Estados. O ensino de santo Tomás e o colégio teológico reuniram em Roma um número respeitável de religiosos, tomados das diversas províncias da ordem, e cujos trabalhos sustentaram a reputação dessa bela instituição. R. Coulon, Le mouvement thomiste au xviiie siècle, na Revue thomiste, t. xix (1911), p. 421.
Não podemos pensar em elaborar aqui um catálogo fastidioso dos trabalhos teológicos publicados pelos pregadores durante o período moderno de sua história. Seria, aliás, duplicar as notícias biográficas que são consagradas aqui a cada um desses autores.
Como é útil, contudo, fornecer um catálogo dos nomes principais, a fim de que os leitores que desejarem dar-se conta da obra realizada pela ordem durante esses últimos séculos de sua história possam remeter-se a esses nomes, assinalaremos os mais marcantes, limitando-nos, quando for o caso, a algumas anotações muito sumárias. Os grandes centros teológicos da ordem, do ponto de vista literário, foram a Espanha, a Itália e a França. Mas o ensino da ordem estendeu-se a todos os países católicos, onde os pregadores possuíam numerosos professores, não somente em suas casas de estudo, mas na maioria das universidades.
A Espanha, como já tivemos ocasião de assinalar, forneceu uma notável atividade teológica desde a primeira metade do século XVI, graças à fundação de estabelecimentos como o colégio de São Gregório de Valladolid e o de São Tomás de Sevilha, e à ação reformadora de Francisco de Vitória (†1546). Na esteira do mestre aparecem os nomes de Domingos Soto (†1560), Melchior Cano (†1560), Pedro de Soto (†1563), Martinho de Ledesma (†1581), Bartolomeu de Medina (†1581), Luís de Granada (†1588), Domingos Báñez (†1604), Tomás de Lemos (†1629), Diego Álvarez (†1635), João de São Tomás (†1644), Francisco de Araujo (†1664), Pedro de Godoy (†1677).
A Itália deu, por sua vez, um grande número de teólogos. Silvestre Prierias (†1524), Silvestre de Ferrara (†1526), Tomás de Vio Caetano (†1534), Crisóstomo Javelli (†1537), Ambrósio Catarino (†1553), Capponi de Poretta (†1614), Jerônimo de Médicis (†1622), Vicente Gotti (†1742), Vicente Dinelli (†1754), Daniel Concina (†1756), Fulgêncio Cuniliati (†1759), José Agostinho Orsi (†1761), Vicente Patuzzi (†1762), Tomás Ricchini (†1779), Salvatore Roselli (†1785), Antônio Valsecchi (†1791), Pedro Maria Gazzaniga (†1799), Luís V. Cassito (†1823), Filipe Anfossi (†1825).
A França forneceu particularmente teólogos de destaque durante o século XVII e uma parte do século seguinte: João Nicolaï (†1663), Vicente Contenson (†1674), Vicente Baron (†1674), Antônio Reginaldo (†1676), João Batista Gonet (†1681), Antônio Goudin (†1695), Antonino Massoulié (†1706), Noël Alexandre (†1724), Jacinto Serry (†1738), Carlos René Billuart (†1751), belga.
Durante o período moderno, os pregadores forneceram importantes contribuições às ciências sagradas fora das ciências teológicas propriamente ditas. Acompanharam o grande movimento de crítica e de erudição que se delineia desde o início do século XVI. Os estudos bíblicos, históricos, a arqueologia sacra, a patrística e o orientalismo receberam uma contribuição notável de diversas personalidades dominicanas, e damos o nome de algumas das mais marcantes: Santes Pagnini (†1541), Bartolomeu de Las Casas (†1566), Sisto de Siena (†1569), Abraão Bzowski (†1637), Tomás Campanella (†1639), Jacques Goar (†1653), François Combefis (†1679), Miguel Vansleb (†1679), Noël Alexandre (†1724), Jacques Échard (†1724), Miguel Le Quien (†1733), José Agostinho Orsi (†1761), Bernardo de Rubeis (†1775), Inocêncio Ansaldi (†1779), José Allegranza (†1785), Tomás Mamachi (†1792), João Batista Audiffredi (†1794), Gabriel Fabricy (†1800), Filipe Becchetti (†1814). Scriptores ordinis prædic., t. II e III (pelo R. P. Rémi Coulon); Hurter, Nomenclator, t. II-V.
IX. A RESTAURAÇÃO DA ORDEM DOS FRADES PREGADORES. A Revolução Francesa e os abalos com que agitou sucessivamente os países do Antigo e do Novo Mundo acarretaram a ruína sucessiva de grande número de províncias da ordem. O número reduzido de religiosos e as condições precárias em que viviam diminuíram extremamente a atividade literária dos dominicanos, cujo esforço devia, antes de tudo, atender às necessidades da pregação e da cura de almas. A ordem, contudo, não deixou de manter firmemente as suas tradições doutrinais no ensino.
A restauração da ordem na França pelo Padre H.-D. Lacordaire imprimiu à ordem inteira um forte impulso. Ela se traduziu antes de tudo por uma grandíssima atividade na pregação. A instituição das conferências de Notre-Dame de Paris pôs em evidência a atividade dos pregadores da França. Eles ali deram um alto ensino durante meio século, desde a sua fundação em 1835. O Padre Jacques Monsabré, em particular, tratou ali, durante uns vinte anos (1872-1890), do dogma católico segundo a doutrina de santo Tomás de Aquino; e o seu atual sucessor, o P. Janvier, que também é frade pregador, oferece, no mesmo espírito, uma exposição da moral cristã desde 1903.
O renascimento da ordem durante a segunda metade do século XIX permitiu-lhe uma organização mais completa dos estudos nas diversas províncias da ordem. Algumas possuem hoje um corpo docente que em nada fica a dever às melhores instituições eclesiásticas. A ordem manteve, criou ou renovou várias escolas superiores de ciências sagradas. O colégio pontifício da Minerva, em Roma, que atravessara as agitações revolucionárias, foi substituído pelo Colégio Angélico, em 1910, por iniciativa do mestre-geral Rev.mo Hyacinthe Cormier, com todos os direitos e privilégios de uma universidade pontifícia, e no qual são admitidos clérigos seculares e regulares. A universidade de Manila, fundada pela ordem, não interrompeu a sua existência desde o século XVII e continua florescente. A escola bíblica de Jerusalém, fundada por volta de 1890, está aberta a religiosos e a seculares, e adquiriu, pelo ensino e pelos trabalhos científicos de seus professores, uma alta reputação. A faculdade de teologia da universidade de Friburgo, na Suíça, foi confiada [aos dominicanos] em 1890; conta hoje mais de 250 estudantes.
[Além das] instituições escolares, a ordem criou certo número de periódicos para o progresso e a difusão das doutrinas teológicas de santo Tomás. A Revue biblique, órgão da escola de Jerusalém, foi fundada pelo P. M.-J. Lagrange. A Revue thomiste foi fundada em honra de santo Tomás pelo P. Coconnier; os Analecta ordinis prædicatorum [são] mais particularmente destinados aos membros da ordem; [a Revista de] ciências filosóficas e teológicas (1907), redigida por dominicanos [...], é tida em alta estima entre os doutos. Os mesmos religiosos publicam a Revue de la jeunesse (1909), de caráter ao mesmo tempo doutrinal e prático, e a Revue Lacordaire (1913), destinada a preparar uma edição crítica das obras do célebre orador. A Revue Saint-Thomas-d'Aquin (1913) visa sobretudo a uma vulgarização das doutrinas do doutor angélico. A Ciencia tomista (1910), publicada em Madri pelos dominicanos espanhóis, conquistou desde a primeira hora um notável crédito.
A restauração das doutrinas tomistas no século XIX foi obra coletiva de numerosos homens de Igreja e sobretudo do papado. Por isso esse movimento ultrapassa, e em muito, a história da ordem dos frades pregadores. Esta, contudo, aplicou-se a ele o melhor que pôde. O mestre-geral Vincent Jandel, em seu regulamento dos estudos, recordou as antigas prescrições legislativas a esse respeito, e os capítulos gerais de Gand, em 1871, e de Lovaina, em 1885, acrescentaram-lhes o peso de sua autoridade. A atividade teológica dos frades pregadores tem sido sobretudo obra da geração presente. Por essa razão excluímos desta notícia o que lhe diz respeito: Scribantur hæc in generatione altera.
Todavia, entre os falecidos, vários auxiliaram com sua colaboração o grande movimento da restauração tomista. Em primeiro plano situam-se os cardeais Tomás Zigliara († 1893) e Zeferino González († 1894), que, por seus manuais de filosofia e por numerosos escritos estimados, representaram dignamente a ordem dos frades pregadores no renascimento das doutrinas tomistas. Deve-se reservar um lugar ao P. Reginaldo Beaudouin († 1907), que foi o principal preceptor teológico da província da França. Agiu sobretudo por meio do seu ensino. O Tractatus de conscientia, Tournai, Paris e Friburgo em Brisgóvia, 1911, editado por um de seus discípulos, o P. A. Gardeil, pode dar uma ideia de seu método e de sua doutrina. Mencionemos também um dos homens da nova geração, o P. Bento Schwalm, prematuramente falecido († 1908), e cuja atividade teológica foi, no entanto, altamente apreciada. Enfim, o P. Henrique Denifle († 1905), subarquivista da Santa Sé, que deixou uma obra histórica incomparável, renovou a história escolar da Idade Média, esclareceu grande número de pontos doutrinais e escreveu uma obra magistral sobre as origens do luteranismo.
O século XIX foi testemunha do forte impulso dado pelos soberanos pontífices ao estudo da doutrina de santo Tomás de Aquino. Nisso, a Igreja romana apenas reatou a tradição dos séculos anteriores, como se pode constatar pelos testemunhos que relatamos ao longo deste artigo. Diante das negações das filosofias anticristãs, era urgente colocar uma doutrina ao mesmo tempo segura e profunda, capaz de opor-se como um muro de bronze a todos os empreendimentos destruidores das filosofias racionalistas. É o que viram os três últimos soberanos pontífices, que se exprimiram tantas vezes e com uma vontade tão categórica que se tem o direito de dizer que a autoridade de são Tomás na Igreja ocupa um lugar sobre-eminente e único.
Por ocasião do sétimo centenário da morte de são Tomás (1874), Pio IX, em suas cartas de 3 de março, escrevia HOS inlrt IselOS crmlus... nunc sumus sextum : annum celebraiuri ssecularem depositionts angellci docloris, sancti Thomas AquincUis, a divtno. providentiel largiti ad ewndem doclrinam miro modo illustrandam, ci adversus iimn-s omnes invicie muniendam, Siquidem /s ait sublimia nains, complexus ingénia humanum excedenle modum, quidquid veteres disputaverant philosophi, quidquid docuerant Ecclesiee Paires, supernaque lamine nra dlatus ad (ntelligendas Scrtpluras, extraxit
Em seu breve de 9 de junho de 1870 ao P. Raimundo Bianchi, O. P., a propósito de sua obra De constilutione monarchica Ecclesiœ Divum Thomam : Aquinalem, IX juxla Pio escrevia: Quam [auclorilalem S. Thomie] sane eo majori facimus quod eximia et prorsus angelica sanctissimi hujus viri doctrina ab ipso Chrislo Domino commendala feralur; et facta testatur Ecclesiam in œcumenicis conciliis post itlius obitum habilis lanlum delulisse scriptis ejusdem, ut sentenliis inde duclis sœpe etiam vcrbis usa fueril, sive ad elucidanda calholica dogmala, sive ad erumpentes errores conterendos.
Nenhum papa, ao que parece, fez tanto quanto Leão XIII pela glorificação de são Tomás de Aquino e pela propagação de sua doutrina na Igreja católica. Todos conhecem esse célebre monumento doutrinal que é a encíclica Aeterni Patris, de 4 de agosto de 1879. Depois de celebrar a obra doutrinal de Tomás de Aquino e de lhe fazer o mais belo elogio que talvez jamais tenha havido, dirige ao episcopado inteiro esta instante exortação: Vos omnes, venerabites quam : ad Fratres, enixe horlamur, ut catholieœ fidei lulelam et decus, ad socielalis bonum, ad scientiarum omnium incremenlum auream sancli Thomse sapientiam restiluatis, et quam lalissime propagctis.
A 15 de outubro de 1879, Leão XIII erige a Academia Romana de São Tomás. A 18 de janeiro de 1880, decreta uma nova edição das obras de são Tomás, cujas despesas custeará. A 4 de agosto de 1880, proclama são Tomás padroeiro das escolas e das universidades católicas. A 25 de dezembro de 1880, ergue uma cátedra de são Tomás em Lovaina. A 30 de dezembro de 1882, dirige suas cartas à Companhia de Jesus para exortá-la à fidelidade à doutrina filosófica de são Tomás. A 25 de novembro de 1898, escreve ao ministro geral dos frades menores: Discedere inconsulte ac temere a sapientia doctoris angelici, res aliena est a voluntate nostra, eademque plena periculi. A 8 de setembro de 1899, publica sua encíclica sobre a educação do clero francês: «Será necessário acrescentar, escreve ele, que o livro por excelência, no qual os alunos poderão estudar com mais proveito a teologia escolástica, é a Suma teológica de são Tomás de Aquino? Queremos, pois, que os professores tenham o cuidado de explicar a todos os seus alunos o método, assim como os principais artigos relativos à fé católica.»
Enfim, Pio X, a 23 de janeiro de 1904, renova as prescrições de Leão XIII: Ad nos quod attinet, quando tempora pontificatus nostri incidunt in tempora sapientiae inimica fortasse magis quam unquam antea, omnino oportere ducimus, ut quae decessor illustris de cultu philosophiae doctrinaeque thomisticae constituisset, ea religiosissime servanda, atque etiam in spem uberiorum fructuum provehenda curemus... Quae tamen cohortatio non ad hos tantummodo spectet, sed pertineat, uti debet, ad omnes, quicumque in catholicis orbis terrarum scholis philosophiam tradunt ; nimirum curae habeant a via et ratione Aquinatis nunquam discedere, in eamdemque quotidie studiosius insistant.
A 6 de maio de 1907, escreve ao cardeal F.-R. Richard, arcebispo de Paris: De philosophia petimus ne unquam vobis patiamini in seminariis vestris minus sancte observari quae providentissime, litteris encyclicis Aeterni Patris, decessor noster praecepit. Per-magni ad custodiam et tutelam fidei hoc interest.
Na encíclica Pascendi, de 8 de setembro de 1907: Quod rei caput est, philosophiam scholasticam pru dentiam sequendam scribimus, eam praecipue intelligimus quae a sancto Thoma Aquinate est tradita, de qua quidquid a decessore nostro sancitum est, id omne universis observari jubemus.
Episcoporum erit, sicubi in seminariis neglecta haec fuerint, ea ut in posterum urgere atque exigere. Magistros autem monemus ut rite hoc teneant Aquinatem deserere, praesertim in re metaphysica, non sine magno detrimento esse.
P. Mandonnet.
Autor original: P. Mandonnet
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