Ecolampádio pertence aos homens de segundo plano entre os promotores da « Reforma protestante ». Deram-lhe por vezes, não sem forte exagero, o apelido de são João da Reforma, porque, em face de personalidades audazes, impetuosas ou violentas, como Lutero, Zwínglio, Farel, Karlstadt, Münzer e o próprio Calvino, ele pode passar por um modelo de doçura. Situa-se ao lado de Melâncton, sábio e moderado como ele, partido como ele do humanismo para se engajar depois no movimento de revolta contra a Igreja e o papa.
Veremos brevemente: I. Sua vida; II. Sua ação reformadora em Basileia; III. Sua posição particular na questão sacramentária.
I. Vida. João Ecolampádio figura na lista de matrícula dos estudantes de Heidelberg sob o nome de Heussgen. Amigos helenistas traduziram seu nome para o grego, de maneira um pouco fantasiosa. O nome grego lhe ficou. Havia nascido em 1482 em Weinsberg, cidade que então fazia parte do Eleitorado Palatino. Seu pai de bom grado o teria dirigido para o comércio. Mas sua mãe, nascida Pfister e originária de Basileia, mulher muito piedosa e de natureza delicada, decidiu que o deixariam cultivar sua inclinação para o estudo.
Da escola de Heilbronn, passou à universidade de Bolonha, célebre desde a Idade Média por suas cátedras de direito. Encontramo-lo, em 1499, em Heidelberg, na qualidade de estudante de teologia. Mas parece ter sido repelido, como tantos outros jovens de sua geração, pelas formas áridas e pelas sutilezas excessivas da ciência teológica, tal como então se ensinava. Essa repulsa da juventude, nesse final do século XV, pela escolástica decadente, é uma das causas mais marcantes do movimento revolucionário que chamamos de Reforma protestante. Para se livrar das fastidiosas discussões da escola, voltava-se ou para os místicos, ou para o humanismo nascente.
Ecolampádio foi, em Heidelberg, discípulo do humanista Jacques Wimpheling. Aprendeu a apreciar os místicos da escola de São Vítor e, entre os modernos, Gerson. Assim que se tornou bacharel, em 1503, foi escolhido como preceptor dos jovens filhos do eleitor Filipe, o Sincero. A vida de corte lhe desagradou. Seus pais fundaram para ele uma prebenda em Weinsberg. Em breve os estudos o retomaram.
Foi, em 1512, discípulo do ilustre Reuchlin, em Stuttgart. No ano seguinte, é matriculado em Tübingen, onde conhece o já célebre e muito jovem Melâncton. Estudam juntos os clássicos gregos. Ligam-se por uma sólida amizade. O ano de 1514 o encontra novamente em Heidelberg, onde entra em contato com Brenz e Capito. Ecolampádio é então um sacerdote muito fervoroso, que fala de Jesus, em seus sermões (de Weinsberg, impressos já em 1512), com uma piedade tocante. Tem grande devoção por Maria. Só fala da vida monástica com elogio e como de um ideal que o seduz. Além disso, mostra grande aplicação ao estudo das línguas antigas. Aprende o hebraico sob a direção do judeu convertido Matthieu Adriani.
Em 1515, seu amigo Capito, grande caçador de benefícios eclesiásticos, o atrai como pregador para Basileia. Ali Ecolampádio encontra Erasmo, que o toma como secretário, com vistas à publicação de seu Novo Testamento em grego. Mas, depois de obter sua licenciatura, em 1516, Ecolampádio deixa Basileia, volta a Weinsberg, retorna a Basileia em 1518 para receber o barrete de doutor, põe-se de novo ao serviço de Erasmo, e depois se separa dele para se tornar pregador em Augsburgo (dezembro de 1518).
É então que ele escapa da influência de Erasmo para entrar em contato com o movimento luterano. Todas as suas relações o levavam para esse movimento. Aprovava sobretudo as críticas desdenhosas de Lutero contra a escolástica e seu método de recurso às fontes bíblicas. Tomou posição em 1519, por meio de um escrito dirigido contra João Eck: Responsio canonicorum indoctorum lutheranorum ad Eccium.
De repente surpreende os amigos ao entrar, em 23 de abril de 1520, no convento dos brigitinos de Altomünster. Na realidade, não se sentia bem em parte alguma. O claustro logo lhe tornou-se insuportável. Saiu dele em fevereiro de 1522, buscou em vão um posto de professor universitário em Heidelberg ou Ingolstadt, e encontrou por algum tempo refúgio junto a Franz von Sickingen, na fortaleza de Ebernburg, na qualidade de capelão de corte. Esse meio o desagradou. O convite de um livreiro de Basileia, em novembro de 1522, atraiu-o para essa cidade e pôs fim às suas peregrinações.
II. A atividade reformadora em Basileia. A burguesia instruída das cidades manifestara, muito rapidamente — mais rapidamente que os príncipes —, viva simpatia pelas inovações luteranas. Tratava-se de sacudir o jugo do papa e do bispo. O recurso à Bíblia era uma fórmula ao mesmo tempo cômoda e atraente. Em todos os lugares, os pregadores ganhos para a causa de Lutero mostravam-se prontos a reclamar a proteção do Conselho contra a autoridade eclesiástica, e a fazer dos notáveis da cidade laica juízes das questões teológicas, transportadas para o terreno bíblico. Em Basileia, a maioria do Conselho e boa parte da burguesia já aderiam ao reformismo revolucionário.
Ecolampádio tomou para si a tarefa de quebrar a resistência dos católicos e de organizar a Igreja protestante do lugar. É nesse sentido que se deve ver nele o « reformador » de Basileia. No fim de 1522, ainda não era mais que vigário não remunerado de São Martinho de Basileia. No início de 1523, tornava-se professor na universidade, na cátedra de Sagrada Escritura.
Imitando a tática de Zwínglio em Zurique, Ecolampádio provocou « Disputas » públicas, ou Conferências contraditórias (1523-1524), sobre a liberdade da pregação evangélica, sobre o casamento dos sacerdotes. O impetuoso Farel lhe deu apoio até o dia de sua expulsão da cidade. O Conselho nomeou Ecolampádio pregador de São Martinho. A partir desse momento, engajou-se na via das inovações litúrgicas: batismo em alemão, comunhão sob as duas espécies, suspensão das cerimônias julgadas inúteis, canto dos salmos em alemão (1524-1526).
Os católicos não haviam abandonado a luta. Ecolampádio não fez muito boa figura na Disputa de Baden (maio de 1526), na ausência de Zwínglio. Obteve apenas 10 votos, contra 82 de seu adversário, João Eck.
Os protestantes tiraram sua revanche na Disputa de Berna, em janeiro de 1528. Após essa vitória, as inovações se precipitaram em Basileia. O povo entrou em cena. Houve graves desordens: destruição de imagens e estátuas, e finalmente, a despeito da longa resistência do Conselho, que freava com todas as suas forças, a proibição rigorosa do culto católico na cidade.
Ecolampádio, sem aprovar os excessos dos iconoclastas, mantinha-se pronto a aproveitar a revolução. O Conselho foi depurado. Todos os católicos foram excluídos dele. Erasmo e vários outros humanistas deixaram Basileia, assim como um grande número de católicos apegados à sua fé.
Em 14 de fevereiro de 1529, o culto protestante foi inaugurado na catedral. Ecolampádio havia sido eleito presidente dos pastores e primeiro cura da catedral. Ocupou-se sem demora de dar uma constituição evangélica à nova Igreja. Em 1º de abril de 1529, aparecia a « Ordenança de reformação », a carta da Igreja de Basileia.
Ecolampádio havia se casado, em 1528, com uma mulher de grande beleza, Wibrandis Rosenblatt, chamada Keller, que, após sua morte prematura, haveria de desposar seu amigo Capito, depois Bucer e por fim Oswald Mykonius. Foi tão profundamente afetado pelo desastre de Kappel, onde Zwínglio encontrara a morte (11 de outubro de 1531), que não pôde sobreviver a isso e morreu em 24 de novembro de 1531. Deixava três filhos.
III. Posição de Ecolampádio na questão sacramentária. Por três vias diferentes, Karlstadt, Zwínglio e Ecolampádio haviam chegado a uma interpretação figurada das palavras da instituição eucarística: Hoc est corpus meum. Entre Lutero e Karlstadt, antigos amigos tornados rivais, estourou a esse respeito uma viva controvérsia. Ela logo se estendeu a Zwínglio e Ecolampádio, e provocou o surgimento de toda uma literatura. Foi a questão sacramentária que, junto com a do batismo das crianças, lançou a divisão entre os primeiros chefes da Reforma.
Ecolampádio tomou posição por meio de um importante tratado publicado em setembro de 1525, sob este título: De genuina verborum Domini « Hoc est corpus meum » expositione. Nele rejeitava a presença real, tanto no sentido católico (transubstanciação) quanto no sentido luterano (consubstanciação). Mas, enquanto Karlstadt se havia detido na palavra Hoc, pretendendo que Jesus não designava a si mesmo, mas o pão, e enquanto Zwínglio havia interpretado a palavra Est no sentido de significar, Ecolampádio sustentava que a palavra Corpus devia ser entendida no sentido de: Figura corporis. Invocava em favor de sua opinião a autoridade dos Padres, e notadamente de Tertuliano e de santo Agostinho. Os textos patrísticos por ele invocados eram, em geral, audaciosamente forçados.
Além disso, como Zwínglio, erguia contra o dogma da presença real a lista das supostas impossibilidades que a razão humana nele encontra: multilocação de um corpo de Cristo indigno, estado em que Cristo pode ser triturado pelos dentes, roído pelos insetos, comido pelos ratos. Para ele, porém, a eucaristia não é apenas, como para Zwínglio, o sinal da fraternidade religiosa, mas também uma manducação toda espiritual de Jesus pelo crente. Invoca principalmente o texto de são João, vi, 63: « É o espírito que vivifica, a carne de nada serve. » Ao livro de Ecolampádio, Brenz replicou com o Syngramma (21 de outubro de 1525). Ecolampádio lhe opôs, em 1526, o Antisyngramma. Ataques e réplicas se sucederam a partir de então, acompanhados na maioria das vezes de palavras violentas e de injúrias.
Para Lutero, Ecolampádio faz parte dos « fanáticos de esquerda », dos « Schwarmgeister »; está seguramente possuído pelo demônio, é culpado do pecado contra o Espírito. É preciso reconhecer que a linguagem de Ecolampádio foi sempre muito mais moderada do que a de seu adversário.
Por iniciativa do landgrave Filipe de Hesse, cujos planos de ação política protestante eram gravemente contrariados por essas divisões doutrinais, decidiu-se um encontro dos principais doutores da Reforma. Ele se realizou de 1º a 4 de outubro de 1529, em Marburgo, na presença de 50 a 60 pessoas escolhidas. Zwínglio, Ecolampádio, Bucer, Hedio e alguns amigos representavam ali a interpretação figurada, contra Lutero, Melâncton, Jonas, Cruciger, Osiander e Brenz, partidários da interpretação literal.
Os relatos dessa célebre « Disputa » são numerosos. Eis alguns trechos do relato de Rodolphe Collin, professor de grego em Zurique, que acompanhava Zwínglio: « Ecolampádio responde aos argumentos de Lutero. Ele entende que se deve partir do cap. vi de João, e que os outros textos devem ser explicados a partir dele. Às palavras Hoc est corpus meum, ele opõe: Ego sum vitis vera. O sentido literal não seria ali impossível para Deus. (E, no entanto, ninguém o admite). Da manducação carnal, ele passa à espiritual. Mostra que sua opinião não é vã nem ímpia, pois se apoia na fé e na Escritura... Lê o cap. vi de João e prova que Cristo ali trata da manducação espiritual e afasta da corporal. Não há, pois, manducação corporal... Ele diz: « Vocês nos recusam um tropo, e no entanto vocês fazem uma sinédoque — contra a doutrina dos católicos. » Lutero mostra que há, da mesma forma, uma sinédoque, como quando se diz: a espada em sua bainha. Hoc est corpus meum é uma frase inclusiva, pois o corpo está no pão como a espada em sua bainha. O texto requer essa figura. Mas a metáfora retira todo o sentido, quando vocês dizem que corpus quer dizer Figura corporis. »
As duas opiniões se chocaram inutilmente (Zuinglii Opera, t. iv b, p. 173 sq.). Cada um permaneceu em suas posições. Em 4 de outubro, Lutero escrevia a Nicolau Gerbel, de Estrasburgo: « Devemos a caridade e a paz até mesmo a nossos inimigos. Declaramos-lhes que, se não se arrependerem quanto a esse artigo, poderão sem dúvida contar com nossa caridade, mas que não poderemos considerá-los como parte do número de nossos irmãos e dos membros de Cristo. » Enders, Luther's Briefwechsel, t. vii, p. 166.
O desacordo permaneceu, e as Igrejas luterana e zwingliana evoluíram separadamente.
1º Fontes. Stähelin, Briefe und Akten zum Leben Oekolampads, t. x des Quellen und Forschungen zur Reformationsgeschichte. Este tomo contém as peças de 1499 a 1526.
Um segundo volume, previsto para 1931, dará o fim, de 1526 a 1531: Herminjard, Correspondance des réformateurs dans les pays de langue française, t. i e ii; Joannis Oecolampadii et Huld. Zwinglii epistolarum... com biografia de Ecolampádio por seu amigo Capito, nem sempre muito segura, sobretudo quanto à cronologia, Basileia, 1536; Wurstisens Basler Chronik, editada por Hotz, Basileia, 1883; Basler Chroniken von Ryff und Carpentarius, editadas por Vischer e Stern, Leipzig, 1872; Basler Reformationsakten, em curso de publicação sob a direção de E. Dürr.
2º Biografias. Herzog, Leben Joh. Oekolampads und die Reformation der Kirche zu Basel, 2 vol., 1843; Hagenbach, Oecolampads Leben und ausgewählte Schriften, 1859; Fehleisen, Joh. Oekolampad, Festschrift, Weinsberg, 1882; Burkhardt, Dr. Joh. Oecolampad, em Bilder aus der Geschichte Basels, t. iii, Basileia, 1879. Ver também W. Köhler, Das Marburger Religionsgespräch, 1529, Leipzig, 1929.
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