CIÚME

CIÚME

CIÚME. — I. Noção. II. Moralidade. III. Remédios.

I. Noção. — 1° O que é o ciúme? — O vulgo confunde com bastante freqüência a inveja e o ciúme, unindo-os numa igual reprovação. Embora provenham de uma mesma raiz de orgulho e de cobiça e produzam frutos pouco diferentes, são dois ramos que há contudo lugar de distinguir. A etimologia de cada um já indica uma orientação respectiva divergente. A inveja, invidia, designa o mau olhado que não pode ver o bem do próximo ou dele se ofende. O ciúme, zelus, é um amor apaixonado por um bem que não admite partilha. São Tomás definiu a inveja como uma tristeza que a vista do bem alheio determina, na medida em que ele diminui, a nossos olhos ou aos olhos do próximo, nossa própria excelência: Bonum alterius aestimatur ut malum proprium, in quantum est diminutivum propriae gloriae vel excellentiae; et hoc modo de bono alterius tristatur invidia. Sum. theol. IIa IIae, q. xxxvi, a. 1. La Rochefoucauld caracterizava assim o vício do ciúme por oposição a seu congênere: «O ciúme tende a conservar um bem que nos pertence ou que cremos pertencer-nos, ao passo que a inveja é um furor que não pode suportar o bem dos outros.» Maximes, édit. Firmin-Didot, p. 153.

Um grau menor do ciúme consiste em entristecer-se não precisamente da felicidade dos outros, mas à idéia de que são mais favorecidos que nós, mais bem servidos pelas circunstâncias, de que tal ou qual vantagem que nos sorria lhes cabe. É propriamente o sentimento da emulação, zelus. Virtuoso, se tem por objeto os bens espirituais e nos estimula a igualar ou mesmo a superar, em matéria de perfeição, os rivais, pode ser ainda louvável, aplicado à busca dos bens terrestres: potest aliquis tristari de bono alterius, non ex eo quod ipse habet bonum, sed ex eo quod nobis deest bonum illud quod ipse habet, hoc proprie est zelus.... Et si iste zelus sit circa bona honesta, laudabilis est... Si autem sit de bonis temporalibus potest esse cum peccato et sine peccato. Summ. theol., ibid., a. 2.

O ciúme, aos olhos dos filósofos e dos moralistas, é sobretudo o cuidado ressabiado que pomos em guardar o nosso próprio bem ou o que estimamos tal, no temor de que outro dele participe. É causado por um egoísmo exclusivo, que quer ser o único a gozar, não suportando que ninguém o suplante ou o desaloje. Revela-se no início por uma inquietação vaga, por agitação, e tem por termo o ódio àqueles cujo êxito contrasta com nossos insucessos. Contudo, permanece em todos os degraus uma tristeza formal, o amargo pesar seja de ver que uma vantagem esperada nos escapa, seja de não poder guardar para nós sós um bem já nosso, seja também, e sobretudo, de senti-lo possuído por outrem.

2° Os que têm ciúme. — São Tomás assinalou várias categorias de pessoas como mais inclinadas à inveja. Os ciumentos de ordinário também se encontram entre elas. E primeiramente os vaidosos, quer o sejam por temperamento, quer por vício, Sum. theol. IIa IIae, q. xxxvi, a. 1, ad 3um, amatores honoris sunt magis invidi; os pusilânimes em seguida, incapazes de um esforço sério, a cujos olhos o menor sucesso entre os outros é de extrema importância e que dele se entristecem como de um fracasso pessoal notável, pusillanimes sunt invidi, quia omnia reputant magna, et quidquid boni alicui accidat, reputant se in magno superatos. Ibid.; todos os que ainda vêem agora em outras mãos certas vantagens de que outrora gozaram. Deste número são os velhos, facilmente ciumentos dos jovens, senes invident junioribus...; dolent enim de amissione suorum bonorum et de hoc quod alii consecuti sunt bona. Ibidem, ad 4um. O velho é, aliás, um pusilânime, assim como a criança e a mulher. Estes também, de ordinário, se defendem mal do vício do ciúme. O que se explica na criança por uma falta de razão ou pela predominância do instinto, e na mulher pela fraqueza do sexo, que quase sempre se complica com a paixão de brilhar e de agradar.

3° Os que são objeto de ciúme. — Somente aqueles que se espera igualar ou superar em glória, que não estão demasiado distantes pela situação, pela dignidade ou pelo valor, são alvo da inveja, segundo São Tomás. His qui multum distant vel loco, vel tempore, vel statu, diz ele, homo non invidet; sed his qui sunt propinqui, quibus se nititur aequare, vel praeferre. Sum. Theol., IIa IIae, q. xxxvi, a. 1, ad 2um. O ciúme se ressabia também de vizinhos cuja concorrência é de temer, capazes de desalojar alguém de sua posição ou de fazê-lo passar ao segundo plano em seu meio. Grassa facilmente entre pessoas da mesma profissão. Tudo deveria aproximá-las: a semelhança das ocupações e dos gostos, os talentos, a condição; mas o desejo de aparecer e de brilhar, mais ainda que a luta pela vida, faz com que se olhem com maus olhos. Um comerciante, por exemplo, ficará menos contente em ampliar a sua clientela e engrossar o seu faturamento feliz do que em rebaixar e arruinar um rival. Não somente os indivíduos, mas os agrupamentos sociais e políticos, assim como os diversos corpos do Estado, sacrificam à paixão do ciúme. Em nossas democracias modernas, o sentimento da emulação e o amor do progresso explicam a luta de classes ao mesmo título que o instinto igualitário ou a impaciência de toda superioridade.

4° O que se inveja com ciúme. — O ciúme se estende tão longe quanto as cobiças humanas. Mas as pessoas e as coisas que têm a nossa preferência e cujo gozo exclusivo nos coloca fora de par são antes o seu objeto; desperta-se, pois, a propósito dos bens que não podem ser possuídos inteiramente e simultaneamente por vários, tais como a beleza, a fortuna, a estima, a autoridade, a popularidade, a glória. É próprio dos bens sensíveis, deficientes por natureza, qualificados por São Tomás de parva bona, e que não suportam nem diminuição nem partilha. A verdade e os bens espirituais, porque podem ser possuídos integralmente por vários ao mesmo tempo, não excitam em si o ciúme de ninguém. É de todo acidentalmente que essa paixão se desperta a propósito da ciência e da virtude, na medida em que para alguns são sobretudo meios de sobressair. O ciúme é particularmente ardente e tenaz nas coisas do coração.

Naqueles que amam ou amaram, a vivacidade do sentimento se soma ao sofrimento do amor-próprio peculiar ao ciumento e os levanta contra tudo o que lhes faz oposição, intensus amor quaerit excludere omne id quod sibi repugnat, diz São Tomás, Ia IIae, q. xxvii, a. 4. Contudo, as coisas se passam diferentemente conforme se ame com um amor referido a si, ou com um amor de amizade, aliter tamen hoc contingit in amore concupiscentiae et aliter in amore amicitiae. Ibid. No primeiro caso, afasta-se todo obstáculo ou toda rivalidade que impediriam de ter o coração de alguém, ou de gozar dele de maneira exclusiva. É propriamente o zelo do ciúme, o, por exemplo, dos maridos por suas esposas, que querem apaixonadamente só para si, hoc modo viri zelantur uxores, ne per consortium aliorum impediatur singularitas quam in uxore quaerunt. Ibid. No segundo caso, em que se ama alguém por ele mesmo, insurge-se com força contra o que é contrário ao seu bem, contra o que ameaça a sua honra ou lesa os seus interesses. É o zelo simplesmente dito. Já louvável quando se afirma em benefício do próximo, representa um amor generoso para com Deus quando se emprega com cuidado zeloso em fazer respeitar o seu nome e prevalecer as suas vontades.

II. Moralidade. — Da inveja, São Tomás declarou formalmente que é sempre má, et istud semper est peccatum. Sum. theol., IIa IIae, q. xxxvi, a. 2. É grave por sua natureza, invidia ex genere suo est peccatum mortale. Ibid., a. 3. Disse, ao contrário, da tristeza do zelo ou ciúme que é por vezes louvável, ou ao menos que nem sempre e forçosamente é pecado. É o caso de alguém que se aflige de seu mal próprio, do qual toma melhor consciência por comparação com outrem. O ciúme tende a conservar um bem que pertence ou parece pertencer. Sob esta forma ainda, que o constitui propriamente, não é necessariamente repreensível. É razoável querer guardar, preocupar-se com perder direitos antigos, uma reputação estabelecida, tudo o que é verdadeiramente desejável aos olhos de um homem de bem; não é, pois, absolutamente proibido pôr tudo isso em segurança, sobretudo quando o êxito de outro não é tão desejável que se deva sacrificar-lhe toda vantagem própria.

Mas o ciúme é culpável, torna-se um vício odioso quando é injusto ou sem caridade, seja que se arrogue um direito abusivo sobre algum bem, não suportando que outros, ainda que por vias legítimas, dele participem, cheguem a possuí-lo, e é o zelo de inveja; seja que se defenda o próprio bem com paixão, per fas et nefas, e não é em si a inveja, mas um mal que lhe imita os excessos. Tal é, no primeiro caso, o ciúme das sogras, disputando ao marido o coração de sua filha, e, no segundo, o ciúme dos esposos enganados ou abandonados. Este tem efeitos piores que o constrangimento e a perturbação instalados no lar, pois não é raro que dele saiam dramas terríveis. Evidentemente, o ciúme, quando chega a confundir-se com a inveja ou quando lhe reproduz indiretamente as desordens, é grave por sua natureza.

III. Remédios. — O tratamento a aplicar ao mal do ciúme é o mesmo, em suma, que serve para prevenir, combater e desarraigar o vício da inveja. Nada a acrescentar às observações já feitas alhures a respeito desta última, salvo talvez uma reflexão que meditarão utilmente aqueles que não são inspirados pelo pior egoísmo e que não perderam todo o respeito de Deus e de seus direitos. O ciúme se inquieta por conservar um bem que pertence ou parece pertencer, ou mesmo, sem nada perder ele próprio, não suporta que outros dele participem. Ora, não é isso, com demasiada freqüência, um sentimento contrário à bondade de Deus, uma disposição atentatória à liberdade de seus dons? Seria preciso que Deus, por um respeito inconcebível da excelência de alguém e para lhe permitir guardar o primeiro lugar, fosse menos liberal para com outros, proibisse a si mesmo desdobrar as riquezas de sua munificência? A palavra do dono da vinha a seus operários é sempre verdadeira e merece ser retida e meditada pelos ciumentos de toda condição: «Amigo, não te faço injustiça... Não me é permitido fazer de meus bens o que quero? Ou será mau o teu olho porque eu sou bom?» Matth., xx, 13-15. Ver art. Envie, t. v, col. 131-131.

Além das obras já assinaladas no art. Envie, consultar-se-á utilmente São Tomás, Sum. theol., Ia IIae, q. xxviii, a. 4; IIa IIae, q. xxxvi; Sertillanges, La philosophie morale de saint Thomas d'Aquin, Paris, 1916, ch. x, v, b; Mgr Landriot, Les péchés de la langue et la jalousie dans la vie des femmes, Paris; G. Monteuuis, La jalousie, Paris, 1911.

A. Thouvenin.

Autor original: A. Thouvenin

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