FORTI

FORTI

FORTI (João Bernardo), agostiniano, nascido em Savona, morto em 1503. Deve-se-lhe: 1° Vocabularium ecclesiasticum pauperi coadunatum et dispositum a sacerdote Christi, Mogúncia, 1470, que teve grande número de edições e foi traduzido para o italiano, Veneza, 1541, 1615; 2° Fons charitatis, Milão, 1496; trata-se de um comentário ao Cântico dos Cânticos; 3° Recollectorium de veritate conceptionis B. V. Mariæ. Giustiniani, Gli scrittori liguri, Roma, 1667; Hurter, Nomenclator, t. ii, col. 1139. — A. Palmieri.

1. FORTUNATO (São). — I. Vida. — II. Obras. I. Vida. Venâncio Honório Clementiano Fortunato, um dos poetas mais admirados do século VI na Gália, nasceu por volta de 530 perto de Ceneda, no Trevisano, a leste da Alta Itália. Foi em Ravena que recebeu sua educação literária; com a gramática e a retórica, estudou ali o direito; mas, não sendo aparentemente a filosofia e a teologia do seu gosto, não se dedicou a elas, e jamais será muito versado em nenhuma dessas duas ciências. Em compensação, nos próprios bancos da escola, já se exercitará na poesia. Ameaçado por uma oftalmia de perder a vista, Fortunato foi curado pela intercessão de São Martinho de Tours, esfregando o olho doente com o óleo de uma lâmpada que ardia diante da imagem do taumaturgo, numa igreja de Ravena.

Por isso, por volta de 565, pouco antes da grande invasão dos lombardos e da desolação do norte da Itália, por gratidão sem dúvida, resolveu ir venerar o glorioso túmulo de São Martinho. Ele mesmo nos informa, de maneira muito exata e minuciosa, qual foi a direção do seu itinerário; é mais a viagem de um turista que a de um peregrino. Primeiro, transpondo os Alpes, Fortunato avançou, não se sabe bem por quê, rumo às margens do Danúbio; depois atravessou o país alemânico, isto é, a Suábia, e deteve-se na Austrásia, junto ao rei Sigeberto I que, não obstante a barbárie como que nativa, se prezava, como a maioria dos reis merovíngios, de apreciar e proteger as letras. Estava-se às vésperas do casamento de Sigeberto com Brunilda, filha do rei dos visigodos da Espanha, Atanagildo. O epitalâmio entusiástico em que o emigrado italiano celebrou os dois esposos lhe valeu de imediato, com o favor de Sigeberto, a reputação de grande poeta; foi o poeta oficial da corte, votado a celebrar-lhe as aventuras e os prazeres.

Um ano ou dois depois, fosse por cansaço, fosse por inconstância natural, Fortunato deixava a Austrásia e descia até Tours lentamente, por pequenas jornadas, comprazendo-se em bater, de etapa em etapa, à porta de personagens consideráveis, bispos ou leigos, garantindo junto a eles, à força de flexibilidade e de habilidade, um acolhimento pressuroso, pagando sua parte aos anfitriões com as lisonjas de seus versos. Ao termo da viagem, em Tours, ligou-se por estreita amizade ao bispo dessa cidade, Eufrônio. Mas nem Eufrônio nem o túmulo de São Martinho puderam retê-lo por muito tempo. Retomou o bastão de viajante e, durante vários anos, vê-se Fortunato, à maneira dos trovadores da Idade Média, percorrer de lar em lar todo o sul da Gália.

Uma visita que fez, em Poitiers, ao célebre mosteiro de Santa Cruz, fundado mais de quinze anos antes por Santa Radegunda sob a regra de São Cesário de Arles, e governado por sua filha adotiva Inês, decidiu o resto de sua vida. O acolhimento de Radegunda e de Inês, as atenções, os cuidados e sobretudo os louvores de que Fortunato se viu cumulado por elas, venceram seu humor vagabundo e o determinaram a estabelecer-se definitivamente em Poitiers. Fortunato era então leigo; a pedido de suas duas piedosas amigas, a quem chamará pelo nome de mãe e de irmã, e às quais testemunhará por vezes uma afeição apaixonada, recebeu as ordens e tornou-se sacerdote. Viveu doravante uma vida tranquila ao lado do mosteiro de Santa Cruz, capelão, conselheiro, agente de confiança, intendente, secretário da rainha e da abadessa, exercendo, afinal de contas, sobre os negócios e sobre as almas do claustro uma influência quase absoluta.

Mantinha também correspondência frequente e familiar com todos os grandes bispos, os Gregório de Tours, os Félix de Nantes, os Germano de Paris, os Avito de Clermont, os Leôncio de Bordéus, com todos os homens de espírito do seu tempo. Sete ou oito anos após a morte de Santa Radegunda, foi elevado à sé episcopal de Poitiers, pela qual apenas passou, e ali morreu em odor de santidade, em meio ao pesar universal, a 14 de dezembro de 600.

— II. Obras. Poeta ao mesmo tempo que prosador, é principalmente às suas poesias que Fortunato deve ter sido, no pensamento de seus contemporâneos, a glória do século VI. Embora sejam em geral fúteis, pueris ou deslustradas pela sutileza e pela afetação da má retórica, há nelas por vezes bastante imaginação, espírito e movimento, um último e fraco lampejo da poesia da Antiguidade. Fortunato, poeta sem gênio, não era um versificador sem talento. Os lugares que visitava, os grandes personagens que o recebiam, os festins para os quais era convidado, todos os incidentes da vida cotidiana, até os menores, lhe serviam de tema; a versificação tornara-se-lhe como uma segunda natureza. O metro elegíaco era-lhe o mais familiar; Fortunato preparou o advento e o reinado do dístico na poesia da era carolíngia.

1° Das suas peças em verso restou-nos, sob o título de Carmina ou Miscellanea, uma coletânea em onze livros, cuja ordenação remonta certamente ao próprio autor, mas que foi crescendo pouco a pouco com as novas descobertas. Encontram-se aí epitalâmios, panegíricos, epitáfios, epigramas, cartas, até simples bilhetes, hinos, pequenos poemas descritivos ou narrativos. Compostos quase todos na Gália, esses poemas, laicos e religiosos, esclarecem a vida de Fortunato e os costumes do seu século, ao mesmo tempo que recordam a disciplina da Igreja e alguns de seus dogmas, o do culto dos santos, entre outros. Aliás, as lembranças pagãs, que abundavam na maioria dos poetas cristãos desde Ausônio, são muito mais raras em Fortunato, seu herdeiro. As peças dirigidas a santa Radegunda e à abadessa Inês, se fossem tomadas ao pé da letra, sem levar em conta o jogo literário, denotariam no poeta hábitos moles e um tanto sensuais, uma gulodice sobretudo que quase não condiz com a nacionalidade italiana; não se poderia, em todo caso, desconhecer-lhe a futilidade.

Ao lado de um fragmento do poema elegíaco consagrado à história da infeliz Galsuinda, a coletânea conta também entre as suas obras-primas três peças, que Fortunato escreveu, se não precisamente sob o ditado de santa Radegunda, como acreditou Ch. Ni- Des poésies de sainte Radegonde, attribuées dans Revue t'ici à Fortunat, la historique, 1888, xxxvii, p. 49-75, ao menos sob a sua inspiração e I nom, >n G. Lippert, Zeitschrift des Vereins für thüringische Geschichte und Altertumskunde, nova série, t. vii, p. 16-38 primeiro, a dilacerante : Thuringe ni al ion sobre a ruína da e de sua mai- nts. de, De excidio Thoringiæ; depois, duas peças, uma a um primo de Radegunda, terna e amargamente, Amalafredo, que l ni; a outra, de um acento mais resignado, embora sempre comovido, ao jovem Artachis, o filho ou I. Amalafredo, e o último da raça dos reis.

Entre os seus hinos sagrados, oficialmente figuram ainda em nosso : Pange lingua gloriosi prœlium certaminis, canto de triunfo no metro dos cantos dos soldados : Vexilla regis prodeunt, Ion de la, do qual o imperador Justino, uma intinople relíquia a santa o hino à virgem Maria, Quem terra, meni a Fortunato plu- »; mas a autenticidade dele permanece m ndant, fond i forme, indique mne ( l'hj ;, a santa Virgem, eculum, e portanto mão de Fortunato. Studien zu V. Fortunatus, Munique, enfim, alguns trechos em prosa tomaram rouvons, com cartas, uma explicação bastante prolixa do Pater e uma explicação do Símbolo dos Apóstolos, ambas de uma língua pura e simples.

Autor original: A. Palmieri

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