FLÁCIO ILÍRICO

FLÁCIO ILÍRICO

FLÁCIO — ILÍRICO. — Vida. II. Escritos. I. Vida. 1° Sua juventude. Flácio Ilírico chamava-se Francowitz (Matias), do nome de seu pai. Nasceu em Albona, ao sul da Ístria, na Ilíria veneziana, em 1520, de pais pobres. Desde muito jovem manifestou as melhores disposições para o estudo. Teve como primeiros mestres seu pai, que perdeu aos doze anos, depois o milanês Ascério e, mais tarde, em Veneza, o célebre João Egnácio.

Sentindo algumas veleidades de vocação religiosa, quis entrar na ordem franciscana, na qual seu tio materno, Baldo Lupetino, exercia então o cargo de provincial. Mas Baldo, já luterano de coração, o incitou a prosseguir seus estudos teológicos na Alemanha, onde Lutero fazia reviver o Evangelho. Embora desprovido de recursos, Flácio partiu para a Alemanha. Instalado primeiro em Basileia, na casa de Cm y meus, depois em Tubinga, na casa de seu compatriota Garbitius, aperfeiçoou-se no conhecimento do grego e do hebraico. E, após uma curta estada em Ratisbona, dirigiu-se a Wittenberg, o principal foco da luta antirromana.

— 2° Em Wittenberg (1541-1549). Flácio tinha vinte e um anos; tal era sua avidez de saber, sua aplicação ao estudo, sua têmpera de caráter, que foi recebido de braços abertos por Lutero e Melanchthon como uma preciosa aquisição para o sucesso de sua obra. Passou primeiro por uma crise de melancolia, da qual por fim pôde tornar-se senhor, e tomou seus graus de doutor. Graças ao apoio de seus chefes, obteve em 1544 a cátedra de hebraico e ficou assim ao abrigo da necessidade. No ano seguinte, casou-se. Refugiado em Brunswick durante as perturbações da guerra de Esmalcalda, voltou a Wittenberg em 1547 e, desde então, começou para ele uma carreira de incessante atividade, de discussões contínuas, não somente contra o papismo, mas também — pois era de uma intransigência e de uma intolerância pouco comuns — contra quem quer que, entre os protestantes, parecesse ameaçar a pura doutrina de Lutero.

Tendo Lutero morrido, Flácio tomou em mãos a sua causa. Foi dela o doutor rígido e suscetível. Pela extensão de seu saber, pela multiplicidade de seus trabalhos, pelo ardor de sua palavra, impôs-se, não sem causar por vezes profundas feridas a alguns de seus correligionários, entre outros a seu protetor e amigo Melanchthon, nem sobretudo sem levantar terríveis tempestades que, durante um quarto de século, haveriam de perturbar a Alemanha protestante e fizeram que fosse considerado um tição de discórdia.

A discussão do Interim colocou-o de imediato na primeira fila, apesar de sua juventude. Em várias ocasiões, com vistas a acalmar os ânimos e apaziguar as querelas teológicas, causas de tantas perturbações, tentara-se fazer aceitar aos protestantes e aos católicos, por concessões recíprocas, um terreno de entendimento provisório, à espera de que um concílio geral decidisse sobre os pontos em litígio. Foi primeiro em Ratisbona, em 1541 e 1546; mas o Interim proposto esteve longe de obter todos os sufrágios, e o acordo buscado pareceu ser pura quimera. Foi em seguida na dieta de Augsburgo, em 1548; o novo Interim deparou com os mesmos protestos e sofreu um semelhante fracasso. Concessões demais, diziam, não sem razão, os católicos. Cuidado com o Interim, gritavam por sua vez os protestantes, ele esconde uma armadilha. Flácio pretendia que só fora inventado para levar os cristãos a trair o Cristo e a libertar o Barrabás romano. Maurício da Saxônia alegou, por sua parte, que não podia aceitá-lo sem ferir sua consciência e sem faltar à sua palavra, pois prometera a seus súditos não introduzir nenhuma mudança religiosa antes de ter consultado seus Estados e seus teólogos.

Uma nova conferência reuniu-se, pois, em Leipzig, a 22 de dezembro de 1548. Ali estavam, entre outros, Melanchthon e Major, de Wittenberg, e João Pfeffinger, superintendente de Leipzig; decidiu-se que em matéria disciplinar, sobre as coisas indiferentes, ἀδιάφορα, ou médias, res mediae, ater-se-ia ao Interim de Augsburgo, o que permitiria um entendimento com a antiga Igreja, ao passo que em matéria doutrinal se manteria o ensino de Lutero.

Essa tentativa de acomodação lançou a discórdia entre os protestantes. Flácio, como discípulo suscetível e apaixonado de Lutero, viu nela uma lamentável concessão ao papismo; censurou amargamente Melanchthon, a quem tratou de « tição do inferno transformado em papista », por aceitar como coisas indiferentes as velhas cerimônias e os antigos usos da Igreja romana. Era, dizia ele, a aliança entre Cristo e Belial. Tal foi o ponto de partida de uma guerra sem quartel movida por Flácio e seus partidários contra aqueles que já não chamavam senão de filipistas, adiaforistas.

A amizade com que Melanchthon o honrara converteu-se desde então numa oposição tanto mais ferina quanto Flácio não levou em conta os benefícios recebidos, o que levou Melanchthon a dizer mais tarde que alimentara uma serpente em seu seio: Multis Academia : me. beneficiis affectus est ab nostra et a Verum aluimus in sinu serpentem. Dignus esset, cujus fronti stigmata inscriberentur, qualia rex Macedo inscripsit militi : ξένος ἀχάριστος. Corpus reformatorum, t. VII, p. 449.

Flácio já não podia decentemente permanecer junto de Filipe Melanchthon; pediu demissão de professor e deixou Wittenberg para ir a Magdeburgo.

— 3° Em Magdeburgo (1549-1557). A cisão estava consumada.

Magdeburgo tornou-se a cátedra de Deus, der Kanzel Gottes, a rival de Wittenberg, o foco da luta contra o Interim e os adiaforistas. Maurício da Saxônia teve de sitiar a cidade para dominar a rebelião. Tendo escapado a tempo, Flácio pôs-se a percorrer toda a Alemanha do Norte para açular os protestantes contra os Interins de Augsburgo e de Leipzig e contra o adiaforismo. Contava-se, em Wittenberg, que, uma vez tomada a cidade, Amsdorf e Gallus, na falta de Flácio, seriam enforcados como os principais promotores da desordem. Nada disso aconteceu; Maurício da Saxônia julgou mais prudente não sevir. Melanchthon obteve pelo menos do príncipe de Anhalt que Flácio deixasse seu refúgio de Kôthen. Flácio voltou muito simplesmente a Magdeburgo, apesar da presença das tropas do eleitor. Seguro da impunidade, fulminou com mais ardor do que nunca contra Melanchthon e os filipistas.

Publicou em 1550, em Magdeburgo, em língua latina, tudo o que havia escrito até então contra os adiaforistas, M. Flac. Illyrici omnia scripta latina contra adiaphoristicas fraudes edita. «Querem, dizia ele, conciliar Cristo e Belial; voltam ao papismo; pretendem que se pode pregar sem atacar o Anticristo romano. Não vão reconduzir todas as abominações papistas por meio de seu adiáforo?»

Essas censuras exageradas eram pouca coisa ao lado da divergência doutrinal, que se acentuava desde então a respeito do dogma luterano da salvação pela fé somente. Flácio acusava Melanchthon de tê-lo abandonado e de introduzir o da necessidade do concurso humano. Não sonham eles com «uma cooperação do homem na obra de sua conversão? Como! negam que o homem não tenha aí parte alguma, como se fosse um bloco? Têm confiança em suas próprias obras! Mais vale cem vezes enviar as crianças aos lupanares mais infames do que à universidade de Wittenberg, onde se ensinam doutrinas tão diabólicas.» Cf. Omnia scripta, prœf., p. A, a, 6, 8, D, 6, E; Gründliche Widerlegung aller Sophisterei, so Junker Eisleb, Dr. Intérim, Morus, Pfeffinger, Dr. Geiz, etc., das Leipsiche Intérim zu beschônigen gebrauchen, p. J, 3, K; Die fürnehmsten Adiaphoristichen Irrthümer mitte- Voir, ellicher Ireuen Lettre, p. G, 2; Klaerliche Beweisung, dass aile diejeningen, welche die Schriften wider das Intérim und Mitteldinge feil zu haben und zu lesen verbieten, etc., Magdeburgo, 1550, p. A, 5, 8. Encontra-se ainda um eco dessa controvérsia na epístola dedicatória da V centúria, Basileia, 1562, p. a, 4.

Todo aquele que tivesse se envolvido no Interim, todo aquele sobretudo que se afastasse da pura ortodoxia luterana, caía sob os golpes de Flácio. Major foi um deles. Não somente havia aceitado as decisões de Leipzig, mas permitia-se ensinar que o homem não é inerte como um bloco na obra de sua conversão e que as obras são necessárias para a salvação. Flácio qualificou de traição sua passagem ao adiaforismo e seu ensino sobre a justificação; em 1552, desferiu-lhe um libelo, no qual o chamava o Doutor Avareza, para censurar-lhe o amor ao dinheiro: Wieder den Evangelisten des Dr. Heiliger Chorrocks, Geiz Major.

Naturalmente, os professores de Wittenberg, indignados de que um homem tão jovem se permitisse tais diatribes contra os mais velhos, replicaram. Não é, diziam eles, por zelo religioso, mas por despeito, que Flácio age e fala dessa maneira. E o chamavam, por sua vez, o mais endiabrado de todos os diabos, um monstro de orgulho e de ambição. Descortês e acerba, a luta devia prolongar-se ainda por muito tempo.

Entretanto, Flácio voltava-se contra os osiandristas. Em Nuremberg primeiro, depois em Königsberg, entre 1548 e 1552, Osiander havia ousado ensinar que a salvação do homem não se opera unicamente em vista dos méritos de Cristo, que Deus não cobre somente os pecados da alma, como sustentava Lutero, mas que santifica também o seu coração; a justificação consiste, dizia ele, em que Deus habita na alma e a torna santa, e não simplesmente em que não pede contas ao pecador de suas faltas. Tal derrogação dos princípios de Lutero pareceu monstruosa, blasfematória e ímpia ao porta-estandarte do puro luteranismo. Flácio refutou Osiander, expondo com clareza o dogma luterano e mostrando-lhe as consequências lógicas. Confessionis And. Osiandri de justificatione refutatio, Frankfurt do Meno, 1552.

Todos esses golpes de língua e de pena, todos esses opúsculos e tratados, nos quais com demasiada frequência a ironia da forma, a violência do tom, os arroubos da cólera se misturavam à discussão dos mais graves problemas teológicos, só podiam irritar os ânimos, ulcerar os corações, atiçar os ódios e acentuar as divisões, em grande detrimento da reforma. Era ao mesmo tempo deplorável e perigoso. Valia certamente mais fazer calar todos esses rancores e pôr termo a essas discussões apaixonadas; o futuro da obra comum dependia disso.

Tendo-o compreendido, Flácio tentou reconciliar os partidos na assembleia de Coswick, em 1556, mas não teve êxito, tão profundas eram as feridas. Era, pois, a guerra a todo o transe, e, de sua parte, Flácio conduziu-a com mais virulência do que nunca contra todos aqueles que considerava luteranos degenerados. O entendimento ao menos podia fazer-se contra o inimigo comum.

Com finalidade apologética, Flacius quis provar que a Igreja luterana somente, e não a Igreja romana, tem o direito de se dizer apostólica, mostrando pela história que ela está plenamente de acordo com a Igreja primitiva; daí o gigantesco projeto de levantar, século por século, tudo o que, no passado, pudesse trazer um testemunho a essa tese. Mas, para levar a bom termo tal obra, eram indispensáveis colaboradores hábeis e laboriosos, auxílios pecuniários, livros e manuscritos. O empreendimento era de interesse demasiado importante para não ser acolhido por todos. Assim, nada faltou; e, embora de Wittenberg tivesse partido a acusação de que se recorrera a subtrações fraudulentas e a roubos manifestos para reunir as somas e os manuscritos necessários, Flacius encontrou junto de seus amigos a colaboração, e em sua vontade a energia para começar e prosseguir incansavelmente as famosas Centúrias de Magdeburgo. Enquanto esperava que pudesse aparecer a primeira, mandou imprimir em Basileia, em 1556, o Catalogus testium veritatis.

4° Em Iena (1557-1561). Em 1557, Flacius foi nomeado professor e superintendente em Iena. Os duques da Saxônia haviam querido fazer dessa cidade um centro universitário destinado a tornar-se a cidadela do luteranismo puro, em oposição às universidades de Wittenberg e de Leipzig, tornadas demasiado suspeitas. Ao mesmo tempo que ele foram nomeados seus amigos Judex, Wigand e Musaeus. Ele não podia senão alegrar-se com essa boa fortuna, que lhe assegurava um novo teatro para sua ação incessante. Mas, ali como alhures, seu humor belicoso, sua suscetibilidade e sua intransigência doutrinais haveriam de suscitar lutas vivas e apaixonadas.

Havia em Iena, desde 1548, o professor Strigel, que sem dúvida travara o bom combate contra os interimistas, os adiaforistas, os majoristas, os zwinglianos, os osiandristas, em Eisenach e em Worms, por exemplo, mas que nem por isso deixava de ser o discípulo e o amigo de Melanchthon. Mais livre do que seu mestre, e para dar a conhecer o fundo de seu pensamento, sustentara a necessidade de uma cooperação ativa da parte da vontade humana na obra da conversão. Tal não era o ensinamento de Lutero, nem o de Flacius. Era a disputa do sinergismo, que veio juntar-se à do adiaforismo. Um escândalo não podia deixar de ocorrer.

Já um professor de Leipzig, João Pfeffinger, outro melanchthoniano, tratado de renegado por Flacius por ter colaborado na redação do Interim, sustentava, desde 1550, que a vontade do homem deve necessariamente cooperar em sua conversão. O princípio da salvação pela fé somente era assim abalado. Em seu ensino em Iena, Flacius retomou a questão. Comparando a vontade a um bloco de mármore ou a um pedaço de madeira, declarava-a tão morta para todo movimento espiritual, tão incapaz de qualquer bom sentimento quanto uma pedra ou um tronco, estranha por conseguinte à conversão, que pertence exclusivamente ao ato soberano da onipotência divina.

Em 1558, escrevera contra Pfeffinger uma refutação, Refutatio propositorum Pfeffingerii de libero arbitrio. Mas sonhava em fazer proibir absolutamente o ensino do sinergismo. Com esse fim, obteve dos duques da Saxônia que pedissem a Strigel a refutação escrita de todas as opiniões novas que se afastavam do luteranismo puro. Strigel compôs a refutação pedida, não tal como Flacius a desejava, pois de modo algum admitia a teoria ilírica do bloco e do tronco, Block und Klotzlehre, tampouco a teoria segundo a qual, conforme Flacius, o pecado original é a própria substância do homem. Por isso foi acusado de sinergismo e, por conseguinte, de heterodoxia luterana.

No Confutationsbuch, que publicaram em Weimar, em 1558, os amigos de Flacius, Sloessel, Musaeus e Merlin mostravam que o sinergismo é uma opinião ímpia dos adiaforistas. Esse livro, que João Frederico da Saxônia quis impor, sob penas severas, como formulário definitivo da fé, condenava como hereges todos aqueles que não pensavam como Flacius. Era um novo motivo de discórdias. Strigel atacou-o imediatamente e açulou os estudantes; foi então posto na prisão, mas foi solto alguns meses depois, graças ao chanceler Brück, e pôde retomar sua cátedra.

Isso não convinha a Flacius, que reclamou e obteve uma discussão pública entre Strigel e ele; essa discussão teve lugar em Weimar, em agosto de 1560, e durou oito dias. Flacius gabou-se bem mais tarde de ter ganho a causa; mas, pressionado por Strigel, viu-se obrigado a declarar que o pecado original é a própria substância do homem; o que lhe valeu ser acusado, por sua vez, de maniqueísmo.

Desde então sua estrela empalideceu em Iena. A autoridade civil não hesitou em depor todo pastor ou pregador que sustentasse a opinião de Flacius. Foi uma nova ocasião de perturbações e de discórdias. Flacius sustentou então a liberdade e a independência do ministério eclesiástico em face do poder temporal. Mas o eleitor da Saxônia esmagou em germe essa tentativa de teocracia, reivindicando a autoridade superior nos assuntos eclesiásticos, e fez saber que repelia toda espécie de inquisição. Mandou julgar Flacius, no fim de 1560, num consistório do qual fazia parte precisamente Pfeffinger. Por fim, destituiu-o, bem como a seus amigos. Diante dessa notícia, Wittenberg se regozijou; crianças percorreram as ruas cantando versos satíricos contra — Flácio.

5° No exílio (1562-1567). Flácio começou então uma vida errante, mas de modo algum ociosa. Retirou-se para Ratisbona, à casa de seu amigo Gallus, ardente partidário da lenha e do cepo. Viu uma vingança do céu no fato de que, entre seus inimigos, um, o eleitor da Saxônia, fora posto sob o banimento do império, e o outro, o chanceler Brück, morrera no cadafalso. Nem por isso deixou de continuar a trabalhar. Visitou os protestantes da Alsácia austríaca. Em 1566, foi chamado a Antuérpia com alguns de seus amigos para ali organizar o culto reformado; no mesmo ano, publicava o De translatione imperii romani ad Germanos; em 1567, a Confessio ministrorum Jesu Christi in ecclesia Antwerpensi, a Clavis Scripturae sacrae, o De peccati originalis et veteris Adami appellationibus et essentia.

Tendo sido retirada a liberdade de culto aos protestantes dos Países Baixos, viu-se forçado a deixar Antuérpia. Mas para onde ir? Sua polêmica virulenta lhe havia alienado os dois príncipes mais poderosos do partido, os eleitores da Saxônia e do Palatinado, que lhe fizeram interditar o acesso à maior parte da Alemanha protestante. Retirou-se para Frankfurt am Main.

Mas sua Clavis Scripturae sacrae suscitou novas polêmicas e acentuou ainda mais as divisões, não simplesmente por causa dos numerosos plágios que cometera, mas por causa de sua opinião sobre o pecado original. Apoiando-se em Lutero, que dissera: Tudo é pecado no homem, seu nascimento, toda a sua natureza, todo o seu ser, pretendeu mais uma vez que o pecado original havia mudado radicalmente e pervertido a substância do homem; daí o nome de substancialistas dado a seus partidários, a Gallus e Musaeus entre outros, por oposição àqueles que faziam recair as consequências do pecado original não sobre a substância do homem, mas sobre os acidentes, daí o nome de acidentalistas (Wigand, Andreae, etc.). Era de novo semear vento e desencadear a tempestade; mas era também atrair para si desgostos. Causa de tantos rumores e agitações, Flácio pareceu um hóspede comprometedor; as autoridades de Frankfurt pediram-lhe que deixasse a cidade.

Em Estrasburgo (1567-1571). Encontrou asilo em Estrasburgo, mas com a condição de ali permanecer quieto e de não suscitar novas perturbações. Cumpriu a palavra durante quatro anos; mas nem por isso deixou de mandar imprimir em Basileia, em 1568, o De sententia imaginis Dei et diaboli, e o De occasionibus originalis iustitiae essentia (?), e, em 1570, a Defensio doctrinae de originali iustitia et iniustitia, bem como a Complexio (?) in Novum Testamentum. Em 1571, foi novamente acossado por Andreae, que quis sustentar com ele uma discussão pública diante dos pregadores da cidade. Levado a seus últimos redutos, prometeu renunciar à palavra substância, mas recusou-se a admitir a de acidente. A acusação de maniqueísmo reapareceu imediatamente, e os pastores romperam com ele. Como única resposta, enviou-lhes seu Engel der Finsterniss, a fim de que pudessem se convencer de que a doutrina de seus contraditores não era nada menos que uma abominação papista. Por mais que apelasse em seguida para a dieta de Espira, os estrasburguenses o acusaram de ter rompido o pacto prometido, e o conselho, a pedido do eleitor da Saxônia, o baniu.

— 7° Seus últimos anos (1572-1575). Flácio estava doravante condenado a errar como um vagabundo por aquela Alemanha protestante que ele enchera de suas obras, de suas querelas teológicas e de sua poderosa personalidade. Refugiado em Basileia, foi obrigado a partir de novo, a pedido do eleitor da Saxônia. « Os calvinistas, diz Döllinger, La Réforme, trad. franc., Paris, 1849, t. II, p. 245, soltaram gritos de alegria ao ver que o Aquiles do luteranismo era, em seu próprio partido, evitado como um empestado e repelido como um sarnento. Em Frankfurt não quiseram recebê-lo; foi secretamente a Mansfeld, depois a Berlim, percorreu a Silésia e a Hesse, sob disfarce, e retornou finalmente a Frankfurt, de onde iam ainda expulsá-lo, quando morreu, relativamente jovem, em 11 de março de 1575.

« Assim sucumbiu Flácio, depois de ter sido acuado por toda a Alemanha protestante como uma fera. Se o fim infeliz desse homem que, pela extensão de seus conhecimentos em teologia e em história, superava todos os seus contemporâneos protestantes, causou tão pouca sensação, pode-se explicá-lo porque, sob essa Reforma que devorava seus próprios filhos como um outro Saturno, nada era então mais comum do que ver reformadores e pastores morrerem da mesma morte; e sem dúvida também porque mal se podia lamentar que tivesse de suportar um tratamento que ele próprio fizera sofrer Melanchthon, seu benfeitor. » Döllinger, op. cit., t. II, p. 246.

Ele terminou como o bode expiatório de todo o seu partido. Um tal fim, se se explica até certo ponto pelos defeitos do homem e pela intransigência altiva demais do doutor, não é um elogio a seus correligionários. Flácio, ao que parece, merecia melhor, pois foi o maior teólogo luterano de seu tempo e o discípulo mais obstinadamente fiel à doutrina de Lutero.

II. Escritos. 1° Atividade literária de Flácio: sentimentos que a inspiraram.

Sempre na brecha, Flácio não cessou de combater pela pena. Escritos em alemão ou, mais frequentemente, em latim, suas cartas, seus opúsculos, seus pequenos tratados e suas obras de longo fôlego testemunham a maior atividade literária. Dois sentimentos sobretudo o excitaram: o ódio contra a Igreja romana e o desejo de assegurar o triunfo à causa da Reforma pela manutenção integral da doutrina de Lutero. O ódio ordinariamente torna excessivo e injusto; foi o caso de Flácio. Sem falar da grosseria dos termos ou da virulência das palavras, recorreu à sátira, ao panfleto, à calúnia. Isso era sem dúvida, a seus olhos, de boa guerra, pois ele julgava que não se devia ter nem trégua nem repouso contra o Anticristo e a corte de Roma, e que tudo era bom para combater a causa de tantos males. Assim, todas as vezes que, com a intenção de apaziguar os espíritos e de fazer cessar as discórdias religiosas, se tentou entender-se, ao menos sobre pontos secundários que deixavam de lado a doutrina, apressava-se ele a dar o grito de alarme e a pôr um basta. Essas tentativas de acomodação, que qualificava de aliança entre Cristo e Belial, ele as considerava um retorno atrás, uma abdicação. Não tratou com menos severidade e arrebatamento aqueles de seus correligionários que se permitiam interpretar em sentido mitigado a doutrina luterana ou introduzir nas questões do pecado original, da salvação e da justificação algumas novidades julgadas inaceitáveis. Guardião inflexível da pura ortodoxia, julgava que o ensino de Lutero devia permanecer a última palavra, absolutamente intocável e sagrada; daí o papel que desempenhou de Aristarco ou, antes, de papa luterano intransigente. Tinha a seu favor a lógica, mas ela se baseava num falso ponto de partida; em nome do livre exame, cada um podia responder-lhe que tinha o direito de exprimir seu pensamento e de fazer valer suas convicções.

Quando Flácio constatou o insucesso parcial de seus esforços, quando, ademais, se viu alvo de suspeitas e de perseguição, não deixou de deplorar a triste situação religiosa da Alemanha, de recriminar uns e outros; e finalmente apelava para o juízo final, que julgava iminente. É nas epístolas dedicatórias colocadas à frente de cada centúria que ele manifesta esses sentimentos: a que dirigiu a Érico, rei da Suécia, ao publicar a V.ª centúria, Ecclesiastica historia, Basileia, 1562, p. a, 4, 5, 6, é particularmente interessante a esse respeito. Isso foi após sua expulsão de Iena. Ele recorda primeiro os magníficos ímpetos da pregação evangélica em seus começos; mas que mudanças desde então! Sed proh dolor! quam horrenda ingratitudine ! quali, et nos homines ista ingentia omnipotentis Dei beneficia excipimus Quam enim tetra peccata, scelera, flagitia ! in orbe christiano nunc simul inundant!

Sem dúvida, acrescenta ele, aludindo a si mesmo e a seus amigos, ainda há doutores, dispersos aqui e ali, que mantêm a pureza da palavra divina e denunciam corajosamente os múltiplos erros, mas são vilipendiados e perseguidos, não somente pelos filhos do século, da parte dos quais isso não é de surpreender, mas também por confrades que os tratam de rigoristas, de heréticos, de tições de discórdia, até o ponto de fazer agir o braço secular, donec desperantes de suae causae bonitate et gladio spiritus, sollicitant et instigant potentiores, ut ejusmodi voces sua auctoritate, quin et cruentis gladiis, compescant.

Segue-se uma alusão aos lamentáveis distúrbios do Interim e a enumeração das concessões funestas e dos erros novos: Cessio facta est in articulo de libero arbitrio, in gratiam papistarum, quasi homo non — regeneratus possit in conversione ad Deum cooperari. Cessio..., quod principaliter fide justificamur quod ; de particula sola in ista propositione : sola fide justificamur, non sit pugnandum coram Antichristi sociis. Cessio..., quod bona opera sunt ad salutem seu justitiam necessaria, et quod impossibile — sit absque bonis operibus salvus seu justus fieri. Cessio. ..,quod in ceremoniis viva Antichristi larva sit recipienda.

É, dizia ele, o triunfo da filosofia e do papismo. E aludindo a Melanchthon, zomba desses amadores de conciliação, desses homens de autoridade e de doutrina, que se chegou a venerar como semideuses ou ídolos, non aliter quam semidei et quaedam idola. Deplora, enfim, a intrusão do poder civil nos assuntos religiosos, o que vai dar tantos papas quantos príncipes, magistrados ou grandes senhores; e que papas, quando a maioria deles nem sequer sabe servir-se da espada temporal! Et plane sicut olim pontificii proceres in 1 nunc Ecclesia scelerata régna hujusmodi invaserunt, ita vicissim politici, illotis quasi manibus, in gubernationem illam spiritualem irrumpunt, seque utroque gladio instar Antichristi accingunt, cum nec unumquidem suum recte administrare norint.

Tais sentimentos, expressos em 1562, só puderam reforçar-se e azedar-se até sua morte; mas Flácio manteve-se firme apesar de tudo e prosseguiu em seu ingrato papel.

— 2º Escritos diversos. Entre os numerosos escritos de Flácio, alguns não passam de compilações, das quais bastará indicar o título 1.

Carmina vetusta quœ il : déplorant inscitiam Evangelii cum praefatione Flacii Illyrici, Wittenberg, 1548; 2. Sylvula carminum de religione, 1553; 3. Sylva carminum in nostri œvi corruptelas, 1553; 4. Varia doctorum piorumque virorum de corrupto Ecclesiœ statu, 1556.

— 3º Contra o papa e a Igreja. 1. Em data desconhecida, Flacius publicou um fascículo de oito folhas, Erklerung der schendlichen Siinde dcrjenigcn, die durch der Concilium, Intérim und Adiaphora vom Christo :um Antichrist fallen,aus diesen prophetischen Gemelde des drillen Eliàseliger Gedechlniss D. M. Lutheri genommen, a propósito da ignóbil caricatura em que o papa era representado a cavalo sobre um porco e abençoando excrementos. Lê-se ali esta passagem: «Esta estampa não é, como se quereria fazer crer em demasia, obra e fantasia de um velho louco cheio de malícia; foi inspirada por uma sabedoria toda divina e espiritual. Pois nenhuma imundície faz subir ao nariz um odor mais nauseabundo do que o papismo; é a mais medonha imundície do diabo; empesta Deus e os santos anjos. Por isso o sarcasmo amargo desta imagem e do meu discurso são incapazes de exprimir, como seria preciso, a horrível impiedade, a imundície espiritual desses mamelucos que, enquanto escrevo estas linhas, com o seu papado, o seu concílio, o seu Intérim, os seus compromissos e tudo o que emana dessa raça empestada, nos arrastam para longe de Nosso Senhor Jesus Cristo e nos conduzem direto ao Anticristo e ao diabo.» Cf. Janssen, L'Allemagne et la Réforme, trad. franc., Paris, 1877-1899, t. III, p. 690. Esse é, com demasiada frequência, o tom das diatribes de Flacius.

2. Em 1545, estreava com um dos mais violentos panfletos, Contra papatum romanum, cujo prefácio começa com estas palavras: Satanacissimus papistarum : Magdebourg, 1549; 3. Notée de falsa religione, papa; 4. Historia certaminum de primatu papœ, 1554; 5. uma sátira, Antilogia papœ, Basileia, 1555; Catalogus testium veritatis, qui ad nostram aetatem pontificii romano ejusque erroribus reclamarunt, Basileia, 1556. É uma coletânea, acompanhada de reflexões e observações, de tudo o que a história podia oferecer de mais desfavorável à Igreja romana, e como que o prefácio das Centúrias.

Flacius esforçava-se por provar ali que, apesar das trevas que durante tanto tempo haviam obscurecido a verdade cristã, em todos os séculos se encontraram, no seio do papismo ímpio, testemunhas fiéis que haviam tomado a defesa da ortodoxia, até o dia em que, graças ao novo Evangelho, a verdade resplandeceu no mundo. Este livro está nas mãos de todos, o povo mesmo o lê avidamente, observava o autor na dedicatória da refutação que dele fez. Catalogus testium veritatis, Dillingen, 1565. 7. Pro testatio concionatorum aliquot Aug. confessionis adversum Tridentinum, 1563; 8. De $ectis, dissentionibus et confusionibus in doctrina... pontificiorum, I;

9. Missa latina, quœ olim unir Romanam in usu fuit, Estrasburgo, 1557. Flacius a havia publicado a partir de um velho manuscrito, para mostrar que a Igreja romana tinha antigamente outra missa; ela foi explorada durante algum tempo como contrária à crença e à prática dos católicos; mas não tardou que se convencessem de que estava longe de favorecer o novo Evangelho, visto que testemunhava antes em favor da presença real e da confissão auricular; por isso procurou-se suprimir todos os exemplares, mas sem o conseguir; o cardeal Bona a reimprimiu em suas obras litúrgicas.

10. Sob este título: Ethnica jesuitarum doctrina, sobre os dois principais artigos da fé cristã, a remissão e a absolvição dos pecados e o mistério da predestinação, Flacius escreveu um panfleto contra o catecismo de Canísio, sem indicação do lugar de impressão, mas datado, no fim, do ano de 1564; nele atribui aos jesuítas em geral e a Canísio em particular uma doutrina que bem pode qualificar de pagã, mas que de modo algum era a deles, pois a inventou com a mais evidente má-fé. Cf. Preger, Flacius Illyricus, Erlangen, 1859-1861, t. II, p. 563, 564; Janssen, L'Allemagne et la Réforme, trad. franc., t. IV, p. 416.

Quanto ao fundo e à forma, estas obras de Flacius alimentaram as diatribes protestantes contra «o Anticristo de Roma, a prostituta de Babilônia e toda a raça idólatra do papismo.» A verdade é que o fundo é tão detestável quanto a forma.

4º Contra os protestantes. Sob o nome de zwinglianos, de interimistas, de adiaforistas, de sinergistas etc., quase não há personagem protestante cujas opiniões Flacius não tenha combatido apaixonadamente, cada vez que as julgava opostas às suas vistas ou à pura doutrina de Lutero; atacou os calvinistas tanto quanto os luteranos.

Reprovou notadamente a ceia calvinista e o Katechismus Heidelberger dos calvinistas Olevian e Ursinus, publicado em Heidelberg, em 1563, com a aprovação do eleitor palatino Frederico III, que o impôs por autoridade em seus Estados. Cf. Wolten, Der Heidelberger Catechismus in seiner ursprünglichen Gestalt, nebst der Geschichte seines Textes im Jahre 1563, Bonn, 1864; Niepmann, Der Heidelberger Catechismus von 1563, Elberfeld, 1866.

Já assinalamos algumas de suas obras polêmicas. 1. Flacii Illyrici omnia scripta latina contra adiaphoristicas fraudes edita, Magdebourg, 1550; 2. Wieder den Evangelisten der Heiliger Chorrocks, Dr. Geiz Major, 1552; 3. Confessionis Andr. Osiandri de justificatione refutatio, Francfort-sur-le-Mein, 1552; 4. Refutatio propositorum Pfeffingerii de libero arbitrio, 1558.

— 5° Obras doutrinais. Relativamente à doutrina luterana, tal como a compreendia e a expôs contra todos os que propuseram pontos de vista novos, Flácio escreveu: 1. De voce et re fidei, 1547, no Corpus reformatorum, t. VII; 2. De manducatione corporis Christi, 1564; 3. De non scrutando Dei modo generationis Filii, 1560; 4. De peccati originalis et veteris Adami appellationibus et essentia, 1567; 5. De essentia imaginis Dei et diaboli, Basileia, 1569; 6. De occasionibus vi'andi nions m essentia justitiæ originalis, Basileia, 1569; 7. Defensio doctrinæ de originali justitia et injustitia, 1570.

Nelas defende os princípios de Lutero sobre a Justificação pela fé somente, sem as obras, e formula, segundo a doutrina de seu mestre, o que crê ser a verdadeira natureza do pecado original. Por outro lado, deixou duas obras sobre a Sagrada Escritura: 8. Clavis Scripturæ sacræ, seu de sermone sacrarum litterarum, Basileia, 1567; 9. Glossa compendiaria in Novum Testamentum, Basileia, 1570.

A Clavis compreende dois volumes, dos quais o primeiro, em forma de dicionário, é uma explicação das principais expressões da Bíblia, e o segundo contém vários tratados sobre as regras a observar na explicação do texto sagrado. Flácio, é desnecessário dizer, rejeita os princípios da Igreja católica, segundo os quais a Escritura não é a regra única da fé e deve ser entendida segundo a interpretação que a Igreja lhe deu, ou que ela mesma lhe dá. Vê-se, porém, bem obrigado a reconhecer que ela apresenta obscuridades, pois assinala minuciosamente mais de cinquenta razões para isso; daí a necessidade de algumas regras de interpretação. Entre essas regras, ele dá algumas excelentes; outras são menos seguras; e depois há o vício radical do livre exame, que deixa a porta aberta a todas as opiniões.

Aprova a interpretação alegórica, quando a interpretação puramente literal é inaceitável. Mas, na falta de uma autoridade que possa decidir em última instância, é entregar o sentido da Escritura aos caprichos de quem quer que a examine e estabelecer um verdadeiro princípio de anarquia intelectual — e religiosa.

6° Obras históricas. Em várias ocasiões, na maior parte das obras já indicadas, Flácio recorreu à história; recorre a ela ainda no De translatione imperii romani ad Germanos, Basileia, 1566, para provar que a transferência do império romano aos alemães não foi feita pelos papas, mas sobretudo nas famosas Centúrias.

Esta obra, que devia exercer tanta influência entre os protestantes e tornar-se o repertório favorito de todas as polêmicas contra a Igreja católica, foi empreendida com o propósito de revelar ao mundo cristão as origens, os progressos e as tramas ímpias do Anticristo de Roma, de dar as provas manifestas de todos os crimes e tráficos vergonhosos da Igreja, de mostrar que, nos inícios do cristianismo, não fora a doutrina papista que se ensinara, mas sim a doutrina evangélica. Flácio a dividira em três períodos: o Anticristo oculto, o Anticristo público, o Anticristo desvendado; mas a publicou por século, donde o nome de Centúrias.

O título, muito longo, é: Ecclesiastica historia... secundum singulas Centurias... per aliquot studiosos pios viros in urbe Magdeburgica. Sem nome de autor; mas cada centúria é precedida de uma epístola dedicatória a algum ilustre personagem, duque, príncipe ou rei, ao pé da qual se leem os nomes de Flacius Illyricus, Wigand, Judex e Faber para as quatro primeiras centúrias, os de Flacius, Wigand e Judex para as cinco seguintes, os de Flacius, Wigand e Corvinus para as outras, e os de Wigand, Corvinus e Holthuter para a décima terceira. As quatro primeiras foram compostas em Magdeburgo; a quinta partim in urbe Magdeburgica, partim in Academia Ienensi, como traz o subtítulo; mas a sexta é dita in exsilio per auctores contexta; e todas as outras, a partir da sétima, in ducatu Megalopolensium, in civitate Wismaria, no ducado de Mecklemburgo, em Wismar. Mas todas foram impressas em Basileia, de 1559 a 1574.

Esta obra foi essencialmente uma obra de partido, em que a verdade histórica não é respeitada, em que as acusações mais injustas e mais ignóbeis são lançadas contra os papas, notadamente Gregório VII e Alexandre III, em que as fábulas mais grosseiras são registradas, como a da papisa Joana, à qual se volta até três vezes. Cent., ix, p. 333, 337, 501.

Se pôde alegrar os protestantes, não desconcertou os católicos, que prontamente aceitaram o desafio. Um cônego de Augsburgo, morto em 1563, Conrad Brun, foi o primeiro a fazer aparecer um Liber adversus centurias magdeburgenses, Dillingen, 1561; outro cônego, Eisengrein, de Espira (†1570), quis replicar com Centenarii XVI continentes descriptionem rerum mirabilium in orthodoxa et apostolica Ecclesia gestarum, adversus novam historiam ecclesiasticam, quam Matthias Flacius Illyricus et ejus collegae Magdeburgici contra verum Dei cultum... nuper ediderunt; mas só teve tempo de publicar o Centenarius I, Ingolstadt, 1566, e o Centenarius II, Munique, 1568. Por sua vez, Canísio resolveu restabelecer a verdade desconhecida e travestida em seus Comenta-

Autor original: G. Bareille

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