FICIN Marsile. I. Vida. II. Obras. III. Doutrinas. IV. Influência.
Vida. — Marsile Ficin nasceu em Figline, Fichinum, a quarenta milhas de Florence, ou na própria Florence, em 19 de outubro de 1433. De sua mãe Alexandra, diz que era uma alma pura e toda divina. Epist., Nuremberg, 1497, t. I, fol. 6 b. Seu pai, médico suo saeculo singularis, Epist., t. I, fol. 26 a, e humanista estimável (é um dos nove platônicos que, no De amore de Ficin, comentam o Banquete de Platon), era devoto da santa Vierge. Epist., t. I, fol. 26 a. Pai, mãe e filho tiveram em muito alta conta a graça do jubileu que lhes foi concedida, em 1475, por Sixte IV, sem que tivessem de ir a Roma. Epist., t. I, fol. 44 b. Segundo as ideias da época, o horóscopo de Marsile pressagiava, entre outras coisas, uma saúde débil. Cf. Epist., t. I, fol. 25 b ; IX, fol. 201 a. O fato é que foi frequentemente doente, sempre frágil. Seus contemporâneos diziam espirituosamente dele que era «uma alma platônica em um corpo socrático.» Havia recebido da natureza, com um temperamento débil, um exterior dos menos atraentes. Statura fuit admodum brevi, gracili corpore et aliquantulum in utrisque humeris gibboso, lingua parumper hæsitante atque in prolatu dumtaxat litteræ S balbutiente, diz seu discípulo e biógrafo Corsi, Marsilii Ficini vita, Pise, 1772, p. 47. Mas a distinção de seu espírito compensava suas desgraças físicas.
O estudo o apaixonou, e bem depressa foi conquistado por Platon, que ele conhecia, porém, apenas através de Cicéron e dos outros escritores latinos. Seu pai o destinava à medicina e o enviou estudar em Bologne. Cosme de Médicis, que projetava estabelecer uma academia platônica, discerniu nele o homem capaz de realizar seu desígnio. Apegou-se a Marsile, assegurou-lhe o lazer e os livros necessários, deu-lhe uma habitação em Florence e uma vila no campo, e o cercou de uma proteção atenta e inteligente, de tal modo que, no prefácio de seu De vita, edição de suas obras de Venise, 1516, fol. 134 b, Marsile Ficin escreveu: Melchisedech summus sacerdos... unum ille vix patrem habuit. Ego sacerdos minimus patres habui duos, Ficinum medicum, Cosmum Medicem ; ex illo natus sum, ex isto renatus. Todos os Médicis, essa raça de heróis, genus heroicum, como os chama, Epist., t. XI, fol. 124 a, e, mais que todos, Laurent le Magnifique, lhe prodigalizaram sua benevolência. Em 1456, Ficin apresentou a Cosme o primeiro resultado de seus trabalhos, as Institutions platoniciennes, que havia empreendido por conselho do ilustre humanista Landini ; compostas, ele nos informa, par fortuita quadam et inventione partim platonicorum quorumdam latinorum lectione adjutus, Epist., XI, fol. 219 b ; o procedimento não era seguro, Cosme e Landini não tiveram dificuldade em fazê-lo compreender isso.
Ao mesmo tempo em que aprovavam a obra, aconselharam-no, diz ele, ut penes me servarem quoad græcis litteris erudirer platonicaque tandem ex suis fontibus haurirem. Ficin pôs-se resolutamente a aprender o grego, sob a direção de Platina, se se deve acreditar em Corsi, cuja afirmação é posta em dúvida por Tiraboschi, Storia della letteratura italiana, Naples, 1780, t. VI, p. 280. Seus progressos nessa língua foram rápidos. Começou por traduzir, para si mesmo, os Argonautiques, os Hymnes d'Orphée, d'Homère, de Proclus, a Théogonie d'Hésiode, e depois, para o público, Mercure Trismégiste. Por fim, empreendeu uma tradução completa de Platon. A tarefa era imensa ; ele a levou a cabo, e Laurent de Médicis recebeu a dedicatória solene dessa obra. Além disso, Ficin traduziu Plotin e os demais neoplatônicos e explicou publicamente a doutrina platônica. Deve-se tomar ao pé da letra a expressão de Corsi, Marsilii Ficini vita, p. 87 : et pagano Christi miles factus, e admitir, com Ph. Monnier, Le quattrocento, Paris, 1908, t. II, p. 105, que «ele passou por dez anos de dúvidas, de angústias e de sofrimentos» e que «dessa crise saiu cristão»?
Houve um tempo, diz Ficin, em que «eu duvidava da razão e ainda não confiava na revelação» ; mas acrescenta que chorava ao ler em Platon que as coisas divinas se revelam por causa da pureza da vida mais do que se ensinam pelas palavras, e, sob o efeito dessa impressão, compunha um diálogo entre Deus e a alma, de um calor de tom, de um fervor de pensamento todo cristão. Epist., l. I, fol. 2-3. Seu afastamento do cristianismo nunca parece ter sido total. Quaisquer que tenham sido a agudeza e a duração da crise, sabemos que foi ordenado sacerdote por volta dos quarenta anos. A eloquência de Savonarole (a quem, fiel aos Médicis, ele acabou abandonando, depois de ter contado entre seus fervorosos partidários) pôde orientá-lo para o sacerdócio. Assim que se tornou sacerdote, ocupou-se em compor um tratado sobre a religião. Cf. sua carta dedicatória a Laurent de Médicis, De religione christiana, Paris, 1510, fol. 2 b. Esse tratado foi interrompido (1474) por uma doença cuja cura Ficin atribuiu à santa Vierge. Epist., l. I, fol. 25 b-26 a. Laurent de Médicis confiou-lhe o governo de duas igrejas de Florence e, por volta de 1484, nomeou-o cônego da catedral.
Ficin explicou as Épîtres de saint Paul e pregou o Évangile, mas sem abandonar Platon. As conversas sobre a Écriture e sobre Platon, a composição de numerosas obras, uma correspondência extensa, a música que sempre o encantou (veja-se, entre outras, uma bela carta, Epist., l. I, col. 17, sobre seu triplo saber de médico, de músico e de teólogo), o cuidado com uma saúde delicada, a piedade, preencheram seus dias. Morreu em 3 de outubro de 1499, e foi sepultado na catedral de Florence. Ange Politien exprimiu a admiração geral no seguinte epitáfio: Mores, ingenium, musas sophiamque supremam Vis uno dicam nomine ? Marsilius. Segundo um relato que Baronius, Annal. eccles., an. 411, n. 69, declara ter ouvido da boca do protonotário Michel Mercati, neto de Michel Mercati, amigo de Ficin e um de seus ouvintes, Ficin e Mercati, após um debate sobre a imortalidade da alma segundo Platon e os ensinamentos da fé cristã, fizeram o pacto de que aquele dos dois que morresse primeiro viria, se fosse possível, informar o sobrevivente sobre o estado da outra vida. Algum tempo depois, numa manhã, estando Mercati mergulhado em especulações filosóficas, ouviu um cavaleiro que chegava a galope parar à sua porta, e a voz de Marsile gritar: « Michel, Michel, isto é verdade, isto é verdade, vera, vera sunt illa. »
Mercati, precipitando-se à janela, viu um cavaleiro branco montado num cavalo branco que retomara sua corrida. Chamou: « Marsile, Marsile », mas o cavaleiro desapareceu. Mercati, comovido, fora de si, dirigiu-se à casa de Ficin. Soube que seu mestre havia morrido na hora da aparição. E, acrescenta Baronius, Mercati, homem de uma probidade antiga e de uma vida inocente e útil a todos, como convém a um filósofo, não cultivou mais, a partir desse momento, senão a filosofia cristã, e, pelo resto de sua vida, morto para o mundo e vivendo somente para a vida futura, ofereceu o modelo de um cristão perfeito. Ver um relato um tanto diferente em Audin, Histoire de Léon X, nouv. édit., Paris, 1850, t. I, p. 33-34, e aproximar dele duas cartas de Ficin, Epist., l. I, fol. 2-3, 6 b, uma a Michel Mercati, na qual ele recorda seus frequentes colóquios sobre as coisas divinas, a outra na qual conta uma aparição que teriam tido sua mãe e seu avô materno por ocasião da morte de sua avó materna.
II. ŒUVRES. O próprio Ficin dá a lista de suas obras, mas incompletamente, em duas cartas. Epist., l. I, fol. 8 b-9 a (sem data) ; l. IX, fol. 199 b-200 a (de 12 de junho de 1489). Sem falar de pequenos comentários sobre Lucrèce que redigiu puer adhuc e que lançou ao fogo, nem de suas traduções dos Argonautiques, dos Hymnes d'Orphée, d'Homère e de Proclus e da Théogonie d'Hésiode, produção de sua adolescência que não entregou ao público, Epist., l. XI, fol. 222 b, seus escritos podem dividir-se em quatro classes.
— 1° As traduções. Em primeiro lugar, a de Platon (56 livros). Depois as traduções, em geral parciais, de diversos autores gregos, a maioria neoplatônicos: Plotin (54 livros), Porphyre, Proclus, Jamblique, Alcinous, Priscien, Speusippe, Xénocrate, Théon, os Vers dorés de Pythagore, Mercure Trismégiste, e, entre os cristãos, o autor das obras que Ficin, com seus contemporâneos, atribuía a Denys l'Aréopagite, assim como Synésius e Michel Psellus. A assinalar ainda as traduções de um pequeno saltério e do De monarchia de Dante, e a tradução do inglês in linguam latinam (o latim) do Oraculum Alfonsi régis ad regem Ferdinandum. De todas essas traduções, a de Platon é de longe a mais importante.
A versão dos dez primeiros diálogos foi concluída sob o governo de Cosme de Médicis (f 1464), a dos nove seguintes sob o de Pierre (f 1469), o restante no tempo de Laurent le Magnifique ; a edição princeps, bastante incorreta, cf. Epist., l. VIII, fol. 182, apareceu em Florence, por volta de 1477. Foi um acontecimento memorável. Partes isoladas da obra de Platon já haviam sido traduzidas. Ficin conseguiu «fazer por Platon o que uma legião de laboriosos eruditos de todos os países haviam feito por Aristote dois e três séculos antes: colocar a nova filosofia ao alcance não apenas de todos os espíritos cultos, não somente da Itália, mas de todo o Ocidente, fornecer a uma elite os meios de haurir seus elementos na fonte mais pura e mais autêntica», e o fez, «se se levar em conta os obstáculos a vencer, com um êxito incontestável.» Certamente, sua tradução não é de modo algum perfeita. Desde então, passagens obscuras foram esclarecidas, erros de copistas corrigidos, manuscritos desconhecidos de Ficin utilizados, e os inúmeros trabalhos consagrados a Platon trouxeram luz ; por outro lado, sua versão é demasiado literal. Mas ela tem méritos verdadeiros, reconhecidos por homens do valor de Buhle, de Tennemann, de Ritter, d'Ueberweg, de Chaignet, de C. Huit. Cf. C. Huit, Le platonisme pendant la Renaissance, dans les Annales de philosophie chrétienne, nouv. série, Paris, 1895-1896, t. XXXIII, p. 275-277.
— 2° Escritos filosóficos. Vêm, sob essa rubrica, as obras de filosofia ou mesmo de teologia platônica, em particular seus «argumentos» sobre todos os livros de Platon e de Plotin, seu comentário considerável do Banquete ou o De amore, os dois escritos de sua juventude: as Institutions platoniciennes (1456) e o Voluptate (1457), os «argumentos» sobre a Théologie mystique e os Noms divins de l'Aréopagite, o De sole (comparação de Platon e de Denys l'Aréopagite entre o sol e Deus) e o De lumine. Platon não deixa de intervir mesmo no De vita, que se anuncia como uma obra de medicina e trata, nos dois primeiros livros, De vita sana e De vita longa, mas, num terceiro livro intitulado De vita cœlitus comparanda, reencontram-se Platon e os neo-platônicos a propósito da «alma do mundo», da influência dos astros, etc. Desses escritos, o principal é a Theologia platonica sive de immortalitate animorum et æterna felicitate, o «monumento mais importante, sem contestação, da escola platônica no século XV.» C. Huit, op. cit., p. 365-366. É um comentário teológico da doutrina de Platon, e sobretudo uma amplificação eloquente do Phédon, uma demonstração da existência e da imortalidade da alma.
— 3° Escritos teológicos. O mais longo e o mais precioso é o De religione christiana et fidei pietate, começado: estava em 1474 e seguramente terminado em 1477. Cf. c. IX, fol. 116 ; Epist., l. I, fol. 25 b-26 a ; l. III, fol. 98 b-99 a. Ficino escreveu também comentários sobre os Evangelhos, sobre as Epístolas de são Paulo (apesar do título, esse comentário trata apenas dos três primeiros capítulos e de uma parte do capítulo iv da carta aos Romanos), — o De divina gratia, etc.
4° Cartas. Essa coletânea, em doze livros, é inestimável para conhecer não somente o humanista, mas ainda o homem, o cristão, o sacerdote. Infelizmente as cartas não estão dispostas segundo a ordem cronológica, e poucas são datadas; a maioria destas últimas é de anos posteriores à ordenação sacerdotal. Ficino incluiu nelas as dedicatórias de seus escritos e diversos opúsculos filosóficos ou teológicos, tais como o De felicitate, as Quaestiones quinque de mente, o Compendium platonicae theologiae, o Argumentum in platonicam theologiam (prelúdio à Theologia platonica), o De convivio, o De vita Platonis, o De institutione principis (trata-se de um cardeal), a Oratio ad Deum theologica, o De raptu Pauli ad tertium cœlum — et animi immortalitate.
— III. Doutrinas. 1° O platonismo de Ficino. Até onde foi o platonismo de Ficino? Até o paganismo estrito, segundo diversos autores, à frente dos quais se coloca, pela extensão e veemência de sua acusação, Mons. Gaume, La Révolution, Recherches historiques sur l'origine et la propagation du mal en Europe depuis la Renaissance jusqu'à nos jours, Paris, 1856-1857, t. II, Révolution française, p. 260-261; t. VIII, Le rationalisme, p. 208-218, 241-242.
Ele julga que Ficino é um puro pagão. Esse cônego assiste Cosme de Médici moribundo e, em vez de fazê-lo receber os sacramentos, prepara-o para comparecer diante de Deus lendo-lhe Platão. Ele não possui em seu quarto «nem crucifixo, nem estátua da santíssima Virgem, nem imagem de santo. Tudo isso é substituído por um busto de Platão diante do qual está suspensa uma lâmpada acesa dia e noite. A comunidade das mulheres e dos bens» e o infanticídio ordenados por Platão «lhe parecem coisas excelentes e as bases de um Estado bem regulado.» Ele chama seus ouvintes não de seus irmãos em Jesus Cristo, mas de seus irmãos em Platão. Ensina um racionalismo audacioso, fazendo do filósofo mediador entre Deus e o homem, «homem para Deus e Deus para os homens.» Pede seriamente que se ensine a filosofia de Platão nas igrejas como a Sagrada Escritura, e o faz. A seus olhos, Sócrates é um santo, e ele estabelece entre Cristo e Sócrates moribundos um «longo e sacrílego paralelo.»
Platão é um santo, e Ficino lhe presta um culto como a um Deus, e celebra a natividade do novo santo «por uma festa solene, marcada por um caráter religioso e até místico.» Por «esse mesmo» Ficino, todos os sonhos religiosos e políticos, os mais obscenos e os mais ímpios, são exaltados como dogmas benéficos e luminosos; ele professa, «entre outros dogmas,» o panteísmo e o fatalismo, isto é, a grosseira impiedade da alma única e universal do mundo dividida em parcelas em todos os seres animados, e a crença fatalista na influência dos astros. Outros escritores fizeram ressalvas de detalhe, como Medina, De recta in Deum fide, l. II, citado por A. Possevino, Bibliotheca selecta de ratione studiorum, Colônia, 1607, t. ii, p. 29-30, que lhe reprova suas teorias astrológicas, cf. J. Brucker, Historia critica philosophiae, Leipzig, 1743, t. iv, p. 572, ou, sem examinar de perto, fizeram-no participar do descrédito religioso que lançavam em bloco sobre os homens da Renascença.
E recentemente Mons. Baudrillart, L'Église catholique, la Renaissance, le protestantisme, Paris [1904], p. 23; cf. J. Guiraud, L'Église et les origines de la Renaissance, Paris, 1902, p. 302; Histoire partiale, histoire vraie, 5ª ed., 1912, t. ii, p. 190, escrevia: «Rinaldo degli Albizzi declarava incompatíveis a ciência e a fé; na corte dos Médici, Marsílio Ficino, na dos papas, Pompônio Leto, professavam tais doutrinas. Até a existência de Deus e a imortalidade da alma eram negadas por eles.» Que pensar de tudo isso? Marsílio Ficino foi verdadeiramente um pagão mais ou menos consciente — ou até mesmo um pagão disfarçado que Lourenço de Médici — insinuou-se — teria impelido a entrar nas ordens a fim de despistar suas intenções e cobrir com o manto da religião um empreendimento irreligioso? Ou permaneceu ortodoxo? Que se deve pensar de seu platonismo? Filósofo, apologista, sacerdote, é digno de elogios ou merece nossa censura?
Em filosofia, Ficino segue de perto Platão. Contudo, não se prende a ele de modo exclusivo. Ele admirava santo Tomás de Aquino, a quem saúda com o título de splendor theologiae, a quem chama Aquinas noster, que cita em seus comentários sobre são Paulo e de quem louva calorosamente um disciplo convicto. Epist., l. IX, fol. 201; l. X, fol. 210 b. Utiliza Aristóteles e seus dois principais intérpretes árabes, Averróis e Avicebron, e, longe de opor Platão a Aristóteles, proclama seu acordo substancial. Cf. F. Puccinotti, Della filosofia di Marsilio Ficino, em Nuova antologia, Roma, 1867, v, p. 239. Aproveita-se dos neoplatônicos, que considera erroneamente como os legítimos herdeiros de Platão e como guias seguros para conhecer sua doutrina e extrair de seus princípios as últimas consequências que Platão apenas entrevira ou ocultara por prudência. Aconteceu-lhe extraviar-se em seus rastros e tornar-se involuntariamente infiel ao platonismo autêntico, a ponto de alguns quererem excluí-lo da lista dos platônicos; isso é exagerar a medida, e C. Waddington, no Dictionnaire des sciences philosophiques, art. Ficin, não teve dificuldade em demonstrar que a escola platônica de Florença tem direito ao título que ostenta, que Ficino está como que impregnado do espírito e dos pensamentos de Platão. Nem tudo em Platão o interessa no mesmo grau. A teoria das ideias, essencial e, de certo modo, central na obra de Platão, quase não prende a atenção de Ficino. O que o seduz é a estética e a moral platônicas, são suas teorias, que ele não separa, do amor e do soberano bem.
Quae ubique asserebat, diz ele em seu De vita Platonis, Epist., IV, fol. 112 a, haec sunt: Deum omnibus hominum providere, animas immortales esse, bonorum praemia, malorum supplicium. É isso principal e quase unicamente o que ele vê em Platão. E a razão pela qual prefere Platão a Aristóteles é que o peripatetismo é o caminho, e portanto necessário, mas o platonismo é o termo; enquanto o primeiro considera as coisas naturais que conduzem às coisas divinas, o outro mostra as coisas divinas. Epist., l. VIII, fol. 172 b; l. XII, fol. 134 b. Ora, são as coisas divinas, as realidades eternas, invisíveis, que são as únicas verdadeiras. Epist., l. IV, fol. 112 a; l. VII, fol. 159-160. Os filósofos, absorvidos pelo estudo das coisas naturais, vivem num sonho; Plato noster, divinis incumbens, vel solus vel maxime omnium vigilabat. Epist., l. I, fol. 15 a.
De onde vem o melhor dos outros filósofos, a superioridade de Platão e dos neoplatônicos? Aqui Marsílio retoma e reforça uma ideia que santo Justino, Clemente de Alexandria, Orígenes, santo Agostinho, etc., haviam desenvolvido com complacência, cf. L. Capéran, Le problème du salut des infidèles. Essai historique, Paris, 1912, p. 51-59, a saber, que a filosofia antiga era uma preparação para a vinda do Cristo, que o que ela tinha de excelente fora tomado de empréstimo aos judeus, que Platão, em particular, não é nada mais, segundo a expressão de Numênio, senão um « Moisés que fala ático » (Moïse qui parle attique), que ele « segue a lei de Moisés e prediz a lei de Cristo, » que os neoplatônicos conheceram tanto são João quanto os escritos de Dionísio, o Areopagita, e deles se serviram. Cf. Epist., VIII, fol. 170, 178-179 a (concordia Mosis et Platonis), 182-183, 184-186 (quantum non Plato solum verum etiam platonici cum nostra religione consentiunt); XII, fol. 137 b; De religione christiana et fidei pietate, c. xxii, xxvi, Paris, 1510, fol. 21 b, 24-25, etc. Platão é mais próximo do cristianismo que os outros filósofos, Platão conduz a Cristo. Epist., l. XI, fol. 120 a. Não é por Platão que Ficino estuda Platão, não é por eles mesmos que traduz e comenta os Mercúrio Trismegisto, os Plotino, os Proclo, etc., é pelos serviços que prestam à religião cristã. Mas que necessidade há de Platão quando se tem a Igreja e, já que se possuem as sagradas Escrituras, por que buscar alhures a doutrina de vida?
Ficino não desconhece a Escritura: serve-se dela, a comenta. Mas nem todos admitem a revelação e a Bíblia. O racionalismo devasta um número excessivo de inteligências. Os dogmas são negados ou postos em dúvida. Em particular, o averroísmo e o aristotelismo alexandrino, com fórmulas diferentes, rejeitam igualmente a imortalidade da alma e destroem toda religião. « Si quis autem, diz Ficino, Epist., l. VIII, fol. 181 b, putet tam divulgatam impietatem tamque acribus munitam ingeniis sola quadam simplici praedicatione fidei apud homines posse deleri, a vero longius aberrare palam reipsa protinus convincetur. » Esses espíritos, que se fiam somente na razão, só receberão a religião de um filósofo religioso. Os escritos dos antigos filósofos serão uma isca para atraí-los pouco a pouco à religião perfeita. Nesse sentido, o renascimento da antiguidade é providencial, « non dubitares nunc qua potissimum ratione nostra haec veterum renovatio divinae providentiae serviat ». Não são apenas os alexandristas e os averroístas, são os próprios judeus, judeus peripatéticos, é verdade, que sustentaram uma discussão na casa de Pico della Mirandola, que Ficino julga difíceis de convencer « nisi divinus Plato prodeat in judicium invictus religionis sanctae patronus ». Epist., l. VIII, fol. 182 b.
Que haja ilusão nessa confiança na eficácia do platonismo, não é duvidoso. Em todo caso, se ele platoniza com tanta convicção, é em proveito do cristianismo. Resta saber se a execução vale a intenção. Não lhe teria acontecido, segundo a expressão de P. Wernle, Renaissance und Reformation, Tübingen, 1912, p. 68, platonizar, intelectualizar, estetizar o Evangelho, enquanto teologiza e cristianiza Platão, ou, em outros termos, para aproximá-lo de Platão, desnaturar o cristianismo? Digamos logo que ele faz Platão mais cristão do que este foi na realidade. Não é que lhe falte toda crítica. Em poucas palavras, por exemplo, elucida a questão da Trindade nos escritos de Platão, Epist., l. XII, col. 237 b: « Extra controversiam assero Trinitatis christianae secretum in ipsis platonicis libris nunquam esse, sed nonnulla verbis euidem non sensu quoque modo similia. » Mas ressalvas semelhantes são raras. Ele abusa da terminologia platônica. Quando diz, De religione christiana et fidei pietate, c. xxiii, fol. 216: « Quid aliud Christus fuit nisi... divina ipsa idea virtutum humanis oculis manifesta », emprega uma fórmula ambígua, que felizmente um contexto admirável corrige.
Ele reproduz, de Platão e dos neoplatônicos, teorias mal-ajambradas, defeituosas, notadamente sobre a alma do mundo e sobre a astrologia. Será isso dizer que caia no panteísmo e no fatalismo? Não. Apesar de expressões isoladas, de frases soltas que poderiam, no rigor, apresentar um ar panteístico, é evidente, para quem lê o conjunto de suas obras, que o Uno transcendente de Ficino não se assemelha ao do neoplatonismo. « Ele afirma em toda ocasião a liberdade do Ser supremo, assim como tem sobre a providência reflexões cheias de profundidade. » C. Huit, Annales de philosophie chrétienne, nova série, t. xxxiii, p. 367. Quanto à alma do mundo, não a confunde com Deus; limita-se a fazer do mundo um todo animado, vivo. Cf. De vita, III, c. i-iii, e, ao fim, a Apologia quaedam in qua de medicina, astrologia, vita mundi, na edição de suas obras de Veneza, 1516, fol. 151-153 a, 170 a. É um erro filosófico, não é panteísmo. Ficino acreditou na astrologia. Tirava horóscopos.
Numa carta de felicitações a João Nicolini, nomeado arcebispo de Amalfi, lembra-lhe que o havia exortado, « cum adhuc puer esses », a dedicar-se ao estudo e a tornar-se sacerdote, « quoniam et astronomia te magnum in religione virum et physionomia legitimum tum litteris tum moribus sacerdotem mihi fore monstrabat ». Epist., I, fol. 42 a. Cf. De vita, l. III, De vita coelitus comparanda; Epist., l. V, fol. 125 a; l. VI, fol. 142 b; l. IX, fol. 200 b-201 a, e l. III, fol. 86 b-87 a; VIII, fol. 181 b, duas cartas endereçadas a Ficino. Levado a explicar-se sobre seu modo de ver, Ficino declarou aprovar os ataques de Pico della Mirandola e de Ângelo Poliziano contra a astrologia; admitiu que ela não é inútil, que as conjunções dos astros podem significar as coisas humanas, mas que não as causam, que não suprimem nem a liberdade do homem nem a providência e o supremo império de Deus. Cf. Epist., l. IV, fol. 120 b-121 a; l. V, fol. 137; l. VI, fol. 154 b-155 a; l. VII, fol. 166 b-169 a (divina lex fieri a coelo non possit sed forte significari); l. VIII, fol. 182 a; l. XII, fol. 238 b-239 a.
Ficino teve, em matéria de astrologia, a fraqueza de sacrificar-se às ideias de seu tempo; ela havia entrado de tal modo nos usos da vida que até certos papas, e não dos menores, Sisto IV, Júlio II, Leão X, Paulo III, nela deram crédito. Cf. J. Burckhardt, La civilisation en Italie au temps de la Renaissance, trad. Schmitt, Paris, 1885, t. ii, p. 289-304; L. Pastor, Histoire des papes depuis la fin du moyen âge, trad. F. Raynaud, 2ª ed., Paris, 1904, t. v, p. 116-150, e, por exemplo, a Vida de Miguel Ângelo por Condivi, em Rime e lettere di Michelagnolo Buonarroti, Florença, 1908, p. 31, e por Vasari, em Le opere, Florença, 1832-1838, t. II, p. 975. Ficino não soube libertar-se suficientemente das quimeras astrológicas; evitou o fatalismo. Denunciado por causa de magia a Inocêncio VIII, em 1489, ele se defendeu com êxito. Só confundindo-o com Pompônio Leto foi possível acusá-lo de negar a existência de Deus e a imortalidade da alma, de opor a ciência e a fé. Onde se extravia, é em seu « argumento » do V diálogo da República de Platão. Omnia divini Platonis opera, Basileia, 1532, p. 586-588.
Contra as « calumnias tum maledicorum tum etiam ignorantium », declara que a leitura do texto de Platão constitui a apologia do comunismo professado nesse diálogo: « Legant Platonem ipsum, precor, legant diligenter ac sine invidia judicent, apologiam (scio quid loquar) nullam desiderabunt. » E mostra Platão constatando que o gênero humano « per leges distribuentes propria tot saeculis nihil proficere imo vero in deterius quotidie labi », e decidindo pôr tudo em comum, semelhante a um sábio médico que abandona os remédios há muito ineficazes e emprega os remédios opostos. Recorda, segundo Platão, que um comunismo semelhante das mulheres, dos filhos, dos bens, não era absolutamente novo, que outrora havia existido em Grécia e no Egito. Essas razões haviam sido desenvolvidas pelo grande cardeal Bessarion, In calumniatorem Platonis, l. IV, iii, edição de suas obras de Veneza, 1516, fol. c 69 b-72 a, num livro retumbante que Bessarion havia enviado a Ficino (em 1469, cf. a carta de Bessarion e a resposta de Ficino, Epist. Ficini, l. I, fol. 7) e no qual se inspira o « argumento » do V diálogo.
Mas Bessarion havia insinuado, mais do que Ficino, que no fundo alegava as circunstâncias atenuantes: « ratione ejus qua aetate Plato, nulla religione astrictus, mores et jura arbitratu suo statuebat, haud perperam eum sensisse existimo... num melius quam suae ita caeteri aetatis homines senserit, decreverit, scripserit, attendendum, non autem quid divi apostoli melius, quid sancti atque beati, quid in nostrae religionis professione edocti dijudicaverint atque probaverint. » E Bessarion precisava que não pretendia com isso apoiar Platão, « quasi recte prorsus a Platone scriptum existimem. Absit enim hoc a nobis ut qui rationem didicimus meliorem ritumque sanctae Ecclesiae probavimus cum Platone sentiamus. »
É lamentável que Ficino, querendo defender Platão contra seus caluniadores, os Jorge de Trebizonda e os Teodoro Gaza, não tenha reproduzido as ressalvas de Bessarion. Mas importa observar que em nenhum outro lugar aprova as teorias comunistas do V livro da República; ao contrário, contradiz-as indiretamente, tomando o contrapé dessas teses todas as vezes que a ocasião se apresenta. Ver, em particular, Epist., l. IV, fol. 119 (matrimonii laus); cf. E. Galli, La morale nelle lettere di Marsilio Ficino, Pavia, 1897, e P. Costalo, La famiglia, l'educazione secondo le teorie di Marsilio Ficino, Pavia, 1899. O « culto » de Ficino por Platão foi excessivo, mas não tanto quanto se disse.
Que Pitágoras, Sócrates, Platão e os demais filósofos que viveram antes de Cristo tenham podido salvar-se, mas não sem a graça de Cristo, é o que a Igreja ensina e o que Ficino tem razão em admitir. Epist., l. I, fol. 137 b-138 a. Indo mais longe, ele diz que foram salvos. É que, para ele, Sócrates é, sob muitos aspectos, a figura de Cristo: mas, se compara a morte do Salvador e a de Sócrates, sabe fazer a diferença, e declara Socratem, etsi non figura qua Job atque Joannes Baptista, tamen adumbratione forte quadam Christum salutis auctorem quasi, ut ita loquar, significasse, e protesta contra os que pensassem Socratem nunc quasi aemulum comparari quem defensorem fuisse. Epist., l. VIII, fol. 179. O paralelo tornou-se um dos lugares-comuns do púlpito cristão. Tal como Ficino o estabelece, ele não é « sacrílego ». Ficino coloca Platão entre essas almas de eleição que Nosso Senhor visitou no limbo e que, em seu séquito, foram para o céu. Nisso ele reproduz uma antiga tradição que havia tido voga na Idade Média. Cf. L. Capéran, Le problème du salut des infidèles, p. 162-163, 166-167, 211; cf. p. 530.
Duas razões levam Ficino a crer na salvação de Platão. Primeiro, Platão foi virtuoso, casto. De vita Platonis. Epist., IV, l. fol. 109 b-110 a, 113 a (Gaume, t. VIII, p. 213, diz que Ficino admira a castidade de Platão, « confessando ao mesmo tempo em voz baixa que ele era, como Sócrates, entregue ao amor infame. » e cita estas palavras de Ficino, fol. 109 a: ad adamandos adolescentes, quemadmodum et paulo et Socrates suis, videbatur pronior. Sim, Ficino diz isso, mas acrescenta verum uterque tum ratione continens quam sensu proclivis; quam divinc ista amaverint..., e mais abaixo, fol. 113 a, esboça, sobre esse ponto, a Apologia de moribus Platonis. Cf. Bessarion, In calumniatorem Platonis, l. IV, c. i-ii, fol. 60-69).
Em seguida, e sobretudo, Platão foi um precursor de Cristo; permanece seu apóstolo por meio de seus escritos. A filosofia, tal como ele a entende e que se pode definir: ascensus ad animi ab inferioribus superna a tenebrisque lucem principium ejus divinœ mentis instinctus, é um dom de Deus, e o filósofo que a realiza é mediador entre Deus e os homens, » Epist., l. IV, fol. 107 b-108 a (ao exprimir-se dessa maneira, Ficino não incorre na censura de racionalismo. Cf. Epist., VII, fol. 169 b-170 a). A filosofia de Platão conduz a Cristo. Ficino coloca, pois, Platão muito alto.
Que há de verdadeiro no relato segundo o qual Ficino e os acadêmicos de Florença se exaltaram a ponto de quererem pedir à corte de Roma a canonização de Platão? Seria difícil dizê-lo. Na verdade, parece que o consideravam como um santo e que lhe conferiram uma canonização não oficial, no sentido em que a Idade Média havia canonizado Virgílio. Daí, supondo que não seja lendária, essa lâmpada acesa diante do busto de Platão (o que certamente pertence ao domínio da lenda é a ausência de todo objeto de piedade na casa de Ficino). Daí, na medida em que teria tido um caráter religioso, essa festa anual de Platão que consistia sobretudo em reunir-se, em 7 de novembro, dia aniversário de sua nascença e de sua morte, num banquete em que se conversava sobre filosofia ou teologia platônica. Cf. a introdução do De amore de Ficino, e Epist., l. I, fol. 35. Por esse mesmo motivo, e porque os escritos de Platão são uma espécie de introdução ao Evangelho, Ficino os explica na igreja, cf. Epist., l. VIII, fol. 190 b-191 a, principalmente para uso daqueles que rejeitam a autoridade dos Livros sagrados, comentando ainda a Escritura para os fiéis (lembre-se de que, em Florença, Dante foi objeto de um ensino oficial na igreja).
Chama seus amigos de complatonici, seus discípulos, seus ouvintes, de « irmãos em Platão »; o papel que atribui a Platão tira desse linguajar toda equivocidade. O que Ficino conta sobre a morte de Cosme de Médici é mais grave. Cosme, diz ele, Epist., l. I, fol. 29 a, depois de ter filosofado toda a sua vida, filosofou mais ainda no momento de morrer. Itaque, postquam Platonis librum de uno rerum principio ac de summo bono legimus, sicut tu nosti qui aderas (dirige-se a Lourenço de Médici), paulo post decessit tanquam eo ipso bono quod disputatione gustaverat reipsa abunde potiturus. Certamente havia coisa melhor a fazer do que ler Platão para se preparar para a morte. Notemos, contudo, que esse texto não diz que Cosme não tivesse recebido os últimos sacramentos: um homem da Renascença, tal como ele, era capaz de cumprir seus deveres religiosos e de completar sua preparação para a morte com a filosofia e a leitura de um diálogo de Platão, dado sobretudo o sentido atribuído a essa filosofia platônica. Será necessário acrescentar que, nessa data (1464) Marsílio talvez estivesse em plena crise religiosa, e que certamente não era nem cônego nem sacerdote? Concluamos. O platonismo de Ficino foi ardente, exorbitante. É preciso censurar-lhe interpretações inexatas, exageros de pensamento ou de expressão, excessos perigosos de entusiasmo. Mas não foi um paganismo disfarçado ou que se ignorasse. Cf. C. Huit, Annales de philosophie chrétienne, nova série, 1895-1896, t. xxxiii, p. 367-372.
2° A ortodoxia de Ficino. Ficino fez profissão de ortodoxia. In omnibus quæ hic aut alibi a me tractantur, tantum assertum esse volo quantum ab Ecclesia comprobatur, diz ele em sua Theologia platonica, Florença, 1482, fol. 12 a. Cf. o final desse tratado e a Ad lectorem exhortatio do De vita, III, fol. 151 a. A causa pela qual guardou consigo sua tradução dos hinos de Orfeu, de Homero e de Proclo, da Teogonia de Hesíodo e das Argonáuticas foi, diz ele, Epist., l. XI, fol. 222 b, ne forte lectores ad priscum deorum daemonumque cultum jam merito reprobatum revocare viderer. É de Deus, não é de Platão que vem a salvação. Salve, escreve a um amigo, Epist., l. VIII, fol. 171 a, inquam, millies imo semper in sempiterno auctore salutis Deo: addidissem et in Platone, si modo quærenda post Deum esset salus in homine. Platão e os demais filósofos balbuciaram. Com a ajuda de Deus, algo sobre o Verbo, dixerunt isti quidem quod potuerunt, et id quidem adjuvante Deo; Deus autem hoc solus intelligit et cui Deus voluerit revelare. De religione christiana, c. xiii, fol. 16 a.
O mestre da vida não é Platão, ou é apenas um mestre inferior; o verdadeiro mestre da vida é Cristo; cf., por exemplo, Epist., l. VI, fol. 149 a, 159 a; X, fol. 210 a; XII, fol. 236 b; De religione christiana, c. xx, fol. 20. Platão não falava de seus inimigos e não pensava neles; verum multo divinitus nos Christus, vitæ magister, instituit, præcipiens ut benedicta quidem maledictis benefacta vero malefactis libentissime redderemus. Epist., l. VI, fol. 149 a. Gravemente doente, Ficino buscou em tudo o que havia lido alguma consolação; scriptores humani, exceptis platonicis, nihil penitus conferebant, diz ele, Christi autem opera multo magis quam philosophorum verba consolabantur. Epist., l. I, fol. 25 b. Cf. suas cartas de consolação, l. I, fol. 32 a, 37 b, 45 b. Muito sensível à amizade, só acredita nas amizades religiosas. Cf., por exemplo, Epist., l. I, fol. 17 b-18 b, 19 a; l. III, fol. 88 a, 89 a.
Não é apenas a amizade, é ainda a bondade, a sabedoria, a paciência, etc., que só são estáveis por meio de Deus. Epist., V, fol. 125 b-126 b, 128 a-129 b, 130; l. VI, fol. 161. Ficino ora por seus amigos e os exorta a orar. Cf. Epist., l. I, fol. 1 a, 9 b-10 a, 10 b. Nada lhe agrada tanto quanto orar. Epist. l. I, fol. 40 b. Ao tratar do amor de Deus, de seu conhecimento, de sua posse, ele tem « arroubos de misticismo, e, se ouso assim falar, diz C. Huit, Annales de philosophie chrétienne, nova série, 1895-1896, t. xxxiii, p. 365, de transfusão na divindade que fazem lembrar são Francisco e santa Teresa.» Ele se compromete por votos à santíssima Virgem e lhe atribui sua cura num caso desesperado. Epist., l. I, fol. 25 b-26 a; cf. l. VI, fol. 147 b, 153. Ver ainda, sobre sua fé nos milagres, De religione christiana, c. x, fol. 13 b. Ele aprecia grandemente a graça do jubileu. Epist., l. I, fol. 44 b. Trata amiúde da dignidade do sacerdote e a ideia que dela tem é muito bela. Epist., l. I, fol. 24 b, 25 a.
Escrevendo uma exortação à piedade, protesta que ela se dirige a seus familiares, mas sobretudo a si mesmo, nihil unquam cœteris studeo suadere quod non mihi ipse ante persuaserim; sacerdotis officium est nihil loqui nisi quod ad pietatem conducere videatur. Epist., V, fol. 122 b. Cf. col. 123 b Deum velle sacerdotes suas esse omnium severissimos, e seus conselhos a um arcebispo e a um cardeal recém-promovidos, l. I, fol. 42; l. V, fol. 130-132, assim como seu elogio a um cardeal falecido, XI, fol. 218 b. Todos esses traços não convêm a um pseudocristão. Sua vida, aliás, não desmentiu sua linguagem. L. Pastor, embora fazendo graves ressalvas sobre seu platonismo, escreve sem hesitar que ele foi crente da cabeça aos pés e sacerdote sem reprovação. » Histoire des papes depuis la fin du moyen âge, trad. F. Raynaud, t. v, p. 151.
E Ficino exprimiu magnificamente o fundo de seu pensamento e como que desnudou seu ser íntimo quando, convidado a defender a religião, respondeu que se empenharia o melhor que pudesse, non quia religio hujus- modi defensoribus egeat..., sed quia tunc solum feliciter vivere, imo tunc solum vivere mihi videor cum de divinis scribo aut loquor aut cogito. Epist., l. I, fol. 28 a. O que nos resta dizer sobre o tratado anunciado por estas linhas acabará de nos esclarecer plenamente sobre seu cristianismo.
3° O De religione christiana et fidei pietate de Ficino. É o primeiro em data (1474) dos tratados De vera religione: o Triumphus crucis sive de veritate fidei libri IV, de Savonarola, que persegue, num plano mais vasto, o mesmo objeto, é apenas de 1497. Cf. A. Décisier, L'apologétique de Savonarole, em Études, Paris, 1910, t. cxxiv, p. 488. Ficino o compôs já no começo de seu sacerdócio e, mais tarde, o traduziu do latim para a língua italiana.
A dedicatória a Lourenço de Médici nos informa sobre os pensamentos que o guiaram. Ele lamenta o divórcio entre a ciência e a religião. O saber passou em grande parte aos profanos e merece o nome de malícia mais do que o de ciência. As perlas muito preciosas da religião são manuseadas por ignorantes, ab hisque tanquam suis bus conculcantur, sæpe enim iners ignorantum ignavorumque cura superstitio potius quam religio appellanda videtur. Quanto tempo suportaremos essa condição dura e miserável? Liberemus, obsecro, quandoque philosophiam, sacrum Dei munus, ab impietate, si possumus; autem si volumus. Religionem sanctam pro viribus ab execrabili inscitia redimamus. Hortor igitur omnes atque precor philosophos quidem ut religionem vel capessant penitus vel attingant, sacerdotes autem ut legitimæ sapientiæ studiis diligenter incumbant. Não é esse um belo programa de humanismo cristão? Ficino, por sua parte, tentou e não deixará de tentar cumpri-lo, non meo quidem ingeniolo, sed Dei clementiæ viribusque confisus, e escreve o De religione para conciliar-se ainda mais a graça divina, para ser agradável a Lourenço, seu protetor, et mihi, non ipsi deessem, fol. 2. Este escrito se divide em trinta e sete capítulos.
Poder-se-iam distinguir nele duas partes: a 1ª, c. i-xxv, contra os incrédulos, a IIª, c. xxvi-xxxvii, contra os judeus e os muçulmanos (o c. xxxvi é contra estes últimos). A apologética antijudaica não é muito nova. Ela inspirara, ao longo dos séculos, uma vasta literatura que sobretudo valorizara o argumento das profecias. Ficino a resume claramente. Deve-se louvá-lo por não ter se valido da cabala; seu discípulo, Pico della Mirandola, e não poucos apologistas contemporâneos, foram menos circunspectos. Não se pode estranhar vê-lo admitir a autenticidade das cartas de Cristo e de Abgar, c. xxvii, fol. 38 a, da doação de Constantino, c. xxviii, fol. 41 a (a notar uma passagem sobre o poder temporal dos papas), dos milagres de Vespasiano, c. XXIX, fol. 42 b, do relato de Aristeu sobre os Setenta, c. XXX, fol. 44 b, do texto de Josefo sobre Cristo, c. XXX, fol. 45 b-46 a.
A 1ª parte é mais original. Ficino nela combate os incrédulos, esses averroístas e esses aristotélicos alexandristas que ataca na Theologia platonica e que aqui não nomeia, mas que tem em vista, esses partidários de uma teoria emitida primitivamente por autores árabes e judeus e segundo a qual cada religião, o cristianismo incluído, dependeria dos astros, c. ix, fol. 9 b-10; cf. Epist., VII, fol. 166 b-169; J. Burckhardt, La civilisation en Italie au temps de la Renaissance, trad. Schmitt, t. ii, p. 299, e, em geral, todos os inimigos da revelação.
Eis a maneira como ele expõe a gênese da incredulidade, c. iii, fol. 3 b-4 a. Se a criança é religiosa, o adolescente corre o risco de rejeitar a religião quando os estudos a que se dedica ou os discursos que ouve o habituam a não querer aceitar senão o que a razão alcança. As coisas divinas exigem, para serem apreendidas, tempo, uma diligência requintada, a pureza da alma. Confiando apenas em sua razão, os jovens acabam por negligenciar a religião. Se se entregam ao orgulho e à impureza, não veem mais na religião senão contos de velhas, non amplius de religione nisi tanquam de anilibus fabulis cogitantes, ao passo que, se são modestos, ponderados, puros, tornam-se, à medida que os anos os amadurecem, cada vez mais religiosos. Ficino estabelece que o homem é um ser essencialmente religioso e que o cristianismo é divino. Ele o prova pelo caráter de Cristo e dos apóstolos, pela conversão do mundo, a perpetuidade da Igreja, os milagres, a beleza das Escrituras, as conveniências do mistério da encarnação, o ensinamento e os atos do Salvador, a eficácia de sua doutrina. Argumentos internos e argumentos externos, tudo o que a apologética cristã deveria retomar, desenvolver, aperfeiçoar, encontra-se encerrado neste pequeno escrito.
Nem tudo aí tem o mesmo valor. A discussão é por vezes demasiado sumária. A erudição, como se poderia esperar, traz a marca de sua época. Num c. xi, fol. 13 b-15 a, que contém resumidamente a História do estabelecimento do cristianismo extraída somente de autores judeus e pagãos, de Bullet, Lyon, 1764, ele acumula testemunhos que nem todos são admissíveis. Ele simplifica em excesso o argumento tirado da morte dos perseguidores, c. xi, fol. 14 b. Invoca longamente as sibilas, c. xxiv-xxv, fol. 22 b-24 a. Reproduz sua tese sobre as semelhanças do platonismo e do neoplatonismo com a religião cristã e sobre os empréstimos dos neoplatônicos a são João e ao Areopagita, c. xxii, fol. 21 b. Mas é inexato dizer, com O. Zöckler, Geschichte der Apologie des Christentums, Gutersloh, 1907, p. 296, que o De religione christiana « se funda numa base essencialmente neoplatônica » e que, « se o espírito não é diretamente não cristão, esta obra está fortemente misturada de especulação platônica », ou, com A. Tanquerey, Synopsis theologiæ dogmaticæ fundamentalis, 13e édit., Rome-Paris, 1910, p. 35, que o autor tentou nele a conciliação da filosofia de Platão com a fé cristã.
Salvo um curto parágrafo sobre as analogias entre o cristianismo e o platonismo ou o neoplatonismo, nada lembra esses sistemas filosóficos. Zöckler, p. 294-295, cita como impregnado de platonismo o c. i, fol. 2 b-3 a: Religio maxime homini propria est et veridica, e como puramente neoplatônico o c. iv, fol. 4 a: Omnis modo Deum religionis boni habet non nihil ad Ipsum creatorem omnium dirigatur; christiana sincera est. Ora, o c. I limita-se a desenvolver esta ideia, que não é especificamente platônica, a saber, que o homem é um ser religioso, e o c. iv não é de modo algum uma amostra de ecletismo alexandrino; nele se diz que não há país sem religião, que Deus coli mavult quoque modo vel inepte modo humano quam per superbiam nullo modo coli, mas que, se ele não reprova de todo como uma impiedade voluntária um culto humano adotado para servi-lo, só aprova um culto igitur Deum præ cœteris: qui imo sati sincère colunt qui... ita Deum adorant quemadmodum Christus, vitæ magister, ejusque discipuli, præceperunt. Do mesmo modo, é erradamente que Ph. Monnier, Le quattrocento, t. ii, p. 106, 146, diz que seu Jesus é « platônico » e que « o Cristo que se adora traz, em vez de coroa de espinhos, uma grinalda florida colhida por Marsílio à beira do Ilisso. »
São essas frases de letrados que não resistem ao encanto de uma antítese enganosa. Aliás, Ph. Monnier se corrige a si mesmo ao declarar Ficino « rigorosamente ortodoxo », p. 106. O Cristo do De religione christiana é bem o Cristo do Evangelho e da teologia católica (o único ponto repreensível é que, com certos teólogos, o autor parece admitir, c. xv, fol. 17 a, uma necessidade absoluta e não apenas hipotética da encarnação), o Cristo integral. Ficino fala de Cristo e de sua obra de maneira excelente. E quantos detalhes felizes se poderiam colher nessas páginas! Por exemplo, encontra-se aí apresentada com força, c. i, fol. 3 a, a prova da existência da vida futura, tirada da infalibilidade do instinto dos animais, que o ilustre entomologista J.-H. Fabre desenvolveu com tanto brilho. Cf. Revue pratique d'apologétique, Paris, 1912, t. XII, p. 377. Também H. Hurter, Nomenclator literarius theologiae catholicae, Inspruck, 1906, t. II, col. 1016, qualifica o De religione christiana de Marsílio Ficino de opus praeclarum in quo sagaciter utitur argumentis internis. Cf. L.-F. Brugère, De vera religione, nouv. édit., Paris, 1878, p. XIV.
IV. Influência. Ficino foi o centro e como que a alma da academia de Florença. Apressemo-nos a acrescentar que sob esse nome não se deve procurar um corpo oficial, regido por estatutos complicados; é antes uma livre associação de espíritos diversos, aproximados por tendências comuns, non ex quouis commercio vel contubernio confluentium, diz Ficino, Epist., l. XI, fol. 224 a, sed in ipsa dumtaxat liberalium disciplinarum communione convenientium. Na carta em que se leem essas palavras, Ficino enumera os principais dentre eles. Ele os distribui em duas categorias: os que dissertam com ele e os que o ouvem ler e ensinar como discípulos e que, no entanto, ele não chama de discípulos, non enim tantum mihi arrogo ut docuerim aliquos aut doceam sed socratico potius more sciscitor omnes atque hortor foecundaque familiarium meorum ingenia ad partum assidue provoco, fol. 224 b.
Em primeiro lugar ele coloca os Médici. Platão é o objeto de suas conversas, Platão por quem todos professam igual admiração. Ficino o ressuscita e o continua; veneram nele um Platão novo, il novo Platone, diz Lourenço de Médici, Altercazione, III, em Poemi, édit. G. Papini, Lanciano, 1910, p. 81; cf. p. 77.
Do estrangeiro acorre-se junto a Ficino; o francês Lefèvre d'Étaples, o inglês John Colet, o alemão Reuchlin figuram entre seus ouvintes. Seu pensamento irradia ao longe, graças a uma vasta correspondência, que ele mantém na Itália, na França, na Alemanha, até na Hungria, com um público de reis, de príncipes, de prelados, de sábios. A notícia que lhe consagra Trithème (Joannes de Trittenhem), De scriptoribus ecclesiasticis, Paris, 1494, fol. 192 b-193 a, mostra a estima de que goza fora do círculo de seus correspondentes. Sua influência é enorme. O que restou dela? A academia florentina não lhe sobreviveu, ou, ao menos, deixou de se ocupar de filosofia para se confinar em questões de língua, de poesia, de política: tentativas de vida nova em 1512, quando o retorno dos Médici pôs fim ao regime inaugurado por Savonarola, fracassaram completamente.
De suas doutrinas filosóficas pouca coisa merece fixar a atenção; ele não teve um sistema pessoal, coerente, mas apenas algumas visões engenhosas, mais de uma observação psicológica de uma sutileza inesperada. Assim, Ficino viu muito bem, antes de Bossuet, que o amor pode ser considerado como a fonte de todas as nossas paixões. C. Huit, Annales de philosophie chrétienne, nouv. série, 1895-1896, t. XXXIII, p. 364, n. 4. Encarregado por Cosme de Médici de restaurar o platonismo, ele foi « o verdadeiro artífice desta revolução, exemplo talvez único de aptidões absolutamente conformes à missão especial que lhe impôs seu protetor. » H. Hauvette, Histoire des littératures. Littérature italienne, Paris, 1906, p. 164. Seu neoplatonismo sofreu um eclipse rápido; mas sua tradução de Platão foi, durante mais de um século, para a maioria dos eruditos, « a porta obrigatória do platonismo. » O idealismo platônico que ele pôs em honra influiu nos destinos da arte como nos da filosofia. Miguel Ângelo, em particular, que recebera seu ensinamento na academia, guardou dele a marca. Cf. R. Rolland, Carros picturae apud Italos XVI saeculi decidera, Paris, 1895, p. 8; Michel-Ange, Paris, s. d., p. 13, 140-141. Sobre a Escola de Atenas de Rafael, cf. L. Pastor, Histoire des papes depuis la fin du moyen âge, trad. F. Raynaud, 2e édit., Paris, 1904, t. VI, p. 521-522, nota.
Sua verdadeira glória é ter sido, embora não sem lacunas, um humanista cristão. Não temos que voltar aos excessos de seu platonismo. Mas, enquanto o Renascimento ameaçava resultar no livre-pensamento ou no libertinismo, em não ser mais que uma imitação mecânica e servil do paganismo, ele foi um dos que perceberam o perigo e o afastaram. Trabalhou para dissociar a antiguidade e o paganismo, para fazer a sabedoria antiga servir ao cristianismo. Citou-se com frequência a carta, Epist., XII, 1, fol. 229 b-230 a, em que Ficino celebra o Renascimento: « Este século é um século de ouro, ele que trouxe de volta à luz as disciplinas liberais quase extintas, a gramática, a poesia, a eloquência, a pintura, a arquitetura, a escultura, a música, a arte de cantar na antiga lira de Orfeu, e tudo isso em Florença. » Notou-se menos o que, desse mesmo século, ele chama alhures. De religione christiana, prooem., fol. 2 b, século de ferro: quamdiu duram et miserabilem hanc ferrei saeculi sortem sustinebimus? porque os sábios não são religiosos e os homens de Igreja carecem de ciência.
Ele proclama a necessidade de tornar religiosos os filósofos, e a restauração platônica que persegue tem por fim conduzir a uma demonstração das verdades da fé. Por outro lado, quer que os sacerdotes « se dediquem diligentemente aos estudos de uma sabedoria legítima. » Ficino pressentiu mais do que realizou a obra a cumprir. « Mas ele criou um espírito, assinalou os perigos do humanismo letrado, indicou uma orientação nova, e esse espírito que, ainda em vida dele, se espalha pela Itália, pela Alemanha, pela França, ali inspira os pensadores e os artistas, vai infiltrar-se profundamente no humanismo e mudar-lhe as tendências como o aspecto. » P. Imbart de la Tour, Les origines de la Réforme, Paris, 1909, t. II, p. 337. E seu De religione christiana é um primeiro esboço extremamente notável de um tratado De vera religione tornado necessário e que vai se aperfeiçoando a cada dia. É preciso reconhecer a Marsílio Ficino o mérito de ter sido um iniciador. Sobre as antigas edições das obras de Ficino, ver L. Hain, Repertorium bibliographicum, Stuttgart, 1827, t. II, n. 7059-7082; Copinger, Supplément to Hain, Londres, 1895, t. I, n. 7059-7079; t. II a, n. 2497-2501, 2497 a; t. II b, n. 7063-7070.
As obras completas foram publicadas, em 2 in-fol., Basileia, 1561; foi nessa edição que apareceu, pela primeira vez, o comentário sobre são Paulo. A edição de Veneza, 1516, é apenas parcial. A tradução do De monarchia de Dante foi impressa pela primeira vez por P. J. Fraticelli, Opere minori di Dante Alighieri, Florence, 1839, t. III, p. 1-199.
Um discípulo de Ficino, Jean Corsi, escreveu, em 1506, Commentarius de platonicae philosophiae post renatas litteras apud Italos restauratione seu Marsilii Ficini vita, publicado com anotações de A. Bandini, Pise, 1772; ver do mesmo Bandini, Specimen litteraturae Florentinae saeculi XV, in quo, dum Christophori Landini gesta enarrantur, virorum in ea aetate doctissimorum in litterariam rempublicam merita, status gymnasii Florentini a Landino instaurati et acta academiae platonicae a magno Cosma excitatae, cui idem praeerat, recensentur et illustrantur, 2 vol., Florence, 1747-1751; J.-A. Fabricius, Delectus argumentorum et syllabus scriptorum qui veritatem religionis christianae... asseruerunt, Hambourg, 1725, p. 540-542; Bibliotheca latina mediae et infimae aetatis, Hambourg, 1734, t. II, p. 496-497; J.-P. Nicéron, Mémoires pour servir à l'histoire des hommes illustres, Paris, 1728, t. V, p. 214-225;
[J. G. Schelhorn], Amoenitates litterariae, Francfort, 1730, t. I, p. 18-136; t. IV, p. 553-555; J. Brucker, Historia critica philosophiae, Leipzig, 1743, t. IV, p. 48-55; G. Tiraboschi, Storia della letteratura italiana, Naples, 1780, t. VI, p. 278-282; K. Sieveking, Geschichte der platonischen Akademie zu Florenz, Gœttingue, 1812; Gaume, La Révolution, Recherches historiques sur l'origine et la propagation du mal en Europe depuis la Renaissance jusqu'à nos jours, Paris, 1856-1857, t. II, p. 260-261; t. VIII, p. 208-218, 241-242; W. R. Weitenweber, Ueber des Marsilius Ficinus Werk De vita studiosorum, nebst einiger Bemerkungen über den Hellenismus, Prague, 1858; L. Galeotti, Saggio intorno alla vita ed agli scritti di Marsilio Ficino, em Archivio storico italiano, Florence, 1859, IIIe série, t. IX, p. 25-92; t. X, p. 25-92; t. XI, p. 3-56 (esta importante monografia é o que há de mais completo, sem ser definitiva); V. Cherbuliez, Le prince Vitale, essai et récit à propos de la folie du Tasse, Paris, 1864, p. 100-101, 247-271, 339-341;
F. Puccinotti, Di Marsilio Ficino e dell'accademia platonica fiorentina nel secolo XV, Prato, 1865; Della filosofia di Marsilio Ficino, em Nuova antologia, Rome, 1867, t. V, p. 211-240; H. Hettner, Das Wiederaufleben des Platonismus, Brunswick, 1879; F. Gabotto, L'epicureismo di Marsilio Ficino, em Rivista di filosofia scientifica, Milan, 1891, t. X, p. 428-442; L. Ferri, Di Marsilio Ficino e delle chiuse della rinascenza del platonismo nel quattrocento, em la filosofia delle scuole italiane, Rome, 1883, t. xxviii; R. Rocholl, Der Platonismus der Renaissancezeit, em Zeitschrift für Kirchengeschichte, Gotha, 1892, t. xiii, p. 47-106; C. Huit, Le platonisme pendant la Renaissance, em Annales de philosophie chrétienne, nouv. série, Paris, 1895-1896, t. xxxiii, p. 35-47, 269-283, 362-372, 617-628; E. Gagli, La morale nelle lettere di Marsilio Ficino, Pavie, 1897; Lo stato, la famiglia, l'educazione secondo le teorie di Marsilio Ficino, Pavie, 1899; A. della Torre, Storia dell'accademia platonica di Firenze, Florence, 1902 (importante); O. Zöckler, Geschichte der Apologie des Christentums, Gütersloh, 1907, p. 294-298;
Ph. Monnier, Le quattrocento. Essai sur l'histoire littéraire du XVe siècle italien, 2e édit., Paris, 1908, t. ii, p. 75-131; P. Imbart de la Tour, Les origines de la Réforme, t. ii, L'Église catholique. La crise et la Renaissance, Paris, 1909, p. 334-337, 389-390; L. Geiger, Renaissance und Humanismus in Italien und Deutschland, Berlin, 1911; A. Humbert, Les origines de la théologie moderne. I. La renaissance de l'antiquité chrétienne, Paris, 1911, p. 122-131, 148, 165; P. Wernle, Renaissance und Reformation, Tubingue, 1912, p. 16, 13, 68, 71
Autor original: F. Vernet
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor