FAUSTO DE RIEZ

FAUSTO DE RIEZ

FAUSTE DE RIEZ. Vida. Obras. III. I. Doutrina. — I. Vida. Fausto, um dos chefes, no século V, desse grupo de espíritos distintos e piedosos, mas iludidos, que se alarmavam na Provença com as consequências morais lógicas do agostinianismo, bem como com a novidade de suas teorias, e que foram designados mais tarde sob o nome de semipelagianos, nasceu, ao que parece, na Inglaterra, assim como Pelágio. Entrado ainda jovem para a vida monástica, em 430, não se sabe em consequência de que circunstâncias particulares, na célebre abadia de Lérins, tornou-se três anos depois abade do mosteiro, envolveu-se num conflito violento com o bispo de Fréjus, do qual a abadia dependia, e subiu por volta de 452 à sede episcopal de Riez. Ali, Fausto levou, como em sua cela de Lérins, uma vida de asceta, e contou-se entre os bispos mais em vista e mais influentes da Gália meridional na segunda metade do século. Era em toda parte o seu oráculo, e, mais do que ninguém, serviu ali à causa do semipelagianismo. Vemo-lo assistir em 475 ao concílio de Arles, onde o partido da oposição antiagostiniana levou a melhor, e receber dele a missão de expor por escrito a doutrina do concílio a respeito da graça e da predestinação.

Sua obra suscitou a admiração de uns, a ardente contradição de outros, e provocou notadamente uma réplica, hoje perdida, de santo Fulgêncio de Ruspe. O vigor do zelo de Fausto contra o arianismo fez com que fosse exilado, por volta de 478, pelo rei dos visigodos, o ariano Eurico; só à morte desse príncipe, em 485, é que Fausto pôde voltar à sua diocese. A data precisa de sua morte nos é desconhecida. Geralmente, no entanto, concorda-se em situá-la nos últimos anos do século. Fausto é uma das personagens mais interessantes da velha Igreja das Gálias.

II. Obras. Espírito ativo e culto, polemista hábil, pregador eloquente, a herança literária do bispo de Riez compõe-se de escritos dogmáticos ou filosóficos, de sermões e de cartas. Assim, segundo Genádio, viris ill., c. lxxxv, devemos à pena de Fausto as seguintes obras:

1° Um livro Do Espírito Santo, o qual mostra que a terceira pessoa da Santíssima Trindade partilha, segundo a tradição, a substância e a eternidade do Pai e do Filho. Esse livro, atribuído por muito tempo, erroneamente, ao diácono romano Paschásio e publicado sob seu nome, P. L., t. LXII, col. 9-40, foi restituído pelos críticos modernos ao bispo de Riez. Caspari, Ungedruckte... Quellen zur Geschichte des Taufsymbols, II, Christiania, 1869, p. 214-224; Engelbrecht, Studien über die Schriften des Bischofs von Reii Faustus, Viena, 1889, p. 28-46.

2° Um tratado da Graça de Deus em dois livros, P. L., t. LVIII, col. 783-836, escrito por ordem e em nome do concílio de Arles de 475, contra um defensor exagerado da predestinação, o padre gaulês Lúcido, e que comprometeu tão fortemente a reputação de ortodoxia de seu autor.

3° Um opúsculo, de uma cristologia muito exata, Adversus arianos et macedonianos pannus libellus in quo coessentialem praedicat (Faustus) Trinitatem, P. L., LXIII, col. 653-672. Alguns eruditos o julgaram perdido; mas vários críticos creem reencontrá-lo, uns no Breviarium fidei contra arianos, outros no De ratione fidei que Sichard fez publicar em Basileia em 1528, outros ainda no Liber testimoniorum, publicado pelo cardeal Pitra sob o nome de santo Agostinho, Analecta sacra et classica, t. V, p. 147 sq.; o Sr. Réhling, enfim, De Fausti Reiensis epist. tertia, Munster, 1898, identifica nosso opúsculo com a primeira parte de uma carta de Fausto, P. L., t. LVIII, col. 837-845, que teria circulado originalmente como obra à parte.

4° Um opúsculo Contra a opinião que reconhece outros seres incorpóreos além de Deus, forma visivelmente a segunda parte da carta acima mencionada, P. L., loc. cit., e circulou sem dúvida a princípio, tanto quanto a primeira parte, como um escrito à parte. Fausto se pronuncia aí claramente, como Cassiano, pela materialidade da alma humana e dos anjos; sendo todas as criaturas ocupantes de um lugar, é uma necessidade que sejam todas corpóreas. Cláudio Mamerto, que era nessa época o filósofo mais sábio e mais considerado do meio-dia da Gália, refutou Fausto em seu célebre tratado De statu animae, P. L., t. LVIII, col. 697-780.

5° Genádio, loc. cit., citou duas cartas de Fausto, uma dogmática e polêmica, endereçada de Lérins antes de 452 ao diácono nestoriano Grego, a outra com seus encorajamentos e suas lições de ascetismo, escrita do exílio antes de 480 ao patrício Félix, prefeito do pretório. Ao todo, restam-nos dez cartas de Fausto, das quais cinco ao bispo de Limoges, Rurício.

Todas as cartas de Fausto e de Rurício figuram, pelos cuidados de Br. Krusch, na edição que Chr. Lütjohann deu das obras de Sidônio Apolinário, Monum. Germ. hist., Auctores antiquissimi, Berlim, 1887, t. VIII, p. 265 sq. Fausto havia deixado outros escritos, sobre os quais Genádio, loc. cit., nada quer dizer, porque não os havia lido. Muito provavelmente, tinha diante dos olhos opúsculos, em particular cartas e sermões.

Não há dúvida de que Fausto pregara muito; mas seus sermões, na maior parte, chegaram até nós ora sob o véu do anonimato, ora sob nomes estranhos, e nada é mais difícil do que reconhecê-los e restituí-los ao seu autor; pois, depois do bispo de Riez, seus discípulos, com santo Cesário de Arles à frente, não deixaram de saquear seu mestre, de refundir seus discursos ou mesmo de apropriar-se deles de ponta a ponta. Só se encontram oito sermões de Fausto em P. L., t. LVIII, col. 869-890.

O Sr. Engelbrecht, Studien über die Schriften des Bischofs von Reii Faustus, Viena, 1889, reivindica para Fausto em bloco as cinquenta e seis homilias da coleção dita de Eusébio de Emesa e os vinte e dois sermões do codex Durlacensis, hoje em Carlsruhe. Mas o método e a tese do Sr. Engelbrecht foram justamente criticados. Dom Morin, Revue bénédictine, 1892, t. IX, p. 49-61; 1893, t. X, p. 62-77.

Com os sermões que não podem ser negados a Fausto, como os n°s 9 e 10 da coleção do pseudo-Eusébio, há nessas duas coletâneas sermões que não são dele; em mais de um caso, a paternidade de santo Cesário, por exemplo, salta aos olhos. O Tractatus de symbolo, que Caspari exumou e publicou em Alte und neue Quellen..., Christiania, 1879, p. 250-281, deve ser tido por uma homilia do próprio Fausto. Ao contrário, o sermão anônimo publicado por Caspari, Briefe, Abhandlungen und Predigten..., Christiania, 1890, p. 202-206, sobre as razões precisas do modo da redenção, é provavelmente obra de um compatriota e contemporâneo de Fausto que, mais jovem do que ele, saqueou os sermões do bispo. Caspari, loc. cit., p. 411-429. Dom Morin, Revue bénédictine, 1891, t. VIII, p. 97-104, crê ter fortes razões para atribuir a Fausto o tratado De septem ordinibus Ecclesiae, que figura no apêndice das obras de são Jerônimo, P. L., t. XXX, col. 148-162. A justeza dessa hipótese é, no entanto, contestada.

III. Doutrina. Nas matérias da graça e da predestinação, o bispo de Riez, tanto quanto Cassiano, às vezes até mais do que ele, está manchado dos erros semipelagianos. Entre os dois extremos, de um lado o pelagianismo, que pretende que o homem nasce sem pecado e pode salvar-se por seus próprios esforços, do outro lado o predestinacionismo, que nega o nosso livre-arbítrio e ousa sustentar que Jesus Cristo, ao morrer, não quis salvar todos os homens, Fausto pretende seguir a via média e não inclinar-se nem para a direita nem para a esquerda; o concurso da graça e da vontade na obra da salvação é o eixo de sua doutrina.

Apoiado em numerosos textos escriturísticos, Fausto anatematiza primeiramente a opinião de Pelágio, de que o homem não precisa da graça para alcançar a salvação. O homem, ao contrário, não pode passar sem a graça. E essa graça não é simplesmente uma graça exterior, que solicita em nós a energia moral, como admitia Pelágio; é uma graça interior, que o Espírito Santo derrama na alma para iluminá-la, fortalecê-la, renová-la, e que tem por conseguinte um caráter sobrenatural. Mesmo antes da queda, a graça era necessária ao homem para o exercício legítimo de sua razão e de sua vontade, para o cumprimento da lei moral, gravada por Deus na alma humana; quanto mais a graça o é desde que a queda rompeu a harmonia primitiva e natural da alma e do corpo e suscitou as revoltas até então desconhecidas da concupiscência. Pois Fausto não nega, como Pelágio, o pecado original, embora, no fundo, o considere menos como um verdadeiro pecado do que como uma tara hereditária, vitium originale. De gratia, i, 2; e reconhece formalmente as tristes consequências disso sobre todo o gênero humano, a invasão da morte e da desordem dos sentidos. O pecado original passa com o sangue dos pais aos filhos, segundo o que diz santo Agostinho, per incentivam maledictæ generationis ardorem et per inlecebrosum utriusque parentis amplexum; só o Redentor, em razão de sua concepção milagrosa, não o contraiu.

Os golpes desferidos pelo pecado original contra a natureza do homem tornam-nos necessário o socorro da graça. Pelágio, ao contestá-los, mina a redenção pela base. Ao mesmo tempo que Fausto combate a heresia pelagiana, ele se levanta contra a ideia do predestinacianismo, de que toda a nossa salvação é assunto exclusivo da graça. Refuta cuidadosamente os argumentos que os predestinacianos tiram dos textos da Sagrada Escritura, e mostra que, sem as obras, frutos da vontade, a fé, dom da graça, é vã e de nenhum valor. Nosso livre-arbítrio, sendo parte integrante de nossa natureza, não pereceu nem pôde perecer na queda de nosso primeiro pai; foi apenas enfraquecido; o bem tornou-se-nos difícil, mas de modo algum impossível.

E a prova de que nosso livre-arbítrio não naufragou inteiramente na queda original é que o homem não deixa de ser, depois do pecado, capaz de virtude. Das virtudes do homem decaído às do homem inocente, acrescenta Fausto, como bom semipelagiano, não há senão uma diferença de mais e de menos, nada além disso: non periit actio, etsi est amissa perfectio. De gratia, i, 8.

O pecado de Adão não aniquilou em nós o livre-arbítrio, nem tampouco apagou a lei natural; o homem sempre pôde reencontrá-la em si e por ela conhecer a Deus, que a gravara primitivamente em sua alma; com a lei natural o homem recebeu a fé desde a primeira hora. Contrário à Sagrada Escritura, o predestinacianismo acarreta também consequências perigosas, terríveis; pois vai até destruir a própria noção do pecado, a negar a misericórdia divina que presidiu à criação, a considerar inúteis tanto a vida ascética quanto todo esforço de aperfeiçoamento moral. Assim, sem dúvida, a nossa salvação é o efeito do concerto da graça e da vontade. Só que Fausto não fala da ação da graça sobre a vontade; fala apenas da aliança mútua delas na obra da salvação.

Com razão ensina, é verdade, que a graça preveniente é necessária, que a fidelidade à graça é a condição indispensável do nosso progresso na virtude, que a perseverança do homem, enfim, é um puro dom de Deus. Mas, sobre a questão de saber como, no início, a graça e a vontade se entrelaçam e se ajustam uma à outra, sua linguagem muda de aspecto. É à vontade que ele reconhece o primeiro passo. Há no coração humano, diz ele, De gratia, ii, 12, um fogo aceso por Deus e que o homem deve manter com o socorro da graça.

De modo que, segundo Fausto, os piedosos desejos e as humildes preces da vontade precedem e chamam as graças especiais que Deus nos concede no curso de nossa vida. A vontade, portanto, opera; a graça apenas coopera; a graça não é o guia, é somente a companheira da vontade. Aliás, a graça que atrai o pecador a Deus é simplesmente uma graça exterior — pregação da fé, leitura da Sagrada Escritura, etc. — que exerce sobre a vontade apenas uma ação moral. A iniciativa da obra da salvação pertence, em definitivo, à vontade; mas a graça a persegue e a completa. Sem excluir totalmente a graça da obra da salvação, Fausto atribui à vontade o papel principal, e por conseguinte altera-lhe o caráter inteiramente sobrenatural.

Em suma, seu semipelagianismo iguala, e mesmo ultrapassa, aqui e ali, o de Cassiano. O bispo de Riez, chocado com as opiniões predestinacianas, que lhe pareciam desconhecer o verdadeiro sentido dos textos da Escritura, contradizer a justiça de Deus tanto quanto a sua misericórdia, arruinar a vida religiosa e moral, revolta-se contra a predestinação absoluta; combate até os escritos de santo Agostinho, embora não deixe de falar do autor com respeito; para ele, não quer outra predestinação senão uma presciência divina, que prevê o que a liberdade do homem realiza. Enfim, sustenta que Jesus Cristo morreu por todos os homens e quis salvá-los a todos.

Engelbrecht, o primeiro, quis editar de modo completo as obras de Fausto, no t. xxi do Corpus script. eccl. lat., Viena, 1891. Publicada a edição, ele fez publicar, à guisa de suplemento, suas Patristische Analekten, Viena, 1892. Dom Cabrol, Revue des questions historiques, 1890, t. xlvii, p. 232-243; A. Koch, Der hl. Faustus, Bischof von Riez, Stuttgart, 1895; o mesmo, em Theol. Quartalschrift, 1899, t. LXXXI, p. 287-317, 578-618; Fessler-Jungmann, Institutiones patrologiæ, t. ii, 6, Innsbruck, 1896, p. 361-372; Fr. Wörter, Zur Dogmengeschichte des Semipelagianismus, Munster, 1899, p. 47-107; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, nouv. édit. franc., Paris, 1903, t. iii, p. 113-120

Autor original: P. Godet

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