FANATISMO. I. Definição. II. Fanatismo, seitas, religião. III. — Fanatismo e deísmo. I. DEFINIÇÃO. O fanatismo é hoje comumente aplicado à paixão de servir uma «causa ou um partido com um pretenso direito diante do qual todos os outros direitos se apagam», Renouvier e Prat, La nouvelle monadologie, Paris, 1899, p. 236; é assim que a política, a ciência e a própria literatura têm seus fanáticos; mas isso não é, como bem se vê, senão uma acepção totalmente secundária e derivada, na qual já não se encontra mais a etimologia da palavra. O que constitui, com efeito, o fanatismo, e o que nos remete à sua origem primeira, não são tanto os direitos que ele se arroga quanto as visões ou as inspirações divinas que se atribui. Chamavam-se fanáticos entre os antigos certas espécies de adivinhos ou pretensos profetas. Eram assim chamados do latim fanum, porque habitavam nos templos. Eram sobretudo sacerdotes de Ísis, da Mãe dos deuses, de Belona. A significação da palavra estendeu-se em seguida, como que por si mesma, a todos aqueles que imaginam ter revelações ou inspirações e que, atribuindo-se por consequência poderes divinos, humanamente irresponsáveis, sustentam suas ideias até quererem impô-las pela força ou pela violência.
Há, portanto, duas coisas no fanatismo, das quais uma é o fundamento e a outra a consequência. 1° Os fanáticos são essencialmente visionários ou iluminados; «essas pessoas estão persuadidas de que o Espírito Santo... as penetra», Voltaire, Dictionnaire philosophique, art. Fanatisme; e é isso que os distingue, por exemplo, dos utopistas, que só tiram seus devaneios de si mesmos. Os utopistas afirmam suas quimeras diante da experiência que as contradiz; não as deixam nem abalar nem reduzir; mas também não procuram vencer a resistência que elas encontram. O fanatismo, ao contrário, exasperado por essa resistência, mas não instruído por ela, obstina-se em quebrá-la, ou põe seu amor-próprio em não senti-la. A embriaguez de suas ideias, que ele afeta ter recebido do céu, não só o fecha a toda experiência e o previne contra toda autoridade, como também o põe em revolta contra elas. Aí está o grande perigo de todos aqueles que, dizia Bayle, se vangloriam de inspiração. Acusam-nos de um orgulho enorme, e observa-se que esse é o defeito comum daqueles que pretendem ter parte nas inspirações do alto. «Com efeito, esse favor é de tão grande valor, que não se deve estranhar que aqueles que se persuadem de que Deus os honra com tal distinção tratem os doutores comuns de cima para baixo.
Mas ao mesmo tempo dão a conhecer que se vangloriam erradamente de serem inspirados, pois, se Deus lhes fizesse essa grande honra, não lhes recusaria o espírito da humildade cristã; não conceberiam tamanha indignação contra todos aqueles que não querem dar crédito a seus devaneios.» Bayle, Dictionnaire historique et critique, Rotterdam, 1740, t. I, p. 981. 2° O fanatismo sustenta suas visões ou suas inspirações por todos os meios de que pode dispor, e vai mesmo, se preciso, até os piores extremos. Suas visões ou suas inspirações distinguem um fanático de um utopista; são suas violências que o distinguem do simples charlatão. O charlatão atribuirá de bom grado suas ideias a uma influência superior; mas não as segue por isso até o fim. Uma espécie de instinto de conservação o adverte de que se perderia em seus excessos, que não pode deixar de sucumbir sob o golpe das resistências que provocará e de ser finalmente vencido pela força das coisas. Ele prefere refrear-se, recompor-se e recuar. Renuncia, segundo uma excelente expressão, a realizar suas ideias, e contenta-se em manifestá-las.
O fanático, ao contrário, é por excelência o homem que realiza suas ideias, que se abandona ao seu impulso e que, não se embaraçando com as astúcias do charlatanismo, se deixa arrastar a todos os excessos. «Aquele que tem êxtases, visões, que toma sonhos por realidades e imaginações por profecias, é um entusiasta; aquele que sustenta sua loucura pelo assassinato é fanático.» Voltaire, loc. cit. II. — Fanatismo, seitas, religião. Vê-se, pela definição de seus dois caracteres, que o fanatismo é tão essencial às seitas quanto estranho à religião católica. Todas as seitas se fundam, com efeito, na negação da autoridade; e se algumas fingem ainda crer numa revelação primitiva, não é que com ela se preocupem muito, uma vez que se encarregam elas mesmas de interpretá-la: «A doutrina do luteranismo, fundada num princípio semelhante, é como pura deísta, com esta diferença que os Jean-Jacques Rousseau pensam que jamais existiu revelação exterior de Deus à sociedade humana, e que o homem encontra todas as leis no fundo do seu coração, ao passo que Lutero admite a existência de uma revelação primitiva, mas pensa que o homem encontra em sua razão as luzes necessárias para explicá-la, isto é, uns querem que o homem seja sua própria lei e outros querem que o homem seja a si mesmo seu magistrado.»
Bonald, Législation primitive. Discours préliminaire. Assim, todas as seitas se definem pela pretensão que têm de devolver ao homem a posse de seu espírito. «Já não há mestre do espírito, cada homem é dono de si», J. de Maistre, Considérations sur la France, c. I, § 5: tal é a própria fórmula do espírito de seita. Disso decorrem duas consequências. A primeira é que o homem, livre de toda coação, abandona-se a todas as suas fantasias; toma suas imaginações ou suas ideias por revelações; se busca nos Livros Santos a palavra de Deus, torce-a ao sabor de seus caprichos, porque, não estando essa palavra ligada a nenhuma prova positiva, não há ninguém que não possa ou mesmo se vangloriar dela sem razão ou imaginá-la sem fundamento; enfim, ele se obstina tanto mais facilmente em sua opinião quanto não há controle algum para corrigi-lo. Sabemos, ao contrário, que em matéria de fé e de verdades reveladas, aquele que não pensa como a Igreja é um herege; e a religião só se conserva se os que a compõem consentem em fazer a uma tradição comum o sacrifício permanente de seu juízo próprio. O que todo o mundo crê, o que sempre se creu, é o que se deverá crer eternamente e, assim, o que há de mais vivo e de mais real na religião é a tradição. Aqueles que dela se desligam para pretender inspirações pessoais ou luzes particulares que a Igreja não reconhece, julgam-se a si mesmos e se condenam.
A segunda consequência é que as seitas não têm em si a força necessária para se resguardarem contra os deploráveis meios a que são levadas por si mesmas para a defesa ou a propagação de suas ideias; fundam-se na independência, e dela vivem; a causa de todas as violências e de todos os excessos que nelas se vê é não conhecerem uma autoridade como a da Igreja, fora da qual, estando cada um entregue à sua própria mágoa e a suas paixões particulares, não só já não há verdade possível, como também não há união realizável; e eis por que, depois de se desligarem do tronco comum, as seitas deslizam logo para o fanatismo; este lhes é tão próprio ou essencial que só por ele podem se sustentar; ele é, ao contrário, tão estranho à religião católica que nela não se pode encontrar exemplo algum, e que se a veria sempre absorvê-lo à medida que ele se produzisse. — III. Fanatismo e deísmo. Isso não impediu que os filósofos do século XVIII, tão ignorantes quanto Adão vindo ao mundo de toda sorte de história em geral, e particularmente da história religiosa, censurassem primeira e antes de tudo à Igreja seus estragos, suas violências sanguinárias, e numa palavra, seu fanatismo.
Tal é a verdadeira origem do deísmo francês, cujos começos nada devem, e cujo desenvolvimento pouco deve, aos livres-pensadores ingleses. Se de fato nos sopra, da Inglaterra, um terrível «vento filosófico» em meados do século, e se tudo se torna inglês para o fim, isso não quer dizer que tudo o seja já desde o início. Foi Voltaire quem, em 1730, inaugurou entre nós a fortuna desse país livre onde «a razão não conhece nenhuma coação». Mas nossos filósofos não haviam esperado tanto tempo para se decidir contra a Igreja; o próprio Voltaire, e antes dele, Bayle, o primeiro de todos, tinham encontrado no galicanismo, e em particular nas perseguições exercidas contra os protestantes, as principais razões da animosidade que não cessaram de nutrir contra ela; e se não duvidamos, a esse respeito, de que se enganaram ao lançar à conta da religião católica os abusos e os exageros nos quais o galicanismo não cessara de comprometê-la aos olhos dos incrédulos, nem por isso é menos verdade que é aí, no fundo de todas essas querelas, que devemos buscar o começo ou, se se quiser, o pretexto dessa oposição tão declarada.
Pela revogação do edito de Nantes, os protestantes foram, com efeito, colocados na contingência de escolher entre sua pátria e sua religião; e, mais fiéis à sua consciência do que ao seu «príncipe», optaram em grande número pelo exílio, deixaram a França, «essa Babilônia embriagada do sangue dos fiéis», e refugiaram-se em sua maioria na Holanda, nessa «grande arca dos fugitivos», de onde nos devolveram a dura lição dos acontecimentos de que eram vítimas. Alguns haviam publicado um panegírico de Luís XIV sob este título: La France toute catholique sous le règne de Louis le Grand. Bayle respondeu com três cartas nas quais insistia com complacência nas «dragonadas» e procurava definir por sua vez o que é a França toda católica sob o reinado de Luís o Grande (1685): «Vós credes grosseiramente e por um vergonhoso preconceito, dizia ele aí, que tudo o que foi feito contra nós é justo, uma vez que foi seguido de um glorioso sucesso para a religião. Mas não vos enganeis: vossos triunfos são antes os do deísmo do que os da verdadeira fé. Eu gostaria que ouvísseis aqueles que não têm outra religião senão a da equidade natural.
Eles consideram vossa conduta como um argumento irrefutável; e quando remontam mais alto, e consideram os estragos e as violências sanguinárias que vossa religião católica cometeu durante seiscentos ou setecentos anos por todo o mundo, não podem deixar de dizer que Deus é bom demais essencialmente para ser o autor de coisa tão perniciosa quanto as religiões positivas: que ele não revelou ao homem senão o direito natural, mas que espíritos inimigos de nosso repouso vieram de noite semear o joio no campo da religião natural, pelo estabelecimento de certos cultos particulares, que bem sabiam seriam uma semente eterna de guerras, de carnificinas e de injustiças.» O Commentaire philosophique sur le Compelle intrare não fez senão agravar as primeiras declarações. O velho calvinismo, não menos exclusivo que a religião romana, não se enganou quanto a isso; sentiu-se atingido pelo mesmo golpe que Bayle havia desferido contra o catolicismo e começou a crer-se «vingado demais por essa pena indiscreta». Mas foi em vão que Jurieu, assustado com essas ideias novas, publicou contra Bayle seu Traité des deux souverains para destruir o dogma da indiferença, e que, de todos os lados, procurava-se distinguir cuidadosamente a tolerância civil ou política da tolerância eclesiástica.
Ver Morellet, Mémoires inédits, t. I, cap. II, p. 33, 34, na coleção dos Mémoires relatifs à la Révolution française. Apesar dessas discussões sutis, a ideia nem por isso deixou de abrir seu caminho; é impossível não reconhecê-la por trás de todas as querelas movidas contra a religião no decorrer do século XVIII; e foi assim que o deísmo começou, e que particularmente se desenvolveu, pela demonstração não da absurdidade, mas do fanatismo da religião católica. «É um defeito para uma religião ser absurda, escreve Helvétius; sua absurdidade pode ter consequências funestas. Contudo, esse defeito não é o maior de todos, e se seus princípios não são inteiramente destruidores da felicidade pública e se suas máximas puderem se conciliar com as leis e a utilidade geral, é ainda a menos má de todas.» De l'Homme, em Œuvres complètes, Londres, 1775, t. III, p. 53. Busquemos, pois, a religião que tenderá mais diretamente à felicidade pública e à utilidade geral; a religião que une os homens, e não a que os divide; a religião que tolera, e não a que persegue; a religião «que diz que toda a lei consiste em amar a Deus e ao próximo, e não a que faz de Deus um tirano e de seu próximo um amontoado de vítimas.» Helvétius, loc. cit.
Enganar-se-ia, pois, completamente quem quisesse reduzir o deísmo francês do século XVIII a um puro e simples racionalismo que não tivesse tido outro efeito senão suprimir a revelação para deixar a cada um a liberdade de filosofar sobre as matérias da religião. O que os filósofos quiseram atingir não foi somente a «superstição», mas foi primeiramente o fanatismo. Ao atacar a superstição, estabeleceram sem dúvida o princípio do deísmo, que é a razão, esse bom senso ainda não instruído pela revelação; mas ao atacar o fanatismo, desprenderam a forma dessa nova religião que tiveram a ambição de apresentar como sendo, por meio das ideias de tolerância e de utilidade geral, a única religião verdadeiramente universal
Autor original: J. Bouché
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