EXPLÍCITO E IMPLÍCITO. O termo explícito é um dos que mais frequentemente se empregam em teologia; opõe-se a implícito. É explícito tudo o que é admitido ou proposto expressamente; é implícito tudo o que está contido em outra coisa. Precisamos contentar-nos com essas definições vagas, que só podem se precisar nas diferentes aplicações das palavras implícito e explícito. Essas aplicações são numerosas: conhecimento, crença implícita ou explícita de tal ou tal verdade; revelação explícita e implícita; instituição explícita e implícita, etc. Mas a ideia geral é a que indicamos.
Trouxemos os três exemplos que nos parecem os únicos a assinalar nestas breves notas sobre o emprego das palavras implícito e explícito em teologia.
— 1° Conhecimento, crença implícita ou explícita. Há verdades cujo conhecimento, cuja crença expressa, é necessária à salvação eterna, de necessidade de meio ou de necessidade de preceito; outras, cujo conhecimento, cuja crença expressa não é necessária. É preciso admitir as primeiras explicitamente; basta crer implicitamente nas segundas. De necessidade de meio, a crença explícita deve recair sobre um Deus remunerador e salvador, segundo a opinião mais provável, ver Igreja, t. IV, col. 2169-2174, e sobretudo Fé; de necessidade de preceito, a crença explícita é necessária a respeito dos principais mistérios, das verdades relativas à vida futura; é preciso também o conhecimento explícito de algumas orações essenciais, principalmente do Pater, e dos sacramentos que se deve receber. Cf. S. Tomás, Sum. theol., IIa IIae, q. II, a. 5-8.
As outras verdades, as outras práticas podem não ser admitidas senão implicitamente, isto é, de acordo com a Igreja, crendo tudo o que ela crê e estando pronto a cumprir tudo o que ela ordena. Tal é o ensinamento tradicional. As verdades que temos a obrigação de crer explicitamente podem ser ditas, por isso mesmo, em certo sentido, fundamentais; mas não é de modo algum o sentido que os protestantes atribuíram aos artigos fundamentais. Ver esse termo, t. I, col. 2026. Cf. Franzelin, De traditione, th. XXIII, n. 3. Se encontrarão essas noções no art. Fé.
— 2° Revelação implícita ou explícita. A noção da revelação implícita ou explícita funda toda a teoria do progresso do dogma. Ver DOGMA, t. IV, col. 1606-1647. A distinção entre as verdades cuja crença explícita é de necessidade de preceito, e aquelas cuja crença implícita basta, engendra esta conclusão imediata: no início, a revelação cristã teve de propor explicitamente, isto é, expressamente, em termos próprios ou equivalentes, os principais mistérios e o que é necessário ao cristão para operar sua salvação; ela pôde — e é um fato demonstrado pelo estudo das origens — não propor outras verdades senão de modo implícito. O progresso do dogma aplica-se, portanto, sobretudo a estas últimas verdades, nas quais, quanto ao próprio sentido que recobrem as fórmulas do dogma, há passagem do implícito ao explícito. Cf. Dogme, t. IV, col. 1575.
1. Os teólogos reduzem a três as maneiras implícitas pelas quais uma verdade está contida em outra: geralmente, formalmente, virtualmente.
a) Uma verdade está contida em outra de maneira implícita, mas simplesmente geral, quando essa outra não comporta nenhuma determinação particular que possa fazer pressentir a verdade implicitamente contida; por exemplo, o mistério da Trindade está implicitamente contido na noção de Deus. Tal passagem do implícito ao explícito constituiria no dogma um progresso, mas não mais in eodem sensu; isso já não é, portanto, o desenvolvimento normal do dogma. Um desenvolvimento desse tipo supõe uma nova revelação.
b) Uma verdade está contida em outra de maneira implícita formal, quando nela está compreendida como as partes no todo, o particular no universal. Extrai-se dela sem o auxílio de um termo médio; é uma dedução imediata; por exemplo, desta proposição geral: «O papa é o vigário de Cristo», deduz-se imediatamente esta outra, que é de fé como a primeira: «Pio X é o vigário de Cristo». Nessa passagem, há, propriamente falando, o desenvolvimento dogmático, tal como o admite a doutrina católica, porque, segundo a definição do concílio do Vaticano, o dogma progride in eodem sensu eademque sententia. Const. De fide catholica, c. IV, Denzinger-Bannwarth, n. 1800. Ver Dogme, t. IV, col. 1647.
c) Uma verdade está contida em outra de maneira implícita virtual, quando é preciso recorrer, para dela deduzi-la, ao auxílio de um termo médio. Já não é o desenvolvimento dogmático, mas o teológico, que se vale desse procedimento, e chega-se simplesmente a conclusões teológicas, contidas virtualmente no próprio dogma. Exemplo: a ciência perfeita de Cristo, que se deduz do dogma da encarnação pelo termo médio da visão beatífica. Alguns autores pensam que uma verdade virtualmente encerrada num dogma pode se tornar artigo de fé, pela promulgação da Igreja; porque o que, em relação a nós, teria permanecido sempre virtualmente implícito, não o é para a Igreja, que se beneficia da assistência do Espírito Santo. Ver de Grandmaison, Développement du dogme chrétien, na Revue pratique d'apologétique, 1908, t. II, p. 895.
Parece haver aqui confusão: a Igreja, mesmo com a assistência do Espírito Santo, não pode fazer com que um termo médio seja ou não necessário para deduzir uma verdade. Ora, se se é obrigado a empregar um termo médio, isto é, a deduzir, por um raciocínio propriamente dito, a verdade nova, já não é mais a revelação sozinha, mas a razão que entra em jogo, e a verdade que assim se deduzirá será o resultado de um desenvolvimento teológico, mas não dogmático. Será uma verdade logicamente conexa à revelação, mas não uma verdade revelada. O exemplo da imaculada conceição não prova nada contra esta afirmação: objetou-se que esse dogma não podia estar formalmente implícito na tradição, sem o que «a simples exposição dos termos deveria ter tornado manifesta essa contenência. »
É preciso responder: uma coisa é a identidade real dos termos de uma proposição geral e da proposição particular que ela encerra de maneira formalmente implícita; outra coisa é o conhecimento que temos dessa identidade. O sentido exato e completo de uma verdade revelada pode, para ser perfeitamente conhecido, exigir um longo trabalho de investigações e discussões. Tal foi o caso da imaculada conceição, que se deve considerar como uma verdade formalmente contida no dogma da pureza perfeita de Maria. Ver Dogme, t. IV, col. 1576-1577.
A passagem do implícito ao explícito, quando se trata dessas verdades, contidas no depósito da revelação, comporta ordinariamente três estágios, que o cardeal Franzelin analisou. De traditione, th. XXIII, n. 4. 1º estágio: crença puramente implícita, ou simplesmente prática, sem mistura de nenhuma controvérsia; 2º estágio: período de controvérsia em que, sob os golpes dos argumentos a favor e contra, a verdade se obscurece, até que, graças à assistência do Espírito Santo, se chega, na Igreja, a uma crença explícita sobre o ponto em litígio; 3º estágio: consagração dessa crença explícita pelo magistério extraordinário da Igreja, ou ainda (mais teoricamente) pelo simples magistério ordinário.
2. Quanto às verdades cuja crença teve de ser explícita desde o início, por serem necessárias de necessidade de preceito (ou de meio), é preciso admitir, sob pena de contradição, que a proposição desses dogmas teve de ser, ao menos no que têm de essencial, explícita desde a origem. Pode-se, contudo, para esses próprios dogmas fundamentais, falar de passagem do implícito ao explícito? Sim, mas sem aplicar a qualificação de implícito ao sentido de dogma, isto é, ao que, no dogma, é objeto do ato de fé, mas sim a modalidades acidentais, ou sobretudo à fórmula definitiva do dogma, que está contida implicitamente na crença primitiva explícita. A passagem do implícito ao explícito é, portanto, aqui, a passagem da simples crença à definição precisa. Ver Dogme, t. IV, col. 1603.
O P. Billot, De immutabilitate traditionis, 2e édit., Roma, 1907, c. II, § 2, precisou os três estágios pelos quais passam assim os próprios dogmas fundamentais.
1º estágio: simples crença, em que os primeiros cristãos se contentavam em professar a fé recebida diretamente dos apóstolos. É a esse estado de simples crença que se devem reportar as primeiras confissões relativas à Trindade, Inácio, Ad Magn., c. XIII, Patres apostolici, Funk, Tubinga, 1901, t. I, p. 240; Ad Eph., VII, p. 218; Ad Polyc., c. III, p. 290; cf. Martyrium Polycarpi, c. XIV, ibid., p. 330; à Igreja, S. Ireneu, Cont. hær., l. I, c. X, n. 1, P. G., VII, col. 549; à graça e ao pecado original. Cf. S. Agostinho, Cont. Iulianum, l. I, n. 5, 20, 32, 33, P. L., XLIV, col. 643-654, 662-665.
2º estágio: simples crença à qual se junta um ensaio ainda imperfeito de explicação e exposição, sob a influência de uma preocupação apologética. É a esse estágio que se devem reportar as obras dos primeiros Padres apologistas; e é pela imperfeição de sua exposição que se devem explicar os textos um tanto difíceis que apresentam, aqui e ali, suas defesas da doutrina católica. Ver Espírito Santo, col. 696-701. — Cf. Dogme, t. IV, col. 1028, a explicação de Bossuet.
3º estágio: explicação ou definição precisa, sancionada ordinariamente pelas decisões da Igreja. É o período dos primeiros concílios ecumênicos. Parece necessário, para evitar confusões, distinguir bem essas duas espécies de passagens do implícito ao explícito, que correm paralelamente, sem contudo se confundirem. Mas, em ambos os casos, há mais que uma passagem do implícito vivido ao implícito conhecido; há sempre conhecimento, uma vez que se trata: — de verdades a crer.
3° Instituição implícita ou explícita. Na ordem dos meios de santificação, pode-se constatar o mesmo progresso que na ordem das verdades a crer. Assim como todos os dogmas foram formalmente revelados por Deus, embora nem todos o tenham sido explicitamente, do mesmo modo a Igreja, os sacramentos foram formalmente instituídos por Nosso Senhor, embora nem todos os elementos atuais da Igreja e dos sacramentos tenham sido instituídos explicitamente. Mais ainda, assim como certas verdades só foram reveladas virtualmente e não se impõem senão de fé eclesiástica, ver Fé; do mesmo modo, certos elementos da Igreja não podem pretender, embora se imponham a nós, a uma instituição formal de Jesus Cristo: tudo o que é puramente de direito eclesiástico só é instituído por Jesus Cristo de maneira virtual implícita; do mesmo modo também certas partes litúrgicas dos sacramentos. Essa teoria é extremamente importante para explicar os desenvolvimentos e também as variações que se constatam através dos tempos, seja na disciplina da Igreja, seja em sua liturgia, seja na maneira de conferir os sacramentos. Não se pode senão indicá-la sumariamente aqui, devendo as aplicações particulares ser estudadas, cada uma à parte, em artigos especiais.
Em exegese, deve-se assinalar igualmente o emprego dos termos implícito e explícito aplicados às citações que podem estar contidas nos Livros sagrados. A questão das citações implícitas será examinada no art. INSPIRAÇÃO
Autor original: A. Michel
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