DRACÔNCIO

DRACÔNCIO

DRACONTIUS. — I. Vida. II. Poesias.

I. Vida. — Blossius Aemilius Dracontius, o poeta talvez mais distinto e mais interessante da África cristã, nascera nos confins do século V e do século VI, no seio de uma família opulenta, que soubera, apesar da conquista dos Vândalos, conservar seus bens. O jovem Dracontius recebeu a educação liberal da época; da escola dos gramáticos passou à dos retores, e acabou por abraçar a carreira do foro. Tudo na vida lhe sorria, quando a cólera do rei dos Vândalos Gontamundo (484-496) desabou subitamente sobre ele. A culpa estava, por confissão do próprio Dracontius, Satisfactio, v. 93 sq., 105, 106, numa peça de versos em que o imprudente poeta, sem dizer palavra sobre a casa real dos Vândalos, exaltara o poder de um príncipe estrangeiro, ao que parece o imperador do Oriente. Os conquistadores desconfiavam com razão do prestígio de Constantinopla e daqueles que dele guardavam a lembrança; fizeram-no bem sentir a Dracontius. A confiscação de seus bens reduziu sua mulher e seus filhos à miséria; ele mesmo foi lançado na prisão e espancado, à maneira vândala. Ibid., v. 312. Não obstante suas súplicas humildes e reiteradas, e por mais que fosse ordinariamente a doçura de Gontamundo para com seus súditos católicos, o prisioneiro não saiu tão facilmente de seu cárcere. Chegou ele alguma vez a sair? Não se sabe. A noite se fez sobre os últimos anos de Dracontius e já não deixa transparecer nada deles.

II. Poesias. — A obra inteira de Dracontius, fortemente impregnada de retórica, atesta o conhecimento dos poetas da Roma imperial tanto quanto o da sagrada Escritura. Virgílio, Ovídio, Lucano, Estácio, o mundo da mitologia são igualmente familiares a Dracontius. O cuidado real com a versificação não o preservou, contudo, sempre, nem na prosódia nem na gramática, das influências da língua do povo, lingua rustica. Mas os dois poemas principais de Dracontius, animados de um profundo sentimento religioso e vibrantes de um acento inteiramente pessoal, devem à mescla das efusões líricas e da narrativa didática um caráter à parte e um encanto poderoso; ambos foram vividos. Dracontius os escreveu sucessivamente em seu cárcere, depois de uma longa detenção. Ibid., v. 120.

Desses dois poemas, o primeiro em data parece bem ser a elegia de 158 dísticos ou 316 hexâmetros, intitulada: Satisfactio Dracontii ad Guthamundum regem Gundalorum, cujo título indica suficientemente o objeto; nela o poeta celebra primeiro a bondade e a clemência de Deus, depois conjura Gontamundo a imitar a Deus, perdoando como Ele. O bispo de Toledo, Eugênio II, a pedido do rei dos Visigodos (642-649), revisou a Satisfactio, em nome da arte literária e da teologia, não talvez sem algumas preocupações políticas; e, sob o título de Dracontii Elegia, P. L., t. LXXXVII, col. 383-388, esta revisão foi frequentemente reimpressa, antes que o douto Arevalo, S. J., em sua edição de Dracontius, in-4°, Roma, 1791, p. 367-402, nos restituísse o texto original. P. L., t. LX, col. 901-932.

O arrependimento do poeta não desarmou o rei. Sem perder a coragem, Dracontius, ainda prisioneiro, compôs, sob o título de Laudes Dei ou de Deo, um segundo e mais longo poema em hexâmetros, consagrado a cantar a misericórdia (pietas) de Deus; os manuscritos atribuíram-no falsamente a santo Agostinho. G. Meyer, Die Berliner Centones der Laudes Dei des Dracontius, em Sitzungsber. der kgl. preuss. Akad. der Wissensch. zu Berlin, 1890, p. 257, 296. As Laudes Dei dividem-se em três livros. Arevalo, o primeiro, op. cit., p. 117, 366, deu-lhes o texto quase completo. P. L., t. LX, col. 679-902. Ele tivera de contentar-se com um único manuscrito, o Urbinas Vatic., n. 302. O cardeal Pitra, tendo encontrado um segundo manuscrito na biblioteca de Bruxelas, levantou-lhe as variantes. Analecta sacra, Paris, 1888, t. V, p. IX, 176-180. Os dois últimos livros do poema foram publicados depois por Glieser, em dois programas do ginásio Frederico de Breslau, 1843 e 1847.

Desses três livros, o primeiro (754 versos), que é a obra-prima do autor, depois de um preâmbulo inspirado pelas circunstâncias, v. 1-115, celebra a bondade divina na obra da criação do mundo. O livro II (808 versos, edição Arevalo; 813 versos, edição Glaser) canta a persistência e o pleno florescimento da bondade divina na conservação do universo, e mais ainda na missão de Jesus Cristo. Dracontius, enfim, no livro III (682 versos, edição Arevalo; 699 versos, edição Glaser), exorta-nos, com grande abundância de exemplos tomados da história bíblica e da história romana, muitas vezes com um calor penetrante, a retribuir o amor de Deus, testemunhando- lhe uma confiança inabalável.

O livro I, a partir do v. 116, circulou desde cedo, em edição à parte, sob o título de Hexaemeron creationis mundi, e fez esquecer o resto do poema; santo Isidoro de Sevilha, De vir. ill., c. XXIV, não conhece de Dracontius senão o Hexaemeron. Eugênio II, de Toledo, publicou dela por volta de 640 uma nova recensão, menos corrigida contudo que a da Satisfactio, com um apêndice de sua própria lavra (85 versos) referente ao sétimo dia. P. L., t. LXXXVII, col. 371-384, 388.

As poesias profanas de Drácontio datam, umas de sua juventude, outras, mais numerosas talvez, de seu cativeiro, Rheinisches Museum, 1891, p. 493-494, e nos atestam a vitalidade das tradições escolares romanas na África, sob a dominação dos vândalos. Essas poesias profanas, quase todas em versos hexâmetros e de comprimentos muito desiguais, eram mais conhecidas no século VI do que geralmente se pensa. Consistem em pequenos poemas mitológicos, tais como a fábula de Hilas, a de Medeia, o rapto de Helena; em três dessas declamações versificadas que se ouviam nas escolas dos retores, Verba Herculis cum videret Hydrae serpentis capita pullulare post caedes, Controversia de statua viri fortis, Deliberativa Achillis an corpus Hectoris vendat; em dois epitalâmios semicristãos, semipagãos, que trazem bem a marca da época, etc. Foram, em sua maior parte, editadas por F. de Duhn, sob o título de Dracontii carmina minora, Leipzig, 1873, ao mesmo tempo que uma nova colação do manuscrito do Vaticano descoberto e publicado por Arevalo. A tragédia de Orestes (971 hexâmetros), que aliás só tem de trágico o nome, e que na Idade Média passou por obra de Horácio ou de Lucano, trai visivelmente, pela língua, pela prosódia, pela feitura, a mão de Drácontio. A última edição é a de R. Peiper, Breslau, 1875.

A. Ebert, Histoire générale de la littérature du moyen âge en Occident, trad. franc., Paris, 1883, t. I, p. 408-418; C. Rossberg, In Dracontii Carmina minora et Orestis tragediam observationes, Stade, 1878; Id., De Dracontio, Gotinga, 1880; Id., Dracontiana, dans les Commentationes Woelffliniane, Leipzig, 1891, p. 63-68; Teuffel-Schwabe, Gesch. der roemischen Litteratur, 5ª ed., Leipzig, 1890, p. 1220-1224; Bardenhewer, Les Pères de l'Eglise, nouv. trad. franc., Paris, 1905, t. III, p. 153-156.

Autor original: P. Godet

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