DIDASCÁLIA DOS APÓSTOLOS

DIDASCÁLIA DOS APÓSTOLOS

DIDASCÁLIA DOS APÓSTOLOS, isto é, o ensinamento católico dos doze apóstolos e dos santos discípulos de nosso Salvador, documento autêntico do século III de nossa era. O escrito original, em língua grega, está perdido. Dele só subsiste um remanejamento nos seis primeiros livros das Constituições apostólicas e várias versões. Já expusemos aqui, ver t. II, col. 1522-1523, como o conhecimento da Didascália conduziu, desde Renaudot, mas sobretudo no século XIX, a reconhecer a natureza e a origem das Constituições apostólicas. Indicamos também as principais modificações que o interpolador, autor desta última obra, fez sofrer à Didascália. Ibid., col. 1523-1524. O presente artigo compreenderá, portanto, somente: I. Versões. II. Fontes. III. Ensinamentos. IV. Origem da Didascália.

I. Versões. — Conhecem-se duas versões antigas: latina e siríaca, e duas versões mais recentes já interpoladas: etíope e árabe.

1° Versão latina. — Fragmentos desta versão, quase dois quintos da obra, conservam-se num único manuscrito palimpsesto, em Verona. A escrita é do século VI, mas a tradução já foi corrigida, e, sobretudo, cita a Bíblia segundo a Vetus Itala e não segundo a Vulgata. O Sr. Hauler supõe, portanto, que esta tradução é do século IV. Contém as partes que correspondem às Constituições apostólicas, I, 1-2, 5-7; 8-11, 2; 6-12; 14-15; 18-20; 20-22; 22-24; 25-28; 34-35; 57-59; III, 6-8; 15-IV, 5; V, 7-8; VI, 7-12; 12-20; 22-23; 24-30, e a alguns cânones cópto-árabes, cânones 13-20. Ver t. II, col. 1613. Todos estes fragmentos latinos foram editados pelo Sr. E. Hauler, Didascaliae apostolorum fragmenta veronensia latina, in-8°, Leipzig, 1900. O Sr. Hauler já havia publicado alguns destes fragmentos nos Comptes rendus de l'Académie des sciences de Vienne, t. CXXXIV, fasc. 3 (aparecido em 1896) sob o título: Eine lat. palimpsest. Uebersetzung der Didascalia apostolorum. Finalmente F.-X. Funk reeditou esta versão latina preenchendo as suas lacunas, como texto paralelo às Constituições apostólicas. Didascalia et Constitutiones apostolorum, 2 in-8°, Paderborn, 1906. O tradutor latino, sem cuidado com o gênio da língua latina, violentou, atormentou a sua frase; poder-se-ia até citar um grande número de palavras que não são senão pura transcrição do grego, como sofistia, parochia, prosfora, orfanitas, plasma, paralipomenum. M. Viard, La Didascalie des apôtres, Langres, 1906, p. 14-15. Supõe-se frequentemente que o autor visava assim a tornar mais fiel o seu texto: cremos antes que possuía mal a língua grega, seguia, pois, o texto de perto, com medo de contrassenso se traduzisse de maneira um pouco mais livre; transcrevia as palavras gregas que não sabia como traduzir para o latim. Por vezes até traduzia e transcrevia em seguida palavras que compreendia pouco: universa dispensatio [quod dicit grecus oæconomia]... inluminationem [quod dicit grecus fotisma]. M. Viard, op. cit., p. 15. Comparemos, por exemplo, as primeiras linhas das traduções latina e siríaca com as Constituições apostólicas.

[Quadro comparativo...] (φυτεία θεοῦ, φυτεία θεοῦ, καθολικὴ Ἐκκλησία, αὐτοῦ ἐκλεκτός, οἱ πεπιστευκότες, τὴν ἀπλανῆ θεοσέβειαν, τὴν αἰώνιον καρπούμενοι, διὰ πίστεως βασιλείαν, αὐτοῦ, δύναμιν, αὐτοῦ, βασιλείαν, αὐτοῦ, μετουσίαν, τοῦ ἁγίου Πνεύματος, ἀκούετε).

Enquanto o tradutor sírio é senhor do seu texto e não teme inverter as palavras e acrescentar o que julga necessário ao sentido, o tradutor latino arrasta-se em non-sensos e contrassensos: Plantatio vinee pretende render φυτεία καὶ ἀμπελὼν, que se encontra nas Constituições apostólicas, no siríaco e mesmo numa citação de santo Epifânio, Hær., XIV, n. 5, P. G., t. I, col. 544, e que pertence, pois, sem contestação, à Didascália grega; que sine errore est vera religio parece um contrassenso para render τὴν ἀπλανῆ τῆς θεοσεβείας; fructuantur é um barbarismo imaginado pelo autor que não sabia como render καρπούμενοι por um equivalente latino; per fidem ejus está transposto e obriga a repetir regni ejus. Todos estes erros nos levaram a designar santo Paulino de Nola como o autor possível desta tradução latina. Actes du XIVe congrès international des orientalistes, Paris, 1906, t. I, p. 35-38. No ano 408, santo Paulino dirige de fato a Rufino a tradução de uma obra de são Clemente; agradece-lhe por tê-lo dirigido para os estudos gregos e pede a sua ajuda para prosseguir esses estudos: Nunc quomodo profectum capere potero sermonis ignoti, si desit a quo ignorata condiscas? Credo enim in translatione sancti Clementis, præter alias ingenii mei defectiones, hanc te potissimum imperitiæ meæ penuriam considerasse quod aliqua in quibus intelligere vel exprimere verba non potui, sensu potius apprehenso, vel, ut verius dicam, opinata transtulerim: quo magis egeo misericordia Dei, ut pleniorem mihi tui copiam tribuat, cito. P. G., t. LXVIII, col. 1192-1193. Assim, por um lado, santo Paulino traduziu, antes do ano 408, uma obra atribuída a são Clemente; aliás, fez mal o seu trabalho, em certos pontos não compreendeu, não soube render as palavras, procurou limitar-se ao sentido; por outro lado, temos uma tradução latina de uma obra atribuída a são Clemente (Didascália e Cânones) feita por um autor que havia estudado a Vetus Itala (e não a Vulgata, composta por são Jerônimo por volta do ano 400), má tradução aliás: o seu autor, em certos pontos, não compreendeu nem soube render as palavras gregas, transcreveu-as então, ou então traduziu-as e em seguida as transcreveu; em certos pontos, quis limitar-se a render o sentido e caiu, como se viu, em numerosos contrassensos. Podemos, pois, se não com certeza, ao menos com certas probabilidades, identificar o tradutor latino da Didascália com santo Paulino de Nola.

Acrescentemos que um manuscrito palimpsesto da biblioteca Ambrosiana de Milão contém a tradução latina, feita por Rufino, das Recognitiones atribuídas a são Clemente e que este manuscrito do século VI parece ser da mesma mão que o manuscrito da Didascália. Seríamos, pois, conduzidos aos seguintes resultados: a versão latina da Didascália foi feita por Paulino de Nola antes do ano 408, sobre um texto grego fornecido sem dúvida por Rufino. Santo Paulino entregou o seu trabalho a Rufino pedindo-lhe conselhos, e Rufino sem dúvida deixou em sua biblioteca esta obra tão imperfeita. No século VI, um escriba, para formar um «Clemente» completo, transcreveu tanto as Recognitiones traduzidas por Rufino como a Didascália traduzida por santo Paulino. Sobre estes dois manuscritos desmembrados, transcreveram-se do século VII ao VIII as sentenças de Isidoro, e conservam-se sob esta última forma, um em Milão e outro em Verona.

2° Versão siríaca. — Conserva-se por inteiro em manuscritos bastante numerosos: 1. Paris, n. 62, chamado também Sangermanensis, dos séculos VII e IX, dado pelo duque da Toscana a Renaudot e deixado por este à biblioteca da abadia de Saint-Germain-des-Prés, editado por de Lagarde, sem nome de autor, em 1854, Didascalia apostolorum syriace, Leipzig. — 2. O manuscrito do museu Borgia, agora no Vaticano e catalogado Siro 148. Segundo Mons. Rahmani, Testamentum Domini nostri Jesu Christi, Mogúncia, 1899, p. XII, este manuscrito, que provém do seminário de Charfé, foi escrito em 1576. É da mesma família que o precedente; nós o descrevemos, La Didascalie, Paris, 1902, p. 161-162, e a Sra. D. Gibson reproduziu as suas principais variantes. — 3. Um manuscrito comprado na Mesopotâmia pelo Sr. Rendel Harris, transcrito sobre um antigo ms. datado de 1036, editado pela Sra. D. Gibson, The Didascalia apostolorum in Syriac, Londres, 1903. Este manuscrito caracteriza-se sobretudo por um empréstimo feito ao Octateuco de Clemente, p. 20-33, e por numerosas omissões. — 4. Vaticanus, lat. 5403, fol. 1-72, escrito em 1596, que traz uma tradução latina interlinear, é aparentado muito de perto ao manuscrito de Paris sobre o qual foi sem dúvida transcrito. Os outros manuscritos são fragmentários: 5. o manuscrito add. 2023 de Cambridge, escrito em 1591; as suas variantes foram levantadas pela Sra. D. Gibson; 6. o manuscrito add. 12154 do British Museum, dos séculos VIII a IX, contém uma citação de dez linhas da Didascália, as suas variantes foram levantadas pela Sra. D. Gibson; 7. um manuscrito de Séert (Curdistão), truncado no início, contém os quinze últimos capítulos da Didascália. Cf. A. Scher, Catalogue des manuscrits syriaques et arabes conservés dans la bibliothèque épiscopale de Séert, Mossul, 1905, p. 52. Finalmente, atribui-se por vezes à Didascália, D. Gibson, p. v-vii; M. Viard, p. 41, nota 2: 1. um segundo manuscrito de Rendel Harris; 2. um Malabar codex, Cambridge Oo, 7, idêntico a um Mossul codex (sem dúvida o manuscrito de Mossul de onde Mons. Rahmani extraiu o Testamentum D. N. J.-C. e do qual uma cópia se encontra no Vaticano), mas, segundo as variantes trazidas pela Sra. D. Gibson, p. 213-219, e segundo o Catalogue des mss. syriaques de Cambridge, p. 1042, parece-nos que estes manuscritos não contêm nada da Didascália, mas somente o Livro II de Clemente, que traz um título análogo e que contém de fato a Ægyptische Kirchenordnung. Ver t. II, col. 1616. A melhor família de manuscritos é, sem dúvida possível, a família 1, 2, 4 (Paris, Museu Borgia, Vaticano); o manuscrito 3 (Rendel Harris) só contém um texto remanejado: interpolado no início sobretudo com o auxílio do Octateuco e abreviado no fim. Temos pouco a acrescentar sobre a importância desta versão: a única completa e a mais fiel, remonta pelo menos ao século VII; citamos mais acima (em grego) as suas primeiras linhas. Isto não quer dizer que não contenha erros devidos ao tradutor ou aos transcritores. A versão latina, e mesmo as Constituições apostólicas, permitem em certos pontos corrigi-la. A versão siríaca está dividida em 26 capítulos (27 no ms. Rendel Harris, onde o cap. XXIII está dividido em dois), mas esta divisão não tem nenhuma chance de remontar ao original, já que não se encontra vestígio dela na versão latina. Eis os títulos dos capítulos e o seu lugar: 1. Da lei simples e natural (Const. apost., I, 1). II. (Este capítulo) ordena a todo homem que só agrade à sua mulher, que não se adorne e não seja escândalo para as mulheres, que não ame a ociosidade, que se ocupe dos livros de vida, que fuja dos livros do paganismo e dos laços da Deuterose (lei judaica), que não se banhe com as mulheres e não se entregue à malícia das cortesãs (Const. apost., I, 2 a, DICT. DE THEOL. CATHOL. P. G., t. I, col. 564, penúltima linha, 8uo74%ere oDy). III. Instrução às mulheres para que agradem somente aos seus maridos e os honrem, que se desincumbam com diligência, sabedoria e zelo do trabalho de suas casas, que não se banhem com os homens, que não se adornem e não sejam causa de escândalo para os homens, que não os procurem, que sejam puras e tranquilas, que não briguem com seus maridos (Const. apost., I, 8). IV. Qual deve ser aquele que é escolhido para o episcopado e como se deve conduzir (Const. apost., II, 1). V. Doutrina a respeito do julgamento (Const. apost., II, 6, P. G., t. I, col. 605, lin. 34, v 5

3º Versão árabe.

— Quase todos os manuscritos árabes conservados remontam a uma mesma fonte: à compilação canônica feita no início do século XIV, por Abu Maqarah (Macário), monge do mosteiro de São João Pequeno, no deserto de Cítia. A essa compilação pertencem, com efeito, os dois manuscritos árabes de Paris 257 (do ano de 1353) e 252 (o ms. 243 de Paris parece ser um extrato dos precedentes), um de Londres, dois de Oxford, dois do Vaticano e um da biblioteca Barberini (do ano de 1350). Até estes últimos anos, todos os estudos haviam incidido sobre um ou outro dos mss. dessa única coleção, e os resultados só podiam, portanto, ser concordantes. Existiram, no entanto, outras versões árabes da Didascália, como testemunham as análises de Abul-Barakat e de Vansleb; o Sr. Baumstark acaba ainda de assinalar mais uma (em 1903). 1. A versão árabe de Abu Maqarah. — Caracteriza-se por inversões nos l. III e IV das Constituições apostólicas. Havíamo-la estudado no ms. 252 de Paris, copiado no Cairo sobre um manuscrito da biblioteca patriarcal, pelos cuidados de Vansleb. Funk, Die apostolischen Konstitutionen, Rottenbourg, 1901, p. 221-222, cria-o diferente dos outros, mas ele lhes é idêntico, como se podia adivinhar, uma vez que também não é senão uma transcrição da coleção de Abu Maqarah. Eis aqui uma breve análise: a Didascália segue, na compilação, os cânones coptas-árabes; foi, pois, acrescentada uma introdução de dez linhas, em nome dos apóstolos, para ligar os cânones à Didascália. O texto dessas dez linhas encontra-se em T. P. Platt, The Ethiopic Didascalia, Londres, 1834, p. x, e a tradução alemã em Funk, p. 217. Vem em seguida o começo da Didascália, sob o título: Começo da santa Didascália dos apóstolos, dos sacerdotes e dos doutores a todos aqueles dentre os gentios que creram em Nosso Senhor Jesus Cristo. Depois: Que a graça e a paz se multipliquem sobre vós da parte de Deus, o Pai todo-poderoso, e de Nosso Senhor Jesus Cristo, para instrução de toda a Igreja. Esta é uma bela plantação de Deus, e aquele que crê em seu culto divino infalível, esse é para ele uma vinha eleita. São estes os que, por meio de sua fé, adquirem o reino eterno e sua força, e que recebem a participação do Espírito Santo, etc. P. G., t. I, col. 557. É, em suma, a tradução do texto das Constituições apostólicas. Em particular, os pequenos acréscimos das Constituições apostólicas à Didascália siríaca (P. G., t. I, col. 500, lig. 30-88, φησὶ γάρ πατέρες σου) reencontram-se na Didascália árabe. — I. Que os ricos devem estudar e ler a sagrada Escritura (Const. apost., I, 4, P. G., t. I, col. 569, lig. 9, Ἀλλ' εἰ καὶ). II. Que as mulheres devem obedecer a seus maridos e caminhar na pureza (Const. apost., I, 8). III. Sobre os bispos, os sacerdotes e os diáconos (Const. apost., II, 1). IV. Que os bispos devem acolher com boa graça os penitentes (Const. apost., II, 15). V. Que não se deve rejeitar ninguém antes que a prova de suas faltas tenha sido cuidadosamente feita (Const. apost., II, 21, P. G., t. I, col. 640, lig. 42, ὁ μὲν ἐκβαλών). VI. Sobre os leigos, que são obrigados a dar, segundo seus meios, ofertas à igreja (Const. apost., II, 25, P. G., t. I, col. 664, lig. 38, ’Ακούετε ταῦτα). VII. Sobre os diáconos, que devem, para todos os seus projetos, pedir permissão ao bispo e nada fazer sem sua permissão (Const. apost., II, 30, P. G., t. I, col. 677, lig. 9, καὶ ὥσπερ). VIII. Que o bispo deve examinar tudo com justiça e conforme a verdade (Const. apost., II, 37, P. G., t. I, col. 689, lig. 4, Γίνεσθε οὖν). IX. Que os cristãos devem sempre perdoar-se as faltas mutuamente, não guardar rancor do mal e não conservá-lo em seu coração (Const. apost., II, 46, P. G., t. I, col. 717, lig. 25, ὅθεν εἰ). X. Que os bispos devem ser pacíficos e misericordiosos, que devem acolher com bondade os penitentes (Const. apost., II, 54, P. G., t. I, col. 720, lig. 9, Εἰ δὲ ἄλλοις). XI. Que os cristãos não vão às reuniões dos pagãos (Const. apost., II, 62-63). A compilação de Maqarah apresenta, a partir daqui, a maior confusão: Const. apost., III, 1-14 = c. XIX-XXI de Maqarah; Const. apost., IV, 1-14 e 15-20 = c. XXXIV; Const. apost., II, 44-45 = c. XXII; Const. apost., IV, 1-4 = c. XIII-XIV; Const. apost., IV, 5 = c. XXIV; Const. apost., IV, 6-10 = c. XIV-XV; Const. apost., IV, 11 = c. XXV; Const. apost., IV, 12-13 = c. XVI; Const. apost., IV, 14 = c. XXVI; Const. apost., V, 1-6 = c. XXVII; Const. apost., V, 7-8 = c. XVII; Const. apost., V, 8-9 = c. XXVIII; Const. apost., V, 10 = c. XXIX; Const. apost., V, 11-12 = c. XXX; Const. apost., V, 13-16 = c. XVIII; Const. apost., V, 17-20 = c. XXXI; Const. apost., VI, 1-6 = c. XXXII; Const. apost., VI, 7-18 = c. XXXIII. Os c. XXXV-XXXIX da Didascália árabe não se encontram nem no siríaco nem nas Constituições apostólicas. Funk aí reconhecia traços do l. VIII das Constituições; na realidade, esses capítulos não constituem senão uma interpolação e são tomados de empréstimo ao Testamentum Domini nostri Jesu-Christi. Foram traduzidos primeiro para o alemão por Funk, op. cit., p. 226-236, depois para o latim pelo mesmo autor, Didascalia et Constitutiones apostolorum, p. 120-136. É, pois, fácil compará-los à edição de Mons. Rahmani: c. XXXV = Test., I, 19, p. 23; c. XXXVI = Test., I, 20, p. 25; c. XXXVII = Test., I, 21, p. 27; c. XXXVIII = Test., I, 22 e 23, fortemente interpolado; c. XXXIX = Test., I, 24-27. 2. Outras versões árabes. — Abul-Barakat (+ 1363) já nos ensina que se encontraram três exemplares da Didascália nos quais a ordem dos capítulos era diferente. W. Riedel, Die Kirchenrechtsquellen des Patriarchats Alexandrien, Leipzig, 1900, p. 28-32. Vansleb também deu uma análise da Didascália árabe em que a ordem dos capítulos difere. Histoire de l'Église d'Alexandrie, Paris, 1677, p. 256-259. Cf. Funk, Die apostolischen Konstitutionen, p. 221-224. Aliás, a Didascália etíope, que foi traduzida sobre um texto árabe, não apresenta as inversões que constatamos na versão de Maqarah. Esperava-se, pois, encontrar uma ou várias versões novas da Didascália árabe. Por fim, o Sr. Baumstark assinalou, Oriens christianus, t. III (1903), p. 201-208, um manuscrito árabe da Propaganda (K, IV, 24), traduzido do copta em 1295, que não apresenta as inversões da compilação de Maqarah e que parece ser o texto sobre o qual foi feita a versão etíope; o ms. corresponde às Constituições apostólicas, I-VIII (exceto VII, 47-48); está dividido em 44 capítulos, dos quais os 34 primeiros correspondem aos seis primeiros livros das Constituições. Cf. Funk, Die arabische Didaskalia, dans Theol. Quartalschrift, Tübingen, 1904, p. 233. Foi esse ms. árabe, ao que parece, que foi assinalado e utilizado por Mons. Rahmani, Testamentum D. N. J.-C., Mayence, 1899, p. XII, XIV. 3. Versão etíope. — É uma tradução de um texto árabe. Dela restam numerosos manuscritos. Os 22 primeiros capítulos (de 39) foram editados e traduzidos para o inglês por Thomas Pell Platt, Londres, 1834. O ms. de Abbadie, n. 79, está dividido em 46 capítulos. Depois da breve introdução e dos 14 primeiros capítulos, que são, em substância, os mesmos da compilação de Maqarah, o etíope segue a ordem das Constituições apostólicas: XII. Das viúvas (Const. apost., III, 1). XIII. Que as mulheres não devem batizar (Const. apost., III, 9). XIV. Que os leigos não devem presumir fazer o que é reservado aos sacerdotes (Const. apost., III, 10). XV. Das viúvas (Const. apost., III, 12, P. G., t. I, col. 789, lig. 3, ἐπειδή). XVI. Que não é bom fazer mal ao próximo (Const. apost., III, 15, P. G., t. I, col. 793, lig. 43, τὸν αὐτὸν τρόπον). XVII. Sobre os órfãos (Const. apost., IV, 4). XVIII. Que é ordenado ao bispo cuidar das viúvas e dos órfãos (Const. apost., IV, 2-4), etc. É, pois, certo que todos os exemplares das Didascálias árabe e etíope derivam de um texto grego (ou copta ou siríaco) interpolado, tal como o são os seis primeiros livros das Constituições apostólicas. Têm, aliás, omissões e acréscimos próprios. Deve-se, pois, perguntar se essas Didascálias constituem uma etapa intermediária entre a Didascália siríaca e as Constituições apostólicas, ou se não passam de extratos dos seis primeiros livros das Constituições. Funk inclina-se pela segunda hipótese, ver t. III, col. 1525-1526, mas se engana ao supor que o autor da Didascália árabe cita a Aegyptische Kirchenordnung e os cânones de Clemente. Na realidade, ele não faz senão ligar a Didascália aos cânones coptas-árabes que a precedem e, quanto à Kirchenordnung, não se encontra senão um empréstimo ao Testamentum, análogo ao empréstimo que já faz ao Octateuco o ms. siríaco de Rendel Harris. Voir col. 737. — Parece, pois, mais provável que as Didascálias árabe e etíope representem etapas intermediárias entre a Didascália siríaca e a compilação em oito livros das Constituições apostólicas. O texto árabe de Maqarah é muito ruim; aqui, como para o Testamentum D. N. J.-C., «é uma tradução servil, de estilo tão pouco castigado quanto possível, confuso, obscuro. As frases não estão bem ligadas entre si e são frequentemente muito incompletas. Quanto às regras da gramática, são nele desconhecidas quase em cada linha.» Cf. Revue de l'Orient chrétien, t. X (1905), p. 423. Toda a continuação deste artigo se fundará, pois, na versão siríaca, tal como Paul de Lagarde a editou. II. Fontes. — Perguntou-se se a Didascália era uma obra original ou uma refundição de uma obra mais antiga. O Sr. Holzhey supunha que a Didascália era uma interpolação da Didaché, Compte rendu du IVe congrès scientifique international des catholiques, Fribourg, 1897, Sciences religieuses, p. 249-278, mas a desproporção entre as duas obras logo o obrigava a imaginar duas outras Didascálias intermediárias entre a Didaché e a Didascália siríaca. São puras hipóteses. Cf. F. Nau, La Didascalie, Paris, 1902, p. 4-5, 164-165. O Sr. Harnack escreveu que um antinovaciano havia introduzido as passagens relativas à penitência, mas concorda-se em reconhecer que a Didascália não tem nenhuma tendência polêmica. Da mesma forma, a obra contém certamente digressões, repetições, talvez mesmo aparentes contradições, Achelis e Flemming, Die syrische Didaskalia, p. 262-266, mas foi escrita sem divisões, num estilo homilético difuso e de modo algum preciso; seus defeitos não podem, pois, surpreender-nos, e somos levados a considerá-la uma produção original fielmente representada — à parte os erros dos tradutores e copistas — pela versão siríaca. A fonte principal é a Bíblia, que fornece quase um quinto da obra. O Evangelho de são João e as Epístolas de são Paulo não são citados explicitamente, mas são visados ou imitados em vários lugares. Achelis e Flemming, op. cit., p. 320-323; M. Viard, op. cit., p. 21-22. A primeira Epístola de são Pedro é citada, talvez também a Epístola de são Tiago; o Apocalipse parece ser conhecido. Achelis e Flemming, op. cit., p. 323. O autor cita os Setenta (e não uma versão grega feita sobre o hebraico); agrupa frequentemente, em sequência, várias passagens de mesmo sentido, como se utilizasse uma concordância. Suas citações são por vezes bastante descuidadas; ele é o primeiro a citar a oração de Manassés, pois é da Didascália que parecem provir todas as recensões conhecidas dessa pequena peça. Cf. Revue de l'Orient chrétien, t. XI (1908), p. 134-141. Além da Bíblia, o autor pôde ainda utilizar a Didaché, as cartas de santo Inácio, um Evangelho apócrifo (Evangelho dos Hebreus ou Evangelho de Pedro), Achelis e Flemming, p. 324-330, os Acta Petri et Pauli sobre Simão o Mago, o livro da Sibila. A história da fênix, p. 83-84, é talvez tomada de empréstimo à primeira Epístola de são Clemente aos Coríntios. P. G., t. I, col. 261-265. Enfim, o autor dispôs de uma tradição oral; pôde crer que ela remontava até os apóstolos e pôde, portanto, de boa fé, atribuir-lhes sua obra, se acreditava não consignar senão tradições, palavras e usos apostólicos. III. ENSINAMENTOS. — A Didascália nos informa sobre a constituição de uma Igreja no século III. Como já se observou (Achelis e Flemming, p. 266-267), as outras Constituições (apostólica, de Hipólito, egípcia) são lacônicas, em forma de cânones, quase de enigmas, ao passo que a Didascália, com amplitude e repetições, nos informa sobre todas as manifestações da vida pública cristã no século III. O autor fala de tudo: do antigo e do novo; fornece, pois, numerosos materiais ao historiador. Utilizaremos aqui sobretudo o trabalho do Sr. Marcel Viard. Remetemos à paginação de Paul de Lagarde, que foi reproduzida em todas as traduções. 1. O bispo e suas funções. — Tudo converge para a pessoa do bispo, Achelis e Flemming, p. 269; não há, fora dele, senão servidores e súditos. A constituição é, pois, monárquica, rígida. 1. A pessoa do bispo. — O bispo deve ser um homem «de pelo menos 50 anos, que estará assim afastado das paixões da juventude, das vontades do demônio, da calúnia e da blasfêmia que falsos irmãos levantam contra muitos.» Contudo, na falta de um sujeito idoso, se a paróquia for pequena, poder-se-á nomear um irmão jovem que demonstre, «na juventude, uma mansidão e uma tranquila conduta digna da velhice», «se possível, que seja instruído e douto», p. 10. «Eis como deve ser o bispo: um homem que tomou esposa, que governa bem sua casa. Que se indague, quando ele receber a imposição das mãos para assumir o encargo do episcopado: se é puro, se sua mulher é fiel e pura, se seus filhos cresceram no temor de Deus, se ele os repreendeu e instruiu, se seus servos o temem e respeitam e se todos lhe obedecem», p. 11. Encontram-se também longas enumerações das virtudes morais que lhe são necessárias: «tudo o que existe de belo entre os homens se encontrará também no bispo», p. 12. 2. O ensino. — Além do bom exemplo, o bispo deve dispensar ao povo «as palavras vivas e vivificantes do Deus vivo, que podem livrar e salvar do fogo e conduzir à vida», p. 60. É o bispo quem deve alimentar os fiéis «com a palavra como com leite», p. 39, e dispensá-la a cada um segundo sua necessidade. 3. A disciplina sacramental. — Encontram-se frequentemente mencionados o batismo, a eucaristia e a penitência.

Quando um pagão declara que crê, ele é recebido na assembleia para que ouça a palavra, mas não toma parte na oração e deve sair da igreja; não é admitido aos demais atos da vida cristã antes de ter recebido o sinal (do batismo) e de estar completo, p. 44. O bispo unge a cabeça de todos os que devem ser batizados: dos homens e em seguida das mulheres — é sem dúvida a unção com o óleo do exorcismo, Rahmani, Testamentum, p. 127-129 — depois os batizados descem à água e são ungidos com o óleo da unção, os homens pelos diáconos ou pelos sacerdotes e as mulheres pelas diaconisas ou por uma cristã. Cf. Rahmani, Testamentum, p. 129-131. Não há menção da invocação do Espírito Santo nem da terceira unção, que é a confirmação, Testamentum, II, 9, p. 131, mas não podemos concluir que ela não existisse, pois a Didascália não tem capítulo ex professo sobre o batismo; tudo o que acabamos de expor é tirado do capítulo sobre as diaconisas e seus deveres, p. 70-71. O batismo remite completamente os pecados; por isso deve ser único e suprir as vãs abluções da antiga lei; não pode ser reiterado; torna o cristão filho de Deus e lhe confere o Espírito Santo. A eucaristia é um sacrifício; a matéria dela é o pão delicado feito no fogo e santificado pelas invocações; é oferecida pelo bispo em nome de toda a comunidade; não pode ser aceita do Senhor quando os irmãos estão divididos entre si; é o alimento divino que permanece eternamente, p. 119, 39, 54, 59. É a eucaristia santa de Deus, p. 39, santificada pelo Espírito Santo, p. 116, imagem do corpo régio de Cristo, p. 148; deve-se oferecê-la pelos mortos, p. 119. Encontram-se, aliás, numerosos detalhes materiais sobre a igreja, sua disposição, os lugares a atribuir aos fiéis; um diácono coloca os assistentes, outro diácono se mantém junto ao altar. O ofício começa pela leitura dos Livros santos, p. 118, que inspira a pregação do bispo; faz-se em seguida sair os catecúmenos e os pecadores antes da oração, que compreende sem dúvida a recitação de fórmulas litúrgicas e o canto dos salmos, p. 93; vem então a eucaristia, os dois diáconos servem ao altar, o bispo pronuncia as invocações santificadoras, p. 57, 119; antes da distribuição da eucaristia, o diácono pergunta se ninguém está em conflito com o próximo. Se houver, o bispo os reconcilia, p. 54-59. Uma coleta encerra a cerimônia. O bispo é o juiz dos pecadores; tudo o que ele liga na terra é ligado no céu, p. 15, 21. Não se deve encorajar a delação, mas, se se encontra um pecador, é preciso repreendê-lo diante da assembleia reunida, p. 21; se ele promete emendar-se, impõe-se-lhe uma penitência, dias de jejum conforme seu pecado, duas semanas, ou três, ou cinco, ou sete; durante todo esse tempo ele deixa o ofício, com os catecúmenos, depois da audição da palavra, p. 20; quando suas boas disposições produziram frutos duradouros, o bispo impõe as mãos ao arrependido, e o Espírito Santo toma de novo posse de sua alma.

4. O bispo e os assuntos temporais. — O bispo deve julgar todo conflito entre os fiéis, os quais não devem tomar os pagãos por juízes nem sequer por testemunhas, p. 49-50; ele administra os bens da igreja, todas as doações devem passar por suas mãos, os diáconos devem informá-lo sobre os verdadeiros necessitados, as viúvas, os órfãos, os pobres, os enfermos. O bispo dispensa sem controle; não deve contas senão a Deus, p. 42.

2º A hierarquia subalterna. — Compreende os presbíteros, os diáconos, as viúvas e diaconisas, e talvez o leitor e o subdiácono.

1. Os presbíteros. — O bispo os escolhe, p. 40; nas assembleias litúrgicas, ficam sentados em torno do trono episcopal, mas não desempenham nenhuma função sacerdotal, não pregam, não administram os sacramentos. Parecem vir depois dos diáconos, pois o diácono é comparado ao Messias, a diaconisa ao Espírito Santo, ao passo que os presbíteros só são comparados aos apóstolos, p. 36, e não parecem ter um direito estrito às oblações, p. 37.

2. Os diáconos. — São verdadeiramente os «servidores» do bispo. Durante a sagrada liturgia, vigiam a entrada da igreja, mantêm a boa ordem, servem ao altar. No batismo, ungem o corpo dos catecúmenos homens. Cada dia, visitam os enfermos, levam ao bispo as ofertas dos fiéis e entregam aos necessitados as esmolas do bispo. O diácono é «o ouvido do bispo, sua boca, seu coração e sua alma»; são «dois numa só vontade», p. 48.

3. As viúvas. — Acima das viúvas ordinárias, que têm direito ao apoio e ao socorro da comunidade pelo simples fato de terem perdido o marido, encontra-se na Didascália uma espécie de ordem que chamaremos «as viúvas religiosas». São estabelecidas — quase diríamos ordenadas — pelo bispo; não devem ter menos de 50 anos, a fim de que sua idade não as leve a tomar novo marido; prometem a continência, p. 62; oram pelos enfermos, pelos benfeitores, por toda a Igreja; visitam os enfermos e lhes impõem as mãos, p. 66; vivem retiradas em suas moradas e tecem vestes para os pobres, p. 66. São bem estas, ao que parece, as primeiras «religiosas»; mas a Didascália não admite nesse estado as jovens viúvas cuja idade poderia levá-las a querer tomar um segundo marido; com muito mais razão não admite, no estado religioso, as jovens que não foram casadas, pois impõe aos pais a obrigação de casá-las, sob pena de serem responsáveis pelas faltas que «sua juventude e o vigor de sua idade» as levariam a cometer, p. 96.

4. As diaconisas. — Estas são todas dedicadas às obras e parecem, pois, não ser senão um desdobramento feminino do diaconato. São escolhidas pelo bispo, são pouco numerosas, certas comunidades não as têm; concorrem para o batismo das mulheres e, depois do batismo, iniciam-nas mais perfeitamente nos dogmas da fé e nos preceitos da moral cristã, p. 70-71; visitam as mulheres enfermas, «fornecem-lhes o que lhes é necessário e lavam as pessoas debilitadas que saem de doença», p. 71. São, para o pastor, «auxiliares que conduzem (seu) povo para a vida».

5. Leitor e subdiácono. — Existia às vezes um leitor que, para as oblações, é equiparado aos presbíteros, p. 37. Se não houver leitor, o bispo desempenha essa função, p. 57-58. O subdiácono é mencionado em um único lugar, p. 40: o bispo escolherá dentre o povo os homens de que necessita para ajudá-lo, escolherá presbíteros « assim como diáconos e subdiáconos, tantos quantos precisar para o serviço de sua casa. » Alguns consideram as palavras « e subdiáconos » como uma interpolação, Achelis e Flemming, p. 265, mas elas figuram tanto no latim quanto no siríaco; aliás, os diáconos que serviam o bispo devem ter pensado desde cedo, em certas comunidades, em escolher também servidores. É assim que se encontra menção, p. 61, a « jovens da igreja », que parecem ser também os auxiliares dos diáconos.

3° Vida interna da comunidade. — 1. A sociedade cristã. — Todos os cristãos não devem formar senão um só corpo bem unido, centralizado nas mãos do bispo. Não deve, pois, haver tições de discórdia entre os irmãos; uma das obrigações mais importantes do bispo é manter a paz e a boa concórdia. Os pecadores devem ser rejeitados. Não se deve fazer a outrem o que não se quer que os outros nos façam, p. 2. O objetivo é conformar-se à conduta e à doutrina do Messias, que é o mestre e o doutor dos cristãos, p. 79, 81; compreender os mandamentos de Deus e guardá-los, p. 2; agradar a Deus e viver para Deus, p. 1, 5. Como sanção, os bons encontrarão o repouso eterno no reino de Nosso Senhor, ao passo que, se alguém peca e se perde, Satanás se implanta nele, p. 21, e ele se vê privado da vida, maldito diante do Senhor Deus, p. 4, e condenado à geena do fogo, p. 14. Numerosas são as admoestações e as recomendações que a Didascalia prodigaliza a todos, clérigos e leigos, homens e mulheres, para torná-los conformes ao ideal evangélico do autor.

2. A família. — A cristã não deve agradar senão a seu marido, deve servi-lo com respeito e submissão; o homem não deve agradar senão à sua esposa, pois o importante, no matrimônio, é guardar o vínculo conjugal em toda a sua inviolabilidade, e não recorrer às vãs purificações observadas pelos judaizantes. As segundas núpcias são lícitas, as terceiras equivalem à fornicação, p. 62. Evitar a moleza e empregar a vara na educação dos filhos; eles não devem frequentar as crianças de sua idade; é preciso ensinar-lhes um ofício e casá-los jovens, sob pena de ser responsável por suas desordens, p. 96.

3. O martírio. — A comunidade aparece como « a Igreja de tranquilidade e de repouso », p. 26; contudo, ela conheceu a era das perseguições e deve preparar-se para enfrentá-las de novo: « Ajudai com grande cuidado os fiéis que são presos, encarcerados e acorrentados pela força iníqua como se fossem criminosos, a fim de arrancá-los da mão dos maus. Se alguém se aproxima deles, é preso ao mesmo tempo que eles e é tratado iniquamente por causa de seu irmão; bem-aventurado é ele por ser chamado cristão e por ter confessado o Senhor... Recebei e ajudai os que são perseguidos pela fé e que fogem de uma cidade a outra... Quando um cristão é perseguido, martirizado e morto pela fé, torna-se um homem de Deus... Se ele nega e diz que não é cristão, será chamado pedra de escândalo, será rejeitado pelos homens e por Deus, não terá parte com os santos no reino eterno, » p. 78-79.

4. A ressurreição e o fim do mundo. — « Aceitemos (o martírio) com alegria, de toda a nossa alma, e creiamos que o Senhor Deus nos ressuscitará numa luz de glória, » p. 84. Não somente « os pecados dos irmãos que deixam o mundo pelo martírio são cobertos, » p. 86, mas o Senhor fará deles seus conselheiros, revesti-los-á de uma luz deslumbrante, p. 84-85. Aliás, todo o mundo ressuscitará, fiéis e ímpios, por meio de Nosso Senhor, cuja ressurreição é a garantia da nossa, p. 81-83; « ele nos ressuscitará tais como somos, com a figura que temos agora, mas na grande glória da vida eterna, sem que nada nos falte, » p. 81, seja qual for o estado a que nosso corpo tenha sido reduzido; as predições da Sibila e a história da fênix são testemunhos da ressurreição que os próprios pagãos não podem recusar, p. 83-84. Não se conhece a época da nova vinda do Messias; sabe-se apenas que grandes calamidades serão seus arautos, p. 106. O bispo, como o vigia do oráculo de Ezequiel, deve despertar sem cessar a lembrança do juízo, p. 13.

4° Vida externa da comunidade. Relações com os hereges e os cismáticos. — Cada comunidade pertence à Igreja católica e universal, cujo título reivindica, p. 1, 32, 36, com a qual está em comunhão de oração, p. 89-90, e da qual se sente membro pela unidade de fé e de amor, p. 47. Deve-se rejeitar da Igreja aqueles que estão em revolta contra a autoridade (os cismáticos), p. 96; serão engolidos nas chamas como os companheiros de Coré, Datã e Abirão, p. 97-98. « Quanto às heresias, não aceiteis sequer ouvir o seu nome... os hereges serão condenados porque resistem a Deus, » p. 99. « Satanás entrou num certo Simão que fora mago... juntou-lhe Cleóbio... Nem todos criam na ressurreição... Muitos ensinavam que ninguém devia tomar esposa e diziam que era santidade para um homem não tomar esposa; outros ensinavam que ninguém devia comer carne; outros diziam que apenas a carne de porco era proibida... Outros ensinavam de maneira diferente, engendravam disputas e perturbavam as Igrejas, » p. 100-101. Não se deve ter contato com os hereges nem pela palavra, nem pelas orações, pois são os inimigos e os espoliadores da Igreja, p. 105.

2. Relações com os judeus e os judaizantes. — O autor expõe muito longamente a ab-rogação da antiga lei, que é substituída pelo Evangelho, a inutilidade das práticas judaicas que eram um jugo e um castigo, p. 99-100, 107-120, a substituição do domingo pelo sábado. A questão pascal ocupa também um lugar amplo, assim como a cronologia da semana da paixão, p. 86-95.

3. Relações com os pagãos. — É preciso fugir de seus espetáculos, não ler seus livros, evitar mesmo falar com eles, porque tornam a doutrina cristã em zombaria. Contudo, a maioria dos fiéis provém da gentilidade; bastou- lhes, para isso, renunciar às suas vãs práticas, crer e receber o batismo. A vontade de Deus é reunir « todos os povos e todas as línguas... para encher a sala de jantar, isto é, a santa Igreja católica, a fim de que todos sejam alegres e contentes e louvem a Deus que os chamou à vida, » p. 55-56.

IV. ORIGEM 1° Destinos. — Santo Epifânio (318-403) informa-nos que os audianos consideravam a Didascalia uma obra apostólica, e faz várias citações dela. P. G., t. XLI, col. 369. Ora, os audianos, que tinham sido muito numerosos na Palestina, na Mesopotâmia e na Arábia, tinham visto seus mosteiros serem-lhes tirados e, em seu tempo, já não ocupavam senão dois burgos. Ibid., col. 373. Segue-se que, desde a sua origem, ao menos desde 325, os audianos já consideravam a Didascalia como obra apostólica, e a composição desta obra se vê assim reportada, sem dúvida possível, ao século III. Do século IV ao V, antes da difusão da Vulgata, a Didascalia era traduzida em latim. Emitimos a hipótese de que Rufino, o maior tradutor dessa época, pudesse ter trazido da Palestina ou do Egito um exemplar dessa obra e entregá-lo a são Paulino, que lhe endereçava sua tradução em 408. Por essa época, a Didascalia era remanejada para constituir o protótipo das Didascalias árabes, e depois as Constituições apostólicas. No século VI, um escriba transcrevia na Itália o manuscrito das Recognitiones e da Didascalia, e seu trabalho se conserva em Milão e em Verona. Do século V ao VI, o autor ariano do Opus imperfectum in Matthaeum utiliza também a Didascalia. Cf. Funk, Didascalia et Constitutiones, t. I, p. 8-11.

É sem dúvida no século IV que a Didascalia foi traduzida para o siríaco, ao menos não há dados para provar que o tenha sido antes. O tradutor pode ter sido Jacó de Edessa, que já traduzia o Octateuco de Clemente. A Didascalia, traduzida por um jacobita no século VI, não é, portanto, conhecida dos autores sírios anteriores e só serve depois, por muito tempo, à Igreja jacobita. Restam-nos ao menos dois manuscritos da Didascalia que remontam ao século VI ou ao século IX (Paris 62 e Londres add. 721754). No século XIII, Bar-Hebraeus apoiava- se na Didascalia em sua codificação jacobita do direito canônico. Cf. Nomocanon Gregorii Bar Hebræi, edit. P. Bedjan, Paris, 1898, p. 26, 87, 97, 480; traduzido em Funk, Didascalia et Constitutiones, t. II. Bar-Hebraeus ainda a citou em sua Ética. Aliás, no Egito, uma recensão grega interpolada, l. I-VII, foi traduzida para o copta, embora ainda não se conheça exemplar desse intermediário copta, e depois do copta para o árabe e do árabe para o etíope. A Didascalia árabe era analisada por Aboul Barakat († 1363), utilizada no século X por Ibn el Assal (em sua compilação canônica conservada em árabe e traduzida para o etíope sob o título de Fetha Nagast), no século XII por Miguel de Damieta e, enfim, uma recensão particular (l. I-VI das Constituições apostólicas, com numerosas inversões) foi inserida no século XIV na coleção canônica de Abou Maqarah.

2° Pátria e época. — É natural localizar a Didascalia no país onde ela nos aparece primeiro e onde teve mais sucesso, isto é, na Mesopotâmia, pois Adai era de Edessa e foi na Mesopotâmia que se fizeram a maioria das traduções do grego para o siríaco. Não é de admirar que Afraates e santo Efrém não a mencionem, pois esses dois autores compreendiam pouco ou nada de grego e a Didascalia sem dúvida ainda não estava traduzida para o siríaco, já que não se a encontra na Igreja nestoriana. Contudo, as numerosas polêmicas contra os judaizantes parecem indicar um país onde o elemento judeu devia ser ainda poderoso. Somos assim levados a aproximar-nos da Síria e da Decápole, M. Viard, op. cit., p. 32; da Celessíria, Achelis e Flemming, op. cit., p. 364; de Alepo. Ibid., p. 366, nota 1. Vimos, por testemunho externo (santo Epifânio), que a Didascalia remonta ao século III; para ir mais longe, dispomos apenas da crítica interna, isto é, o campo está aberto a todas as hipóteses e a todas as incertezas. O sr. Harnack situou a composição da Didascalia na segunda metade do século III; desde então preferiu a primeira metade; Funk, ao contrário, indicou primeiro a primeira metade e depois a segunda metade; Kattenbusch sempre se ateve ao fim do século III, enquanto Zahn e outros parecem ater-se à primeira metade, Achelis e Flemming, op. cit., p. 370. O próprio sr. Achelis, depois de ter opinado pelos dez primeiros anos do século III, reconhece que a questão é indecisa e inclina-se antes para o fim. Ibid., p. 370-377. O sr. Marcel Viard propõe « alguns anos depois de 258 », p. 35.

3° Autor. — A importância e as prerrogativas que atribui ao episcopado e a experiência que parece ter do governo das almas designam-no como um bispo católico do século III. Achelis e Flemming, p. 378; Viard, p. 35. Devia ser excelente administrador e pastor dedicado, mas não era teólogo, não tem as fórmulas próprias deste, sua obra não tem nenhuma tendência dogmática, mas é toda ela moral e disciplinar. Ainda assim, a disciplina canônica só se encontra nela sob forma homilética, isto é, carregada de digressões, de inutilidades, de repetições. « Seu pensamento não consegue manifestar-se de uma só vez, sente sempre a necessidade de retomar a exposição. Esse defeito nota-se principalmente quando se lança nas teorias gerais; nas recomendações práticas, é mais sóbrio e mais preciso. » M. Viard, p. 37. É talvez de origem judaica, o que explicaria seu conhecimento das festas judaicas e do Antigo Testamento, que utiliza muito mais do que o Novo, Achelis e Flemming, p. 384; « guarda sentimentos de fraternal compaixão por seus antigos correligionários, em termos comoventes implora para eles as orações dos cristãos durante as festas da Páscoa (c. XXI), nenhuma amargura quando ensina a decadência do povo eleito (c. XXV). » M. Viard, p. 37. Como indício de origem síria, podemos citar a comparação da diaconisa ao Espírito Santo, pois nessa língua « espírito » (espírito) é feminino. Cf. Achelis e Flemming, p. 329. O sr. Achelis, p. 381-384, crê que o autor da Didascalia era médico. Com efeito, compara o bispo a um médico, p. 26; compara também longamente a conduta a ter para com os pecadores às diversas operações que se pode ser levado a fazer sobre um membro doente, p. 45-46; sabe até que homens « nascem com membros supérfluos, por exemplo dedos ou alguma carne a mais » que o clínico remove, p. 47; em outro lugar, p. 80, dá numerosos exemplos de doenças. Cf. p. 106. Se se pergunta como esse médico, judeu convertido, aliás homem muito honesto e pastor dedicado, pôde cometer semelhante falsificação literária, o sr. Achelis e o sr. Viard, p. 86, respondem que boa parte das Igrejas cria na origem apostólica de todas as suas tradições disciplinares, até em seus detalhes divergentes; daí decorria que pô-las por escrito não era senão fazer obra de secretário dos apóstolos e que se tinha sempre o direito de assinar a obra com o nome deles. A questão seria ainda mais simples se o autor se tivesse limitado a remanejar e a interpolar um escrito apostólico mais antigo.

I. EDIÇÕES E TRADUÇÕES. — 1° Siríaco: Didascalia apostolorum syriace, Leipzig, 1854, sem nome de editor (Paul de Lagarde); The Didascalia apostolorum in Syriac, por Margaret Dunlop Gibson (Horæ semiticæ, n. 1), Londres e Cambridge, 1903; F. Nau, La Didascalie, c'est-à-dire l'enseignement catholique des douze apôtres et des saints disciples de Notre Sauveur, traduite du syriaque pour la première fois, Paris, 1902 (extraído do Canoniste contemporain, fevereiro de 1904 a maio de 1902); The Didascalia apostolorum in English, translated from the Syriac, por M. Dunlop Gibson (Horæ semiticæ, n. 2), Londres e Cambridge, 1903; Die syrische Didaskalia, traduzida e explicada por Hans Achelis e Joh. Flemming, Leipzig, 1904 (Texte und Untersuch. de Gebhardt e Harnack, t. XXV, fasc. 2). — 2° Latim: E. Hauler, Eine lat. palimpsest Uebersetzung der Didascalia apostolorum, nos Comptes rendus de l'Académie des sciences de Vienne, 1895, t. CXXXIV, fasc. 3, 1895 (publicado em 1896); E. Hauler, Didascaliæ apostolorum fragmenta Veronensia latina accedunt canonum qui dicuntur apostolorum et Ægyptiorum reliquiæ, fasciculus prior, Leipzig, 1900; F. X. Funk, Didascalia et Constitutiones apostolorum, Paderborn, 1906 (texto da antiga tradução latina completado com o auxílio do siríaco; encontra-se também t. I, p. iii-xiv, e t. II, p. xxvii-xxxii, 120-136, um estudo sobre a Didascalia árabe com a tradução latina do prefácio e dos capítulos próprios a essa versão, que provêm do Testamentum). — 3° Árabe e etíope: Thomas Pell Platt, The Ethiopic Didascalia, Londres, 1834 (texto do começo do árabe, texto e tradução inglesa dos vinte e dois primeiros capítulos do etíope); F. X. Funk, Die apostolischen Konstitutionen, Rottenburg sobre o Neckar, 1891, p. 207-236 (tradução alemã do começo e de alguns capítulos do etíope e do árabe).

II. OBRAS DIVERSAS. — J. C. Grabe, An essay upon two Arabic manuscripts in the Bodleian Library, and that ancient book called the Doctrine of the Apostles, Oxford, 1711; Londres, 1712; Vansleb, Histoire de l'Eglise d'Alexandrie, Paris, 1677; Ludolf, Commentarius ad suam historiam Æthiopicam, Frankfurt am Main, 1691, analisaram as Didascalias árabe e etíope; J. W. Bickell, Gesch. des Kirchenrechts, 1843; Harnack, Altchristliche Literaturgeschichte, t. 1, p. 517; Achelis, Realencyclopädie für prot. Theologie, 3ª ed., t. 1, p. 785; W. Riedel, Die Kirchenrechtsquellen des Patriarchats Alexandrien, Leipzig, 1900; C. Holzhey, Die Abhängigkeit der syrischen Didaskalia von der Didaché, no Compte rendu do IV congresso internac. dos católicos, Friburgo, 1897, Sciences religieuses, p. 249-278; e Theologisch-prakt. Monatschrift, 1901, p. 515-523; O. Bardenhewer, Les Pères de l'Eglise, trad. franc., Paris, 1898, t. 1, p. 45-47; F.-X. Funk, La date de la Didascalie des apôtres, na Revue d'histoire ecclésiastique, Lovaina, t. II (1901), n. 4; Die arabische Didaskalia und die Konstit. der Apostel, na Theol. Quartalschrift, 1904, p. 233-248; Marcel Viard, La Didascalie des apôtres, introduction critique, esquisse historique, tese de doutorado em teologia apresentada à faculdade católica de Lyon, Langres, 1906. Ver a indicação das recensões que foram dadas das traduções Nau, Gibson, Achelis-Flemming, na Byzantinische Zeitschrift, t. XIII (1904), p. 246-247, 610-612; t. XIV (1905), p. 683.

Autor original: F. Nau

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