DANÇARINOS

DANÇARINOS

DANÇARINOS, seita fanática surgida, em 1374, ao longo do Reno, nos Países Baixos, particularmente em Liége. Para conhecer sua origem, sua natureza, seu papel, é preciso consultar os diversos cronistas da época, os de Limburgo, de Colônia, de Tréveris, da Bélgica. Todos mencionam o aparecimento, em 1374, de uma seita de homens e mulheres, dita dos dançarinos, porque uma dança desordenada e sem decência era o traço característico de seus costumes. Dizia-se que ela viera da alta Alemanha, sem indicar de outra forma sua origem; assinala-se sua presença em Aix-la-Chapelle, sobretudo em Liége e em seus arredores. De acordo com os Annales Iossenses, em Pertz, Monumenta Germaniæ historica, Hanovre, 1843, Scriptores, t. IV, p. 35, eram possuídos que se punham a dançar por toda parte, nas praças públicas, nas casas e até nas igrejas, à maneira dos loucos furiosos, e que deveram a maior parte de sua cura aos exorcismos praticados sobre eles pelos sacerdotes de Liége.

Pierre de Herenthal, em Baluze, Vitæ paparum Avenionensium, Paris, 1693, t. I, col. 483-486, nos dá alguns detalhes característicos. Inopinadamente, sem levar a menor conta da pudícia, à meia-veta, eles davam as mãos, entravam em dança, saltavam porque se acreditavam mergulhados em um rio de sangue, pronunciavam nomes de demônios tais como o de Friskes, e, ao fim de seus embates coreográficos, pediam aos altos e lúgubres brados que lhes apertassem fortemente o ventre, sem o que iam expirar. Aos olhos do vulgo, tal estado não podia provir senão do fato de que o batismo lhes tinha sido mal administrado, nomeadamente por sacerdotes concubinários; assim, o povo, em sua irritação, formou o projeto de cair sobre o clero de Liége e de fazer um massacre, mas não deu seguimento, por causa das curas operadas sobre esses enfermos por esse mesmo clero.

Muito mais explícito ainda é Radulphe de Rivo, deão de Tongres, morto em 1483, no c. IX de seus Gesta pontificum Leodiensium, que Chapeaville inseriu e anotou em seus Gesta pontif. Tongrensium, Trajectensium et Leodiensium, Liége, 1612-1616, t. III, p. 19-22. A seita, diz ele, veio da alta Alemanha a Aix-la-Chapelle, depois a Utrecht, depois a Liége. Cada dia surgiam novos dançarinos, e seu mal tornou-se contagioso. Pois viu-se uma multidão de gente, sã de corpo e espírito, subitamente tomada pelos demônios, juntar-se à dança. Qual poderia bem ser a causa de tão estranho fenômeno? As pessoas sensatas a situavam na ignorância crassa das coisas da fé e dos mandamentos divinos, que reinava naquela época, mas, no povo, muitos rejeitavam a culpa sobre a corrupção do clero, que teria mal conferido o batismo. Mas, observa Radulphe, para provar que a validade do batismo é independente da dignidade ou da indignidade de seus ministros, Deus fez aos sacerdotes seculares de Liége a graça, que recusava aos religiosos, de libertar esses possuídos por meio dos exorcismos.

Entre outros fatos, ele relata estes. Na igreja de Santa Cruz, em Liége, no dia da dedicação, enquanto se cantavam as vésperas, o turiferário pôs-se subitamente a balançar o incensário de uma maneira desordenada, a dançar e a pronunciar, cantando, palavras desconhecidas. Vainamente o pedem que cesse; entre os espectadores atônitos, muitos se perguntavam se ele não pertencia à seita dos dançarinos. Recite o Pater, diz-lhe um sacerdote; ele recusa. Recite o Credo. Creio no diabo, respondeu ele. O sacerdote então a impor-lhe a estola, a exorcizá-lo e a libertar esse infeliz, que se põe imediatamente a recitar com um grande sentimento de piedade o Pater e o Credo. Outro fato. Por volta da festa de Todos os Santos, em Herstal, vila vizinha de Liége, homens e mulheres da seita tinham-se reunido em grande número e tinham decidido invadir Liége e massacrar os prelados, os cônegos, os curas e todo o clero. Mas Deus dissipa seu desígnio; pois, no momento de penetrar na cidade, homens honestos conduziram-nos aos sacerdotes, que os curaram, para a grande confusão do demônio e para a maior glória do clero. Muitos foram levados à capela da santa Virgem no claustro de São Lamberto, onde o sacerdote Louis Loves, inspirado por Deus, impôs a estola sobre um deles, recitou o início do Evangelho segundo São João e o libertou assim da servidão do demônio; ele obteve o mesmo êxito para nove outros. O rumor de tal cura espalhou-se ao longe, e outros dançarinos, conduzidos ao mesmo lugar, foram do mesmo modo libertados pela prática dos exorcismos e restituídos à saúde. Tinham levado outros a outros lugares, às igrejas colegiadas de Santa Cruz e de São Bartolomeu, às igrejas paroquiais de Nossa Senhora e de Santo André, onde todos os sacerdotes, sem distinção, tiveram junto a eles o mesmo sucesso.

Na prática dos exorcismos, nota Radulphe, era mais frequentemente o início do Evangelho segundo São João que se lia, mas emprestavam-se também dos outros evangelistas as passagens relativas à libertação dos possuídos. Quando, por vezes, a cura tardava, mostrava-se ao possuído a hóstia consagrada ou aplicava-se sobre sua cabeça. Outras vezes, aspergiam-no com água benta, faziam-no até beber, após o que praticavam sobre ele os ritos do immunde spiritus, do Ephpheta e da insuflação.

Radulfo conta ainda que uma jovem possuída, inutilmente exorcizada por vários padres, foi conduzida a Aix-la-Chapelle e lá foi curada pelo padre Simon, que a mergulhou na água benta. Havia dois anos que ela estava sob o jugo do demônio. E o demônio, interrogado sobre o local onde se encontrava quando a jovem fazia sua comunhão pascal, respondeu que se refugiava na ponta dos dedos do pé até que as espécies sacramentais fossem consumidas. Ele pediu para poder retirar-se para os banhos de Carlsbad; mas, pouco depois, tendo ali se afogado duas ou três pessoas, atribuiu-se esse funesto acidente à presença do demônio, e, em consequência, fecharam-se os banhos, e esses banhos estavam ainda proibidos no momento em que Radulfo escrevia. Assim combatida, essa seita que, no espaço de um ano, havia feito tantas vítimas, foi contida; ela desapareceu pouco a pouco, tornando-se os casos de possessão desse gênero cada vez mais raros. A boa reputação do clero de Liège aumentou tanto quanto. Esse relato tem manifestamente o tom de um apologista do clero. Por isso, o autor termina-o com estas palavras: «Longe de nós, que esperamos a sólida glória da vida futura, deixar-nos inflar pelas vãs louvações dos homens. Não esqueçamos estas palavras de Cristo: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não foi em vosso nome que expulsamos os demônios? E não fizemos nós, em vosso nome, muitos milagres? Então, eu lhes direi abertamente: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, obreiros da iniquidade.”» Matth., VII, 22-23.

A essas informações fornecidas por Radulfo, Chapeauville, em suas anotações, p. 22-23, acrescenta outras: uma que ele toma emprestada, diz ele, do Magnum Chronicum Belgicum, e que coincide textualmente com o que diz Pedro de Herenthal; três outras, que são de Jean Stabulaus, de Corneille Zanfliet e de Meyer. Mas todos esses testemunhos não nos ensinam nada de novo. Se, ao contrário, acreditarmos em Jean de Leyde, Chronic. Belgic., l. XXXI, c. XXVI, nos Rerum Belgicarum annales, t. I, p. 299, os dançarinos de Aix, de Utrecht e de Liège bradavam, ao dançar, o grito de: Gai, gai! De acordo com a Crônica de Colônia, p. 247, eles gritavam: «M. santo João, gai, gai! M. santo João!» Não seria essa uma atribuição errônea? Pois não percebemos a menor relação entre a dança dos dançarinos de 1374, verdadeiro caso de possessão diabólica ou de patologia, e a dança de circunstância que ocorria, uma vez ao ano, ao redor da fogueira de São João, não mais, aliás, do que descobrimos uma com a dança de São Guido.

Por outro lado, o último terço do século XIV conta bastantes hereges conhecidos, de data antiga ou recente, tais como os valdenses, os lolardos e as beguinas, os turlupins e os lolardos, contra os quais Gregório XI teve de tomar medidas severas em 1372 e em 1373, Baronius, Annales, an. 1372, n. 33; 1378, n. 19, sem que seja necessário incluir entre eles os dançarinos de Liège. Nada, de fato, nos documentos da época mostra em que poderia bem consistir sua heresia. Eles não praticavam os sacramentos, estavam possuídos pelo demônio, entregavam-se a danças furibundas das quais a decência era banida e tornavam-se assim, por um exemplo contagioso, uma causa de distúrbios e escândalos. Trataram-nos, em consequência, como possuídos, e aplicaram-lhes as fórmulas litúrgicas do exorcismo. Mas, de heresia, nenhum vestígio. Em nossos dias, o caráter contagioso de sua dança faria com que fossem classificados antes entre os doentes acometidos de histeria: e é, de fato, ao cabo, de uma doença desse gênero que foram atingidos os dançarinos de Liège, complicada, aliás, por possessão diabólica. Estão, portanto, a ser riscados da lista das heresias.

Além das obras citadas no corpo do artigo, ver Hecker, Die Tanzwuth, eine Volkskrankheit im Mittelalter, Berlin, 1832; Die grossen Volkskrankheiten des Mittelalt., Berlin, 1865; Frédéricq, Corpus inquisit. Neerland., Gand, 1889, t. II, p. 231 sq.; Id., De secten der geeselaars en der dansers in de Nederlanden, Bruxelles, 1899; Baronius, Annales, an. 1374, n. 413.

Autor original: G. BAREILLE

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor