CRUZ (ADORAÇÃO DA)

CRUZ (ADORAÇÃO DA)

CRUZ (ADORAÇÃO DA). — I. Estado da questão. II. Um culto religioso é devido à verdadeira cruz. III. Um culto religioso é devido às imagens da cruz. IV. Natureza do culto religioso devido à verdadeira cruz e às suas representações.

I. ESTADO DA QUESTÃO. — Não temos de tratar aqui senão da questão teológica da adoração, ou, se se quiser, do culto da cruz. Segundo a doutrina sagrada, um verdadeiro culto religioso, um culto nitidamente determinado, é devido à cruz de Jesus Cristo, à verdadeira cruz bem como às suas imagens ou representações. Esta doutrina teológica sempre passou para a vida cristã dos fiéis, desde as primeiras eras. Limitando-nos, portanto, a expor a teologia do culto da cruz, não trataremos ex professo das festas litúrgicas da Invenção e da Exaltação da Santa Cruz, do sinal da cruz, da devoção da Via-Sacra. Não invocaremos estes atos cultuais e estas festas senão na medida em que eles são um confirmatur trazido pela ordem prática da liturgia à teoria especulativa da teologia.

A doutrina, assim como a prática do culto da cruz, encontrou inimigos. Basta assinalar, de forma geral, os adversários dos primeiros séculos que escarneciam, censuravam e caluniavam os cristãos por ocasião das homenagens prestadas por eles à cruz. Estava na lógica da perseguição, que escarnecia, censurava e caluniava tudo da religião nova. Mas, entre os inimigos declarados da cruz, é preciso mencionar, à parte e em primeiro lugar, Juliano, o Apóstata. Este imperador sectário zombava dos cristãos que desprezavam e abandonavam os deuses dos pagãos para chegarem a inclinar-se diante da cruz.

Adorais, censurava-lhes ele, o vil madeiro de uma cruz, formais esse sinal em vossas frontes, gravais-o na porta de vossas casas... τὸν σταυρὸν προσκυνεῖτε ξύλον, εἰκόνας αὐτοῦ σκιαγραφοῦντες ἐν τῷ μετώπῳ, ἢ καὶ τοῖς τῶν οἰκημάτων ἐγγράφοντες. S. Cyrille d’Alexandrie, Contra Julianum, l. VI, P. G., t. LXXVI, col. 796-797. Os antigos iconoclastas, por mais obstinados que se tenham mostrado contra as santas imagens, respeitaram e veneraram, contudo, a cruz.

É preciso chegar ao século IX para reencontrar um adversário sistemático da cruz, na pessoa de um espanhol, discípulo de Félix de Urgel, o adocionista. Colocado por Luís, o Piedoso, na sé de Turim, perto do fim de 817 ou no início de 818, desde a primeira visita da sua diocese, Cláudio mandou quebrar e queimar todas as cruzes das igrejas. Sustentava que não se lhes devia prestar nenhum culto, nem mais, aliás, do que às santas imagens ou às relíquias. Por ocasião deste culto da cruz, ele difundia as afirmações mais audaciosamente inconvenientes e mais escandalosas.

Quem honra a cruz, dizia ele, pela memória do Salvador que ela recorda, aficiona em Jesus Cristo o que fez a alegria dos ímpios, isto é, o opróbrio da sua paixão e a cruel ironia da sua morte. É, como os judeus e os pagãos, não acreditar na ressurreição de Jesus. Recorria aos mais grosseiros escárnios para atacar o culto da cruz. Apologeticum atque rescriptum Claudii episcopi adversus Theodemirum abbatem, P. L., t. CV, col. 462; cf. P. L., t. CIV, col. 615-628; t. CV, col. 459-464; E. Dümmler, Monumenta Germaniæ historica. Epist., t. IV, Karolini ævi, t. II, Berlin, 1895, p. 589-613.

Ao bispo, mau pastor, o seu rebanho resistiu vigorosamente. Ao teólogo ímpio ripostaram os defensores das velhas tradições. Teodomiro, abade do mosteiro de Psalmody, na diocese de Nîmes, escrevia: «Que orgulho o de pisotear, de quebrar com desprezo aquilo que, há 800 anos, isto é, desde o estabelecimento do cristianismo, os santos Padres e os mais religiosos príncipes permitiram, ordenaram que se expusesse nas igrejas, e até nas casas particulares, para a glória do Senhor! Pode-se contar no número dos cristãos aquele que rejeita o que toda a Igreja recebe?» F. X. de Feller, Biographie universelle, v° Claude de Turin, Paris, 1841, t. II, p.

475-476. Com Teodomiro, protestaram o bispo de Orleães Jonas, De cultu imaginum, P. L., t. CVI, col. 305-388; Dungalo, o recluso, do mosteiro de Saint-Denis, Responsa contra perversas Claudii Taurinensis episcopi sententias, P. L., t. CV, col. 465-530; Valafrido Estrabão, De rebus ecclesiasticis, VII, P. L., t. CXIV, col. 928-929. Cláudio foi severamente censurado pelo papa Pascoal I, e ele replicou zombando daquele senhor apostólico, que deixava de sê-lo pelo fato de cumprir mal a sua função. Foi também censurado pelo sínodo realizado em Paris em 825. Hefele, Histoire des conciles, trad. Delarc, Paris, 1870, t. V, p. 236-242.

Ver CLAUDE DE TURIN, t. III, Encyclopédique de la théologie catholique, v° Claude de Turin, trad. Goschler, Paris, 1869, t. IV, p. 375-377.

Nos séculos posteriores, os wiclefitas, as seitas protestantes, os calvinistas sobretudo, tomaram um lugar preponderante entre os inimigos do culto da cruz, e renovaram, pela sua parte, os ataques e as calúnias de Cláudio de Turim. Ao testemunho de Tomás de Walden, os wiclefitas chamavam às imagens da cruz tronos apodrecidos, e menos dignos de homenagem do que as árvores da floresta: estas, pelo menos, são vivas. Guilherme Reginald, Calvino-Turcismus, l. II, c.

XVI, relata que Calvino proibiu o uso de crucifixos ao pescoço: seus partidários substituíram-nos por broches de ouro ou prata com os traços de seu mestre! É conhecida, aliás, esta declaração de Teodoro de Beza: Fateor me exanimo crucifixi imaginem detestari. E Lutero, num sermão sobre a invenção da santa cruz, exclamava: Ad diabolum cum ejusmodi imaginibus: nullius enim boni causa sunt... Ubi crux adoratur auroque et gemmis ornatur, ibi imagines cruces confringendæ sunt et templa ipsa funditus subruenda. Cf. Jungmann, Tractatus de Verbo incarnato, n. 413, note, Fribourg-en-Brisgau, 1897, p. 366. Veja ainda Calvin, Institut., l. I, cc.

XI-XII; l. IV, c. IX, §9; o ministro Jean Daillé, De cultibus religiosis Latinorum, Genève, 1671, passim. Os Reformados, de resto, apressaram-se a glorificar, a propósito da cruz, o bispo de Turim como um ilustre antepassado. Veja Mosheim, Histoire ecclésiastique, IXe siècle, Ire partie, c. II, § 14; c. III, §17; Basnage, Histoire de l’Église, t. II, p. 1306, 1384. Assim, não nos devemos espantar se os teólogos dos séculos XVI e XVII dedicaram-se especialmente a refutar as imputações falsas e as pretensões errôneas dos protestantes, sobre este ponto particular. O herético russo Cosoi rejeitava também, no século XVI, o culto da cruz. Veja col.

1918.

II. UM CULTO É DEVIDO À VERDADEIRA CRUZ. — Quando se trata do culto devido à cruz, deve-se considerar primeiramente a verdadeira cruz, a cruz real sobre a qual Cristo morreu, crux realis, como diz a linguagem da Escola. Sobre esta, Bible, v° Croix, t. II, col. 1131; Rohault de Fleury, Mémoire sur les instruments de la Passion, Paris, 1870, p. 45-463; Gosselin, Notice historique sur la Sainte couronne et les autres instruments de la Passion de Notre-Dame de Paris, Paris, 1828; Sauvage, Documents sur des reliques de la vraie croix, Rouen, 1893; Juste-Lipse, De cruce libri tres, Anvers, 1595; J. Gretser, S. J., De sancta cruce, dans Opera omnia, Ratisbonne, 1734, t. I, l. I, De cruce Christi; p. 1-177.

1° Do ponto de vista que nos ocupa, a verdadeira cruz é antes de tudo uma relíquia insigne, ao mesmo título que todos os instrumentos da Paixão do Salvador, e ela deve provocar, de nossa parte, os mesmos sentimentos religiosos. Os argumentos apresentados em favor do culto das relíquias em geral têm, portanto, aqui a sua aplicação, tanto mais rigorosa quanto o Verbo encarnado, em razão de sua divina personalidade e de sua majestade soberana, supera ao infinito os anjos mais sublimes e os santos mais eminentes. Veja RELIQUES.

Se alguém quiser se compenetrar das declarações autênticas que a Igreja frequentemente emitiu ou recordou concernentes ao culto das relíquias, ficará rapidamente convencido de que a nossa proposição pertence ao corpo definido da doutrina católica. Foi o que constatou Suarez: Conclusio est de fide, ut ex supra dictis satis constat, tanto evidentius quanto plures sunt majoresque causæ ad has reliquias venerandas. De incarnatione, disp. LVI, sect. 1, n. 1, Opera omnia, Paris, 1866, t. XIX, p. 659.

2° Em verdade, se os Livros inspirados declaram santo e consagrado o lugar onde Moisés viu a sarça ardente, Exod., III, 5, o local onde o anjo enviado do Senhor apareceu a Josué, Jos., V, 16, que consagração, que caráter de santidade não será preciso reconhecer na verdadeira cruz? Não é apenas um anjo, é o Filho de Deus, Deus ele mesmo, que a carregou por todo o caminho do Calvário; que, sob o seu peso, sucumbiu até três vezes; que foi pregado a esta cruz e nela permaneceu suspenso durante as três mortais horas de sua agonia, e até a tarde da grande sexta-feira.

Da mesma forma, se os primeiros cristãos tinham em tão grande confiança os lenços e os cintos que tinham tocado o corpo de São Paulo; se Deus concedia, pelo simples toque destas relíquias, a cura dos enfermos e a libertação dos possessos, Act., XIX, 12, que não se deverá concluir ou esperar da verdadeira cruz? Ela não foi apenas consagrada pelo seu contato com o santíssimo corpo do Homem-Deus, mas foi toda banhada e impregnada do sangue divino.

Tal é o próprio raciocínio de São João Damasceno: Αὐτὸ μὲν οὖν τὸ τίμιον ξύλον τὸ ἀληθῶς καὶ τεθαυμασμένον, ἐν ᾧ ἐκένωσεν ἑαυτὸν θυσίαν ὑπὲρ ἡμῶν ὁ Χριστὸς προσεναχθείς, ὡς ἁγιασθὲν τῇ ἀφῇ τοῦ ἁγίου σώματος τε καὶ αἵματος προσκυνητέον. De fide orthodoxa, l. IV, c. XI, P. G., t. XCIV, col. 1129-1132.

3° Por outro lado, importa notar que a morte, e a morte na cruz, foi livremente escolhida pelo redentor, de preferência a qualquer outra, por razões misteriosas e infinitamente sábias. Se ele foi oferecido, anunciava Isaías, é porque ele bem o quis, LIII, 7. Nosso Senhor assegurava ele mesmo que dá a sua vida espontaneamente, e que ninguém a tira dele. Joa., X, 18. Assim São Pedro pregará que Cristo foi entregue segundo o desígnio querido e a presciência de Deus, Act., II, 23; que, segundo os profetas, o Cristo devia sofrer; e Deus assim o cumpriu, Act., III, 18; que Pilatos e Herodes se aliaram contra Jesus para cumprir o que a mão e o conselho de Deus tinham decidido deixar fazer. Act., IV, 27, 28. A cruz foi, portanto, livremente escolhida pelo Cordeiro de Deus para ser o altar consagrado sobre o qual ele ofereceu o supremo e sangrento sacrifício de sua vida.

Ela foi verdadeiramente o instrumento bendito da redenção comum e individual dos homens, pois foi pelo seu sangue, vertido sobre a cruz, que Ele pacificou o que está na terra e o que está nos céus: Pacificans per sanguinem crucis ejus, quæ in cœlis et quæ in terra sunt. Col., I, 20. Ela foi, portanto, a arma com a qual nosso Salvador venceu o demônio, com a qual nós também, em nosso Salvador, triunfamos sobre as potências malignas e reconquistamos a possibilidade da nossa salvação. São Paulo o constata: Chirographum decreti quod erat contrarium nobis...

tulit de medio, affigens illud cruci, et exspolians principatus et potestates, traduxit confidenter, palam triumphans illos in semelipso. Col., II, 14. Orígenes comenta, em nosso sentido, não apenas esta passagem da Epístola aos Colossenses, mas ainda aquela anteriormente citada, I, 20, e outra da Epístola aos Efésios, II, 16: et reconciliet ambos in uno corpore, Deo, per crucem. P. G., t. XIV, col. 865-866.

Consequentemente, a cruz foi como a via cruelmente dolorosa pela qual Cristo devia avançar para cumprir sua missão, chegar à sua glória e à sua exaltação, Joa., XII, 14; XIII, 32; Phil., II, 8-11: Humiliavit semetipsum, factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis. Propter quod et Deus exaltavit illum... ut in nomine Jesu omne genu flectatur cœlestium, terrestrium et infernorum et omnis lingua confiteatur quia Dominus Jesus Christus in gloria est Dei Patris. São João Damasceno, interpretando da cruz o versículo 7 do Sl.

CXXXI: Adorabimus in loco ubi steterunt pedes ejus, escreve ainda: Nam crucem ibi intelligi argumentum est id quod sequitur: Surge, Domine, in requiem tuam; comes enim crucis est resurrectio: . Loc. cit., col. 1132. De todas essas observações inspiradas, aparece que Deus quis, pela livre escolha de sua vontade infinitamente sábia, honrar ele mesmo divinamente a cruz, e torná-la, para nós, amável e venerável. É assim que, em razão de todos esses títulos especiais, infinitamente sagrados para o cristão, a verdadeira cruz chama, ela exige de nós as mais religiosas homenagens.

4° A religião do povo cristão, encorajada pela Igreja e pela própria potência divina, veio confirmar este culto devido à verdadeira cruz. 1. Uma antiga tradição atribui a descoberta da verdadeira cruz a Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Ela a reencontrou em Jerusalém, no local do Calvário que o imperador Adriano havia profanado e se esforçara por tornar irreconhecível, sob as ruínas de um templo outrora dedicado a Vênus. O fato é certo, embora subsista alguma dúvida sobre a intervenção de Santa Helena. Na esteira dos protestantes, certos críticos modernos pretendem rejeitar esta tradição, por causa do silêncio de Eusébio.

Este historiador, que relata tudo o que a piedosa mãe de Constantino realizou na cidade santa, nada teria dito deste fato tão importante. Este silêncio, por mais difícil que seja de explicar, não pode destruir os outros testemunhos que iremos recordar, tanto mais que a experiência ensina que extrema prudência se deve ter no manejo desta arma do silêncio. Em todo caso, se Eusébio não menciona expressamente a invenção da santa cruz, ele recorda, contudo, a descoberta do santo sepulcro, que ocorreu ao mesmo tempo. In Ps. LXXXVII, n. 13, P. G., t. XX, col. 1064. Cf. n. 21 sq.

Mesmo uma carta de Constantino a São Macário, bispo de Jerusalém, conservada por Eusébio, assim como por Teodoreto e Sócrates, parece referir-se mais à invenção da cruz do que à descoberta do sepulcro: «A graça de nosso Salvador, escreve o imperador, é tão grande que a língua parece recusar-se a descrever dignamente o milagre que acaba de ocorrer; pois há algo mais surpreendente do que ver o monumento da santa paixão, restado por tanto tempo escondido sob a terra, revelando-se de repente aos cristãos, quando eles são libertados de seu inimigo pela derrota de Licínio?» De vita Constantini, l. III, c. XXX, P. G., t. XX, col. 1090.

Seja como for das circunstâncias milagrosas que teriam acompanhado esta descoberta da verdadeira cruz e assim divinamente autorizado o seu culto; seja como for de certas divergências no detalhe dos relatos, São Cirilo de Jerusalém, São Paulino, Sulpício Severo, Santo Ambrósio, São João Crisóstomo, Rufino, Teodoreto, Sócrates, Sozomeno, encontram-se para atestar unanimemente a realidade do próprio fato da invenção. Cf. F. Martin, Archéologie de la Passion, Paris, s. d. (1897), p. 261-296; L. Duchesne, Histoire ancienne de l’Église, 2e édit., Paris, 1907, t. II, p. 80-82. 2.

Ora, todos esses autores, ao mesmo tempo que contam a descoberta da cruz, constatam o culto que o povo cristão julgou dever prestar imediatamente a essa relíquia insigne e às suas diversas parcelas, particulis sanctæ crucis. — a) São Cirilo de Jerusalém, contemporâneo de Eusébio, não se contenta em afirmar nitidamente que a cruz foi reencontrada em Jerusalém, na época de Constantino, mas em sua Carta ao imperador Constâncio, P. G., t. XXXIII, col. 1167, como em suas Catequeses, IV, n. 10, col. 467-470; XIII, n. 4, col. 775-778, ele menciona que o povo cristão acorre de todo o universo católico para prestar suas homenagens à cruz.

Em outro lugar, ele observa que, já no seu tempo, as parcelas da verdadeira cruz encontram-se, pela piedade dos fiéis, dispersadas por todo o mundo cristão: Τὸ ξύλον τὸ ἅγιον τοῦ σταυροῦ μαρτυρεῖ, μέχρι σήμερον παρ’ ἡμῖν φαινόμενον, καὶ ἐκ τοῦ πρὶν πίστιν ἐξ αὐτοῦ λαμβανόντων, ἐντεῦθεν τὴν οἰκουμένην σχεδὸν ἤδη ἐπλήρωσαν. Cat., X, n. 49, col. 686 sq. — b) Santo Ambrósio relata, ele também, os detalhes da invenção; depois, observa o fato de que Santa Helena foi a primeira a adorar o madeiro sagrado da cruz. Orat. de obitu Theodosii, n. 46, P. L., t. XVI, col. 1402 sq.

— c) Escrevendo a Eustóquia, São Jerônimo insiste muito particularmente na adoração que sua mãe, Santa Paula, rendeu à cruz sobre a qual se cumpriu a nossa redenção: Cuncta loca tanto ardore ac studio circumivit, ut nisi ad reliquas festinaret, a primis non posset abduci. Prostrataque ante crucem, quasi pendentem Dominum cerneret, adorabat. Epist., CVIII, ad Eustochium, n. 9, P. L., t. XXII, col. 883. — d) São João Crisóstomo nota que, no seu tempo, cristãos e cristãs acorriam, por emulação, a esse madeiro ao qual o corpo sagrado de Cristo foi pregado.

Por motivo de religião, tentavam obter dele parcelas, faziam-nas engastar no ouro, e as portavam ostensivelmente ao pescoço como uma joia preciosa entre todas. Διὰ δὴ τὸ ξύλον ἐκεῖνο, ἔνθα τὸ ἅγιον ἐτάθη σῶμα καὶ ἀπεσχοινίσθη, τῆς ἐστι περιμάχητον ἁπλοῦν; καὶ μικρόν τι λαμβάνοντες ἐξ ἐκείνου πολλοί, καὶ χρυσῷ κατακλείοντες, καὶ ἄνδρες καὶ γυναῖκες τῶν πολυτίμων ἐξάρτησιν τὴν ἑαυτῶν καλλωπίζουσιν. Homil. Quod Christus sit Deus, n. 10, P. G., t. XLVIII, col. 826.

— e) São Paulino de Nola oferece ao seu amigo Sulpício Severo uma relíquia da verdadeira cruz, e, em sua carta de envio, observa que é preciso receber com religião as menores parcelas da cruz, guardá-las preciosamente como uma proteção para a vida presente e como um penhor de salvação eterna. Accipite ergo ab unanimis fratribus in omni bono vestrum sibi consortium cupientibus, accipite magnum in modico munus, et in segmento paene atomo astule brevis sumite munimentum presentis et pignus æternæ salutis. Epist., XXXI, ad Severum Sulpitium, n. 4, P. L., t. LXI, col. 325.

— f) O diácono Rústico, em seu Diálogo contra os acéfalos, é ainda mais preciso. Os cravos, diz ele, com os quais Cristo foi crucificado, e o madeiro venerável da cruz, a Igreja universal, por todo o mundo, os adora sem nenhuma contradição: Clavos quibus crucifixus est Christus, ET LIGNUM VENERABILIS CRUCIS, omnis per totum mundum Ecclesia absque ulla contradictione ADORAT. P. L., t. LXVII, col. 1169 sq. Ver sobretudo col. 1218. — g) Sulpício Severo, Historia sacra, l. II, n. 34, P. L., t. XX, col. 148; Rufino, H. E., l. I, c. VII, VIII, P. L., t. XXI, col. 476 sq.; Sócrates, H. E., l. I, c. XVII, P. G., t. LXVII, col. 417 sq.; Sozomeno, H.

E., l. II, c. I, ibid., col. 929 sq., relatam também os detalhes mais interessantes sobre o culto rendido à verdadeira cruz pela piedade de seus contemporâneos. Relatemos este último testemunho emprestado ao poema De passione Domini, que, se não é de Lactâncio, apresenta, por consenso de todos, os caracteres da mais alta antiguidade: Flecte genu, lignumque crucis venerabile adora Flebilis; innocuo terramque cruore madentem Ore petens humili, lacrimis suffunde subortis. P. L., t. VII, col. 285-286. Cf. F. Martin, op. cit., p. 296-309.

3. A todas essas atestações referentes às primeiras homenagens da piedade cristã para com a cruz, é preciso acrescentar ainda um testemunho de fato humano e um encorajamento divino. O testemunho humano é um fato imenso, inaugurado com a invenção da santa cruz. Desde então, observa Dom Guéranger, «começa uma sucessão inumerável de piedosos viajantes, vindos dos quatro ventos do céu, para honrar os lugares sobre os quais se operou a salvação do homem, e render suas homenagens ao madeiro libertador.» L’année liturgique, Le temps pascal, Paris, 1898, t. I, p. 504. Cf. Martigny, Dict. des antiq. chrétiennes, Paris, 1877, p. 624-625.

Esses piedosos êxodos rumo à santa cruz continuaram através das eras, e as peregrinações atuais de penitência são inspiradas pela mesma piedade que guiava os primeiros adoradores da cruz. O encorajamento divino foi o dos favores extraordinários e visíveis concedidos por Deus aos peregrinos ou aos devotos da verdadeira cruz. Essas graças foram numerosas o suficiente para nos autorizar a proclamar que houve ali, da parte de Deus, uma excitação muito eficaz dada à piedade dos fiéis.

5° Não contente em encorajar a religião privada de seus filhos, a Igreja fez entrar, em sua liturgia pública, o culto da verdadeira cruz. 1. Após a descoberta da cruz, pôs-se imediatamente, sob as ordens de Constantino, a construir uma grande basílica, que deveria reunir em seu vasto recinto a colina do crucificamento e o lugar do sepulcro. Ela tomou o nome de Igreja do Santo Sepulcro: foi frequentemente também chamada de Igreja da Anastásia ou da Ressurreição, ou ainda a Basílica da Santa Cruz. Inaugurou-se em 335, e pôde-se nela depositar a parte da cruz que Santa Helena tinha deixado em Jerusalém. O aniversário dessa grande dedicação, e a solenidade da aparição da cruz a Constantino, foram o ponto de partida comum da glorificação litúrgica da cruz na Igreja do Oriente, no mês de setembro. O Menológio fixa a memória no dia 14 do referido mês.

No século mesmo desses eventos, uma peregrina espanhola, Etéria, atesta que o aniversário dessa dedicação era celebrado no Calvário, nesta data do mês de setembro, ao mesmo tempo que a invenção da santa cruz. Concediam-se a essa solenidade todas as honras das festas da Páscoa e da Epifania. A razão disso é, diz ela, que a cruz foi encontrada nesse dia. Esse foi também o motivo que fez escolher esse mesmo dia para a consagração primitiva, a fim de que uma mesma data reunisse a alegria tanto dessa consagração quanto dessa lembrança. Peregrinatio ad loca sancta, 2ª ed., Gamurrini, Roma, 1888, p. 76, cf. p. 63-66. Ver Ms Duchesne, Origines du culte chrétien, Paris, 1889, p. 263-264; L’année liturgique, continuação por dom Fromage, Paris, 1903, t. IV, p. 247.

2. Por outro lado, desde a descoberta da verdadeira cruz, a Igreja de Jerusalém consagrou o dia de Parasceve, isto é, a sexta-feira santa, à adoração solene e litúrgica da verdadeira cruz. A função consistia sobretudo na exposição da cruz ao olhar dos fiéis. São Paulino de Nola, na carta já citada a Sulpício Severo, P. L., t. LXI, col. 325 sq., menciona a cerimônia: Quam (crucem) episcopus urbis ejus quotannis, cum Pascha Domini agitur, adorandam populo princeps ipse venerantium promit. Ele descreve os ritos observados para a celebração desse mistério da cruz: die qua crucis ipsius mysterium celebratur.

Em razão do concurso dos peregrinos que acorriam de toda parte e de muito longe, um outro dia teve de ser acrescentado. São Gregório de Tours (+ 585) nos ensina que esse dia suplementar era então a quarta-feira. Era a quarta-feira de cada semana ou apenas a quarta-feira santa? É difícil determiná-lo a partir do seu texto: Crux dominica, quæ ab Helena Augusta reperta est Hierosolymis, ita quarta et sexta feria adorabatur. Libri miraculorum, l. I, De gloria B. martyrum, c. V, P. L., t. LXXI, col. 709.

Em todo caso, sabemos pelo Venerável Beda que, sob o império de Heráclio, quando uma notável porção da verdadeira cruz tinha sido transferida de Jerusalém para Santa Sofia de Constantinopla, a adoração ou ostensão, por causa da afluência dos peregrinos, ocorria três vezes durante a semana santa: quinta-feira, sexta-feira e sábado. Esse uso se manteve, seja em Jerusalém, seja em Constantinopla, até o século VIII. Nessa época, começou-se, entre os gregos, a transferir a cerimônia para o terceiro domingo da quaresma, que é o segundo para os latinos.

Por volta da mesma data, introduziu-se o costume litúrgico de ungir com bálsamo as cruzes, seja aquelas derivadas da verdadeira cruz, seja as suas imagens, antes de expô-las à veneração dos fiéis. A função ocorria tanto no domingo da quaresma quanto nas calendas de agosto. São sem dúvida esses novos usos cultuais que fizeram pouco a pouco cair em desuso, entre os gregos, a adoração da cruz na sexta-feira santa. Ela perseverou, contudo, entre os sírios, os coptas e os armênios. Cf. Martigny, op. cit., v° Croix (Culte de la), Paris, 1877, p. 219. La théologie catholique, v° Croix, trad. Goschler, Paris, 1869, t. V, p. 468, é mais preciso que Martigny. Ele explica que se expunha a santa cruz à adoração do povo de Jerusalém: 1º no domingo de Páscoa; 2º no meio da quaresma; 3º por extraordinário, quando havia multidão de peregrinos acorridos de muito longe; 4º em 14 de setembro.

3. É da Igreja oriental que os latinos receberam essa disciplina litúrgica que consiste em expor, na sexta-feira santa, o madeiro sagrado da verdadeira cruz, onde se possuem algumas relíquias. Ela foi introduzida no Ocidente por volta do século VII ou VIII, pois os ritos dela estão descritos in extenso no Sacramentário Gelasiano, no Antifonário de São Gregório e em todos os nossos documentos litúrgicos mais antigos. Duchesne, op. cit., p. 238-239. No século VI, Santa Radegunda solicitou e obteve do imperador Justino II um fragmento da porção considerável da cruz possuída pelo tesouro imperial de Constantinopla. Foi para a chegada dessa augusta relíquia que Venâncio Fortunato compôs seu hino admirável: Pange, lingua, gloriosi Pretium certaminis...

4. Se os gregos nunca celebraram, pelo menos universalmente e de forma solene, uma festa denominada da Invenção da santa cruz, em Roma encontra-se no dia 3 de maio uma festa própria, chamada Inventio sanctæ crucis, que associa o culto da cruz às festas pascais. Para compreender a origem dessa solenidade, é bom lembrar que se tinha construído em Roma, nos jardins de Sessório, uma grande basílica em memória da cruz gloriosa que apareceu a Constantino. É ali que, seguindo a tradição, Santa Helena trouxe uma parte da verdadeira cruz. Em memória dessa preciosa relíquia, o povo romano chamou doravante esse santuário de basílica de Santa Cruz em Jerusalém. Compreende-se assim que a festa de 3 de maio se encontre ela também mencionada no Sacramentário e no Antifonário. De Roma, ela se espalhou pouco a pouco por todo o Ocidente. Duchesne, op. cit., p. 264.

5. Após sua vitória sobre os persas, Heráclio impôs-lhes, por tratado, a restituição da verdadeira cruz, levada como um penhor inapreciável, em 614, pelo seu rei Cosroes. Na primavera do ano 629 (630), o imperador veio trazê-la ele mesmo solenemente à igreja do Santo Sepulcro, entre numerosos prodígios, diz a tradição.

Este retorno da cruz e os feitos prodigiosos que o acompanharam não deixaram de imprimir um novo esplendor à festa grega da Exaltação da cruz; e, desde então, começou-se a celebrá-la também no Ocidente, a 14 de setembro. Mas, ao passo que esta data trazia de volta, entre os orientais, a glorificação da cruz em geral e sob todos os aspectos, os ocidentais celebravam unicamente, neste dia, a recuperação, sobre os persas, do madeiro tão precioso da cruz. Cf. Dict. catholique, v° Croix (Exaltation de la sainte), trad. Goschler, Paris, 1869, t. V, p. 462-463.

6. Dessas funções públicas tão antigas, ainda hoje universalmente cumpridas em todo o universo católico, podemos e devemos concluir qual é o pensamento da Igreja sobre o culto devido à verdadeira cruz. A sua prática revela-nos a sua doutrina sobre este ponto: Legem credendi statuit lex supplicandi.

III. UM CULTO RELIGIOSO É DEVIDO ÀS IMAGENS DA CRUZ. — 1° A imagem da cruz, por oposição à verdadeira cruz de Jesus Cristo, denomina-se na linguagem da Escola: crux exemplata. Se esta cruz traz, ao mesmo tempo, a imagem do Salvador, ela chama-se então crucifixo: imago crucifixi.

2° Em geral, prestamos um culto às imagens santas, porque elas são representações ou sinais que provocam em nós a lembrança dos originais. Não se pode negar, por exemplo, que a imagem de Jesus Cristo crucificado, quando a olhamos, não excite mais vivamente em nós a lembrança daquele que nos amou até se entregar por nós à morte. Gal., II, 20. «Tão logo a imagem, presente aos nossos olhos, faz perdurar uma tão preciosa lembrança em nossa alma, somos levados a testemunhar, por alguns sinais exteriores, até onde vai o nosso reconhecimento; e fazemos ver, humilhando-nos na presença da imagem, qual é a nossa submissão pelo seu divino original».

Bossuet, Exposition de la doctrine de l’Église catholique sur les matières de controverse, Œuvres complètes, édit. Lachat, Paris, 1875, t. XII, p. 60. Tal é a razão profundamente natural que explica e ordena o culto da verdadeira cruz, considerada não mais como relíquia, mas como sinal que evoca a lembrança do divino crucificado, e o culto também de todas as suas imagens. Bossuet desenvolve este princípio, à sua douta maneira, numa belíssima Lettre sur l’adoration de la croix.

Para refutar a objeção protestante, ele faz muito habilmente este argumento ad hominem, que tem, contudo, um valor absoluto: «O que é, pois, a cruz, em vossa opinião, senão o resumo do Evangelho, todo o Evangelho, num só sinal e num só caráter? Por que, então, não se a beijaria? E se lhe prestamos esta sorte de honra, por que não às outras? Por que não se chegaria até à genuflexão, até ao prosternamento inteiro?

Eu não conheço senão Jesus, e Jesus crucificado, dizia São Paulo: eis, pois, tudo o que sei reunido e perfeitamente expresso na cruz como por uma única letra: despertando-se todos os sentimentos de piedade no interior, ser-me-á proibido produzi-los no exterior em toda a extensão em que os sinto, e por todos os sinais de que nos servimos para expressá-los? Em verdade, meu caro irmão, é ser muito cego o chicanear sobre tudo isso; basta uma única coisa para confundir esses espíritos contenciosos; é que o culto exterior não é senão uma linguagem para significar o que se sente no interior.

Se, pois, à vista da cruz, tudo o que sinto por Jesus Cristo se desperta, por que, à vista da cruz, não daria eu todas as marcas exteriores dos meus sentimentos? E isso, o que é outra coisa senão honrar a cruz como ela pode ser honrada, isto é, em relação e em memória de Jesus Cristo crucificado?» Œuvres complètes, édit. Lachat, Paris, 1875, t. XVI, p. 279.

O grande bispo insiste nas lembranças incrustadas, por assim dizer, na cruz. Ele observa que se prostravam diante da arca, Jos., VII, 6, como diante do memorial de Deus, e que Daniel, para fazer a Deus a sua oração, voltava-se para o lugar onde tinha estado o templo. Dan., VI, 10. Ora, prossegue ele, «a cruz de Jesus Cristo é bem outro memorial, uma vez que ela é o glorioso troféu da mais insigne vitória que jamais houve.

Quando Jesus Cristo falou da cruz, ao dizer que é preciso carregá-la, Matth., XVI, 24, ele encerra sob este nome todas as práticas da penitência cristã, isto é, de toda a vida do cristão, uma vez que a vida cristã não é senão uma contínua penitência. Quando São Paulo diz que não quer gloriar-se senão na cruz de Jesus Cristo, Gal., VI, 14, ele também compreendeu sob este nome todas as maravilhas do Salvador, das quais a cruz é o resumo misterioso.

À vista de tantas maravilhas reunidas no sagrado símbolo da cruz, todos os sentimentos de piedade e de fé despertam-se: ficamos enternecidos, ficamos humilhados, e esses sentimentos de ternura e de submissão levam naturalmente a dar todas as suas marcas à vista deste sagrado memorial: beija-o por amor e por ternura; prosterna-se diante dele por um humilde reconhecimento da majestade do Salvador, cuja glória estava ligada à sua cruz.» Ibid., p. 277-278. A estes motivos, que são de razão natural e teológica, podem somar-se analogias diversas emprestadas da Sagrada Escritura. Não nos deteremos nelas.

Pode-se mesmo encontrar nas Escrituras um fundamento real para o culto da cruz.

Pois, segundo São Paulo, Phil., II, 8, porque Jesus Cristo se tornou obediente até a morte numa cruz, Deus quer que todo joelho se dobre ao nome de Jesus Cristo. Ora, que diferença há entre dobrar o joelho a esse nome sagrado, ou dobrá-lo à vista do sinal da morte do Salvador? Se o primeiro é um ato de religião, porque se reporta a Jesus Cristo, o outro não saberia ser um ato de superstição, uma vez que se reporta ao Salvador exatamente da mesma maneira. 3° Por todas essas razões, o culto da cruz é tão antigo quanto a religião mesma do divino crucificado.

Se ele não pôde se produzir em público antes da pacificação da Igreja por Constantino, é falso pretender, com os protestantes, que não há nenhum vestígio desse culto nos três primeiros séculos. 1. Nós temos primeiramente, contra tal asserção, o testemunho indireto e involuntário dos inimigos do cristianismo. Ao final do século II ou no começo do III, nós ouvimos os pagãos reprovarem aos cristãos o culto que prestavam à cruz. Eles constatavam por aí um fato muito real, mas eles o desvirtuavam para perder os cristãos. Assim, as denegações que lhes opõem os apologistas, e nomeadamente Tertuliano, Apologet., XVI, P. L., t. I, col.

365 sq., e Minúcio Félix, Octavius, IX-XII, P. L., t. III, col. 260 sq., incidem sobre as interpretações caluniosas e idolátricas dadas ao seu culto, mas não sobre esse culto mesmo, que a prudência lhes ordenava não descobrir demasiadamente naquela hora. Mais tarde, Juliano, o Apóstata, retomará por sua conta essas calúnias, e São Cirilo de Alexandria lhe fará a mesma resposta que Tertuliano. 2. Os testemunhos diretos não faltam, mesmo para esse período primitivo. É preciso reter: a) a palavra de Tertuliano que, desde o começo do século III, chama os cristãos de devotos da cruz, crucis religiosi, Apologet., XVI, P. L., t. I, col.

365-366; — b) a afirmação dos fatos contida nos exemplos de veneração da cruz. Recolhem-se eles, para os tempos de perseguição, nos atos dos mártires. Sobre o teatro de seu suplício, uma cruz emoldurada de raios luminosos se mostrou do Oriente a São Teódoto e às sete virgens. A essa aparição, a alegria veio se misturar ao seu temor, e, dobrando os joelhos, eles adoraram na direção onde a cruz se fazia ver: Genibus flexis, adoraverunt versus locum unde crux apparebat. Martigny, loc. cit., p. 248. Cf. Ruinart, édit. Veron, p. 302.

Essa afirmação do fato se encontra no uso tão antigo do sinal da cruz, o qual é ainda uma maneira de venerar o instrumento da nossa salvação. Ora, os antigos Padres atestam que esse sinal, do qual os primeiros cristãos experimentaram mais de uma vez o maravilhoso poder, é de origem apostólica. «Em todas as nossas ações, diz Tertuliano, quando entramos ou saímos, quando tomamos nossas vestes, quando vamos ao banho, à mesa, ao leito, quando tomamos uma cadeira ou uma luz, nós formamos a cruz em nossa fronte.

Essas sortes de práticas não são de modo algum comandadas por uma lei formal da Escritura; mas a tradição as ensina, o costume as confirma, e a fé as observa.» De corona militis, c. III, IV, P. L., t. II, col. 80. Os mais antigos atos dos mártires testemunham que, perante os tribunais, acusava-se e condenava-se os cristãos por causa do uso que tinham feito do sinal da cruz.

No momento de morrer, São Teódoto e as sete virgens, tomados de pavor, muniram-se do sinal da cruz para fortalecer sua alma: perterriti, crucis signum sux quisque fronti impressit; — c) o testemunho das representações materiais da cruz pela pintura, a escultura ou a gravação de objetos portáteis. Desde cedo os cristãos amaram, para excitar sua piedade, fazer para si representações da cruz. Eles as fizeram primeiramente sobre objetos pouco volumosos por sua natureza, tais como relicários, joias, lâmpadas, etc., porque eram mais fáceis de esconder, de subtrair às pesquisas e às profanações dos pagãos.

Por essa razão de prudência, essas imagens foram primitivamente dissimuladas sob diversas formas de monogramas. Ver Martigny, op. cit., v° Monogramme du Christ, p. 476 sq. Mamachi, III, 47, relata, sem todavia produzir suas provas, que, sob Septímio Severo já, ricos cristãos portavam anéis ornados do monograma de Cristo e da cruz. Há antigas pedras anelares onde a cruz se encontra gravada, e o estilo de várias leva a fazê-las remontar além de Constantino. Fizeram-se mesmo monogramas isolados e portáteis, como nossas cruzes e medalhas. Por outro lado, os atos do II concílio de Niceia, Act. IV, Mansi, Concil., t. XII, col. 89, e o historiador Nicéforo nos ensinam que o mártir Procópio, massacrado sob Diocleciano, tinha feito executar por um ourives de Citópolis uma cruz metade ouro e metade prata, que ele portava suspensa ao pescoço. Cita-se um fato análogo do soldado cristão Orestes, que viveu sob o mesmo imperador. Acta, em Surius, 13 de dezembro. Cf. Martigny, op. cit., p. 243-244. M. H. Marucchi escreve por seu lado: «É de se acreditar, todavia, que, para sua devoção privada, os cristãos se serviam de cruzes e mesmo de crucifixos, como parece indicar o crucifixo blasfematório encontrado no Palatino,» na parte do palácio contemporânea de Septímio Severo.

Éléments d’archéologie chrétienne. I. Notions générales, Roma, Paris, 1900, p. 312, cf. p. 39; — d) o testemunho dos próprios monumentos propriamente ditos. Sem dúvida, deve ter parecido bastante difícil produzir como um objeto de culto novo o instrumento que servia para o suplício dos criminosos. Encontramos, todavia, durante os três primeiros séculos, diversos sinais que atestam certamente, embora de uma maneira velada, a fé e a veneração dos cristãos primitivos pela cruz. Sabe-se que os primeiros cristãos empregavam sinais ideográficos ou símbolos para exprimir em abreviado o seu pensamento.

Um dos mais antigos foi a âncora, forma oculta da cruz, que tinha a vantagem de representar, ao mesmo tempo, a cruz do Salvador e as esperanças que ela autoriza. M. Marucchi constata que a âncora se encontra nas partes mais antigas das catacumbas romanas, seja gravada nas pedras sepulcrais, seja pintada nas tampas de monumentos que se podem fazer remontar até o primeiro século. Encontra-se mais raramente após o século III. Ver Dict. d’archéol. chrét. et de liturgie, éd. dom Cabrol, t. I, col. 1999-2031. O tridente, que oferece bem alguma analogia com a cruz, é um pouco menos antigo que a âncora.

Foi também empregado para simbolizar o instrumento da salvação, e encontrou-o-se por fim com o ἰχθύς ou o peixe simbólico atado. A letra grega T, crux commissa, foi também empregada para o mesmo uso, e, no século III, Clemente de Alexandria chama a esta letra, o símbolo do Senhor: τοῦ κυριακοῦ σημείου τύπον. Strom., VI, 14, P. G., t. IX, col. 305. A cruz foi ainda simbolizada pelo monograma de Cristo. A forma mais antiga é a da letra X, inicial do nome sagrado Χριστός, ou então a das duas letras P e X, iniciais dos nomes Ἰησοῦς Χριστός, assim agrupadas ☧.

Estas duas formas encontram-se nos monumentos funerários da época das perseguições, e também a forma X chamada crux decussata, embora Bible, v° Croix, Paris, 1897, t. II, col. 1131; Éléments d’archéologie chrétienne, Rome, Paris, 1900, p. 164-165; Martigny, op. cit., p. 214, 476 sq.

4° É a partir do início do século IV que o culto da cruz se torna cada vez mais público. Isto concebe-se facilmente se pensarmos que a vitória, que assegurou o império a Constantino, foi atribuída à gloriosa aparição de uma cruz com a inscrição: τοῦτο νίκα. Eusèbe, Vita Constantini, l. I, cc. XXVIII sq., P. G., t. XX, col. 943 sq. Eis primeiro que os imperadores convertidos vão fazer desaparecer o suplício legal da cruz. Constantino aboli-la-á formalmente por um decreto soberano.

Pois, relata Sozomeno, ele teve sempre a cruz em grande veneração, e por causa das vitórias que ele tinha, pela sua proteção, obtido sobre os seus inimigos, e por causa do sinal que lhe tinha divinamente aparecido. No fim, ele decidiu suprimir por uma lei o suplício da cruz, outrora em uso entre os romanos: Πάνυ γὰρ πολλῇ εἶχε τοῦ θείου σταυροῦ... Ἀμέλει τοι πρότερον νενομοθετημένην Ῥωμαίοις τὴν τοῦ σταυροῦ τιμωρίαν, νόμῳ ἀνεῖλε τῆς χρήσεως τῶν δικαστηρίων. H. E., l. I, c. VIII, P. G., t. LXVII, col. 881. Cf. Codex theod., IX, V, 18.

Em breve, o monograma ☧ vem substituir o sinal do dragão no lábaro de Constantino, e este exemplo imperial não deixou de tornar cada vez mais frequente o uso deste monograma. Constantino não tardou ele mesmo a mandá-lo gravar nos escudos, nos capacetes e nas couraças dos seus soldados, como também na moeda pública e no diadema imperial. Cf. Juste Lipse, De cruce, l. III, c. XIV-XVI. Perto do fim do século IV, a forma do monograma adotada para o lábaro tende a desaparecer. Ela torna-se pouco a pouco ☧ e até o X cai por sua vez e não deixa mais que os elementos que compõem a cruz dita monogramática ☩.

Encontra-se também a cruz gamada 卐, crux gammata, que tem sido de todas as épocas, e esta outra forma ✠. Enfim, no início do século V, o P desaparece ele também. Assim, vê-se em breve substituir-se ao monograma a cruz latina ou a cruz grega ✙, crux immissa; e estas duas formas, latina e grega, são indiferentemente reproduzidas no Oriente como no Ocidente.

Ao designar o início do século V como a época em que a cruz propriamente dita começa a passar para o uso habitual e público do culto, importa não se mostrar demasiado absoluto. É possível que a cruz tenha aparecido anteriormente em certas regiões onde o cristianismo foi libertado mais cedo do que em Roma. De Rossi fê-lo notar para a África, e para Cartago em particular. M. Marucchi escreve ele também no mesmo sentido: «É nas moedas dos antigos reis do Bósforo que se encontra, pela primeira vez, o sinal da cruz, um século antes de Constantino.» Éléments d’archéologie chrétienne, p. 27.

Por outro lado, São Zenão, bispo de Verona em 362, declara que colocou uma cruz, em forma de Tau, sobre o cume de uma basílica por ele construída: in modum tau litteræ prominens lignum. Perto do fim do século IV, o poeta aquitano Endelécio faz dizer a um pastor cristão que o meio mais seguro de preservar os animais da peste é colocar entre os seus chifres a cruz do Deus que é, nas grandes cidades, o objeto de um culto exclusivo: Signum, quod perhibent esse crucis Dei, Magnis qui colitur solus in urbibus. Martigny, op. cit., p. 214; Collombet, Histoire des lettres latines aux IVe et Ve siècles, p. 44. Ver t. I, col. 2013-2014.

Seja como for, até então a cruz é nua, sem a imagem do crucificado, mas ornamentam-na com palmas e pedras preciosas: é a cruz gemada ou florida. «Nesta época (século V), escreve M. Marucchi, começa-se a encontrar a cruz nitidamente desenhada: ela se encontra em todos os cemitérios, na superfície do solo, pintada, esculpida, gravada, frequentemente ornamentada com flores e pedrarias, crux gemmata.» Op. cit., p. 96. Nas criptas de Lucina, vêem-se duas pombas que olham para uma pequena árvore: é uma imagem «das almas libertadas dos laços do corpo e salvas pela virtude da cruz», diz ainda M. Marucchi. «De resto, uma cena análoga encontra-se em um arcosólio do cemitério de São Calisto, onde a cruz, formada por flores, está ainda dissimulada, mas mais facilmente reconhecível.»

Finalmente, o mesmo pensamento manifestar-se-á claramente no século V, quando se representará a cruz ostentando uma pomba em cada braço, como se pode ver por vários exemplos nos sarcófagos do museu de Latrão.» Ibid., p. 277-278. Do século V, encontrar-se-á uma ou duas representações de Cristo na cruz. É no século VI que o crucifixo começa a parecer mais frequente. Inicialmente, o Cristo é gravado em baixo-relevo, depois esculpido em relevo. Representa-se também vivo e vestido.

É assim que nas ampolas do tesouro de Monza, trazidas de Roma pelo padre João, «a cruz é representada, mas Nosso Senhor, em vez de ter os pés e as mãos pregados, estende os braços como uma orante.» H. Marucchi, op. cit., p. 99. Pouco a pouco, ele aparece triunfante sobre a cruz como sobre o troféu de sua vitória. Contudo, a partir do século XII, prevalece o uso de representá-lo no estado de vítima expiatória pelo gênero humano, nu, sofrendo e morrendo. Cf. Martigny, op. cit., vo Crucifix, p. 225 sq. ; H. Marucchi, R. P. J. Hoppenot, Le crucifix dans l’histoire, dans l’art, dans l’âme des saints et dans notre vie, Lille, 1902.

5° Depois disso, explica-se como o culto da cruz tomou, desde o tempo de Constantino, tal desenvolvimento que os fiéis traçavam por toda parte o sinal da cruz. São João Crisóstomo declara que, em seu tempo, a efígie da cruz era adorada e empregada pelos fiéis como ornamento, como remédio, como proteção. Os reis, diz ele, depondo seus diademas, tomam a cruz, símbolo da morte do Salvador.

Sobre a púrpura, a cruz; nas orações, a cruz; sobre a mesa sagrada, a cruz; em todo o universo, a cruz; a cruz brilha mais que o sol: Nihil enim imperatoriam coronam sic exornat, ut crux universo mundo pretiosior ; et quod omnes olim exhorrescebant, ejus nunc figura ita certatim exquiritur ab omnibus, ut ubique reperiatur, apud principes et subditos, apud mulieres et viros, apud virgines et nuptas, apud servos et liberos. Nam illud omne signum frequenter imprimunt in membrorum nobiliori parte ; et in fronte ceu in columna figuratum quotidie circumferunt.

Hoc in sacra mensa, hoc in sacerdotum ordinationibus, hoc rursum cum corpore Christi in mystica cena refulget. Hoc ubique celebratum videre est, in domibus, in foro, in desertis, in viis, in montibus, in saltibus, in collibus, in mari, in navibus, in insulis, in lectis, in vestimentis, in armis, in thalamis, in conviviis, in vasis argenteis et aureis, in margaritis, in parietum picturis, in corporibus brutorum male affectis, in corporibus a demone obsessis, in bellis, in pace, in diebus, in noctibus, in choreis tripudantium, in sodalitiis sese macerantium ; adeo certatim donum hoc mirabile, ejusque ineffabilem gratiam omnes perquirunt.

Nemo pudore afficitur vel erubescit, dum cogitat hoc maledicte mortis symbolum esse ; sed illo omnes magis exornamur quam coronis, diadematibus, et mille margaritarum monilibus : ita non modo non aversamur crucem, sed etiam amabilis illa desiderabilisque omnibus est : ubique illa fulget, in parietibus domorum, in tectis, in libris, in urbibus, in vicis, in incultis, in cultis locis. Homil. Quod Christus Deus, n. 9, P. G., t. XLVIII, col. 827. São Astério, bispo de Amaseia, fazendo o elogio de Santa Eufêmia, diz expressamente que a adoração da cruz era prescrita aos cristãos por uma lei.

Enquanto ela (Eufêmia) reza, um sinal aparece sobre sua cabeça que, por uma prescrição legal, os cristãos adoram e traçam em suas pessoas: signum quod ex PRESCRIPTO LEGIS christiani adorant, et inscribunt sibi. Martigny, op. cit., p. 218. Para o século V, Teodoreto observa que os gregos, e os romanos, e os bárbaros confessam a divindade do crucificado e veneram o sinal da cruz: Ἕλληνες, καὶ Ῥωμαῖοι, καὶ Βάρβαροι τὸν ἐσταυρωμένον θεολογοῦντες, καὶ τοῦ σταυροῦ τὸ σημεῖον γεραίροντες. Graecarum affectionum curatio, orat. vi, De providentia Dei, P. G., t. LXXXIII, col. 989.

E Sedúlio, de quem se poderia citar um sem-número de outros testemunhos, escreve no l. V de suas poesias: Neve quis ignoret speciem crucis esse colendam, Quae Dominum portavit, ovans ratione potenti. Carmen paschale, l. V, vs. 188-189, P. L., t. XIX, col. 724. Assim, tornou-se logo necessário promulgar leis para proibir toda representação da cruz em locais ou posições pouco convenientes.

Assim, uma lei de Teodósio e de Valentiniano III proibiu pintar, gravar ou esculpir a cruz no pavimento dos templos, a fim de que este sinal sagrado não fosse exposto a ser pisado pelos pés dos fiéis: Cum sit nobis cura diligens per omnia superni numinis religionem tueri : signum Salvatoris Christi nemini licere vel in solo, vel in silice, vel in marmoribus humi positis insculpere vel pingere : sed quodcumque reperitur tolli, gravissima poena mulctando eo, qui contrarium statutis nostris tentaverit, specialiter imperamus. Codex Justinianus, l. I, tit. VII.

O concílio in Trullo, realizado em 692, renovou esta disposição, acrescentando a pena de excomunhão contra os transgressores: «As figuras da cruz, decide ele, que alguns traçam no solo ou no pavimento, ordenamos absolutamente que sejam apagadas, para que os pés dos passantes não profanem o troféu da nossa vitória. Aqueles, portanto, que, no futuro, se permitirem representar o sinal da cruz no solo, decretamos que devem ser cortados (excomungados).» Can. 73, em Labbe, t. VII, p. 1176.

É necessário até invocar, em favor da nossa tese, este fato de que, em geral, os iconoclastas, Leão, o Isáurio, Constantino V Coprônimo, Leão IV, Nicéforo, Miguel II Balbo, Teófilo, fizeram absoluta questão de fazer brilhar a cruz em suas moedas. Mais ainda, o historiador Nicéforo chega a pretender que alguns iconoclastas levaram o culto da cruz a uma verdadeira idolatria, adorando a cruz material, sem dirigir sua intenção para o Deus crucificado: ele menciona notadamente os estaurolatras, seita de armênios chamada também Chazingarii, de Chazus, cruz. H. E., l. XVII, c. XIV.

6° Uma prova muito antiga e sempre atual do culto tradicional prestado à cruz se nota na liturgia. As festas da Invenção e da Exaltação da santa cruz tendem também a prestar um verdadeiro culto religioso às imagens da cruz. A solenidade de Parasceve é inteiramente consagrada ao culto das imagens da cruz.

Não se poderia, escreve Bossuet, escolher um dia mais próprio para lhe (à cruz) prestar essas honras do que o da sexta-feira santa: todo o aparato daquele dia não tende senão a fazer sentir aos fiéis as maravilhas da morte de Jesus Cristo; a Igreja reúne-as todas mostrando a cruz, ou, como em uma linguagem abreviada, ela nos diz tudo o que o Salvador fez por nós; veem-se todas elas nesse único sinal, e como de um relance: e, do mesmo modo que esse sagrado caráter nos diz, como da parte de Jesus Cristo, tudo o que ele fez por nós, nós lhe dizemos, por nossa parte, pelos atos simples do prosternamento e do santo beijo, tudo o que sentimos por ele: volumes inteiros não preencheriam o que é expresso por esses dois sinais: pelo da cruz, que nos diz tudo o que devemos ao nosso Salvador, e pelo de nossas submissões, que expressam exteriormente tudo o que sentimos por ele.» Lettre sur l’adoration de la croix, Œuvres complètes, t.

XVII, p. 278. Acrescentemos ainda o uso do sinal da cruz nas funções litúrgicas. No santo sacrifício da missa, na administração dos sacramentos, nas bênçãos, em todo o culto exterior, a Igreja não cessa de repetir o sinal da cruz, para marcar que nenhuma cerimônia pode produzir seu efeito senão em virtude do divino sacrifício realizado na cruz.

7° É assim que o culto da cruz passou pouco a pouco da ordem dos fatos para a pregação e o ensino da Igreja. 1. São João Crisóstomo celebra a cruz com entusiasmo e lirismo em sua homilia De cruce et latrone, inteiramente a ser citada aqui. A cruz, exclama ele, outrora era o nome da condenação e do suplício, hoje ela é uma coisa venerável e desejável. A cruz anteriormente era um objeto de desonra e de pena; agora ela é uma ocasião de glória e de honra. Ὁ σταυρὸς πρότερον καταδίκης ὄνομα καὶ τιμωρίας ἦν, νῦν δὲ πρᾶγμα γέγονε τίμιον καὶ ποθεινόν· ὁ σταυρὸς πρότερον αἰσχύνης ἦν καὶ κολάσεως ὑπόθεσις, νῦν δὲ γέγονε δόξης καὶ τιμῆς ἀφορμή. Homil., II, de cruce et latrone, n. 1, P. G., t. XLIX, col. 407. De seu lado, São Leão Magno diz que a cruz é o sinal da salvação que devem adorar todos os reinos da terra: Signum salutis, adorandum regnis omnibus, inferebat. Serm., VIII, de passione Domini, c. VI, P. L., t. LIV, col. 340. O diácono Rústico constata que todos adoram a cruz: Et adoramus omnes crucem. Disputatio contra acephalos, P. L., t. LXVII, col. 1126. E a partir dessa época, não há quase nenhum Padre ou escritor eclesiástico de quem não se possa trazer o testemunho. 2. Da pregação, o culto da cruz passou para o ensino autêntico da Igreja.

— a) A verdadeira cruz é uma relíquia insigne entre todas. Por isso, todas as decisões doutrinais da Igreja concernentes ao culto das relíquias são tantos princípios gerais dos quais pode ser feita aplicação particular e muito legítima ao culto da verdadeira cruz. Ver RELIQUES. Cf. Denzinger, Enchiridion, n. 245, 365, 573, 861, 866. A cruz, nós o vimos, deve ser também considerada como imagem ou como símbolo. A este respeito, todos os decretos gerais da Igreja, concernentes às imagens, podem aplicar-se tão bem e ainda mais a este sinal augusto da nossa salvação do que a todas as santas imagens. Ver IMAGES. Cf. Denzinger, op. cit., n.

243-245, 247, 273, 573, 861, 866, 872, 873, 1824.

— b) Existem decisões autênticas que dizem respeito expressamente e especialmente ao culto da cruz. Convém relatá-las, uma vez que constituem a teologia da nossa questão. — α. O concílio de Constantinopla, dito in Trullo, realizado em 692, não foi, sem dúvida, confirmado pelo papa Sérgio, mas os gregos sempre o consideraram como um concílio geral: seus cânones sempre formaram um corpo de disciplina para as Igrejas do Oriente.

Ora, o cânone 73 ordena a veneração pelo sinal salutar da cruz: Cum crux nobis vivifica salutare ostenderit; nos omne studium adhibere oportet, ut ei, per quam ab antiquo lapsu salvati sumus, eum quem par est honorem habeamus; unde et mente, et sermone, et sensu adorationem ei tribuentes. Labbe, t. VI, p. 1176. — β.

No século VII, o VII concílio ecumênico, reunido em Niceia, proclamou a doutrina católica contra os iconoclastas, e promulgou o seguinte decreto: Definimus in omni certitudine ac diligentia, SICUT FIGURAM PRETIOSÆ AC VIVIFICÆ CRUCIS, ita venerabiles ac sanctas imagines proponendas, tam quae de coloribus et tessellis quam quae ex alia materia congruenter in sanctis Dei ecclesiis, et sacris vasis et vestibus, et in parietibus ac tabulis, domibus et viis...

ita ut ISTIS SICUTI FIGURÆ PRETIOSÆ AC VIVIFICÆ CRUCIS, et sanctis Evangeliis, et reliquis sacris monumentis, incensorum et luminum oblatio ad harum honorem efficiendum exhibeatur, quemadmodum et antiquis piæ consuetudinis erat. Denzinger, op. cit., n. 243-244. É necessário, sem dúvida alguma, prestar verdadeiras honras religiosas à imagem da preciosa e vivificante cruz, assim como aos santos Evangelhos; mas é preciso, igualmente, prestá-las às santas imagens; que essas imagens ou essas cruzes sejam pintadas ou em mosaicos, que sejam desenhadas ou gravadas, produzidas de qualquer maneira que seja, se forem convenientes, pouco importa.

O concílio vai, portanto, até o ponto de pronunciar o anátema contra aqueles que rejeitassem o Evangelho, ou a cruz, ou as santas imagens: Eos ergo qui audent... secundum scelestos hereticos ecclesiasticas traditiones spernere et... projicere aliquid ex his quae sunt Ecclesiae deputata sive Evangelium, sive FIGURAM CRUCIS, sive imaginalem picturam..., si quidem episcopi aut clerici fuerint, deponi precipimus ; monachos autem vel laicos a communione segregari. Denzinger, n. 245. — γ.

O VIII concílio ecumênico, reunido em Constantinopla em 869, promulga novamente a mesma doutrina, declarando que é preciso honrar da mesma maneira, tanto a imagem de Nosso Senhor, quanto o livro dos santos Evangelhos, e a imagem da cruz: icone honorentur et adorentur æque ut sanctorum sacer Evangeliorum liber atque TYPUS PRETIOSÆ CRUCIS. Denzinger, n. 275. Ver col. 1296-1299. — δ. Entre os erros que Bento XII reprova e condena nos armênios, encontra-se mencionado aquele de que eles não aceitam mais o uso dos crucifixos do que o das imagens dos santos: 74.

Quod apud Armenos majoris Armeniae non sit IMAGO CRUCIFIXI, nec aliae imagines tenentur sanctorum. Denzinger, n. 1824. Ver t. I, col. 699, 704. — ε. O concílio de Trento ordena, ele também, contrariamente às pretensões da Reforma, que é preciso conservar, sobretudo nas igrejas, as imagens de Cristo e, consequentemente, os crucifixos e a cruz. E convém, acrescenta ele, prestar-lhes legítimas honras e uma religiosa veneração. Imagines porro Christi... in templis presertim habendas et retinendas eisque debitum honorem et venerationem impertiendam. Denzinger, n. 861. — ζ.

Destes documentos, segue-se que é de fé que um culto religioso é devido à cruz, enquanto ela é para nós a imagem ou o símbolo de Jesus crucificado. Esta conclusão aplica-se tanto à verdadeira cruz quanto às suas diversas imagens. Dicendum est ergo, escreve Suarez, usum crucis per modum imaginis Christi crucifixi, quam catholica Ecclesia semper tenuit, honestum et religiosum esse. Haec veritas de fide est, definita in VI synodo, can. 73; VII synodo, act. VII; VIII synodo, can. 3. Suarez, De incarnatione, disp. LVI, sect. II, n. 2, Opera omnia, Paris, 1866, t. XVIII, p. 664.

8° Após essas definições, a jurisprudência, assim como a prática universal da Igreja, vieram trazer ao culto da cruz uma singular confirmação.

1. Em seu ritual, a Igreja introduziu fórmulas autênticas de bênçãos para as cruzes e os crucifixos. Cf. Rituale romanum, Benedictio novae crucis, Benedictio imaginum D. N. J. C. No concílio de Trento, ela decidiu que a exposição de cruzes, assim como de estátuas novas, nos lugares destinados ao culto, depende da autorização do ordinário. Sess. XXV, decret. De imaginibus. As cruzes, recém-plantadas, são inauguradas solenemente com as fórmulas rituais. Por outro lado, a Igreja regulou a confecção das cruzes a serem indulgenciadas para a boa morte, e fixou as condições sob as quais as indulgências podem ser anexadas a essas cruzes. Cf.

Beringer, Les indulgences, leur nature et leur usage, trad. Abt et Feyerstein, 2e édit., Paris, 1893, t. I, p. 337, 345, 348, 353; t. I, appendice 1, p. 26-28. 2. Por outro lado, o uso litúrgico da cruz tornou-se de uma frequência habitual nas igrejas e fora das igrejas. Mesmo outros usos não litúrgicos se introduziram com a aprovação, o encorajamento e as bênçãos da Igreja.

É assim, por exemplo, que a cruz serve como ornamento de altar e de tabernáculo, como relicário de uma partícula da verdadeira cruz, como ornamento do cibório dos enfermos. Nós a vemos novamente sobre os altares portáteis, sobre a pedra de altar colocada acima das relíquias, nas paredes da igreja, no coro, por cima do coro, sobre o altar, a credência, a cátedra, os sarcófagos, o sudário dos catafalcos, os catafalcos. Encontramo-la sempre na sacristia, sobre os ornamentos sacerdotais, o linho empregado na missa, os vasos sagrados, as bandeiras, as hastes de bandeiras. Ela serve como cruz de procissão, de estação, de cortejos, de capela.

Há a cruz arquiepiscopal, a cruz do cardeal legado, a cruz patriarcal com braços duplos, a cruz papal com braços triplos. Apercebe-se a cruz como ornamento do topo das cúpulas, das torres, das flechas, das igrejas, dos conventos, das instituições de caridade e de ensino, das portas de igrejas, de conventos ou de instituições. Encontra-se nos cemitérios, sobre os túmulos, as capelas funerárias, em lugares de missão ou de exercícios populares, junto a fontes visitadas como meta de peregrinação, nos caminhos, nas praças das cidades, sobre rochedos, cavernas, precipícios, quedas d’água, colinas, com ou sem capela.

Põem-se cruzes como ex-voto em memória de doenças epidêmicas, da peste ou do cólera; por ocasião de um livramento inesperado de um perigo mortal; nos locais onde certas pessoas morreram subitamente ou por acidente; sobre campos de batalha; no lugar de antigas igrejas, de antigos conventos ou de antigos cemitérios; nas estações da via-sacra. Coloca-se a cruz indulgenciada entre as mãos dos moribundos, sobre o peito ou as mãos cruzadas de um defunto em seu caixão. Vemos a cruz nas mãos e ao pescoço do missionário, a cruz peitoral dos bispos e dos abades, a cruz peitoral também dos cônegos titulares e honorários.

A cruz notava-se sobre o manto dos cruzados, e ela foi retida como forma fundamental do plano arquitetônico das igrejas; como ornamentação dos edifícios públicos, das casas particulares, como emblema nos navios, nas coroas, no globo imperial, sobre os utensílios domésticos, as armas, os instrumentos, os livros e os hábitos, sobre as moedas e os escudos; como joias para homens e para senhoras.

Ela se emprega ainda como decoração para as ordens de cavalaria e para as ordens religiosas; como insígnia para o mérito civil e militar; como sorte nas provas pela cruz; como sinal representando a assinatura em documentos; como sinal heráldico, musical, etc. 9° A estas confirmações de ordem humana, embora diversamente sobrenaturais, poder-se-ia acrescentar, em favor do culto da cruz, autorizações ou encorajamentos de ordem totalmente divina.

Desde a aparição da cruz a Constantino, e os fatos maravilhosos que acompanharam ou seguiram a invenção da santa cruz, verdadeiros milagres se realizaram, seja pela intercessão das partículas da verdadeira cruz, seja pelo emprego das imagens da cruz, bentas ou não bentas. Belarmino menciona diversas aparições da cruz, nomeadamente aquela ocorrida no Monte das Oliveiras. Ela é atestada por uma carta de São Cirilo de Jerusalém ao imperador Constantino, datada de 7 de maio de 351. De signo lucide crucis Hierosolymis viso, quod in celis apparuit, P. G., t. XXXIII, col. 1165-1176. O editor juntou-lhe outros relatos antigos do fato. Ibid., col.

1175-1178. Belarmino relata ainda as aparições de cruzes ocorridas no tempo de Juliano, o Apóstata, e contadas por São Gregório de Nazianzo, Orat., IV, V, in Julianum; aquela ocorrida quando o imperador Arcádio empreendeu a guerra, por motivo de fé, contra os persas perseguidores dos cristãos. Cf. Prosper, De promissionibus divinis, part. III, c. XXXIV. Belarmino invoca então o milagre de Santo Hilarião detendo a invasão do mar por meio de três cruzes traçadas na areia, o que é também testemunhado por São Jerônimo. O Venerável Beda consignou outros fatos maravilhosos ocorridos na Inglaterra. Hist. Angl., l. III, c. III. Cf.

Belarmino, Septima controversia generalis, De Ecclesia triumphante, l. II, De reliquiis et imaginibus sanctorum, c. XXVIII, p. 263-265. Seria fácil alongar esta lista até aos nossos dias, e até mesmo acrescentar-lhe a menção dos crucifixos milagrosos. Mas não temos de insistir neste ponto. Basta tê-lo indicado e lembrar que estes fatos são, de fato, a aprovação inegável e a autorização dada por Deus mesmo ao culto da verdadeira cruz e de suas imagens. 10° À luz desta doutrina e com estas autoridades, pode-se apreciar sã e seguramente as objeções recolhidas e propagadas pelos protestantes. 1.

Honrar a cruz, dizem eles, é uma verdadeira impiedade, análoga àquela que cometeria um filho ao venerar o cadafalso onde foi pendurado seu pai, ou a espada que o transpassou. — A objeção confunde, de propósito, situações em todos os pontos diferentes. É bem evidente que, se o pai do infeliz filho fosse culpado, não poderia haver para seu filho nenhuma razão plausível de honrar o cadafalso ou a espada de justiça: eles são e permanecem monumentos de vergonha em relação ao pai culpado.

Mas se o homem tombou nobremente por sua religião ou sua pátria, concebe-se que a forca ou a espada são, na realidade, monumentos que atestam a coragem heroica da vítima, e, a esse título, merecem a honra e a veneração filial. Ora, se adoramos a verdadeira cruz e suas imagens, não é certamente pela ignomínia e pelos sofrimentos que ela trouxe ao divino Cordeiro; mas, ao contrário, como explicamos, veneramos a cruz porque ela foi o monumento do valor e da generosidade do Salvador, o instrumento de sua exaltação, de sua vitória, de seu triunfo e de sua glória, o instrumento também de nossa redenção e de nossa salvação. 2.

Concordar-se-á quanto à verdadeira cruz. Mas se é preciso também honrar, por causa dela, suas imagens, então convirá semelhantemente venerar todos os sepulcros, todos os pregos, todos os açoites, todas as colunas e todas as manjedouras, por causa do sepulcro de Jesus Cristo, dos pregos do crucificamento, do açoite e da coluna da flagelação, por causa da manjedoura de Belém. Se assim é, deveremos honrar a cruz do acaso formada por duas nuvens que se cruzam, ou por palhas ou por gravetos: e tudo isso torna-se ridículo.

— Não pretendemos que uma relação ou uma semelhança qualquer, puramente material, baste para autorizar o culto de tudo o que se apresenta em forma de cruz. Mas pedimos uma relação, uma semelhança formal, intencional, com a cruz de Cristo. Não é o caso das nuvens ou das palhas fortuitamente cruzadas. Semelhantemente, se objetos são, pelo fato, consagrados a usos vulgares, a outros usos que não a representação do Deus crucificado, flagelado, sepultado, eles são, por esse fato, inaptos a sustentar uma relação ou uma semelhança com Jesus Cristo.

Todavia, se uma manjedoura, por exemplo, é erguida para recordar a de Cristo, ela merece, sem dúvida alguma, honra e veneração, e a cruz também.

IV. NATUREZA DO CULTO RELIGIOSO DEVIDO À VERDADEIRA CRUZ E ÀS SUAS REPRESENTAÇÕES. — A esse respeito, devemos considerar a verdadeira cruz, enquanto ela é uma relíquia insigne, consagrada pelo contato do corpo santíssimo de Jesus Cristo, e pelo sangue divino do qual ela foi inundada. Devemos também considerar a verdadeira cruz e suas representações, quaisquer que sejam, enquanto elas são para nós tantas imagens de Jesus crucificado. Que essas cruzes sejam nuas, que elas portem a imagem do corpo do Salvador, pouco importa. A cruz simples e nua é tida pelos cristãos como um crucifixo.

Pois, em razão da relação íntima e toda óbvia que o sacrifício do Calvário criou entre a cruz e Nosso Senhor, esta, mesmo nua, permanece uma real imagem do divino Salvador ligado ao instrumento de seu suplício e de sua vitória. 1° Observemos, antes de tudo, que o culto em questão é todo relativo; ele não se detém na cruz em si mesma, mas passa, reporta-se, refere-se inteiramente ao Deus crucificado. 1. Evidentemente, que a cruz seja uma relíquia ou uma imagem, não é a madeira, nem a pedra, nem o metal que honramos, nem a reunião das cores, nem o objeto pintado, gravado ou esculpido.

O homem não tem que fazer ato de submissão, nem prestar homenagem a seres inanimados, considerados como tais e em si mesmos. Isso seria como uma profanação da dignidade humana. Se, portanto, prestamos um culto à cruz, é porque a consideramos expressamente como uma relíquia ou como uma imagem. São Tomás diz muito bem a propósito das imagens de Nosso Senhor: Imagini Christi in quantum est res quaedam (puta lignum sculptum vel pictum), nulla reverentia exhibetur, quia reverentia nonnisi rationali naturae debetur. Relinquitur ergo quod exhibeatur ei reverentia solum in quantum est imago. Sum. theol., IIIa, q. XXV, a. 3.

Ora, uma relíquia, uma imagem, como tais, são algo essencialmente relativo. Elas só são tais porque há um termo, um protótipo, um original, do qual é a relíquia, do qual é a imagem. É assim que a cruz é essencialmente, aos nossos olhos, a relíquia ou a imagem do Salvador crucificado. Nessas condições, o culto da cruz não pode senão ser formalmente relativo. Ao venerá-la, é principalmente aquele de quem ela é a relíquia ou a imagem que nossa homenagem quer atingir.

Se nossos atos exteriores de culto ou de adoração se dirigem imediatamente à relíquia da verdadeira cruz ou às representações da cruz, contudo nossa homenagem íntima e os atos interiores de nossa submissão dirigem-se inteiramente ao Deus crucificado para nossa salvação. 2. É a doutrina promulgada em Niceia, no VII concílio ecumênico. Ele prescreve, sem dúvida, que se preste homenagem à vivificante e preciosa cruz, como, aliás, ao Evangelho e aos outros monumentos e objetos sagrados.

Mas ele explica que a honra prestada à imagem passa ao protótipo; e aquele que adora a imagem, adora a pessoa daquele que nela se encontra retratado: Imaginis enim honor ad primitivum transit, et qui adorat imaginem, adorat in ea depicti subsistentiam. Denzinger, n. 244. Assim, quando veneramos a cruz, é a Jesus crucificado que sobe nossa homenagem. O VIII concílio ecumênico sustentou a mesma linguagem.

Ele fala do culto prestado à cruz nos mesmos termos que do culto prestado aos Evangelhos e às imagens; e, uma vez que tudo isso se relaciona ao termo principal, ele declara que essas imagens merecem honra e veneração, embora de modo derivado: Quia ad principalia ipsa referuntur, etiam derivative icone honorentur et adorentur eque ut sanctorum sacer Evangeliorum liber ATQUE TYPUS PRETIOSÆ CRUCIS. Denzinger, n. 273. Diante das calúnias protestantes, o Concílio de Trento manteve, da mesma forma, a doutrina tradicional das honras devidas a todas as imagens de Cristo e, por conseguinte, à cruz.

Mas defende expressamente de nela acreditar em qualquer divindade ou virtude pela qual se deva reverenciá-las; proíbe pedir-lhes qualquer graça e colocar nelas a sua confiança, como faziam outrora os pagãos a respeito de seus ídolos; exige que toda a honra se reporte ao original que a imagem, e no presente caso a cruz, representa: Non quod credatur inesse aliqua in iis divinitas vel virtus, propter quam sint colendae, vel quod ab eis sit aliquid petendum, vel quod fiducia in imaginibus sit figenda, veluti olim fiebat a gentibus quae in idolis spem suam collocabant; sed quoniam honor, qui eis exhibetur, refertur ad prototypa quae illae repraesentant; ita ut per imagines quas osculamur et coram quibus caput aperimus et procumbimus, Christum adoremus.

Denzinger, n. 861. Na verdade, muito longe de acreditar que alguma divindade ou alguma potência oculta habita na cruz, não lhe atribuímos outra virtude que a de excitar em nós a lembrança do Salvador imolado; de sorte que, se beijamos a cruz ou dobramos o joelho diante dela, é o Cristo que queremos adorar e que adoramos.

3. Bossuet explicou magistralmente este ponto da doutrina católica: «Pode-se conhecer, escreve ele, em que espírito a Igreja honra as imagens, pela honra que ela presta à cruz e ao livro do Evangelho. Todo o mundo vê bem que, diante da cruz, ela adora aquele que levou os nossos crimes sobre o madeiro, I Pet., II, 24; e que se seus filhos inclinam a cabeça diante do livro do Evangelho, se eles se levantam, por honra, quando se o carrega diante deles, e se eles o beijam com respeito, toda essa honra termina na verdade eterna que nos é proposta nele.

É preciso ser pouco equânime para chamar de idolatria esse movimento religioso que nos faz descobrir e baixar a cabeça diante da imagem da cruz, em memória daquele que foi crucificado pelo amor de nós; e seria ser demasiado cego não perceber a extrema diferença que há entre aqueles que se confiavam aos ídolos, pela opinião que tinham de que alguma divindade ou alguma virtude neles estava por assim dizer ligada, e aqueles que declaram como nós que não querem servir-se das imagens senão para elevar seu espírito ao céu, a fim de ali honrar Jesus Cristo.» Exposition de la doctrine catholique sur les matières de controverse, V, em Œuvres complètes, édit.

Lachat, t. XII, p. 60-61.

4. Esta doutrina da relatividade do culto prestado à cruz foi o pensamento bem como a prática constante da Igreja. Nós daremos, col. 2362, a propósito da adoração da cruz, testemunhos formais emprestados dos primeiros séculos.

2° O culto relativo prestado à cruz é da mesma ordem que o culto absoluto prestado ao próprio Cristo? — Sobre esta questão bastante sutil, parece que há dissensão entre os teólogos. Estará ela nas coisas? Não estará ela antes nas palavras? Vê-lo-emos.

1. São Tomás dá uma solução toda simples e geral. As imagens de Cristo e, por conseguinte, a cruz, não merecem honra senão precisamente porque são imagens. Segue-se daí que o mesmo culto é prestado à imagem de Cristo e à sua pessoa: Relinquitur ergo quod exhibeatur ei (imagini Christi) solum in quantum est imago, et sic sequitur quod eadem reverentia exhibetur imagini Christi et ipsi Christo. Sum. theol., IIIa, q. XXV, a. 3.

Depois, fazendo aplicação à cruz, o Anjo da Escola conclui muito nitidamente: Respondeo dicendum quod, sicut supra dictum est, honor seu reverentia non debetur nisi rationali naturae; creatura autem insensibili non debetur honor vel reverentia, nisi ratione rationalis naturae. Et hoc dupliciter; uno modo, in quantum representat rationalem naturam; alio modo, in quantum et quocumque modo conjungitur. Primo modo consueverunt homines venerari regis imaginem; secundo modo, ejus vestimentum. Utrumque autem venerantur homines eadem veneratione qua venerantur et regem.

Si ergo loquamur de ipsa cruce, in qua Christus crucifixus est, utroque modo est a nobis veneranda; uno scilicet modo, in quantum representat nobis figuram Christi extensi in ea; alio modo, ex contactu ad membra Christi, et ex hoc quod ejus sanguine est perfusa. Unde utroque modo adoratur eadem adoratione cum Christo, scilicet adoratione latriae. Et propter hoc etiam crucem alloquimur et deprecamur quasi ipsum crucifixum. Si vero loquamur de effigie crucis Christi in quacumque alia materia (puta lapidis vel ligni, argenti vel auri), sic veneramur crucem tantum ut imaginem Christi, quam veneramur adoratione latriae, ut supra dictum est, a. 4.

9. Belarmino parece partir de um princípio totalmente oposto: o culto prestado às imagens não é o mesmo que aquele concedido aos originais; ele é de ordem inferior. Mas, por analogia, pode-se, conforme os casos, chamá-lo de um culto de adoração, de hiperdulia ou de dulia secundum quid.

Em consequência, o culto prestado à cruz não é exatamente o mesmo que aquele prestado a Nosso Senhor crucificado. É, sem dúvida alguma, um culto relativo, não é um culto de adoração ou de latria propriamente dito. Não se pode dar-lhe estes nomes senão por analogia e muito impropriamente. Imaginibus Christi non debetur latria vere et simpliciter, sed cultus sine comparatione inferior, qui tamen reducitur ad latriam ut imperfectum ad perfectum. De Ecclesia triumphante, l. II, c. xxv, p. 248.

Mais adiante, Belarmino aplica a sua teoria à verdadeira cruz: Ex his habemus etiam quid sit dicendum de vera cruce Domini, de clavis, spinis, aliisque reliquiis. Sunt enim haec omnia honoranda minori cultu quam Christus... sed tamen tali qui analogice et reductive pertineat ad speciem cultus quo Christus colitur. Ibid. A teoria de Belarmino, retomada em parte por Franzelin e por Jungmann, encontrará a sua exposição completa e a sua crítica detalhada a propósito do culto das imagens.

3. No que diz respeito ao culto da cruz, notemos que a divergência poderia muito bem ser simplesmente nas palavras e na maneira de se expressar, mais do que na doutrina em si mesma. Jungmann confessa-o: Quaestio haec potius verba et modum loquendi spectat quam ipsam rem. De Verbo incarnato, n. 397, Ratisbonne, 1897, p. 348. Mesmo quando Belarmino declara, por exemplo, que existe uma distância incomensurável entre o culto de Cristo e aquele da sua cruz, cultus sine comparatione inferior, talvez não tenha querido marcar outra coisa senão a diferença entre o culto absoluto da pessoa divina e o culto relativo da cruz.

Sob este ponto de vista, os dois cultos são irredutíveis, e a dissensão da qual falamos se esvai. De resto, notemos que não se trata, nesta controvérsia, se controvérsia existe, dos atos do culto exterior, sobre os quais todo o mundo está de acordo, mesmo na expressão. Mas trata-se, de fato, dos atos do culto interior. A questão é saber se um mesmo ato de culto interior atinge ao mesmo tempo a cruz e o Salvador crucificado, ou se, na análise do ato de adoração da cruz, é preciso distinguir um ato de adoração relativa imperfeita, secundum quid, que se dirige à cruz, e um outro ato de adoração perfeita, absoluta, que atinge o divino Salvador.

Ora, diferentes casos de psicologia cultual podem se apresentar: a) Ou bem a cruz é simplesmente o sinal que desperta em nós o pensamento do crucificado: por ocasião da cruz e em sua presença, rendemos as nossas homenagens ao Salvador crucificado. Neste caso, não há nenhum culto, nem mesmo relativo, prestado à cruz em si mesma, mas um culto absoluto do Salvador imolado. — b) Ou bem a cruz é, para o nosso espírito, a imagem sensível que lhe representa atualmente o divino crucificado.

Então, substituindo, em nossas homenagens exteriores, a imagem pelo seu original, inclinamo-nos diante dela e lhe testemunhamos os nossos sentimentos de veneração. Neste caso, pode acontecer que o espírito considere diretamente o crucificado, em união, por assim dizer, com a cruz, sobre a qual e na qual ele nos é representado. É o que faz a Igreja, na função da Sexta-Feira Santa, quando, adorando a cruz, ela exclama: O crux, ave, spes unica, Hoc passionis tempore, Auge piis justitiam Reisque dona veniam.

Todo o mundo concorda, até Franzelin; nestas condições, um só e mesmo ato de adoração atinge diretamente o divino crucificado, e a cruz, em relação a ele e por causa dele. Mas pode também acontecer que o espírito se detenha diretamente na cruz, por motivos diversamente sagrados, e que não se dirija senão indiretamente ao divino crucificado. É o caso mais ordinário, diz Jungmann. Então, pretende ele, um ato de culto inferior dirige-se imediatamente à cruz, um outro ato de culto superior e perfeito atinge indiretamente o Salvador. Que o caso assim descrito seja mais frequente do que o precedente na piedade cristã, pode ser permitido duvidar.

Que então existam dois atos e dois cultos diferentes, alguns também duvidam. Talvez se possa sustentar que se, no primeiro caso, o nosso pensamento e a nossa intenção descem do crucificado para a cruz, aqui o pensamento e a intenção sobem da cruz para o crucificado. Mas, em um caso como no outro, quando a luz do pensamento e a direção da intenção fizeram a sua obra, um mesmo ato de culto inclina e submete a vontade diante da supremacia soberana de Cristo representado por e na sua cruz. Este culto único é absoluto, enquanto atinge o Senhor, relativo, enquanto toca a cruz.

4. Seja como for, sob o ponto de vista doutrinal, importa sobretudo reter que, na adoração da cruz, trata-se de um culto essencialmente relativo no que diz respeito à cruz em si mesma, mas verdadeiramente absoluto no que concerne a Cristo representado ou vislumbrado sobre a cruz. 3º O culto prestado à cruz é e pode ser chamado um culto de latria relativo, respectivo? — São Tomás, como vimos, e na sua esteira os escolásticos, afirmam-no expressamente: utroque modo adoratur (crux vera) eadem adoratione cum Christo, scilicet adoratione latriae. Sum. theol., IIIa, q. xxv, a. 4. São Tomás e os escolásticos conheciam o cânone do concílio de Niceia? Pode ser que não. O fato é que o concílio de Niceia declara claramente que se pode beijar a cruz, que se pode prestar-lhe uma adoração de honra, honorariam adorationem.

Mas ele diz também que não se pode render à cruz um verdadeiro culto de latria, que pertence à única natureza divina: non tamen ad veram latriam, quae secundum fidem est, quaeque solam divinam naturam decet. Denzinger, n. 244. O concílio estabelece, portanto, uma distinção entre a προσκύνησις ou a adoração que é permitida com relação à cruz e a λατρεία que não deve ser rendida senão a Deus somente. Ver ADORATION, t. 1, col. 435. À questão colocada, torna-se assim fácil responder: basta simplesmente fixar o sentido preciso atribuído à palavra latria.

— a) Se se admite que a palavra λατρεία designa exclusivamente o culto absoluto e supremo rendido ao soberano mestre de todas as coisas, é claro que o culto da cruz não poderia ser chamado um culto de latria. Tal é o sentido aceito pelo concílio de Niceia: Veram latriam... quae solam divinam naturam decet. — b) Se se admite que a palavra λατρεία pode designar tanto o culto absoluto rendido a Deus, quanto o culto relativo concedido às suas imagens por causa dele e para ele, poder-se-á concluir que o culto da cruz é um culto respectivo de latria. É o pensamento evidente de santo Tomás, que não contradiz nisso a doutrina do concílio de Niceia.

— c) Se, como convém, se leva em conta o uso e a tradição que se mantiveram até aqui e que são a grande lei da linguagem teológica, haverá lugar para se abster das expressões, latria respectiva, latria relativa. Pois, de fato, a palavra latria não é comumente empregada, salvo por alguns teólogos, para significar outro culto que não a homenagem suprema e absoluta que rendemos à divindade. — d) Assim, escreve Bossuet: «Santo Tomás atribui à cruz o culto de latria, que é o culto supremo, mas ele se explica dizendo que é uma latria respectiva, que desde aí, em si mesma, já não é suprema, e só o torna porque se refere a Jesus Cristo.

O fundamento deste santo doutor é que o movimento que leva à imagem é o mesmo que aquele que leva ao original, e que se une um ao outro. Quem pode censurar este sentido? Ninguém, sem dúvida. Se a expressão desagrada, basta deixá-la de lado, como fez o Padre Petau. Pois a Igreja não adotou esta expressão de santo Tomás. Mas seria bem fraco e bem vão se alguém se espantasse com coisas que têm um sentido tão razoável. Em verdade, isso dá pena, e quando se pensa que estas chicanas são levadas até romper a unidade, isso causa horror.» Lettre sur l’adoration de la croix, em Œuvres complètes, édit. Lachat, Paris, 1875, t. xvi, p. 282.

4º O culto rendido à cruz é e pode ser chamado um culto de adoração? — 1. Do ponto de vista doutrinal, é preciso, antes de responder, bem fixar o sentido atribuído à palavra adoração. — a) É a justíssima observação preliminar que Bossuet opõe à objeção protestante: «É uma chicana muito baixa, diz ele, disputar sobre palavras: em particular, a de adorar tem uma extensão tão grande que é ridículo condená-la, sem antes ter determinado todos os seus sentidos. Adora-se o rei, I Reg., xxv, 9; adora-se o escabelo dos pés do Senhor, Ps.

xcvii, 5, isto é, a arca; adora-se o pó que os pés dos santos pisaram, e os vestígios de seus passos, Is., xlix, 23; lx, 14; prostramo-nos diante deles; lambemo-los, por assim dizer; e Jacó adorou o topo do cajado de comando de José, como são Paulo interpreta. Heb., xi, 21. Eis para as expressões da Escritura. Seguindo-as, os Padres disseram que se adora a manjedoura, o sepulcro, a cruz do Salvador, os cravos que o transpassaram, as relíquias dos mártires e as gotas de seu sangue, suas imagens e as outras coisas inanimadas.

Antes de condenar estas expressões, é preciso distribuir o termo de adoração a cada coisa segundo o sentido que lhe convém; e é o que faz a Igreja ao distinguir a adoração soberana da inferior, e a relativa da absoluta, com uma precisão que os próprios adversários... são obrigados a reconhecer.» Lettre sur l’adoration de la croix, ibid., p. 281. — b) Se, portanto, se entende por adoração o culto absoluto e supremo rendido a Deus somente, é evidente que as homenagens ou respeitos com que cercamos a cruz não são de forma alguma homenagens de adoração.

«Segundo esta distinção, escreve ainda Bossuet, deve-se dizer que Deus somente é adorável, porque o é com uma excelência que não pode convir senão a ele. Diz-se no mesmo sentido que ele é o único digno de louvor, único amável, único imortal, único sábio, porque ainda que suas criaturas participem de alguma maneira de todas estas coisas, não é senão nele, não é senão por ele, não é senão em relação a ele. É preciso, portanto, explicar-se antes de condenar e não chicanar sobre as palavras.» Ibid., p. 282.

— c) Se se confere à palavra um significado um pouco mais geral, tal que signifique sem dúvida o culto especial rendido em última análise a Deus somente, mas também bem o culto absoluto que se dirige a Deus diretamente quanto o culto relativo que vai sempre a ele, mas indiretamente, então será verdade dizer que o culto da cruz é um culto de adoração. Assim poder-se-á adorar tudo o que é formalmente uma representação de Deus.

— d) Se a significação da palavra se estende ainda ao ponto de designar todas as marcas de respeito, embora de respeitos diferentes, prestadas seja a Deus ou a seu Cristo, seja à Virgem e aos santos, seja às santas relíquias e às santas imagens, então ainda e a fortiori poder-se-á dizer que os católicos adoram a cruz. 2. Do ponto de vista histórico, é preciso constatar que uma linguagem diferente foi mantida nas diversas épocas e nos diversos países, seguindo o sentido particular atribuído à palavra adoração.

— a) Nos primeiros séculos, os cristãos tomaram frequentemente a palavra no seu sentido mais restrito, aplicando-a ao culto especial devido a Deus apenas. É por isso que, acusados de estaurolatria, os fiéis negarão energicamente e protestarão que eles não adoram senão a Deus. Cf. Minutius Félix, Octavius, c. ix, xxviii, e resposta, c. xxix, P. L., t. iii, col. 260 sq. ; Tertullien, Apologet., xvi, P. L., t. i, col. 368 sq. ; Ad nationes, I, I, n. 12, P. L., t. i, col. 577-578. — b) A partir do século V, e principalmente no Oriente, a significação da palavra adoração estendeu-se pouco a pouco, enquanto o sentido da λατρεία permanecia fixo.

Dizia-se então adorar as imagens dos santos como se dizia adorar a cruz. Ver ADORATION, t. 1, col. 240. É assim que o concílio de Niceia declara que é preciso prestar uma adoração de honra à cruz e a todas as santas imagens. Denzinger, n. 273. É claro que a palavra adorar não tem aqui senão a significação genérica das nossas palavras francesas: honrar, venerar. Nesse sentido, o termo adoração foi empregado e retido por muito tempo pela maioria dos teólogos. — c) No Ocidente, contudo, a significação do termo não se modificou nem tão rapidamente nem tão geralmente.

Por seu lado, o concílio de Trento, embora mantendo a doutrina fundamental aceita na Igreja do Ocidente como na Igreja do Oriente, não retomou a palavra adoração para qualificar o culto das imagens. Ele fala da honra, da veneração que lhes é devida. Hoje, na linguagem teológica comum, a adoração designa o culto absoluto de Deus, e o culto relativo de tudo o que é sua representação direta, como a cruz, de tudo o que é honrado por ele e por causa dele.

Tal era, sobre este assunto, a mentalidade de santo Ambrósio quando escrevia: Invenit ergo titulum (Helena), regem adoravit, non lignum utique : quia hic gentilis est error et vanitas impiorum ; sed adoravit illum qui pependit in ligno, scriptus in titulo, illum, inquam, qui sicut scarabeus clamavit ut persecutoribus suis peccata donaret. Orat. de obitu Theodosii, P. L., t. xvi, col. 1401 sq.

Contra o abuso feito deste texto e de outros semelhantes pelos protestantes, Bossuet eleva este protesto: «É o que faz a explicação da passagem de santo Ambrósio que vós alegais, e o perfeito desenredamento de todas as passagens que parecem contrárias nesta matéria. Este grande doutor, ao falar de santa Helena, mãe de Constantino, diz que, tendo encontrado a verdadeira cruz onde Jesus Cristo tinha sido pregado, ela adorou o rei, e não a madeira; ele tem razão: ninguém adora a madeira; sua figura é o que a torna digna de respeito, não por causa do que ela é, mas por causa do que ela recorda à memória.

O mesmo santo Ambrósio não deixou de dizer alhures que se adora nos reis a cruz de Jesus Cristo; adora-se, portanto, a cruz, e não se a adora, sob diversos aspectos. Adora-se, pois é diante dela que se faz um ato exterior de adoração quando nos prostramos. Não se a adora, pois a intenção e os movimentos interiores, que são o verdadeiro culto, vão mais longe e se terminam em Jesus Cristo mesmo.» Lettre, etc., p. 282. São Jerônimo diz-nos semelhantemente que santa Paula, «prostrada diante da cruz, a adorava, como se tivesse visto o Senhor suspenso» prostrataque ante crucem, quasi pendentem Dominum cerneret, adorabat. Epist., cviii, ad Eustochium, n. 9, P. L., t. xxii, col. 883. O diácono Rústico mantém a mesma linguagem: Et adoramus omnes crucem, ET PER IPSAM ILLUM CUJUS EST CRUX. Disputatio contra acephalos, P. L., t. lxvii, col. 1126. Assim, quando, no século IV, Juliano, o Apóstata, tinha renovado contra os cristãos a censura de estaurolatria, são Cirilo respondia que, ao morrer na cruz, Jesus Cristo resgatou, converteu, santificou o mundo. A cruz nos faz lembrar disso, acrescentava ele. Nós a honramos, portanto, porque ela nos adverte que devemos viver para aquele que morreu por nós.

Τούτων ἁπάντων οἶδε καὶ ἐρευνήσει τὸ σωτήριον ἀποφέρε- ρειν ἐννοεῖν τε πρὸς τούτοις ἐννοεῖν ὅτι, καθάπερ ἔφη ὁ θεοσέπτεστος Παῦλος, εἷς ὑπὲρ πάντων ἀπέθανεν, ἵνα οἱ ζῶντες μηκέτι ἑαυτοῖς ζῶσιν, ἀλλὰ τῷ ὑπὲρ αὐτῶν ἀποθανόντι καὶ ἀναστάντι. Cont. Julianum, l. VI, P. G., t. lxxvi, col. 797. d) A essa luz, pode-se julgar a futilidade de uma última objeção dos protestantes. Que a cruz seja venerável em razão do que ela representa, das lembranças que ela desperta, dos pensamentos que ela inspira, seja.

Mas dirigir-lhe a palavra; supor-lhe sentimento, ação, virtude, potência; lembrar que ela ouviu as últimas palavras de Jesus Cristo moribundo, que ela realiza prodígios, que ela põe em fuga os demônios, que ela é a fonte da salvação e nossa única esperança, eis o que é bem a linguagem da mais grosseira idolatria. — Não, em verdade, mas é a linguagem que jorra espontaneamente da alma cristã.

Quem poderia proibi-la de usar figuras e metáforas para expressar os seus sentimentos mais vivos, os mais delicados e os mais profundos, aqueles que faz germinar nela a lembrança do redentor imolado para a sua salvação? De resto, o próprio Jesus Cristo empregou a metáfora sobre este assunto, quando deseja que o cristão carregue a sua cruz. São Paulo recorre à mesma figura, ao pedir que não se torne vã e vazia a cruz de Jesus Cristo, ao chamar a sua pregação de palavra da cruz, ao gloriar-se apenas na cruz de Jesus. Aliás, toda a liturgia da Igreja é feita destas metáforas e, depois do que dissemos, ninguém se enganará a este respeito.

Não há, na nossa linguagem católica, nem superstição, nem idolatria. Mas há simplesmente o fato de que, diante da cruz e ao contemplá-la, adoramos Jesus crucificado e o interpelamos. Há o fato de que, diante da cruz e ao contemplá-la, recordamos os méritos do crucificado e esperamos dele, e não da cruz, graça e misericórdia. Nada mais correto em doutrina e mais digno em matéria de religião.

Para informações gerais, ver: 1° ADORATION, t. I, des antiquités chrétiennes, v° Croix, Paris, 1877, p. 212-225; de la théologie catholique, v° Croix, Paris, 1869, t. v, p. 450-t. II, 206-262; v° Adoration, Besançon, 1841, t. I, p. 42-43; 2° as obras dos teólogos, que tratam habitualmente a questão nos seus tratados De Verbo incarnato, ou De incarnatione, ou mesmo De virtute religionis; consultar particularmente: S. Thomas, Sum. theol., IIIa, q. xxv, a. 3-6; Bellarmin, Septima controversia generalis, De Ecclesia triumphante, l. II, c. xxv-xxx, p. 248-274; Suarez, De incarnatione, disp. LVI, Paris, 1866, t. xvii, p.

659-663; Theologia Wirceburgensis, De incarnatione Verbi divini, diss. V, sect. II, a. 3, Paris, 1879, t. iv, p. 343-346; Franzelin, De Verbo incarnato, thes. XLV; Petau, De incarnatione, l. XV, c. VII-XI; C. Pesch, Praelectiones dogmaticae, t. iv, Appendix de cultu sanctorum, prop. LV, schol. 3, Fribourg-en-Brisgau, 1896, t. iv, p. 329-331; Bossuet, Exposition de la doctrine catholique sur les matières de controverse, V, édit. Lachat, t. xi, p. 59-62; 3° os tratados especiais: Juste Lipse, De cruce libri tres, Anvers, 1595; J. Gretser, De sancta cruce, dans Opera omnia, Ratisbonne, 1784, t.

I-II; Bossuet, Lettre sur l’adoration de la croix, dans Œuvres complètes, édit. Lachat, Paris, 1875, t. xvii, p. 275-284.

Autor original: H. QUILLIET

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