CONSUBSTANCIAL. Trata-se aqui unicamente de fornecer e precisar a noção exata deste termo teológico. Quanto à história das controvérsias que provocaram a sua adoção na linguagem oficial da Igreja e fixaram o seu significado dogmático, ela já teve e terá ainda noutro lugar o seu lugar natural e lógico, nos artigos especiais que tratam da história do dogma da consubstancialidade. Não temos, portanto, de nos ocupar diretamente dela, e a ela recorreremos apenas na medida em que estas considerações históricas e críticas forem necessárias para entender o termo que nos ocupa e compreender a coisa que ele exprime: a consubstancialidade ou a homousia. — I. Etimologia. II. Noção natural e filosófica. III. Noção sobrenatural e revelada, ou aplicação teológica ao Filho de Deus. IV. Aplicação teológica ao Espírito Santo. V. Aplicação teológica, comum às três pessoas da santa Trindade.
I. ETIMOLOGIA. — A etimologia da palavra tem aqui a sua grande importância, pois sugere desde já o seu sentido real. — 1º Consubstancial (cum, substantia) tem um significado óbvio, o de uma substância possuída por dois ou mais termos, de sorte que a consubstancialidade acarreta imediatamente a ideia de comunhão de uma substância entre dois ou mais sujeitos ou pessoas.
Comunhão ou comunidade de substância, é, portanto, dizer comunhão ou comunidade deste elemento real, permanente e subjacente, que constitui um ser em si e não em outrem, e, portanto, sustenta na sua intimidade própria as determinações diversas que ele pode receber, tal como as modificações que pode sofrer ao longo da sua existência. Ver SUBSTÂNCIA. — 2º Consubstancial encontra quase um sinónimo em coessencial, que exprime a comunhão ou comunidade de essência. Mas, como os filósofos distinguem várias essências, segue-se que a palavra poderá assumir significados diversos segundo os diferentes conceitos aos quais se encontrará aplicada.
Ver ESSÊNCIA. — 3º A palavra grega correspondente tanto a coessencial quanto a consubstancial é ὁμοούσιος, composto de ὁμός, o mesmo para todos ou para vários, comum a vários, e de οὐσία, essência, substância. Suicer, Thesaurus ecclesiasticus, vo Ὁμοούσιος, Amsterdão, 1728, t. II, col. 480-481, relata várias definições emprestadas aos antigos. Cita primeiro esta, extraída de uma obra duvidosa de São Gregório Taumaturgo, onde o autor, aplicando já, no seu pensamento, o termo à divindade, observa que ὁμοούσιον significa comunidade de natureza e de eternidade, sem diferença: Ὁμοούσιον γάρ λέγεται τὸ ταὐτὸν τῇ φύσει καὶ τῇ ἰδιότητι ἀπαραλλάκτως.
S. Gregório Taumaturgo, De fide, 11, P. G., t. X, col. 1428. Suicer invoca em seguida vários tratados falsamente atribuídos a Santo Atanásio. Os textos, por apócrifos que sejam, não deixam de ser interessantes para o nosso ponto de vista etimológico. O autor do livro Das Definições consagra um artigo ao consubstancial, περὶ ὁμοουσίου. Ele declara, ele também, que consubstancial designa comunidade ou participação de uma mesma substância e potência: Καὶ γὰρ ὧδε λέγεται ὁμοούσιον, ὅτι τὴν αὐτὴν οὐσίαν καὶ δύναμιν κέκτηται. P. G., t. XXVIII, col. 546.
É quase inútil observar que a comunidade de essência ou de natureza acarreta a da duração, da potência e da operação. Uma explicação análoga é fornecida pelo escritor do primeiro Diálogo sobre a santa Trindade, n. 41. Diz-se consubstancial o ser que recebe o mesmo caráter (λόγον) de substância. Assim, o homem, enquanto homem, não difere em nada de outro homem; e o anjo, como tal, não difere em nada de outro anjo: Ὁμοούσιόν ἐστιν, ὃ τὸν αὐτὸν ἐπιδέχεται λόγον τῆς οὐσίας. Οἷον ἄνθρωπος ἀνθρώπου οὐδὲν διαφέρει ᾗ ἄνθρωπός ἐστιν. Ἄγγελος ἀγγέλου οὐδὲν διαφέρει, ᾗ ἄγγελος ἐστιν. P. G., t. XXVIII, col. 1153.
Semelhantemente, o autor do segundo Diálogo contra um macedoniano observa que consubstancial significa da mesma substância: Τὸ γὰρ ὁμοούσιόν ἐστι τὸ ταὐτοούσιον. P. G., t. XXVIII, col. 1336.
II. NOÇÃO NATURAL E FILOSÓFICA. — As substâncias completas que podemos observar, na ordem natural, são todas sui juris. Elas pertencem a si mesmas, gozam de autonomia cada uma no seu domínio íntimo, e encontram-se, sob este aspecto, independentes, distintas umas das outras, excluindo-se mutuamente cada uma da sua propriedade. Neste mundo da natureza, a unidade ou singularidade de essência concreta acarreta a unidade ou singularidade do termo ou sujeito possuidor. Desde então, a consubstancialidade propriamente dita, uma só e mesma substância, numerice eadem, em posse indivisa ou comunhão de vários termos, não se encontra aí.
Nada, na ordem natural, permite supor e conceber a comunidade de essência física, quero dizer, a comum participação deste elemento ontológico e fundamental que constitui um ser na sua atualidade própria, ao mesmo tempo que o distingue de todos os outros. É esta consubstancialidade estrita que os nossos antigos autores chamam comunidade de uma mesma essência ou substância sem diferença, ἀπαραλλάκτως. Assim lemos no livro Das Definições: Ὁμοούσιον ἐστι, τὸ τὴν αὐτῆς οὐσίας καὶ ἐνεργείας ἀπαραλλάκτως δηλοῦν. P. G., t. XXVIII, col. 545.
Pode-se, contudo, falar de consubstancialidade na ordem natural, sob a condição de não entender a posse comum de uma única e mesma essência concreta, de uma mesma substância individual, mas a participação de uma mesma essência ou substância específica: quero dizer aquelas perfeições fundamentais e nitidamente determinadas, que nos parecem constituir o caráter próprio de toda uma categoria de seres, quando o espírito, por abstração, despojou estes de todas as suas notas individuais.
Sob este ponto de vista preciso, deve-se dizer dos indivíduos de uma mesma espécie que são todos consubstanciais, no sentido de que todos possuem uma única e mesma essência, uma mesma substância ou natureza específica, specifice eadem. O autor do livro Des définitions expõe claramente este lado da questão. «Dizem-se também consubstanciais, observa ele, seres que são, na verdade, da mesma substância, mas que oferecem, todavia, alguma diferença. Por exemplo, há pedra friável e pedra dura: são, contudo, consubstanciais, isto é, de uma única e mesma substância.
Há ainda madeira de palmeira e madeira de ébano, e semelhantemente carne de camelo e carne de peixe. Dizem-se consubstanciais porque são de uma mesma substância de madeira ou de carne. Do mesmo modo, todos os homens são de uma única e mesma substância; contudo, há bem alguma diferença em seu ser: um é grande, o outro pequeno; este é poderoso, aquele fraco; não obstante, são realmente de uma única e mesma substância, quero dizer que são todos compostos de alma e de corpo. Ὁμοούσιον δέ ἐστι, τὸ ὂν ἐν τῇ αὐτῇ οὐσίᾳ, εἴδει δέ τινι διαφοράν, οἷον πέτρα σαθρά, ἢ οὐ σὰ σκληρά· εἰσὶ δὲ ὁμοούσιοι, τοῦτ’ ἔστι μία οὐσίας.
Ἔστι δὲ καὶ ξύλον φοίνικος, καὶ ξύλον ἐβένου, ὁμοίως καὶ σὰρξ καμήλου, καὶ σὰρξ ἰχθύος. Ταῦτα δὲ λέγονται ὁμοούσια, ὅτι τῆς αὐτῆς οὐσίας ἐστίν. Ὥσπερ πάντες οἱ ἄνθρωποι τῆς αὐτῆς οὐσίας εἰσίν· ἔχουσι δὲ διαφοράν ᾗ εἶναι, ἕτερος μὲν μείζων, ἕτερος δὲ μικρότερος· ἄλλος δυνατός, καὶ ἄλλος ταπεινός. Ἀλλ’ ὅμως τῆς οὐσίας εἰσὶ, ψυχῆς λέγω καὶ σώματος. P. G., t. XXVIII, col. 545. Tal é a única consubstancialidade que se pode observar na ordem natural: há comunidade de uma mesma substância, mas, contudo, dizem justamente os antigos, com algumas diferenças. Na linguagem filosófica, estas diferenças são os elementos ou notas individuais.
III. NOÇÃO SOBRENATURAL E REVELADA. — É a revelação que conduziu os filósofos a distinguir realmente a essência ou substância, do sujeito ou da pessoa que a possui. É também a revelação, e ela somente, que os levou ao conceito preciso da consubstancialidade.
Ao fazer-nos conhecer a existência e, em certa medida, as condições do mistério da santíssima Trindade, a revelação nos ensinou, ao mesmo tempo, que ele é, e que, por conseguinte, pode haver uma essência, uma substância, uma natureza, infinita, infinitamente uma e única, cuja unidade não acarreta a dos termos ou pessoas que a possuem, cada um, em sua plenitude. Foi a manifestação sobrenatural de um fato inobservado e inobservável pela razão: a existência de uma essência, de uma substância nitidamente caracterizada pela unidade de sua perfeição infinita, e, todavia, na posse de vários termos ou pessoas reais.
Foi, portanto, também a manifestação sobrenatural da consubstancialidade propriamente dita: uma única e mesma essência, substância ou natureza, numerice eadem, na comunhão ou comunidade de sujeitos ou pessoas. Os Padres tinham evidentemente em vista esta consubstancialidade estrita, quando falavam da participação de uma única e mesma natureza, sem mudança nem diferença: ‘Ομοουσίου ἐστὶ, τὸ τῆς αὐτῆς οὐσίας καὶ ἐνεργείας ἀπαραλλάκτως ὑπάρχον. Lib. de definitionibus, vi, P. G., t. xxviii, col. 545.
O termo consubstancial, ὁμοούσιος, pertence doravante à linguagem oficial da Igreja e formula para sempre um dos pontos revelados do mistério da santíssima Trindade, tal como é proposto à fé dos católicos. É contra a heresia ariana que o concílio de Niceia, no ano 325, definiu, no que tange ao Filho de Deus, o dogma da consubstancialidade. Para apreender seu sentido verdadeiro e autêntico, é preciso, pois, lembrar primeiro os erros arianos sobre este ponto preciso, e depois estudar o texto mesmo da definição nicena.
2° Os arianos, em suas fórmulas oscilantes, sucessivas e diversas, terminavam sempre por sustentar expressamente que o Filho não é da mesma substância e natureza que Deus o Pai, mas que é de uma natureza totalmente outra e totalmente diferente. Como todas as coisas, dizia Ário, são, em sua essência, estranhas e dissemelhantes de Deus, assim o Verbo é em tudo diferente também e dissemelhante da essência e da propriedade de Deus o Pai. Καὶ πάντων ξένων καὶ ἀλλοτρίων ὄντων τοῦ θεοῦ κατ’ οὐσίαν, οὕτω καὶ ὁ Λόγος ἀλλότριός ἐστι καὶ ἀνόμοιος κατὰ πάντα τῆς τοῦ Πατρὸς οὐσίας καὶ ἰδιότητος. S. Athanase, Orat., I, cont. arianos, n. 6, P. G., t.
xxvi, col. 24. Consequentemente, ele não é verdadeiramente Filho de Deus, e se às vezes o qualificam com este nome sublime, é por adoção. Ele não é verdadeira e propriamente um Filho gerado por Deus o Pai.
Esse Senhor, dizia ainda o heresiarca, estrangeiro sem dúvida e diferente da substância do Pai, não é chamado de Verbo senão segundo a nossa maneira de pensar: e ele não é, segundo a natureza e na verdade, Filho de Deus, mas é por adoção que é chamado Filho: Οὗτος δὲ ὁ Κύριος ξένος μὲν καὶ ἀλλότριός ἐστι τῆς τοῦ Πατρὸς οὐσίας· κατ’ ἐπίνοιαν δὲ μόνον λέγεται Λόγος, καὶ οὐκ ἔστι μὲν κατὰ φύσιν καὶ ἀληθινῶς τοῦ θεοῦ Υἱός, κατὰ θέσιν δὲ λέγεται καὶ οὗτος Υἱός. S. Athanase, De sententia Dionysii, n. 23, P. G., t. xxv, col. 505.
Inclusive, ele não é verdadeiramente Deus, e se o chamamos assim, é por uma graça de participação, por denominação somente e em um sentido totalmente relativo, como para todos os outros homens. Οὐδὲ θεὸς ἀληθινός ἐστιν ὁ Λόγος. Εἰ δέ ποτε λέγεται θεός, ἀλλ’ οὐκ ἀληθινός ἐστιν· ἀλλὰ μετοχῇ χάριτος, ὥσπερ καὶ οἱ λοιποὶ πάντες, οὕτω καὶ αὐτὸς λέγεται ὀνόματι μόνον θεός. S. Athanase, Orat., I, cont. arianos, n. 6, P. G., t. xxvi, col. 21-24.
Ele é, portanto, um ser criado como os outros, ἓν κτίσμα, ibid., ainda que superior, ocupando como tal, em razão de sua função e de sua exaltação toda especial pelo Pai, um lugar à parte e transcendente no topo da escala dos seres. Pois Deus, tendo previsto que ele perseveraria livremente no bem e não cairia no pecado, escolheu-o e julgou-o digno de portar um nome divino, embora nos fosse inteiramente igual por natureza. Ele não se distingue, efetivamente, de nós senão pelo fato de ter sido criado antes de todas as criaturas e de ter realizado a criação como instrumento de Deus.
Nessas condições, não poderia mais ser questão, sob qualquer aspecto, de igualdade e de consubstancialidade entre o Filho e o Pai. Santo Atanásio relata ainda este blasfêmio de Ário: "Ιδιον οὐδὲν ἔχει τοῦ θεοῦ καθ’ ὑπόστασιν (substance) ἰδιότητος· οὐδὲ γάρ ἐστι (ὁ) ὤν, οὐδ’ οὐδέ ὁμοούσιος αὐτῷ. De synodis, n. 15, P. G., t. xxvi, col. 705, 708. Voir t. I, col. 1786.
3° Para confundir este erro ariano, o concílio de Niceia redigiu e promulgou o símbolo que conserva sempre seu nome. 4. Os Padres proclamam antes de tudo, o que aliás não era posto em dúvida pelos arianos, que Deus é um, único. Depois declaram que esse mesmo Deus é Pai, não simplesmente em um sentido analógico e metafórico, porque envolve de uma paternal bondade suas criaturas, obras de suas mãos; mas ele o é realmente, no sentido próprio, porque tem um Filho, um Filho único, gerado pelo seu Pai, nascido de seu Pai.
Pois, então, sendo ele um só Deus, sendo este Deus realmente Pai e sendo ele realmente Filho, é porque um e outro estão em relação mútua de paternidade e de filiação: é porque há geração real ativa de um lado, e passiva do outro. E se há geração real, há, portanto, real comunicação da natureza divina de um termo ao outro. Como não há senão um Deus, um e único, essa comunicação não se faz nem por divisão da natureza divina, nem por qualquer outro modo de produção de uma natureza nova, embora semelhante.
Essa conclusão encontra-se já em oposição direta à tese ariana de que o Filho procede, sem dúvida, de Deus, de Deus o Pai, mas como todas as outras κτίσματα, por via de livre criação. Τῶν δὲ γενητῶν καὶ κτισμάτων ἓν καὶ αὐτὸ τυγχάνει. S. Athanase, Orat., I, cont. arianos, n. 6, P. G., t. xxvi, col. 24. Resta, pois, que a essência mesma ou a natureza divina do Pai seja identicamente comunicada ao Filho nesta misteriosa geração.
Assim, a consubstancialidade das duas primeiras pessoas divinas encontrava-se já implicitamente definida nas fórmulas seguintes da profissão de fé nicena: Πιστεύομεν εἰς ἕνα θεὸν, πατέρα παντοκράτορα, ...καὶ εἰς ἕνα κύριον Ἰησοῦν Χριστὸν τὸν υἱὸν τοῦ θεοῦ, γεννηθέντα ἐκ τοῦ πατρὸς μονογενῆ... Denzinger, Enchiridion, n. 17.
2. O concílio prossegue e precisa explicitamente sua doutrina. Ao testemunho de santo Atanásio, havia-se primeiramente pensado nesta adição explicativa de que o Filho não é do nada ou do que não existe, mas que ele é de Deus: semelhantemente, que o Verbo é a Sabedoria, não uma coisa criada ou produzida, mas o próprio Filho gerado do Pai. Τοῦτο δὲ ὅτε ἐστὶν ἐξ οὐκ ὄντων, ἀλλ’ ἐκ τοῦ θεοῦ, καὶ Λόγος ἐστὶ καὶ σοφία, ἀλλ’ οὐ κτίσμα οὐδὲ ποίημα, ἀλλ’ ἐκ τοῦ Πατρὸς γέννημα. S. Athanase, De decretis Nicene synodi, n. 19, P. G., t. xxv, col. 456.
Mas, enquanto os Padres queriam, por essas expressões: ἐκ τοῦ θεοῦ, ἐκ τοῦ Πατρὸς, significar um princípio verdadeiramente gerador, comunicando verdadeiramente sua natureza a um Filho, os arianos, aceitando as mesmas expressões, pretenderam atribuir-lhes a significação de causa eficiente. Então, o Filho seria de Deus e do Pai, como todas as criaturas que o têm por princípio e por causa eficiente e criadora. Para cortar caminho desses subterfúgios dos hereges obstinados, o concílio decidiu, antes, a explicação de que o Filho é da substância mesma do Pai: o Filho gerado do Pai, isto é, da substância do Pai: τοῦτ’ ἔστιν ἐκ τῆς οὐσίας τοῦ Πατρὸς.
Denzinger, n. 17. Nos primeiros séculos, a fé era muito clara em um só Deus, o Pai, o Filho, o Espírito Santo; mas as palavras para expressar essa unidade de natureza e essa trindade de pessoas não foram imediata e universalmente fixadas.
É assim que, às vezes, a palavra οὐσία designou, entre alguns, a essência, a natureza, a substância, isto é, o que é absoluto em Deus.
Por vezes, em outros, o mesmo termo foi empregado para significar o que é relativo em Deus, as pessoas. Cf. Ch. Passaglia, Commentarius quartus de nomine et οὐσίας, Roma, 1850, passim.
Mas, à época do concílio de Niceia, e na controvérsia com os arianos, o sentido da palavra οὐσία encontrou-se claramente determinado, de ambas as partes, para uma única e mesma significação: a de essência real, isto é, desse elemento ontológico e infinitamente simples que, segundo nossa maneira de conceber, constitui propriamente o ser divino, e nos aparece ao mesmo tempo como a fonte de sua infinita perfeição; a de natureza, isto é, dessa mesma essência, considerada sob o aspecto da potência ou da atividade própria ao ser divino; a de substância, isto é, dessa mesma essência, encarada como subsistindo em si da maneira mais absoluta, e como suportando todos os atos divinos.
É claro, desde então, que a adição conciliar, precisando o caráter da geração do Filho pelo Pai, é uma primeira, explícita e formal definição de sua mútua consubstancialidade. A explicação nicena marca expressamente: o Filho é da substância do Pai, a substância do Filho é a substância mesma do Pai.
O santo concílio, diz santo Atanásio, quis precisamente expressar mais abertamente que o Filho é da substância do Pai a fim de que o Verbo fosse tido como totalmente diferente da natureza das coisas criadas, ele que só é verdadeiramente de Deus: Διὰ τοῦτο γοῦν καὶ ἡ ἁγία σύνοδος λευκότερον εἴρηκεν ἐκ τῆς οὐσίας αὐτοῦ εἶναι τὸν Πατρός, ἵνα καὶ οὕτως παρὰ τὴν τῶν γενητῶν οὐσίαν τὸν Λόγον εἶναι πιστεύῃ, μόνος ὢν ἀληθῶς ἐκ τοῦ θεοῦ. S. Atanásio, De decretis Nicænæ synodi, n. 19, P. G., t. xxv, col. 449. (As colunas 449-456 são duas vezes repetidas neste volume da Patrologia, sem contudo fazer duplicidade para o texto.)
3. Declarada assim a sua fé, os Padres dela tiram a conclusão: é que o Filho é Deus de Deus, como o brilho é da luz sem diminuição nem divisão, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado: Deum de Deo, lumen de lumine, Deum verum de Deo vero, genitum non factum. Nesta ocasião, santo Tomás observa justamente que, nessas fórmulas trinitárias, a preposição de exprime tudo ao mesmo tempo o princípio e a consubstancialidade: o princípio, que é Deus o Pai, de quem o Filho é gerado; a consubstancialidade, porque o Filho é gerado da substância mesma do Pai, mas não produzido por sua livre potência. In IV Sent., dist. iv, q. 1, a. 4.
4. O concílio tinha ainda a intenção de marcar, em seu símbolo, que o Verbo é a virtude verdadeira e a imagem do Pai; que ele é em tudo, e sem nenhuma diferença, semelhante ao Pai; que ele é imutável; que sempre e inseparavelmente ele está no Pai: pois não houve jamais um instante em que o Verbo não fosse, mas sempre e de toda a eternidade ele subsiste no Pai, como o brilho de sua luz...
Αὐτὴν γραφήναι δύναμιν ἀληθινήν, κατ’ εἰκόνα τοῦ Πατρὸς τὸν Λόγον, ὅμοιόν τε καὶ ἀπαράλλακτον αὐτὸν κατὰ πάντα τῷ Πατρί, καὶ ἀχώριστον, πάντ’ ἀεὶ, καὶ ἐν αὐτῷ εἶναι ἀδιαιρέτως· οὐδέποτε γὰρ οὐκ ἦν, ἀλλ’ ἦν ὁ Λόγος ἀεί, ὑπάρχων ἀϊδίως παρὰ τῷ Πατρί, ὡς ἀπαύγασμα φωτός. S. Atanásio, De decretis Nicænæ synodi, n. 20, P. G., t. xxv, col. 449. Era bem, sob essas fórmulas iterativas, afirmar sempre que a natureza mesma do Pai é a natureza do Filho.
Mas eis que os arianos se puseram a aceitar essas declarações, a entendê-las e a explicá-las no sentido analógico e muito impróprio que elas podem ter para as obras exteriores de Deus, em razão de sua relação com a causa divina. Surpreenderam-nos murmurando que tudo aquilo nos é comum, a nós criaturas, com o Filho: Κατεπλήγησαν δὲ πάλιν πρὸς ἑαυτοὺς ψιθυρίζοντες καὶ διανεύοντες τοῖς ὀφθαλμοῖς, ὅτι καὶ τὸ ὅμοιον, καὶ τὸ ἀεί, καὶ τὸ τῆς δυνάμεως ὄνομα, καὶ τὸ ἐν αὐτῷ, κοινά ἐστι πρὸς ἡμᾶς καὶ τὸν υἱόν. S. Atanásio, ibid.
É então que, para acabar de uma vez por todas com todas essas evasivas, todas essas fraudes sem cessar renascentes, o concílio resolveu adotar um texto, uma palavra, que não permitisse mais aos espíritos sutis e retorcidos as interpretações evasivas.
A distinção real do Pai e do Filho sendo admitida de um lado como do outro, embora diversamente entendida, o sínodo vislumbrou no termo consubstancial, ὁμοούσιος, a expressão mais adequada e mais formal da verdadeira fé, e decretou a sua adoção: Ἀλλ’ οἱ ἐπίσκοποι, καὶ ἐν τούτῳ θεωροῦντες τὴν ὑπόνοιαν ἐκείνων, ἠναγκάσθησαν καὶ αὐτοὶ λοιπὸν συναγαγεῖν ἐκ τῶν γραφῶν τὴν διάνοιαν, καὶ ἅπερ πρότερον ἔλεγον, ταῦτα πάλιν λευκότερον εἰπεῖν, καὶ γράψαι· ὁμοούσιον εἶναι τῷ Πατρί τὸν Υἱόν· ἵνα μὴ μόνον ὅμοιον τὸν Υἱόν, ἀλλὰ ταὐτὸν τῇ ὁμοιότητι ἐκ τοῦ Πατρὸς εἶναι σημαίνωσιν. S. Atanásio, ibid., P. G., t. xxv, col. 452.
5. De fato, a fórmula conciliar: o Filho consubstancial ao Pai, exprimia maravilhosamente, de uma só palavra, toda a doutrina da consubstancialidade anteriormente definida. O Filho é de Deus o Pai, gerado pelo Pai; o Pai é Deus e o Filho é Deus; o Pai e o Filho são um: tudo isso, entendido no sentido mais próprio e mais real, encontra-se contido no ὁμοούσιος. Hoc est illud ὁμοούσιος... quod fides antiqua pepererat, conclui santo Agostinho. Cont. Maximinum, l. II, c. xiv, n. 3, P. L., t. xlii, col. 772.
E, na verdade, o que há de mais feliz na adoção do termo é, sem dúvida, tudo o que ele sintetiza: divindade, unidade de geração, filiação. Mas, sobretudo, ao afirmar simultaneamente a unidade da essência, da natureza ou da substância divina e a real distinção das pessoas do Pai e do Filho, ele mostra claramente a razão dessa síntese na comunicação da essência do Pai, que é Deus, ao Filho, que o é igualmente. 6. O vocábulo, de resto, não era novo. Ele não se encontra nas sagradas Escrituras, mas o que ele significa encontra-se claramente enunciado em São João, x, 30: Ego et Pater unum sumus, e xvi, 15: Omnia quæcumque habet Pater mea sunt.
Os defensores da ortodoxia liam ainda o dogma da consubstancialidade, com Santo Atanásio, nos Salmos XLIV, 2: Eructavit cor meum Verbum bonum, e CIX, 3: Ex utero ante luciferum genui te, e ainda em São João, viii, 42, onde o Filho diz de si mesmo aos judeus: Si Deus Pater vester esset, diligeretis utique me. Ego enim ex Patre processi; vi, 46: Non quia Patrem vidit quisquam, nisi qui est a Deo, hic vidit Patrem; xiv, 10: Ego in Patre et Pater in me est; enfim i, 18: Unigenitus Filius qui est in sinu Patris, ipse enarravit. Cf. S. Athanase, De decretis Nicænæ synodi, n. 21.
Assim também os latinos tinham, eles, falado de unius substantiæ, unitas substantiæ, una substantia. Tertuliano, por exemplo, tinha escrito: Tres... UNIUS autem SUBSTANTIÆ... et unius potestatis, quia unus Deus. E mais adiante: Dum unicum Deum non alias putat credendum, quam si ipsum eumdemque et Patrem et Filium et Spiritum Sanctum dicat, quasi non sic quoque unus sit omnia, dum ex uno omnia, per SUBSTANTIÆ scilicet UNITATEM. Adversus Praxeam, c. ii, P. L., t. ii, col. 457.
Por sua vez, Lactâncio tinha dito: Cum igitur et Pater Filium faciat, et Filius Patrem, una utrique mens, unus spiritus, UNA SUBSTANTIA est : sed ille quasi exuberans fons est, hic tamquam defluens ex eo rivus : ille tamquam sol, hic quasi radius a sole porrectus. De divinis institutionibus. No Oriente, a própria palavra consubstancial encontrava-se em uso há muito tempo. Orígenes (185-253) serviu-se dela, e no nosso sentido preciso. Para ele, o Filho não é uma porção da substância do Pai; o Pai não destacou de si seu Filho ao gerá-lo, pois o Filho não é uma prolação, προβολή. In Joa., I, 23, P. G., t. xiv, col.
e essa geração mesma não é um ato que tenha um começo e um fim; é um ato eterno e contínuo, como o fulgor da luz que brilha sempre. Assim gerado da substância do Pai, o Filho é Deus, não por uma participação extrínseca, κατὰ μετουσίαν, mas por essência: κατ’ οὐσίαν αὐτοῦ θεός. Sendo da própria substância do Pai, ele lhe é consubstancial, ὁμοούσιος. Encontramos o termo no comentário sobre a Epístola aos Hebreus: Sic et Sapientia ex Deo procedens ex ipsa substantia Dei generatur. Sic nihilominus et secundum similitudinem corporalis aporrhoeae esse dicitur aporrhea gloriae omnipotentis pura et sincera.
Quae utraeque similitudines manifestissime ostendunt COMMUNIONEM SUBSTANTIAE ESSE Filio cum Patre. Aporrhea enim ὁμοούσιος videtur, id est unius substantiae cum illo corpore ex quo est aporrhea vel vapor. Ex libris Origenis in Epist. ad Heb., P. G., t. XIV, col. 1308. Este fragmento, muito interessante para a questão presente, nos foi relatado por São Pânfilo mártir, em sua Apologia de Orígenes, escrita por volta do ano 307-309. Admonitio ad apologeticum libellum S. Pamphili martyris pro Origene, P. G., t. XVII, col. 521-524.
No I livro, traduzido e transmitido por Rufino, São Pânfilo emprega ele mesmo várias vezes a palavra ὁμοούσιος, Apologia pro Origene, P. G., t. XVII, col. 580-581, de modo que acrescenta o seu próprio testemunho ao de seu célebre cliente africano. Não muito tempo após a morte de Orígenes, por volta de 259-261, Dionísio, patriarca de Alexandria, foi denunciado ao papa Dionísio, seu homônimo, como sustentando, sobre o Pai e o Filho e suas mútuas relações, diversos erros nitidamente precisados. Notadamente, acusavam-no de não dizer que Cristo é consubstancial a Deus μὴ λέγοντος τὸν Χριστὸν ὁμοούσιον εἶναι τῷ Θεῷ. S.
Athanase, De sententia Dionysii, n. 18, P. G., t. XXV, col. 505. Dionísio de Roma escreveu então ao patriarca para pedir-lhe que se justificasse. Em sua resposta, Dionísio de Alexandria declara que, na verdade, não empregou a palavra ὁμοούσιος falando do Filho; e isso, porque não a encontrou nas sagradas Escrituras, mas aceita plenamente o sentido dela. Εἰ γὰρ καὶ τῷ ῥήματι τούτῳ οὐχ εὑρῆκα, οὐδ’ ἀναγνωκέναι τοῦ τῶν ἁγίων Γραφῶν, ἀλλά γε τὰ ἐπιχειρήματά μου τὰ ἐξ αὐτῶν, οἷς συνεπιτίθημι, τῆς διανοίας ταύτης οὐκ ἀπᾴδει. S. Athanase, ibid.
Ele entende, portanto, com Dionísio de Roma, a relação do Filho ao Pai como uma geração; e com ele sabe distinguir a procissão divina da criação. Ora, em sua carta pública, reproduzida em parte por Santo Atanásio, o papa tinha condenado o erro intolerável daqueles que fazem do Filho uma criatura e que supõem um tempo em que ele não existia.
Em seguida, ele formulava a mais pura doutrina da consubstancialidade nesta bela conclusão: «Assim, pois, não se deve dividir em três divindades a admirável e divina mônada, nem diminuir pela palavra criação a dignidade e a eminente grandeza do Senhor; mas deve-se crer em Deus o Pai todo-poderoso, e em Jesus Cristo seu Filho, e no Espírito Santo, e na união do Verbo com o Deus do universo, pois o Pai e eu, diz ele, somos um só, e eu estou no Pai e o Pai está em mim. Assim serão salvaguardadas tanto a Trindade divina quanto a santa pregação da monarquia.» S. Atanásio, De decretis Nicenae synodi, n. 26, P. G., t. XXV, col. 465.
Encontramos ainda a palavra consubstancial no diálogo anônimo De recta in Deum fide, περὶ τῆς εἰς Θεὸν ὀρθῆς πίστεως, que o nome do principal interlocutor, Adamantius, fez cedo e falsamente atribuir a Orígenes. M. J. Tixeront coloca sua composição entre os anos 280-311. Ora, Adamantius, em sua profissão de fé, declara o Verbo eterno e consubstancial ao Pai: Πεπίστευκα καὶ τὸν ἐξ αὐτοῦ Θεὸν Λόγον ὁμοούσιον αὐτῷ ὄντα, W. H. Van de Sande Bakhuyzen, Der Dialog des Adamantius, Leipzig, 1901, I, 2; e acrescenta que o Verbo é Filho de Deus por natureza, κατὰ φύσιν, enquanto os homens o são apenas por adoção, κατὰ θέσιν. Ibid., III, 9.
Finalmente, Eusébio de Cesareia ele mesmo, cujo papel no concílio permanece bastante duvidoso, na carta endereçada aos seus diocesanos para justificar sua adesão ao decreto niceno, apoia-se no fato de que vários bispos e escritores, sábios e ilustres, dos antigos tempos, serviram-se da palavra consubstancial ao falar do Pai e do Filho... ἐπεὶ καὶ τῶν παλαιῶν τινας λογίους καὶ ἐπιφανεῖς ἐπισκόπους καὶ συγγραφεῖς ἐγνώκειμεν ἐπὶ τῆς τοῦ Πατρὸς καὶ Υἱοῦ θεολογίας τῷ τοῦ ὁμοουσίου κεχρημένους ὀνόματι. Epist., 1, ad Caesarienses, P. G., t. XX, col. 1541.
É verdade, os semi-arianos, reunidos em Ancira em 358, pretenderam que a palavra ὁμοούσιος tinha sido rejeitada pelos bispos do concílio de Antioquia que excomungou Paulo de Samósata. Os Padres teriam se recusado a adotar este termo, porque ele não convinha, segundo eles, para expressar as relações do Filho e do Pai. — Antes de tudo, parece bem que, se a palavra tivesse sido então condenada em si mesma e absolutamente, Eusébio de Cesareia não a teria aceitado tão facilmente e sem recriminação.
Somos, portanto, levados a crer ou que a condenação pretendida não ocorreu, como estimam alguns; ou que ela não incidia sobre o termo em si mesmo e absolutamente, mas sobre uma posição ou afirmação onde ele tomava um sentido falso, sabeliano, suprimindo a distinção das duas pessoas, ou mesmo materialista. Santo Atanásio, De synodis, n. 43, 45, P. G., t. XXVI, col. 767, São Basílio, Epist., LII, n. 1, P. G., t. XXXII, col. 393, e Santo Hilário, De synodis, n. 81, P. L., t. X, col. 534, relataram a acusação, sem parecer duvidar da materialidade do fato.
Todavia, eles mostram bem que os bispos do concílio de Antioquia não entenderam o ὁμοούσιος no mesmo sentido que os Padres de Niceia, mas em uma significação totalmente antitrinitária sustentada por Paulo de Samósata. De resto, Ário ele mesmo nos fornece, em sua carta a Santo Alexandre, um exemplo desses empregos errôneos do ὁμοούσιος. Ele lembra que os maniqueus diziam do Filho que ele é uma parte ou porção consubstancial, μέρος ὁμοούσιον. Além do mais, sabemos que, desde a origem das controvérsias arianas, a questão do ὁμοούσιος se colocou entre o herege e os defensores da ortodoxia, como menciona Filostórgio.
Com efeito, segundo Santo Ambrósio, De fide, II, 15, P. L., t. XVI, col. 614, Eusébio de Nicomédia teria, nas discussões, deixado nitidamente entender que, se se confessa o Filho de Deus incriado, é preciso também, por uma consequência inelutável, reconhecê-lo consubstancial ao Pai. A ideia fundamental desta argumentação reencontra-se certamente na carta do bispo de Nicomédia a Paulino de Tiro. Por outro lado, Ário ele mesmo empregou o termo em sua Tália: ἀλλ’ οὐδὲ ὁμοούσιος αὐτῷ. S. Atanásio, De synodis, n. 15, P. G., t. XXVI, col. 708. E Filostórgio fala de um entendimento prévio sobre a palavra.
Ela teria sido firmada antes do concílio, em Nicomédia, entre Ósio de Córdoba e Santo Alexandre. Supplem. Philostorg., I, 7, P. G., t. LXV, col. 463. Mas é impossível controlar a veracidade deste incidente que Filostórgio é o único a mencionar. Em todo caso, é fora de dúvida que, na época das controvérsias arianas e do concílio de Niceia, a palavra consubstancial teve sua significação exatamente determinada no sentido que os Padres deviam consagrar. 5.
Após ter promulgado em fórmulas positivas a doutrina católica da consubstancialidade, o concílio chega a condenar o erro diretamente oposto, e seu pensamento encontra-se tanto mais claramente manifestado.
Ele anatematiza, portanto, quem quer que sustente que o Filho é de uma substância ou de uma essência outra que aquela do Pai: ἐξ ἑτέρας ὑποστάσεως ἢ οὐσίας; e aqui, para notá-lo de passagem, temos a palavra ὑπόστασις com a significação de substância ou de essência, enquanto mais tarde ela será exclusivamente consagrada a expressar a personalidade.
Se, portanto, a substância do Filho não é outra senão a do Pai, é porque a substância do Pai se encontra nele identicamente a mesma, eadem numero, e não apenas a mesma especificamente, eadem specifice, como ocorre nas gerações humanas.
Consequentemente, o concílio persegue ainda com seus anátemas vários erros derivados daquele e que contêm a mais pura heresia ariana: a saber, que houve um tempo em que o Filho não existia; que ele não existia antes de nascer temporalmente; que foi produzido do nada; que foi criado; que é mutável e sujeito a mudanças: Τοὺς δὲ λέγοντας· ἦν ποτε ὅτε οὐκ ἦν, καὶ πρὶν γεννηθῆναι οὐκ ἦν, καὶ ἐξ οὐκ ὄντων ἐγένετο, ἢ ἐξ ἑτέρας ὑποστάσεως οὐσίας φάσκοντας εἶναι, ἢ κτιστὸν, ἢ ἀλλοιωτὸν, ἢ τρεπτὸν τὸν υἱὸν τοῦ θεοῦ, τούτους ἀναθεματίζει ἡ καθολικὴ καὶ ἀποστολικὴ ἐκκλησία. Denzinger, n. 417.
Após declarações tão formais e tão repetidas, não havia, portanto, mais lugar senão para a má-fé. Podia-se ainda e sempre insurgir-se contra as decisões autorizadas da Igreja; certamente, os arianos e semiarianos, antigos e modernos, não faltaram a isso, mesmo no império romano, mesmo entre os povos germânicos; e, desde a reforma, os protestantes não deixaram de ressuscitar e de retomar, por sua conta, as querelas suscitadas pelo ὁμοούσιος. Ver ARIANISME, t. I, col. 1799-1863.
Mas, ao menos, não se podia mais e não se pode mais negar ou revogar em dúvida o ensino doravante dogmático da Igreja católica sobre a consubstancialidade do Filho e do Pai.
IV. APLICAÇÃO TEOLÓGICA AO ESPÍRITO SANTO. — Feita a abstração da diversidade das relações pessoais em Deus, pode-se dizer que todos os motivos invocados pelos Padres de Niceia e pela tradição católica para afirmar a consubstancialidade do Filho com o Pai têm a mesma força para estabelecer a consubstancialidade do Espírito Santo com o Pai e o Filho. Não é preciso ser um grande clérigo para extrair esta conclusão teológica muito certa. Mas, por outro lado, a heresia ariana continha, em seus princípios, com a negação da divindade e da consubstancialidade do Filho, a negação semelhante da divindade e da consubstancialidade do Espírito Santo.
A conclusão herética foi expressamente tirada e proclamada por Macedônio de Constantinopla, o chefe comprovado dos pneumatómacos. Aplicando à terceira pessoa da santa Trindade as concepções arianas, ele ensinou altivamente que o Espírito Santo é inteiramente dissemelhante do Pai e do Filho e que, por conseguinte, é uma simples criatura, um espírito superior que serve de instrumento ao Verbo para a santificação das almas. Este erro, sob esta forma nova, foi condenado por diversos concílios e doutamente refutado por santo Atanásio, que, do local de seu exílio, escreveu várias cartas sobre a questão ao bispo de Thmuis, Serapião. Epist., I, ad Serapionem contra illos qui blasphemant et dicunt Spiritum Sanctum rem creatam esse, P. G., t. XXVI, col. 529-608; Epist., III, ad Serapionem de Spiritu Sancto, ibid., col. 623-637; Epist., IV, ad eumdem Serapionem item de Spiritu Sancto, ibid., col. 637-676. A heresia macedoniana será exposta em detalhes em um artigo particular, ver MACÉDONIENS. Não devemos relatar aqui senão a promulgação da consubstancialidade do Espírito Santo no sínodo de Roma, sob o papa são Dâmaso, em 380: Si quis non dixerit Spiritum Sanctum de Patre esse vere ac proprie, sicut Filius, de divina substantia et Deum verum, anathema sit, Denzinger, op.
cit., n. 38, e no concílio ecumênico de Constantinopla, em 381, onde o Espírito Santo é dito proceder do Pai nos termos empregados para o Filho: Καὶ εἰς τὸ Πνεῦμα... τὸ ἐκ τοῦ Πατρός. Denzinger, op. cit., n. 47. O Espírito Santo é, pois, como o Filho, em comunhão da natureza e da substância divina. Ela lhe é comunicada, não por via de geração como ao Filho pelo Pai, mas por via de processão do Pai e do Filho: qui ex Patre Filioque procedit, encontrando-se o Pai e o Filho, por sua natureza comum, um só e mesmo princípio ativo da processão do Espírito.
Convém, contudo, mencionar ainda aqui que não apenas a doutrina da consubstancialidade foi estendida ao Espírito Santo, mas o termo mesmo consubstancial, ὁμοούσιος, lhe foi aplicado como ao Filho. A título de exemplo, citaremos simplesmente a antiga Liturgia grega de são Tiago, o Menor. Ela ainda está em uso presentemente em Jerusalém, em Chipre e em algumas localidades para o dia da festa do Apóstolo. Monsenhor Duchesne observa que ela deve remontar muito mais alto que o século VII, onde encontramos sua menção mais antiga no cânone 32 do concílio in Trullo.
O fato de que os Jacobitas a conservaram em siríaco, como liturgia fundamental, prova que ela já estava consagrada por um longo uso no momento em que essas comunidades se formaram, isto é, por volta de meados do século VI. Mesmo são Jerônimo parece tê-la conhecido. L. Duchesne, Origines du culte chrétien, Paris, 1908, p. 67-68. Ora, esta liturgia repete até seis vezes, em suas orações, a palavra ὁμοούσιος. Citamos o texto de acordo com a versão da Maxima bibliotheca veterum Patrum, Lyon, 1677, t. II, p. 1-9.
A liturgia de são Tiago invoca bem o Verbo consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo: Domine Deus noster, Verbum Dei, incomprehensibilis et CONSUBSTANTIALIS Patri et Spiritui Sancto. Λόγος... τῷ Πατρὶ καὶ τῷ ἁγίῳ Πνεύματι ὁμοούσιος.
Mas iteradamente menciona o Espírito Santo, bom, vivificador e consubstancial. A conclusão do incipit é assim concebida: in Christo Jesu Domino nostro, cum quo benedictus es una cum omnibus modis sancto et bono et vivificatore atque CONSUBSTANTIALI TIBI, Spiritu, σὺν τῷ παναγίῳ καὶ ἀγαθῷ καὶ ζωοποιῷ καὶ ὁμοουσίῳ σου Πνεύματι. Mais adiante, o sacerdote faz esta oração: Abs te omnes quærimus in omnibus auxilium et subsidium, ab unigenito Filio tuo et a bono et vivificante et CONSUBSTANTIALI Spiritu. Καὶ τοῦ ἀγαθοῦ καὶ ζωοποιοῦ καὶ ὁμοουσίου Πνεύματος.
Outra vez, a terceira pessoa divina é ainda chamada de Espírito consubstancial e coeterno: τὸ ὁμοούσιον καὶ συναΐδιον Πνεῦμα. V. APLICAÇÃO TEOLÓGICA, COMUM ÀS TRÊS PESSOAS DA SANTÍSSIMA TRINDADE. — Do que precede, aparece que as três pessoas divinas, sendo um só e mesmo Deus, em posse indivisa de uma mesma substância e natureza divina, encontram-se consubstanciais entre si. Esta conclusão não permaneceu implícita, mas desde cedo foi expressamente proclamada. Tanto o Oriente quanto o Ocidente a ensinaram, seja declarando a Trindade santa ou as três pessoas consubstanciais, seja aplicando-lhes formalmente a doutrina da consubstancialidade.
1° Para o Oriente, retomemos somente a liturgia de São Tiago. Duas vezes, no curso do santo sacrifício, ela menciona a Trindade consubstancial: ὁμοούσιος Τριάς; primeiro, nesta fórmula de bênção: Et erit gratia et misericordia sancte et consubstantialis, increate et adorande Trinitatis cum omnibus nobis. E próximo ao fim, ouvimos esta oração: ...Ut semper et perpetuo glorificemus te solum viventem et verum Deum nostrum, sanctam et consubstantialem Trinitatem, Patrem et Filium et Spiritum Sanctum. 2° Para o Ocidente, recordaremos simplesmente o símbolo dito de Santo Atanásio.
Por não ser obra do grande doutor, não deixa de ser uma página de teologia profunda e um documento do século V, 430-500. Ver ATHANASE (Symbole de saint), t. I, col. 2182-2184.
O símbolo professa primeiramente a unidade da natureza divina e, simultaneamente, a Trindade das pessoas, sem separação nem divisão de substância: fides autem catholica haec est : ut unum Deum in Trinitate et Trinitatem in unitate veneremur, neque confundentes personas, neque substantiam separantes. O Pai, o Filho, o Espírito Santo são três pessoas realmente distintas: Alia est enim persona Patris, alia Filii, alia Spiritus Sancti. Mas do Pai, mas do Filho, mas do Espírito Santo, única é a divindade, igual a glória, coeterna a majestade: Sed Patris et Filii et Spiritus Sancti una est divinitas, aequalis gloria, coaeterna majestas.
Eis bem a consubstancialidade recíproca das três pessoas afirmada em estâncias cuja exatidão dogmática iguala a grandeza e a solenidade. Donde se segue que tal o Pai, tal o Filho, tal o Espírito Santo. Se o Pai é incriado, se ele é imenso, se ele é eterno, o Filho e o Espírito Santo o são igualmente, sem que haja três incriados, três imensos, três eternos, mas sim um só. Semelhantemente, se o Pai é todo-poderoso, se ele é Deus, o Filho e o Espírito Santo o são semelhantemente, sem que haja três todo-poderosos, sem que haja três Deuses, mas sim um só e mesmo Deus.
Se, portanto, há real distinção das pessoas, ela tem sua origem, não na substância que é comum, mas no caráter de cada pessoa e nas relações que as opõem uma à outra na posse indivisa, inseparável desta comum natureza. A substância do Pai é a do Filho e do Espírito Santo, mas, nele, ela não é nem feita, nem criada, nem gerada. Ela é e ela gera, e com o Filho ela é um mesmo princípio ativo de procissão para a terceira pessoa. Pater, o Pai, isto é, a essência divina pela qual e na qual ele é Deus e Pai, Pater a nullo est factus, nec creatus, nec genitus.
A substância do Filho é aquela mesma do Pai e do Espírito Santo; mas se, nele, ela não é nem feita, nem criada, ela é gerada, e ela é com o Pai um mesmo princípio ativo de procissão para a terceira pessoa. Filius, o Filho, isto é, a essência divina pela qual e na qual ele é Deus e Filho eternamente gerado, Filius a Patre solo est, non factus, nec creatus, sed genitus. A substância do Espírito Santo é aquela mesma do Pai e do Filho. Mas se, nele, ela não é nem feita, nem criada, nem gerada, ela procede do Pai e do Filho como de um mesmo princípio no qual e com o qual ele entra em comunhão da divindade.
Spiritus Sanctus, o Espírito Santo, isto é, a essência divina pela qual e na qual ele é Deus e eternamente procedendo do Pai e do Filho como de um princípio único, Spiritus Sanctus a Patre et Filio, non factus, nec creatus, nec genitus, sed procedens. E assim não há senão um só Pai, um só Filho, um só Espírito Santo.
Fora destes caracteres pessoais, tudo é comum como a essência divina mesma, e a primeira parte do sublime símbolo atanasiano se encerra em uma nova afirmação da consubstancialidade: Et in hac Trinitate nihil prius aut posterius, nihil majus aut minus sed TOTAE TRES PERSONAE COAETERNAE SIBI SUNT ET COAQUALES, ita ut peromnia, sicut jam supra dictum est, et unitas in Trinitate, et Trinitas in unitate veneranda sit.
Nas três pessoas, nenhuma diferença de duração ou de perfeição: todas as três são coeternas, são perfeitamente iguais na indivisível unidade de sua substância comum. Para o termo consubstancial e sua significação dogmática, ver: 1° os artigos: ARIANISME e sua abundante bibliografia; ESPRIT-SAINT; ESSENCE; HYPOSTASE; JÉSUS-CHRIST; MACÉDONIENS; PERSONNE; SUBSTANCE; TRINITÉ; 2° os Padres cujos nomes e obras são citados no curso do presente artigo, e principalmente Santo Atanásio, P. G., t. XXV-XXVIII; 3° Suicer, Thesaurus ecclesiasticus, V° ὁμοούσιος, Amsterdã, 1728, t. II, col.
480-488; 4° os historiadores dos concílios e dos dogmas: Hefele, Histoire des conciles, tradução Leclercq, Paris, 1907, t. I; Th. de Régnon, Etudes de théologie positive sur la sainte Trinité, Paris, 1898, t. I, p. 74-82, 200-217; t. II, p. 6-24, et passim; J. Turmel, Histoire de la théologie positive, Paris, 1904, p. 65-71, 207-210; J. Schwane, Histoire des dogmes, trad. Belet e Degert, Paris, 1903, t. I, II, passim, e sobretudo t. I, p. 196-199, 212-214; t. II, p. 484-474, 256-288; J. Tixeront, Histoire des dogmes, I. La théologie anténicéenne, Paris, 1906, p. 286, 409, 425, 432; 5° os teólogos, seja a respeito da unidade divina, nos tratados De Deo uno; seja a respeito da geração do Filho ou da procissão do Espírito Santo, nos tratados De Deo trino; seja a respeito da divindade do Verbo encarnado, nos tratados De Verbo incarnato, e principalmente Franzelin, De Deo trino, th. VIII-X, Roma, 1874, p. 118-167.
Autor original: H. Quilliet
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor